Revista do Departamento 1n.º de Coração, Vasos e Tórax Outubro 2019 do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central Diretora: Sílvia Malheiro e Revista Quadrimestral PVP 5,01 euros 60 anosEEspdeiçcãiaol SeCrvairçdoiodteorCáicriucargia SERVIÇO DE CIRURGIA CARDIOTORÁCICA uma referência a nível nacional “pTreorfadumenadãlooguenéommcáoégricaoçã”o 50 “OsaHalvveoiaudra-tmM” eate José Fragata, diretor do Departamento anos José Luz, primeiro de Coração, Vasos e Tórax e do português a colocar Serviço de Cardiologia Pediátrica um coração artificial Serviço de Cirurgia Cardiotorácica vai iniciar as comemorações do seu1 aniversário
e “Ter a mão no coração de alguém é algo muito profundo e mágico. 04 N.º 1 - outubro 2019 S U M Á R I O Uma experiência colossal” Grande entrevista a José Fragata, diretor do Departamento 10 Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular “O programa de tratamento da rotura da aorta reduziu a mortalidade 12 associada à doença em 30 por cento” Maria Emília Ferreira, diretora do serviço 14 “Os enfermeiros devem ter competências técnicas, científicas 16 e relacionais” Clara Vital, coordenadora da área de Coração, Vasos e Tórax 20 Serviço de Cirurgia Pediátrica 24 Uma imagem vale mais que mil palavras Serviço de Pneumologia 28 “Fazemos cerca de 30 transplantes pulmonares por ano, com 36 uma sobrevida sobreponível aos registos internacionais” 38 João Cardoso, diretor do serviço 39 “Santa Marta tem do melhor material humano que existe” 40 Lino Patrício, coordenador da pathway TAVI “A integração de todos os exames no mesmo espaço físico é 42 uma mais-valia em termos de gestão” Paulo Franco, coordenador da Cardiopneumologia O Serviço de Cirurgia Cardiotorácica já tem 60 anos Fotorreportagem cirurgia de implante do HeartMate Entrevista a José Carlos Luz, primeiro português a receber um coração artificial “Cirurgia Cardíaca – Monitorização de resultados” Pedro Coelho, cirurgião cardiotorácico Serviço de Cardiologia “Imagiologia intra-coronária por tomografia de coerência ótica uma ‘imagem de marca’” Rui Cruz Ferreira, diretor do serviço “Fibrilhação auricular e apneia do sono: uma combinação comum” Mário Oliveira, coordenador do Departamento de Eletrofisiologia e Pacing do Serviço de Cardiologia FICHA TÉCNICA: Revista Coração, Vasos e Tórax | Diretora: Sílvia Malheiro ([email protected]) | Publicação Redação: Catarina Cardeta ([email protected]), Sílvia Malheiro | Fotografia: Jorge Correia Luís | Paginação e design: Isa Silva | A Revista Coração, Vasos e Tórax é uma publicação da Miligrama Comunicação em Saúde, Unipessoal, Lda. ([email protected]) de periodicidade quadrimestral, dirigida a profissionais de saúde, isenta de registo na ERC, ao abrigo do Decreto Regulamentar 8/99, de 9/06, artigo 12, n.º 1ª. | Tiragem: 3.000 exemplares | Preço de Venda ao Público: 5,01 euros | Depósito Legal: 462354/19 | Impressão e acabamento: Ligrate - Atelier Gráfico Lda. 3
e E N T R E V I S TA José Fragata falou-nos do Departamento de Coração, Vasos e Tórax, do qual é diretor, dos desafios que enfrenta nesta sua missão e da sua profissão de cirurgião cardiotorácico. Define-se como um técnico demasiado exigente consigo próprio e com os outros e considera-se um privilegiado por poder tocar no corpo e, sobretudo, no coração dos outros. Implica que confiem em si. Não tem dúvidas que a cirurgia o tornou uma pessoa melhor. José Fragata, diretor do Departamento de Coração, Vasos e Tórax e do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica “TER A MÃO NO CORAÇÃO DE ALGUÉM É ALGO MUITO PROFUNDO E MÁGICO. UMA EXPERIÊNCIA COLOSSAL” Revista Coração Vasos e casos, se fazem apenas neste também um grande sentido de Tórax (RCVT) - Como é dirigir centro, como por exemplo a responsabilidade. O anterior um departamento hospitalar tromboendarterectomia pulmonar Conselho de Administração com cinco serviços e oito ou a transplantação pulmonar. desafiou-me para esta filosofia dos centros de referência? É um departamento com uma serviços afins que se agrupam em José Fragata (JF) - É um especificidade própria. áreas, algo que para mim também desafio constante, não só RCVT - Foi o espírito fazia sentido. Eu já dirigia o pela complexidade da área, de missão que o Serviço de Cirurgia Cardiotorácica como pelo momento que temos levou a assumir esta e, com a devida modéstia, era estado a viver, que é de muitas responsabilidade? a pessoa que estaria mais bem restrições. Mas, é um desafio JF - Certamente que foi o colocada para, com alguma grato. Trabalhamos com áreas espírito de missão, mas equidistância, conseguir assumir de tecnologia, que, em alguns esta responsabilidade. 4
O objetivo de se agruparem RCVT - Disse que este um dos serviços, até porque serviços por áreas é potenciar as modelo é vantajoso para o são especialidades diferentes, relações entre as especialidades. doente. Desde a formação mas faço algumas exigências. A Cardiologia, a Cirurgia deste departamento, essas Obviamente, o facto de existir Cardíaca e a Cirurgia Vascular mais-valias já se têm vindo uma cadeia hierárquica é contactam muito entre si, tal a verificar? mais bem aceite por uns, do como a Pneumologia e a Cirurgia JF - É mais fácil no conceito e no que por outros. No global, Torácica, porque têm afinidades papel do que na prática! É muito tem funcionado! de órgão. A segmentação em silos difícil deixar de pensar em silos, RCVT - Que balanço faz de especialidade é artificial e, temos a cabeça formatada em destes quatro anos? ao serem agrupadas em áreas, é caixas. O heart team é um modelo JF - Que podíamos ter feito possível potenciar os saberes e as que procuramos que funcione e mais! Estamos a fazer um técnicas, com uma centralidade no temos feito grandes progressos esforço muito importante e temos doente daquele foro de patologias. nesse sentido, porém não sei se já conseguido muito no que respeita RCVT - Considera, então, estamos no nível ideal. à articulação de funcionamento que este é o modelo A Cirurgia Vascular é uma entre serviços. organizacional ideal? especialidade muito afim da Sem falsa modéstia, se não o JF - Considero que é o modelo Cirurgia Cardíaca, contudo, tivéssemos conseguido, não organizacional ideal, mas que trabalha muito separadamente, teríamos hoje oito centros de deveria ser mais independente. até por limitações de espaço referência ligados à área, neste Praticamente não temos físico. Este hospital é uma hospital de só 160 camas. Não autonomia, a administrativa é curta construção do século XVI, não tem vale a pena estar a falar do que e a financeira é inexistente. circuitos modernos que facilitem. fizemos, até porque tem tido o seu Estes agrupamentos de Se tivéssemos todos no mesmo reconhecimento. Contudo, sendo especialidades fazem todo piso acabaria por ser mais fácil. uma pessoa muito exigente, o sentido. Se queremos estar Respondendo diretamente à gostaria que estivéssemos num centrados nos doentes devemos questão, tenho a dizer que tem grau de entrosamento superior estar voltados para a associação sido feito um esforço. Trabalhamos ao que temos. das doenças, os chamados burden no que se chama clinical RCVT - Quais os projetos que of disease. A filosofia é esta, pathways, que são os percursos tem para o departamento? precisamos apenas de ter alguma clínicos para os doentes, porém JF - O hospital não é só o autonomia, até para poder existir a cabeça dos profissionais está departamento, mas é quase! empreendedorismo… Mas, isso, o ainda formatada para o método Temos o Serviço de Medicina, sistema público não permite. antigo, é uma questão geracional com grande dimensão, e áreas RCVT - O que faria se tivesse que vai levar anos. de colaboração, como a mais autonomia? Quais as Hoje em dia, defende-se o Anestesiologia, o Laboratório, a principais necessidades? funcionamento em heart team Radiologia. A nova Administração JF - Temos necessidade de ou em lung team. É muito fácil está a fazer um esforço no sentido enfermeiros, porque a redução para alguém na minha posição de ganharmos essa personalidade do seu horário para 35 dizer que é dessa forma que e, assim sendo, temos três horas traduziu-se em menos trabalhamos, mas eu digo que objetivos a concretizar: concentrar profissionais, e de algum esse é o destino onde queremos a área de ambulatório no edifício material pesado, nomeadamente chegar e para o qual estamos a de entrada - cada serviço vai ter para o Laboratório de percorrer um caminho. um piso como prolongamento Hemodinâmica do Serviço de RCVT - Como é a relação do ambulatório da sua atividade Cardiologia. Globalmente não diretor do departamento com de internamento, o que nos estamos mal apetrechados. os diretores dos serviços? vai permitir tirar estes doentes No geral, temos mais falta JF - É polida, delicada. Alguns do edifício do internamento, de pessoas e de material de serviços aceitaram esta tornando-o mais reservado. consumo diário, do que de uniformização melhor do que Temos projetada a criação de material pesado. outros. Naturalmente, não ingiro uma unidade de intervenção absolutamente nada em cada 5
