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Templários - De Milícia Cristã a Sociedade Secreta - Vol 1 (excerto)

Published by D'Almeida ©, 2017-07-01 05:54:32

Description: Editor: Apeiron Edições © * Autor: Eduardo Amarante © * Capa: Gabriela Marques da Costa © * Tipografia de capa: D'Almeida Ateliê * Paginação e arte final: D'Almeida Ateliê

Keywords: história dos templários,editoras portuguesas,apeiron edições,gabriela marques da costa,eduardo amarante,ilustradoras portuguesas,autores portugueses

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Colecção Mandala VOLUME 1Dos Antecedentes Históricos à Fundação e Expansão

TítuloTemplários – de Milícia Cristã a Sociedade SecretaVol. 1: Dos Antecedentes Históricos à Fundação e ExpansãoAutorEduardo AmaranteCoordenação e revisãoDulce Leal AbaladaRevisãoIsabel NunesGrafismo, Paginação e Arte finalDiv'Almeida Atelier Gráficowww.divalmeida.comIlustração e Técnica da capaGabriela Marques da CostaArte Digital / Assemblage DigitalBernardo de Claraval - o impulsionador da Ordem do Templo, 2010gabriela.marques.costa@gmail.comwww.gabrielamarquescosta.wordpress.comwww.facebook.com/home.php?#!/pages/Gabriela-Marques-da-Costa/134735599901538+351 915960299Impressão e AcabamentoEspaço Gráfico, Lda.www.espacografico.ptDistribuiçãoCESODILIVROSGrupo Coimbra Editora, [email protected]ª edição – Fevereiro 2011ISBN 978-989-8447-06-7Depósito Legal nº 321688/11©Apeiron EdiçõesReservados todos os direitos de reprodução, total ou parcial, porqualquer meio, seja mecânico, electrónico ou fotográficosem a prévia autorização do editor.Projecto Apeiron, Lda.www.projectoapeiron.blogspot.comapeiron.edicoes@gmail.comPortimão - Algarve

Eduardo Amarante VOLUME 1Dos Antecedentes Históricos à Fundação e Expansão apeiron edições



NOTA DO EDITOR Templários – de Milíca cristã a Sociedade Secreta foieditada em 8 volumes pela primeira vez, pelas Publi-cações Quipu, entre os anos 2000 e 2003. Pelo sucesso que a obra alcançou na época (mais de20.000 exemplares vendidos) surge agora a público estanova edição, revista e aumentada, em 4 volumes, sendoo último volume totalmente inédito.



Dedico esta obra à minha esposa, Dulce, que, com o seu empenho e entusiasmo, a sua ajuda incansável na investigação e os seus preciosos conselhos, me deu o ânimo e a força necessários para a realização da mesma. Que todoeste esforço, vivido e partilhado por ambos possa, de alguma maneira, contribuir para a melhor compreensão de um fenómeno histórico tão importante como foram os Templários e o papel que desempenharam no mundo e, particularmente, em Portugal. Parede, 16 de Agosto de 2000 Eduardo Amarante



Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1SIMBOLISMO DA ILUSTRAÇÃO IMAGEM TEMPLÁRIOS, 1 Gabriela Marques da Costa (a pintora) Os Templários e as Cruzadas são um tema que alegram o coração daqueles que continuam a ter bravura no seu ideal pa- triótico/místico e, ao mesmo tempo, é des- denhado por outra facção que os renegam, considerando-os homens de massacre e salteadores… Ao realizar esta capa de livro, a única coisa que me ocorre é prestar-lhes uma homenagem! Por isso coloquei a imagem dos Templários, tanto na capa como na con- tracapa, com as nuances de luz expandida,Pintura de Gabriela Marques da Costa como que se um foco divino os iluminasse. Capa e Contracapa O fundo da capa apresenta uma cor entre o bordeaux e o castanho. Esta com- binação não foi por acaso, pois representa o sólido das ideias vincadas, a segurança relativamente à sua Fé e, ao mesmo tempo, a calma dos seus princípios; é a cor do rústico, que exprime como eles eram ge- nuínos. Em contrapartida, esta cor repre- senta também a densidade do peso e a as- pereza relacionada com as suas batalhas. As estrelas encontram-se deformadas, pois a ideia era dar movimento e sensação ao observador; que o tempo é uma cons- tante e que voa por mais parados ou ata- refados que estejamos! As estrelas são comoque uma bússola guiando-os, assim, nas suas viagens nocturnas. Estassimbolizam a luz que brilha na escuridão, simboliza a verdade, o espírito ea esperança.Quanto à espiral, esta representa acima de tudo o tempo – passado,presente, futuro. Mas como esta espiral é uma espiral dupla, traduz o todo,a união dos contrários, o nascimento e a morte. 11Apeiron Edições |

