SPO ENTREVISTAS ENTREVISTA JORNALISTAS EM REDE
1 ENTREVISTAS Título: Jornalistas em Rede - Entrevistas Capa: Adelaide Jordão Textos: Entrevistas realizadas pelos alunos do 11º F Coordenação: Adelaide Jordão (Professora de Português e PB) Ano letivo: 2021-2022 Escola Secundária Camilo Castelo Branco Vila Real Junho 2022 Jornalistas em rede Entrevistas
INTRODUÇÃO “A Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) tem promovido projetos de inovação e 1 excelência em diferentes áreas, que evidenciam uma intervenção mais qualificada na melhoria das aprendizagens, das múltiplas literacias, na cidadania e no envolvimento ENTREVISTAS da comunidade educativa.” Aceita o desafio: da tua biblioteca ao público é um desses projetos, lançado no ano letivo 2021.2022, em parceria com PÚBLICO, através do projeto de Educação para os Media — PÚBLICO na Escola. Os alunos do 11º F da Escola Secundária Camilo Castelo Branco, de Vila Real, aceitaram o repto que lhes foi colocado pela professora de Português - PRODUZIR UMA ENTREVISTA - e, em trabalho de pares, meteram mãos à obra, que o melhor é dizer, mãos à escrita. Produzir uma entrevista foi um trabalho moroso e paciente. Primeiro, os alunos recordaram as regras de elaboração da entrevista, bem como aspetos fundamentais da cidadania digital, mormente no âmbito dos direitos online (direitos e responsabilidades, privacidade e segurança) e da presença digital (reputação e identidade online, proteção de dados e privacidade). Documento RBE- páginas 1 | 2 De seguida, realizaram trabalho de investigação e um breve brainstorming, a partir dos quais fizeram o levantamento de pessoas e temas que poderiam interessar à Comunidade Educativa. Uma vez selecionada a pessoa a entrevistar e o tema a abordar, e depois de um primeiro contacto com as pessoas envolvidas nas entrevistas, para confirmação da disponibilidade e dos direitos de imagem, os alunos elaboraram breves sinopses sobre o perfil do(a) entrevistado(a) e as questões a colocar (estas sinopses viriam a constituir a base do guião final da entrevista). Finalmente, partiram para a entrevista, sempre com a noção de que o guião é algo de flexível e, como tal, passível de ser ajustado no decorrer da própria entrevista. Jornalistas em rede Entrevistas
“O trabalho de melhoramento de texto e os diferentes ritmos de trabalho de cada grupo 1 de trabalho, entre outros fatores, não permitiram que todas as entrevistas fossem dadas ENTREVISTAS como concluídas dentro do prazo do concurso, mas das submetidas, uma foi a vencedora! Como se é referido no site da RBE, “No mundo do vinho e das vinhas, Marta Gonçalves e Rita Abreu entrevistaram ‘uma figura do Douro’. E venceram.” Neste ebook, damos a conhecer todas as entrevistas que foram apresentadas e dadas como concluídas pelos alunos, independentemente de terem sido submetidas a concurso, ou não. 2 Lembramos que através do concurso “Jornalistas em Rede” se pretende estimular nos jovens a produção escrita de dois géneros jornalísticos – a reportagem e a entrevista –, no quadro das atividades promovidas por bibliotecas escolares, por jornais escolares, por clubes ou por outros contextos de ensino/ aprendizagem. De acordo com o Regulamento, são objetivos do Concurso: Promover o conhecimento e o debate da atualidade Fomentar as literacias da informação e dos media Estimular a leitura de jornais por parte dos jovens Desenvolver a expressão escrita de diferentes tipologias textuais Estimular o uso correto e criativo da língua portuguesa Boas leituras! Adelaide Jordão Jornalistas em rede Entrevistas
13 ENTREVISTA COM... E NETNRTERVEI VS ITSATSA S Jornalistas em rede Entrevistas
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Exames Nacionais - Entrevista com Diretora da Escola Dra. Helena Correia Dra. Helena Correia, “A educação é fundamental para preparar as pessoas e desenvolver as Diretora da Escola melhores competências possíveis para que, no futuro, possam Camilo Castelo Branco desempenhar um papel na sociedade. O futuro de um país está na Foto: Adelaide Jordão educação dos seus jovens.” Entrevistámos a Dra. Helena Correia, Diretora da nossa escola, a fim de conhecermos a 15 sua opinião acerca de questões relacionadas com os Exames Nacionais uma vez que acreditamos ser um tema que constitui um fator de preocupação para os alunos. P- Realizar ou não os exames nacionais é algo rior. É um momento. Não é fácil, mas é o mesmo para E NETNRTERVEI VS ITSATSA S que inquieta sempre os alunos. Como pensa que todos e tem a sua importância. se pode minorar esta angústia? Sabemos que o grau de exigência varia nas várias R- Os exames nacionais são uma realidade e, face à escolas do país, não descurando o facto dos alunos importância que têm para acesso ao ensino superior, das escolas privadas terem condições privilegiadas causam naturalmente alguma ansiedade. Assim ao longo do seu percurso. A escola pública acolhe sendo, a melhor forma de minorar a ansiedade, ou todos. Tem de haver algum elemento que seja igual mesmo a angústia que os alunos possam sentir, será, para todos. Ao Ministério da Educação interessa a meu ver, o investimento e preparação que estes como forma de perceber o estado em que se façam a montante. Tal significa que o trabalho, o encontra o ensino/aprendizagem, valha o que valer. estudo tem de ser contínuo, professores e alunos têm de fazer um trabalho conjunto para que as P- Sim. Nós entendemos o seu ponto de vista e aprendizagens se façam da forma mais profícua não discordamos em absoluto. Contudo, surge- possível. Os alunos têm, logicamente, de estudar e nos outra questão que nos parece absolutamente estudar, pois aprender passa pelo esforço do aluno pertinente. Como Diretora, qual é a leitura que na sua aprendizagem, aprender é um ato individual e pode fazer do resultado dos exames? Abrange que requer âncoras e construção contínua. todo o sistema escolar, isto é, alunos e Por outro lado, não é de descurar a questão professores? psicológica e a forma como cada um reage a R- Aquando da saída dos resultados dos exames situações de stress. Nesse campo, a prática de nacionais, estes são minuciosamente analisados, exercício físico contribui largamente para o bem- quer por mim quer pelos professores da escola. estar, sendo este fundamental, bem como o equilíbrio Fazemos a análise em sede de conselho pedagógico entre momentos de trabalho e de lazer. e nos diferentes departamentos e grupos disciplinares. Percebam que ao longo de anos os P- Outro fator psicológico que nos afeta é a professores investem e tentam fazer o melhor noção do tempo de que dispomos para trabalho e que as classificações dos exames têm de responder às questões do exame. Não raras refletir isso mesmo. Quando tal não acontece vezes nos deparamos com esta questão: teremos ficamos tristes. Questionamo-nos. Tentamos ver o tempo? Na perspetiva da Sr.