Important Announcement
PubHTML5 Scheduled Server Maintenance on (GMT) Sunday, June 26th, 2:00 am - 8:00 am.
PubHTML5 site will be inoperative during the times indicated!

Home Explore Revista Pentagrama 2011-5

Revista Pentagrama 2011-5

Published by Pentagrama Publicações, 2016-06-13 21:07:09

Description: revista-ano-33-numero-5

Search

Read the Text Version

pentagrama Lectorium Rosicrucianum O novo corpo vital Maria Madalena e a Luz Revesti-vos do novo homem Ressurreição na veste-de-luz A Edda: a história da criação Apolônio de Tiana2011 5Set/OutNúmero

Editor responsável Revista Bimestral da EscolaA. H. v. d. Brul Internacional da Rosacruz ÁureaLinha editorialP. Huis Lectorium RosicrucianumRedatores A revista Pentagrama dirige a atenção de seus leito-C. Bode, A. Gerrits, H.P. Knevel, G.P. Olsthoorn, res para o desenvolvimento da humanidade nesta novaA. Stokman-Griever, G. Uljée, I.W. van den Brul era que se inicia. O pentagrama tem sido, através dos tempos, o símboloRedação do homem renascido, do novo homem. Ele é tambémPentagram o símbolo do Universo e de seu eterno devir, porMaartensdijkseweg 1 meio do qual o plano de Deus se manifesta. Entretan-NL-3723 MC Bilthoven, Países Baixos to, um símbolo somente tem valor quando se tornae-mail: [email protected] realidade.O homem que realiza o pentagrama em seu microcosmo, em seu próprio pequeno mundo, está noEdição brasileira caminho da transfiguração.Pentagrama Publicações A revista Pentagrama convida o leitor a operar essawww.pentagrama.org.br revolução espiritual em seu próprio interior.Administração, assinaturas e vendasPentagrama PublicaçõesC.Postal 39 13.240-000 Jarinu, [email protected]@pentagrama.org.brAssinatura anual: R$ 80,00Número avulso: R$ 16,00Responsável pela Edição BrasileiraM.V. Mesquita de SousaCoordenação, tradução e revisãoJ.C. de Lima, A.C. Pieranton, M.M. Rocha Leite,S.P. Cachemaille, L.M.Tuacek, M.L.B. da Mota, L.A.Nepomuceno, M.D.E. de Oliveira, M.B. Paula Timóteo,M.R.M. Moraes, R.D. Luz, F. LuzDiagramação, capa e interiorD.B. Santos NevesTerceira capaM. Jackson NevesLectorium RosicrucianumSede no BrasilRua Sebastião Carneiro, 215, São Paulo - SPTel. & fax: (11) [email protected] em PortugalTravessa das Pedras Negras, 1, 1º, [email protected]© Stichting Rozekruis PersProibida qualquer reprodução semautorização prévia por escritoISSN 1677-2253

p e n t a g r a m a ano 33 número 5 2011Encontrar a si mesmo, ser e permanecer autêntico e, sumárioconsequentemente, fechar a porta para todos os “ou­tros” que pudéssemos ser, seria essa então a finalidade estudo da natureza de nossa consciência:da busca por nossa identidade? Essa foi a pergunta que o novo corpo vitalfizeram os jovens alunos no decurso de uma conferên­ j. van rijckenborgh 2cia organizada para eles, na última primavera europeia.Nesta edição da revista Pentagrama damos uma visão a rosa no deserto 6desses dias. Para o buscador, o aprendizado do auto­ símbolos e visões de longo alcanceconhecimento implica em uma busca infinita pelos mis­térios da vida. maria madalena e a luz 10Desde a aurora dos tempos essa busca não cessa de maria madalena, a alma do mundopreocupar o homem, impelindo-o a abandonar os cami­nhos mais familiares em busca de novas respostas. no homem 13O leitor encontrará nos artigos relatos de experiên­ revesti-vos do novo homem 18cias vividas em épocas diferentes pelos buscadores da ressurreição na veste-de-luz 23verdade universal. Possa ele reconhecer nesses teste­ edda: a história da criação 29munhos os elementos de sua própria busca. conferência em noverosa“A maior de todas as lições é conhecer a si mesmo, pois identidade, personalidade e núcleoquem conhece a si mesmo conhece Deus.” espiritual 35 resenha de livro:Clemente de Alexandria o nuctemeron de apolônio de tiana, as doze horas da libertação 39 a vida de apolônio de tiana, baseada em artigo de fred a. pruyn 44 Capa: afresco no teto do Forte de Ahichatra- garh, na vila de Nagaur, Rajasthan (Índia) no século XII, importante centro comercial da época. Um fascinante mural que expressa a alegria dos seres celestiais 11

ESTUDO DA NATUREZA DE NOSSA CONSCIÊNCIAo novo corpo vitalJ. van RijckenborghSe quisermos formar uma imagem do novo veículo da alma renascida,que é edificado a partir do momento que a alma entra no nascimentoda luz de Deus, devemos caminhar com cuidado. A quantidade de seusaspectos é tão grande que inúmeras explicações serão necessárias antesde conseguirmos fazer uma apresentação aceitável. Pela primeira vez nahistória da Escola Espiritual moderna somos autorizados a falar do novoveículo da alma renascida. Assim, esta apresentação deve ser conside­rada como um esquema preliminar, muito parcimonioso e incompleto,desse tema de extrema importância.Sabemos que o corpo material possui ção. Ele possui um sistema de linhas de força o que chamamos de duplo etérico ou muito semelhante ao do sistema nervoso. corpo etérico ou ainda corpo vital. O Podemos observar essa ampla estrutura noscorpo etérico tem aproximadamente a mes­ desenhos que representam o sistema nervoso.ma forma do corpo físico e também expressa O corpo vital assimila éteres, concentra-os eo mesmo tipo. Pode-se dizer que o corpo separa-os, de acordo com as várias funçõesetérico é a matriz do corpo físico. Por isso necessárias, e então transfere o resultadodiz a Doutrina Universal: tudo começa no para o corpo físico.corpo etérico. Pode-se dizer que o corpo físico respira éteres. E aí a pele executa uma função im­Quando algo novo deve ser edificado, portante. Respiramos éteres, e também osdeve-se sempre voltar a atenção para o ve­ assimilamos pela pele. Se a pele não funcionaículo etérico. Se um homem fica doente, a bem, não é possível uma assimilação adequa­causa reside sempre no corpo etérico. Por da de éteres; e sem uma boa assimilação deisso dizemos – e repetimos algo bem co­ éteres o corpo físico sofre e adoece.nhecido – que a recuperação da saúde deve No corpo há também portas de entrada mui­começar no corpo etérico. Quando isso to especiais para os éteres, como o baço, poracontece, o restabelecimento do corpo físico exemplo. Mas esses éteres são também absor­segue-se automaticamente. vidos pelo corpo inteiro, em cada centímetroO corpo etérico ou vital é constituído prin­ quadrado; mesmo as partes internas do corpocipalmente dos quatro éteres conhecidos, que inspiram éteres, pois, como foi dito, o corpose sucedem em graus de densidade e vibra­ etérico penetra o veículo físico inteiro.2 pentagrama 5/2011

J. van Rijckenborgh e Catharose de Petri,fundadores da Escola Internacional da Rosacruz Áurea,descrevem e comentam para alunos e interessadoso caminho que leva à libertação da alma com baseem textos originais da Doutrina Universal,tais como o Corpus Hermeticum Imagem em cerâmica do século 17 em um muro exterior do Palácio de Golestan (Palácio das Flores) em Teerã, Irã o novo corpo vital 3

Paisagem campestre,Tom MaakestadtA natureza, o estado biológico e o grau de O renascimento da alma, que traz consigocristalização do corpo material são deter­ uma transformação total do campo mag­minados pelos éteres absorvidos. Toda a nético particular, implica um novo campomanifestação material, toda a personalidade de vida pessoal, portanto uma assimilaçãohumana, origina-se dos quatro éteres. etérica totalmente nova. Os corpos etérico e físico comuns são am­Os éteres são recebidos e mantidos em nosso bos fundamentalmente inaptos para essa novacampo magnético particular mediante nossa assimilação. Portanto, a formação de um novofonte magnética pessoal: o núcleo-alma corpo etérico com um novo sistema de linhasmagnético no quarto ventrículo cerebral. de força é necessária: um corpo capaz de assi­Podemos dizer que o estado de alma do milar novos éteres, os quatro alimentos santos,homem determina, portanto, o estado de de vibração bem diferente dos éteres comunsseu corpo etérico e que, consequentemente, da natureza da morte. De fato, está fora deo estado de seu corpo físico se manifesta de questão que os quatro alimentos santos pene­acordo com isso. trem em um corpo de estrutura comum.4 pentagrama 5/2011

Na pessoa que se encontra no processo de nascimento danova alma, o corpo material – e seu duplo etérico – torna-sepouco a pouco mais sutilEssa assimilação carrega um processo de Uma luz muito poderosa emana um fogodesestruturação do antigo corpo etérico e do irradiador comparável à cauda ardente de umantigo corpo físico. Entretanto, após todas cometa. Nesse raio ígneo, pode-se claramen­essas explicações, não achareis isso dramá­ te determinar os sete aspectos: são os setetico? O corpo mortal no qual existimos não novos chacras do novo corpo vital. A novadeve desaparecer de qualquer forma? Nossos alma está, a partir de então, pronta para umadois veículos comuns, material e etérico, não existência autocriadora. Ela desenvolve porestão condenados a desaparecer pela doença si mesma uma estrutura de linhas de forçaou por outras causas de decadência? cujo aspecto central é a coluna ígnea de seteNo processo descrito, a causa dessa morte é aspectos. Assim, da nova alma eleva-se umbem diferente; ela leva à vida. Na pessoa que novo corpo etérico. Segue-se a manifestaçãose encontra no processo de nascimento da de um novo veículo material que não é destanova alma, o corpo material – e seu duplo natureza, um veículo de construção sutil, deetérico – torna-se pouco a pouco mais sutil. forma nobre.Sua robustez diminui, o que não significa Uma vez terminada essa construção –que ela deva demonstrar carências orgânicas o desenvolvimento é relativamente rápi­ou doenças, mas todo seu estado se torna do – o antigo ser pode, caso seja necessá­mais puro, mais sereno. Daí em diante, ela rio, ser abandonado e levado ao túmulo: onotará uma constituição mais sutil e, por­ novo ser ressuscita no templo-sepulcro quetanto, em certa medida, mais frágil, mas que construiu para si. Assim, o renascido, gra­poderá ser harmoniosamente mantida até o ças a seu estado de alma e de personalidade,fim. Esse processo de desaparecimento, essa encontra-se, na qualidade de ressuscitado, noendura, não é absolutamente um estado doen­ templo-sepulcro que edificou. E, como Cris­tio, desgastante e doloroso. tão Rosa-Cruz, ele pode testemunhar, cheioA nova alma, nascida não da vontade do de alegria: “Desse templo fiz para mim, emhomem, mas de Deus, é de natureza her­ vida, um sepulcro”.mafrodita. Ela é autocriadora. A partir do Mediante o autodeclínio segundo a naturezamomento em que a radiação fundamental da da morte, ele mesmo realizou o milagre doGnosis pode ser assimilada, uma divisão em retorno à natureza divina µsete aspectos se desenvolve: o Espírito Sétu­plo santificador manifesta-se em nossa alma. Nota: o presente texto é anterior a 1968 o novo corpo vital 5

a rosa no desertoA Rosacruz Áurea fala de uma vida interior simbolizada de modo muito poéticopela expressão “rosa dos mistérios”. A assim chamada rosa-do-coração, ou áto­mo original, ou ainda centelha-do-espírito, representa um segredo maravilhosocomparável a um espelho: o espelho dos mistérios. Trata-se de uma câmara detesouro cheia de valores interiores muito valiosa que, em muitos casos, ainda nãofoi descoberta nem revelada. O buscador iniciante dificilmente pode avaliar suaamplitude espiritual.6 pentagrama 5/2011

São valores ocultos nas profundezas do estranho. Nós o reconhecemos interiormente microcosmo, no centro da morada em e o aceitamos. Parece lógico, para nós, esse que somos habitantes temporários, mas estado de criaturas materiais, mortais, quesobre a qual, na realidade, quase nada sabe­ têm por detrás de seu plano de existência umamos. Esses valores pertencem ao ser “único”, força superior.chamado “mônada” pelos antigos gnósticos. A Doutrina Universal afirma que o micro­É a centelha-do-espírito, o núcleo original cosmo é o reflexo do macrocosmo: o quede vida do microcosmo, que está ligado tem­ é pequeno é semelhante ao que é grande.porariamente a nós, homens efêmeros, por Baseado nessa analogia, o próprio microcosmomeio do coração. Os rosa-cruzes, em todas é um sistema vital especialmente complexo,as épocas, indicaram esse centro especial um planeta em miniatura. A sabedoria gnós­como “rosa”. Guiados por esse pensamento, tica secular esforça-se para esclarecer que odenominamo-nos e sentimo-nos rosa-cruzes, microcosmo, esse pequeno planeta, foi comocomo buscadores que aspiram a um objetivo que ejetado de sua trajetória. Ele não segue oclaro e bem definido na vida. caminho que lhe foi destinado: girar em volta do sol espiritual central. Ele desviou-se emCONHECIMENTO REENCONTRADO Acei­ uma espiral que está se distanciando cada veztamos a ideia de que existe uma voz inte­ mais desse sol.rior que se reporta à nossa consciência. Osconceitos da Escola Espiritual da Rosacruz UM SOPRO SOLAR DE SUBSTÂNCIA ORIGINALÁurea nos atraem, assim como tudo o que Conforme ele se desvia, seu longo caminhareles implicam. Herdamos a convicção inte­ sem rumo vai se distanciando de seu verda­rior de que nós, homens materiais, fazemos deiro destino: ele fica retido no mundo doparte de um microcosmo, ser invisível cuja “subir, brilhar, descer”, prisioneiro de umainfluência sentimos no decorrer de nossa forma de manisfestação que está encerradavida. Entretanto, seu princípio de vida é, em si mesma.para nós, extremamente inconcebível. Muito No decorrer desse percurso, o microcosmopouco conscientes a respeito de nós mes­ perdeu seu esplendor, sua glória original. Emmos, somente nos realizamos por completo a seu firmamento já surgiram outras forças,partir do conhecimento adquirido através dos como ervas daninhas em um jardim aban­ensinamentos da Escola Espiritual e da Dou­ donado. O planeta microcósmico já não estátrina Universal manifestados por meio de um em condição de funcionar de acordo com acampo de força. ideia divina de onde ele proveio, ou seja, umE, no entanto, esse conhecimento não nos é conceito, um plano, que prevê uma elevação, a rosa no deserto 7

