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Suplemento AVPA nº 3 - Cartuxa

Published by Paulo Mascarenhas, 2021-09-10 20:53:31

Description: Suplemento nº 3 do jornal a Voz de Paço de Arcos nº 36

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A CARTUXA - III EDIÇÃO DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL A VOZ DE PAÇO DE ARCOS PALÁCIO DOS MARQUESES DE POMBAL O SUPLEMENTO CULTURAL A CARTUXA É PARTE INTEGRANTE DO JORNAL A VOZ DE PAÇO DE ARCOS EDIÇÃO DEDICADA À CANDIDATURA - OEIRAS CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA 2027 Diretor: José Manuel Marreiro | Bimestral | N.º 3, AGOSTO de 2021 DISTRIBUIÇÃO GRATUÍTA

A CARTUXA - III Editorial Por José Marreiro ACartuxa, suplemen- A Voz de Paço de Arcos, O nosso agradecimento aos to de A Voz de Paço com esta iniciativa, vem dar autores, que responderam de Arcos, atinge o o seu contributo, e conti- afirmativamente à nossa seu 3.º nuará a fazê-lo, no sentido iniciativa, dando o seu con- número, numa série que se de acompanhar a execução tributo decisivo para que o completará com o 4.º número, prevista dos projetos agora nosso projeto alcançasse o que acompanhará a próxima, selecionados. nível pretendido. l e última de 2021, edição de A Voz de Paço de Arcos. Estes quatro suplementos pretenderam, e conseguiram, que moradores do Concelho, neste ano de Candidatura a Capital Europeia da Cultu- ra - 2027, publicar trabalhos sobre temas da nossa cultu- ra, abrindo, assim, um debate que se pretende continue nos anos vindouros, sobre os ca- minhos a trilhar para o futuro. A Candidatura pretende a participação dos mais diver- sos agentes para que se crie um clima de partilha e aproxi- mação dos Oeirenses. Colaboradores deste suplemento: Alexandra de Carvalho Antunes; Jaime Silva; João Maria de Freitas Branco ; Fernando Lopes e Vítor Henriques Capa: Palácio dos Marqueses do Pombal - Aguarela de Serrão de Faria 2

A CARTUXA - III A CARTUXA DE LAVEIRAS A História apaixonante de um antigo mosteiro contemplativo no seu passado, presente e futuro. (Continuação da edição anterior) Por Victor M T Henriques de nobre família, doutorado em D. Jorge de Ataíde, bispo de Viseu, Direito e Teologia em Coimbra, amigo padre e monge Cartuxo D. Contudo, desde o seu antigo Vigário-Geral da Arqui- LuisTelm, primeiro Prior da Cartuxa início encontramos diocese de Évora, o seu nome de Lisboa. nela algo que também e fama abriram-lhe todas a as lhe durará para portas em Lisboa. Pleitos foram As duas primeiras celas foram sempre: um elevado nível inte- ganhos, litígios foram resolvi- custeadas pelo primeiríssimo lectual. O sucessor de D. Luis dos, dívidas pagas, quando benfeitor da Ordem em Lisboa, Telm como Prior, foi D. Francis- não, perdoadas. A edificação aquando da chegada de D. Luis co Monroig, formado em Direito avançou. Tal como em Évora, Telm para tratamento médico: o Civil e Canónico, formado na foi preciso levantar a Cartuxa bispo D. Jorge de Ataíde, o pre- prestigiadíssima Universidade sobre caves abobadas., siste- lado protetor dos Cartuxos em de Salamanca. Depois veio D. ma na época mais barato do Lisboa. A terceira pelo primeiro Jerónimo Ardio, um dos sete que o nivelamento por vazado monge professo na Casa, D. fundadores de Évora. A seguir de entulho. E desta forma João Coelho, natural da cidade D. Juan Valero, “insignis Iuris nasceu toda a ala poente do do Porto. Outras três pela Dona Pontificii et Sacrae Theologiae claustro grande, na qual se ele- Beatriz de Mendonça e Barreto, Doctor”, outrora Cónego e Vi- variam oito celas suspensas. O Dama da Rainha D. Margarida, gário-Geral da Diocese de Se- bom e zelante Prior dedicou-se a esposa de D. Filipe II de Por- góvia, em Espanha. A crónica também á formação espiritual tugal. O Regedor da Justiça D. destes primeiros superiores da da incipiente Comunidade, até Cartuxa de Lisboa (dentro da que ao fim de oito anos de Prio- Ordem era assim conhecida, rado, a Comunidade de Scala não de “Laveiras”), reduz-se Coeli o chama, elegendo-o para à demanda para procurarem ser seu Prior. Apesar de Vallis financiamento para a obras de Misericordiae ter ficado orfã do construção do novo eremitério. seu empreendedor Prior, esta Mais de vinte litígios estavam continuou na sua esteira. pendentes quando o Capítulo Em Laveiras, as diferentes Geral da Ordem, nomeia para celas foram custeadas, uma Vallis Misericordiae o primeiro por uma por benfeitores particu- Prior português, D. Basílio de lares. Uma política de que hoje Faria. Era o ano da Graça do chamaríamos de mecenato. Senhor de 1613. D. Basílio, nascido em Lisboa 3

A CARTUXA - III Fachada da Cartuxa de Santa Maria Vallis Misericordiae. trução da edificação da igreja conventual, de ampla fachada Manoel de Vasconcellos e sua altura “longe da vista, longe do calcária de liós lavrado, em cujo esposa ofereceram mais outra. coração”, resultando assim, alto, um nicho serve de trono à A última cela, a oitava, foi ofere- que o dinheiro de Lisboa, ficas- Santíssima Virgem Misericor- cida por D. Francisco de Castro, se em Lisboa. diosa, “mater cartusiense” que bispo da Guarda. Apesar de tudo, não iam faltan- tem o Menino Jesus ao colo. É preciso reconhecer que não é do benfeitores à Cartuxa Vallis Danificada pelo terramoto de muito. Não era o que a Ordem Misericordiae. E seus nomes 1755, foi artisticamente res- poderia esperar da Capital, em são em parte conhecidos taurada pelo famoso arquiteto nada em comparação com a porque, quando construíam à austro-húngaro Carlos Mardel, generosidade que precisamen- sua custa uma cela, colocavam e hoje já sem monges, ainda te a mesma Ordem foi contem- nela uma lápide com o pedido está aberta ao culto dominical, plada na primeira Fundação de o monge residente rezar embora num estado crescente portuguesa em Évora. Como pelo doador. de deterioração que coloca em se explica esta diferença? É preciso contudo, reconhecer perigo os paroquianos de La- Uma das mais certas, é que que o principal benfeitor e pro- veiras, com quedas permanen- a concorrência com os abun- tetor da Cartuxa de Laveiras, tes de estuque do teto. dantes e populosos conventos acabou por ser o mesmo da Outro generoso benfeitor foi o já existentes na Capital é uma de Évora, ou seja, a Casa de Cardeal D. Luís de Sousa, Pa- das causas das dificuldades de Bragança. Já recuperada a in- triarca de Lisboa. A ele se deve Vallis Misericordiae para obter dependência, o Rei D. João IV, a arcaria do claustro grande, ajuda, a par de que outro fator, em 1652 ordenou que a renda tal como hoje ainda se encon- é o fato do “lugar”: Laveiras não prometida por Filipe I, mas tra, pois no final do século XVII é propriamente Lisboa, e como nunca cobrada, começasse a acrescentou-se uma segunda diz o adágio popular, também ser paga. D. João V, por volta de ala de celas, além da Biblioteca. para a sociedade lisboeta da 1736, contribuiu para a cons- Sobre estas questões rela- cionadas com as edificações, conta-se uma curiosa oportu- nidade que esta Cartuxa teve para crescer, mas que resultou frustada. Em 1696, o Núncio Apostólico em Lisboa, D. Gior- gio Cornaro faz uma visita a Vallis Misericordiae, e lamentou vê-la inacabada. E prometeu que ele próprio a terminaria… se chegasse a ser Papa. O Em- baixador de França, presente nesta visita, tomou nota desta 4