ª Diretora, serão os que correu menos bem. Delineamos estratégias. exames o meio mais justo de avaliar este Portanto, não é só o sucesso dos alunos, mas dos percurso académico numa espécie de professores, do seu trabalho, do trabalho da escola. “maratona” em corrida contra o tempo? Serão os Temos que agir como um todo e vós, alunos, tendes exames, tendo em conta o reduzido tempo em também que fazer a vossa parte, isto é, empenhar-se que decorrem, o meio mais justo de avaliar um e trabalhar. Os resultados aparecem, se assim for. percurso académico de vários anos? R - A avaliação interna faz essa avaliação ao longo P- Dado que o exame se reduz a um momento e do percurso académico. A avaliação externa teve, dá acesso à faculdade não será redutor de todas até aos anos anteriores à pandemia, influência na as aprendizagens adquiridas ao longo de vários classificação final a algumas disciplinas, mas é uma anos letivos? questão que serve para todo o universo de alunos do R- Não é fácil! Redutor? Será, se considerarmos que sistema português. Os exames têm também a função os conteúdos lecionados ao longo de 2 ou 3 anos de servir como elemento para acesso ao ensino supe são alvo de avaliação em exame, exame esse que Jornalistas em rede Entrevistas
condiciona a classificação final bem como o acesso A educação é fundamental para preparar as ao ensino superior. Mas, como disse anteriormente, pessoas, desenvolver as melhores competências não há fórmulas perfeitas, tem de haver uma forma possíveis para que, no futuro, possam desempenhar de uniformizar todos os estudantes, sendo que já um papel na sociedade. O futuro de um país está na existem várias variantes. É um momento de grande educação dos seus jovens. importância e meramente escrito, o que é um contrassenso, pois os alunos são muito mais e têm 2 mais competências que não apenas a escrita. Ao longo de vários anos trabalhou-se para desenvolver no aluno várias competências. \"Aquando da saída dos resultados dos exames nacionais, estes são minuciosamente analisados, quer por mim quer pelos professores da escola. Fazemos a análise em sede de conselho pedagógico e nos diferentes departamentos e grupos disciplinares. Ao 6 longo dos anos os professores investem e tentam fazer o melhor trabalho e as classificações dos exames têm de refletir isso mesmo. Quando tal não acontece, ENTREVISTA ficamos tristes. Questionamo-nos. Tentamos ver o que correu menos bem. Delineamos estratégias. Portanto, não é só o sucesso dos alunos, mas dos professores, do seu trabalho, do trabalho da escola.\" As atitudes, comportamentos, comunicação e oralidade não são avaliados em exame, exceto as orais nas línguas estrangeiras. Nesse sentido é redutor, mas tem de haver alguma forma. É o exame. P- Compreendemos que tenha de haver uma Entrevista realizada por : uniformização na avaliação de competências, e Alexandre Coutinho e João Soares talvez seja, sim, a forma menos injusta. No entanto, as notas dos exames decidirem o nosso percurso académico futuro e, portanto, a nossa vida, não é um peso excessivo para o aluno? R- É verdade que sim, mas tem de haver uma forma. As regras são essas, logo os alunos, e as suas famílias devem conhecê-las e decidir de que forma querem trabalhar. Nada se faz de um momento para o outro pelo que cada aluno tem (deve fazê-lo) de decidir se quer ou não empenhar-se em aprender e desenvolver as suas competências. Sempre existiram formas de avaliação no ensino, sempre existiram exames e condições para acesso ao ensino superior. Jornalistas em rede Entrevistas
No mundo do vinho e das vinhas - Entrevista com o vitivinicultor José Lacerda “O campo é garantia de brincadeira e até os trabalhos serviam para nos divertirmos, mas é isso que cria raízes, as memórias que temos são determinantes nas escolhas que fazemos” José Lacerda. Foto: Marta Gonçalves José Agostinho Fernandes Lacerda é uma figura do Douro. Nasceu no Lugar da Estrada, Poiares, 17 Régua, e estudou em Vila Real, na nossa escola [Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Vila Real]. Administrador e acionista da Lavradores de Feitoria, a sua atividade está atualmente associada à E NETNRTERVEI VS ITSATSA S produção de vinhos de mesa, à enologia e à administração das quintas que fazem parte do património familiar. Rita – Como começou a sua relação com a vinha e conselhos permitiam chegar ao que se pretendia. Foi o vinho? fácil aprender e foi ainda mais fácil ficar apaixonado José Lacerda – Bom, com a vossa idade, ainda não pela terra. A vivência na Quinta fez com que este tinha nenhum tipo de relação com o vinho. A vida na espaço fosse mais importante do que o Porto. Penso quinta da Estrada era intercalada com a vida escolar que nós somos as memórias que vivemos e estas em Vila Real, os pais optaram por alugar lá casa e suplantaram os sonhos que tive de me dedicar à deixar-nos ao cuidado da tia Piá. A quinta era o gestão numa cidade grande. De alguma forma, espaço da brincadeira, da família, que era numerosa, também tenho de gerir as propriedades agrícolas. e nas férias muitos primos ficavam lá. Era uma diversão sem limites. O campo é garantia de Rita – Houve mudanças? brincadeira e até os trabalhos serviam para nos José Lacerda – Sim. O mercado não se compadece. divertirmos, mas é isso que cria raízes, as memórias De imediato comecei a fazer formação na área da que temos são determinantes nas escolhas que vitivinicultura, porque é conhecendo o que se faz e fazemos. Fiz a primária e fui para a Camilo, mas como se faz que podemos inovar. Estudar, ler, viajar, depois as minhas irmãs foram para a Faculdade, no visitar adegas, fazer parcerias e envolver-me em Porto, e eu fui para o Liceu D. Manuel II, que é o atual projetos como estar no início da Lavradores de Rodrigues de Freitas. Feitoria foi muito importante e enriquecedor. E nunca parei de estudar, conversar, ler, ver…só assim nos Marta – Nada faria prever que voltasse para o podemos manter a par do que existe. Douro… José Lacerda – Curiosamente, eu sempre adorei o Quinta da Estrada Porto, pelos amigos, pela família numerosa que, Foto: Rita Abreu sendo do Douro, vivia lá. No entanto estar com o meu pai, ajudá-lo, viajar com ele para as feiras agrícolas, O que produzo é bom, mas tenho de ter a humildade para França ou Espanha e aqui em Portugal, era de reconhecer que outros produtos são igualmente extraordinário. E depois, as vindimas eram uma festa, bons ou melhores. Então, não posso parar de saber o era o culminar de um ano de trabalho que daria a que há e experimentar, aqui e no estrangeiro. possibilidade de continuar com a mesma determinação. Entrevistas Na verdade, era uma festa para todos, pois os trabalhadores eram recompensados, e havia alegria, visitas da família e dos amigos. Todos se empenhavam nas vindimas e eu, o que aprendi, devo- o ao meu pai, que era um homem empreendedor e cheio de visão. Era fácil trabalhar com o pai, porque pedia sempre a minha colaboração, ensinava, eu ouvia, via e fazia. Mesmo que não fosse igual, os seus Jornalistas em rede