Muito antigo? Então, dizemos a esses jovens: vocês. Guardem tudo isso. VivamMuitos jovens têm o sentimento de Está bem. Vocês foram crianças como puderem, mas vivam, acimajá serem “velhos”. Eles sentem que obedientes e bem tratadas. Mas o de tudo, como seres livres e felizesnão possuem a juventude indicada que vocês vão fazer, de agora em que sabem interiormente que existepor sua idade, que sua origem é diante, com tudo o que foi dito e outra dimensão completamentemuito antiga. Tudo o que ouvem nas explicado? diferente desta vida comum na ma-alocuções ou atividades organizadas Vocês reconheceram a verdade. téria – uma força que pode se der­para eles na Rosacruz Áurea esses Essa verdade está chamando todos ramar agora mesmo sobre vocês.jovens já conhecem interiormente.um avanço e o desdobramento dessa ideia no “sete pétalas da rosa”. O corpo espiritual sé­campo de criação original. tuplo da Escola Espiritual guia e acompanha oNos antigos ensinamentos da sabedoria, conjunto desses microcosmos sétuplos rumo aofala-se das centelhas divinas originárias do novo cosmo, que está infalivelmente voltadocampo de criação como sendo “a veste de para o Espírito Santo sétuplo.Deus”, o sopro do Espírito. Esse alento, essa Se agora colocarmos diante de nosso espíri­espiração divina, essa pulsação, como um to essa representação que a Escola Espiritualsopro solar contínuo da substância original, nos oferece a respeito da Gnosis, sentiremosatravessa o universo inteiro. um súbito sentimento de júbilo e encanta­Sem essa pulsação nenhuma vida é possível. mento em nosso coração. Afinal, a ideia deA vida é e continua sendo o reflexo dessa nosso passado divino e a de um futuro divinoviva respiração divina. Portanto, a “Vida” latente não são capazes de suscitar em nóssempre será o movimento original do Todo, ao mesmo tempo um profundo respeito e uma respiração divina do Espírito Sétuplo: os intenso desejo?sete raios formadores constituíram o cosmo Esse desejo, que brota das profundezas dee continuam a exercer essa tarefa. Eles for­ nosso ser, chega até nós a partir da origemmam a respiração sétupla vital que anima e longínqua do microcosmo. Ele é um reflexo,dá seu impulso à criação. Essas sete correntes em nosso coração, da alma microcósmica, deoriginais estão constantemente conduzindo o fragmentos de lembranças de nosso longo ca­Todo para que se cumpra o pensamento divi­ minho errante que dura milhões de anos.no que flui infinitamente em toda a extensãoda criação. OS DOIS QUE SE TORNAM UM O ser huma­ no tal como o conhecemos não passa de umaFRAGMENTOS DE LEMBRANÇAS Vamos agora sombra do homem original. No entanto, atentar imaginar como tudo isso se conecta. O imagem do ser superior permaneceu escondi­Espírito Sétuplo e a criação formam uma uni­ da no interior do microcosmo: dentro de nós,dade. Não importa qual seja a distância que em nossa personalidade humana. Essa imagemsepara a criatura microcósmica da ideia ori­ está ligada ao nosso coração, à própria fonteginal do Espírito universal, as sete correntes de nossa vida.originais a conduzirão até o ponto de partida. Assim, observamos dois centros que estãoAssim como a Terra faz parte do cosmo sé­ ligados entre si: o vestígio do homem origi­tuplo, o microcosmo é um sistema sétuplo de nal e sua imagem, no centro do microcosmo.sete esferas que giram umas dentro das outras. Os dois acabam se unindo a fim de constituirO princípio central também é sétuplo. São as um só núcleo deslumbrante de vida original.8 pentagrama 5/2011

refletem, como jorrando de uma fonte, desper­ tados pelos sete raios do Espírito Sétuplo. Essas sete vibrações ressoam nos sete campos de vida do microcosmo. É então que se inicia uma total transformação do microcosmo, se­ gundo o modelo, a imagem original divina. A linguagem simbólica da Rosa-Cruz refere­ -se a esse fato como o florescer do sétuplo átomo divino. A personalidade, o ser que se consagra a esse processo, empreende uma profunda transfor­ mação chamada “transfiguração”. Ela se trans- forma completamente, totalmente. Jubilante pelo desenvolvimento do microcosmo sétuplo, ela se torna cada vez mais livre e consciente, e se eleva na vida original.A partir da confluência dessas duas correntes A Rosacruz Áurea parte dos seguintes princípios:forma-se uma única onda, clara e pura, na • existe um ser exterior, um ser humano feitoqual ressurge o diamante do ser interior, queesteve durante tanto tempo recoberto de ma­ de matéria terrestre;téria terrestre. A corrente purificadora expulsa • e existe um ser interior, que é a alma trans­todas as impurezas, e então a Luz alcança apérola. A jóia maravilhosa começa a cintilar. parente do microcosmo.Os gnósticos do passado falavam de uma péro­ O interior está oculto no exterior. O ser in­la muito valiosa. Os rosa-cruzes evocam o terior tem a possibilidade de renascer no ser“tesouro da jóia maravilhosa”. E cada um de exterior como se ele realmente despertasse.nós é potencialmente um portador dessa jóia Eis o objetivo de nossa existência.maravilhosa! Por mais oculto que o tesouro esteja, mesmoQuais são as características dos que possuem assim a pérola continua dentro de nós!esse tesouro, dos que apreciam com todo amor O ser interior e o ser exterior estão inexo­o conhecimento interior? Eles trazem uma ravelmente ligados. Mas é preciso que elesassinatura, o símbolo interior de uma predes­ caminhem juntos, conscientemente. Isso setinação. Eles são chamados. torna possível quando o ser exterior faz do ser interior um templo onde a Luz da GnosisPor que a Rosa-Cruz fala dessa jóia como de pode agir. Uma grande riqueza, um tesou­um tesouro muito valioso? ro feito de desejo e conhecimento anima osPorque quando esse tesouro se liberta de seu dois seres.envoltório material e seu maravilhoso brilho se Na Escola Espiritual, as pessoas conscientesrevela, sete raios de luz resplandecentes aí se sabem que estão protegidas na Casa Sancti Spiritus, a casa onde, um dia, o Espírito libertador as curou. Essas pessoas abriram um caminho até essa casa, com o auxílio da Luz sétupla, e, assim, chegaram à própria essência interior do campo de vida original. O exte­ rior perdeu-se no ser interior, e o renasci­ mento absoluto se tornou um fato µ a rosa no deserto 9

maria madalena e a luzÉ fato que, em nossos dias, Maria Madalena encontra-se novamente em cena, e semdúvida ligada ao vir-a-ser da consciência do pesquisador. Sua imagem como esposa– às vezes amada – de Jesus leva a uma dupla relação: a de instrutor-aluno e a deafeição recíproca e de um amor superior pelo aspirante ou vice-versa. Se bem quea literatura somente relate a eventual aventura, exterior e material, entre MariaMadalena e Jesus, o leitor atento percebe instantaneamente a linguagem e as imagenssimbólicas assim como seu profundo significado.Maria Madalena, assim como Jesus, nos completude, a união das polaridades. indica a noção de alma. Ela representa Maria Madalena é o símbolo da alma que a alma sedenta que aspira com toda sua percorre o caminho. Ela encontra o Salvador, pureza e ardor; o outro – Jesus – representa segue seu caminho e apóia-se nele. Tal é a a alma da origem, a alma que pertence a um meta final do ser humano: as núpcias sagradas. mundo inviolado, incorruptível. A figura de Maria Madalena surgiu da tradição Qual é, portanto, para nosso tempo, a mensa- cristã, enquanto o Islã conhece, entre outros, o gem dessa figura fascinante, Maria Madalena? amor de Majnun por Laila. Numerosos mes­ Trata-se da relação de Maria Madalena com tres sufis viveram esse amor como caminho Jesus. Suas núpcias foram celebradas verda­ interior. No judaísmo, o Cântico de Salomão deiramente? Uma citação dos atos de João nos inicia-se com estas palavras: “Que ele me beije esclarece. Todo homem pode celebrar núpcias com os beijos de sua boca; pois seu amor é muito especiais. Nas diferentes religiões, os mais suave do que o vinho” (Cântico dos Cân­ mistérios fazem referência às “núpcias sagra­ ticos 1,2). A Cabala (a mística judaica) conhece das”. É a união interior da alma, a noiva, com os segredos das núpcias santas. As emanações o divino outro, o amado divino. Em nossos divinas vertem da árvore dos Sefirotes. E elas dias, essa sabedoria dos mistérios nos confun­ se incorporam no ser humano que preparou a de, incitando-nos a dar um novo passo no de­ alma como uma noiva. Elas são “o amor mais senvolvimento da consciência. No Evangelho suave que o vinho”. gnóstico segundo Filipe – Evangelho desco­ berto em Nag Hammadi – lemos o seguinte: Esse conceito está onipresente no pensamento “Grande é o mistério das núpcias, pois sem gnóstico. Gnosis significa compreensão no sen­ núpcias sagradas o mundo não poderia existir. tido de um vir-a-ser superior da consciência. A manutenção do mundo repousa sobre o ho­ Nossa verdadeira identidade revela-se graças mem. A manutenção do homem repousa sobre ao flamejar de uma luz interior que nos abre as núpcias sagradas. Aprendei todavia o que caminho para a imagem original divina. O significa uma pura e santa comunidade, pois Evangelho segundo Filipe diz ainda “O senhor grande é sua força”. amou Maria Madalena mais do que todos os Segundo Filipe, a câmara de núpcias é uma discípulos e a beijava com frequência na boca”. metáfora que designa a unificação, em cada homem e em cada mulher, do espírito divino Chegada de Maria Madalena a Marselha, (aspecto masculino) com a alma humana (as­ imagem criada a partir de um manuscri­ pecto feminino). A relação de Jesus com Maria to de 1476, Bruges, Bélgica, que conta a Madalena simboliza essa ligação. Disso nasce a história de Maria Madalena na Provença, França10 pentagrama 5/2011

SÍMBOLOS E VISõES DE LONGO ALCANCE maria madalena e a luz 11

Jesus dizia que Maria Madalena, tal como uma “vidente”, percebia a Luz.Maria Madalena era uma grande Por detrás da imagem de Maria Madalena ageiniciada porque o ser divino o arquétipo da alma humana. O aspecto fe­havia nascido nela minino corruptível é transformado em aspec­ to feminino eterno. Esse desenvolvimento se completa no ser interior. “Sede vigilantes para que ninguém vos engane com as palavras ‘vede aqui ou vede acolá’, pois o filho do Homem está no mais recôndito de vós. Segui-o!”, indica o Evangelho segundo Maria. Maria Madalena era uma grande iniciada por­ que o ser divino havia nascido nela. No Diá­ logo do Salvador, um escrito cristão dos pri­ meiros séculos encontrado em Nag Hammadi, ela exprime-se como uma mulher que conhece tudo. Ela estabeleceu a relação entre o cosmo e o início de um caminho libertador. Maria disse: “Assim, é para a corrupção de cada dia” e “o trabalhador que merece seu alimento” e ainda “Que o discípulo assemelhe-se ao seu mestre”. Essas palavras, ela as pronuncia como uma mulher que conhece o Todo. Os discípu­ los lhe perguntam: “O que é o Pleroma e qual é a diferença?” Ela lhes responde “Vós saístes do Pleroma e permaneceis no lugar da defi­ ciência. E eis que Sua Luz expandiu-se sobre mim”. (…) Judas diz: “Dize-me, Senhor, qual é o começo do caminho?” Ele responde: “Amor e bondade. Se um desses dois tivesse existido nos Arcontes, nenhuma corrupção jamais teria acontecido.” µ12 pentagrama 5/2011

