["Alisson Dias Gomes COMO SER FELIZ? N\u00e3o importa que voc\u00ea v\u00e1 devagar, contanto que voc\u00ea n\u00e3o pare. Conf\u00facio N\u00e3o existe resposta \u00fanica para esta indaga\u00e7\u00e3o! E, sim, diversas! A depender de cada pessoa, momento, contexto e conjunto de valores e princ\u00edpios. Seja voc\u00ea e encare seus sentimentos com honestidade. Tente n\u00e3o ter medo de ser\/estar feliz ou triste. Viva! Possivelmente, ambos sentimentos vir\u00e3o (ou j\u00e1 vieram). Um d\u00e1 lugar ao outro, volta e meia. S\u00e3o sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es comuns da vida humana. Nem sempre s\u00e3o f\u00e1ceis de lidar! Ali\u00e1s, parece que a dualidade felicidade\/tristeza tem sido mais comum no atual momento. Parece que a montanha-rus- sa da vida, com seus altos e baixos, est\u00e1 constantemente ligada, ativada de modo ininterrupto, nos chamando a aventuras constantes. Parece que estamos mais sens\u00ed- veis, observadores e abertos a mergulhar em n\u00f3s mes- mos ou no entorno no qual vivemos, aceitando convites ou caindo em armadilhas. Ao longo das \u00faltimas semanas, em conversas com muitos amigos, por meio de liga\u00e7\u00f5es e videochamadas, temos falado frequentemente sobre felicidade e tris- teza, hoje e amanh\u00e3, erros e acertos, voc\u00ea e eu, o in- terior e o exterior. Sem romantizar ou idealizar, muito 101","Esta\u00e7\u00f5es da Vida pelo contr\u00e1rio, temos nos desnudado muitas vezes de modo espont\u00e2neo, natural e in\u00e9dito. Julgamentos es- t\u00e3o descartados ou reduzidos a menor escala poss\u00edvel! E tributamos a nova pr\u00e1tica ao momento favorecedor de conversas mais espa\u00e7adas e honestas, sem filtros ou tantas amarras. Creditamos muito ao fato de estarmos em nossas redomas de cristal: lares e mundos paralelos, com rotinas alteradas e novos h\u00e1bitos, descobrindo no- vos n\u00f3s. O pensar, o sentir, o encarar e o expor est\u00e3o se tornando necessidades prim\u00e1rias em raz\u00e3o de tudo que vivemos. S\u00e3o incertezas, inquieta\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as nos mostrando como somos barcos \u00e0 merc\u00ea dos ventos. Ali\u00e1s, as incertezas sempre existiram ali e aqui, por\u00e9m por diversas vezes nutrimos a falsa impress\u00e3o de que control\u00e1vamos tudo (ou, pelo menos, alguma coisa). Ledo engano! Embora sejamos seres privilegiados pela intelig\u00eancia e algumas compet\u00eancias e habilidades t\u00edpi- cas da esp\u00e9cie humana, somos t\u00e3o vulner\u00e1veis e apren- dizes como outras esp\u00e9cies. Retomando a pergunta titular, eu diria que em tem- pos normais alguns h\u00e1bitos podem proporcionar mo- mentos felizes: sentir-se presente, saborear experi\u00eancias da vida, ser gentil, praticar atividades f\u00edsicas, ter boas noites de sono, mentalidade positiva, manter conex\u00f5es sociais, meditar e ser grato. Acredito que os praticantes das atividades anterio- res possuem tend\u00eancia maior a serem mais felizes que a m\u00e9dia, segundo pregam alguns cientistas, psic\u00f3logos, 102","Alisson Dias Gomes fil\u00f3sofos e autores, como M\u00e1rio Sergio Cortella, Leandro Karnal e Luiz Felipe Pond\u00e9 no livro \u201cFelicidade: modos de usar\u201d. Ademais, \u00e9 muito importante ter em mente que n\u00e3o basta saber o que fazer. \u00c9 preciso ir al\u00e9m e aprender a fazer, para desenvolver novo(s) h\u00e1bito(s), sendo preci- so cerca de 21 dias de repeti\u00e7\u00e3o para a devida incorpo- ra\u00e7\u00e3o na rotina, segundo evidencia a Ci\u00eancia. Diante de tudo isso, em tempos de pandemia da covid-19 e como forma de investimento em autoconhe- cimento, a t\u00edtulo de sugest\u00e3o recomendo o curso on-li- ne \u201cThe Science of Well-Being\u201d (A Ci\u00eancia do Bem-Estar, em tradu\u00e7\u00e3o livre), oferecido pela Universidade de Yale, Estados Unidos. Conduzido pela professora de Psico- logia Laurie Santos, com aulas gratuitas na plataforma Coursera, (https:\/\/www.coursera.org\/learn\/the-science- -of-well-being), o curso tem feito a diferen\u00e7a na vida de muitas pessoas e j\u00e1 atraiu mais de dois milh\u00f5es de participantes ao redor do mundo. A iniciativa surgiu em 2017, de modo presencial, e migrou para a internet em 2018 devido ao grande sucesso. Na sua concep\u00e7\u00e3o, a grande meta do curso \u00e9 capacitar o espectador a entender, com base em evi- d\u00eancias cient\u00edficas, de onde vem sua infelicidade e lhe dar ferramentas para reverter o cen\u00e1rio. Quem sabe a quarentena n\u00e3o seja um bom momento para a busca de respostas para quest\u00f5es cruciais da nossa vida? Pense nisso e permita-se, se for o seu caso! 103","Esta\u00e7\u00f5es da Vida ESTAMOS QUASE SEMPRE \u00c0 ESPERA Ajusto-me a mim, n\u00e3o ao mundo. Ana\u00efs Nin \u00c9 impressionante, mas a maioria de n\u00f3s vive ou est\u00e1 quase sempre \u00e0 espera. Seja de algo material ou de uma resposta incentivadora; seja do momento ideal ou das condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para mudan\u00e7as e (res)significa- \u00e7\u00f5es ou de conquistas que nos permitam passos firmes e posturas consolidadas. De modo similar, isso se repe- te quando transferimos aos outros nossas expectativas, desejos e motiva\u00e7\u00f5es, quase como se fossem um elixir para car\u00eancias, faltas e aus\u00eancias pessoais e intransfer\u00ed- veis. \u00c9 imposs\u00edvel ter respostas apropriadas, pois o cami- nho se inverte quando seguimos dentro desta l\u00f3gica. Na verdade, ao nosso entender, o ideal \u00e9 partir de dentro para fora. Muitas vezes somos educados para o amanh\u00e3 na falsa ilus\u00e3o de que devemos viver, fazer ou dizer certas coisas somente em momentos ideais. Contudo, eles n\u00e3o existem pelo simples fato de que n\u00e3o temos controle sobre o tempo e a exist\u00eancia. \u00c9 claro que podemos (e devemos) agir de modo cauteloso e respons\u00e1vel, entre- tanto, jamais estaremos convictos do amanh\u00e3 e do de- pois. Por isso, conclamamos a todos a viver sem esperas duradoras e longe de rompantes de loucura, passionali- 104","Alisson Dias Gomes dade excessiva e irresponsabilidade cega. Isso porque o hoje \u00e9 o tempo real. No 25 de dezembro, data simb\u00f3lica adotada pela Igreja Cat\u00f3lica por volta do S\u00e9culo IV para celebrar o nascimento de Jesus Cristo, somos convidados a renas- cer num vi\u00e9s de autoconhecimento, de renova\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as e de mergulho em valores individuais e sociais. Cada um no seu ritmo e tempo, da sua forma, dentro da perspectiva que julgar mais conveniente, \u00e9 convidado a pensar e, se concordar, modificar um pouco a ideia de viver \u00e0 espera. O mesmo ocorre agora no 1 de janeiro de 2021 quando somos chamados a emanar energia positi- va de recome\u00e7o para n\u00f3s e o mundo, numa corrente de boas vibra\u00e7\u00f5es. H\u00e1 dois anos, o Papa Francisco sabiamente adver- tiu: \u201cN\u00e3o devemos viver de esperas, que talvez n\u00e3o se realizem, mas devemos viver na espera, ou seja, desejar o Senhor que sempre traz novidade. \u00c9 importante saber esperar, e esperar sempre ativos no amor\u201d. Em outras palavras, a nossa espera pode (e deve \u2013 permitamo-nos o termo taxativo) ser ativa, otimista e renovadora. Sem imediatismos, pr\u00e1ticas cegas e irrespons\u00e1veis, comportamentos a\u00e9ticos e desprovidos de valores de solidariedade e fraternidade que possamos nos permitir cada vez mais dizer, fazer e demonstrar, por palavras e atitudes, que estamos comprometidos com os nossos desejos, sonhos e metas de uma vida plena e efetiva. Isto \u00e9, por mais sereno e seguro que o dia de hoje possa ser, o amanh\u00e3 \u00e9 imprevis\u00edvel, restando a n\u00f3s n\u00e3o viver 105","Esta\u00e7\u00f5es da Vida sob estado de alerta e tens\u00e3o, mas reconhecendo que a vida deve ser vivida com intensidade, pois como tem se tornando senso comum repleto de sabedoria hoje sem- pre ser\u00e1 o dia mais importante das nossas vidas, pois o ontem j\u00e1 faz parte do nosso passado\/hist\u00f3ria e o ama- nh\u00e3 \u00e9 incerto! 