AS BASES DA LEITURA Um olhar Neuropsicopedagógico
Neuropsicopedagogia Em meados de 2008, a neurociência pode contar com uma nova ciência, se trata de Neuropsicopedagogia que é definida pela SBNPp (Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia) como: [...] uma ciência transdisciplinar, fundamentada nos conhecimentos da neurociência aplicada à educação, com interfaces da pedagogia e psicologia cognitiva que tem como objeto formal de estudo a relação entre o funcionamento do sistema nervoso e a aprendizagem humana numa perspectiva de reintegração pessoal, social e educacional. a partir da identificação, do diagnóstico, da reabilitação e da prevenção de dificuldades e distúrbios da aprendizagem. (SBNPp, 2014).
Neuropsicopedagogia A Neuropsicopedagogia é chave principal para auxiliar os alunos principalmente com transtornos específicos de aprendizagem em suas dificuldades apresentadas desde o início da vida escolar. Dois dos principais transtornos que afetam a aprendizagem das crianças desde o início da vida escolar é a leitura e a escrita.
Neuropsicopedagogia O transtorno da leitura é caracterizado por A maior parte das crianças aprende sem maiores dificuldades específicas na compreensão de palavras problemas, já outras apresentam dificuldades na escritas, e neste caso é um transtorno específico das aquisição principalmente da leitura e da escrita e no competências leitoras. O transtorno da expressão desenvolvimento dessas habilidades. Durante a escrita refere-se a ortografia ou caligrafia, onde há avaliação é importante observar as áreas do uma dificuldade de compreender e escrever palavras neurodesenvolvimento, áreas corticais e áreas e textos sempre demonstrando erros gramaticais.O subcorticais dos alunos podendo se identificar regiões aprendizado em relação à leitura e escrita envolve responsáveis pelas necessidades básicas do ser humano muitos fatores, esses podem ser relacionados com o relacionadas ao pensar e também extensões mais emocional, familiar, ambiental, socioeconômicos, refinadas que faz com que a pessoa pare para pensar e pedagógicos, biológicos e também cognitivos. agir.
Arquitetura CEREBRAL da leitura O cérebro humano apresenta uma arquitetura, em que as várias funções de cada subsistema estão articuladas, como exemplo, o susbsistema da leitura, apresentado na Figura 1. Nela podemos observar a área das entradas visuais, na região occipital, onde são processados os sinais luminosos; a região occipito temporal ventral esquerda, denominada de “caixa das letras”, onde se dá o reconhecimento da palavra escrita; os circuitos que envolvem o processamento da imagem acústica da fala até as regiões que processam o significado e, finalmente, os circuitos que processam as informações correspondentes aos gestos motores relativos à produção da fala.
Arquitetura CEREBRAL da leitura Como a leitura modifica nosso cérebro? Dehaene, Pegado, Braga, Ventura, Nunes Filho, Jobert, Dehaene-Lambertz, Kolinsky, Morais e Cohen (2010) apresentam evidência experimental de como a aprendizagem da leitura modifica as redes corticais da visão e do processamento linguístico. Eles se colocam as seguintes indagações: O que faz a “caixa das letras” do cérebro antes de aprendermos a ler? Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 48, n. 1, p. 148-152, jan./mar. 2013 150 Dehaene, S.
Arquitetura CEREBRAL da leitura Conforme se vislumbra na Figura 2, existe uma região conhecida como occipito temporal ventral esquerda, já mencionada: ela é detectável em poucos minutos de IRM em todos os leitores e está situada no mesmo lugar, em todas as culturas, mas não existe senão nas pessoas que aprenderam a ler e nos sistemas de escrita conhecidos. Trata-se da invariância da região do cérebro para o reconhecimento da palavra escrita. Uma lesão nesse lugar causa uma “alexia pura”, distúrbio seletivo do reconhecimento visual das palavras.