A CARTUXA - III observação, tendo-a registado passo-a-passo, ajudada por di- soldado, fora prisioneiro pelos nas suas Memórias, e prome- versos benfeitores e fiéis parti- franceses na famosa Batalha tendo que o lembraria da pro- culares, que iam construindo as de Almansa (Espanha) em 1707, depois disso viveu em Nicho com a imagem de Santa Maria Vallis Misericordiae, o telhado da Macau e no Rio de Janeiro. igreja, o logo atrás, o espaço do grande claustro total estado de aban- Chegou ao Rio de Janeiro em dono. 1725, tendo sua primeira carta sido recebida em Vallis Mise- messa feita. No Conclave que celas, uma a uma. A sua loca- ricordiae em 05 de janeiro de se seguiu à morte de Clemente lização fora de Lisboa também 1726. No Rio de Janeiro, saiu XI, D. Giorgio Cornaro, já então não ajudava, e quando o padre a pedir esmolas, acompanhado Cardeal, teve votos… mas não D. Luís de Brito, português, as- do filho do Visconde de Asseca, alcançou a maioria. Laveiras, sumiu o seu Priorado em 1716, e do Secretário do Governador. no concelho de Oeiras, perdeu pensou numa outra solução. Do Rio de Janeiro, passou para aqui a janela de oportunidade Em 1725 conseguiu licença Minas Gerais. A permissão histórica de ter o seu Escorial! régia para enviar ao Brasil um régia era de quatro anos, mas Um aspecto pouco conhecido dos monges da Comunidade acabou por ficar dez anos no da Históra da Cartuxa Vallis de Laveiras, à Capitania de Brasil, obtendo sempre pror- Misericordiae, e de todo inco- Minas Gerais. rogações. Nas suas cartas, mum nesta Ordem dedicada à O monge cartuxo escolhido referia que os “mineiros” eram contemplação no recolhimento para invulgar missão, foi o além de ricos, muito genero- do ermo, no silêncio e solidão Irmão Gregório dos Santos, de sos. As verbas que obtinha, é o facto que agora se refere: nome religioso na Cartuxa, Frei eram enviadas anualmente a recolha de esmolas no Brasil. Gregório de Sant’Ana, nascido na “Frota do Brasil”: assim em Como se sabe, a Cartuxa de em Montemor-O-Novo, e que 1727, a Cartuxa de Laveiras Lisboa - ao contrário da de foi escolhido, pois antes de ser recebia deste seu monge lá no Évora que teve no seu Arcebis- tornar monge cartuxo, já esti- Brasil, a quantia de 1.980.000 po, seu protetor e benfeitor - foi vera no Brasil, além de ser um reis. Em 1728, 538.000 reis; mais pobre que rica, crescendo homem experimentado: fora em 29, 752.000 reis; em 30, 1.273.220 reis; em 31 os re- gistos referem 427.000; em 32, 33.400 e em 34, 2.140.000 reis. Em 1725, regressava na Frota anual do Brasil, aquele que foi o primeiro monge Cartuxo em solo brasileiro, à sua Casa de Vallis Miserocordiae, após sua missão mendicante, com 35.200 reis, além de deixar lá 1.100.150, que lhe enviaram 5

A CARTUXA - III Em cima: Fachada da igreja de Cartuxa de Lisboa, sóbria e limpa de or- te, mas a fachada permanece namentos fúteis. basicamente a mesma. Igreja da Cartuxa de Vallis Miseriocordiae. Nota-se a ausência dos cadei- Frei Gregório de Sant’Ana, rais monásticos laterais de dois coros, nas paredes laterais, comum na o monge que assumiu o papel igrejas conventuais, e presentes em todas as Cartuxas. de frade mendicante no Brasil faleceu na sua Cartuxa do em 1727. Consigo trouxe ainda de Laveiras, que logo na Frota Vale da Misericóridia em 1776, pranchas de madeira preciosa, 1741, a Cartuxa recebia o onde ainda se encontra sepul- pau-de-angelim (para o Coro, valor de 1.797.520 reis, e no tado sob o piso de alcatrão do Cadeirais…) valorizadas em último ano, em 1742, o valor grande claustro. 6.000 reis. recorde de 4.707.000 reis. E Foi tal o sucesso, que em assim, se construiu a igreja Um outro episódio digno de voltou ao Brasil, Minas Gerais da Cartuxa de Laveiras. Em registo ocorreu em 1810. Em em 1740 a uma segunda 1755, o terramoto de Lisboa 1808, os franceses tinham missão de recolha de esmo- já a encontrou terminada. O invadido Espanha, mas em las para a igreja do mosteiro terramoto danificou-a bastan- 1810 chegaram a Sevilha. Os monges da Cartuxa de Nuestra Señora de Las Cuevas (local onde se realizou a EXPO’92), tiveram de fugir, trazendo con- sigo os seus famosos cavalos de raça “cartujanos”, usados tradicionalmente por reis de toda a Europa. Chegaram à Cartuxa Scala Coeli em Évora onde estiveram apenas três dias, mas como os franceses estavam demasiado perto, em Olivença, decidiram vir para Laveiras, onde estiveram exi- lados desde fevereiro a outu- bro. Daqui partiram para Faro num navio de guerra, onde de lá, puderam partir de regresso à Cartuxa sevilhana. Um outro caso curioso ocor- rido nesta Cartuxa Vallis Mise- ricordiae, e que faz jus ao seu nome, foi o caso do monge sacerdote espanhol Tomás de Allanos, professo da Car- 6

A CARTUXA - III tuxa de Jerez de la Frontera. não era só mesmo o título do Cartuxa Vallis Misericordiae, Em janeiro de 1823 apareceu mosteiro em Laveiras. observamos o sepultamen- inesperadamente à porta da to no cemitério localizado no Cartuxa de Laveiras em roupa Um adágio popular entre grande claustro (comum a civil. Tinha renunciado à Fé os monges cartuxos diz que todas as cartuxas no mundo), cristã dois anos e meio antes, “cartusienses non numerandi 67 nomes, cujos corpos repou- depois de vinte anos como sed ponderandi”: os cartuxos sam ainda naquele espaço, monge. Arrependido, pediu e pesam-se, não se contam. A agora alcatroado, sem dig- obteve a reconciliação e no Comunidade monástica da nidade alguma, esquecidos dia seguinte envergou de novo Cartuxa de Laveiras nunca foi no tempo, pela incúria dos o hábito branco de monge numerosa, mas compensava homens. Chamo a atenção Cartuxo. Em julho desse ano, em gravidade e qualidade. para a curiosíssima notícia a Cartuxa recebia o Padre que anexo extraída da publi- Visitador de uma Cartuxa es- Os Priores de Laveiras cação “Correio Braziliense” na panhola. O padre Tomás pediu foram quase todos portugue- edição de Mayo de 1814 do para ficar em Vallis Misericor- ses, muitos os mesmos que sepultamento, merecedor de didae, mas como as celas não em Scala Coeli, e houve pro- Honras de Estado, do monge eram suficientes para todos, o fessos tanto de uma como de professo de Vallis Misericor- Visitador ordenou-lhe que se outra.Houve dois estrangeiros, diae, e de que falarei mais à dirigisse à Cartuxa de Cazalla, não contando os espanhois: frente, D. Frei António de São também na Andaluzia, o que D. Jean Behagle, belga, que José de Castro, que chegou a fez, saindo de Laveiras a 11 esteve dois anos como Prior; ser Bispo do Porto e pasme- de Julho, e entrando em Ca- e D. Nicolas Baudry, francês, -se, Governador do Reino. Es- zalla no dia 20. O padre Visita- que governou a Casa 22 anos. peremos que a nossa Câmara dor perguntou à comunidade O motivo da diferença entre Municipal de Oeiras seja sen- de Laveiras se queriam pedir à ambos esses Priorados, pode sível à existência deste antigo Ordem a restituição da despe- deduzir-se pela forma como cemitério da Comunidade sa causada pelo padre Tomás terminaram: D. Baudry, ao ser Cartusiana do mosteiro, na re- nos seis meses de permanên- substituído pediu para ficar qualificação do espaço. cia nesta Casa. Os monges sempre no Vale da Misericór- portugueses de Laveiras res- dia, ao invés de regressar a Local de contemplação, ponderam ao Padre Visitador França. D. Behagle foi depos- oração, interioridade, silêncio que nem sequer falasse disso, to pelos Visitadores, porque e solidão, a Cartuxa viu passar pois o comportamento do depois de dois anos no cargo por si muitos monges escrito- padre Tomás, nesse período de Prior, ainda não falava por- res. Bons escritores. Homens de tempo tinha sido exemplar tuguês. Parece claro, portanto, de leitura, estudo, intimidade entre eles, e a alegria do seu que os portugueses não eram com Deus na escuta e medi- regresso à familia cristã com- de forma alguma xenófobos, tação da Sagrada Escritura. pensava qualquer despesa mas deixavam-se ganhar por Numa palavra: cristãos. l causada. Afinal… Misericórdia quem se identificava com eles e lhes demonstrava amor. (Continua na próxima edição) Olhando para o obituário da 7