106","Alisson Dias Gomes MENTE E CORA\u00c7\u00c3O POR CAMINHOS DIFERENTES Yo no viajo por llegar. Viajo por ir. Eduardo Galeano H\u00e1 dias em que a mente e o cora\u00e7\u00e3o saem por a\u00ed, escolhendo caminhos diferentes com uma independ\u00ean- cia e autonomia que parecem n\u00e3o habitar o mesmo ser. Falta di\u00e1logo! Falta aviso pr\u00e9vio! Falta o reconhecimento da boa conviv\u00eancia! Talvez, o que reste seja a necessi- dade de cada um se salvar\/safar, por si pr\u00f3prio, e fazer valer sua vontade diante do outro naquela ocasi\u00e3o es- pec\u00edfica. Deixa-se de lado o equil\u00edbrio para que juntos sigam comandando os passos daquela vida ou, ao me- nos, a retomada das r\u00e9deas da situa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s discord\u00e2n- cias, instabilidades e turbul\u00eancias. Muitas vezes, a compreens\u00e3o minimamente amis- tosa entre eles d\u00e1 lugar a conflitos que podem variar de leves e moderados a complexos e perturbadores. E cada um usar\u00e1 as ferramentas necess\u00e1rias para se preservar. As respostas n\u00e3o s\u00e3o exatamente para eliminar o outro, mas t\u00e3o somente fazer valer a bandeira pela qual cada um milita, sendo comum a mente privilegiar a raz\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o d\u00e1 vaz\u00e3o \u00e0 emo\u00e7\u00e3o. Com o avan\u00e7ar da vida e o alcance da maturida- de, somos levados a crer que eles se digladiar\u00e3o menos. Como seria bom, por sinal. Diante de certos conflitos \u00e9 107","Esta\u00e7\u00f5es da Vida poss\u00edvel se chegar a uma solu\u00e7\u00e3o rapidamente com base na viv\u00eancia e capacidade de observa\u00e7\u00e3o. Nestas opor- tunidades, encontrar solu\u00e7\u00f5es mais vis\u00edveis e esperadas passa a ser algo mais instant\u00e2neo a ponto de convencer a todos que se alcan\u00e7ou o desejado equil\u00edbrio emocio- nal. Mas, nem sempre \u00e9 assim! Em outros contextos as coisas n\u00e3o se acomodar\u00e3o desta forma e cada um se valer\u00e1 dos subterf\u00fagios para fugir ou, pelo menos, n\u00e3o encarar a realidade. De todo modo, pelo prisma do otimismo realista, \u00e9 v\u00e1lido dizer tamb\u00e9m que h\u00e1 dia em que existem condi- \u00e7\u00f5es plenas para o encontro de solu\u00e7\u00f5es, com o sil\u00ean- cio ideal para negocia\u00e7\u00f5es bem t\u00edpicas de pr\u00e1ticas de diplomacia avan\u00e7ada de autoconhecimento. O elemen- to problematizador se dissipar\u00e1 diante da aproxima\u00e7\u00e3o fraterna da mente e do cora\u00e7\u00e3o. Em muitas ocasi\u00f5es, a mente acudir\u00e1 a praticida- de, objetividade, leitura macro, an\u00e1lise fria e certeira en- quanto o cora\u00e7\u00e3o se munir\u00e1 de emotividade, subjetivi- dade, intui\u00e7\u00e3o e senso de agrado m\u00fatuo, quase po\u00e9tico e cinematogr\u00e1fico. E a\u00ed, se estar\u00e1 diante, de novo, de situa\u00e7\u00f5es conflitantes, ainda que n\u00e3o sejam complexas, tendo por desafio aproximar os dois pontos cruciais para um di\u00e1logo franco e amistoso em busca da calma- ria capaz de gerar nova estabilidade. A roda gigante da vida, que em dado momento est\u00e1 no topo e no outro na base, gira de modo ininterrupto. \u00c9 vis\u00edvel que tais situa\u00e7\u00f5es despontam com maior periodicidade em pessoas que pensam e sentem de- 108","Alisson Dias Gomes mais. Na verdade, o ponto chave reside no \u201cdemais\u201d. E aqui n\u00e3o se condena o viver com intensidade, ainda que seja poss\u00edvel regular e encontrar o meio termo, nem oito nem oitenta, como diz o ditado popular; a frequ\u00eancia de conflitos entre a mente e o cora\u00e7\u00e3o tender\u00e1 a diminuir em escala, propor\u00e7\u00e3o e intensidade. E vale ressaltar que n\u00e3o se encara o conflito como algo ruim. Muito pelo contr\u00e1rio! Em certos momentos ele \u00e9 necess\u00e1rio, servindo de campo f\u00e9rtil para que o di\u00e1logo entre a raz\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o (isto \u00e9, a mente e o co- ra\u00e7\u00e3o) se estabele\u00e7a e germine novos posicionamentos e releituras da vida. Contudo, quando gerador de sofri- mento e diante da incapacidade de ressignifica\u00e7\u00e3o ou acordos poder\u00e1 ser gatilho para sensa\u00e7\u00f5es, sentimentos e atitudes prejudiciais. O filme O Ilusionista (2006) \u00e9 rico de interpreta- \u00e7\u00f5es sobre o ser humano ao pontuar que \u201ca constru\u00e7\u00e3o de um \u2018eu\u2019 saud\u00e1vel necessita de uma complementa\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica entre a raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o\u201d. Em outras pala- vras, que por tr\u00e1s da negocia\u00e7\u00e3o de um conflito entre a mente e o cora\u00e7\u00e3o reine a paz de uma decis\u00e3o mediada em que ambos reencontrem o caminho, respeitando os afastamentos provis\u00f3rios de outros tempos. 109","Esta\u00e7\u00f5es da Vida NASCEM NOVOS HOMENS Prefiro a emo\u00e7\u00e3o \u00e0s regras corretas. Juan Gris Entre sorrisos, l\u00e1grimas, olhares, toques e conex\u00f5es, 12 homens renasceram ap\u00f3s viv\u00eancia de desconstru\u00e7\u00e3o, reencontro e descoberta, a princ\u00edpio consigo e depois com o mundo. Antes de aprimorar-se para fora, cada um deles se deu conta de que era preciso fazer a busca da sua melhor vers\u00e3o para si, sem esperar a perfei\u00e7\u00e3o; t\u00e3o somente pelo fato de perceberem que o mergulho interno traz ganhos substanciais para o entendimento da vida e do mundo. Logo de cara, uma das primeiras li\u00e7\u00f5es: na vulnerabilidade tamb\u00e9m nos tornamos fortes e sens\u00edveis, reduzindo dualidades a ponto de edificar se- res humanos mais aut\u00eanticos, livres e leves. Tudo aconteceu no Rio de Janeiro, ponto de con- verg\u00eancia de fluminenses, paulistas, mineiros e piauien- se. Para l\u00e1, estes homens, provenientes de mundos, realidades e forma\u00e7\u00f5es diferentes, com experi\u00eancias, ex- pectativas e anseios variados, se dirigiram para imers\u00e3o intensa sob os cuidados do terapeuta Lukas Sato e sua acolhedora equipe, durante um fim de semana transfor- mador. Por sinal, o tempo foi outro fator intrigante; as horas e os minutos pareciam n\u00e3o passar, diferente do que ocorre no cotidiano causticante. A no\u00e7\u00e3o de tempo 110","Alisson Dias Gomes e espa\u00e7o foi redimensionada e possibilitou que todos vivenciassem cada instante de modo pleno. Pelo contato, aproxima\u00e7\u00e3o e abertura, elos inter- nos seriam quebrados ou, ao contr\u00e1rio, fortalecidos ao revisitar hist\u00f3rias vividas em primeira pessoa. Da mesma forma, novos la\u00e7os seriam criados, ou no m\u00ednimo insti- gados a sensibilidade e reflex\u00f5es futuras, tanto consigo como tamb\u00e9m com os outros, a cada nova pr\u00e1tica pelo reconhecimento integral de que est\u00e1vamos entre pares na alegria e na dor, tendo por base o mais puro senti- mento de amor. A cada partilha, mais conex\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o. O des- nudar-se de almas ia muito al\u00e9m das roupas e capas que usamos habitualmente para cobrir o corpo e a face, me- diante as in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es do dia a dia, consentindo que todo o resto se tornasse sup\u00e9rfluo. Ali est\u00e1vamos diante de seres em evolu\u00e7\u00e3o, conscientes de que jamais ser\u00edamos os mesmos, imersos numa atmosfera de aco- lhida, compreens\u00e3o e carinho, tendo por princ\u00edpio b\u00e1si- co o respeito ao tempo e a individualidade de cada um. Sensa\u00e7\u00f5es e sentimentos afloraram e variaram diante de novas hist\u00f3rias e revela\u00e7\u00f5es, perpassadas por gargalhadas contagiantes e estridentes at\u00e9 choros in- fantis e libertadores. Tudo v\u00e1lido! Tudo aceito! Tudo conduzido de um jeito humano, permitindo a quebra de paradigmas e o rompimento da estabilidade das zo- nas de conforto. Isso porque estar\u00edamos aliviados, con- solados e acomodados por vermos nossas hist\u00f3rias nos outros. 