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livrinho_primavera_2009

Published by bibliotecaaurelia, 2020-11-06 10:53:17

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Antologia da Primavera 21 de Março Dia Mundial da Poesia Biblioteca/Centro de Recursos Escola Secundária Aurélia de Sousa

Assim como busca a relação verdadeira do homem com a árvore ou com o rio, o poeta busca a relação verdadeira com os outros homens Sophia de Mello Breyner Andresen

O PRIMEIRO HOMEM Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Reflectindo o mundo, E o eco sem fundo Da ascensão da terra nos espaços Eram os impulsos do seu peito Florindo num ritmo perfeito Nos gestos dos seus braços. Sophia de Mello Breyner Andresen

Coração Habitado Aqui estão as mãos. São os mais belos sinais da terra. Os anjos nascem aqui: frescos, matinais, quase de orvalho, de coração alegre e povoado. Ponho nelas a minha boca, respiro o sangue, o seu rumor branco, aqueço-as por dentro, abandonadas nas minhas, as pequenas mãos do mundo. Alguns pensam que são as mãos de deus — eu sei que são as mãos de um homem, trémulas barcaças onde a água, a tristeza e as quatro estações penetram, indiferentemente. Não lhes toquem: são amor e bondade. Mais ainda: cheiram a madressilva. São o primeiro homem, a primeira mulher. E amanhece. Eugénio de Andrade

SOLIDÃO-SOLIDÓ DO PASTOR PEREGRINO […] Causas perdidas são as que me dão vida. Por isso te quero, terra minha. Por isso aterro a minha casa. Construo outra igual, parecida. […] E tu, meu amor, não digas o que se passa comigo. Deixa o trânsito passar com paciência e esse ar de quem passeia ao domingo. E me ouve assobiar. Ruy Cinatti

SÍSIFO Recomeça... Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-nos em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade. E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar. Sempre a sonhar E vendo, Acordado, O logro da aventura. És homem, não te esqueças! Só é a tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças. Miguel Torga

VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA! O sol é sempre o mesmo e o céu azul ora é azul, nitidamente azul, ora é cinzento, negro, quase-verde… Mas nunca tem a cor inesperada. O mundo não se modifica. As árvores dão flores, folhas, frutos e pássaros como máquinas verdes. As paisagens também não se transformam. Não cai neve vermelha, não há flores que voem, a lua não tem olhos e ninguém vai pintar olhos à lua. (…) José Gomes Ferreira

Naquele Tempo Sob o caramachão de glicínia lilaz As abelhas e eu Tontas de perfume Lá no alto as abelhas Doiradas e pequenas Não se ocupavam de mim Iam de flor em flor E cá em baixo eu Sentada no banco de azulejos Entre penumbra e luz Flor e perfume Tão ávida como as abelhas Sophia de Mello Breyner Andresen

IMAGEM Este é um poema duma macieira. Quem quiser lê-lo, Quer quiser vê-lo, Venha olhá-lo daqui a tarde inteira. Floriu assim pela primeira vez. Deu-lhe um sol de noivado, E toda a virgindade se desfez Neste lirismo fecundado. São dois braços abertos de brancura; Mas em redor Não há coisa mais pura, Nem promessa maior. Miguel Torga

Nossa matéria aos sonhos é igual e os sonhos abrem olhos à maneira de umas crianças sob o cerejal. Das copas, ouro pálido se esgueira da lua-cheia e a vasta noite alcança… senão, sonhos não há à nossa beira. Vivem aí qual riso de criança, e como a lua-cheia sobem, descem, quando desperta sobre a fronde avança. O mais íntimo se abre a quanto tecem; quais mãos-fantasma sempre num tristonho espaço estão em nós e a vida oferecem. E os três são um: homem e coisa e sonho. Hugo von Hofmannsthal