A CARTUXA - III A Capela de Nossa Senhora do Cabo, em Algés de Cima, e o culto a Nossa Senhora do Cabo Espichel por Alexandra de Carvalho Antunes 1. Localização, classificação A capela é anterior ao grande terramoto de e nota histórica Lisboa de 1755. O então lugar de Algés – que A Capela de Nossa Senhora do Cabo está situa- atualmente se designa Algés de Cima ou Alta da na rua Francisco Duarte Pedroso, no núcleo de Algés – era a essa data um lugarejo com antigo de Algés de Cima, freguesia (União de poucas habitações e explícita vocação agríco- Freguesias) de Algés, Cruz Quebrada e Dafun- la, afastado da linha de costa. Pela sua localiza- do, concelho de Oeiras, distrito de Lisboa. ção e atendendo a que os ímpetos urbanizado- Desde 2004 a capela está classificada como res de todo este território ainda não se tinham Imóvel de valor concelhio, de acordo com o Edital feito sentir, é plausível que, conforme as fontes n.º 184/2004 (2ª série), publicado no Diário da populares, a partir da capela de Algés fosse República, N.º 67, II Série, 19 de março de 2004. possível avistar o Santuário de Nossa Senhora Em 1999 havia integrado o Plano de Salvaguar- do Cabo Espichel em Sesimbra (ou Santuário da do Património Construído e Ambiental do de Nossa Senhora da Pedra Mua, dedicado a Concelho de Oeiras. Nossa Senhora do Cabo). A iniciativa de construção de uma ermida de Fig. 1 – Capela de Nossa Senhora do Cabo e edifício evocação a Nossa Senhora do Cabo, em contíguo, em Algés de Cima, junho-2021. Algés, deve-se ao devoto local Luís Tomé. Tal ocorreu antes do ano de 1747, pois nesse ano Fig. 2 – Algés e a sua ermida, citação de 1747. já é referida pelo Padre Luís Cardoso: “Aljés, ou Algès. Aldea na Provincia da Estremadura, Patriarcado, e Termo da Cidade de Lisboa: tem vinte e nove vizinhos, e huma Ermida dedicada a Nossa Senhora do Cabo, Imagem milagrosa, e pertende à Freguesia de S. Romão de Carne- xide. He reguengo da Coroa, e cujos privilégios não há noticia” (Fig. 2). Em 1758, o vigário de Carnaxide Pe. Sebas- tião Rodrigues, no seu relato para as Memó- rias Paroquiais, igualmente regista a capela, a que acrescenta que Luís Tomé a edificou com o compromisso de se celebrar “missa quotidia- na pela sua alma”. Para suportar tal encargo, deverá ter sido instituído o necessário legado 8

A CARTUXA - III patrimonial, como então era hábito, de que concelho de Oeiras, confinando com a antiga era administrador Francisco Martins (Fig. 3). freguesia de Santa Maria de Belém, concelho O pároco de São Romão de Carnaxide refere de Lisboa. Algés como “hum dos [Lugares] mais antigos do seu Julgado”, com quarenta e seis fogos e O concelho de Oeiras foi criado a 13 de Julho cento e quarenta e seis pessoas de Sacramen- de 1759, por Carta Régia de D. José, rei que to (Fig. 4). havia elevado a povoação de Oeiras a vila a 7 de Junho desse mesmo ano. À data da sua Fig. 3 – Referência à Ermida de Nossa do Cabo de criação os limites administrativos do concelho Algés, em 1758. [ANTT, Memórias Paroquiais, Paróquia eram bem diferentes dos atuais, dele fazendo de Carnaxide] parte somente a antiga freguesia de Paço de Arcos e parte do território depois definido pelos Fig. 4 – Descrição do Lugar de Algés, em 1758, pelo limites das antigas freguesias de Oeiras, Porto prior da Paróquia de São Romão de Carnaxide. [ANTT, Salvo, Barcarena, Queijas e Cruz Quebrada/ Memórias Paroquiais, Paróquia de Carnaxide] Dafundo. O levantamento das igrejas pertencentes Uma das diversas alterações ocorridas nos à diocese de Lisboa confirma a existência da limites administrativos (que diferem dos ecle- capela, em 1760, em posse de “donatário par- siásticos) do concelho de Oeiras consistiu na ticular”. Durante o século XIX foi adquirida pela agregação a este da freguesia de Carnaxide. família Pedroso – a maior proprietária agrícola O território da freguesia de Carnaxide, que e de bens de raiz da região, que em Algés (de pertencia ao termo de Lisboa desde o ano de Cima) tinha a sede da sua casa de lavoura.Com 1385, fundiu-se depois de 1836 ao concelho de o falecimento da Sr.ª D. Joana Pedroso Simões Oeiras, passando a estar integrado no termo de (a herdeira/proprietária), em 1962, a capela foi Oeiras. Esta adição ao território do concelho de doada por testamento à Junta de Freguesia – a Oeiras resultou da aplicação da reforma admi- sua atual proprietária. nistrativa, ditada pelo decreto de 6 de novembro de 1836 assinado por Manuel da Silva Passos 2. O lugar de Algés e a Paróquia (conhecido por Passos Manuel), que fez reduzir de Carnaxide – séculos XVIII-XIX para 351 o número de 796 concelhos definidos Integrando a Área Metropolitana de Lisboa, o por Luís da Silva Mouzinho da Silveira. concelho de Oeiras tem atualmente como li- mites: a sul o rio Tejo, a poente o concelho de O efeito desta alteração (de 1836) não foi Cascais, a norte os concelhos de Sintra e Ama- imediato pois conforme o Mapa Topográfico dora e a nascente o concelho de Lisboa. Algés das Povoações que pela sua localidade devem constitui a localidade ribeirinha mais oriental do pertencer a um Correio Assistente da Vila de Oeiras, o lugar de Algés pertencia, ainda ao ano de 1838, ao Termo de Lisboa, freguesia de Carnaxide, distando, segundo a mesma fonte, uma légua de Oeiras e localizando-se a nor- deste deste lugar. Em 1873 Pinho Leal descreveu Algés como uma aldeia pequena localizada a oeste de Lisboa, acrescentando erroneamente que esta 9

A CARTUXA - III pertencia ao concelho de Belém, freguesia da da Piedade, enquanto a povoação de Algeis, Ajuda. Este erro foi corrigido logo a seguir, no ocupando o seu lugar sobranceiro, é já uma volume II da mesma obra, na entrada referen- povoação com alguma expressão em termos de te a “Carnaxide”, em que Pinho Leal refere que número de construções. Carnaxide é freguesia do Concelho de Oeiras e que Algés está integrada nesta freguesia. Na sua obra, datada de 1865, Francisco da Silva Figueira, prior da freguesia de Carnaxide, Por decreto de 26 de Setembro de 1895, o fez uma aprofundada descrição da freguesia concelho de Oeiras foi integrado no concelho de que abrangia os “logares de Carnaxide, Cascais, situação que se alterou a 13 de Janeiro Outorella, Portella, Algés, Linda Velha, Linda de 1898, quando foi restaurado o concelho de Pastora, Quejas e Praias, que comprehende Oeiras, deixando para o concelho de Cascais Cruz Quebrada, Dafundo, S. José de Ribamar a freguesia de Carcavelos e anexando ao e Ponte de Algés”. Se tivermos em conta a atual concelho de Oeiras a freguesia de Carnaxide e toponímia, a Algés corresponde Algés de Cima, parte da freguesia de Benfica. e Praias corresponde à atual faixa ribeirinha que vai de Cruz Quebrada a Algés incluindo Desde pelo menos o século XVIII, a freguesia o Dafundo e a zona de Ribamar, estando eclesiástica (que difere da administrativa) de delimitada pelas ribeiras do Jamor e de Algés, Carnaxide, de que era padroeiro S. Romão, a que corresponde a atual União de Freguesias ocorre frequentemente com a designação de de Algés, Cruz Quebrada/Dafundo e a faixa freguesia de S.Romão de Carnaxide.A paróquia mais litoral da freguesia de Linda-a-Velha. de Algés foi criada em 1966, por destacamento da de Carnaxide, tendo por orago Cristo-Rei As terras do lugar de Algés eram e teve sede provisória na Capela de Nossa predominantemente utilizadas para a produção Senhora das Graças, em Algés – a demolida de hortícolas e para pomares. Conforme o capela do Palácio Anjos. prior Francisco da Silva Figueira, na freguesia de Carnaxide se encontravam os terrenos Ao analisarmos o território atualmente “talvez mais bem cultivado[s] (...) de todas as designado Algés, quer através de cartografia freguezias vizinhas, poisque em escolher a quer de iconografia, assinalamos que parte semente, adubar e mondar são incansaveis das terras são utilizadas para cultivo, existindo quasi todos os lavradores, que só peccam algumas quintas e um reduzido número de por demasiado rotineiros, não se dando ao edificações. Com privilegiada localização – em trabalho de experimentar instrumentos e encosta virada a sul –, em 1763, conforme uma systemas modernos compatíveis com as forças vista panorâmica da margem, confrontavam o de pequenos lavradores, como quasi todos os rio Tejo: o forte de S. José de Ribamar, a Casa são d’esta freguesia”. Segundo o arrolamento do conde de Vimioso (em frente do qual está eclesiástico do ano de 1865, apresentado na o cruzeiro que segundo inscrição “MVDVSE mesma obra, o lugar de Algés possuía um total EM 1727” [para este local] e o forte de Nossa de 25 trabalhadores agrícolas, dum total de Senhora da Conceição de Pedrouços. Através 217 de todos os lugares da freguesia, assim de carta corográfica com datação provável distribuídos: “4 lavradores, 17 trabalhadores de em 1848, confirmamos a localização dos três lavoura, 2 ditos de enxada e 3 pastores”. edifícios acima referidos, tendo estes já outras utilizações, assim como a localização da quinta O mesmo autor relata que na freguesia de 10