111","Esta\u00e7\u00f5es da Vida Por diversas vezes, de modo individual ou em gru- po, fomos conduzidos a momentos de resgate, catarse, reflex\u00e3o e inquietude a fim de avan\u00e7ar na busca pelo autoconhecimento tendo por base o que defende Osho, guru espiritual: \u201ca felicidade n\u00e3o \u00e9 um destino, \u00e9 uma viagem. A felicidade n\u00e3o \u00e9 amanh\u00e3, \u00e9 agora. A felicidade n\u00e3o \u00e9 uma depend\u00eancia, \u00e9 uma decis\u00e3o. A felicidade \u00e9 o que voc\u00ea \u00e9, n\u00e3o o que voc\u00ea tem.\u201d \u00c9ramos estimulados a olhar nos espelhos da alma, revelando-nos nas pr\u00e1ticas de medita\u00e7\u00e3o, dan\u00e7a, integra\u00e7\u00e3o, massagem, contato com a natureza e partilhas \u201corganizadas\u201d, sem sequ\u00ean- cia r\u00edgida e estruturada, conforme o desenvolver-se do grupo e o feeling dos terapeutas. J\u00e1 na reta final, depois de perceber que in\u00fameras transforma\u00e7\u00f5es internas e coletivas est\u00e3o por vir, seria inevit\u00e1vel a afei\u00e7\u00e3o verdadeira aos companheiros com os quais vivenciamos uma das experi\u00eancias mais revela- doras e intensas da vida. Com isso, a gratid\u00e3o se tornou o sentimento preponderante, ao lado do abra\u00e7o que se tornou o cumprimento normal e a palavra amor a s\u00ednte- se do vivido. 112","Alisson Dias Gomes O SER HUMANO E A CAPACIDADE DE APRENDIZAGEM Porque a for\u00e7a de dentro \u00e9 maior que todos os ventos contr\u00e1rios. Caio Fernando Abreu Creio que nunca fez tanto sentido como nos \u00faltimos tempos, a ideia de viver um dia de cada vez. De modo literal e pr\u00e1tico estamos sendo sacudidos e colocados de ponta cabe\u00e7a para pensar e repensar sobre tudo que nos rodeia, envolve e demanda na contemporaneidade. A vida j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma e jamais ser\u00e1! Da esfera coletiva a individual, da dimens\u00e3o profissional a pessoal, do global ao local vivemos transi\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as percept\u00edveis (ou n\u00e3o). Nem todos estar\u00e3o abertos a refletir, assimilar e mudar neste momento. Talvez, precisem de mais tempo ou, at\u00e9 mesmo, de algumas vidas. Mais do que nunca, entendo que a \u00eanfase recai (ou deveria recair) em cada um de n\u00f3s no novo contexto: quem sou eu? O que tenho feito? Para onde pretendo ir? Que contribui\u00e7\u00f5es dou para a evolu\u00e7\u00e3o da humanidade? As perguntas existenciais, quase sempre de cunho filos\u00f3fico, se apresentam atual\u00edssimas e provocadoras de reposicionamentos individuais e coletivos. Afinal, 113","Esta\u00e7\u00f5es da Vida por muitas vezes, olhar o outro foi mais recomendado e f\u00e1cil e, at\u00e9 mesmo, convidativo por acreditarmos que as melhorias deveriam vir ou estar na parte externa. A velha e ultrapassada m\u00e1xima de delegar responsabilida- de ao outro, em clara demonstra\u00e7\u00e3o de cegueira exis- tencial \u00e9 inconceb\u00edvel doravante. Na maioria das vezes, fomos gerados, educados e conscientizados de que so- mos bons, corretos, preparados e melhores. Como se fosse poss\u00edvel ser, nos iludimos e nos acomodamos. Na verdade, o ideal \u00e9 estar. Justifico porque encaro como uma percep\u00e7\u00e3o equivocada, haja vista o ser passar a fal- sa ideia de perman\u00eancia\/conserva\u00e7\u00e3o, enquanto o estar \u00e9 demarcador de passagem\/transi\u00e7\u00e3o. Ao longo de uma exist\u00eancia mut\u00e1vel, de socieda- des vol\u00e1teis e de individualidades vari\u00e1veis, somos le- vados a estar bem ou mal, feliz ou triste, satisfeito ou incompleto. N\u00e3o me refiro ao car\u00e1ter, \u00e0 personalidade ou a \u00edndole, mas foco na instantaneidade da vida, nas incertezas do futuro e nas vari\u00e1veis humanas... Por certo, s\u00e3o tais aspectos que nos mostram a necessidade de (re)conhecer vulnerabilidades e capacidades de apren- dizagem em busca de evolu\u00e7\u00e3o. Somos ondas do mar, dunas, ventos... Somos a pr\u00f3- pria natureza! Por mais pragm\u00e1ticos e racionais que se- jamos (ou almejemos ser); seja por educa\u00e7\u00e3o ou orien- ta\u00e7\u00e3o, te convido a despir-se da falsa ilus\u00e3o de controle sobre a vida e a morte. A cren\u00e7a em certezas e poderes \u00e9 t\u00e3o fr\u00e1gil como a in\u00e9rcia e pregui\u00e7a de agir, buscar e (re) significar. Estamos em evolu\u00e7\u00e3o permanente, ainda que 114","Alisson Dias Gomes em ritmos, dire\u00e7\u00f5es e caminhadas diferentes. Por isso, jamais seremos ou estaremos acabados! Somos eternos aprendizes, ainda que demonstre- mos incapacidades, limita\u00e7\u00f5es e acomoda\u00e7\u00f5es para re- conhecer e praticar. Aprender \u00e9 um ato comum ao ser humano, independentemente da idade, desde que este esteja aberto para tal. \u00c9 fundamental desatrelar-se de espa\u00e7os, momentos, circunst\u00e2ncias e pessoas para que o terreno f\u00e9rtil do saber se consolide de uma vez por todas. Da\u00ed porque \u00e9 t\u00e3o belo testemunhar pessoas de 50, 60 ou 70 anos dispostas a aprender e provar novas sensa\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo em que \u00e9 horr\u00edvel observar pessoas de 20, 30 ou 40 anos sem est\u00edmulos ou motiva- \u00e7\u00f5es para evoluir. Ao pensar e escrever sobre aprendizagem vem \u00e0 mente Gonzaguinha e cantarolo inevitavelmente: \u201cViver e n\u00e3o ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e can- tar a beleza de ser um eterno aprendiz\u201d, recordando- -me quantas vezes fiquei envergonhado e castrado para novas descobertas ou, em contrapartida, me lancei sem timidez e pudor na busca por novos conhecimentos. O fato \u00e9 que ganha ainda mais sentido a frase \u201cs\u00f3 sei que nada sei\u201d de S\u00f3crates, por indicar ser s\u00e1bio reconhecer a dimens\u00e3o da ignor\u00e2ncia pr\u00f3pria, em clarivid\u00eancia de que quanto mais aprendemos, mais temos por desco- brir. 115","Esta\u00e7\u00f5es da Vida TENHA ATITUDE PARA MUDAR! Tenho ju\u00edzo, mas n\u00e3o fa\u00e7o tudo certo, afinal todo para\u00edso precisa de um pouco de inferno! Martha Medeiros Voc\u00ea j\u00e1 observou o milho e a pipoca? J\u00e1 parou e se deteve alguns minutos pensando um pouco sobre a convers\u00e3o de um no outro? Se n\u00e3o, fa\u00e7a! Se sim, venha comigo! Convido-te a fazer uma viagem reflexiva e me acompanhar na observa\u00e7\u00e3o da muta\u00e7\u00e3o de um no outro por meio de uma experi\u00eancia simples que pode ser rea- lizada com um aparelho de micro-ondas e alguns gr\u00e3os de milho. Logo de cara, chamo sua aten\u00e7\u00e3o para o trivial e sentencio que grandes transforma\u00e7\u00f5es acontecem de dentro para fora. De nada adianta inverter as dimens\u00f5es e se iludir que de fora para dentro teremos sustenta\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e inten\u00e7\u00e3o. Ledo engano! Pense e perceba que o edificado a partir de dentro tem fortes possibi- lidades de ser contundente, forte e abalizado, capaz de suportar intemp\u00e9ries e prova\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o, mais cedo ou mais tarde, e ainda assim ser\u00e3o contidas total ou parcialmente com os mais variados recursos de comba- te: pensamentos, sentimentos, experi\u00eancias, leituras de mundo, pessoas etc. 116","Alisson Dias Gomes Como bem diz o s\u00e1bio autor brasileiro Rubem Al- ves, \u201cmilho de pipoca que n\u00e3o passa pelo fogo continua a ser milho para sempre\u201d, ou seja, sempre passaremos por aquecimento em diversas situa\u00e7\u00f5es da vida, seja no \u00e2mbito pessoal\/social ou no profissional\/relacional; seja em momentos felizes e festivos ou, por sua vez, em oca- si\u00f5es tr\u00e1gicas e desoladoras. E a\u00ed est\u00e1 um ponto inte- ressante, pois em determinados momentos eclodiremos de tal forma que ganharemos nova roupagem, a seme- lhan\u00e7a do milho transmutado em pipoca, com capa im- ponente, chamativa, pronta e capaz de encarar o novo mundo ou, ao contr\u00e1rio, seguiremos como o piru\u00e1, mi- lho de pipoca que se recusa a estourar e despontar para nova realidade. Na vida, a cada dia somos chamados a ser ou viver como milho e pipoca ou, \u00e9 melhor dizer, milho capaz de virar pipoca. Creio que acontece com todos em ocasi\u00f5es e momentos espec\u00edficos da evolu\u00e7\u00e3o de cada ser huma- no. As mudan\u00e7as ocorrem quando passamos pelo aque- cimento\/fogo da vida. Portanto, quem n\u00e3o passa est\u00e1 fadado a viver do