peennttaaggrarmama LectorLieucmtorRiuomsicRrousciicarnuucimanumadseszeeteveenscsoclhaoslen 22001155 53NNÚUMMEMROERogsrelinmzietnesvdaan fheelitcigdealduekodepoennteopúunnitcodveefredneddeigr adevewrdaaardheeidohopgaenrtepíasmntohesuïspmeerioriwmeargeeldnbsedeoldmenu:ncdaou:xc2au01x52015
Edição Revista Bimestral da EscolaRozekruis Pers Internacional da Rosacruz Áurea Lectorium RosicrucianumRedação FinalPeter Huijs A revista pentagrama dirige a atenção de seus lei- tores para o desenvolvimento da humanidade nestaRedação nova era que se inicia.Kees Bode, Wendelijn van den Brul, Arwen Gerrits, Hugovan Hooreweeghe, Peter Huijs, Hans Peter Knevel, Frans O pentagrama tem sido, através dos tempos, oSpakman, Anneke Stokman-Griever, Gerreke Uljée, Lex van símbolo do homem renascido, do novo homem. Eleden Brul é também o símbolo do Universo e de seu eterno vir-a-ser, por meio do qual o plano de Deus se ma-Diagramação nifesta. Entretanto, um símbolo somente tem valorStudio Ivar Hamelink quando se torna realidade. O homem que realiza o pentagrama em seu microcosmo, em seu próprioSecretaria pequeno mundo, está no caminho da transfiguração.Kees Bode, Gerreke Uljée A revista pentagrama convida o leitor a operar essa revolução espiritual em seu próprio interior.RedaçãoPentagramMaartensdijkseweg 1NL-3723 MC Bilthovene-mail: [email protected]ção BrasileiraPentagrama Publicaçõeswww.pentagrama.org.brPublicação DigitalAcesso GratuitoResponsável pela Edição BrasileiraAdriana PonteCoordenação,Tradução e revisãoAdriana Ponte, Emanuel Saraiva, Rossana Cilento, Amana daMatta, Carlos Gomes, Helena Schaffne, José de Jesus, MarciaMoraes, Mariana Limoeiro, Marlene Tuacek, Mercês Rocha,Rafael Albert, Adèle Abdalla, Ellika Trindade, Fernando Leite,João Batista Ponte, Lino Meyer, Luis Alfredo Pinheiro, MarcílioMendonça e Urs SchmidDiagramação, capa e interirorBruna AndradeLectorium RosicrucianumSede no BrasilRua Sebastião Carneiro, 215, São Paulo - SPTel. & fax: (11) [email protected] em PortugalPraça Anónio Sardinha, 3A (Penha de França)[email protected] [email protected] revista Pentagrama é publicada seis vezes por ano emalemão, inglês, espanhol, francês, húngaro, holandês epor tuguês.Ela é publicada apenas quatro vezes por ano em búlgaro,finlandês, grego, italiano, polonês, russo, eslovaco, sueco etcheco.© Stichting Rozekruis PersProibida qualquer reprodução semautorização prévia por escritoISSN 1677-2253tijd voor leven 2
ano 37 2015 número 5Por tudo o que sabemos desde tempos imomeriais, a Capa: Nascimento de estrelas extremamenteverdadeira tradição esotérica, que trata da libertação da luminosas – cem milhões de vezes mais luminosasalma humana, afirma que alguém somente poderá se que nosso sol – nas nebulosas espiraladas de nossotornar cidadão do Reino dos Céus se for auxiliado por jovem universo. Impressão artística © Shantanuescolas gnósticas autênticas. Basu, Universidade de Ontário Ocidental, Canadá.Embora tudo possa ser objeto de leituras ou de estudos,a vivência do Caminho é uma exigência a fim de se al- as sete escolascançar suficiente força interior que nos permita ultrapas- o divino entusiasmo da ação,sar o limiar que nos separa da verdadeira visão da reali- j. van rijckenborgh 2dade. Esse Caminho, que é protegido pelos “Mensageiros os limites da felicidade 6da Senda” por toda a eternidade, é muito especial. Ele imagens do mundo:começa e termina no não-saber, inicia humildemente e jovens rosacruzes em caux 2015 12,finaliza modestamente. Ao longo da estrada, aprendemos 13, 25, 39, 48, 49que somos únicos e, ao mesmo tempo, somos todos explorar os limites para conquistariguais como seres humanos.Também percebemos que sua liberdade 14somos tão marcantes quanto os milhões de estrelas do o ponto único 18glorioso firmamento divino e, ao mesmo tempo, únicos a redescoberta da gnosis Vna experiência do Único – que existe no mais profundo (final) 26centro do nosso ser e em cada uma das milhares de cé- limites 30lulas que estão à sua volta. Os Mensageiros da Senda nos o panteísmo superior 32conhecem, nos protegem e nos auxiliam: eles formam a defender a verdade até a morteFraternidade Universal. Sem eles, nem mesmo o menor a primeira reforma – jean hus 34avanço é possível. Sua benevolência faz a senda se tornar a viagem de mantao III (final) 40uma estrada larga que conduz à verdadeira realidade,que envolve amorosamente nosso planeta! de zeven scholen 1 1
O DIVINO ENTUSIASMO DA AÇÃOas sete escolas J. van RijckenborghNas escrituras sagradas existe uma lenda encantadora sobre as almas irmãs. Quandoda manifestação da onda de vida humana, a nova vida se manifestou de modo sétuplo.Mediante sete raios, os espíritos virginais desceram à escola da experiência. Cada umdos sete espíritos diante do trono (os espíritos planetários), inspirados pelas dozehierarquias criadoras (os signos do zodíaco), preparou um grupo especial de almashumanas para o formidável processo de desenvolvimento que todos nós atravessamos.Dessa forma, cada “filho dos homens” somente após o término da viagem, em sua possui uma estrela-pai, sem saber de derradeira iniciação, que o aluno que segue a qual se trata. Assim, pode ser que reen- senda receberá o nome da estrela paternal econtremos, em nosso meio ou fora dele, pessoas conhecerá sua procedência.ou grupos que exerçam excepcional atração É desse modo que se explica como as setesobre nós. Então, sentimos intuitivamente dentro escolas são manifestações dos sete raios, dosde nós muitos laços que trazem uma luz para sete espíritos planetários, e por que são essesnosso processo de desenvolvimento e vivencia- sete raios que podem conduzir a humanidademos sentimentos de alegria e satisfação. É assim à iniciação. Isso também explica por que todasque desperta em nós algo que estava dormindo as pessoas que sentem a necessidade dessesem nosso interior mais profundo e que veio sete raios e saem em sua busca com todo o seuresistindo desde tempos incalculáveis: o poder ser são conduzidas à escola que desejam, aointerior do reconhecimento. Reencontramos um raio com o qual têm afinidade e com o qualgêmeo, uma gêmea, uma alma gêmea. Reencon- mantêm contato. Por isso, vemos a humanidadetramos almas que possuem a mesma estrela-anjo harmoniosamente distribuída sobre a Terra emque nós e que vieram do mesmo raio. É com sete grupos e ligada por laços interiores. Dianteessas almas que seguiremos em frente até o fim, dos olhos do espírito, vemos a imagem da metaquando, no decorrer de nosso progresso e em da evolução, com a qual o Evangelho de Ma-nossa ascensão, alcançarmos a pátria; quando, no teus, por exemplo, também quer nos tocar. Masapogeu de nosso desenvolvimento, cantarmos esse caminho é austero e solitário. Ele é pontil-o sétuplo cântico de amor e amizade, de autos-sacrifício e de ação. Prato em cerâmica minai reproduzindo os sete plane-Assim como a onda de vida humana se desen- tas, com o sol no centro. Ao mesmo tempo, é a repre-volve de sete maneiras diferentes, há também sentação do xeique como centro profano e espiritual,sete escolas de iniciação. Desse modo, apenas rodeado por seus fiéis ministros.podemos nos desenvolver naquela que cor- Arte persa do início do século 13.responde ao raio ao qual pertencemos. E será © Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque2 pentagrama 5/2015