Eduardo Amarante No meu entender, este tipo de espiral encaixa-se perfeitamente naOrdem Templária, pois eles eram detentores de muitos segredos; tantoeram queridos como odiados, falavam de Deus e do Salvador do mundo,querendo proteger e guardar as suas relíquias, mas a morte estava semprepresente nesses seus combates. Mas, para além de ter esta carga simbólica,não poderia deixar de representar a espiral através da imagem da nossaEstrada de Santiago, onde o nosso Mundo lá se encontra num pequeninoponto, como que em homenagem ao nosso Sistema Solar. À sua frente encontra-se um rosto pacífico e amoroso de Bernardo deClaraval, grande impulsionador para o aparecimento da Ordem Templária.Entre Bernardo de Claraval e o cavaleiro templário encontra-se o selotemplário, apenas com a sua borda circular. A borda apresenta cinco íconescom cor sanguínea. Esta cor representa as influências para a existênciadesta Ordem; representa o sangue, tanto do Homem como de Cristo, mastambém o optimismo e confiança no futuro. Referindo agora o significado dos símbolos inseridos no redondo doselo, subindo pela esquerda até à direita, encontramos: · Em primeiro lugar um símbolo que representa o Islamismo – uma espécie de Mandala com o nome escrito de “Alá”; · Prosseguindo, temos o símbolo do Maniqueísmo, o qual está representado pelo seu fundador – Mani; · O terceiro ícone é a cruz Cátara, do movimento Cátaro que existiu então; · O quarto ícone representa a Gnose. Esta mão era um dos símbolos desta filosofia do conhecimento com espiritualidade; · Por fim, o quinto ícone representa o Marcionismo, o qual está representado pelo seu fundador – Marcião. O Templo de Salomão também aqui está representado, pois é um dospilares da busca dos Templários. Por último, em primeiro plano temos a personagem principal – O Tem-plário em cima de um Cavalo Turcomano. Tanto o Templário como o Ca-valo encontram-se em tons brancos, como que a irradiar luz. Os brancosneste caso representam a pureza do cavaleiro, a inocência movida pela fé, areverência pela causa e pela pátria, a paz de Deus, a simplicidade quefaziam por ter, apesar de serem detentores de muitas riquezas. O brancorepresenta também a rendição, neste caso a Deus e à sua crença cristã. Em relação à contracapa, o “pobre soldado de Cristo do Templo deSalomão” aí representado encontra-se em pose serena, mas com a mesma12 | Apeiron Edições

Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1carga simbólica do templário da capa. O selo templário aí patente é o íconeque os identifica. A frase românica que aparece muito tenuemente no fundo da con-tracapa é alusiva a uma legenda de uma iluminura dos templários a com-bater pela Santa Fé em Jerusalém. A ténue gravura mais à esquerda em cima do selo templário simbolizao apoio prestado por estes guerreiros abnegados no auxílio dos peregrinosa Jerusalém. A gravura mais à direita representa a opulência das cortesBizantinas recebendo os “pobres soldados de Cristo do Templo de Salomão”. 13Apeiron Edições |



Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1ÍNDICEINTRODUÇÃO 211ª Parte – ANTECEDENTES HISTÓRICOS 29 29CAPÍTULO I 32OS PRIMEIROS CENTROS DE CULTO E RITUAL1. Os monumentos megalíticos e os templos 392. Templos, catalisadores de energia 39 40CAPÍTULO II 42A ORDEM DE CAVALARIA E O CÓDIGO DE HONRA 431. Origem e desenvolvimento da Ordem 44 44 1.1. Os deveres do cavaleiro 45 1.2. As regras de admissão 47 1.3. A investidura 49 52 A cerimónia de investidura 1.4. As sete virtudes do cavaleiro 55 1.5. Os sete vícios que o cavaleiro deve evitar 55 1.6. O significado simbólico das armas do cavaleiro 59 1.7. As regras da Ordem e a sua semelhança com a Iniciação 642. As novelas de Cavalaria 66CAPÍTULO III 68AS TRÊS GRANDES RELIGIÕES MONOTEÍSTAS –JUDAÍSMO, CRISTIANISMO E ISLAMISMO1. Breve resumo histórico-religioso do judaísmo 1.1. Os essénios2. Breve resumo histórico-religioso do cristianismo primitivo 2.1. O culto do Espírito Santo: sua origem e reinado 2.2. S. Paulo e a estrutura ideológica do cristianismo versus judaísmo 15Apeiron Edições |

Eduardo Amarante 2.3. Duas Igrejas em confronto: a de Pedro e a de João 70 2.4. As heresias cristãs primitivas 72 72 2.4.1. A gnose 76 2.4.2. A Escola de Alexandria e os neoplatónicos 82 2.4.3. O marcionismo 83 2.4.4. O maniqueísmo 2.4.5. Os cátaros e a sua doutrina 85 88 (a influência druida) 90 A hierarquia cátara 91 A iniciação cátara Os mistérios cátaros 923. Breve resumo histórico-religioso do islamismo A Ordem dos Assassinos 95CAPÍTULO IV 97HERESIAS VERSUS IGREJA 105 107CAPÍTULO V 108PEREGRINAÇÕES AOS LUGARES SANTOS E A PRIMEIRA 110CRUZADA1. A conquista da Terra Santa2. Os Estados Latinos do Oriente3. Formação das Ordens monástico-militares4. Hugo de Payns, fundador da Ordem do Templo16 | Apeiron Edições

Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 12ª Parte – FUNDAÇÃO E EXPANSÃO 113 113CAPÍTULO I 116BERNARDO DE CLARAVAL E O SÉCULO XII1. O rosto empreendedor da Ordem de Cister 1202. São Bernardo e o ideal de Cavalaria 1243. Da formação religiosa aos fundamentos de uma nova política 129 europeia 130 3.1. A doutrina como produto da experiência diária 132CAPÍTULO IIA FUNDAÇÃO DA \"MILÍCIA DOS POBRES CAVALEIROS 135DE CRISTO\"1. Jerusalém: cidade islâmica / cidade cristã 1402. São Bernardo e o conceito de guerra no âmbito da Nova 143 Cavalaria 1433. A apresentação dos cavaleiros a Balduíno II e a fundação da 147 150 Milícia 1544. A influência do Oriente na consolidação da Ordem do 155 Templo na Europa 160CAPÍTULO III 161A FORMALIZAÇÃO DA ORDEM DO TEMPLO 1661. Os primeiros passos para o reconhecimento estatutário2. Descrição de alguns preceitos de vida em comunidade3. “De Laude Novæ Militæ” – “O Louvor à Nova Milícia”4. A Regra secreta e o Manuscrito de Hamburgo5. O “segredo” da Milícia: seu enquadramento no plano de execução da missãoCAPÍTULO IVA ESTRUTURA HIERÁRQUICA TEMPLÁRIA1. O aspecto interno do sistema piramidal a) A eleição do novo mestre17Apeiron Edições |