mesmo jeito a vida inteira. E o fogo aqui n\u00e3o precisa ser necessariamente dor e sofrimento, embora possa ser (e, muitas vezes, \u00e9), contudo tamb\u00e9m se apresenta como necessidade de mudan\u00e7a, de que- brar certos ciclos, de sair da mesmice, de abandonar a zona de conforto, de desordenar para em seguida colo- car no seu novo e devido lugar. De todo modo, em conversa recente e acalorada com uma amiga, fal\u00e1vamos justamente sobre tudo isso 117","Esta\u00e7\u00f5es da Vida e ela defendia a tese de que sempre \u00e9 poss\u00edvel apagar o fogo! De imediato, me aqueci e apresentei uma ant\u00edte- se, pois sem o fogo a possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o se esvai. Ent\u00e3o, ainda que queime, sou partid\u00e1rio do fogo, pois ele nunca ser\u00e1 eterno. E me reportei a muitas situa- \u00e7\u00f5es reais, vividas por pessoas pr\u00f3ximas e por mim, em que foi preciso arder para se transformar, sem defesas ou bandeiras de mutila\u00e7\u00e3o e deprecia\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o so- mente o reconhecimento de que faz parte da vida. Imaginei a pr\u00f3pria pipoca, fechada dentro do mi- lho, passando pelo aquecimento e tentando resistir \u00e0s mudan\u00e7as, com medo de \u201cmorrer\u201d, acreditando que o desconhecido pode ser devastador. Dentro de sua casca dura, fechada no seu mundo j\u00e1 habitual, \u00e9 poss\u00edvel que ela n\u00e3o imagine um destino diferente para si, mas vale lembrar que ele existe e esta transforma\u00e7\u00e3o requer acei- ta\u00e7\u00e3o e atitude. 118","Alisson Dias Gomes UM TEMPO NA PRAIA Quero ser feliz nas ondas do mar. Quero esquecer tudo, quero descansar. Manuel Bandeira Muitas vezes a gente s\u00f3 precisa parar um pouco. Desacelerar. Deixar de lado as obriga\u00e7\u00f5es e tarefas di\u00e1- rias. Sentir a respira\u00e7\u00e3o de modo mais consciente, es- vaziar a mente. Reservar algumas horas (ou se poss\u00edvel, alguns dias) para se (re)conectar consigo. Renunciar \u00e0 rotina, desligar os alarmes e silenciar o celular. E se tudo der certo, pegar o caminho que leva ao mar... De modo discreto ou estridente vale muito a pena o banho de \u00e1gua salgada para ado\u00e7ar o gosto da vida. Chegar \u00e0 praia cedinho, testemunhar o nascer do sol, ver o movimento cadenciado das ondas do mar no seu eterno vai e vem, sentir a brisa e ouvir o canto dos ven- tos como assobios convidativos para a contempla\u00e7\u00e3o e o deleite da alma s\u00e3o alguns dos melhores recursos para recarregar as energias individuais. Um verdadeiro elixir! Por isso, sempre que poss\u00edvel, arranjo um tempinho (at\u00e9 mesmo dois ou tr\u00eas dias) e \u00f3timas companhias para ir l\u00e1. Em meio a momentos leves ou pesados, simples ou complexos, equilibrados ou desajustados, o mar me entende sem precisar de muito, como numa simbiose de sobreviv\u00eancia, met\u00e1fora biol\u00f3gica para descrever a 119","Esta\u00e7\u00f5es da Vida depend\u00eancia emocional entre as partes, transformando- -me em um ser com cabelo de sal, pele de sol e alma de mar. Creio que n\u00e3o exista terapia mais eficiente do que mergulhar nas ondas do mar e soltar frases ditas aos ven- tos, abrindo espa\u00e7o at\u00e9 mesmo para os pensamentos mais proibidos e ocultos. Neste cen\u00e1rio de nudez vestida, des- cal\u00e7o na areia, com a brisa do fim de tarde no rosto e o isolamento tempor\u00e1rio para contemplar a paisagem, a co- nex\u00e3o com a senhora das \u00e1guas salgadas, Iemanj\u00e1, \u00e9 inevi- t\u00e1vel e revigorante. A respeito dela, vale saber que \u00e9 um orix\u00e1 feminino (divindade africana) das religi\u00f5es Candombl\u00e9 e Umbanda, considerada a padroeira dos pescadores. Segundo a cren- \u00e7a, \u00e9 ela quem decide o destino de todos que entram no mar, sendo a m\u00e3e de quase todos os orix\u00e1s, tem forte liga- \u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es familiares, sendo considerada a deusa do amor. Com sorte e a ajudinha da natureza \u00e9 poss\u00edvel ainda que o c\u00e9u se transforme numa linda tela no fim de tarde, similar \u00e0s obras de arte inspiradas pela beleza e pot\u00eancia da natureza. Com a certeza de que a cada dia ser\u00e3o novos tra\u00e7os, a moldura fica por conta das mentes mais sens\u00edveis e evolu\u00eddas. E para mim inexiste casamento natural mais perfeito que testemunhar o sol dormindo nos bra\u00e7os do mar na hora da fus\u00e3o dia-noite. Al\u00e9m de lindo, \u00e9 relaxante olhar para o horizonte e ver o sol se pondo enquanto es- cutamos m\u00fasicas naturais ou melodias marcantes. 120","Alisson Dias Gomes De fato, aguardamos ansiosos os dias menos con- turbados, quando poderemos aproveitar melhor estes para\u00edsos na terra, sem os receios dos dias atuais, em es- pecial as praias do Nordeste do Brasil, onde podemos caminhar a praia inteira com os p\u00e9s na areia e o cora\u00e7\u00e3o em alto mar, esquecendo um pouco dos desafios di\u00e1rios e das prova\u00e7\u00f5es desconcertantes das nossas lutas indi- viduais e coletivas. Por isso, o amor pelo mar se renova a cada ida, a cada (re)encontro, pois muitos momentos felizes da minha vida foram celebrados ali, antes ou depois de conquistas e mudan\u00e7as como num processo de agrade- cimento ou aconselhamento para as decis\u00f5es a tomar. \u00c9 como se a alma brilhasse como o sol e se tornasse profunda como o mar. 121","Esta\u00e7\u00f5es da Vida PROMOVA A PAZ E SUPLANTE A GUERRA A paz \u00e9 a \u00fanica forma de nos sentirmos realmente humanos. Albert Einstein Em tempos dif\u00edceis e conflituosos vemos sinas evi- dentes da cultura que possu\u00edmos ou estamos inseridos. Ainda que nem todos a tenham na mesma propor\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso identificar e pensar sobre tal cultura de modo individual e coletivo. Ela \u00e9 de paz ou de guerra? Levanto tal questionamento justamente porque h\u00e1 mais de 15 anos ouvia falar da necessidade de uma educa\u00e7\u00e3o voltada para cultura de paz. Desde a etapa de planejamento at\u00e9 a execu\u00e7\u00e3o, tudo deveria ser voltado para a paz. Na \u00e9poca, o pouco entendimento do assun- to bem como a percep\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e natural de que a paz deveria ser o elemento norteador, o ponto de chegada de todos, me faziam pensar que era \u00f3bvia esta caminha- da. Contudo, com os anos e a chegada da maturidade assim como o olhar agu\u00e7ado e a percep\u00e7\u00e3o de mundo com base em viv\u00eancias pessoais e coletivas e o aprimo- ramento da capacidade de observa\u00e7\u00e3o, vejo que muitas vezes n\u00e3o somos educados para a cultura de paz. Ali\u00e1s, permitam-me dizer e aceito contrapontos, somos cons- tantemente instigados ao conflito e ao pouco di\u00e1logo; somos estimulados ao descarte e ao pouco conserto 122","Alisson Dias Gomes (seja para algo material e\/ou humano). E isso obviamen- te revela muito da nossa cultura enquanto elemento so- cial e relacional. Em per\u00edodos de discursos inflamados, de ideologias exacerbadas, de ataques irracionais, de negacionismo cient\u00edfico, de persegui\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas e de silenciamen- tos autorit\u00e1rios, vemos a cultura de paz ser descartada. Justamente aquela que consiste numa vis\u00e3o de mundo que privilegia o di\u00e1logo e a media\u00e7\u00e3o para resolver con- flitos, abandonando atitudes e a\u00e7\u00f5es violentas e respei- tando a diversidade dos modos de pensar e agir. Isto \u00e9, algo pouco comum na na\u00e7\u00e3o brasileira. Quis trazer este t\u00f3pico para discuss\u00e3o por testemu- nhar recentemente amigos se posicionarem de forma t\u00e3o violenta sobre assuntos que poderiam ser aborda- dos e resolvidos por outra \u00f3tica, segundo perspectiva bem particular, a ponto de gerarem desconhecimento dos atores sociais envolvidos. Os olhos aguerridos, as falas intempestivas e os gestos intimidadores evidencia- vam postura de guerra, quando na verdade seria poss\u00ed- vel um di\u00e1logo s\u00f3brio e o entendimento de que o outro pode pensar diferente de mim. Neste contexto, recordei-me que a cultura de paz \u00e9 um conjunto