A CARTUXA - III Carnaxide eram produzidos: trigo durazio, Este culto teve grande expansão na região laranja, tangerina (principalmente nas quintas saloia e, aliás, mantém-se até à atualidade da Graça e do Teixeira, propriedades do Sr. com localização rotativa. O chamado Círio Machado e dos herdeiros do Sr. Faustino da dos Saloios, que chegou a abranger trinta Gama, respetivamente), grão de bico, melão, localidades, ocupou lugar de destaque na fava, ervilha, “delicioso vinho, similhante ao da prática religiosa da população da antiga Madeira (produzido, entre outras, das vinhas do freguesia de Carnaxide e do território que Dafundo), milho, cevada, tremoço, chicharro, e constitui o atual concelho de Oeiras. Veja-se mais fructos de quinta e horta, mas que (...) não que as três freguesias oeirenses de então são de tão excellente qualidade”. incluíam este círio em posição preeminente entre as muitas (que chegaram a ser trinta) 3. O culto a Nossa Senhora que o constituíam, na sequência do giro do Cabo Espichel anual: S. Romão de Carnaxide estava em O culto a Nossa Senhora do Cabo Espichel (ou segundo; S. Pedro de Barcarena em oitavo; e Santa Maria da Pedra de Mua) remonta, pelo Nossa Senhora da Purificação de Oeiras em menos, a 1366 – ano em que foi referido em décimo primeiro. No ano de 1430, a própria carta régia de D. Pedro I – embora a devoção iniciativa da organização do círio anual ter- das populações da margem norte do rio Tejo a se-á ficado a dever “à sugestão e empenho Nossa Senhora do Cabo possa ter começado conjunto de uma mulher de Alcabideche e de somente no século seguinte. Certo é que em um jovem de Carnaxide”. 1366 se realizou uma romaria “a Santa Maria do Cabo” e que em 1390 já existia uma ermida As festas de 1806, realizadas em no Cabo Espichel, no local onde, conforme Alcabideche, são citadas pelo pároco de a tradição, fora encontrada uma “pequena Carnaxide ao descrever que a receção à imagem da mãe de Deus”. imagem do giro aconteceu com tal “grandeza de que não há memória”, e que contaram Fig. 5 – Gravura com a representação de Nossa Se- com a “luzidissima e mui numerosa picaria nhora do Cabo, sendo “D. Miguel Juiz das Festividades real” por especial mercê príncipe regente D. do Círio de Bellas, no presente ano de 1810”. João. O mesmo prior de Carnaxide esclarece que “Estas solemnidades são para os povos dos arredores de Lisboa as suas olympiadas, os seus lustros. Contam-se de 24 em 24 annos [o número varia em função do número de paróquias presentes na confraria]. Assim quando se quer fallar da idade de alguem, é costume dizer: viu tantas vezes o cirio do Cabo; tinha tantos annos quando ultimamente veio a Senhora do Cabo”. A atestar a importância e a abrangência territorial do Giro dos Saloios, ou Círio dos Saloios – que era o segundo giro –, Francisco Ildefonso dos Santos deixou nos 11

A CARTUXA - III seus manuscritos o planeamento do círio de uma “Berlinda Processional de Nª. Sª. do para os anos de 1858 a 1883. Estando as Cabo Espichel”, construída em pleno fulgor paróquias agremiadas numa confraria, o do reinado quinto-joanino, no ano de 1740, giro de veneração a Nossa Senhora do e que integra o espólio do Museu Nacional Cabo estaria completo ao fim destes 26 dos Coches com o n.º de inventário V 0061. anos, depois de passar por 28 paróquias dos Termos de Lisboa, Cascais, Sintra e Oeiras, Importa referir que em Linda-a-Velha, e das Correições de Torres Vedras, Belém, outro lugar que no século XVII pertencia Lisboa e Alenquer. Assim eram dinamizadas à paróquia de Carnaxide, foi construída as romarias em: S. Vicente de Alcabideche, uma Capela de Nossa Senhora do Cabo. S. Romão de Carnaxide, S. Julião do A ermida que veio a converter-se na atual Tojalinho, S. Pedro de Penaferrim, Nossa capela foi fundada, entre 1758 e 1760, pelo Senhora da Misericórdia de Belas, Santa Padre António Xavier Ligeiro, natural de Maria de Loures, S. Lourenço de Carnide, Linda-a-Velha, “depois de ser parocho por S. Pedro de Barcarena, S. Pedro de Lousa, muitos annos da Castanheira” e “em que está Santo Antão do Tojal, Nossa Senhora da sepultado desde 27 de dezembro de 1763”. Purificação de Oeiras, Nossa Senhora do O fundador deixou a capela ao povo que a Amparo de Benfica. S. Domingos de Rana, ampliou. S. João das Lampas, Nossa Senhora da Purificação de Montelavar, Nossa Senhora Fig. 6 – Interior da Capela de Nossa Senhora do Cabo de Belém de Rio de Mouro, Nossa Senhora em Linda-a-Velha, em 2000. [Arquivo Municipal de da Ajuda, Nossa Senhora de Belém, Oeiras: PT/MOER/MO/NF/004/01/004524] Ascensão e Ressurreição de Cascais, Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, S. Martinho de Sintra, S. Pedro de Almargem do Bispo, Santo Estevão das Galés, Nossa Senhora da Conceição de Igreja Nova, S. João Degolado de Terrugem, S. Saturnino de Fanhões, Santa Maria e S. Miguel de Sintra. O primeiro giro de círios de Nossa Senhora do Cabo incluía as localidades da Caparica, Seixal, Arrentela, Almada, Palmela, Azeitão e Sesimbra, Setúbal e Coina. Cada uma destas freguesias tinha à sua guarda, durante um ano, a réplica da Imagem da Real Capela do Cabo, ficando obrigada a custear as festas realizadas em sua honra. A pompa das cerimónias, em que era usual estar representada a família real, é materialmente consolidada pela existência 12