Marta – Tradição conjuga-se com inovação. Na Rita – Qual dos seus vinhos apelidaria de sua opinião, quais foram as inovações mais bestseller? significativas introduzidas por si na produção José Lacerda – O melhor vinho é o que bebemos vinícola? com os nossos amigos… pode ser Douro, Alentejo ou José Lacerda – A grande inovação foi a produção Bordéus…. de castas por talhões. Rita – Que tipo de casta predomina na Quinta da Estrada? Há uma razão específica para essa escolha? José Lacerda – O tipo de casta predominante é a Touriga Franca, pois é a casta que domina na Região Demarcada do Douro. Segue-se a Tinta Roriz, a Tinta Amarela e, por fim o Tinto Cão e a Tinta Francisca sendo estas últimas usadas para apimentar os lotes. Não produzo vinhos monocasta, porque é muito difícil assegurar ano após ano uma boa qualidade. Além 2 8 disso, a tradição no Douro é de vinhos de blend, ou seja, vinhos de lote. ENTREVISTAS Marta – Então não produz só vinho do Porto? Rita – Projetos para o futuro? José Lacerda – Nós estávamos muito ligados ao José Lacerda – É curioso… já estive ligado à vinho do Porto, vinho generoso de qualidade, mas exportação, mas agora só me interessa investir no depois da morte do pai e as complicações do mercado nacional. Vou continuar com estas duas mercado, enveredei pela produção própria de vinhos marcas (tinto e branco): Tia Piá, em homenagem à tia DOC, menos exploradas na década de 90. Criei a que sempre nos acompanhou enquanto estudámos marca Tia Piá, em homenagem à nossa tia que em Vila Real e no Porto, pois o pai administrava as sempre nos acompanhou com todo o carinho e a quintas, e o Quinta da Estrada como marca da marca Quinta da Estrada pelo facto da casa de quinta onde está a casa desde 1820. Estou a pensar. família estar nessa quinta. Rita – Em relação à produção vinícola da quinta, qual é o vinho que mais se produz e que características apresenta? José Lacerda – O vinho que mais se produz é o Reserva Tinto. Trata-se de um vinho de cor granada, com aromas complexos, muita estrutura e potencial e final de boca muito longo. \"O melhor vinho é o que bebemos com os nossos amigos… pode ser Douro, Alentejo ou Bordéus….\" Marta – E quanto ao mercado de exportação, Entrevista realizada por : quais são os países para onde exporta? Marta Gonçalves e Rita Abreu José Lacerda – Em matéria de exportação, a Suíça tem sido um bom mercado, mas também vamos conseguindo exportar para o Brasil. Jornalistas em rede Entrevistas
Natureza e plantas - Entrevista com a horticultora Maria José Teixeira 19 D. Maria José Teixeira E NETNRTERVEI VS ITSATSA S Como fomos desafiados a ser entrevistadores por um dia, decidimos ir a um local rodeado de natureza e de bela paisagem “O Vieiro dos Poetas”, localizado na quinta dos poetas, Flores. É um negócio próprio que tem como proprietários Maria José Teixeira e Luís José Teixeira. Decidimos entrevistar uma pessoa que nos é próxima, a mãe do José, que se disponibilizou para nos responder a algumas perguntas sobre o seu trabalho, com uma enorme simpatia. Diana: Qual é o seu trabalho e como é ter um Zé: Como é estar dependente do clima para negócio próprio? poder exercer o seu trabalho? Maria José: É bom e é mau. Ter um negócio próprio Maria José: O clima é um bocadinho ingrato, faz-me dedicar a maior parte do meu tempo ao porque se chove muito e já tivermos as sementeiras negócio, no meu caso é um viveiro de plantas. feitas corremos o risco de elas não germinarem, se Comecei por produzir só plantas florestais que eram estiver muito calor, temos que começar a fazer regas vendidas na época sazonal de outubro, mas que, mais cedo, como aconteceu este ano. Este ano mediante o tempo que fizesse, podia sempre ir de praticamente tivemos que regar o viveiro coisa que outubro a abril. Se o tempo deixasse, ainda se vendia no inverno não era necessário. Como não houve qualquer coisa em maio. No resto dos seis meses, praticamente inverno, tivemos que regar e agora tínhamos de fazer um bocadinho como a formiga que estamos a braços com o problema de não ter era amealhar para nos podermos sustentar até à chovido. A mina que nos dá água para podermos nova época florestal que era outra vez em outubro ou regar o viveiro secou e não temos autorização para novembro. Depois começamos a diversificar um tirar água do rio para podermos regar as nossas bocadinho a nossa área, passamos a ter plantas plantas. Embora o homem seja o principal culpado ornamentais, fruteiras, hortícolas, videiras. E como as disto, espero que a situação melhore para podermos videiras e as hortícolas também são de produção levar isto a bom porto. sazonal, começamos a fazer jardinagem para complementar a nossa parte de Verão. Agora Diana: Sempre teve a ambição de seguir algo fazemos jardinagem o ano todo, produzimos as nesta vertente quando era jovem? nossas plantas florestais e fazemos engorda de Maria José: Sim, o meu pai já tinha um viveiro, fazia plantas de jardim. projetos e eu sempre desde muito pequena gostei de Jornalistas em rede Entrevistas
o acompanhar, de ir para o monte, ajudar a plantar Diana: Muito obrigada por ter disponibilizado um pinheiros, aprender a semear. Sempre gostei da pouco do seu tempo para nos atender e nos ter natureza e não me vejo a estar fechada dentro de dado a conhecer um pouco mais o que é quatro paredes o dia todo. Para mim, isso seria uma trabalhar num viveiro e como é ter um negócio doença e quando tenho que ir para o escritório fazer próprio. orçamentos, fazer pagamentos, fazer lançamentos da contabilidade (embora tenha contabilista, sou eu que faço esse trabalho), não gosto muito, mas alguém tem de o fazer e tenho de ser eu, para poder gerir bem o meu negócio. Zé: De algum modo, ter um negócio em família afeta as relações interpessoais? Maria José: Não, no nosso caso não. Eu e o meu marido trabalhamos juntos e temos dias que só nos cruzamos ao jantar e temos sempre assunto para conversar, sempre, não há uma refeição em que 10 estejamos calados. O meu marido faz a jardinagem eu tenho a parte das entregas, gerir a empresa, atender os clientes e no final do dia temos sempre ENTREVISTAS conversa, ou na hora em que nos encontramos, por isso temos sempre que saber gerir as relações, mas no nosso caso até a data corre tudo às mil maravilhas. Diana: Certamente há alguma tarefa que goste Fonte: Jornal À procura mais de fazer no seu trabalho, se sim, o quê? Maria José: Como já tinha referido, prefiro andar na rua, semear, organizar, atender clientes. Gosto mais de lidar com a natureza e com as plantas do que propriamente estar fechada dentro de quatro paredes a tratar de papéis e a atender telefone. Zé: O que mudaria no seu trabalho para torná-lo \"O clima é um bocadinho ingrato, porque se chove melhor? muito e já tivermos as sementeiras feitas corremos o Maria José: Gostaria de arranjar pessoas risco de elas não germinarem, se estiver muito calor, qualificadas. Infelizmente, as pessoas que trabalham aqui no viveiro que são qualificadas não querem, só temos que começar a fazer regas mais cedo, como querem trabalho de gabinete. Isto não é só um aconteceu este ano. Este ano praticamente tivemos trabalho de gabinete, tem muito trabalho de campo, tem muito conhecimento científico que é aprendido que regar o viveiro coisa que no inverno não era nas universidades, mas eles não sabem na prática necessário. Como não houve praticamente inverno, como aplicar os conhecimentos que têm, e neste tivemos que regar e agora estamos a braços com o preciso momento é muito difícil arranjar pessoas qualificadas para trabalhar. A agricultura está em problema de não ter chovido.\" crise e nós não temos outra alternativa senão tentar arranjar maquinaria que esteja à altura para Entrevista realizada por : podermos dinamizar a nossa área. Se conseguir, vou Diana Cunha e José Teixeira por tudo o mais mecanizável possível, visto não haver mão de obra qualificada para podermos evoluir. Jornalistas em rede Entrevistas