Quero apenas cinco coisas.. Primeiro é o amor sem fim A segunda é ver o outono A terceira é o grave inverno Em quarto lugar o verão A quinta coisa são teus olhos Não quero dormir sem teus olhos. Não quero ser... sem que me olhes. Abro mão da primavera para que continues me olhando. Pablo Neruda

ANUNCIAÇÃO Surdo murmúrio do rio, a deslizar, pausado, na planura. Mensageiro moroso dum recado comprido, di-lo sem pressa ao alarmado ouvido dos salgueirais: a neve derreteu nos píncaros da serra; o gado berra dentro dos currais, a lembrar aos zagais o fim do cativeiro; anda no ar um perfumado cheiro a terra revolvida; o vento emudeceu; o sol desceu; a primavera vai chegar, florida. Miguel Torga

Os Amigos Infelizes Andamos nus, apenas revestidos Da música inocente dos sentidos. Como nuvens ou pássaros passamos Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos. No entanto, em nós, o canto é quase mudo. Nada pedimos. Recusamos tudo. Nunca para vingar as próprias dores Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores. E a noite chega! Ao longe, morre o dia... A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia... E há mãos que vêm poisar em nossos ombros E somos o silêncio dos escombros. Ó meus irmãos! em todos os países, Rezai pelos amigos infelizes! Pedro Homem de Mello

URGENTEMENTE É urgente o amor. É urgente um barco no mar. É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. É urgente inventar alegria, multiplicar os beijos, as searas, é urgente descobrir rosas e rios e manhãs claras. Cai o silêncio nos ombros e a luz impura, até doer. É urgente o amor, é urgente permanecer. Eugénio de Andrade

Se às vezes digo que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam, Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores E cantos no correr dos rios... É porque assim faço mais sentir aos homens falsos A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes À sua estupidez de sentidos... Não concordo comigo mas absolvo-me, Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza, Porque há homens que não percebem a sua linguagem, Por ela não ser linguagem nenhuma. Alberto Caeiro

Os pássaros nascem na ponta das árvores As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores Os pássaros começam onde as árvores acabam Os pássaros fazem cantar as árvores (…) Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros Quem é que lá os pendura nos ramos? De quem é a mão a inúmera mão? Eu passo e muda-se-me o coração Ruy Belo

As árvorescrescemsós.Easósflorescem. Começam por ser nada. Pouco a pouco selevantamdo chão,sealteiampalmoapalmo. Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos, e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se. (…) As árvores,não. Solitárias, as árvores, exauram terra e sol silenciosamente. Não pensam, não suspiram, não se queixam. Estendemosbraços comoseimplorassem; com o vento soltam ais como se suspirassem; e gemem, mas a queixa não é sua. (…) antónio gedeão

TO A GREEN GOD Trazia consigo a graça das fontes quando anoitece. Era o corpo como um rio em sereno desafio com as margens quando desce. Andava como quem passa sem ter tempo de parar. Ervas nasciam dos passos, cresciam troncos dos braços quando os erguia no ar. Sorria como quem dança. E desfolhava ao dançar o corpo, que lhe tremia num ritmo que ele sabia que os deuses devem usar. E seguia o seu caminho, porque era um deus que passava. Alheio a tudo o que via, enleado na melodia de uma flauta que tocava. Eugénio de Andrade

Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar! E se um dia hei- de ser pó, cinza e nada que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder...para me encontrar.... Florbela Espanca

NOTA SOCIAL (…) Numa árvore do passeio público (melhoramento da atual administração) árvore gorda, prisioneira de anúncios coloridos, árvore banal, árvore que ninguém vê canta uma cigarra. Canta uma cigarra que ninguém ouve um hino que ninguém aplaude. Canta, no sol danado. O poeta entra no elevador o poeta sobe o poeta fecha-se no quarto. O poeta está melancólico. Carlos Drummond De Andrade