e vascular e cardíaca, que tem orgulho em dizer que, se tiver de mim, estou certo de grande probabilidade de vir a de sair amanhã, do ponto que me respeitam, mas não acontecer. Não vai ser construída de vista técnico, o serviço é sei se gostam… com dinheiro público, porque não autossustentável. Tratamos com Faço o que considero que devo o há, mas de um consórcio qualidade, fazemos técnicas que fazer. Tenho tentado dar ao com a Indústria. não se fazem em outros centros hospital e à área o melhor que Também estamos a tentar do país e somos uma verdadeira posso. Provavelmente, poderia convencer a Administração escola. Já treinei muitos dos ter conseguido mais! Porém, não da necessidade de fazer uma cirurgiões cardíacos da cidade... sei se tive todas as ajudas que realocação da Pneumologia, Avaliando pela especificidade do poderia ter tido. No final, a história de modo a fortalecer esta área, que é feito, pela qualidade dos vai julgar apenas o que está feito formando o “braço torácico” do resultados e do treino, é percetível e é por isso que ainda aqui estou, departamento. A Pneumologia que, se tivesse de me ir embora porque ainda não acabei. tem 14 camas e dá apoio à hoje, o serviço teria continuidade. RCVT - Lembra-se da primeira Cirurgia Torácica e ao Centro de RCVT - Mas, ainda falta vez que tocou num coração? Transplantação, que é nacional. muito tempo? JF - Lembro-me! Considero O braço cardíaco já está todo no JF - This is the one million dollar um privilégio absoluto poder mesmo edifício e é constituído por question!... Não sei, muito tempo tocar no corpo dos outros e, Cirurgia Cardíaca, Cardiologia não há de faltar. Já fiz 66 anos. particularmente, no coração, e Cardiologia Pediátrica, agora No máximo, ficarei mais quatro que é um órgão simbólico. Isso queremos um espaço para o anos no serviço. Vai depender das implica confiança, quer da pulmão, onde vai ficar a Cirurgia circunstâncias e do que houver sociedade em geral, quer dos Torácica, a Pneumologia e a para fazer. Tudo na vida tem de ter doentes em particular, que se Cirurgia Vascular. um propósito. E o meu é contribuir colocam nas nossas mãos. Ficaríamos com três torres, a do para que a área e o hospital Em Inglaterra, onde me treinei, coração, a do pulmão e vasos fiquem melhores e para que o dizia-se aos profissionais que e a do ambulatório. Queremos Serviço Nacional de Saúde tenha ficavam a trabalhar no hospital transformar Santa Marta num as melhores respostas possíveis. que, a partir daquele momento, hospital de Coração, Vasos e RCVT - Quem é o professor passavam a ter “surgical Tórax e estamos esperançosos que José Fragata? Sempre quis privileges”, que significa o este Conselho de Administração ser médico? privilégio de tocar no corpo venha agilizar esse processo. JF - Sempre!... Tenho uma dos outros. Uma grande vantagem deste fotografia tirada em criança, no Não tenho ideia exata do hospital é a sua ligação à Colégio ABC, perto da casa da primeiro dia em que toquei universidade. A área do moeda, mascarado de médico, num coração, mas lembro-me departamento é académica e tem com uma bata branca e uma luz do embate dessa experiência um número de doutorados muito na cabeça. Devia ter sido otorrino! colossal. Curiosamente, por vezes significativo. Tem um professor Sempre quis. Talvez porque assisti, repetimos isso aqui com os alunos catedrático, que sou eu, e um desde pequeno, ao tratamento da faculdade. conjunto de professores auxiliares, de uma doença que a minha Quando estou a operar, convido- alguns com ambições para se mãe teve, e porque os meus -os a desinfetar-se, pego na sua agregarem. pais também me incutiram esta mão e ponho-a em cima de um Para quem tem estado a gerir profissão. Esse era o seu desejo coração humano a trabalhar. diariamente a crise, temos e tudo se desenrolou, muito Dois desses alunos são hoje feito muito, até mesmo na área naturalmente, nesse sentido. especialistas do nosso serviço! académica. Acabei por ser cirurgião. Para quem segue Medicina por RCVT - Também é diretor De resto, quem sou eu? Um gosto, ter a sensação de ter a mão do Serviço de Cirurgia técnico demasiado exigente no coração de alguém é algo Cardiotorácica, desde consigo próprio e com os seus muito profundo e mágico. Acredito novembro de 2006… colaboradores. Estou convencido que, para os mais jovens, seja JF - Exatamente, faz 13 anos que talvez eles não gostem muito uma experiência colossal. em 2019! E tenho muito Para mim tornou-se banal. Ontem 6
E N T R E V I S TA toquei num, hoje vou tocar em obviamente que tudo isto é grande com as pessoas e tamanha outro, mas para os alunos é algo controlado, até porque durante a humanidade. A Medicina tem um muito profundo e empolgante. ação esqueço o que está à volta. human touch, é uma profissão RCVT - Como é que se gere Tenho de me concentrar no que social e não técnica. o stress nas situações mais estou a fazer. Quem me vê operar RCVT - Também é professor complexas? diz que sou por vezes irascível, catedrático. Como é que JF - Ao fim de alguns anos, mas nos momentos de maior crise, gere o seu tempo? tudo fica mais amortecido! Esta se as coisas estão mal, torno-me JF - Com muita dificuldade. A semana operei uma criança frio e objetivo. É uma forma de minha vida tem uma qualidade de 13 anos. Era um caso muito responder ao stress. muito reduzida, porque sou simples, mas são precisamente RCVT - Guarda alguns diretor do Serviço de Cirurgia essas cirurgias que, hoje, me doentes consigo? Cardiotorácica, diretor do dão mais stress. Numa cirurgia JF - Tantos! É só olhar à volta Departamento de Coração, muito simples, e de forma mais (do gabinete) e ver as paredes Vasos e Tórax, professor sensível quando se trata de uma (fotografias). LeRiche dizia catedrático de Cirurgia e vice- criança, nada pode falhar, nada que todos os cirurgiões têm um reitor da Universidade Nova. pode correr mal. É o peso da pequeno cemitério dos doentes Além disto, tenho uma prática responsabilidade, tudo tem de que não conseguiram salvar. privada e tenho família: uma correr bem numa cirurgia, cujo É verdade! Mas felizmente mulher fantástica, duas filhas e risco é próximo de zero. Com a temos também o nosso pequeno dois netos. Tento responder da idade, este tipo de casos pesam- grande jardim com os casos que melhor forma possível, durmo -me mais. Tenho o coração mais correram bem. muito menos do que necessito e mole, até porque tenho um neto RCVT - Considera que esta estou constantemente a dizer que com a mesma idade. profissão fez de si uma a minha vida não pode continuar No caso das operações mais pessoa melhor? assim. Mas por enquanto… complicadas… Ao longo dos JF - Não tenho dúvidas. Se não Somos o fruto dos países em que anos, esta profissão conferiu- fosse cirurgião, teria sido gestor, vivemos. Tudo poderia ser melhor -me um grande respeito pelas mas acredito que nenhuma outra se investissem mais em nós e se pessoas, pela sua integridade profissão tem uma ligação tão nos tratassem melhor. O facto e isso inflige-me medo. Porém, de não conseguirmos ter uma 7
e cultura de meritocracia na função diferente. São todos iguais! Mas temos outro e não conseguimos pública e de não se premiar a não há nada na vida que seja mudá-lo. Está na matriz do povo. diferença é um grande problema. igual. É necessária uma cultura A função pública não ajuda e as Tenho aqui colaboradores de seriedade e de mérito, onde lufadas dos sucessivos governos excecionais e não consigo se premeie o esforço. Vivemos que temos tido, também não. pagar-lhes melhor, pagar-lhes num sistema anacrónico. Não ATIVIDADE CLÍNICA 2018 ATIVIDADE CLÍNICA - 1.º SEMESTRE 2019 ÁREA CORAÇÃO, VASOS E TÓRAX ÁREA CORAÇÃO, VASOS E TÓRAX Atividade Clínica Ano 2018 Atividade Clínica Ano 2019 Área Coração, Vasos e Tórax Realizado Realizado Consultas Externas Médicas 76.049 jan -jun Primeiras Consultas Médicas 16.606 Consultas Médicas Subsequentes 59.443 Consultas Externas Médicas 38.002 % 1ªs Consultas / Total de Consultas Primeiras Consultas Médicas 8.883 21,84 Consultas Médicas Subsequentes 29.119 % 1ªs Consultas / Total de Consultas 23,38 Consultas Enfermagem 631 Primeiras Consultas Enfermagem 252 Consultas de enfermagem 706 Consultas Enfermagem Subsequentes 379 Primeiras Consultas Enfermagem 52 Consultas Subsequentes de enfermagem Hospital de Dia (sessões) 2.400 654 Pneumologia 951 Cardiologia 1.449 Hospital de Dia (sessões) 1.338 Pneumologia 417 Cardiologia 921 Atividade Cirúrgica (intervenções) 2.637 Cirurgia Programada 1.938 Atividade Cirúrgica (intervenções) 1.533 Convencional 1.800 Cirurgia Programada 1.173 Programada 1.707 Convencional 1.052 Adicional 93 Base 929 Ambulatório 138 Adicional 123 Programada 116 Ambulatório 121 Adicional 22 Base 70 Cirurgia Urgente 697 Adicional 51 Outras Cirurgias 2 Cirurgia Urgente 360 % Cirurgia Urgente / Total de Cirurgias 26,43 % Cirurgia de Ambulatório / 10,32 / Cirurgia Programada 23,48 Internamento 5.115 % Cirurgia Urgente / Total de Cirurgias Doentes saídos 5.115 % Cirurgias com registo de 100,00 Lotação Média 141,4 Cirurgia Segura concluído Doentes tratados por cama 36,27 Demora Média (sem T. I.) 8,96 Internamento 2.790 Taxa de Ocupação 90,99 Doentes saídos 2.790 % Reinternamentos em 30 dias / /Total de admissões 1,25 Lotação Média 133,1 % Admissões Urgentes 36,62 Doentes tratados por cama 20,96 % Admissões Programadas 63,03 Demora Média (sem T. I.) Taxa de Ocupação 8,15 % Admissões Urgentes 94,81 34,77 8
e Maria Emília Ferreira, diretora do Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular “O PROGRAMA DE TRATAMENTO DA ROTURA DA AORTA REDUZIU A DMOOERNTAÇLAIDEAMD3E0APSOSOR CCIEANDTAOÀ” Segundo a diretora do Serviço de Angiologia e Cirurgia Vascular, Maria Emília Ferreira, a resposta que dão, de 24 horas por dia em presença física, à urgência, dispondo de acesso a técnica endovascular no tratamento da rotura do aneurisma da aorta, “traduz-se em grandes benefícios para o doente”. O Serviço de Angiologia e cerca de 30 por cento, de 50 à urgência e emergência, com Cirurgia Vascular destaca- para 20 por cento. “muito bons resultados” e com -se, entre outros aspetos, “Desenvolvemos um programa uma equipa de Anestesiologia, pela sua experiência e pelos que todos os nossos cirurgiões de Enfermagem e de técnicos bons resultados da cirurgia conhecem e temos material em de Radiologia também endovascular, tanto na stock para qualquer urgência. familiarizados com este tipo correção da aorta complexa, Sempre que chega alguém com de abordagem. como no tratamento da rotura uma rotura da aorta, é feita No caso de correção da aorta do aneurisma da aorta. Os uma avaliação e, se reunir as complexa, uma doença muito profissionais do Hospital de condições necessárias, segue grave e que engloba inúmeras Santa Marta colocaram a para o bloco operatório, para complicações, as vantagens da primeira prótese endovascular fazer tratamento por cirurgia cirurgia endovascular (FEVAR) há, sensivelmente, 20 anos, em endovascular, sendo esta a são também visíveis. “Os março de 2000, tornando-se na nossa primeira opção”, explica ganhos são muito acentuados. primeira instituição portuguesa Maria Emília Ferreira. Com a técnica convencional a a estar diariamente capacitada E observa: “É por esta razão mortalidade era superior a 50 por na resposta à urgência, com que temos este diferencial cento. Em 2018, operámos cerca profissionais treinados para esta de mortalidade, assim como de 16 doentes com esta técnica, abordagem e stock disponível uma diminuição do tempo de sem mortalidade. Temos cerca de 24h por dia. internamento em Cuidados 10 por cento de morbilidade não De acordo com Maria Emília Intensivos e em enfermaria, significativa e não incapacitante”, Ferreira, diretora do referido e também da quantidade de afirma Maria Emília Ferreira, serviço, esta cirurgia é uma sangue transfundido. Esta lembrando que muitos doentes vantagem enorme no que intervenção imediata traduz-se tratados por cirurgia convencional respeita ao tratamento da rotura em grandes benefícios para o ficavam paraplégicos. do aneurisma da aorta, uma vez doente.” Isto apenas é possível, Em 2019 e até à data da que veio reduzir a mortalidade porque o serviço dá resposta 24 realização desta entrevista, o associada a esta patologia em horas/dia em presença física Serviço de Angiologia e Cirurgia 10