Jan van Rijckenborgh e Catharose de Petri são os fundadoresda Escola Espiritual da Rosacruz Áurea. Nessa escola elesexplicaram aos alunos a senda da libertação da alma de váriasmaneiras, utilizando-se muitas vezes de textos originais dadoutrina universal, tendo sido um exemplo para os alunos, pois,além de estudar seriamente a senda, realizaram-na em suas vidas. daes szevtenesscchoolaesn 3
hado de resistências. Esse é o caminho de esfor-ços e angústias de uma noite sufocante durantea qual a humanidade sofre, se atormenta e seagita desesperadamente.Para onde? Se o buscador fizer essa perguntamil vezes, receberá mil respostas diferentes.Será enviado a um reino mágico e dourado,que está “do outro lado”. Alguém lhe indi-cará um provável “Além”, que se manifesta deforma dual. Uma hora é pura felicidade; outra,é o fogo do inferno. Mas, nesta vida, trata-se dedevorar ou ser devorado – e assim por diante.Todos conhecem essas sensações imprecisase essas crenças. Sem dúvida, muitos ouviram,como nós, a zombaria de milhões de indivíduosque não vêm qualquer saída e que são comoloucos nas camisas-de-força de uma civilizaçãocheia de orçamentos de guerra e matadouros,tanto para a vida animal como para a vidahumana.Mas acima e através dessa multidão que secontorce, lá está, radiante, a Luz branca.Porém, o homem agora somente consegueenxergar, de quando em quando, alguns vis-lumbres da Luz. Ela parece tão distante e tãoirreal! Sim, lá no fim do caminho, estão as setemoradas. Quando partimos para nossa jornada,todos, sem exceção, sabíamos disso, mas nodecorrer de nossa rota esquecemos completa-mente e achamos que o reino da matéria e oimpério dos sentidos eram a meta principal.No entanto, aí estão as sete luzes que se ele-vam da Terra. São os sete caminhos que levamà iniciação. Todos estão sob o controle e a lide-rança da Única Luz.E os que se preocupam com o destino de seusirmãos e irmãs na matéria e para além dela? Eos que querem verdadeiramente se doar no al-tar de serviço para ajudar verdadeiramente seussemelhantes que ainda estão no caminho? Eles4 pentagrama3/52/0210515
podem se alçar até os sete raios para adquiriremforças e se enriquecerem de sabedoria, a fim derealizarem seu árduo trabalho como participan-tes do trabalho da vinha. Reconhecemos ime-diatamente a chave que dá acesso a essas escolas:é o imenso e transbordante desejo de ajudar os sereshumanos. E esse desejo é o ponto culminante detoda a Fraternidade Universal.Atualmente conhecemos nossa tarefa. Nossamissão: nenhum arrebatamento místico, masuma vida comum de ações e de autodoação,aqui na matéria. Deixemos que esse divinoentusiasmo da ação nos inflame! A vibração queele suscita haverá de se propagar ao longe: as-sim, livrará nossa atmosfera, a milhas de distân-cia, de todas essas forças negras. Mas a imagemque tentamos elaborar ainda não é perfeita,pois poderíamos simplesmente crer que as seteescolas são separadas, o que suscitaria em nósprecisamente essa consciência de separação, quepedimos para Deus banir de nós.Não: as sete são uma escola só!Mas é preciso dizer que numerosos são os queretardam seu avançar no caminho e escolhemuma direção errada. Acima das sete escolas estáfundamentada aquela que abarca o todo, a Luzbranca que abraça todas as escolas, Cristo, oespírito solar que vem fazer sua morada entrenós e impregnar a Terra e seus habitantes comseu poder irradiante. Assim, a separação aparentetorna-se uma unidade, e nossa própria naturezase torna a imagem interior da Bíblia como únicaescola para o Ocidente, como caminho paraEle, para a Luz. Também não pode ser de outraforma, pois aqueles que têm conhecimentodessa Luz – os que sabem, não como uma liçãodecorada, mas graças à ampla visão que têm deseu próprio ser e das possibilidades nele conti-das – põem-se a testemunhar da Luz e levam-naaos lugares onde mais ela é necessária. µ adse szetvenesscchoollaesn 5
os limites da felicidadePensadores, sábios e numerosos textos sagrados nos ensinam que temos tudopara irradiarmos felicidade, ou pelo menos para sermos felizes! Então o que nosfalta para tornar isso uma realidade, quando todos os nossos esforços se voltampara esse objetivo?Évisando esse mesmo fim que a sociedade nos oferece tudo o que possa contribuir para nosso bem-estar, e é coletivamente que nossubmetemos a um marketing astucioso e muitoeficaz aplicado à ideia de felicidade.Todos nósacreditamos que estamos progredindo à medidaque consumimos. Ora, isso não nos torna mais fe-lizes. Ao contrário: está faltando exatamente aquiloque pode nos tornar realmente felizes. No fim dascontas, até a ideia de felicidade nos escapa. É porela que buscamos desesperadamente hoje em dia.A FELICIDADE PROMETIDA A ideia de felicidade érelativamente recente. Antigamente, o interesse sevoltava mais para valores como obediência e vir-tude, por exemplo. A recompensa por haver obser-vado esses valores vinha somente mais tarde — ouseja, após a morte. Então a felicidade eterna vinhacomo recompensa por aquilo de que a pessoa haviase privado durante uma vida que, até o derradeiromomento, tinha sido um vale de lágrimas; umavida de fadigas para sobreviver, como punição pelopecado original cometido por outrem.Felizmente os tempos mudaram. Mas hoje deseja--se a felicidade aqui e agora, imediatamente, o quedá motivo a um novo sentimento de culpa, pois,apesar de tudo, não conseguimos ser felizes. Já nãotrabalhamos tanto pelo pão de cada dia, mas pelarealização de nossa felicidade pessoal. Queremosnos aproximar dela adquirindo muitas coisas dife-rentes, porém ela nos foge por entre os dedos. Osimples fato de adquirirmos um produto e desem-pacotá-lo nos causa momentos de prazer seguidospor sentimentos de culpa diante do armário cheiode roupas não usadas, da biblioteca repleta de livros 6 pentagrama3/52/0210515