de valores, atitudes, comportamentos e estilos de vida baseados no respeito pleno \u00e0 vida e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e das liberdades fun- damentais, a fim de propiciar o fomento da paz entre as pessoas. Fui al\u00e9m e fiquei pensando: quantas vezes eu fui de paz e\/ou de guerra? Como posso, no meu dia 123","Esta\u00e7\u00f5es da Vida a dia, enquanto cidad\u00e3o e profissional ligado aos seg- mentos da Comunica\u00e7\u00e3o e da Educa\u00e7\u00e3o, promover a cultura de paz? O que tenho feito de modo efetivo para promover o respeito, o di\u00e1logo e a aceita\u00e7\u00e3o mesmo diante do oposto? Tais perguntas est\u00e3o na minha mente nos \u00faltimos dias, pois acredito piamente que todos podem e devem dar sua contribui\u00e7\u00e3o para a cultura de paz, seja para si como tamb\u00e9m para o mundo: em casa, nas comunida- des, nas organiza\u00e7\u00f5es etc. Para tanto, \u00e9 indispens\u00e1vel que promovamos a n\u00e3o-viol\u00eancia, a toler\u00e2ncia, o di\u00e1- logo, a reconcilia\u00e7\u00e3o, a justi\u00e7a e a solidariedade em ati- tudes cotidianas, por meio de exemplos e de conversas que visem entender as condutas e posturas diante das situa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias e diversas. Consciente de se tratar de uma tarefa dif\u00edcil concla- mo a todos a pensarem sobre a cultura de paz e suplan- tarem de uma vez por todas o \u00f3dio e a guerra. 124","Alisson Dias Gomes PAZES FEITAS COM O ESPELHO O mundo \u00e9 um espelho, pois se sorrires para ele,ele sorrir\u00e1 para ti. Gustave Le Bom Para muitas pessoas o espelho vai muito al\u00e9m de um simples objeto de reflexo e de visualiza\u00e7\u00e3o de si. Fa\u00e7o esta considera\u00e7\u00e3o por ter observado, especialmente nas duas \u00faltimas semanas, como nos relacionamos com ele e quais frutos s\u00e3o gerados desta proje\u00e7\u00e3o. Tudo se deu de forma mais consciente ap\u00f3s uma provoca\u00e7\u00e3o saud\u00e1- vel e pertinente de uma reportagem televisiva que fala- va sobre imagem e autoimagem para si e para o mundo. Em conversa com amigas pr\u00f3ximas em momen- tos distintos, duas delas comentavam sobre sua rela\u00e7\u00e3o com o espelho e a autoimagem. Enquanto Maria, com mais de 60 anos e algumas marcas e cicatrizes da vida, opta por n\u00e3o se ver, j\u00e1 tendo tido vontade de retirar os espelhos do apartamento por diversas vezes ou simples- mente cobri-los com panos, deparo-me com Joana, aos 30 e poucos anos, entusiasmada, em fase de empodera- mento e reconhecimento de si e de todas as suas pecu- liaridades. Posturas diferentes diante do mesmo objeto levando em conta singularidades e subjetividades assim como o pr\u00f3prio momento de vida em que nos sentimos mais (ou menos) confort\u00e1veis com o que vemos. 125","Esta\u00e7\u00f5es da Vida Em raz\u00e3o destas conversas e levando em conta a forte tend\u00eancia a refletir com frequ\u00eancia sobre inquieta- \u00e7\u00f5es individuais, me pus a pensar: quantas vezes tive (ou tenho) rela\u00e7\u00f5es conflituosas com o espelho? Seja por algo bem particular, fruto da minha mente, viv\u00eancia e percep\u00e7\u00e3o de mundo, ou por algo contextual, fruto da moda e \u00e9poca espec\u00edfica que acabam ditando e inter- ferindo na exist\u00eancia das pessoas em sociedade, ainda que possa ser tempor\u00e1rio. Claramente recordo-me de momentos em que os conflitos pareciam quase armados e o espelho era incapaz de arrancar sorrisos ou expres- s\u00f5es de acolhida. Em contraponto, quando superados estes tensionamentos, ele se tornou um aliado e motivo de autoconhecimento, contribuindo de modo decisivo para o estar bem consigo. O fato \u00e9 que este objeto t\u00e3o presente e popular no dia a dia tem ganhado dimensionamentos maiores. An- tes, eram basicamente exclusivos de banheiros e quar- tos depois passaram a ser tamb\u00e9m pe\u00e7as de decora\u00e7\u00e3o de varandas, salas e demais c\u00f4modos, vindo por \u00faltimo a serem incorporados aos celulares (smartphones). Por sinal, quanto impacto provocam por estarem ali acess\u00ed- veis quase o tempo todo considerando o pr\u00f3prio papel que os aparelhos eletr\u00f4nicos assumiram em nossas vi- das. E, neste contexto de hiper valoriza\u00e7\u00e3o da imagem projetada\/real em que somos constantemente induzi- dos a olhar com rigor e \u00eanfase para a nossa apar\u00eancia \u00e9 muito comum nos acharmos e nos perdermos. Qua- 126","Alisson Dias Gomes se de modo simult\u00e2neo e instant\u00e2neo! Passamos a viver dias de sorrisos e\/ou de l\u00e1grimas, expressamos olhares acolhedores ou taxativos e deixamos de ir al\u00e9m do f\u00edsico e material sem reconhecer que a maior beleza est\u00e1 al\u00e9m daquilo que \u00e9 refletido. Ali\u00e1s, tenho aprendido a cada dia e com alguns amigos bem mais s\u00e1bios que eu que a maior beleza est\u00e1 guardada no cora\u00e7\u00e3o e na capacidade de ser completo com o que somos: virtudes, imperfei- \u00e7\u00f5es, fortalezas e fragilidades, aprendizados, desejos... Com isso, vemos que a nossa conviv\u00eancia e rela\u00e7\u00e3o com o espelho se dar\u00e1 num contexto de paz a depender da nossa mente, muito mais do que nosso rosto e corpo, pois como o psic\u00f3logo franc\u00eas Gustave Le Bom indica, \u201co mundo \u00e9 um espelho, pois se sorrires para ele, ele sorrir\u00e1 para ti\u201d. Da\u00ed porque o atual desafio tem reca\u00eddo no sorrir mais para vida e para si, ainda que seja neste momento diante do espelho, e de modo provis\u00f3rio ten- do em vista tudo que se passa no Brasil e no mundo. 127","Esta\u00e7\u00f5es da Vida CONVITE SOL Depois de \u201cdecifrar\u201d o segundo conjunto de textos, com mais 15 considera\u00e7\u00f5es altamente subjetivas sobre a vida e diversas experi\u00eancias, lhe convido a contemplar a Esta\u00e7\u00e3o Ver\u00e3o Musical por meio do QR code. \u00c9 uma nova playlist com mais 15 m\u00fasicas seleciona- das a dedo e que possuem rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com as praias, os mares e os s\u00f3is degustados por este autor mundo afora. Foram nomeadas por possu\u00edrem defini\u00e7\u00f5es singu- lares e serem merecedoras de contempla\u00e7\u00e3o: Menina solta I don\u00b4t care Assim que se faz Giulia Be Ed Sheeran e Justin Bieber Luciana Mello Summer If I can\u2019t have you Treasure Clavin Harris Shawn Mendes Bruno Mars Girassol O segundo sol Rehab Priscila Alc\u00e2ntara e C\u00e1ssia Eller Amy Winehouse Whindersson Nunes Codinome beija-flor A cor \u00e9 rosa Adrenalizou Cazuza Silva Vitor Kley \u00c1guas de mar\u00e7o Porque eu te amo Brisa Ant\u00f4nio Carlos Jobim Anavit\u00f3ria Iza 128","Alisson Dias Gomes Imagine cada texto e cada m\u00fasica como se degustasse um drink saboroso, como um bom bloody mary, uma refres- cante pi\u00f1a colada, um gosto- so mojito, caipirinha, daiquiri, margarita, sunrise, clericot e\/ ou coquet\u00e9is. Bons sentidos! 129","","","","A VIDA E EU Tente mover o mundo o primeiro passo ser\u00e1 mover a si mesmo. Plat\u00e3o Em meio a rela\u00e7\u00f5es vol\u00e1teis, supremacia da instantaneidade, valoriza\u00e7\u00e3o do passageiro, esquecimento das biografias, desapego excessivo e notoriedade fugaz, penso nos encontros da vida, por circunst\u00e2ncias variadas, em momentos diversos. Encontros com pessoas distintas: de amigos da escola, irm\u00e3os, colegas de trabalho, amores, parentes distantes, conhecidos da rua e meios sociais a advers\u00e1rios competitivos. A vida e seus encontros! Alguns bons, outros, nem tanto, mas todos necess\u00e1rios para nossa evolu\u00e7\u00e3o humana. O cotidiano causticante, as exig\u00eancias da contem- poraneidade e a troca de valores em tempos de redes digitais, fazem com que o cultivo seja substitu\u00eddo pela colheita. A invers\u00e3o \u00e9 quase imediata. Diria at\u00e9 que con- dicionante de sucesso e fama. A pressa se coloca mui- tas vezes no lugar da espera. A apura\u00e7\u00e3o \u00e9 abandonada pelo ultimato e condena\u00e7\u00e3o. E assim vivemos, envoltos em uma avalanche de press\u00f5es, mudan\u00e7as e novos h\u00e1- bitos. Alguns dos quais question\u00e1veis ou pelo menos pass\u00edveis de serem