Vascular já tinha realizado 18 necessário fazer mais serviço é, anualmente, um dos cirurgias endovasculares de intervenções.” primeiros a esgotar as vagas de correção da aorta complexa, Por outro lado, os doentes acesso à especialidade. também sem mortalidade e submetidos a cirurgia “Os nossos internos saem sem morbilidade significativas. endovascular são, muito bem preparados e são “Estes resultados são bons não habitualmente, acompanhados procurados por hospitais apenas para os doentes, mas durante toda a vida. O de todo o país.” Ainda também para os profissionais de seguimento é feito por TAC, uma assim, Maria Emília Ferreira saúde, uma vez que se trata de vez por ano, expondo- considera haver alguns uma patologia muito frustrante -os a quantidades de radiação desafios e necessidades no que para os cirurgiões”, exclama a significativas. No entanto, hoje respeita à formação de novos diretora do serviço. em dia, segundo Maria Emília especialistas. Ferreira, em alguns casos já “Deveria haver simuladores para Cirurgia convencional é possível fazer o seguimento a cirurgia endovascular para continua a ser uma boa destes doentes com ecodoppler, correção da aorta complexa, técnica sem submeter as pessoas que requer uma intervenção de a TAC.” grande exigência técnica e cuja Maria Emília Ferreira salienta formação é ainda complicada, que, ainda assim, a cirurgia Formação de excelência assim como para a cirurgia convencional é um bom convencional”, refere. tratamento e continua a ser Diretora deste serviço desde Hoje em dia, os internos realizada em doentes que, por 2017, onde em 1986 iniciou terminam a sua formação com questões de anatomia, não a sua carreira, Maria Emília mais competências a nível da tenham possibilidade para a Ferreira salienta que o espaço cirurgia endovascular do que colocação das próteses por via não se destaca apenas pelas da convencional. “Por vezes, endovascular. Além disso, no novas técnicas endovasculares existem situações complexas caso de pessoas jovens e em ou pela cirurgia convencional, que exigem uma decisão rápida cirurgia eletiva, a especialista mas também pelos ótimos e um gesto muito preciso em recomenda a cirurgia resultados da cirurgia venosa; cirurgia convencional. Estamos convencional, por ser pela cirurgia carotídea; e a inverter a tendência e penso “mais durável”. pelas angioplastias distais, que, num futuro próximo, Apesar das inúmeras mais-valias nomeadamente de pé diabético teremos problemas, por falta das técnicas endovasculares, vascular, também com ótimos de capacidades técnicas estas têm também algumas resultados. convencionais dos cirurgiões desvantagens: “as próteses Em termos de formação dos mais novos.” podem deslocar-se; e o médicos mais jovens, Maria aneurisma pode crescer, sendo Emília Ferreira refere que este Um Princípio ativo traz saúde a muita gente. Uma Associação traz muito mais. A Miligrama é uma empresa que atua na comunicação e educação na área da saúde. Procuramos parceiros que se juntem a nós na missão de promover e melhorar o acesso a informação sobre saúde e bem-estar dos portugueses. Está pronto para o desafio? Saiba tudo sobre nós em www.miligrama.com.pt 11
e Clara Vital, enfermeira coordenadora da área de Coração, Vasos e Tórax “OS ENFERMEIROS DEVEM TER COMPETÊNCIAS TÉCNICAS, CIENTÍFICAS E RELACIONAIS” A coordenadora de Enfermagem da área de Coração, Vasos e Tórax, também enfermeira-chefe da especialidade de Cirurgia Cardiotorácica, Clara Vital, fala sobre as competências dos profissionais de Enfermagem nesta área tão abrangente e em constante evolução. A Enfermagem tem um papel assunto da diferenciação não permite fazer com que os de extrema relevância no que é novidade, sendo algo que os profissionais reflitam sobre a sua respeita ao seguimento e apoio enfermeiros encaram com muita experiência pessoal e profissional, dos doentes e das suas famílias. “naturalidade”, uma vez que aliada à formação, tornando- Estes profissionais têm inúmeras sempre tiveram de trabalhar -se assim mais capacitados para funções, que vão desde o cuidado no sentido de se atualizarem e cuidar e para capacitar os outros.” assistencial ao humanismo, e que acompanharem a evolução e o No entanto, Clara Vital não deixa passam também pela gestão e desenvolvimento da ciência. de salientar que a perícia se investigação, sempre com uma “A nossa profissão obriga- adquire com experiência e que visão holística dos seus doentes. -nos a estudar todos os dias. A existem, no terreno, muito bons O profissional de Enfermagem tecnologia e a inovação são muito profissionais sem especialização. contribui também com grandes em todas as vertentes “Basta olhar para o doente e conhecimento científico e da Medicina e, em particular, na conseguem de imediato identificar habilidades especializadas, área de Coração, Vasos e Tórax. um conjunto de alterações e proporcionando os melhores Cada vez mais, as escolas e os antecipar as intervenções cuidados aos doentes, baseados próprios profissionais sentem necessárias, para resolver ou em boas práticas e na evidência, necessidade de produzir algo minimizar complicações que garantindo assim a melhoria diferente para a comunidade, podiam vir a surgir. Temos muitos contínua da qualidade na e a questão da especialização peritos, fruto da sua experiência área da saúde. favorece, sem dúvida, essa e atualização permanente Clara Vital, enfermeira diferenciação, representando e contínua.” coordenadora da área de também um reconhecimento Já no que respeita ao conceito Coração, Vasos e Tórax, de que o enfermeiro tem de competência, considera-o refere que apesar de existir, determinadas competências”, “difícil de contabilizar de forma atualmente, um número crescente afirma Clara Vital. pragmática”. Segundo explica, um de cursos de especialização, o E acrescenta: “A especialização enfermeiro torna-se competente 12
quando apresenta um conjunto anos. “Desde criança que quis necessidades não só da criança, de conhecimentos, capacidades seguir Enfermagem, talvez pela como dos pais.” e habilidades que lhe permitem forma como já comunicava e me Dito isto, falou-se de humanismo responder às necessidades dos relacionava com as pessoas e nos cuidados de saúde, algo que doentes e suas famílias, perante os pela sensibilidade para com Clara Vital considera que tem vários fenómenos pelos quais estão os outros. São estes os pontos vindo a ser desenvolvido ao longo a passar em determinado momento, que faziam com que a profissão dos anos e que, atualmente, está e em todos os níveis de prevenção. de enfermeira me preenchesse”, muito presente, verificando-se Tal como refere, estes profissionais recorda. uma evolução na valorização de de saúde devem ter competências Mais tarde, Clara Vital tirou a alguns princípios e valores, das técnicas, científicas e relacionais. especialidade de Saúde Infantil questões éticas, e havendo mais Contudo, volta a salientar que e Pediatria. Já estava na Cirurgia preocupação com a satisfação de “o saber” apenas é colocado Cardiotorácica, prestava cuidados necessidades específicas em prática “de forma intuitiva”, a muitas crianças submetidas a dos doentes. através da experiência e da cirurgia cardíaca ou torácica e Clara Vital não quis deixar de capacidade reflexiva que considerou tratar-se de uma área fazer referência à “Educação vão adquirindo. fundamental para desenvolver para a Saúde”, outra vertente este seu trabalho. forte da Enfermagem, quer seja Maior preocupação com as “Em Pediatria há sempre um feita a nível hospitalar ou da necessidades dos doentes binómio que se impõe, a criança comunidade: “Estamos aqui para e a família, que estão a passar ajudar a pessoa a transitar de um Enfermeira coordenadora da por um período conturbado, processo de doença, para um de área e enfermeira-chefe da sendo muito necessária a vertente saúde, mas para isso temos de a especialidade de Cirurgia da comunicação, da relação e capacitar, incidindo, por exemplo, Cardiotorácica, Clara Vital está da sensibilidade. Necessitam de nos fatores de risco. Caso contrário nesta profissão há cerca de 30 apoio e que estejamos atentos às não há qualquer resultado.” Segurança e qualidade nos cuidados prestados N.º total de enfermeiros Enquanto enfermeira coordenadora da área, o trabalho de Clara Vital, feito em do Departamento: 293 conjunto com o diretor e a administradora da área, consiste na coordenação da N.º de enfermeiros do Serviço de atividade clínica, de ensino e de investigação das várias especialidades. Angiologia e Cirurgia Vascular: 49 Uma das preocupações é fazer a identificação das principais necessidades N.º de enfermeiros do Serviço desta área, sobretudo no que respeita às dotações de Enfermagem para cada de Cardiologia: 89 (incluindo a uma das especialidades, para que se “garanta a qualidade e segurança nos cuidados, atendendo à complexidade”. Hemodinâmica) Segundo explica, cada especialidade tem os seus próprios enfermeiros. No N.º de enfermeiros do Serviço de entanto, numa situação de crise e de exceção, podem ter de prestar cuidados aos doentes de outras especialidades, algo que a enfermeira Clara Vital não Cardiologia Pediátrica: 18 defende ser a melhor alternativa. N.º de enfermeiros do Serviço de Cirurgia “Somos muito sensíveis à gestão do risco e atuamos de forma a minimizá-lo tanto quanto possível. O reforço da cultura de segurança nos enfermeiros é Cardiotorácica: 78 outro dos objetivos, promovendo a identificação de erros/eventos adversos e N.º de enfermeiros do Serviço de de propostas de intervenção na sua prevenção, recorrendo para isso à política que o CHULC apresenta de notificação de erros/adventos adversos.” Pneumologia: 24 Grande parte do trabalho diário desta enfermeira, com funções de chefia, N.º de enfermeiros do passa também pela supervisão dos cuidados, de forma a garantir a sua Bloco Operatório: 35 qualidade e o desenvolvimento de competências dos profissionais, o que lhe permite continuar “no terreno” e sempre muito próxima dos doentes. 13