A CARTUXA - III Fig. 7 – Interior da Capela de Nossa Senhora do Cabo a-Velha, registadas em 2000, nas Figs. 6 e 7. em Algés, em 2000. [Arquivo Municipal de Oeiras: PT/ Os estuques, em branco e azul claro, aplicados MOER/MO/NF/004/01/004519] no teto da capela de Linda-a-Velha, bem como o lustre que valoriza a capela-mor destacam-se Em 1760 a Ermida de Nossa Senhora do na Fig. 6. A original ermida foi aumentada, em Cabo em Linda-a-Velha era pertença de 1880, com a inclusão dos corpos da sacristia e “donatário particular”. O seu interior revela casa de arrumos. maior esmero artístico do que o que é visível na capela de Algés. Podemos confrontar as Em pleno arranque do século XXI – não imagens do interior das capelas de invocação obstante as inibições causadas pela situação a Nossa Senhora do Cabo de Algés e de Linda- pandémica pelo novo coronavírus SARS- CoV-2 que, ainda no Verão de 2021, estamos a sofrer – continuavam a ser organizadas Festas de Nossa Senhora do Cabo em várias das localidades/paróquias, tal como as iniciadas no século XV. São/eram particularmente divulgadas as de Alcabideche/Cascais, Loures, Sintra, Belas, entre outras. Em 1953, por ocasião dos Festejos de Nossa Senhora do Cabo ali organizadas (em S. Martinho de Sintra), foi realizada em Sintra uma exposição iconográfica dedicada à veneranda imagem. Esteve presente a imagem da Capela de Nossa Senhora do Cabo de Algés, por cedência da sua então proprietária (Sr.ª D. Joana Simões Alves). l Algumas fontes e bibliografia: Alexandra de Carvalho ANTUNES, A arquitectura de veraneio no concelho de Oeiras, 1860-1925..., tese de doutoramento em arquitectura, Universidade Lusíada de Lisboa, 2008; ANTT, Memórias Paroquiais, Paróquia de Carnaxide; Pe. Luis CARDOSO, Diccionario geografico, ou noticia historica de todas as cidades, villas, lugares, e aldeas, rios, ribeiras, e serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas / que escre- ve, e offerece ao muito alto... Rey D. João V nosso senhor o P. Luiz Cardoso, da Congregaçaõ do Oratorio de Lisboa..., Lisboa, Regia Officina Sylviana e Academia Real, 1747-1751, 2 tomos; Jaime CASIMIRO, “Nossa Senhora do Cabo”, Elucidário de alguma Oeiras, Colecção Viver, CMO, 2010; Pe. Francisco dos Santos COSTA, O Santuário da Rocha, coração de Carnaxide, Ed. C.M.O., 1972; Pe. Francisco da Silva FIGUEIRA, Os primeiros trabalhos litterarios, Lisboa, Imprensa Nacional, 1865; José Pedro MACHADO, Ensaio sobre a toponímia de Oeiras, Oeiras, 1980; Memorial Histórico ou Colecção de Memórias sobre Oeiras, desde o seu princípio, como Lugar e Cabeça de Julgado, e depois Vila.Com o título de condado e cabeça de concelho, 2.º vol., Ed.C.M.O., 1982; Jorge MIRANDA, “A autonomia de Oeiras e a formação do espaço geográfico concelhio”, Actas do I Encontro de História Local do Concelho de Oeiras, Oeiras, C.M.O., 1993; Jorge MIRANDA, “A Capela de N. Sr.ª do Cabo. O mais antigo templo de Algés”, Jornal da Região – Oeiras, 27.07.2000; Pe. Isaías da Rosa PEREIRA, Subsídios para a História da Diocese de Lisboa do Século XVIII, Lisboa, Academia Portu- guesa da História, 1980; Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de PINHO LEAL, Portugal Antigo e Moderno, vol. I, Lisboa, 1873 e vol. II, Lisboa, 1874; José QUEIRÓS, Cerâmica Portuguesa, vol. 1, 1.ª ed., 1908; Francisco Ildefonso dos SANTOS, Memorias Sobre a Antiguidade das Romarias, e da Romaria ao Sitio de Nossa Senhora do Cabo, Col. Pombalina da BNP, post. a 1857. 13

A CARTUXA - III A PROPÓSITO DE MÁRIO BOTAS… Por Jaime Silva tico de Literatura, considerou como de enorme influência no âmbito literário e ar- Ao Haiti-Journal, em 12/13 de De- tístico, as propostas surrealistas, definidas zembro de 1945, André Breton, “pai” no “Manifesto” de 1924: “o sonho, a visão ou figura absolutamente crucial na alucinada como forma de conceber a reali- formação do ”Movimento Surrealis- dade, bem para além do processo e sentir ta Internacional”, respondia a questão co- normais, controlados pela razão”. locada por René Bélance: Em sua opinião, qual vai ser o futuro da poesia depois da ter- Artistas como Roberto Matta (chileno) rível guerra que se abateu sobre o mundo? ou Jackson Pollock (norte-americano) de- A.B.- A poesia trairia a sua missão ime- senvolveram uma prática artística que cul- morial se os acontecimentos minou no “tachismo” (versão europeia) ou históricos, mesmo os mais na “action painting “ (norte-americana); en- dolorosos, a desviassem da quanto uma outra versão mais intelectuali- estrada real que é a sua. zada foi definida e sustentada por Salvador Dali, com “a sua actividade paranóico-críti- O seu papel é ir sempre ca” e pelo cineasta Luís Buñuel. mais avante, explorar em todos os sentidos o campo A influência do surrealismo – movimento das possibilidades, mani- internacional – foi notória em Portugal, o festar-se… como potência emancipadora e anuncia- dora… manter o contacto com o fundo primitivo do ser humano – angústia, esperan- ça, energia criadora -, único reservatório inesgotável de recursos. Breton pugnou pelo desenvolvimento da “escrita automática” - uma técnica com origem no freudismo - e manteve sempre esta convicção. Muitos dos artistas ditos ou assumidamente surrealistas, permanecerão fiéis a este pressuposto ao longo das suas carreiras. Maurice Blanchot, distinto escritor e crí- 14

A CARTUXA - III que em nada retira importância interna (e de Turismo, vinte quadros que aparen- externa) ao que este pensamento aportou tam alguns meses de idade, e vestem aos poetas e artistas portugueses que dele se reivindicaram. calções de vidro. Pede-se, a quem não os conhecer, o Em “Uma última pergunta”, entrevis- favor de comparecer neste posto o tas com Mário Cesariny de Vasconcelos, mais depressa possível. Para ficar bem evoca o poeta-pintor os anos 40 no café elucidado, é necessário e suficiente a Herminius (Lisboa) com Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Vespeira, João Moniz Pereira apresentação de cabeça própria. e Pomar. Mário Botas Tece considerações várias sobre a situa- Nazaré, 13 a 25 de Agosto de 1971 ção política e cultural do País, então a viver em Ditadura e lembra os seus encontros Sobre o conteúdo das suas obras, Botas com Breton, que têm como consequência explicita: “…resultam de uma estruturação a formação do primeiro grupo surrealista da forma, tendo em vista a transmissão de português em 1947 e no qual participaram uma verdade interior sem outra preocupa- António Pedro, Alexandre O’Neill, José Au- ções que não sejam traduzir uma emoção gusto-França, João Moniz Pereira e Ves- já vivida ou, …as que se vivem no momen- peira, entre outros. to da criação”. Mais explicita que a obra de arte, lhe sur- A “história”, digamos assim, do surrealis- ge como:”… reminiscência do maravilhoso mo em Portugal é rica, variada e bastante da infância e que se pretende despojar de bem documentada. tudo que foi imposto a partir de então…na busca de uma liberdade sem limites… a Mas o que pretendo dar-vos a conhe- busca de um rumo certo para a Vida… que cer é a particular visão de um artista por- é comum a todos, mas de que nos iremos tuguês: Mário Botas, nascido na Nazaré progressivamente afastando”. anos depois (13 de Dezembro de 1952) e A grande questão, segundo o artista, esta- de como na intensa demanda de si mesmo, rá em desse afastamento se tomar cons- se reclamou do espírito surrealista, permi- ciência. tindo-nos explorar as circunstâncias desse O paralelismo com o pressuposto surrea- encontro e os magníficos resultados que lista e a psicanálise freudiana parece bas- daí derivaram. tante evidente, mas estamos a falar de um Aos dezanove anos, Mário Botas, realizou jovem de dezanove anos, que concede na uma primeira exposição de Obras suas, na ocasião a um jornalista local, uma entrevis- Nazaré e que esteve patente ao público de ta de enorme clareza, não muito frequente 13 a 25 de Agosto de 1971. na sua idade. l Anunciou-a assim: AT E N Ç Ã O (continua na próxima edição) Andavam perdidos, e encontram-se agora no posto da Comissão Municipal nota: o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico. 15