revistos.","Esta\u00e7\u00f5es da Vida Para exemplificar um pouco: no dia do anivers\u00e1rio, j\u00e1 n\u00e3o falamos mais com os celebrantes, substitu\u00edmos o encontro f\u00edsico, regado de abra\u00e7os e beijos, por liga\u00e7\u00f5es e quando n\u00e3o, na atualidade, mensagens via WhatsApp; a leitura de livros cl\u00e1ssicos ou modernos \u00e9 trocada por resumos e an\u00e1lises sucintas e superficiais; as refei\u00e7\u00f5es e todos os rituais que envolvem esses momentos s\u00e3o substitu\u00eddos por fast foods, muitas vezes desprovidas de di\u00e1logos e partilhas, A vida segue num ritmo pouco con- vidativo a reflex\u00f5es. Atribuir responsabilidade ao tempo, aos outros, \u00e0s modas e modismos, \u00e0 sociedade e ao sistema \u00e9 jogar para cima o que estamos fazendo de nossas vidas. \u00c9 deixar o \u201ceu\u201d de lado e d\u00e1 espa\u00e7o para o mundo, mui- tas vezes. Consequentemente, isso tamb\u00e9m ocorre nas a\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es. Como um amigo exp\u00f4s recentemente: \u201ctudo na vida tem o poder e a import\u00e2ncia que a gente d\u00e1\u201d. Derivada desta reflex\u00e3o, de autoria desconhecida, mas que naquele momento se emprega a ele e a mim, a todos n\u00f3s, questionamentos emergem quase como pr\u00e1- tica filos\u00f3fica: O que estamos fazendo de nossas vidas? O que queremos? Aonde chegaremos? Por que agimos deste modo quando gostar\u00edamos de fazer o contr\u00e1rio? Perguntas e mais perguntas. Poucas respostas. No ambiente familiar, social ou profissional, somos estimulados com frequ\u00eancia a agir conforme as conve- ni\u00eancias, determinadas pelo consenso ou \u201cbom senso\u201d. O ser perde espa\u00e7o para o ter. A naturalidade sai de cena e o engessamento reina soberano. A compreens\u00e3o 134","Alisson Dias Gomes mostra-se pequena diante da intoler\u00e2ncia; o ac\u00famulo e a ostenta\u00e7\u00e3o se notabilizam como priorit\u00e1rios diante do investimento pessoal e do amadurecimento. Independentemente de origem, idade, g\u00eanero, classe social etc., \u00e9 poss\u00edvel ressignificar a vida. \u00c9 pro- v\u00e1vel que um dos primeiros passos a ser dado seja o de olhar para si, de modo generoso, humilde, complacente e questionador. O olhar vai al\u00e9m do simples ato de se ver e exige mergulho complexo e denso em si, a ponto de lhe pedir tempo e paci\u00eancia, para que novas respos- tas sejam dadas a poss\u00edveis e velhas perguntas. Desafios existem e existir\u00e3o, ainda que falas, como a de uma m\u00e3e preocupada e atenta ao filho, ao senten- ciar: \u201ccobre-se menos e relaxe mais\u201d, soem com aperto de m\u00e3os e demonstra\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se est\u00e1 sozinho diante dos desafios e dilemas da vida contempor\u00e2nea. Por isso, sempre vale a pena pensar e repensar. 135","Esta\u00e7\u00f5es da Vida O SIL\u00caNCIO FALA O mundo \u00e9 um livro, e quem fica sentado em casa l\u00ea somente uma p\u00e1gina. Santo Agostinho A comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma necessidade b\u00e1sica entres os seres, sejam humanos ou n\u00e3o. Aprender a silenciar \u00e9 tarefa di\u00e1ria. No nosso caso, na maioria das vezes, fa- lamos por palavras, articuladas e projetadas pela voz, mas tamb\u00e9m por gestos e express\u00f5es, provenientes do corpo, de maneira espont\u00e2nea ou artificial. Falamos sem falar. Falamos com o corpo. O olhar revela tanto que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma \u00fanica palavra. Seja num momento festivo ou triste, num ambiente de tra- balho ou de fam\u00edlia. Falamos o tempo todo. Em tempos de avan\u00e7os digitais, a comunica\u00e7\u00e3o fi- cou ainda mais estimulada e promovida. Somos conec- tados a um mundo que pede vez e voz, que muitas ve- zes n\u00e3o nos deixa desconectar, pois isso n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel. A cada dia paramos menos para ouvir, na concretude do significado do verbo, perceber os sons pelo sentido da audi\u00e7\u00e3o. O falar ganha literalmente voz. A capacidade de ouvir perde for\u00e7a. As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o variadas: uma mensagem de Wha- tsApp, enviada por uma amiga, que n\u00e3o pode esperar, precisa ser respondida de imediato, principalmente ap\u00f3s 136","Alisson Dias Gomes ter sido visualizada; uma liga\u00e7\u00e3o num hor\u00e1rio impr\u00f3prio, mas que ainda assim deve ser atendida; um e-mail enca- minhado com o t\u00edtulo de urg\u00eancia... Nada pode esperar, a n\u00e3o ser a sua necessidade de silenciar. Nesta dire\u00e7\u00e3o, o estar sozinho \u00e9 visto muitas vezes como algo conden\u00e1vel, aproximando-se de um indicati- vo de tristeza ou depress\u00e3o, quando, na verdade, pode ser um desejo de solitude, que consiste no pleno con- tato consigo mesmo. Isto \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 a necessidade de estar sempre em companhia de outras pessoas e n\u00e3o h\u00e1 solid\u00e3o por isso. Muito pelo contr\u00e1rio, se falamos tanto com o mundo, por diversos motivos, por que n\u00e3o de- vemos falar conosco? Termos o nosso tempo de fala e de escuta. Afinal, antes mesmo de falar com o mundo, \u00e9 muito bom falar com o nosso \u00edntimo, brindar nossa alma com uma escuta privilegiada. Aprender a silenciar \u00e9 tarefa di\u00e1ria, \u00e9 exerc\u00edcio de maturidade n\u00e3o associado \u00e0 idade, mas a consci\u00eancia. Tomo a liberdade de dizer que n\u00e3o existe melhor forma de nos comunicar do que silenciando. Ainda mais se for de modo intencional, controlado e resiliente. Si- l\u00eancio sem opress\u00e3o! Sil\u00eancio sem restri\u00e7\u00e3o! Deixar os pensamentos comunicarem \u00e0 alma a ne- cessidade de ver ou rever sensa\u00e7\u00f5es, sentimentos e si- tua\u00e7\u00f5es. Creio que \u00e9 poss\u00edvel falar com a alma, pois exis- tem tantas formas de comunica\u00e7\u00e3o. Por sinal, ganham for\u00e7a na contemporaneidade os resgates de pr\u00e1ticas milenares, amplamente disseminadas em algumas cul- turas e na\u00e7\u00f5es, a exemplo da medita\u00e7\u00e3o e do autoco- 137","Esta\u00e7\u00f5es da Vida nhecimento, recomendados n\u00e3o s\u00f3 por tradi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m para curas espirituais e f\u00edsicas por \u00e1reas diver- sas das Ci\u00eancias. Falamos por telepatia, muitas vezes, com familiares e amigos, que leem nossos pensamentos, mesmo quan- do n\u00e3o pronunciamos uma \u00fanica palavra ou evidencia- mos um \u00fanico gesto; falamos com os mortos\/desen- carnados quando recordamos, oramos e bem dizemos ensinamentos ou momentos; falamos com os animais e as plantas quando cuidamos e, principalmente, somos cuidados... De fato, o sil\u00eancio fala t\u00e3o bem quanto os melhores discursos. O grande desafio est\u00e1 em reconhe- cer e praticar; em desligar-se e desacelerar. Como uma vez afirmou o autor estadunidense Henry David Tho- reau, \u201co sil\u00eancio \u00e9 a comunh\u00e3o de uma alma consciente consigo mesma\u201d, da\u00ed porque silenciar tem sido t\u00e3o reco- mendado para mentes e cora\u00e7\u00f5es em evolu\u00e7\u00e3o. 138","Alisson Dias Gomes A RELATIVIDADE DA VIDA O que n\u00e3o provoca minha morte faz com que eu fique mais forte. Friedrich Nietzsche Conviver com pessoas que pensam de modo diferente, que escolhem e priorizam outras necessidades, que seguem caminhos distintos \u00e9 t\u00e3o bom quanto estar ao lado dos que compartilham interesses comuns. \u00c9 extremamente rico e indispens\u00e1vel para o desenvolvimento individual e coletivo, em prol de uma sociedade plural e civilizada. Unanimidade nunca foi nem ser\u00e1 boa, pois somos seres particulares, com repert\u00f3rios de vida e experi\u00eancias \u00fanicas, ainda que tenhamos vivido situa\u00e7\u00f5es parecidas. Unanimidade \u00e9 sempre resultado de silenciamento e repress\u00e3o, pois o pensamento n\u00e3o \u00e9 un\u00edssono e, na pr\u00e1tica, o medo (ou a impossibilidade de manifestar-se) n\u00e3o pode ser o elemento balizador da nossa exist\u00eancia. Afinal, j\u00e1 dizia Nelson Rodrigues: \u201ctoda a unanimidade \u00e9 burra\u201d. Isso se aplica a tudo, desde