e 14
AQUI NASCEU A CARDIOLOGIA PEDIÁTRICA No Hospital de Santa Marta nasceu, a 29 de outubro de 1969, o Serviço de Cardiologia Pediátrica (na altura, uma consulta) e, com ele, toda a história desta especialidade em Portugal. Faz, agora, 50 anos. A próxima edição da Revista Coração, Vasos e Tórax vai trazer uma reportagem ao serviço de Cardiologia dos mais pequenos, com a sua diretora Fátima Pinto; e ilustrar as celebrações desta data tão importante para a Cardiologia Pediátrica portuguesa, dando a conhecer um pouco da sua história, iniciada pela cardiologista Fernanda Sampayo. 15
e João Cardoso, diretor do Serviço de Pneumologia “FAZEMOS CERCA DE 30 TRANSPLANTES PULMONARES POR ANO, COM UMA SOBREVIDA SOBREPONÍVEL AOS REGISTOS INTERNACIONAIS” Considerado “de referência”, o Centro de Transplantação Pulmonar do CHULC é único a nível nacional. Os resultados são ótimos, com registos de sobrevida sobreponível aos internacionais, no entanto, os profissionais que se dedicam a esta atividade enfrentam desafios. João Cardoso, diretor do Serviço de Pneumologia, fala sobre os mesmos. O Serviço de Pneumologia é, “Foi tudo um pouco oscilante. João Cardoso, com uma juntamente com o de Cirurgia Mas, em 2008, a equipa foi sobrevida muito sobreponível aos Cardiotorácica, Centro de reformulada, tanto no que registos internacionais. “A nossa Referência de Transplante respeita à Pneumologia, como sobrevivência média é de sete Pulmonar. O único do país. à Cirurgia e, por essa razão, anos, mas já temos doentes com Oficialmente, o primeiro consideramos que a partir desta mais de 12 anos de sobrevida.” transplante de pulmão foi feito data, a atividade do centro de Apesar dos ótimos resultados, em 2001. João Cardoso, diretor transplante tem sido rotineira”, o centro enfrenta “o grande do Serviço de Pneumologia, menciona o pneumologista. problema” da quantidade e da conta que desde essa data e Em 2015, foram auditados qualidade de dadores de pulmão, até por volta do ano de 2008, pela Direção-Geral da Saúde que além de terem vindo a reduzir tudo funcionou com alguma e considerados centro de em número, têm também uma dificuldade e instabilidade referência. idade cada vez mais avançada. em termos de constituição de Desde 2008, foram realizados “Este não é um problema só nosso. equipas, critérios de seleção de mais de 250 transplantes É internacional”, observa. doentes, avaliação de dadores, pulmonares, cerca de 30 Dito isto, João Cardoso continua entre outros aspetos. intervenções por ano, segundo referindo que a lista de espera 16
para transplante pulmonar é responde ser “muito profunda necessário. “A colaboração entre de cerca de um ano e meio, e funcionar bem”. No entanto, especialidades é muito estreita, um número semelhante ao não deixa de referir que este com um diálogo permanente. internacional. “Operamos primeiro programa está, desde 2008, sob Temos de estar em concordância os doentes com sobrevida mais a responsabilidade da sua colega absoluta em todas as fases.” curta, o que significa que os que pneumologista Luísa Semedo. Com o passar dos anos e têm menor risco esperam mais”, “O entendimento entre as duas com a evolução do projeto, afirma o diretor do Serviço especialidades tem sido ótimo. passou a haver, segundo de Pneumologia. Embora este programa seja João Cardoso, cada vez mais As principais doenças que levam dirigido pelo Prof. José Fragata, profissionais a colaborar com ao transplante neste centro quem lida com o impacto inicial o programa de transplantação, de referência são um pouco de qualquer situação é a Dr.ª Luísa sobretudo, no que respeita à diferentes das registadas a nível Semedo. Obviamente, por vezes, Pneumologia. No entanto, o internacional, uma vez que, por eu e o Prof. José Fragata temos de número de profissionais ainda ser o único centro em Portugal, tomar decisões.” não é suficiente, nomeadamente recebe todas as patologias Tal como conta, os doentes no que respeita à Cirurgia complexas: fibrose quística, referenciados são avaliados pela Torácica. “Ainda hoje não é fácil doença do interstício pulmonar, Pneumologia, que os encaminha trabalharmos com folga. Estamos bronquiectasias e doença para que os cirurgiões torácicos sempre prestes a ter de pedir que pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). possam confirmar se está tudo se façam esforços. Há poucos bem e quais as possibilidades cirurgiões cardiotorácicos em Ligação com a Cirurgia de transplante - unipulmonar Portugal”, lamenta o diretor do Torácica ou bipulmonar -, entre muitos Serviço de Pneumologia. outros aspetos. Além disso, o No seu entender, o ideal seria Ao ser questionado acerca da pneumologista está sempre presente terem duas equipas cirúrgicas em interação entre a Pneumologia e durante a cirurgia. No pós- alternância: “Já tivemos dias em a Cirurgia Torácica, na seleção, -operatório, o doente volta a ficar que fizemos dois transplantes, transplantação e seguimento a cargo destes especialistas, com o que é muito exigente para os destes doentes, João Cardoso o apoio da cirurgia, sempre que cirurgiões.” Falta de profissionais: uma grande limitação Diretor do Serviço de Pneumologia desde 2009, João Cardoso refere que neste espaço são feitas cerca de 20 mil consultas por ano, com uma média de 12 a 15 mil doentes. Neste momento, o serviço tem 14 pneumologistas que fazem todo o apoio assistencial, entre consultas, internamentos, urgências internas e o programa de transplantação. João Cardoso considera que deveriam ser, pelo menos, 20 especialistas. O internamento também é pequeno, para a atividade assistencial que desenvolve: “Fora do programa de transplantes, temos cerca de 450 doentes internados por ano. Além disso, o facto de termos um número de transplantados cada vez maior levanta problemas, porque, sempre que há uma complicação, os doentes vêm de outras cidades e ficam aqui internados.” Outra grande dificuldade apontada por João Cardoso é o facto de o centro hospitalar estar distribuído por diferentes espaços físicos e não haver a possibilidade de ter um pneumologista em presença física na urgência geral do Hospital de São José. Além disso, o apoio aos serviços de Medicina Interna dos vários hospitais do centro hospitalar tem de ser realizado por telefone. “Estão pedidas contratações de mais especialistas à tutela, mas tem sido uma dificuldade conseguirmos aumentar a equipa médica. A Pneumologia do Centro Hospitalar é escassa para o que deveria ser, sobretudo se tivermos em conta que é o único centro com um programa de transplantação nacional. É um benefício para o país, mas também prejudica muito a nossa atividade na área da Pneumologia geral”, conclui. 17
e SUTURELESS AND RAPID-DEPLOYMENT AORTIC VALVE REPLACEMENT INTERNATIONAL REGISTRY (SURD-IR): EARLY RESULTS FROM 3343 PATIENTS Di Eusanio M, Phan K, Berretta P, Carrel TP, Andreas M, Santarpino G, Di Bartolomeo R, Folliguet T, Meuris B, Mignosa C, Martinelli G, Misfeld M, Glauber M, Kappert U, Shrestha M, Albertini A, Teoh K, Villa E, Yan T, Solinas. Eur J Cardiothorac Surg. 2018 Oct 1;54(4):768-773. O Registo Internacional de Substituição de a procedimentos concomitantes (P < 0.001). Válvula Aórtica Sem Suturas e de Entrega Rápida Considerando o perfil de risco de base, a taxa de (Sutureless and Rapid-Deployment Aortic Valve mortalidade foi de 0,8% e 1,9% em SURD-AVR Replacement International Registry - SURD-IR) isolada e SURD-AVR combinada de baixo risco foi estabelecido por um consórcio de 18 centros (logistic EuroSCORE <10%), respetivamente, e de de investigação clínica, o International Valvular 2,2% e 3,7% em doentes de risco mais elevado Surgery Study Group (IVSSG), com o intuito (logistic EuroSCORE ≥10%). Complicações pós- de superar as limitações na literatura existente -operatórias neurológicas incluíram AVC (2,8%) e e fornecer evidência clínica adequada sobre AIT (1,1%). Bloqueio auriculoventricular de novo as válvulas aórticas cirúrgicas sem suturas e de com necessidade de implantação de pacemaker entrega rápida (SURD-AVR). permanente ocorreu em 10,4% dos doentes. A A investigação foi feita com base nos dados de taxa de implantação de pacemaker decresceu 3.343 doentes submetidos a SURD-AVR, por um significativamente ao longo do tempo [de 17,2% período de 10 anos, entre 2007 e 2017, com (2007-2008) a 5,4% (2016); P = 0,02]. uma idade média de 76,8 ± 6,7 anos, sendo que As conclusões do estudo indicam que a 36,4% tinha 80 anos ou mais. A média logística implantação de válvulas aórticas cirúrgicas do EuroSCORE foi de 11,3 ± 9,7%. sem suturas e de entrega rápida constituem SURD-AVR isolada foi realizada em 70,7% uma alternativa segura e eficaz à substituição (n = 2.362) dos doentes, quer através de convencional da válvula aórtica, estando esternotomia total (35,3%), quer através de associadas a excelentes resultados clínicos. abordagens menos invasivas (64,8%). A Análises estatísticas adicionais retrospetivas e mortalidade hospitalar global foi de 2,1%, prospetivas dos dados deste registo irão permitir o sendo de 1,4% em doentes submetidos a desenvolvimento futuro de guidelines clínicas para SURD-AVR isolada e de 3,5% nos submetidos este tipo de válvulas cirúrgicas. 18