A CARTUXA - III OLGA PRATS Por João Maria de Freitas Branco N ão pude despe- dir-me da Olga. O tencial aí musicalmente ex- vírus pandémico pressa. Talvez um dia aluda publicamente ao conteúdo que paralisou a dessa conversa. vida artístico-cultural públi- Maria Olga Douwens Prats, ca prolificou distanciamen- de seu nome completo, tos, adiamentos e pausas nascida em 1938, foi uma nada musicais no dialogar talentosa pianista que, va- interpessoal. Também por lendo-se da sua generosa isso, ficou para sempre inteligência artística, soube interrompida uma nossa fugir à tentação de ser mais longa e séria conversa que uma intérprete das gran- apenas tínhamos suspen- des obras de Chopin ou de radora próxima. Foi o que aconteceu com Constança dido – em sentido musical; outro qualquer compositor Capdeville (que viveu em Caxias, então integrada conversa sobre um dos com lugar cativo no Olimpo na freguesia de Paço de Arcos), com António Vi- nossos mais admirados orfeico. Optou, em boa torino de Almeida e, na geração mais jovem, com Amigos comuns: o músico hora, por colocar o seu pia- Sérgio de Azevedo. No en- tanto, o apego aos músicos compositor Fernando Lo- nismo ao serviço de com- lusos não a impediu de ter sido a primeira a tocar (e a pes-Graça. A Olga e eu positores portugueses con- gravar) peças do argentino Astor Piazzola em Portugal. pertencemos ao peque- temporâneos, contribuindo Outra opção artística que se revelou frutuosa foi a de níssimo grupo de pessoas assim para dar a conhecer, ter privilegiado a música de câmara em detrimento da que conheceu directamen- dentro e fora de portas, a te uma vertente oculta da música portuguesa erudita vida do autor do Requiem do século XX e do início pelas Vítimas do Fascismo, do XXI. Um precioso con- e ambos entendíamos que tributo cultural. De vários a cabal compreensão de al- desses compositores não gumas das suas partituras se limitou a ser óptima in- implica que se saibam as térprete; tornou-se também causas da angústia exis- magnífica amiga e colabo- 16

A CARTUXA - III carreira a solo. O prestigia- Sempre! Porque ela valori- cida desde o passado dia do Opus Ensemble, de que zava, artística e moralmen- 30 de Julho, data da morte foi co-fundadora em 1980, te, a paisagem humana do de uma mulher que soube é talvez a melhor expres- nosso meio cultural. Essa cumprir-se: a minha amiga são da pertinência dessa paisagem ficou empobre- Olga. l escolha na condução de uma carreira de quase 70 anos. Olga foi amiga de meu Pai – que, enquanto musicólogo e crítico musical, reiterada- mente a elogiou – e foi visita de minha casa, em Caxias. Tivemos muitas amizades comuns, e entre elas não quero deixar de referir uma outra Olga, mais conhecida por Marquesa de Cadaval. Foi esta grande dame que possibilitou à família Prats a compra do primeiro piano para a jovem Olga poder estudar e desenvolver o seu dom. Encontrar a Olga era motivo de satisfação. 17

A CARTUXA - III ORIGEM E PERCURSO ATRIBULADO DA CARTUXA DE LAVEIRAS Por Fernando Lopes - EMACO Casa da Santa Misericórdia”, na Bragança, neto de D. Jaime IV Ooriginal do documen- presença dos representantes Duque de Bragança, (…)Leonel to papal, em latim do Mosteiro, da Misericórdia de de Moura, Francisco de Moura, como seria natural, Lisboa e do Julgado de Oeiras e outros fidalgos e pessoas ilus- encontra-se arqui- (5). tres do reino, benzeu e lançou a vado nos fundos da Cartuxa Durante mais alguns anos, primeira pedra (…)” (6)* de Laveiras (ANTT), acom- os conflitos internos à própria panhado de selo pontifício e ordem e o continuado zelo da Anno Dni 1614, poderá considerar-se, de algum Misericórdia de Lisboa atrasa- dia 8 Decembris modo, o documento fundacio- ram e fizeram parar as obras. nal da Cartuxa, precisamente Em 1613 é eleito Prior da Car- Ego Hyrs. Izat. dez anos após a fundação da tuxa de Laveiras o monge ebo- Et Tingita. Eps primeira Casa em Évora. Em rense D. Basílio de Faria. Consi- Ad honorem Sae. 1598 os monges ocupam a derado o verdadeiro obreiro do Mariae Virginis quinta e começam a constru- “mosteiro novo”, a sua acção Primam Lap. Ben- ção de algumas instalações terá sido fundamental na edifi- precárias que designaram de cação de uma Casa condigna, a edixi “cabanas”. Porém, só em 1 de oeste da que conhecemos hoje. In alma Cartusia Julho de 1603 seria assinado Finalmente é lançada a primei- Vallis Misericor- o “…Instromento de Contrato ra pedra da nova Igreja “(…) diae Sedante S.P. de Composição e Concerto no dia de N. S. da Conceição, sobre Verbas do Testamento de 8 de Dezembro de 1614, (…) Paulo V Pont. D. Simoa Godinha que trata da o Ilustríssimo D. F Jerónimo de Max. Et D Philippo Quinta de Laveiras e consecu- Gouveia da Ordem de S. Fran- ção do Breve de Sua Santidade cisco, Bispo Isatense e Tingita- II Portug (…) no Ano (…)mil seiscentos e no, presentes os Ilustríssimos tres, ao primeiro dia do mês de Senhores D. Francisco de O Mosteiro foi dedicado a Julho, na Cidade de Lisboa, na Nossa Senhora Vallis Misericor- diae, talvez em homenagem à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, testamenteira e zelosa cumpridora dos acordos e es- trito apego à decisão da de- funta Dona Simoa. No topo da fachada da igreja, uma imagem Notas: (1) Jesué Pinharanda Gomes e Juan Mayo Escudero, publicaram em 2007 a obra A Cartuxa de Lisboa, legado de contemplação, Ed. da Universidade de Salzburg. Estes amigos da Ordem cartusiana, investigadores e tradutores da documentação latina dos Fundos da Cartuxa, no ANTT, referem em particular a crónica Origo Cartusiae Ulyssiponensis, manuscrito de 1737, de Frei João de São Tomás, que compila parte da história documental da Cartuxa, até àquela data. Da mesma editora, J. Pinharanda Gomes publicou em 2004, A Ordem da Cartuxa em Portugal (2) Os cartuxos são considerados semi-eremitas porque, ao contrário de outras ordens ditas eremitas, a regra cartusiana está asso- ciada ao estrito silêncio e isolamento dentro do mosteiro em celas individuais, onde passam os seus dias, apenas interrompidos para as orações e cânticos litúrgicos e recreio semanal, ambos em comunidade. (3) Testamento de Dona Simoa Godinho, com original nos Fundos da Cartuxa de Laveiras do ANTT, e treslado de 1770, do Arquivo da 18

A CARTUXA - III da Senhora com o Menino (7) acesso só era permitido em dias taforma proporcionada pelo parece receber quem ali chega particulares ou festivos. Existe criptopórtico, edificado no pri- e proteger quem ali viveu. Nas ainda um coro alto, elemento meiro quartel de seiscentos margens do Tejo, a pequena estranho à generalidade das sob o priorado de Dom Basílio distância, duas fortalezas cons- Igrejas cartusianas. Era neste de Faria, ficando orientadas a truídas depois da Restauração, local sacralizado que a comuni- poente e a sueste com acesso não por acaso, invocam S. dade de monges (sacerdotes), individual ao Claustro Maior. Bruno e N. S. do Vale (8) numa conversos e donatos (irmãos alusão à Cartuxa de Laveiras. leigos), entoando cânticos, se O claustro primitivo, desapa- encontravam de acordo com recido já depois do século XIX, O mosteiro novo a regra da Ordem. De manhã servia os irmãos leigos, en- celebrava-se a Missa com o quanto o novo claustro (menor), No séc. XVIII, sob o priorado ritual cartuxo, de tarde acorriam adossado à actual Igreja, tinha de Dom Luís de Brito, a Igreja às Vésperas e a meio da noite, capelas onde se rezavam in- do Mosteiro, agora designa- partindo o sono, encontravam- cessantemente missas en- do de Velho, estaria em mau -se para uma longa celebração comendadas. O imponente estado. Tal situação, terá levado das Matinas e Laudes. claustro-maior, nunca acabado, a comunidade cartuxa a pro- compunha-se de duas galerias curar contributos destinados à As celas dos monges assu- que permitiam o deambular dos construção de um novo Templo, mem importância particular no monges entre o espaço comu- em área mais salubre e a uma quotidiano cartuxo, distinguin- nitário e as celas. cota mais elevada. Inspirada na do-se de outras obediências por sua congénere de Évora, adap- parecerem verdadeiras casas. Procurando bastar-se a si pró- tada aos estilos do seu tempo, o Compunham-se de várias di- pria, a cartuxa possuía dentro interior da nova Igreja, de uma visões, com fonte própria e um da cerca, uma pedreira, animais só nave, vai respeitar a tradição pequeno horto. Era aqui que e campos agrícolas regados a da Ordem, ou seja vai ser divi- os nossos “eremitas” passa- partir de uma levada trazida de dida em coro dos monges, com vam grande parte do tempo em uma represa na ribeira. Uma o cadeiral aberto ao altar-mor, oração, trabalho e descanso. mina situada na encosta próxi- área reservada aos irmãos As celas foram construídas e ma supria de água potável as leigos, separada dos monges mantidas por beneméritos, ao necessidades do Mosteiro e sacerdotes por dois altares la- longo dos séculos XVII e XVIII, dos que para ele trabalhavam terais, e o lugar do público, cujo aproveitando-se a grande pla- (9). Um lago com cágados, característico dos complexos Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Este documento foi transcrito e comentado pelo Padre António Ambrósio, na obra Dona Simoa de S.Tomé em Lisboa, editada para comemorar os 500 anos da SC Misericórdia de Lisboa e publicado em 1999. (sublinhsdo nosso) (4) Excerto da Letra Apostólica (umas vezes referenciado por Breve, e outras por Bula) transcrita na Crónica de Frei João de São Tomás. (sublinhado nosso – ver nota 1) (5) Documento notarial que transcreve, para efeitos de certidão contratual, a passagem da escritura definitiva do acordo entre a Misericórdia e a Cartuxa, em 1603, Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. (Certidão de Testamento e Codicilo de Dona Simoa Godinho, Maço 5, Proc. 49) (6) Juan Mayo Escudero, As Cartuxas de Portugal, através dos séculos, Universidade de Salzburgo, pág. 58, 2011. Inscrição em latim na primeira pedra da Igreja da Cartuxa, de 08 de Dezembro de 1614, referenciada na Crónica de Frei João de São Tomás. (7) A estrutura dos mosteiros cartuxos apresenta muitas semelhanças entre si. Assim acontece com as fachadas das Igrejas de 19