maria madalena,a alma do mundo no homemO cristianismo gnóstico revela uma coesão cósmica. Não há nada de espantosoa esse respeito, pois o conhecimento de uma estrutura divina da natureza queenglobou e interpenetrou nosso mundo pertence a uma inteligência mais profundada alma. Qual é, portanto, nossa relação com o mundo ideal, o mundo da causacriadora?Tornou-se evidente e claro que existem “queda” se produziu no mundo criado e efe­ para o homem duas esferas de vida dife­ tuou-se uma separação com o mundo original. rentes e caminhos que as religam entre Nós sentimos os efeitos com nossa consciênciasi. Podemos procurar nos Evangelhos – e nos separada do divino.escritos gnósticos originais descobertos no AltoEgito – uma força vivente, uma ponte entre os O EVANGELHO SEGUNDO MARIA Se falarmosdois mundos. Mas, séculos antes do apareci­ agora de Maria, evocaremos então o cami­mento de Cristo, grandes visionários, fundado­ nho de uma alma que retorna à pura naturezares de religiões e filósofos perceberam como se original. Essa alma percebe que nosso mundo eformou “a partir do alto” o plano dessa ponte. nosso estado já não estão em harmonia com aDesde sempre existiu a missão de levar “a partir criação divina. Ela começa, então, a procurar ade baixo”, a construção dessa ponte. origem da vida e uma ajuda lhe é dada. Maria Madalena encontra o caminho da purificação,A ALMA DO MUNDO Em sua obra Timeu Platão da catarse e da mudança, o caminho do re­denomina “alma do mundo” as energias de torno. Ela é, por assim dizer, o protótipo decoesão entre os dois mundos. Platão diz que todos os que procuram o caminho. Ela é umao Criador do Todo queria que a criação fosse alma cujo triplo princípio original despertou oigual a ele tanto quanto possível. “Ele colocou coração para a luz, o amor e a vida. Esse prin­a razão na alma e a alma num corpo para cons­ cípio é conhecido, no puro cristianismo, comotruir o universo, de forma a realizar uma obra a tríplice fórmula do fogo: Pai, Filho e Espíritoque foi por natureza a mais bela e a melhor Santo.possível. Foi dessa maneira que nasceu o corpodo mundo como um ser vivente. Todavia, ele Em nossa época se apresenta a questão: qual éplantou a alma em seu meio e a manifestou esse elemento feminino? Onde está esse prin­não somente sobre o universo inteiro, mas para cípio feminino? No processo de mudança?revestir os corpos do mundo também do exte­ Em uma nova criação do homem? Em nossosrior.” E ele continua dizendo que “a alma do dias, a mãe da vida aparece, por assim dizermundo não é somente uma parte do corpo do por “detrás de um véu”. Em 1945 foi desco­mundo, mas também da razão e da harmonia berto em Nag Hammadi, no Alto Egito, umdo mundo do pensamento puro e do ser verdadeiro tesouro de escritos gnósticos.eterno”. No Evangelho segundo Filipe, o EspíritoA alma do mundo é, portanto, a ligação. Ela é Santo é a Mãe, o campo energético que en­constituída pelos seres que devem nela preen­ gendra: ele é bem ativo no plano da naturezacher uma tarefa de grande interesse, pois uma divina assim como em nosso mundo. maria madalena, a alma do mundo no homem 13

tempos atuais. Trata-se de Maria Madalena, a alma que se abriu ao Espírito por uma reversão interior. “No mundo, eu fui liberta do mundo e eu fui libertada até obter a imagem de uma ordem superior; porque as correntes do esqueci­ mento têm uma existência limitada...”, é dito em um dos versículos do Evangelho segundo Maria. Os gnósticos vêem em Maria Madalena uma alta iniciada nos mistérios da Luz. Na tradição da Igreja ela é, a princípio, a pecadora de quem Jesus expulsou os “sete espíritos malévolos”.Maria Madalena, de Carlo Scrivelli, detalhe do Nos escritos gnósticos – jamais integrados nopainel direito do retábulo de Santa Lucia Montefi­ corpus do Novo Testamento – assim como noore dell’ Aso, Itália (por volta de 1485) Evangelho de João, Maria Madalena aparece como uma alma corajosa e ardente que seEle manifesta-se em nossa consciência como eleva acima do mundo da ilusão para o solenergia original, éter santo ou sopro (respi­ espiritual, tal como uma flor de lótus que,ração) da alma vivente. Não tornou-se ago­ abrindo caminho através do lodo, se expandera evidente que ao lado do pai e do filho, à luz do sol. Maria Madalena é a alma quenós descobrimos também a mãe? Partamos se desvia desta natureza e se dirige para odo princípio de que a força regeneradora, o mistério interior da vida eterna reencontradasopro vivente no universo é a mãe da vida. no Redentor. Sobre seu caminho de rendi­Essa mãe engendrou numerosos filhos em ção ao Espírito, ela torna-se uma iniciadatodas as culturas humanas. Pensemos somente nos mistérios da Luz. Seus companheiros, osna Ísis dos egípcios ou na Sofia dos gregos. apóstolos, a têm em alta estima e a chamam de “a mulher que conhece o Todo”. MariaUma dessas filhas está estreitamente ligada ao Madalena é também a mulher “de quem setecristianismo espiritual, à gnosis cristã e a nossos demônios foram expulsos” – metáfora ex­ plícita de iniciação sétupla, através da qual a alma humana é reintegrada na glória do pleroma. A luz quebrou os sete selos; as sete novas luzes acendem-se em sete fases. “O Evangelho de Maria” é um texto profun­ damente esotérico. Seu ponto central consiste em uma revelação de Jesus na alma de Maria Madalena, que pode assim elevar-se ao lon­ go das esferas celestes – revelações acessíveis apenas aos iniciados ou aos que se esforçam para alcançar esse estado. Com as seis primeiras páginas em falta, o texto continua com um diá­ logo entre Jesus ressuscitado e seus discípulos. Após sua ressurreição, os discípulos se afligem, mas Maria os consola, contando-lhes sua visão.14 pentagrama 5/2011

Temos alguma consciência de que nosso mundo materialexiste em uma realidade corrompida porque somos, nósmesmos, seres fatigados, imperfeitosCONHECIMENTO INTUITIVO DA ALMA tem ouvidos para ouvir, ouça’. Pedro disse-lhe:No evangelho Pistis Sophia, Jesus lhe diz: “Maria ‘Tu nos esclareces todas as coisas. Dize-nos tam­Madalena, ó abençoada, tu herdarás todo o reino bém mais isto: qual é o pecado do mundo?’ Oda Luz”. Maria Madalena tornou-se um “raio de Redentor disse: ‘Não existe pecado; vós, porém,luz da alma do mundo”, que se dirige aos ho- cometeis o pecado quando realizais ações que semens extraviados e os acolhe para que percorram assemelham ao pecado. Por esse motivo o Bemo caminho do retorno. As fases de seu caminho surgiu entre vós para reconduzir a alma de cadase fazem sentir na memória coletiva da huma­ ser a seu estado original. Por essa razão nasceis enidade. Seu “raio de luz” penetra nosso mundo, por essa razão morreis. [...] Sede vigilantes paraonde o ego humano gerou um frio glacial devi­ que ninguém vos engane com as palavras “vededo a seus experimentos, cálculos e especulações, aqui” ou “vede acolá” pois o Filho do Homemsua ciência sobre a matéria e seus tecnocratas. está no mais recôndito de vós. Segui-o!’”O “raio de luz” de Maria Madalena alivia epacifica. Reforçado e atualizado por todos os que Como homens modernos, sabemos que a matériapercorrem o mesmo caminho, ele penetra o que é energia, vibração. Mas, porque somos seres fati­é anormal e doentio em nossa sociedade. Ele pro­ gados, imperfeitos, temos consciência de que nossojeta a luz de seu “conhecimento do Todo” sobre mundo material existe em uma realidade corrom­todos os aspectos mortais da alma que se mani­ pida. Essa realidade inflamou-se em uma vontadefestam em nossa época e toca os homens que se bipolar que se separou do Espírito. O que caracte­aproximam e podem ouvir no silêncio. Esse raio riza o mundo material, nosso mundo, é a perda dede luz é semelhante a um chamado: “Voltai para um centro. A voluntariosidade – a vontade pessoalo interior! O coração do Todo, a centelha divina, que renegou a unidade com o Espírito – reina empalpita em vosso próprio coração!” todas as frentes. Nossa natureza afastada do Espí­ rito acomoda-se assim ao sofrimento e ao acaso.Algumas passagens do Evangelho de Maria Numerosos são, portanto, os homens que(Maria Madalena) ilustram esse conhecimento desejariam novamente colocar o Espírito nointuitivo da alma: “... A matéria será redimida centro de sua vida. Eles romperam o passadoou não?” Assim começa o primeiro fragmento. de séculos de cristianismo dogmático e de ári­“O Redentor disse: ‘Toda a natureza, tudo que da formação intelectual. Falta-lhes, todavia, afoi gerado e todas as criaturas existem umas nas força da alma vivente, o sopro da mãe de todaoutras e umas pelas outras. Contudo, elas serão a vida que emana do coração.novamente desagregadas até o seu próprio estadoprimordial, pois a matéria composta só pode UNIDADE DE AÇÃO Quem deseja encontrar odecompor-se em seus próprios elementos. Quem centro terá de se libertar do mundo da volun­ maria madalena, a alma do mundo no homem 15

Mosaico: “O despertar da alma do mundo”tariosidade que gira ao redor da própria falta que se referem à expulsão dos demônios e àde sentido. Ele dará um sentido à sua vida, transposição dos sete pecados capitais, são umaligando-se ao centro. Essa é também uma das metáfora do sétuplo estado de queda da huma­razões pelas quais a divina alma do mundo, nidade, que se exprime pela qualidade de seuno ponto mais profundo do nosso ser, sur­ sangue, ou seja, sua consciência natural. Mariage como o único Bem. Ela nos oferece uma Madalena representa aqui o homem que com­nova ligação e novos benefícios, a fim de que preendeu a que ponto sua alma está aprisionadapossamos nos decidir pela grande luta entre a e que deseja sua libertação. Compreendemosluz e as trevas. Abandonamos, então, a vida também o motivo pelo qual Maria Madalena,fragmentária. Em todas as coisas procura­ diferente de Marta, mais voltada às coisas prá­mos a unidade de ação. Voltamos para nosso ticas, escolheu a boa parte: permanecer aos péscentro perdido, para o sopro da mãe de toda a do senhor (Lucas 10:38-42). Tocada pela luz davida, o Espírito Santo no coração, o centro do inteligência, Maria ouve, em plena rendição doTodo de onde a alma poderá um dia rece­ eu, a sabedoria eterna, a gnosis. É devido a talber a Luz libertadora. Esse é o alvo de uma oferenda de si mesma, provinda do silêncio ereversão para a qual Maria Madalena chama da simplicidade do coração, que o Redentor aos homens; pois ela vivenciou o caminho, ama, que a ama mais do que aos outros discí­percorrendo-o. pulos, como relata o Evangelho segundo Filipe. Jesus quis dizer com isso que a rendição daPartindo daí, voltamos nossa atenção para os alma ao Espírito é o único necessário para suaacontecimentos descritos nos Evangelhos que libertação.se referem a Maria Madalena. Vimos que as O Evangelho de João (12:1-8) relata que Mariapassagens de Lucas (8:2) e de Marcos (16:9), Madalena untou os pés do Redentor com um16 pentagrama 5/2011

Sentimos essa magnífica linguagem simbólica como umclarão do mistério da alma-espírito, como um acontecimentodesenrolando-se em um nível superior da vidaperfume de nardo muito caro e que ela os enxu­ interior. Contrariamente aos dois discípulos quegou com seus cabelos. A metáfora é aqui par­ estavam alguns instantes mais cedo, junto aoticularmente explícita. É uma imagem da alma túmulo vazio, Maria Madalena percebe a pre­que se torna consciente do profundo significado sença de dois anjos, de dois guardiães. Comoda oferenda crística. Por sua compreensão, ela alma que retorna, ela sente os primeiros efeitosresponde à oferenda do amor divino com um diretos de energia divina já ativa nela. Mas, eladom perfeito. Mais adiante, vemos que o Re­ não pode ainda compreender o ressuscitado,dentor tornou a fazer esse ato ritual de Maria nem percebê-lo, nem contemplá-lo, pois logoMadalena. No decorrer da refeição da tarde (ou que Maria se vira, ela vê Jesus, mas não o reco­noite) Jesus lava os pés dos discípulos (João 13:1­ nhece. Os olhos de sua alma ainda estão inca­15). Trata-se do ato, do mais alto ponto simbóli­ pazes de ver com suficiente clareza na radianteco que exprime a nova ligação do amor, unindo luz do Espírito. Jesus vem em seu auxílio e diz:Deus ao homem. “Permanecei em meu amor. “Maria!” Ela vira-se novamente. Tudo que ain­Se guardardes os meus mandamentos, permane­ da pertence a este mundo afasta-se dela. Mariacereis no meu amor, assim como eu guardei os Madalena entrega-se inteiramente ao mundo domandamentos de meu Pai e permaneço no seu Espírito. Elevando-se assim no reconhecimentoamor.” (João 15:9-10) divino, ela contempla o ressuscitado e exclama:Maria Madalena que, profundamente cons­ Rabboni!, que quer dizer mestre.ciente, executa seu ato inspirada pela alma, Sentimos essa magnífica linguagem simbólicatorna-se então, o modelo da alma servidora como um clarão do mistério da alma-espírito,do Espírito. O ritual de Jesus e o seu formam, como um acontecimento desenrolando-se emos dois, o sinal intemporal da ligação do amor um nível superior da vida que, em sua belezacósmico e da prestabilidade entre o reino do e simplicidade, dificilmente pode ser traduzi­Espírito e a humanidade decaída. Essa prestabi­ do em palavras. Aqui vem a imposição “Nãolidade torna-se autêntica em toda alma aspiran­ me toques!”, palavras que o ressuscitado dirigete: o testemunho simbólico de uma experiência a Maria Madalena, para fazê-la compreenderpessoal interior. que a unificação final ainda não pode ser feita.Chegamos agora ao profundo significado dos Mas a alegria que Maria sente é sem limite.acontecimentos no decorrer dos quais Maria Ela se apressa até aos discípulos para que elesMadalena está diante do túmulo vazio de seu partilhem de sua felicidade. É o coração quemestre bem-amado (João 20:11-17). Ela olha transmite o inacreditável para a razão: o senhorpara o túmulo – a mais clara representação que ressuscitou verdadeiramente! µpodemos dar de uma iniciação aos mistérios davida! Ela está inteiramente transformada em seu maria madalena, a alma do mundo no homem 17