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Wilhelm Schmid, filósofo da vida, escreveu inúmeros II, cap. 12, 148:“Se o sentido mais próximo e imediatolivros sobre o tema, Por que a felicidade não é o que há de nossa vida não é o sofrimento, nossa existência é ode mais importante na vida. (2011) e Ser infeliz – Um en- maior contrassenso do mundo, pois constitui um ab-corajamento (2013).“Os seres humanos acreditam que surdo supor que a dor infinita, originária da necessidadea vida e tudo o que ela comporta deve ser inteiramente essencial à vida, de que o mundo está pleno, é sem sen-positivo. Esta é a mensagem do pensamento. Contudo, a tido e puramente acidental. Nossa receptividade para avida também contém abismos. Se você ousar encará-los, dor é quase infinita, enquanto que para o prazer possuientão a vida lhe dará tudo, e você viverá de maneira au- limites estreitos.Tomada individualmente, a infelicidadetêntica.” Essa afirmação do autor aproxima-se bastante parece ser uma exceção, mas é a infelicidade geral queda visão de Schopenhauer em Parerga et Paralipomena constitui a regra.”8 pentagrama3/52/0210515
Michael Foley, A abundância absurda – Por que é tão difícil sem deixar nada ao acaso.ser feliz (título original The Age of Absurdity. Why Modern Mas... embora recorramos aos tribunais quandoLife makes it hard do be happy) 2012. Nesse livro, esse nos sentimos injustiçados, parece que está cada vezprofessor de Tecnologia da Informação, na Irlanda do mais difícil encontrar um culpado. No fim, cons-Norte, não tem a intenção de nos desviar desta reali- trangidos e forçados, somos obrigados a admitirdade absurda, mas de nos fazer observá-la atentamente e que existe uma falha fundamental, pois é impos-refletir sobre ela. Para M. Foley, o melhor remédio contra sível satisfazer de maneira organizada a todo desejoa abundância absurda é nos voltarmos para Deus e nos de bem-estar e de felicidade, bem como prevenirperdermos nele, sendo que a perda de si mesmo é a mais qualquer eventual desgraça.intensa experência.não lidos, de CDs pouco ouvidos. A ARTE DE SER INFELIZ Será que existe uma felici- dade espontânea? Sejamos realistas: uma certa doseA FÚRIA DE CONSUMO Já faz muito tempo que de má sorte na vida é inevitável. Por isso, mesmonem mesmo é preciso sair de casa para comprar: o espírito mais desperto não consegue deixar debasta um clique com o mouse. Enquanto isso, nosso ter um sentimento de inquietude. Nossa naturezacomportamento como consumidores também é sempre nos faz sentir infelizes, como se tivéssemosobservado atentamente e mantido sob vigilância. perdido a capacidade de encontrar a felicidade.E com o auxílio da neurociência, as mensagens Pesquisas sobre o funcionamento do cérebropublicitárias ofuscantes transpassam inexoravelmen- demonstraram que experiências positivas exer-te nossa assim chamada imunidade ao perigo de cem sobre nós um efeito mais efêmero do que assermos contaminados por elas. Quantos i-watches experiências negativas. Além do mais, a capacidadea Apple ainda vai vender? Com frequência somos de nos sentirmos bem diminui à medida que nossafisgados pelo cenário cheio de prazer do consu- atenção se dispersa na busca incessante por novosmismo. Seguramente isso nos dá certo prazer e estímulos. O que ocorre no cérebro nessas con-a vida fica um pouco mais fácil. Mas onde está a dições, quando estamos continuamente “acessíveis”,felicidade em tudo isso? sempre online, em constante companhia virtual? O que acontece quando nos dão sempre mais coisasAS LEIS DA FELICIDADE Dizem que todos nós te- para ver, para armazenar e digerir através dasmos direito à felicidade e inúmeras autoridades cui- notícias efêmeras do dia? Será que conseguimosdam para que consigamos nossos pretensos direitos. incorporar tudo isso? Sujeitos a inúmeros impulsosCaso não tenhamos sucesso, podemos fazer nossa sucessivos, será que podemos encontrar um poucoreclamação num guichê... já bastante lotado com de quietude e de silêncio a fim de discernir o queinúmeras reinvidicações. Cabe à sociedade de ser- está acontecendo?viços proteger nossa vida do nascimento à morte, De qualquer forma, o êxtase artificial provocado os limites da felicidade 9
O psicanalista PaulVerhaeghe faz uso do termo “meritocra- espírito comunitário. Combinado com um sistema obstinadocia”, que ele aplica ao modelo de sociedade neo-liberal, na qual de avaliação externa, isso causa o que há de mais perigoso:nos encontramos submetidos a uma enorme pressão para a o desaparecimento de toda e qualquer ética. No passado,realização obrigatória, devido à competitividade excessiva, e cada pessoa se sentia como parte de uma comunidade e sepela qual, na luta gerada por ela, somos levados ao egoísmo. identificava com sua ética. Hoje em dia, o indivíduo se encontraAo final de um congresso que tratava dos cuidados da saúde diametralmente oposto a uma organização, e as duas partespsíquica, ele conclui: “Uma meritocracia neo-liberal estabelece somente têm uma coisa em vista: levar vantagem. A meritocra-infalivelmente uma concorrência entre os indivíduos e tem cia neo-liberal gera, assim, um egoísmo universal.”como consequência o desaparecimento da solidariedade e dopelas ilusões que nos cegam apenas consegue de qualquer modo, ela é verdadeira e vívida. Seabrandar o mal-estar provisoriamente. Nossas conseguíssimos perceber isso, aceitando e aban-insistentes tentativas de querer exigir de nossa donando toda e qualquer resistência, faríamos umexistência mais do que ela nos pode dar chega ao grande e sério progresso! Então, em vez de busca-fim. dores de felicidade nos tornaríamos buscadores deSomente então podemos exigir de nós mesmos, sentido, e a vida seria a melhor das escolas.na contracorrente, que nossa vida se abra paraalém da existência. E, paradoxalmente, é nesse O SENTIDO DO FUNCIONAMENTO DO MUNDOmesmo instante que se patenteia o que é mais es- Finalmente descobrimos que não há nada de novosencial. Isso pode nos parecer menos apaixonante, a dizer sobre nossa vida, e que ela é melhor domenos excitante do que aquilo com que antes que poderíamos desejar. A atual aceleração dosentíamos prazer em sonhar, mas por outro lado, ritmo de vida aumenta o estresse, e quanto maioresse momento presente colocado sob nossa obser- se torna a pressão, mais