as inclina\u00e7\u00f5es pol\u00edtico- -partid\u00e1rias at\u00e9 as cren\u00e7as religiosas e comportamentais (padr\u00f5es e condutas), passando por interesses culturais (com gostos e predile\u00e7\u00f5es), por h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas do cotidiano, por conceitos est\u00e9ticos e valores financeiros etc. Em outras palavras, tudo \u00e9 relativo! Minha percep- 139","Esta\u00e7\u00f5es da Vida \u00e7\u00e3o do belo n\u00e3o necessariamente \u00e9 a sua, podendo existir pontos de concord\u00e2ncia bem como o contr\u00e1rio; a import\u00e2ncia do dinheiro para um amigo n\u00e3o ser\u00e1 exata- mente a mesma que voc\u00ea d\u00e1; a conex\u00e3o espiritual, a ten- d\u00eancia pol\u00edtica, a concep\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia, a rela\u00e7\u00e3o com os animais, entre outros, pode variar a depender de aspec- tos individuais, coletivos e, at\u00e9 mesmo, transcendentais (caso voc\u00ea creia, \u00e9 claro!). Da\u00ed porque o mais apropriado ser\u00e1 sempre a con- viv\u00eancia pac\u00edfica ou, pelo menos, a tentativa de ajustes e enquadramentos a fim de alcan\u00e7ar harmonia. Reconhe- cer-se com uma figura pol\u00edtica, com uma ideologia ou iniciativa n\u00e3o est\u00e1 errado, desde que voc\u00ea se porte e te- nha o respeito como elemento de liga\u00e7\u00e3o com as outras pessoas. Posicionar-se de modo civilizado e ponderado \u00e9 um desafio em tempos de polariza\u00e7\u00e3o, autoritarismo, di\u00e1logo minguado, dissemina\u00e7\u00e3o de \u00f3dio e pr\u00e1ticas de descarte e desprezo. A toler\u00e2ncia e o entendimento de que o outro pode pensar e ser diferente devem ser estimulados desde cedo, ainda no seio familiar, antes de irmos para as es- feras p\u00fablicas, abertas e coletivas (escolas, institui\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es, ambientes de trabalho etc.). Em clara con- firma\u00e7\u00e3o ao defendido por Voltaire: \u201cposso n\u00e3o concor- dar com nenhuma das palavras que voc\u00ea disser, mas de- fenderei at\u00e9 a morte o direito de diz\u00ea-las\u201d, tributo todos os aplausos por defesa t\u00e3o cab\u00edvel, em especial na so- ciedade contempor\u00e2nea. Contudo, excluo discursos de \u00f3dio que alimentem pr\u00e1ticas de exclus\u00e3o e exterm\u00ednio. 140","Alisson Dias Gomes Por certo, conviver com o distinto e reconhecer a relatividade da vida n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil. N\u00e3o se conse- gue de uma hora para outra, n\u00e3o se trata de um bem compr\u00e1vel em espa\u00e7os de comercializa\u00e7\u00e3o... Contudo, \u00e9 algo fundamental e inadi\u00e1vel. N\u00e3o podemos deixar para o futuro, \u00e9 preciso come\u00e7ar hoje para que amanh\u00e3 as sementes germinem e se tornem \u00e1rvores frondosas e frut\u00edferas e, assim, mudemos a configura\u00e7\u00e3o que temos ultimamente. Isso se aplica a todos, nas mais variadas realidades, nos mais diferentes e long\u00ednquos povos e na\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 exclusividade do Brasil! Sendo assim, muitas situa\u00e7\u00f5es exemplificam o pro- clamado at\u00e9 aqui, como a m\u00e3e que precisa reconhecer e aceitar a forma de vida da filha, ainda que seja diferente do que ela previa e desde que isso n\u00e3o resulte em a\u00e7\u00e3o destrut\u00edvel e reprov\u00e1vel em termos legais e humanos; o amigo que deve entender e aceitar quando a amiga nu- tre interesse e sentimento distintos; os colegas de tra- balho que devem se respeitar ainda que discordem das escolhas e filia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas... \u00c9 t\u00e3o interessante pensar sobre o tema associando- -o ao dia a dia, pois sou levado a conversas triviais, em que noto desde situa\u00e7\u00f5es simples at\u00e9 mais complexas, o que defende sabiamente Santo Agostinho: \u201cna ess\u00eancia somos iguais, nas diferen\u00e7as nos respeitamos\u201d. Isto \u00e9, de maneira an\u00e1loga e provocativa: o que seria do azul se todos gostassem do vermelho? 141","Esta\u00e7\u00f5es da Vida C\u00c9U DE ESTRELAS NA PRAIA Nada \u00e9 permanente, exceto a mudan\u00e7a. Her\u00e1clito A rela\u00e7\u00e3o entre o mar e eu \u00e9 forte, t\u00e3o forte, que se torna imprescind\u00edvel para a continuidade da vida com bem-estar. Trata-se de um daqueles lugares em que o corpo e a alma se realinham num processo de troca, equil\u00edbrio e fortalecimento. A cada ida \u00e0 praia, novas e boas sensa\u00e7\u00f5es; a cada entrada no mar, descanso e al\u00edvio; a cada vento no rosto e no corpo, liberdade e fluidez. Tudo sentido de forma intensa e revigorante a ponto fazer um bem quase indescrit\u00edvel e trazer bene- f\u00edcios duradouros diante da rotina extenuante da con- temporaneidade. Embora n\u00e3o seja unanimidade \u2014 tem quem n\u00e3o goste de nada que faz parte do mundo praia (sol, mar, sal, terra, vento etc.) \u2014, \u00e9 preciso reconhecer a for\u00e7a e a grandiosidade desse local quase sagrado para muitos indiv\u00edduos, entre os quais me incluo. Muitas pessoas se dirigirem \u00e0 praia e ao mar, em especial, quando est\u00e3o felizes ou tristes, introspectivas ou expansivas, sozinhas ou em grupos, em momentos emblem\u00e1ticos ou habi- tuais, para celebrar e exorcizar sentimentos e impres- s\u00f5es, num processo de renova\u00e7\u00e3o, catarse e\/ou desape- go. Seja numa praia badalada e urbanizada de alguma 142","Alisson Dias Gomes grande cidade do mundo ou, ao contr\u00e1rio, numa praia deserta e altamente preservada de algum vilarejo, o contato com a natureza surte efeitos surpreendentes, desde que voc\u00ea esteja aberto a perceb\u00ea-los. No caso do Brasil, o privil\u00e9gio de ter uma longa \u00e1rea, de norte (Amap\u00e1) a sul (Rio Grande do Sul), com mais de 7,3 mil quil\u00f4metros de litoral, faz com que exis- ta uma tend\u00eancia para rela\u00e7\u00e3o mais intensa com o mar, tanto que em muitas \u00e9pocas, estas zonas s\u00e3o altamente disputadas: f\u00e9rias escolares, feriados prolongados, car- naval e fim de ano. Neste contexto, o habitual \u00e9 ir \u00e0 praia ao longo do dia, em especial nas primeiras horas para testemunhar a aurora (nascer do sol) e desfrutar dos momentos seguin- tes e suas in\u00fameras possibilidades: contemplar o mar, caminhar, correr, ler, ouvir m\u00fasica, bronzear-se, brincar, fotografar, conversar com amigos e amores, degustar a culin\u00e1ria t\u00edpica etc. E vale destacar que o p\u00f4r do sol \u00e9 disputad\u00edssimo, em in\u00fameras praias do mundo, pela beleza est\u00e9tica e pelas cren\u00e7as espirituais. Ali\u00e1s, o pro- tagonismo deste momento \u00e9 quase incontest\u00e1vel, pois o fato do p\u00f4r do sol ser mais brilhante do que o nascer, em raz\u00e3o do matiz de vermelho e laranja (arrebol) ser mais vibrante, acaba gerando maior encantamento em muitas pessoas. Por certo acreditamos e confirmamos o dito at\u00e9 este ponto. De todo modo, sugerimos uma experi\u00eancia diferente, ainda que seja no mesmo local. Ser\u00e3o outras sensa\u00e7\u00f5es e, possivelmente, algumas delas complemen- 143","Esta\u00e7\u00f5es da Vida tares \u00e0s percebidas com as luzes do dia. V\u00e1 \u00e0 praia \u00e0 noite, sozinho ou acompanhado. Contemple as estrelas deitado ali por alguns minutos, ao melhor estilo ca\u00e7ador de astros. Escute o sussurro dos ventos e veja o mar distante, como se descansara para nos brindar com sua imensid\u00e3o no outro dia. Sem precisar de roupas de ba- nho (ou curtas), nem protetor solar, \u00e9 mais tranquilo, com menos gente, menos barulho, com espa\u00e7o para to- dos, de modo t\u00e3o convidativo, que \u00e9 poss\u00edvel que role at\u00e9 mesmo um mergulho. Em recente experi\u00eancia, vivida numa noite de s\u00e1- bado, depois das dez horas, na praia de Barra Grande (Piau\u00ed), vi como o compositor Armandinho est\u00e1 certo ao afirmar: \u201ce hoje eu caminhei a praia inteira. Com os p\u00e9s na areia, cora\u00e7\u00e3o em alto mar\u201d, em clara evid\u00eancia de que \u00e9 no poder do mar e da praia que encontro as ener- gias que preciso para me sentir em paz e seguir a vida, aprendendo a cada novo dia ou nova noite. 