e Lino Patrício, coordenador da pathway TAVI e do projeto Valve For Life “MSEALNHTOARMMAARTTEARITAELMHDUOMANO QUE EXISTE” A implantação de válvulas aórticas por via percutânea (TAVI) é, cada vez mais, uma indicação no que respeita ao tratamento da estenose aórtica. O cardiologista de intervenção Lino Patrício considera que este será o tratamento do futuro. No entanto, lamenta que, em Portugal, só se utilizem ainda TAVI em doentes inoperáveis ou de alto risco. O especialista afirma também que os recursos humanos do hospital de Santa Marta são “do melhor que existe”. Contudo, é necessário dar-lhes a motivação anímica e financeira que merecem. A Food and Drug Administration Patrício, responsável pela Segundo refere, no Hospital de (FDA) aprovou, em agosto, a pathway TAVI do Centro Santa Marta é feita uma consulta implantação de válvulas aórticas Hospitalar Universitário de TAVI, onde cardiologista e por via percutânea (TAVI) para Lisboa Central e coordenador cirurgião decidem, em conjunto, o tratamento da estenose aórtica nacional do Valve for Life da se o doente vai ser submetido a em doentes de baixo risco. Até EAPCI, acrescentando que TAVI ou a cirurgia convencional. à data este procedimento estava “este processo de escolha não “Neste momento, temos 60 indicado apenas para doentes é uma guerra entre Cirurgia e doentes em lista de espera, inoperáveis; operáveis de alto Cardiologia de Intervenção, 40 completamente estudados risco; e de risco intermédio. que estão alinhadas quanto e 20 em estudo. O número de “A cirurgia convencional às indicações expressas nas válvulas de que dispomos é está a ser substituída por este guidelines. Porém, continua a exclusivamente para os doentes procedimento. No entanto, implantar-se válvulas apenas de risco elevado ou inoperáveis essa não é ainda a realidade em doentes de muito alto e para muito poucos de risco portuguesa”, observa Lino risco e inoperáveis”. intermédio”, indica. 20
Para o cardiologista, a implantação de Cardiologia de Intervenção do CHULC válvulas aórticas percutâneas é, sem dúvida, precisa de mais salas de hemodinâmica uma vantagem para o doente, sobretudo em termos de recuperação. Observa que o Lino Patrício refere que, em 2004, este foi o maior custo da TAVI é francamente elevado, quando Laboratório de Intervenção Cardiovascular em toda a comparado com a válvula convencional. Península Ibérica, com um total de 1600 angioplastias Porém, salienta que esse valor, aparentemente, realizadas. No entanto, com o aparecimento da mais económico, não reflete o custo total da cardiopatia estrutural e da consequente necessidade cirurgia convencional e da recuperação do de mais tempo de sala por procedimento, o número de doente, que é muito mais lenta e cara. doentes tratados por angioplastia, com o mesmo número “Fazendo as contas, percebe-se que os de salas, inevitavelmente, baixou. preços não são muito diferentes, mas “Neste momento, o laboratório está numa fase de infelizmente, em Portugal, não temos válvulas expansão contida, dependente da capacidade financeira percutâneas para colocar em doentes de risco e da vontade de fazer com que exista mais salas, para intermédio e baixo”, afirma. E acrescenta: que se possa tratar mais doentes. O Hospital de Santa “Este processo está agora a fazer o seu Marta é a referência histórica e pessoal de grande parte caminho. Acredito que esta terapêutica venha dos hospitais do sul do país, mas a referenciação deve a prevalecer num futuro próximo.” ser um processo biunívoco, são necessários projetos de afiliação e crescimento comum para estruturar esta rede” Ásia poderá trazer inovação para o afirma. mercado europeu Lino Patrício sublinha que, em termos nacionais, este foi o terceiro laboratório a realizar a implantação de válvulas Lino Patrício mostra-se a favor do aórticas (TAVI), mas que tem vindo a ter “um crescimento possível aparecimento de novos players, lento”, devido, entre outros aspetos, ao financiamento nomeadamente provenientes da Ásia, mas das válvulas, aos tempos de anestesia e aos tempos de salienta: “O material protésico é muito especial, sala. “Neste momento, já implantámos 76 válvulas. O ano porque fica dentro do doente. É necessária passado realizámos 86 procedimentos. Temos vindo a a realização de estudos clínicos sérios, crescer.” randomizados e controlados, que comprovem a Quanto à cardiologia estrutural ligada às cardiopatias qualidade do material das TAVI.” congénitas, Lino Patrício salienta que o laboratório E desenvolve: “Se estivermos a colocar foi pioneiro. “A referenciação é muito forte e a nossa válvulas em doentes mais jovens, com capacidade de tratar estes doentes também. Temos uma menos comorbilidades, portanto, com uma Cardiologia Pediátrica que trabalha em conjunto com a esperança de vida maior, é preciso garantir Cardiologia de Adultos, que é muito ativa e apoiante. O que o material que vamos implantar tem Centro de Referência de Cardiopatia Estrutural Congénita durabilidade.” tem muito bom desempenho, mas necessita também de Lino Patrício já colaborou e realizou casos tempos crescentes de sala”, menciona. em laboratórios de hemodinâmica da E conclui: “Sem mais salas de intervenção e uma nova Índia e da China, conhece o seu modo e organização dos recursos humanos não é possível fazer fluxo de trabalho e acredita que, a curto e mais e melhor. Os equipamentos e as instalações são médio prazo, vai aparecer na Europa muita substituídos e construídos, fundamentalmente, a partir inovação e muito bons produtos asiáticos. da capacidade de adjudicar mais recursos financeiros “Quem não perceber que este mercado está ao projeto, tendo, também, um efeito motivacional nos a desviar-se para a Ásia e que vamos deixar profissionais. Temos, em Santa Marta, o melhor material de utilizar tanto material americano, não está humano que existe. No entanto, é preciso voltar a dar- a entender o que está a passar-se no mundo. -lhes a motivação anímica e financeira que merecem.” Eles têm muito volume de trabalho e quem faz muito, faz bem”, conclui. 21
e Paulo Franco, coordenador da Cardiopneumologia “A INTEGRAÇÃO DE TODOS OS EXAMES NO MESMO ESPAÇO FÍSICO É UMA MAIS-VALIA EM TERMOS DE GESTÃO” Os 68 cardiopneumologistas do Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC) realizam uma média de 128 mil procedimentos por ano. O coordenador, Paulo Franco, fala dos desafios que enfrenta e das mudanças a curto prazo. No seu entender, a integração de todos os exames e profissionais no mesmo espaço físico trará “harmonia” no que respeita à gestão de recursos humanos e, consequentemente, à sua produtividade. Integrada na área de Coração, e Terapêutica, distribuídos pelos Vasos e Tórax, os meios de Vasos e Tórax, a Cardiopneumologia, diferentes setores, áreas de diagnóstico e terapêutica do coordenada por Paulo Franco, especialização e hospitais do CHULC. âmbito da Cardiopneumologia é atualmente constituída por 68 Paulo Franco explica que embora Técnicos Superiores de Diagnóstico com mais ênfase na área de Coração, funcionam de forma transversal em todas as especialidades, 24
desenvolvendo-se em a passar”, observa Paulo insuficientes e sem condições de cinco áreas de intervenção Franco, salientando a “grande acessibilidade.” específicas: estudos da generosidade, profissionalismo Por outro lado, estão a ser função respiratória e do sono; e ética” dos seus colegas, que avaliados os contratos e os estudos ultrassonográficos sempre se mostraram disponíveis estados de manutenção, tempo cardiovasculares; estudos não para colaborar e para o ajudar de vida e funcionalidade invasivos cardiovasculares; a completar os turnos. dos equipamentos. “Em estudos em intervenção invasiva algumas áreas estamos cardiovascular; e perfusão Mudanças a curto prazo bem, noutras francamente cardiovascular e tecnologia mal. Considero importante extracorporal. As instalações e parque revitalizar a eletrocardiografia Apaixonado, desde sempre, pela tecnológico para a realização e a polissonografia. Já estão área da perfusão e coordenador dos meios complementares de pedidos 30 eletrocardiógrafos da Cardiopneumologia desde diagnóstico estão em processo de e um equipamento de 2017, por um mandato de três restruturação e renovação, algo sono”, menciona. anos, Paulo Franco afirma ter que Paulo Franco acredita que Outra das preocupações assumido este cargo com o trará “harmonia no que respeita de Paulo Franco tem sido a objetivo de “unir o grupo”, à gestão e à reorganização dos criação de protocolos para para que os profissionais recursos humanos, à proximidade todos os procedimentos que “pensem e atuem como um entre colegas, à rentabilização realizam. “Estamos a atravessar todo” e tenham capacidade de de espaço e à criação de novos processos de requalificação da executar as diferentes técnicas métodos de trabalho, que podem qualidade e temos um manual independentemente da induzir a um grau de aumento de de procedimentos bastante estrutura hospitalar. produtividade”. bem delineado sobre todas Segundo refere, este grupo de Brevemente, a estrutura do as áreas de diagnóstico e profissionais realiza uma média espaço vai ser organizada de terapêutica.” Neste sentido, o de 128 mil procedimentos por forma a que todos os exames coordenador pretende, ainda, ano, nos diferentes setores. complementares de diagnóstico desenvolver a ecocardiografia, “Trabalhamos um pouco no sejam fisicamente integrados a reabilitação cardíaca silêncio, mas o facto é que todos no mesmo local, permitindo ao e a área da intervenção, os exames de diagnóstico são utente a realização de todas as nomeadamente a hemodinâmica realizados por nós”, observa técnicas cardíacas, vasculares e e a eletrofisiologia, com aumento Paulo Franco. pneumológicas. dos recursos humanos e novas Os objetivos têm vindo a ser “A criação de uma Unidade dinâmicas de trabalho, de forma alcançados. No entanto, o de Cardiopneumologia, onde a consolidar a gestão técnica cardiopneumologista debate- se possam centralizar exames destas áreas. -se com o problema das listas de diagnóstico e terapêutica Para terminar, Paulo Franco de espera para a realização (internos e externos) evita a faz referência a duas colegas de meios complementares de dispersão dos recursos humanos “pelo seu excelente trabalho e diagnóstico e da falta de e dos equipamentos”, indica. pelo apoio” que lhe têm dado: recursos humanos. Além disso, está a ser feito um a técnica Isabel Carlos, o seu “As listas de espera são muito inventário de todo o parque “braço direito”, sobretudo no que longas e autodependentes tecnológico. “Atualmente, existe respeita à logística e à burocracia da capacidade dos técnicos. uma dispersão de equipamentos do cargo que detém; e a técnica Contudo, não consigo dominar pouco rentabilizados e muitas Lurdes Gameiro, responsável pelo o grande défice de recursos vezes a pertença de serviços polo do Hospital de São José. humanos que temos vindo em espaços manifestamente 25