Informática - Entrevista com o engenheiro de software Pedro Miguel Costa 111 Pedro Miguel Costa A equipa Velocidi E NETNRTERVEI VS ITSATSA S Para a nossa entrevista, escolhemos um jovem engenheiro informático, Pedro Miguel Sousa da Costa. Pedro nasceu em Vila Real, estudou na Escola Secundária São Pedro e na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Terminada a licenciatura, passou a trabalhar na empresa Velocidi, sediada no Porto, de que falaremos no decorrer da entrevista. P - Quais são as áreas de atuação privilegiadas dia sem interagir com ela (direta ou indiretamente). da engenharia informática? Desde as chamadas de vídeo com amigos noutro R - Na minha opinião, as limitações/alternativas que país até aos pagamentos por contactless, do outrora impediam a adoção de soluções baseadas streaming de vídeos de forma instantânea aos na digitalização e aplicação de técnicas criadas no computadores de bordo extremamente complexos e âmbito de engenharia informática têm vindo rápidos que coordenam todas as partes dos gradualmente a desaparecer, de uma forma mais automóveis, a engenharia informática instalou-se em acentuada, recentemente, devido à COVID-19. Assim, praticamente todos os aspetos da nossa vida. não seria completamente errado afirmar que hoje em dia a engenharia informática tem uma importância P - Qual é a filosofia e método de trabalho da muito elevada em todas as áreas. Menciono as mais empresa onde trabalha? conhecidas e as que usamos mais frequentemente: o R - Na minha empresa, todo o trabalho é feito com o hardware e software dos nossos dispositivos objetivo de oferecermos o melhor produto aos nossos (computadores, telemóveis, etc.), as redes sociais — clientes. Para isto, o nosso método de trabalho que têm sempre que resolver problemas não triviais divide-se em 3 fases: 1) descoberta de novas em grande escala para suportarem tantos funcionalidades e melhoramentos importantes do utilizadores —, toda a indústria de jogos, realidade nosso produto; 2) ordenação das tarefas pela sua virtual e aumentada, e inteligência artificial. importância e urgência; 3) atribuição das tarefas aos membros da equipa. Segue-se uma abordagem ágil P- De que modo é que a engenharia informática que permite acomodar alterações inesperadas ao está presente no nosso dia-a-dia? desenvolvimento. R- Como já referi, a engenharia informática e as suas aplicações e produtos estão tão enraizadas no nosso P - Qual é o seu papel nesta empresa? dia-a-dia, hábitos e dependências que é bastante R – Sou Engenheiro de Software e contribuo para o difícil, para não dizer impossível, passarmos um único desenvolvimento do produto em qualquer aspeto Jornalistas em rede Entrevistas
relacionado com engenharia informática. P - Quais são os principais desafios e Desde as chamadas de vídeo com amigos noutro país oportunidades que esta empresa lhe coloca? R - Relativamente aos desafios, os principais são manter a qualidade do nosso produto enquanto aumentamos a sua complexidade para o acomodar novas funcionalidades. Em relação às oportunidades, a minha empresa permite-me trabalhar num ambiente muito confortável e familiar, sem me colocar uma grande pressão e conferindo-me liberdade para a gestão do meu próprio tempo de trabalho. P- De que forma os serviços de marketing digital até aos pagamentos por contactless, do streaming de prestados pela Velocidi constituem uma mais- vídeos de forma instantânea aos computadores de valia para as marcas com que trabalham? bordo extremamente complexos e rápidos que 2 coordenam todas as partes dos automóveis, a 12 R - A Velocidi permite às marcas com quem trabalha engenharia informática instalou-se em praticamente conhecer melhor os seus clientes que fazem compras através das suas lojas online e construir uma todos os aspetos da nossa vida. ENTREVISTAS estratégia de marketing mais eficiente, com estratégias feitas sob medida para cada Entrevista realizada por : característica dos seus clientes. Daniel Pereira e João Costa Jornalistas em rede Entrevistas
Psicologia e Orientação - Entrevista com o Psicólogo da Escola Luís Mesquita 113 Nesta entrevista procuramos saber um pouco mais sobre o Serviço de Psicologia e Orientação E NETNRTERVEI VS ITSATSA S (SPO). Por essa razão, fomos falar com um dos psicólogos da nossa escola. P - Qual considera ser a sua função num individualmente, disponibilidade para promover ambiente escolar como o nosso? fóruns elucidativos sobre temas da atualidade R - A função de um psicólogo escolar está definida (bullying, insucesso escolar, discriminação)? pela DGE: “os Serviços de Psicologia e Orientação R - Esta escola tem dois psicólogos com trinta e em Contexto Escolar constituem-se como um recurso cinco horas semanais para um total de quase 1000 da escola que concorre para a concretização dos alunos. Se é suficiente? Tentamos que seja. Até à desafios da Estratégia 2020, no que respeita à data de hoje, nenhum aluno referenciado ou que melhoria do sucesso educativo, à redução do tenha procurado estes serviços ficou sem o devido abandono escolar precoce, à atratividade do ensino atendimento. profissional e à melhoria do ajustamento entre as competências dos jovens e as necessidades do P - Acreditamos que nenhum aluno terá ficado mercado de trabalho. sem atendimento. Contudo ficamos com alguma Atuam de forma integrada e em estreita articulação dúvida se será com a qualidade que o Senhor com a comunidade educativa, corpo docente e não Doutor desejaria. Isto é, nunca teve a sensação docente, pais e encarregados de educação, outros de “amargo de boca”, por exemplo, como agentes educativos do meio envolvente. Desenvolvem quando há suicídios na escola? a sua atividade nos domínios do apoio R -Deixe-me apenas fazer um reparo a esta questão. psicopedagógico a alunos e professores, do Esta escola teve um caso efetivo de suicídio. Estes desenvolvimento do sistema de relações da serviços tentam estar atentos a um conjunto de comunidade escolar e da orientação ao longo da suspeitas e sinais que se possam enquadrar num vida.” quadro semelhante (ou noutro). Esses sinais podem ser observados ou alertados por um amigo ou P - Parecem-nos tarefas muito abrangentes, membro da comunidade escolar. Quando se tem suspeitas de algo ou se observam alguns destes intermináveis, para não falar da complexidade sinais a LEI é clara - encaminhar para especialidade médica. Uma vez encaminhado, o SPO deixa de que será gerir tantos itens em tantas áreas e com legalmente poder intervir. Este foi, tem sido e será sempre o procedimento. tantos intervenientes. Acha que tem os meios necessários para poder trabalhar, nomeadamente tempo para atender cada aluno Jornalistas em rede Entrevistas