Pobres das flores dos canteiros dos jardins regulares. Parecem ter medo da polícia... Mas tão boas que florescem do mesmo modo E têm o mesmo sorriso antigo Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente Para ver se elas falavam... Alberto Caeiro

FLORES Era preciso agradecer às flores Terem guardado em si, Límpida e pura, Aquela promessa antiga Duma manhã futura. Sophia de Mello Breyner

Das QUADRAS AO GOSTO POPULAR i Tome lá, minha menina, O ramalhete que fiz. Cada flor é pequenina, Mas tudo junto é feliz. ii Teu vestido, porque é teu, Não é de cetim nem chita. É de sermos tu e eu e de tu seres bonita. iii Andorinha que vais alta, Porque não me vens trazer Qualquer coisa que me falta E que te não sei dizer? iv Água que passa e canta É água que faz dormir... Sonhar é coisa que encanta, Pensar é já não sentir. Fernando Pessoa

Passa uma borboleta por diante de mim E pela primeira vez no Universo eu reparo Que as borboletas não têm cor nem movimento, Assim como as flores não têm perfume nem cor. A cor é que tem cor nas asas da borboleta, No movimento da borboleta o movimento é que se move, O perfume é que tem perfume no perfume da flor. A borboleta é apenas borboleta E a flor é apenas flor. Alberto Caeiro

O dia limpo como um adro deserto, o relógio parado, os degraus por onde o sol sobe ao olhar — falta que um pássaro cante em qualquer lado. Eugénio de Andrade Os dedos brincam com a luz de Março — não há no corpo lugar para a morte com o sol adormecido no regaço. Eugénio de Andrade

BEBIDO O LUAR Bebido o luar, ébrios de horizontes, Julgamos que viver era abraçar O rumor dos pinhais, o azul dos montes E todos os jardins verdes do mar. Mas solitários somos e passamos, Não são nossos os frutos nem as flores, O céu e o mar pagam-se exteriores E tornam-se os fantasmas que sonhamos. Porquê jardins que nós não colheremos, Límpidos nas auroras a nascer, Porquê o céu e o mar se não seremos Nunca os deuses capazes de os viver. Sophia de Mello Breyner Andersen

(…) Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha. Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha. Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha. Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha. Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não: brilha. Uma pequenina luz bruxuleante e muda como a exactidão e a firmeza como a justiça. Apenas como elas. Mas brilha. Não na distância. Aqui no meio de nós. Brilha. Jorge de Sena

SONÂNBULO I Chove… Mas isso que importa!, se estou aqui abrigado nesta porta a ouvir na chuva que cai do céu uma melodia de silêncio que ninguém mais ouve senão eu? Chove… Mas é o destino de quem ama ouvir um violino até na lama. José Gomes Ferreira

Cada árvore é um ser para ser em nós Para ver uma árvore não basta vê-a a árvore é uma lenta reverência uma presença reminiscente uma habitação perdida e encontrada À sombra de uma árvore o tempo já não é o tempo mas a magia de um instante que começa sem fim a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas e de sombras interiores nós habitamos a árvore com a nossa respiração com a da árvore com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses António Ramos Rosa

Sereno, o parque espera Mostra os braços cortados, E sonha a Primavera Com seus olhos gelados. É um mundo que há-de vir Naquela fé dormente; Um sonho que há-de abrir Em ninhos e sementes. Basta que um novo Sol Desça do velho céu, E diga ao rouxinol Que a vida não morreu. Miguel Torga

PUDESSE EU Pudesse eu não ter laços nem limites, Ó vida de mil faces transbordantes, Para poder responder aos teus convites Suspensos na surpresa dos instantes! Sophia de Mello Breyner Andresen

VIAGEM Aparelhei o barco da ilusão E reforcei a fé de marinheiro. Era longe o meu sonho, e traiçoeiro O mar… (Só nos é concedida Esta vida Que temos; E é nela que é preciso Procurar o velho paraíso Que perdemos). Prestes, larguei a vela E disse adeus ao cais, à paz tolhida. Desmedida, A revolta imensidão Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura… Mas corto as ondas sem desanimar. Em qualquer aventura, O que importa é partir, não é chegar. Miguel Torga