aumenta o desejo de nosvação nos mostra o que verdadeiramente está em libertarmos. Assim, no meio da agitação, nossocausa. Não mais como espectadores superficiais desejo febril de felicidade pessoal revela-se umacom todas as suas fúteis projeções, mas como ob- caminhada inevitável rumo à descoberta da ver-servadores profundamente interessados por tudo o dadeira felicidade. Descobrimos nossos inúmerosque se passa em nosso interior. Somente podemos apegos tolos e tudo que provocaram em nosso cé-estar verdadeiramente presentes em nosso am- rebro, como nos paralisaram em nossa liberdade debiente pessoal onde passamos alternadamente por pensamento e ação em proveito de outras pessoas.alegrias e sofrimentos. Nesta vida sempre há lugar Poderíamos dizer que nossas meninges formam opara uma desgraça passageira, para o sofrimento, hardware para a felicidade, mas que o software dospara o insucesso e para uma perda. Essa vida pode numerosos programas egóicos nos pregam pe-ser simples, ou então complicada e penosa, mas, ças. Nenhum exercício mental pode nos ajudar a10 pentagrama3/52/0210515
Dirk De Wachter afirma, em seu livro Borderline Times ridades renovadas! A força ilimitada e perfeita da(Tempos limítrofes. O fim da normalidade), de 2012, que se verdadeira felicidade pode, por fim, tocar-nos nona época atual existem sempre mais pessoas que corres- centro de nossa vida limitada – já não há tempo apondem ao diagnóstico de estado limítrofe, isto se deve ao perder! Os desejos caprichosos e os humores va-fato de que:“Nessa sociedade de felicidade, ficou difícil não riáveis chegam ao fim. Em seu lugar, há uma inin-nos sentirmos bem. Existe um mito exagerado a respeito terrupta e infinita consciência de ser, uma atençãoda felicidade: a cada dia tudo deve ser fantástico. Ora, não absoluta voltada para a felicidade de todos.é assim que funciona. Eventualmente acontece de um diaser menos formidável, e às vezes sucedem sérios reveses. E A FELICIDADE REDESCOBERTA Não devemosentão, em tais casos, parece que nos falta resistência.” buscar a felicidade absoluta no exterior, onde as miragens e os castelos no ar são apenas arremedos.desfazer-nos dos velhos esquemas: toda e qualquer A felicidade se encontra no fundo da alma humana.prática somente fará que aumentem. Devemos Ela aflui continuamente para nossa consciência,começar a deixar afluir para o coração a corrente mas apenas nos damos conta disso quando nosde vida do Outro, o Bem único. Isso nos purificará colocamos de lado, pois a verdadeira felicidade,dos desejos tolos ligados às circunvoluções mentais que é interior, é precisamente estar ausente, nãotípicas do eu. Então, experimentaremos o apazi- se restringir, não se limitar, mas aceitar totalmenteguamento, a profundeza e o silêncio... a corrente de vida que transforma e preenche de energia vital, de prana, a menor das fibras.A UNIDADE CABEÇA-CORAÇÃO Um coração que Quando renunciamos e já não queremos desviarestá assim tão aberto para tudo o que aflui em sua corrente para nosso próprio benefício, a vida seabundância da fonte da felicidade espiritual somen- desdobra livremente até dar nascimento ao novote poderá produzir um pensamento novo e criativo. homem, ao homem alma-espírito. Embora busque-Essa abertura torna possível uma sintonia perfeita mos em vão a felicidade no labirinto do mundo,entre o coração e a cabeça. Então, produz-se um ela somente pode ser reencontrada no paraísomilagre no espaço de nossa vida interior: podemos do coração, isto é, no reino interior. É ali que seenfim aceitar sem reserva nossa existência limitada encontra o puro cristal, a pedra dos sábios, o únicoe transitória. Dizemos “sim” com o coração e a tesouro pelo qual, segundo o evangelho, o homemcabeça àquilo que nos é dado viver e aprender. Já da parábola vende todos os seus bens. É “a boanão atentamos para mais nada: só para o que é. medida, recalcada, sacudida, transbordante” queO resultado são várias tomadas de consciência, de recebemos como um presente do céu. A felicidadecoisas que devemos contemplar e sobre as quais perdida redescoberta! µdevemos refletir. Quantas coisas se revelam à Luzde um coração ativo, de uma alma com as pola- os limites da felicidade 11
IMAGENS DO MUNDOA conferência para jovens alunos, na Páscoa de 2015, em Caux, na Suíça, teve como tema “Dareencarnação à transfiguração”. Um assunto realmente interessante! Na mesa-redonda deabertura, os jovens fizeram questão de dar sua opinião a respeito do tema e de compartilhar seuspontos de vista. Um encontro verdadeiro, apropriado, incentivador, em linguagem clara e com umamensagem clara:12 pentagrama3/52/0210515
JOVENS ROSACRUZES EM CAUX 2015“Um caminho de saída desta escuridão consiste em afastar o foco de tudo que é mau e negativo,e voltar-se para a luz. Então podemos ver que o caminho pode ser uma senda cheia de luz, alegriae profunda ligação espiritual com os outros. O que conta é o foco. Quando nos concentramos naluz, a vida se torna mais brilhante e fácil. Não se trata de uma esperança, mas sim de uma certeza,e pode crescer em cada um de nós. Em nossa vida diária, podemos nos esquecer muito facilmentedisso.[…] Volte-se para a luz e você receberá luz. Saiba que tudo é exatamente como deveria ser, enunca se esqueça de que você não está sozinho nas lutas desta vida. Olhe ao seu redor. Você nãoestá sozinho.“ imagens do mundo: jovens rosacruzes em caux 2015 13
explorar os limites paraconquistar sua liberdadeNão há nada mais seguro para uma criança do que os braços plenos de afeto que a rodeiam!Mas há momentos em que a mãe precisa “deixar a criança de lado”. Ao ficar sozinha é que sualiberdade começa. A criança parece vaguear pela imensidão de seu berço. Mas ela não tarda adescobrir que tem força para chegar até a beirada, onde vai bater com a cabeça e se machucar.Isso talvez a faça lembrar das paredes do útero. Estaria em busca do conhecido, da sensação defronteiras seguras? “Eu percebo os limites, portanto, eu sou...”EM CASA Terminada a fase horizontal, seja NA SALA DE AULA Os bracinhos roliços e as mão- ficando de costas ou de barriga para baixo, zinhas ficaram mais firmes, com ossos mais enrije- o mundo do berço se amplia para a sala de cidos, e se exercitam com uma delicada atividadeestar, depois para o corredor, a escada... É fascinan- motora. Que mudança! O moleque que faziate ver como a criança, plena de confiança e alegria, buracos na areia molhada com as mãos mexendoparte em busca da descoberta desses ambientes, a lama de uma poça com um pedaço de madeira,engatinhando de início, depois em pé. Ela exploraseus limites e os transpõe: tanto os seus como osde seus pais. A criança parece motivada pelo desejonatural de descobrir, para poder aprender e cres-cer. Os pais também fazem as suas descobertas equerem preservar e proteger seus filhos. “Cuidado!Não faça isso!”