P – Que setor da comunidade estudantil o procura mais: os adolescentes ou os mais novos? R - Está definido pela Sra. Diretora que os novos alunos da escola têm que estar todos sob o olhar destes serviços. Os alunos da escola procuram o SPO independentemente da idade. 14 2 ENTREVISTAS P-Para terminar, e visto que o nosso e o seu sucesso dependem também da interação com Esta escola tem dois psicólogos com trinta e cinco pais e professores, como considera ser a sua horas semanais para um total de quase 1000 alunos. interação com eles, isto é, se é proveitosa ou Se é suficiente? Tentamos que seja. Até à data de nula? R - O SPO considera fundamental e imperioso o hoje, nenhum aluno referenciado ou que tenha contacto frequente entre estes serviços, os docentes procurado estes serviços ficou sem o devido e os pais e encarregados de educação. E sim, tem sido uma interação muito proveitosa. atendimento. Entrevista realizada por : João Pinheiro e Gonçalo Areias Jornalistas em rede Entrevistas
Conciliar a vida profissional e pessoal - Entrevista com o cirurgião Pedro Pinheiro “A vida e a morte fazem parte da natureza humana. Claro que é mais fácil lidar com a alegria de um nascimento do que com a tristeza de uma partida. Acho que o contexto, a intensidade dos momentos e a proximidade com que nos relacionamos com as pessoas em questão, é que podem condicionar o nosso modo de enfrentar cada uma.” 115 Muitas vezes, afirmamos que não temos tempo para nada, que passamos a vida a correr, enfim, E NETNRTERVEI VS ITSATSA S que estamos exaustos. Ora, para relativizarmos tudo isto, nada melhor do que ouvirmos o testemunho de alguém que consegue ser ótimo profissional, dedicado à família, atento a três filhos menores, com amigos e uma vida social que o tornam um exemplo para todos nós. Pensamos que depois desta entrevista, facilmente podemos concluir que gerir o tempo e avida é, afinal, uma questão de gestão do tempo, amor ao que se faz e capacidade para manter o sentido de equilíbrio. O nosso entrevistado é o cirurgião Pedro Pinheiro, que trabalha no Hospital São Pedro e no Hospital privado da Trofa e faz emergência médica. Lara Sobral - Sabemos que o seu horário área cirúrgica. Estas funções são de caráter mais semanal ronda as 60 horas, como é que as administrativo, mas têm de ser exercidas por distribui? médicos, de preferência já com algum tempo de R - O meu horário de base tem 40 horas semanais, carreira e conhecimento da vida hospitalar e da como está previsto na lei. No entanto, a carreira instituição. médica hospitalar prevê que, por imperiosa necessidade de serviço e a título excecional, as Ruina Fan - Como concilia o seu horário de direções de serviço possam exigir a realização de trabalho com a vida conjugal e paternal? mais um período de até 12 horas. A carência (ou R - Esta é uma das perguntas mais difíceis de talvez a má distribuição pelo mapa nacional) de responder. A vida conjugal é sempre assumida a médicos para assegurar todas as atividades que dois. Quando casei, já trabalhava e este ritmo era o sustentam a base de trabalho hospitalar levam a que, habitual, ou talvez ainda maior. A minha mulher, fruto aquele carácter excecional, neste momento seja de também ela ser profissional de saúde, conhece praticamente a norma. Assim, o meu tempo semanal bem a realidade da minha atividade e sempre me no hospital divide-se entre um período de consulta apoiou. Não foi com surpresa que encarou as noites externa de Cirurgia geral (que é a minha e os fins de semana passados sem o marido em casa. especialidade), o bloco operatório, a assistência No que à paternidade diz respeito, a lógica de clínica aos doentes internados e prestação de raciocínio muda ligeiramente: a opção de ser pai foi serviço de urgência. Para além destas atividades, do casal e não dos filhos, naturalmente, pelo que ainda dou apoio semanal na equipa da Viatura assumir uma paternidade responsável traz algumas Médica de Emergência e Reanimação (VMER), faço obrigações; entre estas, destaco o compromisso que um período de consultas em regime particular e assumi de reduzir algumas horas da minha atividade assumo 1 ou 2 períodos de 24 horas mensais no desde o nascimento do meu primeiro filho. Neste Serviço de Helicópteros de Emergência Médica momento, com três filhos, procuro estar presente o (SHEM). mais que posso, desenvolver mais intensamente os Ainda no âmbito da minha atividade, e porque a compromissos profissionais nas horas em que eles idade nos traz algumas responsabilidades e estão na escola ou noutras atividades, organizar o conhecimento, neste momento exerço funções de calendário de férias e trocas de fins-de-semana em direção de um serviço (bloco operatório) e na função de momentos da vida familiar e evito, embora direção clínica do hospital, como adjunto para a - nem sempre consiga, trazer trabalho para casa Jornalistas em rede Entrevistas
(“TPC”); se acontecer, procuro fazê-lo quando já Lara Sobral - Que conselhos daria a quem quer estão a dormir. seguir medicina? Lara Sobral - Alguma vez se arrependeu desta R - Na medicina, como em todas as profissões, a profissão? R - Não, nunca me arrependi! dedicação e empenho são fundamentais. Não será possível encontrar uma atividade que nos agrade em todos os momentos (também faço algumas coisas Ruina Fan - Está relacionado com emergência para as quais não tenho grande motivação), mas a médica. Certamente teve um caso que tenha sido essência da profissão está na capacidade que temos marcante. Qual foi? de olhar para cada pessoa como um ser único, com R - Na emergência médica temos diversos casos que um problema, e que um gesto, ou decisão, da nossa por este ou aquele motivo nos deixam memórias. parte, pode transformar uma vida! Só por isso já valeu Guardo hoje a alegria de ter ajudado a nascer a pena! 16 alguns bebés, e ainda me lembro do primeiro, em Ruina Fan - Muito obrigada pela sua 2 Resende, com todos os pormenores. Também guardo disponibilidade em responder às nossas com tristeza o falecimento de um recém-nascido, perguntas e por ter colaborado na realização com 3 semanas; é um momento dramático! Conservo desta entrevista de igual modo na memória uma emergência que tive com um dos meus filhos: não foi fácil de esquecer! ENTREVISTAS Lara Sobral - Lidar com a vida e a morte relativiza este problema? R - A vida e a morte fazem parte da natureza humana. Claro que é mais fácil lidar com a alegria de um nascimento do que com a tristeza de uma partida. Acho que o contexto, a intensidade dos momentos, e a proximidade com que nos relacionamos com as pessoas em questão, é que podem condicionar o nosso modo de enfrentar cada um. Apesar disto, procuro sempre que as minhas decisões técnicas sejam de acordo com o estado da arte, à luz do que a ética e as boas práticas ditam, e não se deixem condicionar pelo meu estado de espírito ou pela minha relação pessoal com o doente. Ruina Fan- Já alguma vez ponderou desistir desta Entrevista realizada por : carreira? Lara Sobral e Ruina Fan R - Não. Mas já pensei ajustar a vida profissional que levo de modo a baixar um pouco o ritmo. Jornalistas em rede Entrevistas