Eduardo Amarante2. Similitudes entre a hierarquia templária e a Ordem dos 170 Assassinos 171 1723. A admissão na Ordem do Templo 176 3.1. A cerimónia de recepção 1784. O poder temporal da Ordem 180 182CAPÍTULO V 184O SISTEMA FINANCEIRO DA ORDEM DO TEMPLO 1841. As receitas: as rendas e o dízimo 188 1.1. As doações e o património 1.2. As disputas e os conflitos 1902. As comendas, os castelos e as fortalezas templárias 193 196CAPÍTULO VI 197AS CRUZADAS E A EXPANSÃO TERRITORIAL DOSCAVALEIROS TEMPLÁRIOS 1981. O segundo Mestre da Ordem do Templo: 203 Roberto de Craon2. A tradução francesa da Regra e a autonomia religiosa 2043. Da unidade do exército muçulmano às novas cruzadas 208 3.1. A função templária em terras do Oriente 3.2. A segunda cruzada e a disciplina militar da Ordem do 210 Templo 216 3.3. Breves apontamentos sobre a forma de combate do exército cruzado e a técnica usadas pelos muçulmanos 3.4. A nova política geoestratégica dos Estados latinos do Oriente: os primeiros desentendimentos entre a Ordem do Templo e o rei de Jerusalém 3.5. A seita dos assassinos, o rei de Jerusalém e a Ordem do Templo: erros estratégicos e novos desentendimentos 3.6. O reforço territorial do Islão e o enfraquecimento dos Estados cristãos4. O desvirtuamento do espírito da cruzada e os “interesses”político-económicos18 | Apeiron Edições

Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1 4.1. As últimas cruzadas e os Estados latinos 2215. Os aspectos positivos e negativos do movimento das 225 cruzadas 225 a) Os aspectos positivos 226 b) Os aspectos negativos 229CAPÍTULO VII 230A LINGUAGEM UNIVERSAL DOS SÍMBOLOS (breves 232apontamentos introdutórios ao simbolismo templário) 2331. O símbolo como veículo de transmissão da antiga sabedoria 2332. A ciência dos símbolos: a simbologia 234 236 2.1. Os símbolos primordiais 237 2.1.1. O círculo e a cruz 2.1.2. A evolução do círculo para a cruz 240 2.1.3. A árvore e a serpente 2423. A ciência dos números: a numerologia 2474. Antigas tradições sobre o Rei do Mundo 249 (breves noções básicas) 250 4.1. O Reino do Preste João e o Imperador Universal: a 253 255 relação destas tradições com a Ordem do Templo 256 4.2. O Graal e a sua relação com a Milícia de Cristo 258 260CAPÍTULO VIII 261OS SÍMBOLOS DA ORDEM DO TEMPLO 2641. Da cruz pátea à cruz templária: sua construção geométrica 265 1.1. A cruz de cor vermelha 1.2. A cruz de cor branca2. O quinto elemento, o quincôncio3. O estandarte e o gonfalão-estandarte4. O bastão e a vara5. Os selos templários: seu conteúdo simbólico 5.1. A dupla função do selo 5.1.1. O selo Abraxas e o seu significado simbólico19Apeiron Edições |

Eduardo Amarante 5.1.2. O selo do Templo e o selo dos cavaleiros gémeos 267 a) O significado simbólico do selo dos cavaleiros gémeos 269 272 5.1.3. O selo Agnus Dei 2746. O baphomet 275 279 6.1. Baphomet como “cabeça-ídolo” 281 6.2. Baphomet como figura enigmática 2847. O octógono8. A escrita criptográfica (o alfabeto secreto) 286CAPÍTULO FINAL 1.º VOLUME 288BIBLIOGRAFIA20 | Apeiron Edições

Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1 INTRODUÇÃO A aquisição do conhecimento, seja ele qual for, traz sempre consigo a grande responsabilidade de o utilizar para o bem e não para o mal; para construir e não para destruir. N. Pennick Muito se tem falado sobre os templários. No entanto, falta de factosaber quais os fundamentos que nortearam a sua existência, suas mo-tivações, suas acções e objectivos; enfim, falta compreender no fundoa sua razão de ser como Ordem no contexto europeu da época. Paratanto, é necessário fazer um esforço de recuar no tempo e procurartrazer à luz do dia as suas raízes ramificadas no solo, não só das cul-turas ancestrais, das tradições antigas e filosofias, como também docristianismo primitivo. Este novo e reformulado volume, que vem agora a público, é com-posto de duas partes: • A primeira, sob o nome “Os antecedentes históricos”, preten-de dar ao leitor uma perspectiva generalizada e concisa, tanto quantopossível, do “caldo de ideias” que levou à criação da Ordem Templá-ria. Essencialmente, esta primeira parte visa focar a herança resgatadade um conhecimento perdido, ou proibido, alicerçado em cultos “pa-gãos” e “heresias cristãs”. Com isto lanço um repto ao leitor: viajar notempo do mundo “mítico” das origens. Quero crer que esse desafioespiritual ajudará na compreensão daqueles homens que fundaram,combateram e morreram pela causa da Ordem do Templo; • A segunda, sob o nome “Fundação e Expansão”, trata da cria-ção da milícia cristã e a sua formalização futura como Ordem doTemplo. Acredito que esta nova abordagem do tema trará novoselementos ao estudo desta temática, a fim de desvelar as causas e con-sequências que determinaram a sua origem e implantação dentro domosaico histórico-religioso daquele período medieval, marcadamenteconturbado, que se seguiu ao ano mil. 21Apeiron edições |

Eduardo Amarante Na 1ª parte explano de forma breve as fontes de ideias que ins-piraram e marcaram a acção dos templários; sabemos, hoje, que elasforam muitas, a ponto de ser possível detectar a grande variedade eriqueza das tradições assimiladas (não esquecendo as três grandes re-ligiões monoteístas) e, por isso, não ser possível estudá-las exausti-vamente. Ao longo deste volume referirei aquelas tradições que me parece-ram, de facto, as mais marcantes e principais na construção e desen-volvimento do pensamento ideológico templário. Desde o conheci-mento das forças energéticas da Terra e do Céu, dos lugares mágicos,da arquitectura sagrada, do ideal da Cavalaria, das religiões “misté-ricas”, quer do Oriente quer do Ocidente, passando pelo sistema for-temente hierarquizado, das alegorias, dos símbolos e dos mitos cos-mogónicos (em tudo muito idênticos aos cultos ditos pagãos), sãomuitos e diversificados os temas abordados. No seu todo dão umapanorâmica geral da complexidade e riqueza do “sistema filosófico”,se assim o podemos designar, que definiu a Ordem como uma “po-tência ameaçadora” na época e a fez sonhar na possibilidade de alar-gar a sua esfera de acção a um plano global. Encontrar o fio de Ariadne no meio deste labirinto de ideias e,sobretudo, compreender o seu significado é tarefa difícil para o co-mum dos homens: sendo inteligível a poucos – aos “puros de cora-ção”, que herdaram e preservaram a chave original do conhecimentona interpretação da Sabedoria – é, porém, inacessível a muitos.Contornando um pouco esta dificuldade apoiei-me, como método eferramenta de trabalho, nas fontes documentais e nos estudos com-parados para conhecer a verdadeira dimensão da missão dos pri-meiros soldados de Cristo, futuros cavaleiros do Templo. Para abordar uma temática tão complexa e delicada como esta (doscavaleiros templários) é mister evitar, o que hoje é prática corrente,cair em erros grosseiros. Nos tempos que correm é imprescindívelobservar muito, e com o espírito aberto (ser-se ecléctico à maneiraclássica), comparar os dados (sejam eles testemunhos, documentos,etc.) analisando-os criteriosamente e em rigor com o propósito deaceitá-los ou refutá-los. Por vezes – sem nos darmos conta – é umavida inteira que passa por nós ao tentarmos compreeender e intuir adimensão histórica de um acontecimento em uma determinada épo-22 | Apeiron Edições

Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1ca. A tentação actual, que é ter tudo à mão e obter respostas noimediato, é quando se descobre alguns vestígios ou sinais, interpretá--los de acordo com a nossa presente forma de pensar, e chegar assim aconclusões apressadas e pouco credíveis, não raras vezes impruden-tes. Com isto pretendo dizer que é perigoso chegar a uma afirmaçãoirredutível – geralmente baseada mais na vaidade do que no co-nhecimento – quando não está fundamentada em factos inequívocos;quando recorremos a especulações subjectivas, para além de se co-meter o erro de prestarmos um mau serviço à História, poderemosestar também a desvirtualizar a verdade histórica de um aconteci-mento, cujas consequências serão imprevisíveis. Tudo isto vem a propósito da quantidade de vezes que ouço falardas dimensões esotéricas disto ou daquilo. Actualmente prolifera o“esoterismo” e, muitas vezes, este termo é abusivamente utilizado co-mo expressão de especulações fantasiosas, que tocam as raias do en-gano e engendram a confusão nas mentes, que as tomam por ver-dadeiras. Diga-se que o verdadeiro esoterismo não é subjectivo e tãopouco é produto de maquinações e de grandes produções intelectuais;bem pelo contrário, na sua essência, o esoterismo é simples e claro namensagem que transmite: é profundamente prático, sobretudo naexperiência que retira do dia a dia, fonte do conhecimento do homeme, por isso, verdadeiramente social e político. Ele é o motor, o móbilque age dentro do homem e que incute nele a energia e o “sonho” queo faz agir e construir a obra ao serviço de uma causa nobre. Era esse oclima em que os templários se enquadravam, que não é, por certo,aquele em que vivemos na actualidade, onde não existem causaseficazes em prol do bem comum, de um ideal social e político (nosentido clássico da palavra polis) e de uma fé. Daí que eu defenda:abordar os templários apenas no seu aspecto doutrinário, religiosoe/ou espiritual, por muito esotérico que seja, é tomar uma parte – nãotão visível assim e, além do mais, de difícil comprovação – pelo seutodo. Aliás, refira-se que a missão templária não era do foro esotérico,mas fundamentalmente política, com intervenção social, sustentada,isso sim, em valores religiosos e espirituais (que nortearam as suasvidas), de cariz tradicional. É só neste contexto que se pode falar deesotérico: no sentido de uma prática existencial advinda do “contacto” 23Apeiron edições |

Eduardo Amarantecom a Sabedoria, que poucos conseguem alcançar. De alguma forma,a Ordem do Templo a Ela conseguiu ter acesso. Pelos documentos, fontes e vestígios encontrados não se pode ne-gar – e tudo aponta para isso – que a linha de acção dos templáriostinha duas vertentes: uma, de milícia cristã, mais prática; e a outra, desociedade secreta, entendida como uma comunidade de poucos, comuma doutrina e rituais específicos. Isto é, uma milícia cristã, externa emilitar; e outra, sociedade secreta, interna e monástica. Contudo, es-tes matizes – interno e externo – estavam englobados num projectopolítico mais amplo que, na realidade, pretendiam incrementar, pri-meiro na sociedade, depois no mundo. E foi este o principal motivo daperseguição política, movida pela realeza francesa, contra a Ordem doTemplo, protagonizada, sobretudo, contra os seus altos dignitários. Em sintonia com alguns historiadores sérios, especializados no te-ma, também aceito que a Ordem do Templo vivia sob determinadospreceitos “secretos”. Mas – e neste ponto é que discordo de alguns –vejamos, é por serem secretos que nos são vedados, de forma a quenenhum homem incauto ou de má fé possa manipulá-los, distorcê-lose, assim, deturpá-los, prejudicando o seu sentido original e perdendoirremediavelmente a compreensão do seu conteúdo. Reconheçamos,simplesmente, que nos são estranhos e que não somos capazes de in-terpretá-los. Inclusive, é bem possível que tenhamos perdido parasempre (?) a chave da sua descodificação, tal como também ocorreucom muitas ciências da antiguidade. Na 2ª parte abordo a fundação da Milícia de Cristo e a suaformalização posterior como Ordem do Templo. Neste contexto, Ber-nardo de Claraval é a figura incontornável; grande visionário do sé-culo XII, soube orientar e solucionar, enquanto pôde, os problemas deque o seu século padecia. Neste pano de fundo, a Ordem do Templofoi uma espécie de braço armado, não só militar como cultural e pro-fundamente religioso, que se estendeu desde o extremo da EuropaOcidental até ao Próximo Oriente, enquanto a Ordem Teutónica, aquem cabia a defesa da Europa Oriental, correspondia ao outro braçoarmado do projecto político bernardino. Quando se fala da Ordem do Templo é fundamental não só apro-fundar a sua Regra e Estatutos, como também a sua estrutura hie-24 | Apeiron Edições

Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1rárquica de funcionamento, sem esquecer a sua invejável nomencla-tura comercial e financeira, tão vanguardista para o tempo. Em pri-meira análise, focarei o aspecto orgânico e visível da Ordem dentro dopanorama político, comercial e religioso da época, sem deixar de ana-lisar, por outro lado, o domínio mais interno e menos visível (e tãodado a fabulações engenhosas), referente aos seus símbolos e ritos. Analisando a temática templária no seu todo, arrisco-me a dizer oseguinte: • A Milícia de Cristo pouco trouxe de novo para a época que jánão tivesse existido anteriormente num outro período histórico dahumanidade. Ressalta que os templários foram, de facto, se bem quede modo discreto, os herdeiros legítimos e fiéis depositários das an-tigas tradições e de antigos cultos pagãos, já perdidos na memória doshomens; • Não há como nos cingir à simples e linear forma como a His-tória oficial aborda o tema templários, sem ter em conta o seu en-quadramento no plano da existência humana: o facto de a Ordemtomar para si arquétipos e vivenciá-los na vida diária (sob a forma deum ideal), ao mesmo tempo em que, intelectualmente, actualizava osconteúdos desse conhecimento tradicional, transpondo-o para o seuperíodo histórico, era revolucionário, pois determinou o pensamentoda época, constituindo um factor inovador no seu tempo; • Os cavaleiros de Cristo não só praticaram estes preceitos mo-rais, através de uma forte e estrita disciplina, como também os expan-diram por todos os cantos do mundo, entre aqueles povos com quemjá mantinham contactos estreitos, e entre aqueles com quem iniciaramos primeiros intercâmbios culturais. Esse, sim, foi, sem sombra de dú-vidas, o maior contributo que a Ordem podia ter dado ao status quo deum período histórico tão carente de cultura: defender e agir em con-formidade com as suas convicções e as regras aceites em prol de umacausa comum. De facto, era uma concepção profundamente revolu-cionária, mas também necessária para a época; • É importante realçar a vocação universalista da Ordem Tem-plária que, por um lado, com arte e engenho expandiu pelo mundo amensagem de fraternidade e tolerância, alargada aos mais diversospovos, e, por outro lado, colocou à disposição de uns poucos homens“os conhecimentos secretos” de que era portadora, sempre que esses 25Apeiron edições |