Arquitetura CEREBRAL da leitura Outra propriedade dos neurônios situados na “caixa das letras” é que eles identificam uma letra como sendo a mesma, independente da posição que ela ocupe na palavra, como em “dois, quatro, oito”; do tamanho, como em “dois, dois, dois” ou da caixa, como em “dois, DOIS”. Trata-se, aqui, de uma invariância perceptual. No entanto, tais neurônios são sensíveis a pequenas diferenças que são pertinentes para diferenciar uma letra de outra, como em dei/dai, e à posição que as letras ocupam em sua combinatória, quando isto acarreta mudança de significado, como em torpes/portes, bem como às regras grafotáticas de um dado sistema escrito, como, por exemplo, aceitar “prato”, mas não “rpaot”.
DESSIMETRIZAÇÃO DA LEITURA X DISLEXIA
Arquitetura CEREBRAL da leitura Existem duas vias, após o reconhecimento da palavra escrita na região occipito temporal ventral esquerda, uma pela qual as os grafemas das palavras regulares são associados aos seus respectivos fonemas e, daí, à forma fonológica da palavra e outra pela qual palavras que contenham letra(s) cujo(s) valor(es) não possa(m) ser predizível (is) (as chamadas palavras escritas irregulares) são emparelhadas diretamente com o léxico escrito de tais palavras e, daí, ao seu significado básico. Estas duas vias são esquematizadas na Figura 3.
Arquitetura CEREBRAL da leitura
Arquitetura CEREBRAL da leitura Portanto, a leitura modifica as conexões cerebrais mesmo nos adultos. Veja-se, por exemplo, na Figura 8 como o segmento posterior do feixe arqueado é mais bem estruturado entre os leitores: tal efeito existe até entre os ex-analfabetos, sugerindo uma mudança de mielinização, pois a difusão transversal é modificada, mas não a longitudinal. A quantidade de modificação correlaciona-se com a ativação da VWFA (área do reconhecimento visual da forma da palavra, ou seja, A “caixa das letras” do cérebro) e do Planum Temporale
Arquitetura CEREBRAL da leitura Em resumo, os experimentos comprovam que a aprendizagem da leitura, mesmo quando por adultos ex- analfabetos, tem um efeito reversivo sobre as áreas onde se realiza o processamento da língua oral, tanto no que diz respeito ao tratamento da representação fonológica (planum temporale), quanto ao dos gestos motores fono- articulatórios (regiões frontais) e ao dos significados, conforme esquematizado na Figura 9.
MÉtodos de alfabetizacão e suas características Durante muito tempo na história, para que a alfabetização de fato ocorresse era necessário priorizar um método e aplicá-lo, sendo que pouco se investigava sobre o porquê determinadas crianças conseguiam ler e outras não. Já na década de 1990-2000, os avanços da neurociência proporcionaram estudos utilizando recursos de imageamento cerebral, que trouxeram novas percepções sobre o como os indivíduos aprendem a ler e escrever.Desta forma, a neurociência tem como característica estudar o sistema nervoso central, seu funcionamento, desenvolvimento, estruturas e eventuais alterações que possa acontecer.
MÉtodos de alfabetizaÇão e suas características Os mecanismos envolvidos na aprendizagem da leitura começam a ser conhecidos, através do rastreamento das várias reciclagens neuronais. Eles apontam em direção a princípios gerais de ensino e permitem descartar certos métodos inapropriados: aprender a ler consiste em acessar, através da visão, as áreas da linguagem falada.
MÉtodos de alfabetizaÇão e suas características Para compreender como os métodos de alfabetização atuam nas redes neuronais é indispensável conhecer o modelo de via dupla. Esse descreve como o cérebro funciona quando submetido a esse novo conhecimento. Inicialmente, as conexões encefálicas vão identificando os fonemas que compõe as palavras de forma segmentada. Quando o cérebro já possui substrato linguístico suficiente para reconhecer de forma rápida e efetiva a palavra observada ocorre a fluência de leitura. A grosso modo, a via dupla é formada pelas vias fonológica e semântico-lexical.
MÉtodos de alfabetizaÇão e suas características De um modo mais claro, a rota fonológica fornece os tijolos (letras e fonemas) para a construção de uma palavra e seu significado. Já a rota semântico lexical fornece blocos feitos por vários tijolos que tentam trazer o significado da palavra que está sendo lida. É saudável e efetivo manter as duas rotas funcionando de forma concomitante. Entendendo o modelo de vias é possível analisar os dois principais tipos de alfabetização e suas consequências futuras. Atualmente, vertentes pedagógicas se dividem, discutindo qual o melhor método para alfabetização: o fônico ou o global.