O TEU NOME Flor de acaso ou ave deslumbrante, Palavra tremendo nas redes da poesia, O teu nome, como o destino, chega, O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo De todas as cores do dia! Alexandre O’Neill

Cântico de Humanidade Hinos aos deuses, não. Os homens é que merecem Que se lhes cante a virtude. Bichos que lavram no chão, Actuam como parecem, Sem um disfarce que os mude. Apenas se os deuses querem Ser homens, nós os cantemos. E à soga do mesmo carro, Com os aguilhões que nos ferem, Nós também lhes demonstremos Que são mortais e de barro. Miguel Torga

JARDIM PERDIDO (…) A verdura das arvores ardia, O vermelho das rosas transbordava Alucinado cada ser subia Num tumulto em que tudo germinava (…) Sophia de Mello Breyner Andresen

ANUNCIAÇÃO Surdo murmúrio do rio, a deslizar, pausado, na planura. Mensageiro moroso dum recado comprido, di-lo sem pressa ao alarmado ouvido dos salgueirais: a neve derreteu nos píncaros da serra; o gado berra dentro dos currais, a lembrar aos zagais o fim do cativeiro; anda no ar um perfumado cheiro a terra revolvida; o vento emudeceu; o sol desceu; a primavera vai chegar, florida. Miguel Torga

Elegia das Flores Os homens esperam viver cem anos Mas as flores vivem uma primavera. Porém, num dia de vento e de chuva, Elas podem desfolhar-se na poeira. Se as flores soubessem afligir-se com isso. A sua tristeza seria maior que a dos homens. Emanuel Félix.

(...) creio no incrível, nas coisas assombrosas, na ocupação do mundo pelas rosas, creio que o amor tem asas de ouro. amen. Natália Correia

MAGNOLIA Uma flor. Uma cor Acordada. Uma vida feliz Que o diz Numa voz perfumada. Miguel Torga

Falaram-me os Homens em Humanidade Falaram-me os homens em humanidade, Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade. Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si. Cada um separado do outro por um espaço sem homens. Alberto Caeiro

A UM NEGRILHO Na terra onde nasci há um só poeta Os meus versos são folhas dos seus ramos. Quando chego de longe e conversamos, É ele que me revela o mundo visitado. Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada, E a luz do sol aceso ou apagado É nos seus olhos que se vê pousada. Esse poeta és tu, mestre da inquietação Serena! Tu, imortal avena Que harmonizas o vento e adormeces o imenso Redil de estrelas ao luar maninho. Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso Onde os pássaros e o tempo fazem ninho! Miguel Torga

Arte Poética (…) Sabemos que a vida não é uma coisa e a poesia outra. Procuramos o coincidir do estar e do ser. Procurar a inteireza do estar na terra é a busca de poesia. È a poesia que estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros, e com a vida, com o mundo e com as coisas. (…)

Arte Poética (…) É muito importante que se compreenda claramente que a arte não é luxo nem adorno. A história mostra-nos que o homem paleolítico pintou as paredes das cavernas antes de saber cozer o barro, antes de saber lavrar a terra. Pintou para viver. Porque não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência (…) 3

Arte Poética Há alguns princípios que me parecem objectivamente intrínsecos à condição do escritor. Esses princípios são: * Lutar contra a demagogia que é a degradação da palavra. Dar um sentido mais puro às palavras é uma missão do poeta.

Arte Poética * Lutar contra os slogans. Um provérbio Burundi diz:”Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba”. * O escritor como todo o homem consciente deve exercer uma função crítica. E deve lutar por um ambiente em que a crítica seja possível (…) Sophia de Mello Breyner Andresen

concepção e edição: luísa moniz _ 2009


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