e Os exames a realizar em cada unidade podem agrupar-se da seguinte forma: Eletrocardiologia: eletrocardiografia, ergometria, ergometria cardiorrespiratória, arritmologia Estudos arteriais: monitorização ambulatória da pressão arterial, avaliação da função endotelial Reabilitação cardíaca: prevenção e educação cardíaca, prescrição de exercício cardiopulmonar Ultrassonografia: ecocardiografia transtorácica, ecocardiografia transesofágica, ecocardiografia de sobrecarga farmacológica, doppler vascular periférico e dos grandes vasos e cérebro Hemodinâmica e Angiografia: angiografia cardíaca e vascular, terapêuticas de revascularização e valvulares, correção de anomalias congénitas Eletrofisiologia e Pacing: estudos eletrofisiológicos, terapêuticas de ablação, implantação de dispositivos cardíacos, consultas de follow-up Estudos da Função Respiratória: análise arterial sanguínea, estudo da função pulmonar, polissonografia, provas de exercício cardiopulmonar, estudos de alergologia respiratória Laboratório de Doppler Vascular Estudo Doppler dos vasos do pescoço Ginásio de Reabilitação Laboratório de Hemodinâmica e Laboratório de Função Respiratória Cardiopulmonar Angiologia Pletismografia Sessão de reabilitação cardíaca Cateterismo cardíaco de diagnóstico Laboratório de Estudos do Sono Laboratório de Ergometria Monitorização ambulatória do sono Laboratório de Arritmologia e Estudos Prova de esforço cardiorrespiratória Arteriais Análise de registos ambulatórios eletrocardiográficos Laboratório de Electrofisiologia e Bloco Operatório Cirurgia Pacing Cardiotorácica Estudo eletrofisiológico Circulação extracorporal Consulta de Dispositivos Implantáveis Avaliação e análise de pacemaker 26
e O SERVIÇO DE CIRURGIA CARDIOTORÁCICA JÁ TEM 60 ANOS O Serviço de Cirurgia Cardiotorácica iniciou a sua atividade em novembro de 1959, época que assinala também os primórdios da especialidade em Portugal. Volvidos 60 anos, este serviço tornou-se uma referência a nível nacional, onde são realizadas técnicas inovadoras, com qualidade e ótimos resultados. 28
É o berço da Cirurgia de sair amanhã, do ponto de José Fragata, Cardiotorácica portuguesa vista técnico, o serviço seria diretor do serviço e soma agora 60 anos de autossustentável”, afirma. existência. O seu diretor, José Segundo o seu diretor, este é um O futuro é hoje Fragata, descreve o Serviço de serviço “único”, onde são feitos Cirurgia Cardiotorácica como alguns procedimentos que não se O ano de 2006 e os poucos “uma unidade cirúrgica clássica, realizam em nenhum outro hospital que se seguiram foram o período com um passado repleto de glória do país. Tratam-se doentes com de transição do serviço “entre o e de tradições, que perspetiva “qualidade” e obtêm-se muito passado consolidado” e aquele o seu futuro de modernidade, bons resultados. Além de tudo que José Fragata e os seus assente nos ombros dos notáveis isto, é ainda uma escola cirúrgica, colegas esperavam ser um futuro profissionais que têm construído onde têm vindo a ser treinados que viesse a marcar a diferença. a sua história”. muitos dos cirurgiões cardíacos Agora, o presente. Foi no gabinete do Diretor do da cidade de Lisboa. Para tal, na altura, foi definida Serviço, entre quatro paredes “Verdadeiramente, olhando para uma missão tripartida, que até repletas de fotografias dos muitos a especificidade daquilo que hoje se mantém: tratar os doentes doentes que já operou, que fazemos, para a qualidade dos cardiotorácicos ao mais elevado José Fragata contou à Revista resultados clínicos, para a escola nível de qualidade; gerar e Coração, Vasos e Tórax que de treino, sinto que, se tivesse que disseminar conhecimento na assumiu a Direção do serviço sair hoje o serviço continuava especialidade; e desenvolver há já 13 anos. “Mais de uma sem grandes perturbações”, uma dimensão ética e social década de trabalho intenso e volta a exclamar. do serviço aos doentes e de muitas conquistas.” E continua: “Isto orgulha- à sociedade. “Tenho muito orgulho em dizer -me. Obviamente, deve-se à O facto de José Fragata ser que, atualmente, o serviço é qualidade dos profissionais, doutorado em Medicina, totalmente autónomo e que mas também à liderança professor catedrático e, mais estou aqui, quase como uma sólida. Tenho no serviço recentemente, vice-reitor da figura inspiracional. Se tivesse cirurgiões,anestesiologistas, Universidade Nova de Lisboa, técnicos e enfermeiros com os facilitou o desenvolvimento da quais me sentiria tranquilo se vertente académica do serviço, precisasse de ser tratado aqui. permitindo que se transformasse Confio na equipa.” num verdadeiro serviço cirúrgico académico. Com esta ligação à universidade, José Fragata tinha, na altura, 29
e como objetivo “criar um novo tocou em milhares de corações Paulo Calvinho, espírito de empreendedorismo e, hoje, considera que uma responsável pela na investigação e no gerar de operação grande é sempre um Unidade Tóracica publicações, que pudesse abrir desafio técnico, que, com o caminho a aspirações com vista a passar dos anos, “tem vindo a Fragata orgulha-se, sobretudo, graduações académicas”. tornar-se menor”. da qualidade dos serviços, dos 13 anos depois, o serviço tem Falando particularmente bons resultados que têm vindo a dois cirurgiões doutorados e da Unidade Cardíaca, José apresentar e do humanismo com três dos internos mais novos que os doentes são cuidados. já iniciaram o curso de Atualmente, constituída por mais doutoramento. “Estas pessoas de uma dezena de cirurgiões estão agora na fase de afirmarem cardíacos, este espaço distingue- as suas lideranças locais, para se -se, entre outros aspetos, por constituírem como alternativa de ser Centro de Referência de chefia, no dia em que, finalmente, Cardiopatias Congénitas, com a tiver de sair. É o normal”, realização de cirurgia cardíaca observa. pediátrica e transplante cardíaco pediátrico; e Centro de Referência Unidade Cardíaca de Transplante Cardíaco. Além disso, a equipa da Unidade Poderia ter sido gestor, mas Cardíaca foi, sob a coordenação não seria a mesma coisa. O de José Fragata, responsável pela seu dom é, de facto, a cirurgia realização da primeira cirurgia de cardiotorácica, o cuidar do implantação de coração artificial, doente e o respeito pelo ser em Portugal. humano. José Fragata é também Em 2018, foram feitos cerca de mil o coordenador da Unidade procedimentos, com uma taxa de Cardíaca do serviço. Já operou sucesso de 97 por cento. mais de 10 mil doentes, já viu e 30
Uma manhã no serviço Duarte Furtado, cardiopneumologista Faltava pouco para as 8 horas da manhã e a equipa de reportagem “Quando estou no bloco, estou só para o doente. É a minha missão” da Revista Coração, Vasos e Duarte Furtado é cardiopneumologista deste serviço há 16 anos. Segundo conta, a Tórax já estava no Serviço de área da perfusão, a que se dedica, é “muito entusiasmante”. Porém, pode conferir- Cirurgia Cardiotorácia para -lhe também “muito stress e uma grande carga emocional”. conhecer o normal funcionamento O passar dos anos e a experiência trouxeram-lhe a capacidade de se preparar deste espaço e o trabalho dos para os procedimentos mais complexos, de forma a controlar os seus sentimentos, seus profissionais. para que no momento da cirurgia esteja totalmente concentrado. Fomos recebidos pelo cirurgião “Quando entro no bloco deixo os problemas do lado de fora e entrego-me cardiotorácico Paulo Calvinho, totalmente ao caso. É a minha missão, estou ali só para o doente. Se surgir alguma responsável pela Unidade complicação com a perfusão, por vezes, sou a única pessoa que está capaz de a Torácica. Estava em reunião com resolver e de garantir a sua segurança”, afirma Duarte Furtado. a sua equipa, para discutir os E explica: “O perfusionista está enquadrado numa equipa multidisciplinar de doentes e tentar gerir o dia, tanto cirurgia cardíaca. Durante o procedimento, assegura a perfusão cardiovascular e quanto possível. Isto porque as a oxigenação do doente, para que este se mantenha vivo, enquanto o coração e urgências acabam, por vezes, os pulmões estão parados. Mas a nossa função não se esgota no bloco, existem por “trocar-lhes as voltas”. diversas técnicas que requerem a nossa competência.” Depois de discutir cada caso, De qualquer forma e apesar do peso da responsabilidade, Duarte Furtado sai, com os jovens cirurgiões que se todos os dias, do hospital com vontade de regressar no dia seguinte. Além do gosto encontravam consigo na pequena pelo trabalho, a relação entre colegas dos diferentes grupos profissionais é “ótima”: sala onde habitualmente se “Somos facilitadores do convívio e da troca de ideias. Trabalhamos em equipa. reúnem, passaram a visita aos Todos têm a sua forma de ser, mas o importante é que funcionamos bem juntos.” doentes da enfermaria. “Até já, vemo-nos daqui a pouco no de Pneumologia, é Centro hipertensão pulmonar”, indica bloco”, dizia Paulo Calvinho a de Referência de Transplante Paulo Calvinho. uma doente que estava internada. Pulmonar. “Somos o único Centro E acrescenta: “Neste momento, “O que nos distingue em relação de Transplante Pulmonar em estamos no terceiro quartil mundial aos centros de todo o país é o Portugal. Temos um programa em termos de produtividade e de Programa de Transplantação nacional que tem vindo a crescer, casuística, o que é muito importante Pulmonar, que faz com que não só em número, mas também também pelo facto de fazermos mais tenhamos algumas surpresas em complexidade. Fizemos o de 30 transplantes por ano, o que durante o dia”, primeiro transplante de pulmão nos permite ter know-how e obter explica o cirurgião à equipa e rim em simultâneo, o primeiro excelentes resultados.” de reportagem. retransplante pulmonar do país, Além disto, vão avançar muito em Enquanto os profissionais e o primeiro transplante em breve com o Programa do serviço, entre médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares, continuavam na sua azáfama diária de forma a garantir os melhores cuidados assistenciais aos doentes, Paulo Calvinho falava-nos do serviço, em particular da Unidade Torácica, das suas mais-valias e necessidades. Juntamente com o Serviço 31