A CARTUXA - III cartusianos, permitia superar a legado da “dama de São Tomé”, trapartida das Missas rezadas proibição do consumo de carne, dos dotes dos monges, das pela benfeitora Dona Simoa caso algum monge adoecesse. doações e rendimentos de pro- Godinho. Fora da cerca, os cartuxos pos- priedades, a Cartuxa de Lavei- suíam propriedades aforadas e ras será constrangida a esmo- A proximidade da Cartuxa arrendadas, moinho e azenhas, lar no Brasil, a partir de 1725, relativamente a Barcarena e a pelas quais pagavam quartos autorizada excepcionalmente Caxias parece ter renovado, por e foros à Casa de Pombal no pelo monarca por não ser uma motivos diferentes, a atenção e início do século XIX (10). ordem mendicante (11). Certo os favores de figuras gradas do é que, mercê das remessas Reino.Exemplo deste interesse, A Cartuxa de Laveiras era das “conquistas” e, talvez pela ou devoção, seriam a visita de ainda detentora de dois hos- magnânima disponibilidade de Filipe III às “oficinas de armas pícios, um já referido anterior- D. João V, no segundo quartel e pólvora de Barcarena” e à mente e um outro, dedicado à do séc. XVIII iniciou-se a cons- Cartuxa, quando da sua entra- cura dos doentes do mosteiro, trução de uma nova e mais da em Lisboa, em 1619 (12). situado a pouca distância na desafogada igreja, já caracteri- A presença de personagens estrada de Laveiras. Nas Me- zada, que acabou por sofrer o da nobreza, das Casas do In- mórias Paroquiais, o Pároco de impacto do Terramoto de 1755. fantado e de Bragança, foram Oeiras refere a existência nas Ao contrário de Évora, que vê a mais ou menos frequente, em imediações de uma capela de- estrutura do seu mosteiro cons- particular a partir da instalação dicada a N.S. de Porto Seguro truída de raiz, a Cartuxa de La- do Palácio Real de Caxias e (ou Salvo) pertença do Mosteiro veiras foi forçada a conviver, ao respectiva quinta de produção e frequentada por romeiros. ritmo dos dias marcados pela e recreio, paredes meias com a regra monástica, com as alte- cerca do Mosteiro. Tornar-se-ia A disposição testamentária rações e reconstruções que se prática comum a deslocação da da proprietária da Quinta de foram sucedendo. Certo é que Corte a Caxias e ao Eremitério Laveiras no século XVI, e o con- os livros de registo da Cartuxa de Laveiras pelas festas de São trato firmado no início do século comprovam que esta, no início Bruno. Divididos entre agradar a imediato, vão suscitar pleitos do século XIX, ainda recebia da quem lhes podia valer ou cum- diversos, em particular com a S.C. da Misericórdia, aos quar- prir estritamente a regra austera Misericórdia de Lisboa. A des- téis, os 100.000 reis estipulados da Ordem, os priores chega- valorização dos valores fixados, dois séculos atrás, como con- ram a ser admoestados, entre poderá explicar muitas das difi- outras razões, por deixarem culdades relatadas. Apesar do Évora, de pendor renascentista inspirado em Santa Cecília in Trastevere, e da Igreja de Laveiras, integrada em modelos estilísticos de Setecentos. (8) No entanto, segundo o investigador oeirense Jaime Cortesão Casimiro, a designação dada à fortaleza de N. S.Vale poderá não es- tar relacionada com o Mosteiro da Cartuxa, mas sim com a existência de um culto anterior, dando com exemplo a imagem N.S.do Vale levada por D. João I para a conquista de Ceuta. Elucidário de alguma Oeiras, Oeiras, Câmara Municipal de Oeiras, 2010, pág. 161. (9) A Décima da Cidade (1762-63), Arquivo Histórico do Tribunal de Contas, aponta encargos da Cartuxa de Laveiras com seis “mo- ços de maneio”, o que nos vem recordar que o labor dos monges de Laveiras seria em grande parte intelectual, contando para tal com uma importante biblioteca, confirmada pelo Inventário efectuado após o encerramento do Mosteiro. (10) Mapa Geral dos Frutos e Rendimentos do Almoxarifado do Reguengo de Oeiras (…) bem como dos Foros e Rendas (…).“O Prior de mais Religiosos do Mosteiro da Cartuxa por 2 azenhas, terras e vinha, em Laveiras, (pagam à Casa de Pombal) quartos - 25 20

A CARTUXA - III entrar senhoras da nobreza no que os monges da Cartuxa de que hoje ali se realizam. Por Mosteiro, uma vez que tal lhes Laveiras primavam pelo labor duas portas laterais acede-se à estava regularmente proibido. intelectual , em detrimento de sacristia da Igreja e ao peque- tarefas manuais deixadas aos no claustro, a partir do qual se Refúgio de arte e de artis- irmãos leigos ou a gente con- entrava em várias dependên- tas.Vicissitudes do percur- tratada. Para tal contribuiria cias, nomeadamente na que foi so contemporâneo uma boa biblioteca, iniciada a casa do capítulo (15). Apesar com a doação de D. Jerónimo das reconstruções e adapta- Refúgio de arte e de artistas, de Ataíde, de que nos dá nota ções sucessivas é possível a Cartuxa de Laveiras ficou o inventário efectuado no século ainda vislumbrar algumas fases célebre: pelo seu presépio, XIX, apesar de ainda se desco- construtivas do Mosteiro, sendo da autoria de António Ferrei- nhecer o destino dos livros (14 ) notável, pela sua dimensão, o ra, hoje disperso; pelo grande imponente cripto-pórtico cuja painel do altar-mor, evocativo O Mosteiro terá sido forte- base abobadada foi serventia de “N.S. com S. Bruno e os 6 mente atingido pelo terramoto de diversas actividades. São companheiros na Cartuxa” que de 1755, sendo a direcção da ainda visíveis os alicerces do cobria a boca da tribuna, pinta- sua reconstrução e, em parti- que poderá ter sido o Claus- do por Vieira Lusitano, e hoje no cular, a recuperação da Igreja tro dos Leigos, destruído mais MNAA, a precisar de restauro e fachada atribuídas a Carlos recentemente, assim como os (13); pelas obras evocativas da Mardel. O interior do Templo, arcos do nunca acabado Claus- Ordem Cartusiana, pintadas despido do mobiliário de ou- tro Maior. por Domingos Sequeira, noviço trora, das pinturas retabulares neste mosteiro de 1796 a 1802, e das ricas alfaias litúrgicas Após a fuga dos monges em de entre as quais se destaca o transmite-nos uma pálida ideia 1833 e a exclaustração do Mos- quadro, São Bruno em Oração do que já foi. O actual altar-mor, teiro, o complexo da Cartuxa foi (1799-1800), em exposição no com o retábulo evocativo de S. vendido a particulares. Voltaria Museu Nacional de Arte Antiga. José, N.S.da Conceição e S. ao Estado para servir de quar- Uma investigação recente veio Bruno, terá sido recuperado tel militar durante a construção reforçar a importância deste na primeira metade do século do Forte de D. Luis. No início do Mosteiro enquanto repositório XX, depois que a Igreja deixou século XX tornou-se Casa de de obras de arte religiosa de pri- de ser camarata de soldados e Reeducação (16), a que esteve meira plana, de autores nacio- jovens reeducandos, conferindo associado o eminente pedago- nais e até oeirenses. Sabe-se dignidade aos actos religiosos go Padre António de Oliveira e, alqueires de trigo (e de) foros 2 galinhas”, Memorial Histórico de Oeiras, Câmara Municipal de Oeiras, 1998. pág. 326. (11) Carta datada de 4 de Abril de 1725, do Secretário de Estado Diogo de Mendonça Corte Real para Aires de Saldanha Governador (…)do Rio de Janeiro, referindo a autorização régia para que um representante da Cartuxa de Laveiras possa ir esmolar “ às conquis- tas”. Em Crónica de Frei João de São Tomás, op. Cit. (12) Francisco Rebelo da Silva – Quinhentos – Oitocentos, Ensaio de História, “A Viagem de Filipe III, Itinerários e Problemática”, (pp. 269 – 307). Porto: Universidade do Porto, 2008, pág. 288. (13) Sara Cristina Silva, Pintura Sacra no Concelho de Oeiras, Séculos XVII e XVIII, Oeiras, Câmara Municipal de Oeiras, 2004 (14) Jesué Pinharanda Gomes e Juan Mayo Escudero, op. Cit., pág. 123 a 125. (15) A casa do Capítulo foi adaptada a gabinete da direcção da “Casa de Correção”, instalada na Cartuxa de Laveiras em 31 de Maio de 1903. 21