Na hora de deixar o ninho - Entrevista com a estudante Inês Ribeiro “Grande parte das pessoas que conheço falam da universidade como um mundo muito assustador, porém penso que me consegui habituar a este novo ambiente. Inicialmente, penso que todos acabamos por achar a universidade um pouco aterradora, mas tudo passa e quando nos habituamos passa a ser um mundo muito atrativo.\" Inês Ribeiro, estudante de Engenharia 117 Biomédica, em Lisboa A entrada na universidade é muitas vezes um choque para os estudantes do ensino secundário, E NETNRTERVEI VS ITSATSA S uma vez que estes são obrigados a enfrentar um mundo totalmente novo e desconhecido, sendo este ainda mais aterrador quando têm de abandonar a sua residência para entrar no curso desejado. A entrevista que se segue aborda os desafios e a conceção de uma egressa da Universidade Nova de Lisboa, a estudante Inês Ribeiro, que passou por este momento há pouco tempo. Inês Ribeiro é uma jovem de 20 anos, de Vila Real, mas que atualmente se encontra a viver em Lisboa devido à entrada na universidade. Inês entrou no curso de Engenharia Biomédica com média de 18,1. Jovem estudiosa, simpática e divertida viu-se obrigada a mudar de uma cidade pequena e acolhedora para a capital do país. Rodrigo e José: De que modo a mudança para estava a viver uma nova etapa da minha vida que me Lisboa afetou a sua relação com a família, os ia abrir muitas portas no futuro. colegas e os professores? Inês: Houve um distanciamento com os meus colegas Rodrigo e José: É feliz como estudante e professores do que propriamente com a minha universitária? família. Continuo a estabelecer contacto e a falar Inês: Sou, gosto do meu curso, os meus colegas e com alguns colegas e amigos, com outros já não falo professores são excelentes e sinto-me realizada por assim como com os professores. Em relação à família ter a oportunidade de frequentar um curso que me e amigos mais próximos, sempre que posso ir a Vila agrada e que me pode trazer muitas oportunidades Real faço questão de passar algum tempo com eles, de vir a trabalhar naquilo de que gosto. mantendo assim a nossa relação. Rodrigo e José: Como se sentiu dentro da Rodrigo e José: Foi difícil orientar-se em Lisboa? universidade nos primeiros tempos? Inês: Nos primeiros tempos, uma das maiores Inês: Impactada pela mudança de realidade a que dificuldades foi a deslocação na cidade, uma vez fui exposta. Senti-me fora da minha zona de que ainda não a conhecia muito bem e não estava conforto, longe da minha família e amigos, estando habituada a “viver” numa cidade como Lisboa. Sendo desmotivada por estas razões nos primeiros tempos. assim, o meu principal meio de transporte foram os No entanto contei com todo o apoio deles, o que me transportes públicos. ajudou muito a sentir-me bem no curso em que estava. Rodrigo e José: Sentiu-se insegura, ou foi tudo fascinante? Rodrigo e José: Achou a Universidade um mundo Inês: Por estar longe da minha família e amigos e muito atrativo ou aterrador? não conhecer praticamente ninguém, senti-me triste, Inês: Grande parte das pessoas que conheço falam insegura e receosa. Para além disto, o curso em si é da universidade como um mundo muito assustador, muito trabalhoso. Porém nunca me esqueci que - porém penso que me consegui habituar a este novo Jornalistas em rede Entrevistas
ambiente. Inicialmente, penso que todos acabamos Rodrigo e José: Inês, agradecemos a sua por achar a universidade um pouco aterradora, mas disponibilidade em dar-nos esta entrevista. A tudo passa e quando nos habituamos passa a ser um partilha da sua experiência como estudante mundo muito atrativo. universitária deslocada da sua área de residência habitual vai certamente ajudar muitos jovens. Felicidades para o seu curso! Inês Ribeiro, estudante universitária \"Todos sabem que para se ser um estudante 18 universitário bem-sucedido é preciso estudar bastante 2 (sendo mais importante a qualidade do estudo do que ENTREVISTAS a quantidade) e ser organizado.\" Rodrigo e José: Que conselhos dá aos estudantes Entrevista realizada por : que vão frequentar a Universidade pela primeira José Pimenta e Rodrigo Ribeiro vez, para que a sua vida universitária seja bem- sucedida? Inês: Todos sabem que para se ser um estudante universitário bem-sucedido é preciso estudar bastante (sendo mais importante a qualidade do estudo do que a quantidade) e ser organizado. Também considero ser muito importante cuidar da saúde mental e não se deixar afetar muito por toda a pressão a que estarão expostos. Por fim, dormir bem e saber conciliar a rotina do estudo com os momentos com a família e amigos, de modo a que haja tempo para tudo e todos. Jornalistas em rede Entrevistas
Colocação de professores - Entrevista com a professora Sara Rocha A professora Sara Rocha com os entrevistadores “Grande parte das pessoas que conheço falam da universidade Dina Lima e Rodrigo Silva como um mundo muito assustador, porém penso que me consegui habituar a este novo ambiente. Inicialmente, penso que todos acabamos por achar a universidade um pouco aterradora, mas tudo passa e quando nos habituamos passa a ser um mundo muito atrativo.\" 119 Enquanto alunos, sempre estivemos próximos e atentos aos problemas da colocação dos nossos E NETNRTERVEI VS ITSATSA S professores. Ao longo dos anos, fomos percebendo a ansiedade a cada final de ano letivo e as dificuldades em garantir trabalho, mais ou menos longe da área de residência, com horário mais ou menos completo, a cada início de ano letivo. Quando perguntamos ao/à nosso/a professor/a preferido/a se no ano seguinte vai continuar a dar-nos aulas, obtemos quase sempre a mesma resposta: \"Não sei, só sei em meados de agosto\". Posto isto, decidimos aprofundar a questão, entrevistando a Professora Sara Rocha, que conhece por experiência própria as dificuldades sentidas pelos docentes no processo de colocação de professores. Leciona Inglês e Espanhol há 11 anos, já trabalhou com alunos de todos os níveis de ensino, de várias faixas etárias, e ainda não conseguiu integrar um quadro de escola na sua área de residência. A sua experiência de docência inclui também a passagem, durante um ano, pela “Internatinal House H Pamplona”. P - Dra. Sara, quais são as principais zona