e Ex-vivo, de recondicionamento Excelentes resultados metastático, e o mediastino. “No do pulmão. O cirurgião explica ano passado, cerca de 65 por que este projeto lhes vai permitir Entre telefonemas e respostas cento da nossa atividade foi em “recuperar pulmões que, de a mensagens com pedidos de cirurgia minimamente invasiva outra forma, não poderiam orientação ao coordenador e cerca de metade dos doentes ser usados; e aumentar a da Unidade, Paulo Calvinho eram neoplásicos. Temos tido um referenciação, por tornar continuou a contar-nos que crescimento sustentado”, observa. possível o alargamento dos o grosso da atividade é o Segundo refere, em 2018, foram critérios para dádiva.” cancro do pulmão, primário e feitos 455 procedimentos e os registos oficiais deste ano Helena Semedo, apontam para um crescimento responsável pela Consulta de de 11 por cento em relação ao Enfermagem de Cirurgia Cardíaca anterior. “A taxa de sucesso das cirurgias é alta. Se retirarmos os “Muitos doentes choram de gratidão, no momento da alta” procedimentos de urgência e os “Culturalmente, ser operado ‘à máquina’ tem um peso muito grande”, afirma casos de transplante, o serviço Helena Semedo, enfermeira responsável pela Consulta de Enfermagem de Cirurgia teve um único doente perdido no Cardíaca, que se realiza no piso do internamento, pré e pós-cirurgia durante cerca internamento, durante todo o ano de um ano. de 2018”, observa Paulo Calvinho. “Acompanhamos o doente desde que é informado da indicação para cirurgia Na transplantação, a mortalidade cardíaca. Conhecemo-lo num momento de fragilidade e em que todas as palavras perioperatória é de cerca de 8 de conforto e esclarecimento são uma ajuda”, afirma Helena Semedo, fazendo por cento, ou seja, encontra-se referência à ligação que é criada entre enfermeiro e doente. “abaixo da média internacional”, Na consulta pré-operatória, os enfermeiros realizam a avaliação inicial do doente que ronda os 10 por cento. e promovem o estabelecimento de uma relação de empatia com vista a minimizar a ansiedade face ao internamento, ajudando na clarificação de dúvidas inerentes à Falta de recursos humanos cirurgia cardíaca; identificam as necessidades do doente e definem as estratégias a limita produtividade adotar para a sua otimização para a cirurgia, tanto a nível físico, como emocional ou de logística; e informam-nos sobre o percurso ao longo de todo o processo. As grandes necessidades “Temos muitos doentes que saem a chorar de gratidão. Há a vontade de ir embora, do serviço são sobretudo os mas fica um sentimento de nostalgia. Quando vêm à consulta pedem para fazer uma recursos humanos, tanto no visita ao internamento.” que respeita a cirurgiões como Estes profissionais de saúde fazem o follow up durante um ano. Ao fim de três dias a enfermeiros. Atualmente, do doente ir para casa ligam para saber como está, para esclarecer dúvidas e para e de acordo com o nosso reforçar os ensinos. Voltam a fazê-lo três, seis e 12 meses depois. entrevistado, há uma carência Helena Semedo confessa que esta é uma área “muito exigente do ponto de vista muito grande de profissionais do conhecimento, da necessidade de perspicácia e de antever problemas”. “A de Enfermagem, o que limita a evolução é constante e, por isso, apostamos muito em formação”, conclui. produtividade do serviço. “Temos camas fechadas por falta 32 de enfermeiros”, refere Paulo Calvinho. De realçar o esforço recente desta administração, que permitiu reabrir recentemente três camas de Cuidados Intermédios e, num futuro próximo, 10 camas de enfermaria só para a cirurgia torácica.
“A nossa primazia são os “Este foi o primeiro doentes. Se não lhes damos uma bloco operatório a resposta atempada, por exemplo ter uma enfermeira na neoplasia do pulmão, o tumor instrumentista” progride e vamos reduzir-lhe a probabilidade de cura.” Por vezes, todos precisamos O número de cirurgiões da de mudar, para nos sentirmos Unidade Torácica, presentemente melhor e mais realizados. cinco, é reduzido para assegurar Foi o caso da enfermeira em permanência a carga Conceição Alves quando, há assistencial. No entanto, Paulo 16 anos, veio trabalhar para o Calvinho acredita que, dentro bloco do Serviço de Cirurgia de pouco tempo, vão poder Cardiotorácica. Na altura, contratar mais um profissional. aceitou a oportunidade, porém Cirurgião torácico por “paixão”, teve dúvidas se viria a Paulo Calvinho está neste serviço adaptar-se. Enganou-se, hoje desde 2015, a convite de José é a coordenadora de Fragata. Tornou-se coordenador Enfermagem do bloco. da Unidade em 2016. Ao falar “É um trabalho totalmente da notável falta de cirurgiões diferente daquele que é Conceição Alves, torácicos em Portugal, também realizado em enfermaria. Gosto coordenadora de Enfermagem na qualidade de membro do muito de aprender e a área do bloco operatório Colégio de Cirurgia Torácica, pareceu-me muito interessante, afirma que a formação e a sobretudo pela instrumentação”, colocação destes especialistas recorda Conceição Alves. têm de ser olhadas de outra E aproveita para contar uma curiosidade: “Diz-se que este foi o primeiro bloco forma. “É verdade que temos operatório a ter uma enfermeira instrumentista, em Portugal. Na época, o Prof. poucos cirurgiões torácicos, mas Machado Macedo achou que precisava de alguém com esses conhecimentos e uma temos também uma distribuição enfermeira do serviço foi a Londres fazer formação.” errática dos recursos humanos Conceição Alves explica que todos os enfermeiros passam pelas três funções dentro nesta área”, conclui. do bloco: anestesia, circulante e instrumentista. Dão também apoio ao doente quando entra na sala de operações, ainda acordado, e informação às famílias, sobretudo quando se trata de cirurgias pediátricas. “O enfermeiro do bloco operatório é aquele que dá o apoio necessário e protege o doente durante toda a cirurgia”, define Conceição Alves, citando a Associação de Enfermeiros de Sala de Operações Portugueses. Agora, enquanto enfermeira com funções de chefia, Conceição Alves afirma que a tarefa que mais a desafia é a gestão dos recursos humanos. “Todos temos objetivos e formas diferentes de estar na vida. É preciso saber parar e ouvir.” 33
e A equipa do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica é constituída por: 21 médicos 95 enfermeiros (78 enfermaria + 17 bloco) 1 administrador hospitalar 5 técnicos de Cardiopneumologia/perfusionistas 30 assistentes operacionais (25 enfermaria + 5 bloco) 4 assistentes técnicos 34
e FOTORREPORTAGEM CIRURGIA DE IMPLANTE DO HEARTMATE Alguns elementos da equipa O Serviço de Cirurgia Cardiotorácica multidisciplinar que realizou realizou, pela terceira vez, no passado a cirurgia mês de agosto, uma cirurgia de implante do HeartMate3 LVAD. A pessoa submetida a esta intervenção é do sexo masculino, tem 54 anos, e tinha uma insuficiência cardíaca provocada por uma cardiomiopatia dilatada de etiologia isquémica. O doente foi, inicialmente, colocado em lista de espera para transplante. Contudo, teve de ser retirado por disfunção renal. A cirurgia foi realizada pelo cirurgião cardiotorácico José Fragata. O HeartMate3 LVAD permite melhorar a qualidade de vida dos doentes, quer em termos de classe NYHA, que classifica a limitação das atividades físicas devido à insuficiência cardíaca, quer em termos do aumento da distância percorrida em seis minutos, que duplica após a cirurgia. 36
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E N T R E V I S TA e José Carlos Luz foi, há cerca de dois anos, submetido a uma cirurgia de implante do HeartMate, tornando-se assim o primeiro português a receber este dispositivo. Foi exatamente a 2 de março de 2017 que a vida de José Carlos Luz mudou totalmente. “Nunca mais tive falta de ar, nem desmaios. Embora tenha pequenos percalços, estou muito satisfeito. O HeartMate salvou-me a vida.” “O HEARTMATEJosé Carlos Luz, primeiro português a receber um coração artificial SALVOU-ME A VIDA” Atualmente com 67 anos, José recusou. Teve “medo”, até ao dia também formação para lhe Carlos Luz sofre, desde há 30, em que voltou a desmaiar na rua fazerem o penso e para mexerem de cardiomiopatia dilatada, à e a ser levado para o hospital. com a parte tecnológica do qual se juntaram, mais tarde, “Pensei que não podia continuar equipamento. Hoje em dia, José uma diabetes e uma insuficiência a viver assim. Conversei com a Carlos Luz toma banho sozinho renal, quadro clínico que o minha mulher, que me apoiou, e e faz a sua vida de forma “quase obrigava a internamentos resolvi aceitar”, conta. normal” e autónoma. sucessivos e que o impossibilitava A partir dessa altura, deixou de Para terminar, José Carlos Luz de receber um transplante. sentir receio: “Quando é para não quis deixar de salientar “Foi muito dramático. O meu benefício próprio, toda a gente a enorme gratidão que sente coração trabalhava só a 15 tenta. Medo, passei a ter daqueles por José Fragata e por toda a por cento e eu tinha desmaios dias de grande aflição, em que equipa, que tão bem cuidou de constantes. Em casa, ao tomar desmaiava na rua.” si. “Quando estava na Unidade banho, só de levantar os braços A intervenção correu bem e o pós- de Cuidados Intensivos, o Prof. perdia a força e os sentidos. -operatório também, praticamente José Fragata chegou a pôr-me Quando me apercebia já estava não sentiu dores. “Até diabetes uma televisão aos pés da cama no hospital”, recorda, dizendo deixei de ter”, exclama. Lamenta, e a pedir à minha mulher que me que esta situação se repetiu apenas, a infeção hospitalar trouxesse comida de casa. Um várias vezes. que teve e que dificultou a sua dia, quando já andava, fui até ao Um dia, José Fragata, diretor recuperação. seu gabinete. Ficou tão contente, do Serviço de Cirurgia Inicialmente, a adaptação à que tirámos uma fotografia e, Cardiotorácica, propôs-lhe máquina e às baterias fez-lhe mais tarde, veio oferecer-ma. colocar o HeartMate. “Era a única confusão. Ajudou-o o facto de a É uma pessoa excelente. Muito solução”, mas José Carlos Luz sua mulher e a sua filha receberem humana”, conclui. 38