Como ocorre a Neuroplasticidade na leitura A leitura e a escrita, mais precisamente a habilidade lectoescrita, é produto do cérebro, por um lado e por outro, dos seres humanos, do homem social. Este mesmo cérebro apresenta uma faculdade de extrema valia: plasticidade cerebral. A plasticidade é a capacidade inerente do sistema nervoso para se adaptar, desenvolver e reabilitar. O ser humano modificou seu cérebro quando, por meio da plasticidade neuronal, criou novas circuitarias e arquiteturas cerebrais para ser capaz de ler. E mais, a alfabetização modifica as regiões do cérebro aumentando conexões entre os dois hemisférios cerebrais. Logo a conversão grafema-fonema que é uma invenção única na história da escrita, é um processo não espontâneo, onde é preciso ensinar a criança.
Como ocorre a Neuroplasticidade na leitura Nosso cérebro aprende a escrever por meio de um modelo de reciclagem neuronal que reproduz em alguns anos os ensaios e erros da evolução cultural da escrita, produzindo alterações nos circuitos visuais e linguísticos da criança. Ainda de acordo com Dehaene, aprender a ler só é possível porque o cérebro da criança insere estruturas neuronais apropriadas, sejam elas herdadas da evolução dos primatas, ou sejam resultado de uma aprendizagem anterior e que precisam ser estimuladas para a aprendizagem da competência lecto-escrita. Ler é efeito da aprendizagem e não simplesmente de uma maturação cerebral.
neuroplasticidade na leitura O cérebro da criança é extremamente estruturado: herdamos de nossa evolução redes cerebrais especializadas para processar a visão, os rostos, a linguagem falada, os números e muitas outras linguagens especificamente humanas. Tal processamento é possível graças à reciclagem neuronal, pela qual os neurônios humanos são capazes de aprender, através da reorientação dos sistemas cerebrais para símbolos novos, pertencentes a cada cultura. A dificuldade da aprendizagem reflete a quantidade de reciclagem neuronal necessária.
Dicas de intervenção Jogos que potencializem as funções executivas Recompensar as crianças produz reações cerebrais que favorecem o engajamento e motivação (ativação de neurotransmissores) Estimular as vias sensoriais (visão e audição) Trabalhar rimas/aliteração/percepção visual/Consciência fonêmica/Consciência Fonológica/Etc.
Como colaborar na intervenção multidisciplinar
O que observar no processo avaliativo neuropsicopedagógico e porque fazer o encaminhamento
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1-Assis, O.Z.M. Neurociências e Educação. Unicamp, 2013 (pag. 38 a 47). 2-Araujo, A. P. Aprendizagem infantil: uma abordagem da neurociência, economia e psicologia cognitiva. Academia Brasileira de Ciências, 2011 (pag. 48-60). 3-Cosenza, R. Guerra, L. Neurociência e Educação. Artmed, 2011. 4-Dehaene, S. Os neurônios da leitura. Editora Penso, 2012. 5-Shore, R. Repensando o cérebro. Mercado Aberto, 2000. 6-Shaywitz et al., 2002.
OBRIGADA! Ludmila Che é a fundadora do Eureka - Espaço do Aprendiz, sediado na cidade de Resende/RJ desde 2015. Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar, pós graduada em Neuropsicopedagogia, Alfabetização e Autismo , pós-graduanda em Neuropsicologia e Neurociência, possui larga experiência como docente na educação infantil e ensino fundamental, como coordenadora pedagógica e diretora pedagógica. Atualmente atua na clínica da aprendizagem, lidando com a avaliação e reabilitação de múltiplos perfis de dificuldade , transtornos e atraso no desenvolvimento, responsável técnica da equipe pedagógica Eureka , supervisiona recém formados em psicopedagogia /neuropsicopedagogia e ministra cursos e consultorias para escolas e profissionais.
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