revesti-vos donovo homemA sequência do Evangelho segundo Maria, também conhecido como Evangelho segundoMaria Madalena, de Nag Hammadi, descreve como o “ressuscitado” aparece aos dozediscípulos para transmitir-lhes suas últimas recomendações. Embora devamos interpretá­-las interiormente de maneira alegórica, vemos como elas se referem ao sopro da rege­neração, a qual, em tempos próximos, confirmará ao buscador o valor interno da forçacrística.“Não deis outro mandamento além o intelecto poderia dar testemunho do Espí­ daquele acerca do qual eu vos rito? É impossível. Ele pode apenas parodiar, instruí. E também não ordeneis falsificar. Somente um saber novo, a intuiçãoleis como o fazem os legisladores, para que de uma alma pura, uma concepção repleta denão sejais apanhados por elas”. Mal dissera fé que vem do coração pode aplicar os antigosaquilo e já se tinha ido. Os discípulos se en­ ensinamentos. A consciência da nova alma,tristeceram, lamentando-se e dizendo: “De­ Maria, elimina o medo e a dúvida a fim devemos agora dirigir-nos aos pagãos e pregar tudo realizar com a Luz. E essa união radicalo Evangelho do Reino do Filho do Homem? da cabeça e do coração realiza-se diretamenteEle não foi poupado; como seríamos nós pou­ e sem reserva pela palavra que vive, age e dápados?” Então, Maria se levantou, saudou a testemunho do Espírito.todos e disse a seus irmãos: “Não choreis, não Pedro disse a Maria: “Irmã, sabemos que ovos entristeçais e não duvideis, pois Sua graça Redentor amava mais a ti do que às outrasestará convosco e vos protegerá. Ao contrá­ mulheres. Dize-nos, pois, as palavras do Re­rio: louvemos a Sua majestade, pois Ele nos dentor das quais te lembras e que bem com­preparou e nos fez Homens”. Com estas pala­ preendeste, mas nós não; dize-nos, também, ovras, Maria voltou seu coração ao Bem e eles que Ele disse e não ouvimos”.começaram a falar uns com os outros sobre as Maria respondeu e disse: “O que está ocultopalavras do Redentor. para vós, vou transmitir-vos”. E ela come­Quem busca apoio no Espírito dele recebe çou a dizer-lhes as seguintes palavras: “Eu”,suas diretrizes e seus conselhos. No momento disse ela, “vi o Senhor numa visão e disseem que se deixa levar pelo curso habitual das a Ele: ‘Senhor, hoje Te vi numa visão’. Elecoisas perde sua fé e seu eu intelectual o faz respondeu dizendo-me: ‘Abençoada és tu,duvidar: “Não posso fazer aquilo! A Gnosis é porque não vacilaste ao contemplar-me.incompreensível! Não quero em caso algum Porque onde está a razão purificada, aí estápassar por idiota!” o tesouro.’ Eu disse a Ele: ‘Senhor, alguémEssa posição é compreensível e natural, que vê uma visão, a vê com a alma ou comporque o homem com tendência intelectual o espírito?’ O Redentor respondeu dizendo:recebe, assim, uma influência inspiradora que ‘Ele não a vê com a alma nem com o espíri­muitas vezes parece incompreensível. En­ to, mas, a razão purificada, que está entre osquanto ele gostaria realmente de observar os dois, vê a visão.’”mandamentos de Cristo, seu intelecto impõeimediatamente regras a fim de ter uma certe­ Segundo J. van Rijckenborgh, fundador eza, ou pelo menos parecer ter uma. Mas como grão-mestre da Escola Espiritual da Rosacruz18 pentagrama 5/2011

Áurea, devemos considerar os doze discípulos Imagemcomo representações dos diversos aspectos da criada a partirconsciência. Quando Maria conta aos discípu­ de manuscritolos uma visão, eles ficam indignados. da corporaçãoOs discípulos querem arrancar o profundo de artesãossegredo de sua alma. Por que “esta mulher” Madalenaé tão apreciada pelo Senhor, enquanto os dis­ (Guildcípulos – que representam a consciência – o Magdalena)são muito menos? É que a alma, Maria Mada- de Bruges, Bélgica, 1476 lena, refere-se a uma experiência espiritual: um reconhecimento imediato, procedente da intuição profunda de sua alma, do rosto eterno do Ser divino. Essa percepção vem da alma ou do espírito? De nenhum dos dois, responde Jesus; ela vem da nova consciência que conhece a si mesma, do verdadeiro ânimo (Noûs), que atua como elo entre a alma e o espírito. revesti-vos do novo homem 19

Nosso coração é uma grande maravilha.Nele permanece um elemento espiritual, um potente princípio de natureza divinaPor sua visão, Maria Madalena quer tam­ te então as linhas de forças desse plano envol­bém transmitir a ideia de que o mistério do verão sua alma de luz. Essa estrutura lumino­autoconhecimento pode ligar a alma com o sa permitirá ao homem superar um “oceano”espírito do homem ressuscitado, num sentido de ignorância e conservar viva sua alma.muito diferente do que se pode compreender A seguir, um fragmento do Evangelho deno mundo dos homens. Ela é, por conseguin­ Maria Madalena, em que a alma, sustentadate, a manifestação “da mulher que conhece o por sua nova veste-de-luz, lança-se e atraves­Todo”; para os discípulos ela é a alma ilumi­ sa, triunfante, as esferas da humanidade de­nada que reconhece o divino. É por isso que caída. “E a cobiça disse [à alma]: ‘Não te vio texto diz: tal experiência não é atribuída a descer. No entanto, agora vejo-te elevar-te.alguns eleitos. É antes um dom da graça para Por que mentes? Tu me pertences!’ A almacada coração que se abre à palavra do Espí­ respondeu e disse: ‘Eu bem que te vi, mas turito, para cada um dos que querem perseve­ não me viste. Serviste-me como veste, po­rar até o cumprimento final da união com o rém não me conheceste’. Tendo dito isto, elaEspírito das “núpcias alquímicas”. rejubilou-se e retirou-se. Mas ela retornouIndaguemo-nos uma vez mais: nossa consci­ ao terceiro poder, denominado ignorância.ência se encontra sempre num caos semelhan­ [Esta] desejava sondar a alma: ‘Aonde vais?te ao das raízes subterrâneas? Ela luta para Estás aprisionada no pecado, foste apanhadaobter um lugar em meio aos ramos espinhosos pelo pecado. Portanto, não julgues’. A almadas experiências dolorosas do mundo? Ou disse: ‘Por que me julgas tu se eu não tedesenvolveu-se até as sépalas que envolvem julgo? De fato, fui atingida, mas eu mesmaos botões da flor, o universo da alma ainda não atingi. Não sou conhecida, mas bem quefechado? conheci que o Universo está sujeito à de­Nosso coração é uma grande maravilha. Nele composição, tanto as coisas terrenas como aspermanece um elemento espiritual, um poten­ coisas celestes’.te princípio de natureza divina. O caminho Depois de deixar para trás o terceiro poder, aespiritual consiste em liberar as forças desse alma elevou-se e viu o quarto poder que temátomo original. uma forma sétupla. A primeira é a treva, aO ser humano pode escapar ao dilúvio devas­ segunda é a cobiça, a terceira é a ignorância,tador de suas experiências mentais somente se a quarta é a causadora da morte, a quinta é ofizer de sua alma um arco, se aceitar as forças reino da carne, a sexta é o entendimento ilu­altamente espirituais de sua alma – e não suas sório da carne, a sétima é a ciência da cólera.emoções – e se confiar-se incondicionalmente Estes são os sete companheiros da cólera queàs forças ocultas do plano da criação. Somen­ perguntam à alma: ‘De onde vens, assassina20 pentagrama 5/2011

de homens, e para onde conduz teu caminho, a influência e as forças impulsivas procedentesrainha do espaço?’ A alma respondeu dizen­ da natureza retêm o corpo e a consciência dado: ‘O que me prendia foi morto; o que me natureza, bem como a alma. Mas não é pre­detinha deixei para trás; minha cobiça foi ciso temer, a sua intenção não se realizará! Aaniquilada, e minha ignorância morreu. No nova veste-de-luz garante o regresso ao reinomundo fui libertada do mundo, e fui liber­ da Luz, ao silêncio e à paz da eternidade, es-tada para formação de uma ordem superior. tar neste mundo, provando ao mesmo tempoFui libertada dos grilhões da incapacidade de o estado misterioso da ligação com o “outro”:compreensão, cuja existência é limitada. De durante sua vida aqui embaixo, a alma, Mariaagora em diante, vou alcançar a paz, livre do Madalena, guarda silêncio.curso dos éons. Em silêncio’. Tendo Maria Se os discípulos tivessem tido conhecimentocontado tudo o que o Redentor lhe dissera, da sua visão, alguns teriam reagido com ce­calou-se.” ticismo. Até o último minuto, certos aspec­A veste-de-luz da alma é como uma arca tos da consciência podem incitar à dúvida.que permite escapar ao dilúvio moderno e O último fragmento desse Evangelho mostraàs esferas do mundo da cólera e do mal. A claramente que o intelecto leva à dúvida acompreensão, a reversão e a autorrendição alma que, pela mediação de sua consciên­geram novas forças em nós. Do mesmo modo cia intuitiva, testemunha suas experiências revesti-vos do novo homem 21

espirituais. E para ela as dificuldades prosse­ dominado pelo intelecto, a pureza e a vida daguem. alma? Muitas são as pessoas que, encontran­“Mas, André tomou a palavra e disse aos do-se no nadir de sua travessia do mundo,irmãos: ‘O que pensais do que ela disse? Eu, suspiram pela compreensão, pela Luz, pelopessoalmente, não creio que o Redentor disse renascimento de sua alma! A alma divina dotais palavras, pois sua doutrina, certamente, mundo, Cristo, quer fazer sua morada na hu­tem um outro significado’. manidade. Chegou de fato o tempo para umaTambém Pedro levantou objeções e perguntou colheita cósmica.a seus irmãos quanto à sua opinião sobre o Hoje cada um pode livremente apreender emRedentor: ‘Teria Ele falado com uma mulher seu coração a “âncora” salvadora. As geraçõesem nossa ausência e não publicamente? De­ futuras também escaparão ao dilúvio atual numavemos dirigir-nos a ela e obedecê-la? Tê-la­ arca de construção nova no plano psíquico?-ia Ele privilegiado em relação a nós?’ Maria, J. van Rijckenborgh dá a essa pergunta umaentão, disse a Pedro: ‘Meu irmão Pedro, que resposta animadora nos seus comentáriospensas, pois? Pensas que eu mesma inventei sobre a Confessio Fraternitatis. Ele diz que,tudo isto em meu coração ou que mentiria a durante a futura revolução mundial, a mu­respeito do Redentor?’ lher terá uma sensibilidade específica paraEntão, Levi (Mateus) tomou a palavra e disse receber no coração as vibrações das novasa Pedro: ‘Pedro, sempre foste irascível. Agora radiações cósmicas. Graças à sua resistênciavejo que te exaltas contra esta mulher como tenaz, saberá fornecer um formidável impulsose ela fosse um adversário. Se o Redentor a ao avanço da humanidade. Capaz de grandesconsiderou digna, quem és tu para rejeitá-la? esforços, será capaz de resistir às ilusões doCom certeza o Redentor a conhece perfeita­ intelecto de modo que a humanidade pos­mente. Por esse motivo Ele a amou mais do sa renovar-se com base no coração. Os doisque a nós. Nós, pelo contrário, deveríamos polos, masculino e feminino, estarão, pelaenvergonhar-nos, e deveríamos antes apro­ transformação completa e pela renovação daximar-nos do Homem perfeito, deveríamos alma, aptos a avançar em direção ao objetivotornar-nos como Ele nos ordenou. Deverí­ muito específico do novo período: o verda­amos anunciar o Evangelho sem estabelecer deiro tornar-se humano.outro mandamento ou outra lei além daqueles Na força da “transformação”, é possívelque disse o Redentor’. seguir a via de Maria Madalena. A alma doTendo Levi dito isto, eles prepararam-se para mundo e a respiração regenerativa fixarãoanunciar e pregar.” cada vez mais fortemente os valores de Cris­Podemos ainda perceber, em nosso mundo to no coração µ22 pentagrama 5/2011

ressurreição na veste-de-luzVivemos em um corpo que, se tudo vai bem, nos transmite sensações de alegria ebem-estar. Se esse processo é perturbado, a doença surge. Isso também se verificatambém no nível da alma. Nosso corpo nos transmite a sensação de estarmospresentes no mundo. Por meio dele podemos apresentar-nos, firmar-nos edesenvolver-nos. Ele forma também nossa consciência. Ao dizer “eu”, queremosdizer que nosso corpo nos pertence. Entretanto, sujeito ao tempo, o corpo ésubmetido ao desgaste e termina por desaparecer totalmente.Esse fato, particularmente penoso para a carne é a mesma, mas uma é a carne dos nossa consciência, sempre provoca cri­ homens, outra, a dos animais, e outra a das ses. E quanto a saber se a vida continua peixes, e outra, a das aves. E há corpos ce­ depois da morte, a questão permanece. No lestes e corpos terrestres; mas uma é a glória Evangelho de Mateus, Jesus diz: “Deixai os dos celestes, e outra a dos terrestres” mortos enterrarem seus mortos”. Essa ordem (I Coríntios 15:38-40). não parece estranha, tratando-se de homens Sim, a ressurreição acontece num corpo que habitam corpos viventes? Em seu diálogo celeste, numa “veste-de-luz”. Esse corpo Górgias, Platão declara: “É possível, até, que celeste é vivente. Ele não conhece a morte. estejamos mortos; eu próprio já ouvi certo sá­ Ele está ligado a outro estado de consciência. bio declarar que estamos realmente mortos e Filipe também diz: “É preciso ressurgir nesta temos por sepultura o corpo [...] a porção da carne, já que tudo existe nela”. E ainda: “Nin­ alma dos não iniciados em que se localizam guém será capaz de ir ao rei se estiver nu”. as paixões, justamente por ser incontentável e O caminho que “leva ao rei” é o que con­ nada reter, comparou a um tonel furado, que duz ao domínio da vida divina, a uma etapa por isso mesmo nunca se satisfaz”. real. Não podemos aproximar-nos “não E no Evangelho de Filipe, lemos: “O pagão vestidos”, ou seja, sem nosso corpo. Por que não morre, pois ele nunca viveu para que a necessidade de possuir um corpo se impõe possa morrer”. aqui? As escrituras não dizem que Deus é Sem dúvida existem outras sentenças que Espírito puro? nossas próprias experiências poderiam con­ firmar. Os sentimentos de que em realidade A CONSCIÊNCIA DO HOMEM CELESTE habitamos corpos fadados à morte não nos Essa questão evoca o mistério da criação. são desconhecidos, como por exemplo, de Os escritos místicos e gnósticos nos reve­ que a morte está presente em nós desde o lam que o Espírito universal se torna cons­ instante em que nascemos, e que nossa vida ciente de sua própria plenitude por meio de não seria a vida verdadeira. suas criaturas. Para elas, inicia-se o proces­ so gradual de evolução. Essa evolução da CORPOS TERRESTRES E CORPOS CELESTES consciência do Espírito universal é acom­ O corpo em que Jesus ressuscitou é um panhada de uma transformação em direção corpo totalmente diferente. Na Epístola aos à divindade original, que permanece imu­ Coríntios, Paulo diz: “Mas Deus lhe dá cor­ tável. Cada nível de consciência emana de po como lhe aprouve dar e a cada uma das uma estrutura do ser que é o ref lexo de seu sementes, o seu corpo apropriado. Nem toda aspecto espiritual. ressurreição na veste-de-luz 23