144","Alisson Dias Gomes ONTEM, CHOREI! Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar. Katherine Mansfield As l\u00e1grimas ca\u00edram e nem me dei conta. A saudade apertou, o f\u00f4lego faltou, a lembran\u00e7a cresceu e o desejo partiu. Sem saber como lidar com o que estava guarda- do no reposit\u00f3rio da mente e no arquivo do cora\u00e7\u00e3o, a \u00e2nsia de extravasar foi maior e a materialidade do dese- jo veio \u00e0 tona. A vontade foi maior que o controle! A cal- maria deu espa\u00e7o tempor\u00e1rio para um furac\u00e3o de emo- \u00e7\u00f5es! O \u00edmpeto de externar imp\u00f4s-se sorrateiramente diante do equil\u00edbrio frequente! Sentado, sozinho, depois do p\u00f4r do sol, na sala do apartamento, diante do barulho do sil\u00eancio, contem- plando o leve sopro do vento, observando o p\u00e1ssaro pousado na \u00e1rvore desnuda, chorei. O choro de al\u00edvio! O choro de mergulho interior! O choro de paz! Lembrei quase de modo autom\u00e1tico que o choro da alma \u00e9 livre e espont\u00e2neo; manifesta-se na face e re- presenta muito mais do que as got\u00edculas de l\u00e1grimas que caem. Muitas vezes, simboliza alegria, lembran\u00e7a, desejo, sonho e saudade. Contudo, existem pessoas que pensam o contr\u00e1rio, que o choro \u00e9 tristeza, perturba- \u00e7\u00e3o, agonia e ang\u00fastia. Ah, o choro! Pode ser um rem\u00e9- dio para tantos, em t\u00e3o variadas circunst\u00e2ncias, que n\u00e3o 145","Esta\u00e7\u00f5es da Vida deve ser reprimido. Do mesmo modo, nem sempre o choro precisa ser explicado e dissecado. Pode ser vivi- do de modo simples ou intenso assim como um abra\u00e7o apertado, em que eu me envolvo com o outro ou comi- go \u2013 dentro da redund\u00e2ncia liter\u00e1ria poss\u00edvel. Existem cheiros, imagens, recorda\u00e7\u00f5es, falas e pensamentos que provocam choro. Choro de liberdade! Choro de expuls\u00e3o! Choro de ressignifica\u00e7\u00e3o! Choros de (re)encontro! Quase na mesma medida, ainda que em \u00e9pocas e locais possivelmente distintos, existem sil\u00eancios, pausas, d\u00favidas e anseios que arrefecem faces e cora\u00e7\u00f5es; blindam sensa\u00e7\u00f5es e personalidades, fazendo com que poetas, cantores, atores, literatas (ou \u201cpobres\u201d mortais, como eu) percebam no choro evid\u00eancias de que se vive com plenitude. J\u00e1 chorei diante da saudade sentida, da homenagem prestada, da conquista alcan\u00e7ada, da despedida amarga ou doce, do voo levantado, do desfazer-se permanente, do elogio professado, do incentivo manifesto, do sentir pulsante, do texto escrito... Ah, texto e choro; choros e textos (no plural)! Quantos j\u00e1 foram escritos? Quantos ainda ser\u00e3o? Dentro de uma l\u00f3gica dial\u00e9tica e complementar, infind\u00e1vel e constante, t\u00edpica dos que vivem com as palavras rela\u00e7\u00f5es de manifestos existenciais, textos s\u00e3o constru\u00eddos e eternizados desta forma. Nesta realidade variante e variada, atrevo-me a dizer que tenha quem chore com palavras; quem chore com l\u00e1grimas e quem consiga mesclar l\u00e1grimas e palavras num choro de vida. 146","Alisson Dias Gomes Muito distante de tristezas ou de amarguras, o choro pode estar presente em nossas vidas como o sorriso, como o olhar e como o toque, confirmando o dito pelo grande Bob Marley, cantor, guitarrista e compositor jamaicano: \u201calgumas lembran\u00e7as s\u00e3o confusas: umas me fazem rir, quando lembro que chorei. Outras me fazem chorar, quando lembro que rimos juntos\u201d. Por isso, ontem, chorei! Sem medo, sem vergonha, deixei que as l\u00e1grimas hidratassem minha face num processo de al\u00edvio espiritual e humano. 147","Esta\u00e7\u00f5es da Vida DA AGITA\u00c7\u00c3O FREN\u00c9TICA \u00c0 CALMARIA DE UMA REDE Viver \u00e9 acalentar sonhos e esperan\u00e7as, fazendo da f\u00e9 a nossa inspira\u00e7\u00e3o maior. \u00c9 buscar nas pequenas coisas, um grande motivo para ser feliz! Mario Quintana Marcelo costuma ter uma vida agitada de segun- da-feira a s\u00e1bado. Quase sempre \u00e9 assim, com muitos compromissos e responsabilidades; muitas liga\u00e7\u00f5es, conex\u00f5es sociais e obriga\u00e7\u00f5es a cumprir. Algumas des- tas s\u00e3o previs\u00edveis em raz\u00e3o do trabalho numa empresa privada h\u00e1 quase 12 anos e por seu estilo de vida pro- gramado e relativamente \u201ccontrolado\u201d. De todo modo, outras solicita\u00e7\u00f5es surgem ao acaso, a depender da se- mana e das demandas institucionais e familiares, entre elas encontros com amigos \u2013 seja de modo virtual ou presencial \u2013 para afagos no cora\u00e7\u00e3o, confid\u00eancias e de- sabafos. Em meio \u00e0 correria do cotidiano e a proximidade do fim de ano que ter\u00e1 muitas particularidades em 2020, entre elas a suspens\u00e3o das aglomera\u00e7\u00f5es para festivida- des e confraterniza\u00e7\u00f5es, Marcelo aceitou o convite de sua irm\u00e3 mais velha, Maria, para uma pausa de tr\u00eas dias na praia ao lado do marido Jos\u00e9, do filho Jesus e de mais dois parentes. Na programa\u00e7\u00e3o, nada e tudo ao 148","Alisson Dias Gomes mesmo! Parece contradit\u00f3rio, mas \u00e9 f\u00e1cil explicar e en- tender: ao mesmo tempo em que se poderia fazer quase tudo, guardadas as orienta\u00e7\u00f5es de isolamento e distan- ciamento social em raz\u00e3o da pandemia de covid-19, o nada seria o carro-chefe deste reencontro, ap\u00f3s quase nove meses afastados. Foram estabelecidas algumas regras b\u00e1sicas como a inexist\u00eancia de contato com outras pessoas, a n\u00e3o ser aquelas que dividiriam com ele os tr\u00eas dias \u00e0 beira da praia numa casa ampla e com vista privilegiada, e o acordo de descartar idas a barracas de praia, bares e restaurantes. Intera\u00e7\u00e3o externa zero! Na verdade, o grande intuito seria estar junto, entre poucos, e refor\u00e7ar os la\u00e7os que os unem num mergulho profundo de amor. Sem hor\u00e1rios r\u00edgidos para o cumprimento das ta- refas di\u00e1rias, o despertar poderia ser \u00e0s 5h da manh\u00e3 num dado dia para contemplar a beleza do nascer do sol e o horizonte natural bem como \u00e0s 10h da manh\u00e3 no dia seguinte. O almo\u00e7o poderia ocorrer \u00e0s duas da tarde depois de horas de banho no mar seguido de uma siesta (cochilo) de uma hora, algo incomum na vida de- les. Tudo livre! Tomar banho de mar, caminhar na areia da praia, jogar cartas e domin\u00f3, ouvir m\u00fasica, comer sem restri- \u00e7\u00f5es e rigores, conversar trivialidades e contar lorotas, ler hist\u00f3rias em quadrinho da Turma da M\u00f4nica para o sobrinho de cinco anos, deitar-se numa rede sossegado para balan\u00e7ar-se enquanto escuta o canto dos ventos e contempla a beleza das ondas do mar... Este foi o esbo- 149","Esta\u00e7\u00f5es da Vida \u00e7o resumido de tudo que Marcelo teve ao longo de tr\u00eas dias enchendo o cora\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o. E vale dizer que a maioria das atividades veio acom- panhada de chamego, abra\u00e7os, beijos e toques carinho- sos fazendo com que o mundo agitado e o celular ficas- sem de lado, em segundo plano, sendo utilizado poucas vezes t\u00e3o somente para registrar e eternizar momentos, a exemplo de um dengo bom compartilhado numa rede entre Marcelo e Jesus, quando entre as muitas confid\u00ean- cias revelou-se a alegria de estarem juntos e o desejo de que, em 2021, isto ocorresse com mais frequ\u00eancia e intensidade. Com o otimismo renovado, as energias recarrega- das e o desejo m\u00fatuo, planos come\u00e7aram a ser tra\u00e7ados ali, algumas confabula\u00e7\u00f5es ganharam for\u00e7as e sinais de que se concretizariam tamb\u00e9m, pois o mais importante havia sido estabelecido, o querer. Sabe aquele estudo livre do calend\u00e1rio com os compromissos profissionais e familiares, pois foi por a\u00ed que Marcelo come\u00e7ou a pen- sar no ano que se aproxima tendo 20 dias pela frente para ruptura completa. Sem deixar de viver o hoje, mas pensando tamb\u00e9m e sempre no amanh\u00e3, impregnado de esperan\u00e7a e desejos de renova\u00e7\u00e3o, ele e sua fam\u00edlia acreditam piamente em tempos melhores. 150"]
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