...Mas onde está a confiança? Por que o medoconstante de que a criança caia, se machuque ouadoeça? O pediatra vai dizer: “Permitam que ascrianças vivenciem essas experiências, mesmo quesejam dolorosas.”AO AR LIVRE A família está na praia. Que diamaravilhoso de sol, construindo castelos de areiae juntando conchinhas! De repente, um susto: opequeno sumiu! Primeiro, um olhar para os lados,um chamado... E, finalmente, o pedido de socorroao salva-vidas. Com sua voz tranquila, ele diz:“Vamos procurar na direção contrária ao vento”.Por que isso? “Porque a resistência do vento dá àcriança a sensação de segurança do limite. Se elasegue a favor do vento, tem a impressão de estarsendo levada e fica com receio de desaparecer.” E,realmente, não demora muito até a criança ser en-contrada, um pouco afastada, com os pés descalçosna areia, despreocupada, de frente para o vento.14 pentagrama3/52/0210515
EDUCAR CONSISTE EM DAR ESPAÇO, QUANDO POSSÍVEL,E ESTABELECER LIMITES, QUANDO NECESSÁRIOJozef Israëls, Enfants de la mer (Filhos do mar), 1872, © Rijksmuseum, Amsterdã explorar os limites para conquistar sua liberdade 15
Expirar – dar espaço para a criança explorar,cair e levantarInspirar – colocar limites e confrontá-loslogo vai se esforçar para colorir e desenhar dentro Eufóricos com a chegada da criança ao mundo,de traços finos. O que os adultos vão dizer? os pais querem educá-la com base na respiração.Se ele for bem sucedido, será elogiado. E, con- Expirar: dar espaço para poder explorar, ser exce-tudo, quanta restrição, quanta limitação! Será que, lente e brilhante, para alimentar desejos e sonhar,quando crescer e virar adulto, ele terá a ousa- para cair e levantar. Inspirar: dar limites, cuidar dadia de sair dos caminhos batidos e pensar por si segurança, tornar as exigências claras por meio demesmo? repreensões e confrontações, permitir que ela se questione sobre si mesma.ENTRE OS COLEGAS Quando olha para os cole-gas, acha todos parecidos. Eles não sabem o que COM OS PAIS Mas, na prática, os pais se dão contafazer com pernas e braços tão compridos; não do quanto isso é difícil. Eles querem preservar seuandam direito: arrastam os pés; ao invés de se filho... De quê? Daquilo que eles têm medo? Massentarem, eles se jogam na cadeira ou no chão. o medo é desconhecido daMesmo que ainda sintam vontade de subir em criança, ela está (temporariamente) protegidauma árvore para construir uma casinha, decidida- disso. Ela está aberta para a vida. Para ela, a vida émente já não é com isso que eles se preocupam. uma grande aventura, uma viagem de exploração.Eles estão teclando seus smartphones, onde quer Para se lançar em sua jornada, ela dispõe, comoque estejam.Todo mundo consegue falar com eles bússola, dos sentimentos e da intuição – e não dapelo telefone a qualquer momento, menos seus cautela ou do desejo de evitar riscos. Se ondaspais! Os amigos: isso é o que importa! Se por um enormes surgem pelo caminho: “Legal! Não selado estão envolvidos com as coisas que não são preocupe, mãe. Não fique nervoso, pai: é a minhaditas claramente e com os códigos confusos das vida, me deixe correr riscos!”.redes sociais, por outro lado desejam tanto con- Os pais continuam perplexos; poderíamos dizerquistar a liberdade pessoal que, para chegar a ela, que os papéis se inverteram.se revoltam contra tudo o que limita suas pos- As inúmeras perguntas que a criança tinha antessibilidades de expressão. Na verdade, ficar te- se voltam para eles agora. E eles se questionam:clando no celular pode ser apenas uma forma de onde foi parar nossa coragem para vivermos nos-afastar o caos que circula em suas mentes. sas escolhas? Estamos mergulhando no interior16 pentagrama3/52/0210515
de nosso ser para descobrir nossa mais profunda derava restritivo, segundo seu modo de ver. Ape-aspiração? Nós a seguimos? Não nos deixamos sar de ainda estar ligado ao grupo de amigos, eleprender na pegajosa teia social com todas as suas opta por um caminho cada vez mais pessoal: umobrigações e aborrecimentos? Não temos sido caminho que vai de fora para dentro. Com isso, oimpelidos pelo medo, a ponto de nos rastejar? E jorro de palavras cede espaço ao silêncio emanadoagora: chegamos ao limite daquilo que podemos por um lago.fazer? Ousamos abandonar a segurança (aparente) De uma forma ou de outra, parece que ele see arriscamos perder o controle de nossa vida? torna cada vez mais ele mesmo. A pessoa que eleOusamos abrir as asas, nos esquecermos de nós carregava secretamente em seu interior se mostramesmos de vez em quando e nos entregarmos cada vez mais distinta.àquilo que é ilimitado?É aí então que os pais percebem: eles respiravam EM TUDO Mais do que nunca, os pais sentem-por seus filhos. Eles os cobriam com suas inspi- -se ligados a esse jovem ser, mas não tanto pelorações e expirações, e também com seus limites vínculo sanguíneo, como pai e mãe, e sim pelapessoais. Naturalmente, eles expiravam também alma. É que o anseio de liberdade do adolescenteseu próprio anseio de liberdade. Nesse campo de tornou visíveis e sensíveis os limites e restriçõesrespiração criado pelos pais, existia certa sincronia dos pais..com a criança. Mesmo que isso fosse indispensável, No momento em que a alma buscava um corpo,será que não havia algo mais do que a liberdade havia uma razão para ela entrar neste mundo porde simplesmente respirar? Na verdade, daquilo que intermédio de dois adultos e poder respirar juntovem do ilimitado, inspiramos apenas o que cor- deles durante um tempo. Os pais e o filho estãoresponde a nosso ser; em seguida, o expiramos de envolvidos na mesma aventura, na exploraçãoforma muito restrita, sem grande convicção. desse Outro que respira em seu interior: o Ser verdadeiro. Quando esse Ser, muito sutilmente,Desse modo, nossa respiração, nosso fôlego, nosso respira pela primeira vez e solta seu grito de re-alento, estão carregados de boas intenções – e nascimento, o que tem início é simplesmente extra-também de preocupações e temores. Mas como fa- ordinário. O infinito começa a pulsar no coraçãozer, então, para respirar de maneira incondicional, dessa criança e ela procura dissipar continuamenteno âmbito ilimitado de um alento inflamado por o que lhe parece limitado. Assim, torna-se possíveltodas as possibilidades? tudo criar, tudo abarcar e tudo dissolver.µEM SI MESMO Chega um momento em que ojovem tem coragem suficiente para transpor,mesmo que por um instante, tudo o que consi- explorar os limites para conquistar sua liberdade 17