O Evangelho de Filipe convida à formação de um corpo celesteO Evangelho de Filipe convida à formação particularidade do cristianismo gnóstico: ode um corpo celeste. No estado atual de de­ que importa é a ressurreição.senvolvimento da humanidade, somente nos O Evangelho de Filipe afirma a necessidadesentimos chamados quando reconhecemos de “revestirmos o homem vivente” e aneste mundo a garra da morte sobre todos os Epístola de Paulo aos Efésios afirma porseres vivos, quando percebemos que o verme sua vez “... e vos revistais do novo homem,rói o fruto desde o interior e provamos os criado segundo Deus”.profundos abismos do medo. Aqui é feita referência a uma possibilidade“Há um renascimento e uma imagem do real. Podemos tornar esse acontecimentorenascimento”, diz o Evangelho de Filipe. possível. Ainda que esse projeto nos pareçaComo seres mortais somos reflexos do imor­ utópico ou herético, ele nos lembra de que,tal. “Certamente é necessário nascer outra assim como somos capazes de nos prender avez por meio da imagem. Mas o que é o um projeto deste mundo, assim também nosrenascimento e qual é sua imagem?” Trata-se é possível trabalhar em nós mesmos. Pode­aqui de uma relação entre nosso estado de ser mos mudar nosso comportamento. Mas ee o estado ao qual somos chamados. Certos nossa ressurreição? Não se trata de sermosescritos qualificam o homem como “portador muito presunçosos? Essa empreitada não éde imagem”. Ora, no Evangelho de Tomé algo “proibido”? Os escritos gnósticos e otrata-se de gêmeos. Ele nos incumbe, portan­ Novo Testamento evocam esse caminho comto, de tornar possível a ressurreição do outro, sobriedade. Eles encorajam a uma consciênciao original, de quem somos a vaga imagem. E que já não se identifique com o corpo co­podemos fazê-lo porque, em nossa qualidade mum, mas que se volte às forças dimanantesde imagem, temos certa conformidade com o do mais interior do corpo.outro, nosso gêmeo espiritual. No Tratado da Ressurreição (a Carta a Regi­Assim, nossa estrutura é o meio pelo qual o nus), que faz parte dos textos de Nag Ham­original, o outro em nós, pode encontrar o madi, lemos que: “Não convém a ninguémcaminho de seu desenvolvimento. Essa é a duvidar do fato de que a morte não concerne24 pentagrama 5/2011

tivas dos Evangelhos testemunham desse processo de modo f igurado. Jesus deixa sua forma mortal para tomar a forma de um corpo novo ressuscitado. O túmulo (o corpo terrestre) estava vazio, o que quer dizer que a forma da alma-espírito foi enfim liberta. Então, é evidente que, quando o corpo mor­ tal morre, um corpo espiritual deve ter sido desenvolvido. Se esse não fosse o caso, acre­ ditaríamos – como o mundo o faz há sécu­ los – que o corpo morto de Jesus de repente se levantaria! Mas lemos no Evangelho de Filipe: “Os que dizem que o Senhor morreu primeiro e se levantou estão enganados [...] Se alguém não alcança primeiro a ressurrei­ ção, ele não poderá morrer”.senão à forma visível que não se conserva, e Os discípulos não puderam perceber Jesusque apenas a forma vivente que se encontra em sua forma celeste. Apenas Maria Madale­nela ressuscitará. Que é então a ressurreição? na o viu. A antiga corporeidade, a imagem,É sempre a manifestação daquele que ressus­ não pode perceber o que adentra os limitescita”. de seus sentidos limitados. Os discípulosSegundo essas palavras, a forma imortal está de Jesus seguiam, entretanto, seu caminho.escondida em nós. Trata-se de oferecer-lhe Fiéis, eles se concentravam em sua própriaa possibilidade de manifestar-se, de tornar­ transformação interior. Entre erros e incer­-se visível. É o caminho que Jesus percorreu tezas, eles só poderiam perceber o ressus­ao desenvolver a forma vivente escondida citado quando seu corpo espiritual tivesseem seu corpo mortal, até que ela atingiu alcançado certo desenvolvimento e um novosua verdadeira grandeza. Ele a harmonizou sensorium – percepção dos órgãos sensoriais –com o Espírito divino religado à alma, que fosse desenvolvido.chamamos, por essa razão, alma-espírito. Palavras como “Tendes olhos, mas não ve­Os maravilhosos milagres e outros narra­ des” não se dirigem aos discípulos do tempo ressurreição na veste-de-luz 25

da ressurreição de Jesus. O Evangelho de trouxe consigo o pão do céu para que o ho­Filipe afirma: “Ninguém pode ver algo das mem se nutrisse de um alimento de homem”.coisas imperecíveis, a menos que se torne “Nem a carne (nem o sangue) herdarão ocomo elas. Não é assim que se passa com o reino (de Deus). O que é que não se herdará?homem no mundo: ele vê o sol sem ser o Aquilo que usamos. Mas então o que se her­sol; vê o céu, a terra e todas as outras coi­ dará? O que pertence a Jesus e a seu sangue.sas, mas ele não é essas coisas. Mas no reino Por isso ele disse: ‘Quem não come a minhada verdade, vês algo dela. Viste algo deste carne e não bebe o meu sangue não tem vidareino, e te tornas semelhante a ele. Viste o em si’.” Que significam essas palavras?Espírito e te tornaste Espírito. Viste o Cristo Sua carne é o Verbo, e seu sangue, o Es­e te tornaste Cristo. Viste o Pai e te tornaste pírito Santo. Os que os recebem comem, eo Pai. Assim, vês todas as coisas e não a ti bebem, e são “revestidos”.próprio, mas, no outro mundo, realmente vês A nutrição e a bebida de que se trata aquia ti mesmo, e te tornarás o que vires”. nos dão a possibilidade de ser “vestidos”.Com a consciência do antigo corpo, ne­ Esse conceito de vestimenta refere-se aogamos, com razão, a ressurreição que nos­ corpo celeste. O corpo celeste, embora estejasos órgãos dos sentidos não são capazes de presente no centro de nosso sistema corporal,compreender. A ressurreição é um despertar. está como morto: é a “imagem de olhosO Evangelho de Filipe foi originalmente mortos”. Ele quer despertar no amor, masredigido em grego, e o termo grego para seu crescimento deve ser estimulado. É umressurreição é anastasis, que significa também fenômeno relacionado ao mistério da criação“despertar”. Nesse sentido, um despertar original. Ao longo das muitas fases de seutambém abrange fases de crescimento. crescimento, perceber em si mesmo – em seu próprio reino interior – o outro divino,MORRER NO IMORTAL A nova estrutura da afirma-se até a absoluta consciência de seualma-espírito está presente em nosso sistema significado. O triunfo sobre a natureza dade vida como a semente de uma árvore sun­ morte abrange a compreensão da vida e datuosa. Para crescer, ela necessita de alimento consciência de nosso valor como alma­e, sendo “terrestres”, devemos alcançar um -espírito. O homem efêmero – nós mesmos –estado em que esse crescimento se torne morre no caminho que leva ao novo homem.possível. Esse acontecimento cotidiano é uma certeza“Antes o homem se nutria como o animal. firmemente estabelecida, um solo firme. EleMas quando Cristo, o homem perfeito, veio, conquista o espaço que nos é concedido.26 pentagrama 5/2011

A vida de Jesus é o símbolo luminoso do caminho que elegravou no campo atmosférico de informaçãoMas o homem celeste é o “grande pássaro atmosférico de informação. Inúmeros seresdentre cujas asas repousamos”. A cada etapa humanos que o seguiram tornaram essade seu caminhar, ele se reflete em nós. informação mais poderosa. Ela encerraRecebemos um clarão de sua força. Com ele todos os processos de transformação doe sua sabedoria, vinda do processo interior, corpo humano bem como todas as fases doatravessamos a vida no mundo, sejam quais desenvolvimento do corpo da ressurreição.forem as circunstâncias. Como assimilamos Tudo isso pode ser evocado como exemplo,o melhor das substâncias que evocam as como modelo. Assim tornou-se possívelpalavras Verbo, Espírito Santo, pão e vinho? para cada um tecer, mediante seus atos, suaQue significam elas para nós? orientação e seu comportamento, a veste deEm princípio, seu sentido já está presente na sua alma original.atmosfera atual da Terra, e esses conceitos Uma comunidade gnóstica que mantém umaguardam que nos harmonizemos com eles campo de luz especial comprova ser uma aju­para que possamos assimilá-los. Eles são com­ da decisiva. Tal campo oferece uma proteçãoparáveis às ondas de rádio, e nós, aos recep­ segura no meio do espectro de energias quetores capazes de operar na justa frequência. nos cercam, onde as forças adversas desempe­O período no qual nos conectamos oferece nham um papel particularmente nefasto.possibilidades particulares. Aquário é um Esse campo estimula a marcha no caminho,dos signos do ar. Assim como no curso dos com perspectivas de sucesso. O candida-períodos precedentes, as energias altamente to pode nele experimentar essa inf luênciaespirituais trabalham na atmosfera. É dito libertadora com um novo ânimo: ele rece­que uma seara está em vias de ser colhida. be a confiança e a concepção espiritual deNo mundo todo, a sabedoria dos mistérios que a ação vai além da simples compreensãopenetra a consciência humana. Os homens intelectual.têm a oportunidade de poder tornar-se o que Essa ampliação do coração permite sobrepu­verdadeiramente são em seu íntimo. jar as oposições e abandonar todas as repre­A vida de Jesus é o símbolo luminoso sentações com as quais ele se identificavado caminho que ele gravou no campo até então. Elas perdem toda a importância; ressurreição na veste-de-luz 27

e ele ousa comportar-se de modo totalmente Chegará o tempo em que a nova construçãonovo. Com coragem, ele pisa um solo inte­ se erguerá, inelutavelmente. A pedra decisiva,rior que se estende progressivamente diante a pedra angular, que sustenta o Todo, vem dode sua consciência. Sua visão coloca-se sob a alto. O outro celeste aparece. No antigo corpo,iluminação direta da Gnosis, que lhe confere o novo já está presente, como um campo de luzsaber interior e certeza. ilimitado, que se expande (ao se concentrar). AA força universal “crucifica-se” no centro do antiga consciência, tão limitada em seu envol­espectro das antigas forças de nossos vários tório mortal, funde-se com a nova consciência.talentos. Nossos esforços para identificar-nos O núcleo de luz utiliza ainda o antigo envoltó­com essa força são como uma crucificação, e rio, que se tornou, corretamente, um veículo.a travessia dessa fase como uma noite obscu­ O véu que escondia há tanto tempo o santuá­ra. Mediante o abandono dos antigos aspectos rio interior se rasga; e o Evangelho de Filipeda vontade, o jogo ardente dos pensamentos faz ressoar seu canto de alegria: “Aqueles quee das ambições desaparece de vista. O espaço transcenderam o mundo são incorruptíveis,parece obscurecer-se. Mas é assim que a fé são eternos” µprogride. E, da noite do antigo estado, surge aluz radiante da nova manhã.28 pentagrama 5/2011

Inúmeros mitos foram-nostransmitidos por civilizaçõesdos períodos mais diversos.Eles revelam concepções daantiga humanidade sobre oaparecimento do mundo,a atividade das forças natu­rais, os deuses e sobre nossodestino após a morte.a história dacriaçãoO último artigo sobre a Edda (Pentagrama 3,2011) nos mostrou que, no decorrer da longaevolução do ser humano na Terra, a descoberta davontade própria pelo jovem “ego” foi uma expe­riência ao mesmo tempo fascinante e angustiante.Ao perceber sua missão, a responsabilidade e osperigos do caminho, isso causou-lhe profundaapreensão. Odin sempre estava à sua frente, àsvezes como guia resplandecente de fulgor, às vezescomo um ser sedento de sangue e muito assus­tador. O homem reconhecia a própria divindade,mas recuava, cheio de medo, diante desse grandepoder. Por isso, tornou-se um guerreiro: destemi­do em combate, aprendeu a sacrificar-se a serviçode algo maior. Primeiro pelo lar, depois pela tribo,pelos deuses, pela terra, pela humanidade e, porfim, pela Divindade, que é tudo em tudo, e, assim,por Odin dentro de si mesmo. a história da criação 29