A CARTUXA - III por fim, seria Escola Oficial. quio integrado nas comemo- refletirmos sobre o estado de Em 2014 a Associação Cultu- rações dos IV séculos do lan- degradação do monumento e a çamento da primeira pedra da urgência da sua requalificação. ral de Oeiras - Espaço e Memó- Igreja da Cartuxa de Lisboa ou ria, com o apoio da autarquia, de Laveiras, como acabou por In “Revista Espaço e Memória com o beneplácito da Paróquia ser reconhecida (17). Apesar Nº2”, gentilmente cedido pela de Laveiras e a presença excep- de comemorativo, este evento Assoc. Espaço e Memória. l cional do Dom Prior da Cartuxa foi mais uma oportunidade para de Évora, organizou um Coló- la MISERICORDE» (Maison de l´Ordre des Chartreux. Chartreuse de Notre Damme des Prés: 1916, vol. III). Painel azulejar maneirista com a repre- Desenho representando a cartuxa Fachada actual da Igreja da Cartuxa de sentação das sete estrelas da insignia de Laveiras, com a inscrição «CHAR- Laveiras, atribuída a Carlos Mardel da Ordem da Cartuxa (simbolizando TREUSE LISBONNE.VAL de la MISERI- Sáo Bruno e os seis irmãos funda- CORDE» (Maison de l´Ordre des Char- Mosteiro da Cartuxa de laveiras , já de- dores que surgiram em visão premo- treux. Chartreuse de Notre Damme des safecto da função monacal, quando o nitória ao Bispo S. Hugo) datável de Prés: 1916, vol. III). complexo edificado acolhia o Instituto meados do século XVII, encontrava-se de Reeducação, actual Centro Educati- numa sala do Claustro Pequeno da vo Padre António de Oliveira. Perspec- Cartuxa de Laveiras, fora do seu con- tiva aérea, década de 40 do séc. XX. texto arquitectónico original. (JB). Foto de Fernando Lopes. Inscrição: Ut filli lucis ambulemos Epístola de São Paulo aos Efésios (cap. 5) “Porque noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” Registo de azulejo rococó, represen- Tela de «São Bruno em oração». Pin- tando S. Bruno em oração, acompa- tada por Domingos Sequeira durante nhado dos seus atributos, a cruz ar- o seu noviciado em Laveiras. (MNAA) borescente, o livro da Regra e a mitra recusada.(JB) Fotografia de Fernando Lopes Desenho representando a cartuxa de Laveiras, com a inscrição «CHARTREUSE LISBONNE. VAL de (16) José Maria de Almeida Fernandes, Monografia do Conservatório Central de Lisboa Padre António de Oliveira, Oficinas Gráficas do Reformatório de Caxias, 1958. (17) “I Jornadas Espaço e Memória de História e Património – 400 anos da Cartuxa de Laveiras - Do Início da Construção à Actualida- de 1614-2014 - Evocação Histórica e Artística”, ocorridas em Oeiras, em 6 e 7 de Dezembro de 2014, integradas nas comemorações do IV Centenário da Cartuxa de Laveiras, 22

A CARTUXA - III BREVE CRONOLOGIA 1602 - Falecimento de Dom Teo- - Venda do Mosteiro de Laveiras tónio de Bragança e posterior regresso à posse do 1084 – Primeira Cartuxa no Vale 1611 - Proibição de “deitar os ali- Estado de Chartreuse cerces” imposta pelo Visitador - Instalação de militares no de- 1535 – Embaixador dom Marti- 1613 - Dom Basílio de Faria eleito curso da construção do Campo nho de Portugal em Roma escre- Prior em Laveiras Entrincheirado de Lisboa ve a Dom João III recomendando 1614 – Lançamento da Primeira 1903 - Casa de Detencão e Cor- a introdução da Cartuxa no Reino Pedra da Igreja da Cartuxa de La- recção de Lisboa (em Caxias) (em substituição dos Trinitários) veiras - Restauração do culto religioso 1583 - Carta de Dom Teotónio - Lenta e progressiva construção na Igreja ao Papa Gregório XIII, solicitando do complexo conventual (Igreja, 1958 - Readaptação e expansão licença para fundar a Cartuxa em Capelas, Claustros e Celas) do Reformatório Central de Lis- Évora. 1621 - Dom Basílio de Faria eleito boa Padre António de Oliveira (em 1587 - Chegada dos primeiros Prior de Évora Caxias) monges vindos de Tarragona 1663 - Incêndio da Cartuxa de 1960 – Reabertura do Mosteiro (Scala Dei). Évora nas Guerras da Restaura- da Cartuxa de Évora sob o pa- DOCUMENTO FUNDACIONAL ção droado de Vasco Maria Eugénio DO MOSTEIRO DE ÉVORA 1733 – Lançamento da Primeira de Almeida, Conde de Vil´alva. 1593 - Lançamento da Primeira Pedra da Nova Igreja da Cartuxa Entrada e clausura dos primeiros Pedra do Mosteiro de Évora de Laveiras monges vindos da Cartuxa de Mi- 1594 - Luis Telmo, primeiro 1736 – Mosteiro Novo da Cartuxa raflores, Burgos. Prior de Laveiras, é acolhido nas de Laveiras Instalação da Escola Oficial de casas da Pampulha de D. Jorge 1737 - Crónica Origines por Frei São Bruno na Cartuxa de Lavei- de Ataíde - Bispo de Viseu e Ca- João de São Tomás (obituário ras, transferida depois para Lavei- pelão-Mor de Filipe II. 1744) ras. Testamento e doação de Dona 1755 - Terramoto e restauro da 2014 – Comemorações do Lan- Simoa Godinho Igreja de Laveiras (atribuído a çamento da Primeira Pedra da 1595 - Carta de Filipe I de Portu- Carlos Mardel) Igreja (edificada no século XVII) gal aos Mesários da Misericórdia 1796 - Domingos Sequeira em 2018 - A Cartuxa de Laveiras, de Lisboa seguida de resposta. Laveiras ainda sob a tutela do Instituto de 1597 - Entrega da Quinta de La- 1821 - Inventário dos Bens de Reinserção Social do Ministério veiras aos Capuchos. Laveiras pela Junta de Exame das da Justiça, encontra-se em adian- 1597 - Apelo de Filipe I de Por- Ordens Religiosas tado estado de abandono e degra- tugal ao Papa seguido de Letra 1833 - Fuga dos Monges de La- dação. Apostólica Pontíficia sobre a Car- veiras 2020 – Os monges deixam a tuxa de Laveiras 1834 – 30 de Maio, Lei de Ex- Cartuxa de Évora cujo edifício irá 1598 - A Cartuxa toma posse da tinção da Ordens Regulares em receber uma ordem feminina. Quinta de Laveiras (início da cons- Portugal 2021 – Cedência pelo Estado da trução). - Encerramento da Cartuxa de Cartuxa de Laveiras e respectiva 1598 - Os cartuxos de Évora en- Évora cerca à Câmara Municipal de Oei- tram no Mosteiro ainda em obras. ras. 1599 - Francisco Monroy nomedo Prior de Laveiras 23

ERA Paço de Arcos/Caxias Apoia a Cultura


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