o ponto únicoPouco a pouco nos familiarizamos com a ideia de que a matéria nãoé sólida, porém energia. Para muitos isso permanece um conceito tãoabstrato quanto a teoria de que a terra gravita ao redor do sol porqueo vemos diariamente se elevar a leste e se pôr a oeste, como se fosseele que girasse em torno de nós.Da mesma forma, nossa experiência con- tinua nos dizendo que tanto a cadeira como nosso corpo, sentado em cima dela,são sólidos.Ter nosso centro de gravidade bem lo-calizado no espaço é algo que nos dá estabilidade.A teoria de partículas, com nomes exóticos como“quarks” e “neutrinos”, assim como a teoria das“cordas” são aproximações científicas de um mis-tério profundo. Sem dúvida, essa é a razão pelaqual elas fazem parte do campo da pesquisa bá-sica. Essas partículas, consideradas conceituais, nãodesignam partículas sólidas: na verdade, podemosconsiderá-las uma energia luminosa, embora hajavárias interpretações a esse respeito.Fala-se também da teoria quântica e da incrívelrelação instantânea ou entrelaçamento entre aspartículas subatômicas.A ciência básica de nossos dias é apaixonante paraquem se sente um pouco limitado pelo conceitotradicional da massa do corpo sobre uma cadeira.Se deixarmos de lado a base da ciência clássica,que considera que existe um sujeito que buscae que há um objeto a ser examinado, a Física dehoje pode propor uma visão não dual. Alguémpoderia dizer que a separação está sempre pre-sente, mas sabemos agora que as conclusões deexperiências dependem do ponto de vista decaausa sem causa18 pentagrama3/52/0210515
quem faz a experiência.O objeto observado pode apresentar-se ora sob aforma de partículas ora como energia luminosa:os dois aspectos não podem ser visto ao mesmotempo. O mistério nos arrasta ainda mais longe,rumo ao desconhecido: realmente, verificamosque o observador determina e influencia a obser-vação. Nesse caso, será que a observação propria-mente dita continua existindo? E, se efetivamentehouver observação, onde ela acontece? Por outrolado, a consequência prática da ausência de obser-vação poderia ser aceita por nós? O que apresen-taremos em seguida talvez possa ajudar-nos nessenosso artigo tão intrigante.SEM MASSA E SEM ESPAÇO Na medida do possível,imaginemos o vazio – não somente um vácuo nointerior de um espaço, mas sim como o Ungrund*dos místicos: ou seja, aquilo sem fundo, sem base,sem fundamento, sem causa. Digamos que eleseria um nada em torno de um centro imaginário,sem massa, e, portanto, não está sujeito nem àgravidade, nem à inércia, nem às limitações davelocidade da luz que conhecemos em nosso uni-verso espaço-temporal. Esse algo indeterminadopode deslocar-se a uma velocidade infinita semviolar nenhuma lei da Física. Isso significa que o ponto único, adceauzseavesenmschcaoulesna 19
O vazio é forma, a forma é vaziapode ser e estar simultaneamente em toda parte e Deixemos que a ideia dessa partícula nos pene-em parte alguma! tre, mas sem querermos capturá-la – a ideia dessaAlém disso, nessa concepção, nosso corpo, ou partícula que é apenas uma. Desse modo, colo-um prato, que parecem ser constituídos por um camos de lado nossos companheiros que são onúmero imenso de partículas que tomaram forma, mental e o sentimental. Afinal, aqui a inteligêncianão passa de uma única partícula deslocando-se das palavras e das imagens não nos deixa seguirem uma velocidade tão vertiginosa que poderí- adiante. Em compensação, descobrimos nas en--amos dizer que ela reaparece continuamente ao trelinhas e em alguns termos utilizados que nãolado dela mesma. é a personalidade que é primordial, mas sim esseEm resumo: aparentemente, tudo parece ser cons- algo sem massa, essa “não partícula” intangíveltituído de várias partículas, mas, na realidade, há que é nosso insondável ser essencial! Coloquemo-apenas uma – a partícula fundamental, que percor- -nos por um instante nesse Ser para imaginar quere um caminho geométrico sagrado através de um os fenômenos, ao invés de serem gerados por algo,vácuo sem espaço nem tempo. É nela que todos não são gerados por nada.os fenômenos do passado, do presente e do futuro Na verdade, como objetos, todas as coisas nãoacontecem uns dentro dos outros e surgem no passam de um fenômeno aparente.mesmo instante atemporal. E isso vale dizer que Essa partícula que não é partícula, como uma fon-todos os átomos que compõem nosso corpo, assim te de criatividade em potencial, cria tudo em umcomo os átomos da Terra e dos astros do Universo, único instante. Ora, se a fonte é a origem de tudomanifestam-se graças a uma única partícula, que é que se manifesta e de tudo que virá, isso tambémidêntica a si mesma. é válido para personalidade espaço-temporal.Esse algo ou essa “não partícula” é a força de vida Porém a fonte permanece sempre, no exterior, aque gera o que deve vir a ser. Ele não tem pas- causa sem causa.sado, nem futuro, nem é limitado por um espaço Portanto, é apenas aparentemente que o tempopreciso. A criação, em cada momento aparente, e o espaço surgem no interior do Absoluto e,renova-se. Assim, a cada instante tudo o que foi assim, se ligam ao nosso eu e à nossa vida pes-criado é recriado. soal. A vivência desse algo que nos parece sempre novo na linha imaginária do tempo vem do fatoA FONTE INSONDÁVEL É bem possível que, ao ler de nosso eu não estar preparado para situar-se naisto, tenhamos uma reação de espanto ou incredu- atemporalidade de nosso ser essencial, que é eter-lidade, mesmo apesar de termos passado algo mais namente novo. A razão lógica pode tomar conhe-nas entrelinhas. E então: será que precisaremos -cimento de tudo isso como se fosse uma teoriamergulhar no nosso mental para tentar enxergar – mais uma! – mas sem captar-lhe a essência.mais claro? Como este artigo poderá iluminar-nos? Por mais lógica que seja, uma teoria sempre será20 pentagrama3/52/0210515