CIRURGIA CARDÍACA - MONITORIZAÇÃO OPINIÃO DE RESULTADOS A monitorização de resultados em Cirurgia Cardíaca surge, em 1986, com a Society of Thoracic Surgeons, que criou uma base de dados em cirurgia coronária. Foram incluídas variáveis pré, intra e pós-operatórias relativas à doença cardíaca de base, comorbilidades, procedimento e resultado. Esta base de dados permitiu a criação de uma escala de risco, sendo possível, hoje em dia, calcular online o risco de mortalidade aos 30 dias, dos diversos procedimentos em Cirurgia Cardíaca. Em Portugal não existe ainda da alta. Foi assim necessário Pedro Coelho uma base de dados nacional prolongar a monitorização e Cirurgião Cardiotorácico de Cirurgia Cardíaca, estando acompanhamento dos doentes, em marcha a sua criação numa pelo que, em 2011, foi criado Serviço de Cirurgia iniciativa da Sociedade Portuguesa um registo para fazer o Cardiotorácica do Centro de Cirurgia Cardiotóracica e seguimento até aos 12 meses Hospitalar Universitário Vascular apoiada pela Sociedade de pós-operatório. Portuguesa de Cardiologia. Este seguimento é feito pela Lisboa Central No Serviço de Cirurgia equipa de enfermagem do Cardiotorácica do Hospital de serviço que tem realizado um desvios ao normal pós-operatório. Santa Marta existe, desde 2008, trabalho inigualável neste capítulo. No futuro, pensamos em alargar criada por iniciativa do Professor Os doentes são contactados a monitorização aos custos por José Fragata, uma base de telefonicamente aos três e 30 doente e melhorar a vigilância dados de Cirurgia Cardíaca em dias pós-alta, tendo ainda uma clínica, aproveitando os adultos. A escolha das variáveis consulta de enfermagem aos dispositivos tecnológicos existentes incluídas foi feita com base nas da três, seis e 12 meses. Quando atualmente, que permitem, Society of Thoracic Surgeons. Este não comparecem à consulta, por nomeadamente, a monitorização registo permite, ainda, o cálculo algum motivo, são contactados do ritmo cardíaco à distância. automático do risco de mortalidade telefonicamente. Este trabalho Podemos, assim, afirmar que o através do EuroSCORE. A base visa fazer a monitorização do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica de dados tem, atualmente, cerca ponto de vista clínico, ensino, do Hospital de Santa Marta além de 8 mil doentes. A existência nomeadamente esclarecendo de proporcionar o tratamento desta base de dados permite dúvidas sobre medicação, das várias patologias, segundo a monitorização da atividade, cuidados a ter com suturas etc. o estado da arte, está na identificar e corrigir desvios dos Paralelamente, é medido o vanguarda da monitorização e resultados, em relação ao que seria impacto da cirurgia a longo acompanhamento dos doentes expectável, e fornecer dados para prazo, sendo para isso avaliada após a alta, tentando responder elaboração de artigos científicos. a qualidade de vida, através do às suas necessidades e anseios. As consequências da cirurgia e as SF-36 aos três, seis e 12 meses. necessidades de apoio por parte Esta monitorização tem permitido dos doentes não terminam à data precocemente, identificar e corrigir 39
e OPINIÃO IMAGIOLOGIA INTRA-CORONÁRIA POR TOMOGRAFIA DE COERÊNCIA ÓTICA UMA “IMAGEM DE MARCA” Uma das técnicas que veio, ao longo dos últimos anos, a revelar- -se de grande utilidade na prática da Cardiologia de Intervenção é a Tomografia de Coerência Ótica (OCT). Foi introduzida, em Portugal, pelo Laboratório de Hemodinâmica do Serviço de Cardiologia do Hospital de Santa Marta, onde se efetuou, há doze anos, o primeiro exame, devido à realização de protocolos de cooperação internacional, estabelecidos nomeadamente com os University Hospitals - Case Western Reserve de Cleveland EUA. São atualmente múltiplas as uma participação condigna nesta Rui Cruz Ferreira situações em que a sua utilidade iniciativa, que, certamente, irá Diretor é incontroversa, como descrito abrir a possibilidade do Centro do Serviço em vários trabalhos locais de assumir um papel de relevo investigação clínica, publicados internacional. de Cardiologia em revistas nacionais e internacionais. 40 O desenvolvimento de um trabalho regular de investigação e o aprofundamento de conhecimentos obtidos ao longo dos anos possibilitaram que, recentemente, o Hospital de Santa Marta fosse convidado a participar como único centro nacional, num grande ensaio clínico multinacional: “ILUMIEN IV”, que visa definir as possíveis vantagens da angioplastia coronária guiada por OCT face à angiografia convencional. Saliente-se que esta participação é possível pela existência local de equipamento e software de última geração, nomeadamente de co-registo em plena integração com a imagiologia convencional. Estamos empenhados em garantir
O Serviço de Cardiologia A atividade da especialidade de Cardiologia no CHULC contempla essencialmente três vertentes: assistencial, formação pré e pós-graduada e investigação clínica. A prestação de cuidados é, de acordo com o seu diretor, Rui Cruz Ferreira, a área “mais importante”, com cerca de 3 mil internamentos e 35 mil consultas/ano. Segundo o cardiologista, a Unidade de Cuidados Intensivos deste serviço apresenta o maior número de internamentos de cuidados intensivos cardiológicos a nível nacional. “A sua capacidade instalada, neste momento com 13 camas, permite internar mais de 1.200 doentes/ano”, afirma Rui Cruz Ferreira. Além disso, esta instituição é, a nível nacional, uma das mais procuradas para realização do Internato de Cardiologia, recebendo anualmente um número significativo de internos. “Somos um serviço de prestígio. Somos os primeiros a ser escolhidos e temos as melhores classificações a nível nacional.” A área da investigação clínica é outra das vertentes que constituem o serviço. Divide-se na participação em ensaios clínicos multicêntricos internacionais e na atividade regular de investigação, que permite a publicação de cerca de 15 artigos/ano em revistas nacionais internacionais com elevados fatores de impacto. Atualmente, o Serviço de Cardiologia é Centro de Referência de Intervenção Estrutural e Centro de Referência de Cardiopatias Congénitas, conjuntamente com o Serviço de Cardiologia Pediátrica. Além disso, os profissionais deste serviço dão apoio a outros centros do departamento, nomeadamente, ao de Transplantação Cardíaca. São ainda de salientar, a área da Insuficiência Cardíaca, com uma estrutura própria montada e com um Programa de Telemonitorização; o gabinete de percurso integrado, que permite analisar os dados dos doentes que vão ser internados previamente e a realização de checklists, de forma a minimizar as falhas; e ainda um gabinete de follow up, que faz o seguimento dos doentes a 30 dias, um e três anos após a alta. 41
e OPINIÃO FIBRILHAÇÃO AURICULAR E APNEIA DO SONO: UMA COMBINAÇÃO COMUM A Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) é caracterizada por interrupções breves e repetidas na respiração, que provocam baixa dos níveis de oxigénio no organismo, um sono fracionado e não reparador. Tem como consequências a sonolência diurna excessiva e cansaço, com dificuldade de concentração, cefaleias, causando hipertensão arterial de difícil controlo, insuficiência cardíaca e arritmias cardíacas, com destaque para a fibrilhação auricular (FA). Esta arritmia, comum na prática atualmente o rastreio desta Mário Oliveira clínica, associa-se a maior risco situação possa ser baseado em Coordenador de mortalidade, acidente vascular novos aparelhos mais simples e do Departamento de cerebral, insuficiência cardíaca de fácil acesso. Eletrofisiologia e Pacing do e internamentos hospitalares. A O tratamento é eficaz e consiste Serviço de Cardiologia combinação de SAOS e FA é na redução do peso (se excesso frequente (21 por cento a 74 por de peso ou obesidade) e recurso que o sucesso da terapêutica da cento dos casos de SAOS têm FA), a equipamento médico que arritmia é muito baixo se a SAOS estando descrita uma prevalência funciona através de máscara não tiver tratamento eficaz. A 4 vezes superior da arritmia nos com envio de pressão positiva boa notícia vem da investigação doentes com SAOS, que é ainda contínua para as vias aéreas clínica, que tem demonstrado, superior nas situações com maior (CPAP), por forma a mantê-las de forma consistente, que número de apneias por hora. abertas e, por consequência, tratando a SAOS se reduz de Nos doentes com FA, sobretudo evitar os episódios de apneia. forma muito significativa o risco em homens com obesidade O tratamento da FA, por sua de recorrência da FA após a e hipertensão, é fundamental vez, é seriamente comprometido ablação. Por isso, o trabalho excluir SAOS. Do mesmo na presença de SAOS não conjunto do médico assistente modo, na população com tratada. Para além do uso de do doente com os especialistas SAOS é importante pesquisar medicamentos antiarrítmicos em arritmias e em distúrbios do a presença de FA, pelo que a e da cardioversão elétrica, a sono é fundamental para que o orientação pode ser no sentido ablação por cateter tem sido resultado na abordagem destas de exames complementares para progressivamente mais indicada, patologias, tão frequentemente monitorização do ritmo cardíaco, sendo considerada o principal associadas, seja bem-sucedido. como o registo de Holter ou o tratamento para a FA refratária à recurso a registadores de eventos terapêutica médica. de maior duração. O rastreio dos candidatos a esta O diagnóstico e caracterização ablação para a presença de da SAOS implicam um estudo SAOS e respetivo tratamento com poligráfico do sono, embora CPAP é recomendado, uma vez 42
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