de residência, há que pensar onde é que nós dificuldades que sente toda a vez que é colocada vamos viver, onde é que vamos dormir, se há casas numa escola diferente? ou apartamentos para alugar, se podemos alugar R - Bom, eu acho que cada vez que somos colocados algum quarto numa casa partilhada por outros numa escola, temos sempre duas preocupações. Por professores, onde fica o supermercado, a farmácia um lado, é a que tem a ver com o contexto escolar, ou o centro comercial mais próximos, enfim, coisas ou seja, a escola onde fomos colocados. Conhecer básicas do dia a dia. Então, à priori, acho que são as instalações, os colegas, os funcionários… porque o estes os dois contextos a que temos de estar atentos: primeiro contacto que temos numa escola quando o contexto escolar e o contexto do local onde se somos colocados é a secretaria, não é? E damos situa a a escola. logo de caras com funcionários que não conhecemos e como é um processo que é sempre diferente todos P - O que pensa sobre a morosidade do processo os anos, é voltar ao ponto zero. Conhecer pessoas de colocação dos professores no Quadro de novas, conhecer a direção, os colegas, as instalações Zona Pedagógica (QZP) e no Quadro de e acima de tudo, porque nós trabalhamos sempre em Agrupamento /Escola Não Agrupada (QA/QE)? equipa numa escola, é bom “conhecermos pelo R - De facto, a colocação de professores é um menos algumas pessoas pelo nome”, até para criar processo moroso, demasiadamente moroso, e acho uma relação de maior proximidade e, obviamente, que é uma das razões pelas quais há tanta falta de conhecer os alunos que são parte fundamental neste professores neste momento em Portugal. Se for um processo todo. professor que já esteja num quadro de escola ou no Por outro lado, eu acho que depois temos ainda uma quadro de zona pedagógica o processo é um dificuldade ou pelo menos uma característica da bocadinho diferente, é mais facilitado, porque já faz nossa colocação que é conhecer o local onde a parte dos quadros. escola está situada, para saber, por exemplo, onde é O processo divide-se em dois momentos. A primeira que estão os serviços mais próximos da escola, parte do processo de colocação começa em abril. Nessa altura, introduzimos os nossos dados pessoais porque ao sermos colocados num local fora da nossa Entrevistas Jornalistas em rede
e profissionais uma plataforma ou, como de ano para Acho que se houvesse a preferência regional, isso ano são os dados como sempre os mesmos, limitamo- resolvia muitos problemas, porque um dos grandes nos a validá-los. problemas da colocação de professores hoje em dia é A segunda fase, a da manifestação de preferências, o facto de termos que abandonar a nossa a zona de é na segunda quinzena de julho. Essa, sim, é uma residência, a nossa casa, a nossa família, o nosso “dor de cabeça”. Nessa altura, colocamos todos os “habitat natural”, para irmos para fora, o que nos vai códigos das escola, do concelho e de “QZP” (quadro de zona pedagógica) nos quais queremos ser obrigar obviamente a gastar gasóleo e portagens, colocados, por ordem de preferência. Como devem eventualmente a pagar uma segunda renda, e a viver imaginar, é um processo muito demorado, inserimos longe da família, o que em termos de saúde mental é centenas de códigos e é um “tiro no escuro“, porque muito mau... Temos que ser muito fortes porque nada nos garante que nós de facto vamos ser senão… é muito mau, muito mau. colocados na primeira ou na segunda preferência. P - Na sua opinião, como se poderia agilizar todo esse processo e minorar os custos que os \"Acho que devia ser aplicado na colocação de professores têm com a deslocação para fora da 2 professores o critério da preferência regional, sua área de residência ou com o arrendamento de uma segunda casa de habitação? 20 resolvia tantos problemas. Há várias pessoas a R - Vou-me repetir, mas essa questão da preferência concorrer para o mesmo concelho, mas teriam regional acho que resolvia muitos problemas. Resolvia o facto de nós não temos que alugar segunda casa, ENTREVISTAS prioridade as pessoas cuja a residência fizesse parte de não temos que gastar tanto dinheiro em desse concelho.\" deslocações… Portanto, isso seria um ponto muito importante. P - Já foi colocada em alguma escola para a qual Uma segunda solução seria, por exemplo, a existência não tenha concorrido? de ajudas de custo, como acontece muitas vezes com R - Não, isso é impossível. Nós só somos colocados os juízes e com os médicos, ou a criação de numa zona para a qual tenhamos concorrido, nem residências ou alojamentos locais para professores, que seja em último lugar. Quando falamos de um que nos ajudassem a diminuir os custos da deslocação quadro de zona pedagógica (QZP), este pode da nossa área de residência e, em muitos casos do englobar vários distritos, várias escolas nesse distrito, pagamento de uma segunda habitação. ou seja, o “QZP” é o mais abrangente de todos, então aí é mesmo um “tiro no escuro”. Se nós No meio disto tudo, há uma bebé, uma família que se colocarmos os códigos de escolas sabemos que estamos a concorrer especificamente para aquela separa e todo um contexto sentimental e de saúde escola, se colocarmos códigos de conselho significa mental que é afetado. Como ambos gostamos muito que queremos ser colocados em todas as escolas do daquilo que fazemos, mas somos os dois professores concelho e se colocarmos os códigos de “QZP” significa que queremos ser colocados em qualquer contratados, andamos os dois de casa às costas. escola dos vários distritos daquele “QZP”. Portanto já me aconteceu ser colocada num dos últimos que Vou falar-lhes de um caso concreto, o meu. O meu coloquei que foi Mafra e fui lá parar. Depois, pensei, não devia ter concorrido para Mafra, mas uma marido é professor como eu, mas de educação física. pessoa na dúvida concorre. Acho que devia ser aplicado na colocação de Para conseguir um lugar no concurso de professores, professores o critério da preferência regional, resolvia tantos problemas. Há várias pessoas a começou de “baixo para cima”. Esteve no Algarve dois concorrer para o mesmo concelho, mas teriam prioridade as pessoas cuja a residência fizesse parte anos e este ano esteve em Mafra e em Benavente. No desse concelho. Esta solução permitira resolver também o problema da falta de professores em meio disto tudo, há uma bebé, uma família que se algumas zonas do país, nos grandes “QZP´s” - o sete que é Lisboa, o oito e o nove que são o Alentejo e o separa e todo um contexto sentimental e de saúde dez que é o Algarve. Atualmente, se um professor contratado com menos tempo de serviço quer ter mental que é afetado. Como ambos gostamos muito uma oportunidade de ficar colocado tem que ir para longe de casa, preferencialmente para sul de Lisboa, daquilo que fazemos, mas somos os dois professores porque a zona norte está praticamente preenchida com os colegas contratados que são mais velhos, contratados, andamos os dois de casa às costas. No têm muito tempo de serviço e nos passam à frente. no caso da educação física, que é um grupo de recrutamento que está completamente lotado, as dificuldades de colocação são ainda maiores. É caso para dizer: “por favor, não formem mais professores de educação física nos próximos 4/5 anos”, porque ou isto dá a volta ou não sei como é que vai ser. Ele teve de ir para longe, com tudo o que isso implica, e provavelmente ainda vai continuar neste situação mais alguns anos. Continua na pagina seguinte) Jornalistas em rede Entrevistas