uma teoria. Por outro lado, a consciência racional sidade de ser. Hermes define o Um como “umsuporta apenas algumas adaptações mínimas e círculo sem circunferência, cujo centro está emapenas pode vivenciar o sempre novo como uma toda parte”.experiência linear – portanto, como tempo – sem Como um centro determinado diz respeito a umarealmente captar-lhe a imediaticidade. circunferência – e portanto a uma limitação – Hermes está falando sobre ubiquidade. Esse ponto,UM UNIVERSO OSCILANTE Descobrimos, por ou esse centro, está no centro de todas as coisasexemplo, a concepção bem antiga do universo e é sua essência. Esse Um incognoscível é a fonteoscilante, segundo a qual ele e tudo o que ele de toda a vida. Ele é o Ser, ele é Deus. O sercontém desaparecem e aparecem a todo instante. humano também é Isso, que é nosso ser mais pro-Os sufis Shabestari e Ibn ‘Arabi falam a respeito fundo. Porém, como nossa racionalidade comumdisso; e Jami, em seu Tratado sobre o sufismo, diz o vivencia essa profundidade como um vazio, o vá-seguinte: “Este universo está sempre se renovando cuo de um abismo profundo, ela recua. Mas o quea cada instante, a cada respiração. A cada momen- pode ser sentido de início como medo poderáto um universo deixa de existir, e outro parecido dissolver-se na alegria, no amor pela vida quecom ele toma o seu lugar – mas os homens, em jorra sem parar da fonte insondável. Esse medosua maioria, não conseguem perceber isso. A rapi- parece uma cãibra paralisante, que nos faz manterdez desses fenômenos sucessivos engana o obser- distância a fim de manter tudo sob controle, atévador e o faz acreditar que o Universo tem uma mesmo com certo sentimento de aversão.existência permanente”. Resultado: essa separação que sentimos entreAs ondas e o oceano são inseparavelmente um. É “minha vida e eu”. A vida, tão próxima, já nãoShabestari quem nos diz: “A eternidade e a tem- pode ser percebida como real por causa dessaporalidade não são coisas separadas; um rochedo separação. Por outro lado, por meio de homensque cai no oceano produz ondas; o relativo surge completamente realizados, a vida que jorra dasdo absoluto e volta novamente a ele. De modo profundezas é a força que traz em si, amorosa-semelhante, vemos as três letras A-U-M como a mente, tudo o que se manifesta. A tradição esoté-criação, a manutenção e a dissolução no oceano rica diz que do AUM procedem sete correntes deinfinito”. raios criadores originais que se desdobram naNa tradição cristã o mesmo é dito da seguinte criação de acordo com uma regra áurea. É o queforma: “De mim – por mim – rumo a mim”. nos permite falar de um caminho geométrico sagrado percorrido por essa “não partícula”.Tam-SIMPLICIDADE O divino surge em uma multipli- bém poderíamos imaginar esse caminho como ocidade infinita, mas sem ser complexo ‒ somente anel de um campo toroidal no qual tudo o quehá o aqui e agora, e somente o Um tem neces- surge do turbilhão central volta a ele.Também o ponto único, a causa sem causa 21
O interior do acelerador de partículas do CERN (Conseil Européan pour la RechercheNucleaire – Conselho Europeu para a Pesquisa Nuclear), em Genebra, na Suíça (CH)poderíamos falar do coração pulsante de Deus. análise de J. van Rijckenborgh, Lectorium Rosi- crucianum, São Paulo, 1989, 1.ª ed, p. 52).“DEUS QUER A EXISTÊNCIA E ELE É A EXISTÊNCIA” Em resumo: Hermes também nos ensina queSobre essa afirmação Hermes diz que é preferí- a fonte não é algo do qual outra coisa pudessevel afirmar que Deus “não tem todas as criaturas proceder, nem no interior da qual algo aparece-em si, senão que em verdade Ele mesmo é todas ria, pois nesse caso toda a existência não passariaelas! Porque Ele não as acrescenta em si mesmo de dualidade, à qual a consciência racional tantode fora, porém as gera de seu próprio ser e as gostaria de reduzi-la.manifesta em si mesmo. E eis agora a percepçãoe a atividade do pensar de Deus: a movimentação A PARTÍCULA-EU Em meio a tudo isso, a persona-ininterrupta do Todo; e nunca haverá um tempo lidade, com sua consciência racional, comporta-em que algo do que existe (isto é, que faz parte se como uma partícula separada, mesmo nãode Deus), se perca. Porque Deus tudo mantém o sendo. O que vemos de tudo isso não passaencerrado em si, nada há fora dele, e Ele está em de um jogo inconsciente de uma partícula-eutudo” (Corpus Hermeticum, décimo primeiro caricatural. Cada pessoa é bastante única. Apa-livro, versos 23–24, em A Arquignosis Egípcia 3, com rentemente, o “nada” torna-se “algo”, em uma22 pentagrama3/52/0210515
O universo surge como a dança proveniente do coração de Shiva,quando ele recolhe a dança em seu coração, o universo desaparecepluralidade de pessoas, escravas desse “algo”, o criação, é imortal segundo seu ser essencial inte-que vem a ser uma corrupção muito pessoal da rior. Essa centelha acende o fogo da consciência.qual cada um de nós pode livrar-se. Portanto, não Dizer que a partícula é o eu absoluto incognoscí-podemos responsabilizar uma suposta unidade por vel é também dizer que o fogo da consciência é onossas projeções sobre esse “algo”. Então, como “eu sou”. A esse propósito, na tradição do cristia-poderemos imaginar o fenômeno do eu em um nismo interior, trata-se da alma-espírito, do Filhocontexto mais amplo? Sobre isso, Hermes afirma: e do Pai.“o mundo é a primeira criação; após o mundo, ohomem é o segundo ser vivente, porém o primei- A ENERGIA DAS PARTÍCULAS Quando a centelharo entre os mortais. Com os outros seres viventes, é inflamada e se torna um fogo da consciência, éele tem o elemento animado em comum” (Cor- inflamado um fogo da alma que anima a persona-pus Hermeticum, décimo segundo livro, verso 35, lidade. Seguindo nosso pensamento, consideramosibidem, p. 137). esse fogo a energia de uma partícula na qual aNo verso 65, Hermes fala a respeito da comu- regra áurea evocada anteriormente conduz o todonidade das almas, dos deuses, dos homens e das à manifestação.Vejamos aí o Espírito renovador,entidades desprovidas de razão. Para resumir, pois ele provém da imediaticidade. A tradiçãopoderíamos dizer que há dois fenômenos (ou fala dele como Espírito santificador. Quandomanifestações) que são animados: a natureza e o Cristo diz: “Eis que faço novas todas as coisas”,homem. Cada grupo de fenômenos da natureza ele convida cada um a acolher esse Espírito e setem uma alma central ou “alma grupal”. Quanto tornar imediatamente consciente no novo. Esseao homem, ele é provido de uma alma individual. Espírito se revela em homem perfeito, ou seja,Para voltarmos à partícula do início, digamos que em homem no qual ele pode tremeluzir nos trêsela gera uma centelha que dela se separa, ao mes- níveis: espírito, alma e corpo. Esse espírito é omo tempo em que é e continua sendo indissolu- Ser “que caminha”, a Vida realmente vivente. Emvelmente essa partícula em si mesma. Portanto, a uma alma que se identifica com a personalidade,partícula cinde-se na aparência e torna-se plural: o fogo da consciência já não pode iluminar a almaela torna-se o gênero humano no qual cada um diretamente; a natureza se incumbe de mantê-lodispõe de sua própria parcela da centelha original. animado. É em tal personalidade que desenvol-Assim, cada homem, como potencial divino de vemos uma consciência racional, que nos dá uma o ponto único, a causa sem causa 23