Eduardo Amarantepossuíssem aptidões morais e capacidades intelectuais próprias paraos compreender e assimilar. Assim, os templários, ao tomarem conhe-cimento dos antigos ensinamentos, atemporais e universais, resgata-ram-nos para um novo plano de existência, fundando a mais poderosae temível organização “secreta” (no sentido em que não apreendemoso Saber desses ensinamentos), de cariz europeu de que há memória(do que da História oficial se conhece). Esta fraternidade secreta universal, se assim a posso classificar –em que os seus adeptos, espalhados pelos vários países da Terra, eramconsiderados “Irmãos” [entenda-se que, em sentido lato do termo, si-gnificava uma comunhão de todos os homens de boa vontade, quecomungavam da mesma causa e praticavam-na diariamente em res-peito pela lei que juraram cumprir; dependendo da sua acção e ca-pacidade espiritual, pertenceriam a um maior ou menor grau de “ir-mão” dentro dessa estrutura hierárquica], deixou vestígios em outraspartes do globo, para além da Europa e do Próximo Oriente – se bemque, aparentemente, menores por serem menos visíveis –, que nosindiciam a existência de um presumível plano mundial. Sobre esteponto, é exemplo o caso de Portugal que, englobado no grande pro-jecto templário, embora inacabado (oportunamente falaremos maisexaustivamente sobre este aspecto), serviu inicialmente os propósitosda Ordem do Templo, sem que esta deixasse de manter alguns in-tercâmbios culturais e religiosos com os detentores dos ensinamentosmistéricos do Oriente. Podemos, pois, concluir, que os cavaleiros templários fomentarame serviram-se, no bom sentido do termo, da formação e defesa doReino de Portugal para alicerçar o seu projecto mundial com base nafraternidade e na tolerância entre os povos. Nestes termos, podemosdizer que Portugal constituiu, assim, uma plataforma marítima e ter-restre privilegiada para o Império Novo do Espírito, baseado no ver-dadeiro ensinamento de Cristo, que viria a surgir, apesar de tudo,num futuro não muito distante, não sob a bandeira da Ordem Tem-plária, mas da de Cristo.26 | Apeiron Edições

1.ª ParteOS ANTECEDENTES HISTÓRICOS



Templários – de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. 1 CAPÍTULO I OS PRIMEIROS CENTROS DE CULTO E RITUAL 1. Os Monumentos Megalíticos e os Templos Vem de tempos imemoriais a concentração de cerimónias de cultoem determinados lugares, recintos ou edificações. Para isso, a Natu-reza bafejou os “primitivos” com locais propícios para os seus ceri-moniais e rituais. Árvores, bosques, montanhas, pedras e rios eramambientes inspiradores para o homem poder entrar em comunhãocom a divindade. Inclusive, a Natureza era tida como sagrada: a MãeNatureza. Para além das construções sepulcrais de que hoje temos vestígios,o homem também ergueu, através dos tempos, monumentos e edi-fícios cada vez mais complexos, onde se realizavam as cerimónias dosvariados cultos religiosos. A exemplo disso temos os cromeleques, osmenires, as antas… Vulgarmente situavam-se longe das aglomera-ções humanas. Pelos vestígios neles encontrados considera-se que es-tes monumentos sagrados foram erigidos em locais revestidos de umprofundo simbolismo religioso1. Eram centros de culto a uma divin-dade específica e bastas vezes objecto de peregrinações periódicasmais ou menos importantes. Foram os primeiros templos construídosem sinal de reverência para com uma entidade divina que o homem1 Muitas vezes se especulou sobre a realização nesses lugares de sacrifícios humanos. Na Europa, te-mos o exemplo de um dos muitos aspectos discutíveis a respeito do povo celta. Há razões parapensar que, de facto, em determinadas épocas e lugares este tipo de rituais se realizaram. No en-tanto, bastas vezes eram sacrificadas pessoas que, por algum motivo, eram culpadas de algum crime,ou prisioneiros de guerra. Porém, também havia, entre o povo celta, quem se oferecesse para o bemda comunidade, geralmente pessoas que sofriam de graves doenças, ou feridas em combate, ou en-tão vítimas de uma doença que os levaria irremediavelmente à morte. No caso de acontecer nãohaver mais ninguém com estas características procedia-se, então, entre o povo, à sorte do sorteio,sem possibilidade de recorrer da sua sentença. 29Apeiron edições |


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