Colocação de professores - Entrevista com a professora Sara Rocha \"Adoro o que eu faço, sinto que nasci para isto. Ao longo da 211 minha vida - dos vários anos em que estudei, quando era aluna na Camilo, quando fui para a Faculdade de Letras do Porto e quando saí da Universidade - percebi que era este o meu caminho.\" A professora Sara Rocha E NETNRTERVEI VS ITSATSA S P - Lecionou em Espanha, na escola “Internatinal irem o Secundário, podem esperar um ano antes de House Pamplona”. Que semelhanças/ diferenças entrar numa universidade e perceber melhor o que encontrou em relação ao sistema de ensino querem fazer, que área é que querem seguir, sem ter português, em particular no processo de aquela pressão de decidir logo, porque em setembro colocação de professores? têm de esta a frequentar uma universidade. R - Bom, o sistema de ensino espanhol tem partes Em relação à colocação de professores, não tenho muito parecidas, mas tem características que são grande conhecimento sobre o processo. Sei que muito diferentes, para melhor, acho eu. Por exemplo, depende também do Ministério da Educação, que os alunos têm teatro desde muito pequenos. Mas vou também passa por um concurso e que tem a ver com falar de uma questão específica, que eu acho que é o tempo de serviço, mas especificamente não sei muito boa no sistema educativo espanhol que é a mais nada. preocupação com a aprendizagem do inglês. Os espanhóis têm a noção de que são muito “duros de P - Se surgisse a oportunidade, voltaria a ouvido” para as línguas estrangeiras, mas têm lecionar em Espanha? consciência que o inglês vai abrir muitas portas aos R - A verdade é que um filho muda muita coisa, muita seus filhos e que, chegando à universidade, vão coisa… Eu aprendi muito em Espanha no ano em que precisar de dominar bem essa língua. Assim, os lá trabalhei, estudei em Espanha, mas estudar e alunos têm inglês desde os três anos e, para além do trabalhar implicam contextos diferentes. Aprendi inglês curricular, têm o inglês de Cambridge, que lhes muito enquanto professora e cresci muito enquanto permite realizar exames e obter um certificado pessoa, mas foi um ano muito difícil para mim. reconhecido em todo o mundo. Era aí que eu Portanto voltar… voltava, mas só se fosse com a entrava: dava aulas de inglês Cambridge a esses família atrás de mim. meninos. O que é engraçado é que no segundo semestre todas as aulas eram dadas em inglês, ou Aprendi muito enquanto professora e cresci muito seja, os alunos têm ciências em inglês, matemática em inglês, educação física em inglês, história em enquanto pessoa [em Espanha], mas foi um ano muito inglês… precisamente para a desenvolver a língua inglesa. Isso fazia com que muitos dos meus colegas difícil para mim. Portanto voltar… voltava, mas só se fossem também meus alunos, porque não tinham nível de inglês para poder dar a sua disciplina nessa fosse com a família atrás de mim. língua. Outro aspeto que achei interessante no sistema de P - Apesar dos obstáculos que enfrenta na sua ensino espanhol, foi a existência do Gap Year para profissão, mormente as enormes dificuldades em os alunos do Ensino Secundário. Tal como acontece integrar os quadros, de zona e de escola, o que a nos Estados Unidos e em Inglaterra, depois de conclu faz continuar? R - O que me faz continuar é muito simples. Adoro o Jornalistas em rede que eu faço, sinto que nasci para isto. Ao longo da Entrevistas
minha vida - dos vários anos em que estudei, quando O reconhecimento do nosso trabalho por parte dos era aluna na Camilo, quando fui para a Faculdade alunos (e dos nossos pares) é muito importante. de Letras do Porto e quando saí da Universidade - Qualquer pessoa gosta de ter um bocadinho de percebi que era este o meu caminho. Eu gosto muito reconhecimento na sua área, na sua profissão. do que faço, é minha paixão! A relação que se tem Voltando à vossa pergunta, e sintetizando, o que me com os alunos é a outra razão que me faz continuar faz continuar são a paixão pelo que faço e o privilégio e gostar cada vez mais da minha profissão. de trabalhar com alunos e poder constatar (e faze Primeiro a paixão que tenho pelo que faço e depois parte) (d)a sua evolução (como aprendentes e como os alunos. Ver a evolução dos alunos. Aprender muito seres humanos). com os alunos. No fundo, passamos mais tempo com eles do que com a nossa própria família, passamos mais tempo na escola do que em casa. E nunca nos podemos esquecer que os alunos são pessoas, que estamos a falar para pessoas. Chegar a fim do ano letivo e perceber a evolução nos 2 ENTREVISTAS22 alunos quer ao nível de língua, que é o meu caso, porque é a minha disciplina, quer ao nível do Entrevista realizada por : Dina Lima e Rodrigo Silva crescimento pessoal, vê-los mais autónomos, mais libertos (alguns alunos, mais fechados no início, \"soltam-se\"), vê-los mais adultos, mais seguros de si mesmos, tudo isto é muito gratificante para um professor. Eu acho que um professor tem que ter essa essa sensibilidade de perceber que há ali seres humanos, que há ali filhos de mães e pais e que também têm dias menos bons (porque nós temos dias menos bons) e que são parte fundamental disto tudo. Chegar a fim do ano letivo e perceber a evolução nos alunos quer ao nível de língua, que é o meu caso, porque é a minha disciplina, quer ao nível do crescimento pessoal, vê-los mais autónomos, mais libertos (alguns alunos, mais fechados no início, \"soltam-se\"), vê-los mais adultos, mais seguros de si mesmos, tudo isto é muito gratificante para um professor. Claro que nem todos os alunos gostam de nós enquanto pessoa, mas também não precisam de gostar enquanto pessoa, precisam é de, quando voltarem a encontrar-me na rua, alguns anos mais tarde, olharem para mim e lembrarem-se da disciplina, lembrem-se do espanhol. Às vezes ficam “Ah, lembro-me daquela aula, lembro-me da outra aula...”. Acontece-me, muitas vezes, encontrar na rua ex- alunos que já estão na Faculdade, que já trabalham, que me reconhecem e cumprimentam, o que é muito bom. Mas dizerem que se lembram do espanhol ou do inglês com carinho e constatar que vêm, felizes, ter comigo a informar “Oh professora, depois acabei por ir para Espanha..\", ou a evocar, de forma cúmplice, situações de aula, momentos vividos na escola, deixa-me muito, muito contente. Jornalistas em rede Entrevistas
213 E NETNRTERVEI VS ITSATSA S Jornalistas em rede Entrevistas
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