Foi assim que a consciência foi evoluindo na alma germânica. Mas a vidente Völwa enxerga muito mais: processos e períodos cósmicos. Ela nos liga novamente às origens. Nessa história, é descrito o caos original a par­ tir do qual o Universo se formou no decorrer de períodos intermináveis.Assim diz o versículo 3:Em tempos primeiros,quando Ymir vivia,não havia areia,nem mar,nem ondas salgadas,nem terra,nem o céu no alto,apenas o abismo vazio,vegetação também não havia.A vidente contemplava os resultados dos im­ todo o corpo com sua energia, correspondepulsos espirituais. Pelos olhos do espírito, ela ao polo quente. Por fim, as forças originaisvia forças polarizarem-se, o calor e o frio, o criadoras dos gigantes foram ameaçadas defogo e o gelo formando a terra, os dois polos degeneração. Com a finalidade de limitarinfluenciando-se mutuamente. Foi assim que essa degenerescência e passar à reestruturaçãoela transmitiu tudo isso na Edda. Por fim, as das energias “gigantescas”, as forças superio­forças despertaram, formaram corpos e fize­ram fazer surgir os vegetais, os animais e osseres humanos. Essas forças incansáveis eramos “gigantes”, que criaram a vidente. De cer­ta maneira, todos nós poderíamos, ainda hoje,perceber essas forças em nós. A cabeça, comsua razão fria, corresponde ao polo frio, aopasso que o metabolismo de calor, que nutre30 pentagrama 5/2011

Odin expulsa os filhos de Loki (gravura do artista dinamarquês Lorentz Frölich, 1906) um novo nível de vida e ligaram-se às forças naturais incontroladas neles presentes. A Edda mostra como as três forças de Hli­ dskjalf (o lugar onde Odin ficava e de onde ele contemplava os nove mundos) abriram um caminho através dos reinos da matéria e como seguiram diferentes etapas de um caminho de desenvolvimento. Não se falava sobre a existência imutável do Espírito como orienta­ dor nos bastidores desse desenvolvimento. Os deuses æsir trazem ordem ao caos. Os astros tomam seu lugar no cosmo, a Terra recebe a divisão dia/noite, as plantas começam a crescer, e uma grande paz reina nessa primeira criação. Contava-se sempre que os deuses deliberavam. Depois que tudo foi criado, os deuses fizeram uma pausa. No versículo 8 podemos ler: Em sua morada, alegres e em paz, em tabuleiros jogavam – ouro não lhes faltava – até que de Jotunheim três mulheres gigantes vieram, todas elas poderosas. res interferiram e colocaram tudo em ordem A palavra “ouro” pode significar felicidade,novamente. abundância, um período “dourado”. MasO æsir (deus do principal panteão nórdico) esse período tem seu fim com a chegada deWotan, posteriormente chamado Odin, apa­ três mulheres poderosas, filhas dos gigantesreceu com seus irmãos Vili e Vé. Na qualida­ de Jotunheim, o lar dos gigantes. Aqui éde de trindade universal eles intervieram em anunciada uma mudança. Seria uma “segunda a história da criação 31

Hermod cavalga rumo a Balder, no inferno os dois, Ask e Embla,(manuscrito islandês da Edda, século xvIII) sem força, sem destino.história da criação”, como nos é relatado Vida não tinham,no Gênesis da Bíblia? Essa história estaria nem pensamento, nem calor,relacionada ao início de uma nova e grande nem movimento, nem boa cor;época mundial? Os æsir suscitam uma nova alma lhes deu Odin,atividade criadora em nível mais denso. pensamento lhes deu Honir,Versículos 17 e 18: calor lhes deu Lodur,Então do lar dos deuses e também boa cor.três æsir à margem vieram,poderosos e benevolentes, É preciso considerar Ask e Embla como ose na terra encontraram primeiros seres da evolução, mas em uma fase anterior àquela quando os homens surgiram nos32 pentagrama 5/2011 mais antigos períodos terrestres e ainda eram muito próximos do estado vegetal e animal e estavam “à margem” de um novo período. Nesse contexto, a palavra “margem” poderia simbolizar uma vasta região. Depois da água “sutil” (etérica) surgem estruturas mais den­ sas. Ask e Embla surgem do oceano original da consciência de sonho. Sob uma forma mais densa, novas possibilidades de vida podem en­ tão ser evocadas. Os seres humanos são determinados por três energias. Odin lhes dá o alento vital, a alma. Honir lhes dá a faculdade de perceber por meio dos sentidos. Lodur ou Loki é o deus astuto que proporciona o sangue e seu calor, da mes­ ma forma que oferece a vida, mas ele também é o criador da vontade pessoal e dos instintos desenfreados. Loki é a própria essência do ser humano, que lhe confere a capacidade de esco­ lher entre o bem e o mal.

Na Edda, os deuses empreendem um violento combate no interior do homem e da natureza: são metáforas relativas às mudanças infinitas da vidaO que importa, nesse contexto, é que ele toma escolha. Sua expulsão do Paraíso tem comoparte na formação do ser humano desde o iní­ consequência o fato de que ele irá viver emcio do novo período mundial. outra região, a região terrestre, sempre ligadoNa segunda gênese do Antigo Testamento, ao “alento divino”, mas agora em um novoque, segundo dissemos, diz respeito à mesma corpo. Adão e Eva vestem-se com “peles” parafase da criação do homem, o surgimento da cobrir sua vergonha. A religião cristã, “con­vontade pessoal acontece de forma diferente: servadora”, insiste fortemente nesse episódio,a vontade própria não é isolada das outras. Em que ela chama de “pecado original” – umaGênesis 2:7 está escrito: “E formou o Senhor transgressão muito grave, da qual o homemDeus o homem do pó da terra e soprou em seria o culpado.suas narinas o fôlego da vida: e o homem foi Na Edda não há expulsão do Paraíso porfeito alma vivente”. Em seguida, o Antigo uma divindade má e vingativa. Trata-se, naTestamento fala sobre a “sedução da serpen­ verdade, de desenvolvimentos impetuososte”. No entanto, cabe ao homem fazer sua e violentos em reação a influxos de ener­ gias superiores. Os deuses empreendem um violento combate no interior do homem e da natureza. As consequências disso são as mudanças infinitas que os homens vivenciam dentro de si mesmos sob forma de crises com as quais, de início, são obrigados a cooperar cada vez mais, graças aos “mandamentos de Deus”, para poderem, mais tarde, colaborar com alegria µ a história da criação 33

identidade, personalidade34 ppeenntataggrarmamaa55/2/021011

e núcleo espiritual Da Conferência Informativa que ocorreu no Centro de Conferências da Mocidade em Noverosa, Holanda, em março de 2011, participaram cerca de 65 jovens com idade infe­ rior a 30 anos. Jovens alunos, Membros ou de alguma outra forma ligados à Rosa-Cruz. Nos serviços, nas exposições e estandes de informações eles procuravam aprofundar seus conhecimentos tanto no aspecto espiritual como filosófico, além de procurar soluções de ordem prática para problemas na senda e na vida diária em sociedade. Portanto, não se tratava apenas de filosofia, mas também de temas práticos. Um dos temas, como mostra o relato abaixo, abordou a espiritualidade e a identidade.Nos estandes de informações ocorreram mados. Mas isso não é algo que somos, e, sim, diálogos dinâmicos nos quais tiveram a algo que possuímos. Como enquadrar aí as palavra especialmente os mais jovens. noções de “personalidade” e “eu”? Conforme Nas oito rodadas de discussão com cerca de definiram os participantes, personalidade é um oito participantes jovens cada uma, o tema cen­ papel que se pode desempenhar, uma máscara tral foi “identidade espiritual”. que se pode trocar de acordo com o ambiente, a atmosfera e o objetivo. Também podemos O objetivo era sempre triplo: retocar essa personalidade, e isso mostra que • O que é identidade? O que entendemos ela não é o aspecto mais interior e essencial do nosso ser. É, portanto, algo ou alguém den­ por esse conceito? Somos ou temos uma tro de nós, um “motivador”, por assim dizer, identidade? que consegue cogerir e alterar nossa aparência • A procura por uma identidade. Dizem que exterior. Por esse motivo, nosso interior mais isso é válido para jovens e adolescentes. recôndito sempre foi considerado um dos as­ Porém será que os mais velhos já encontraram pectos mais importantes da nossa “verdadeira” sua identidade? identidade, junto ao ser único e autônomo. • Aprofundamento do tema pelo intercâmbio É o momento em que nos defrontamos com a de ideias sobre um antigo símbolo gnóstico realidade, pois o que vemos quando observa­ que, por meio de sua simplicidade, pode eluci­ mos a nós mesmos com mais exatidão? Essa é dar muito bem a complexidade desse conceito. uma pergunta que, certamente, não diz respeito apenas aos mais jovens. Estamos todos ocupa­ Assim havia sido planejado. Mas, logo de dos, acima de tudo, com o que é externo, com início, ficou claro que o grupo todo já possuía o que vemos e como somos vistos. São, sobre­ amplos pontos de vista sobre o conceito de tudo, os órgãos sensoriais, os nossos próprios identidade. Provavelmente isso também se deve e os dos que estão ao nosso redor, que aí estão ao fato de que alguns jovens já estejam habitu­ empenhados. Afinal, o que significa “interior”? ados a participar e refletir ativamente sobre esse De nossa identidade requeremos justamente tema e outros similares, no âmbito das ativida­ coisas que não são únicas. Temos uma nacio­ des da Escola Espiritual. Vivenciar esse conhe­ nalidade, um sexo, uma crença. Pertencemos cimento foi impressionante. a um grupo, por exemplo, de companheiros de nossa faixa etária, e também esperamos ser Ficou evidente que, de alguma forma, temos aceitos por eles. O que é único, afinal? determinada identidade, o que já se comprova Em que se fundamenta nossa escolha? Com pelo documento que precisamos trazer sempre frequência escolhemos o que desejam nossos conosco. Por meio dele somos únicos e legiti­ identidade, personalidade e núcleo espiritual 35

Porque quem não existe também não tem nome. Essas questões ficaram em aberto porque os Que nome poder-se-ia dar a quem sequer existe? orientadores presentes naquele final de sema­ [...] na não puderam prever respostas totalmente O Filho recebeu o nome satisfatórias. não como os outros, Talvez a salvação estivesse na terceira parte por empréstimo, do tema, ou seja, no símbolo que os primei­ nem como aqueles que obtêm diversos corpos ros gnósticos cristãos apresentavam para tais uns dos outros, perguntas: podemos imaginar um homem como mas é o seu verdadeiro nome. um círculo com um centro, bem como um raio Nenhum outro o deu a Ele, que interliga esse centro e a circunferência. O e ele era Inefável e Impronunciável contorno, o lado externo, representa o corpo até o momento em que o Perfeito o pronunciou. físico, o eu exterior. O raio é, portanto, a nossa E somente o Filho alma, a psique, a camada mais profunda de é quem pode pronunciar o Nome do Pai nosso ser. No centro está o essencial, denomi­ e ver o Pai. nado pneuma, ou espírito. Esse centro é também Quando agradou ao Pai pronunciar o Nome, denominado consciência. o Nome que é seu Filho, e quando deu o Nome a Ele, No Evangelho de Tomé, diz Jesus: “Quero dar­ que é das profundezas, -vos o que jamais um olho viu, ou um ouvido este [o Filho] falou a respeito do oculto [do Pai], ouviu, uma mão tocou e que jamais se elevou porque Ele sabia que, ao coração do homem”. no Pai, não há maldade. E Paulo diz a Jesus: “Tu és a minha consciência”. O Evangelho da Verdade Hermes esclarece: “O que em ti olha e ouve é o Verbo do Senhor. É a consciência de Deus, opais ou a família, nossos amigos, professores ou Pai”.a sociedade. Aceitamos a imagem que outrostêm de nós e correspondemos às expectativas Assim podemos considerar a alma como ado nosso meio. O que é, então, autônomo? faculdade de se identificar com algo, umAcaso escolhemos alguma vez com base em ponto no raio que se situa entre o centro enosso próprio ser mais profundo e essencial? a circunferência. Essa faculdade, essa parteApós um pouco de reflexão foi constatado que do nosso ser, pode identificar-se tanto comas características de uma verdadeira identidade, o contorno do círculo, o aspecto externo,ou seja, da identidade interior, única e autôno­ como com o centro. E em cada um de nós essama, não obtêm muita atenção de nossa parte.Isso suscitou a pergunta: queremos realmenteser uma identidade ou é suficiente para nós teruma identidade?Encontrar a si mesmo, ser e permanecer autên­tico e, consequentemente, fechar a porta paratodos os “outros” que pudéssemos ser, seria issoentão o fim da busca pela nossa identidade?“A maior de todas as lições é conhecer a simesmo, pois quem conhece a si mesmo conhe­ce Deus”, escreveu Clemente de Alexandria,um dos primeiros padres da Igreja fortementeinfluenciado pela Gnosis. Isso nos leva à per­guntas colocadas pelos mais jovens aos orienta­dores: será que aqueles que já passaram dos 30anos de idade já encontraram sua identidade ouainda estão à procura dela? Ou teriam abando­nado a procura prematuramente?36 pentagrama 5/2011

faculdade encontra-se em algum ponto entre uma ligação ou um ponto de contato entre oesses dois extremos. Consequentemente essa tronco e o ramo. Tu recebes teu alimento doprocura pela identidade tem dois lados. No tronco. Se alguma coisa se interpõe entre olado externo encontramos muitos papéis, e a tronco e o ramo, a ligação e a nutrição são in­procura pode prosseguir indefinidamente até terrompidas e o ramo secará e morrerá. Refleteoutro ponto da circunferência. Na realidade, sobre isso, ó alma, e comprova em ti mesmauma procura pelo interno só pode partir de um que estás destinada a retornar ao Criador. Ele éponto: do Espírito, do divino. o tronco de onde cresceste”. Como vemos a nós mesmos? Somos um corpo, Hermes sempre se dirige a nós como almas. Seuma manifestação em que existe uma alma, o entendermos desse modo, existem conoscoa qual está ligada de forma embrionária ao muitos ramos dessa árvore. Todos eles são mem­Espírito ou à centelha-do-espírito? Ou somos bros do Corpo de Cristo. Todos são raios de luzconsciências que podem reunir experiências que partem do Redentor. Dessa forma podemospor meio da alma? A alma dispõe de um corpo também ampliar o símbolo mencionado, com­transitório por meio do qual as percepções preendendo-o como uma roda cujos incontáveissensoriais tornam-se possíveis. Com que ima­ raios circundam um eixo central, um tronco. Agem do homem nós mesmos nos identifica­ humanidade consiste nesse centro de consciênciamos? Conseguimos reconhecer-nos novamente a partir do qual ou dentro do qual se produz anessa faculdade de identificação? Quanto mais experiência através de muitos raios e igualmentenossa consciência voltar-se para o centro, mais em muitos corpos. E os mais jovens expressaramsaberemos sobre a autonomia, a singularidade, a compreensão de que nossa identidade espiritu­o essencial. al está em concordância com a identidade essen­ cial de todas as outras almas. Aí está a promessaHermes diz: “Nasceste, ó alma, de certo tronco do que é universal, do que é idêntico em cadae desse tronco és um ramo. Por mais afastado identidade. Podemos ultrapassar a consciência dodo tronco que o ramo esteja sempre haverá indivíduo? “Estado de consciência é estado de vida.” Como é verdadeiro e profundo o sentido desse axioma! Os grão-mestres sempre chama­ ram atenção para ele. Como conservamos o conhecimento? No resul­ tado dos três aspectos do nosso ser, na iden­ tidade espiritual que somos, na faculdade de identificação da alma que às vezes experimen­ tamos e na identidade externa que possuímos. identidade, personalidade e núcleo espiritual 37

Ficou comprovado que iluminação é a fusão de A água, então, torna-se sólida como cristal,nossa faculdade de identificação com o núcleo mas, na realidade, não é sólida. Quem a vêespiritual. Desse núcleo espiritual parte cons­ assim julga que ela provém de cristais resisten­tantemente a luz, a vibração que penetra todo tes. Porém ela poderá fluir novamente. Porque,o nosso ser. se uma corrente de ar [cálido] a atingir, elaAh, se conseguíssemos tomar consciência dessa se aquecerá. Do mesmo modo os aromas friosverdade sem os desvios de nossos órgãos dos [congelados] provêm do afastamento de Deus.sentidos! Isso é descrito, de forma tão bela, Eis por que Deus veio para revogar a sepa­como alento ou aroma do Pai, por Valentino, ração. Ele trouxe a cálida plenitude do amorno Evangelho da Verdade: “Quando Ele se in­ para que a frieza desaparecesse, dando lugar àtroduz na matéria, transmite seu aroma à luz e, unidade do pensar perfeito. [...] Porém, quandoem seu repouso, supera a toda forma e a todo o Pai veio para conduzir de volta o que estavasom. Porque não são os ouvidos que sentem o perdido, o impotente e decaído reergueu-se earoma, mas o Espírito o atrai para si pelo olfato encontrou o Pai. Esse é o retorno que é deno­e submerge no perfume do Pai. Este o atrai minado arrependimento.” µpara sua proteção, alçando-o para o lugar deonde proveio. Porquanto originalmente ele veio Bibliografia:do perfume [do Pai], [ele era parte do perfumedo Pai]. No entanto, posteriormente essa parte Trismegisto, H. Do Castigo da Alma. Jarinu: Rosacruz, 2004, p. 27arrefeceu. E, assim, tornou-se uma forma aní­mica como água fria [que congela]. O Evangelho da verdade in O conhecimento que ilumina. Jarinu: Rosacruz, 2005, p.41-4238 pentagrama 5/2011

RESENHA DE LIVRO:O NUCTEMERON DE APOLÔNIO DE TIANAas doze horasda libertaçãoEm seus comentários, J. van Rijckenborgh faz brilhar com todo esplendor os textos, àprimeira vista difíceis de compreender, de Apolônio de Tiana. A luz que eles conseguemespargir é tal que nada se perdeu de sua intensidade até os dias de hoje. Essa luz eternamanifesta-se no microcosmo em doze fases ou doze horas. Como introdução às explicaçõesque seguem, transcrevemos essas doze horas da mesma forma que J. van Rijckenborghapresentou em seu livro O Nuctemeron de Apolônio de Tiana.Primeira Hora: “Na unidade os demô­ minar a causa é fazê-la desaparecer. Então a nios entoam louvor a Deus; eles per­ salvação gnóstica penetra o microcosmo, e a dem a maldade e a ira”. desarmonia transforma-se em harmonia. As Quem deseja trilhar a senda da Gnosis uni­ oposições perdem a maldade e a ira. O leitor versal entra, na Primeira Hora, no caminho compreenderá que essa “tarefa da Primeira joanino da preparação. O que deve ser pre­ Hora” exige do homem um trabalho profundo parado? Nosso microcosmo contém tensões e radical em si mesmo, antes que seus antigos magnéticas latentes, que formam nosso campo demônios possam entoar louvor a Deus. de respiração particular. São os impulsos do subconsciente, que designamos como dia­ Segunda Hora: “Mediante a dualidade, os bólicos ou pecaminosos. Assim, vivemos de peixes do zodíaco entoam louvor a Deus, dois egos: o da razão e o da força primordial. as serpentes ígneas entrelaçam-se em torno Devemos então aceitar esse fato e, a seguir, do caduceu, e o relâmpago torna-se har­ evocar as forças curadoras da Gnosis. Então, monioso”. as novas forças atacarão a complexidade e Durante a Primeira Hora, o homem libertou­ levarão ao autoconhecimento, à confrontação -se para seguir a senda. Segue-se agora a con­ entre o consciente e o subconsciente. Assim o frontação com o grande mundo astral: o poder homem vence o autodesprezo, porque exa­ da dualidade, o jogo das alternâncias. as doze horas da libertação 39

Sem ter obtido a vitória na Primeira Hora é louvor a Deus mediante as três línguas doimpossível prosseguir. relâmpago”.Agora o homem deve desenvolver o método Quando, graças à ausência de desejos, a serenaque consiste em equilibrar os opostos da natu­ flama se instalou no homem, este torna-se umreza a fim de abrir uma passagem através do obreiro a serviço da luz. Para isso, é precisoMar Vermelho do nascimento sideral. Os dois forjar uma espada: o caduceu, a coluna dopeixes do zodíaco representam o homem divi­ fogo espiritual. Armado desse novo fogo, eleno e o homem ligado à natureza. Dois opostos começa a luta contra Cérbero, o cão infernal.que devem fundir-se, na neutralidade da cruz, A lenda diz que, para atravessar o Estige, oque é o amor divino. Para isso, nenhuma co­ rio que separa este mundo do mundo infernal,biça deve ser inflamada no caduceu. A única é preciso possuir o caduceu de Mercúrio. Aatividade que emana do candidato, que surge força da espada confronta a serpente alojadade sua orientação para o mundo da alma, é o no ser aural, o espelho do passado que se ma­amor: os peixes entoam louvor a Deus. nifesta no caduceu. A nova força pode neutra­O fato de todas as tensões magnéticas terem lizar a serpente e fazer desaparecer do campodesaparecido durante a Primeira Hora per- de respiração todos os demônios e formasmite que o candidato atravesse, incólume, o grotescas. Cérbero é o guardião do umbral dofogo sideral. Sua intensa aspiração pelo ho­ microcosmo. Como atravessar esse umbral?mem divino é um incessante canto de louvor Libertando-se de todas as ansiedades, inquie­que provoca o autoesvaziamento. Então, as tudes e medos, inclusive o de perder a Gnosis,serpentes ígneas entrelaçam-se em torno do pois esse medo leva ao fanatismo. A Segundacaduceu. Graças a essa profunda mudança Hora ensina como levar, com tranquilidadena coluna do fogo serpentino, a clara luz da interior, a cruz do amor. Enquanto isso nãoserena flama irradia e alimenta harmoniosa­ for alcançado, Cérbero barra a passagem.mente todo o ser. Essa é a harmonia interior. Aqui, não se trata de coragem cultivada! UmÉ também na Segunda Hora que se vê quão dos aspectos de Cérbero é o dogma. Qualquerimensa pode ser a transformação do candida- doutrina tem um aspecto dogmático.to. Ela precisa acontecer, se ele quiser pro­gredir na senda.Terceira Hora: “As serpentes do caduceu deHermes entrelaçam-se três vezes, Cérberoescancara suas três bocarras, e o fogo entoa40 pentagrama 5/2011

Libertando-se de todas as ansiedades, inquietudes e medos,inclusive o de perder a Gnosis, pois esse medo pode levarao fanatismoEsse dogmatismo constitui uma armadilha alcançar a vitória. Seus quatro aspectos são:teológica pela qual Cérbero se encarrega de as­ unidade de grupo, orientação inequívoca,fixiar o candidato. Essa é a armadilha da teolo­ ausência de luta e harmonia em todas as ex­gia. Cérbero representa os instintos dogmáticos pressões de vida. Para isso é necessário aplicardo passado. Para libertar-se dele, é indispensá­ a razão pura, a vontade pura, o sentimentovel colocar em execução o que foi aprendido, puro, a ação pura.realizando-o por meio de ações puras. Portanto, trata-se de manter acesas essas qua­ tro lanternas durante a viagem da alma atra­Quarta Hora: “Na Quarta Hora a alma vés dos quatro círculos da natureza da morte,regressa da visita aos túmulos. É o momen­ desde a visita aos túmulos até o retorno.to em que as lanternas mágicas são acesasnos quatro cantos dos círculos. É a hora dos Quinta Hora: “A voz das grandes águas en­sortilégios e das ilusões”. toa louvor ao Deus das esferas celestiais”.Na Terceira Hora, os perigos do medo, do Essa é a hora da vitória, da libertação com­dogmatismo e dos ídolos – as três bocarras pleta. A voz das grandes águas é o som pri­de Cérbero – foram neutralizados pelas três mordial do universo, o A-E-I-O-U dos cáta­línguas do relâmpago, a força tríplice do ca­ ros. Cinco vogais fecham o passado e abremduceu renovado. Na Quarta Hora, o homem as fronteiras de um novo futuro. A voz dastem de mostrar que agora está preparado para grandes águas traz a paz. Agora que as forçaspercorrer o caminho mágico. Assim equipado, gêmeas foram vencidas, ela traz o vácuo doele pode caminhar, tomar decisões, aprender novo estado de alma.a empregar as novas faculdades, a ultrapassaras dificuldades e a inexperiência do estágio Sexta Hora: “O espírito permanece im­inicial. passível; ele vê os monstros infernais queA alma deve retornar de sua visita aos túmu­ marcham contra si e está sem medo”.los: o nosso mundo, tão cheio de distrações. Passada a Quinta Hora, a da vitória, o ho­Para isso, quatro lanternas são necessárias, a mem dotado de novas forças, livre e “semfim de neutralizar os quatro sortilégios e ilu­ medo”, permanece no mundo, mas já nãosões, que são: a imitação, por meio da mistura pertence a ele. Seu espírito permanece im­da verdade com a mentira; o veneno das falsas passível. Isso não significa que o candidatodoutrinas; o amor ao mundo ilusório, a dialé­ queira escapar do mundo, mas que ele exe­tica; a ação desligada da razão elevada. cuta uma tarefa a serviço da luz universal: oPermanecendo sobre o quadrado mágico do sacerdócio-real. Quem verdadeiramentetapete dos rosa-cruzes, o candidato pode quer ajudar uma criatura deve conhecer as as doze horas da libertação 41

A partir da Oitava Hora, o homem pode colaborar, com opoder radiante do amor, para transformar o sofrimento em pazcausas profundas de sua vida. Seu fundamen­ profunda do sofrimento e, com a plenitude dato é uma ciência de radiações: que forças, ou radiação da força do Santo Graal ativa em si,“monstros infernais”, dominam o homem? pode trabalhar para curar a rosa-do-coraçãoEsse conhecimento dos mistérios é oferecido plena de aspiração do homem buscador.aos servidores da Sexta Hora. “A alma dos sóis responde aos suspiros das flores.” Assim, unidos pela corrente do amorSétima Hora: “Um fogo que dá vida a universal, todos ingressam em uma nova har­todos os seres animados é dirigido pela monia universal.vontade de seres humanos puros. O inicia­do estende a mão, e o grande sofrimento Nona Hora: “O número que não deve sertransforma-se em paz”. revelado”.Após a purificação do campo de respiração, o O número 9 está ligado à região astral. Quemhomem está livre e já não é prisioneiro da teia não é capaz de distinguir as antigas forçasdo destino. Ele dispõe agora de suas faculda­ astrais terrestres das novas forças astrais ce­des originais e estabeleceu ligação com outro lestes (provenientes do “Jardim dos Deuses”)universo – o universo sanador. Ele encontra-se permanece exposto a mistificações e à anar­em uma força ígnea que sua vontade purifi­ quia das forças gêmeas da dialética. O núme­cada se tornou apta a dirigir. Ele está pronto ro 9 somente pode ser revelado à nova alma.para a Oitava Hora. De agora em diante, ele Ao todo, sete segredos lhe são desveladospode colaborar com o poder radiante do amor na Nona Hora. O homem começa a atacar apara transformar o sofrimento em paz. fonte do caos e do desespero e faz tudo o que está a seu alcance para reconduzir a humani­Oitava Hora: “As estrelas conversam entre dade desgarrada ao lar, ao ponto de partida: osi. A alma dos sóis responde ao suspiro das mundo da alma.flores. Correntes de harmonia interligamtodos os seres da natureza”. Décima Hora: “A chave do ciclo astronô­No decurso da Sétima Hora, o homem sacer­ mico e do movimento circular da vida dodotal foi preenchido pelo Espírito sanador. Ele ser humano”.compreende do imo a linguagem das estrelas, A Nona Hora demonstrou que o mago gnós­a linguagem das radiações, e tem condição de tico possui uma chave que pode abrir todas“provar se os espíritos são de Deus”. Ele vê a as prisões. O número 10 anuncia um novorosa no coração. Ele vê a “flor áurea maravi­ ciclo, uma nova perspectiva cósmica. Os éonslhosa”, o novo e puro centro da consciência são, em si mesmos, forças neutras; é o homemno santuário da cabeça. Ele sonda a causa como alquimista ignorante, que os conduz à42 pentagrama 5/2011

maldade. Essa é a razão da interdição do “co­ aqui se realizam as obras da luz eterna, a prá­mer da árvore do conhecimento do bem e do tica da lei universal do amor, que salva o quemal”. Agora vivemos em uma região cósmica está perdido. No entanto, o mago gnósticoem que o bem e o mal foram desencadeados. não perderá de vista os perigos que espreitamNela as chamas da desarmonia provocaram sua obra, a fim de:uma reação degenerativa em cadeia que faz o • não cair em situações inextricáveis; homem oscilar para lá e para cá, entre o bem • não deixar-se prender pelas resistências que e o mal. suscitou.Para ele foi criada uma ordem de emergên­ As quatro forças da graça servem-lhe de guiacia: o mundo material. Quem sabe manejar a no meio dos perigos:chave da Décima Hora tem consciência de que • a Gnosis garante a impossibilidade de profa­toda entidade nesse estado de queda termina­ nação;rá por elevar-se outra vez à luz universal. Ele • a participação na comunidade das almas dá­devota-se a essa tarefa. -lhe forças; • ele tem o poder de distinguir os espíritos,Undécima Hora: “As asas dos gênios movi­ • ele possui o poder da invencibilidade absoluta.mentam-se com misterioso rumorejar. Eles Assim se realizam pelo fogo as obras da luzvoam de esfera a esfera e levam de mundo a eterna.mundo as mensagens de Deus”.O obreiro iniciado da Décima Hora recebe a Que fique bem claro que o livro O Nuctemeronchave do ciclo astronômico e do movimento de Apolônio de Tiana contém um método, umcircular da vida do ser humano. Essas forças caminho que conduz à perfeita libertação.e possibilidades, com as quais é permitido ao Convidamos o leitor a ultrapassar estamago gnóstico trabalhar, são chamadas “as resenha sucinta e a imergir na obra de J. vanasas dos gênios”. Ele submete o fogo astral à Rijckenborgh, a fim de aprofundar-se nassua vontade e é capaz de utilizar a força pura perspectivas grandiosas do caminho que elede Abraxas como panaceia, estendendo-a desvela µcomo asas protetoras sobre a humanidade. Rijckenborgh, J. van. O Nuctemeron de Apolônio de Tiana. 4. ed.Duodécima Hora: “Aqui se realizam, pelofogo, as obras da luz eterna”. Jarinu: Lectorium Rosicrucianum, 2011.Os gênios alados da Undécima Hora, os ini­ciados excelsos, venceram os obstáculos astraisplanetários. E o Nuctemeron termina em júbilo: as doze horas da libertação 43

a vida deapolônio de tianaQuando surgem momentos críticos no desenvolvimento da humanidade,grandes sábios aparecem neste mundo, como emissários. Um dessesemissários foi o filósofo neopitagórico Apolônio, originário de Tiana,cidade da Capadócia (na Turquia). Ele viveu do ano 2 a.C. até o ano 98 d.C.O escrevente greco-romano Filóstrato redigiu sua biografia.Amissão quase impossível desses sábios exceção de uma parte de sua correspondência consiste em lembrar aos homens sua com os imperadores, cônsules e filósofos de origem divina e a convencê-los a seu tempo, assim como o diário e as notas deinformar-se a esse respeito. Levando uma Dâmis, aluno fiel que Apolônio encontrou novida pura e santa, eles conseguem demonstrar decorrer de suas viagens à Mesopotâmia. Fo­como as forças da natureza superior agem ram essas últimas informações que Filóstratosobre o nosso mundo, de sorte que os mortais utilizou para redigir sua biografia.possam sentir novamente seus efeitos liberta­dores: salvar outros e, dessa maneira, salvar SUA BIOGRAFIA Devemos essa biografia aa si mesmos, tal é o método “mágico”. Alia- Júlia Domna (esposa do imperador romanodos da natureza, eles sabem ler nela os sinais Sétimo Severo, que reinou de 193 até 211).propícios. Essa mulher, ávida de instrução em filoso­Sobre Jesus, é dito que ele podia andar sobre fia, enviou a Filóstrato o pedido para redi­as águas, que ressuscitou após ter sido cru­ gir a biografia de Apolônio, com base emcificado, que curava os doentes dando-lhes um grande número de documentos que elaconselhos extraordinários. Se a vida de Jesus pôde obter de um parente de Dâmis, com oé simbólica e inspiradora para todos os que objetivo de fazer um livro fácil de ser lido.sentem vibrar em si a vida original, parece Foi baseado nesses documentos que Flávioque Apolônio realizou milagres. Filóstrato, autor e filósofo grego conhecido,Quem foi Apolônio de Tiana? redigiu uma nova biografia de Apolônio, maisSua biografia foi redigida no século II, mas ou menos um século após sua suposta morte.sua história, infelizmente, apagou-se no de­ Esses documentos dizem que Apolônio nasceucorrer do tempo, e isso principalmente devido no sudeste da Turquia, entre os anos 4 a.C. eà ação destruidora de um prelado fanático e 2 d.C., na pequena aldeia chamada Tiana, naambicioso: Eusébio de Cesareia. base dos montes Tauro. Antes do seu nasci­No início do século IV, Apolônio possuía ain­ mento, sua mãe teve uma visão: Proteu, umda grande popularidade. Mas o bispo acima dos filhos de Poseidon, anunciou a ela que elemencionado, achando que só um messias era mesmo seria seu filho.suficiente, esforçou-se para difamá-lo, fazen­ Assim como a história do nascimento de Jesusdo de sua vida e seus atos excepcionais uma ou de Buda, a vinda de Apolônio é cercadasimples fábula. Tudo foi feito para apagar da por numerosas lendas. Uma delas conta que,memória coletiva a existência de Apolônio de tendo sua mãe adormecido em um prado, cis­Tiana. Quase todos os documentos a seu res­ nes voaram em círculo à sua volta, e que nopeito perderam-se ou foram destruídos, com momento do nascimento eles fizeram grande44 pentagrama 5/2011

Atenas, vista do Pireu, no tempo de Apolônio de Tiana (Ilustração do século xIx)alarido, enquanto um raio semelhante a um esperado há muito tempo. O nascimentorelâmpago caiu do céu e para ele retornou. de Apolônio em nosso mundo é descrito deO pássaro é o símbolo universal do mundo maneira fantástica, pouco realista. Ele sepuro do Espírito e de sua ação no decorrer apresenta, nesse aspecto, semelhante a outrosdos grandes períodos cíclicos. Nesse sentido, nascimentos notáveis como de Gautama Budaos cisnes anunciam o início de uma nova era. ou de Jesus, o Senhor. Se sabemos com cer­O clarão é o reflexo da grande força cósmi­ teza que ele é chamado Apolônio de Tiana,ca que acompanha a encarnação do enviado ninguém sabe ao certo o lugar e a data em a vida de apolônio de tiana 45

Mosaico mural da época romana com representação de Netuno e de Anfitrite (Herculano, Sul da Itália)que nasceu. A incerteza é maior ainda no que (Macedônia), onde estudou medicina. Nessase refere ao lugar e à data de seu falecimento. época, os templos eram lugares de terapiaO pouco que ainda podemos extrair das notas comparáveis aos hospitais de nossos dias, comde Dâmis é que Apolônio teria também tido a diferença de que lá se dava muito mais valoro nome de Euforbo e ainda era jovem quan- à alma, o que as práticas médicas atuais nãodo entrou no Templo de Asclépio no Egeu fazem.46 pentagrama 5/2011

“Avante,Apolônio, tu segues a Deus, e eu te sigo”Após seus estudos e o falecimento do pai, Por ocasião de uma de suas visitas aos nu­Apolônio atravessou a Panfília e a Cilícia, merosos soberanos, o sábio de Tiana foionde melhorou a vida da população local. convidado, como era frequente, a participarUm dia, seu antigo mestre, Euxeno, lhe per­ nos sacrifícios aos deuses – práticas às quaisguntou: “Por que um pensador nobre como ele se negava a assistir o máximo possível.vós, que possuís um domínio tão refinado da Desculpando-se, ele se retirou, dizendo: “Ólinguagem e do sentimento, ainda não escre­ rei, continuai a fazer as oferendas conformeveu um livro?” Apolônio respondeu: “Por­ entendeis, mas permiti-me fazê-las à minhaque ainda não aprendi a calar-me”. Desde maneira”. Depois pegando um punhado deesse instante, ele guardou silêncio durante incenso, disse: “Ó Sol, envia-me pelo mun­cinco anos. A caminho da Índia, em busca do tão longe quanto parecer bom para mimdos sábios que lá viviam, ele encontrou em e para ti. Que eu possa encontrar homensNínive (atual Bagdá) seu futuro discípulo e bons e jamais ouvir falar dos malvados, nembiógrafo Dâmis. Este, muito impressionado eles de mim!” Após essas palavras, Apolôniocom Apolônio, lhe disse: “Avante, Apolônio, jogou o incenso no fogo e afastou-se do rei.tu segues a Deus, e eu te sigo.” No decorrer Ele se recusava a assistir aos sacrifícios san­de suas viagens, Dâmis aprendeu muito sobre guinários. Seus encontros com os sábios dafilosofia e os países percorridos, mas princi­ Índia são fascinantes. Apolônio recebeu delespalmente sobre o próprio Apolônio e sobre instruções e ensinamentos tendo em vista suaseu modo de vida simples. Na Mesopotâmia, grande missão: guiar o Império romano e, seeles foram conduzidos ao escritório de um possível, impedir sua rápida degenerescência,funcionário aduaneiro para serem interro­ pois alguns imperadores cruéis e seus esbirrosgados a respeito de suas bagagens. Apolônio abandonavam-se sem restrições à pratica dadeclarou: “Eu carrego a medida, a justiça, a magia negra. Somente Apolônio estava capa­virtude, a temperança, a modéstia, a coragem citado para cumprir essa missão. Entretanto,e a disciplina.” Ignora-se se Apolônio enu­ dois imperadores o acusaram de traição: Neromerou de maneira intencional essas palavras, (54 a 68 d.C.) e Domiciano (81 atodas no gênero feminino ( Justiça, Prudência, 96 d.C.). Foi por milagre que ApolônioTemperança...), mas o funcionário, prevendo escapou de uma condenação.a vantagem fiscal, disse-lhe: “É preciso quevós inscrevais em vossa contabilidade essas Em Éfeso, Apolônio fundou uma escola ondemulheres escravas.” Apolônio respondeu: “É permaneceu até a morte, mais ou menos naimpossível, pois não são mulheres escravas idade de cem anos. Filóstrato intensifica oque trago comigo, mas sim nobres damas”. mistério em torno da vida de seu herói, a vida de apolônio de tiana 47

“Ninguém morre, a não ser emaparência, assim como ninguémnasce: é somente em aparência.”escrevendo: “No que se refere à sua morte,ou se ele já teria falecido, os testemunhosvariam”.UMA CARTA DE APOLÔNIO Além das notas de Imagem de Atenas antiga com o Horologion ouDâmis, Filóstrato possuía em seu poder algu­ “A Torre dos ventos” construída em 50 a.C.mas cartas de Apolônio que também testemu­nham sua grande sabedoria. Em uma delas, quando elas são espaciais, sua sutilidade asem tom filosófico, Apolônio tenta consolar torna invisíveis; a matéria é necessariamen­Valério Asiático, cônsul no ano de 70, tornan­ te concentrada ou expandida fora do vasodo-lhe suportável a perda do filho: “Ninguém eterno que a contém, mas ela nem nasce nemmorre, a não ser em aparência, assim como morre. Como um erro tão grosseiro comoninguém nasce: é somente em aparência. Com esse pôde subsistir tão longo tempo? É queefeito, a passagem da essência para a substân­ algumas pessoas imaginam ter sido ativas,cia, eis o que nós denominamos nascer; e o enquanto estavam passivas: elas não sabemque denominamos morrer é, ao contrário, a que os pais são os meios e não as causas dopassagem da substância para a essência. Na que denominamos o nascimento das crian­realidade, nada nasce e nada morre; mas tudo ças, como a terra, que faz surgir de seu seioaparece primeiro, para em seguida tornar-se as plantas, mas não as produz. Não são osinvisível: esse primeiro efeito é produzido pela indivíduos visíveis que se modificam, mas adensidade da matéria, o segundo pela sutilida­ substância universal que se modifica em cadade da essência que permanece sempre idêntica um deles. E essa substância, que outro nomea si mesma, mas que está ora em movimento, dar-lhe senão “substância primeira”? Ela so-ora em repouso, um vir-a-ser contínuo. Ela mente é. E se torna o Deus eternal de quemtem a mesma propriedade em sua mudança esquecemos o nome e a face para apenas verde estado, pois essa mudança não provém do os nomes e os semblantes de cada indivíduo”exterior: o todo se subdivide em suas partes µou partes se reúnem num todo. O conjunto ésempre um. Talvez alguém diga: O que é algo Este texto baseia-se no artigo de Fred A. Pruyn, publicado noque ora é visível e ora invisível, e se com­põe dos mesmos elementos ou de elementos site holandês Theosophische Verkenningen (Explorações Teosófi­diferentes? Podemos responder: a natureza dascoisas neste mundo é tal que, quando são cas) em outubro de 2005. As fontes de todos esses artigos podemcondensadas, elas se manifestam em razãoda resistência de sua massa; ao contrário, ser solicitadas à redação.48 pentagrama 5/2011


Like this book? You can publish your book online for free in a few minutes!
Create your own flipbook