imagem limitada do mundo. sentido absoluto, a concepção dos mundos parale-Eis por que, no aparente isolamento de uma partí- los ou “matrizes” não é adequada.cula-eu, com base na vivência desse eu, surge uma Do ponto de vista da personalidade, o estado deangústia inconsciente sobre o que está realmente separação no espaço-tempo é uma realidade devivo dentro dela. fato; mas, do ponto de vista do Absoluto, não é.A vivência do mundo não é uma questão pessoal: Se não enxergamos todos os corpos celestes, éela é universal! Na consciência pura, os objetos porque somente percebemos as coisas no interiorentram sem nenhum condicionamento e mantêm de determinada dimensão; porque estamos ligadossua qualidade. A experiência e o objeto mantêm àquilo de que temos consciência, por uma espécieuma abertura; portanto, eles não são determina- de relação íntima, como a de uma família. Masdos pelo mental: são sempre novos, são uma só não deixemos que a lógica racional e a crença emmanifestação na imediaticidade. Portanto, não é um discurso nos façam de reféns. Reflitamos: sea personalidade, mas sim a pura consciência que o nada já não está velado, onde está o paradoxo?cuida de tudo. Onde devemos situar o pensamento de sermosHá uma consciência única e, ao mesmo tempo, a um eu isolado? Onde está a energia virginal?vivência do mundo! Isso nos permite compreen- Sem distinção, a essência sempre gera a vida – eder que não há uma inteligência que dirigiria vida é amor. A essência está sempre reunindo otudo do exterior, mas sim uma inteligência que que está aparentemente separado. Ora, como aestá presente em tudo. A Física atual afirma o união das coisas, no estado de unicidade, é umaseguinte: “energia é inteligência, e inteligência é impossibilidade, fica claro que a partícula inde-energia”. Isso atrai nossa atenção para o fato de terminada é, em tudo, o Eu absoluto. Da mesmaque corpo e alma são capazes de autorregular-se forma, a imagem utilizada anteriormente (“voltare de autocurar-se, e nós podemos confiar neles! a si”) não passa de uma imagem, pois a quem eu poderia voltar? Eu mesmo voltaria a mim mesmo?A UNIDADE INEVITÁVEL Como todas as partículas O absoluto e o manifestado estão unidos por umaestão inseridas umas nas outras, a unidade não dança amorosa que ultrapassa nossa capacidadetem absolutamente a aparência de uma coleção. de compreensão, pois não há duas partes que seIsso também vale para a humanidade, que é, amam: há tão somente o amor. µsomente na aparência, uma coleção de partículasdivinas. Mesmo quando a consciência racional *Ungrund: Sem-fundo. Mestre Eckhart (1260–1328) refere-se ao Grund ohnepensa que há dois mundos – o seu e o outro, omundo divino – e quando ela projeta ou imagina Grund: literalmente a “causa-sem-causa”. Baseado nesse conceito, Jacob Boehmeuma pluralidade de mundos, isso somente acon-tece em uma manifestação. E também, em um (1575–1624) utiliza o termo Ungrund. Segundo ele,“O Ungrund é um eterno nada”,“o sem princípio nem fim”, que caracteriza Deus. Em alemão Ungrund significa “sem fundo, sem base, sem fundamento, sem causa”.24 pentagrama3/52/0210515
JOVENS ROSACRUZES EM CAUX 2015Citação de um serviço templário em Caux:“A palavra ‘Sünde’,‘pecado’, é derivada da palavra‘Sunta’, do alemão antigo, que quer dizer ‘ser falso, negar’. Na verdade, há apenas um pecado –afastar-se da Luz”.Os serviços foram diferenciados, elaborados com clareza, bem coordenados e destinados a jovens.Vários tipos de realidade foram descritos. Por exemplo: duas pessoas podem estar no mesmocomprimento de onda e ter pensamentos iguais simultaneamente, pois a separação não constituibarreira alguma quando se trata de unidade. Com certeza não há separação em relação a Deus,pois Ele está sempre em você. Assim como os jovens aprendem desde cedo:“O Reino da DivinaLuz está no imo em vós!” (Hino Templário da Mocidade 44). imagens do mundo: jovens rosacruzes em caux 2015 25
a redescoberta dagnosis V (final)Quando o livro Ecos da Gnosis foi publicado em holandês, realizou-se uma palestrapública, em 6 de novembro de 2013, na livraria Pentagrama de Haarlem, na Holanda,com o título:“Por que George Robert Stowe Mead pode ser chamado de ‘o primei-ro gnóstico moderno`”.A seguir, exporemos a quinta e última parte dessa palestraque traçou brevemente a história do acolhimento que a Gnosis recebeu no Ociden-te, nos mundos científico, intelectual e esotérico.Para realmente termos acesso à rica diversi- nha de uma fusão de tendências complementares, dade das inúmeras correntes dos mistérios tanto cristãs como não cristãs, de grupos entre os do início de nossa era, Mead criou sua chave quais não havia qualquer barreira. Explica-se: foide compreensão a partir da lucidez de sua visão somente mais tarde que a Igreja de Roma im-pessoal, inteiramente impregnada por seu trabalho pôs seu poder tanto sobre a Gnosis pagã quantopioneiro como teósofo. Contrariamente a tudo sobre a Gnosis cristã. A destruição da bibliotecao que surgiu no trabalho dos especialistas reali- de Alexandria e a proibição da livre circulação dezado anteriormente, Mead soube conservar uma textos considerados heréticos foram perfeitamentevisão de conjunto a respeito dessas correntes tão convenientes para a estratégia da Igreja de Romadiversas. Ele estava preparado para fazer a ligação para impor silêncio a todas as opiniões dissidentes.entre elas porque ele via como tudo se ajustavaem um sublime plano de libertação para resgatar A GNOSIS AUTÊNTICA É TEOSÓFICA No entanto,o ser humano perdido neste mundo, em busca da Mead foi um dos primeiros entre os primeiros averdade sobre suas origens, sua existência e suas libertar o gnosticismo de toda e qualquer estigmapossibilidades de desenvolvimento. Mead estava de heresia identificando sua originalidade ca-apto a compreender, a partir do interior, como racterística. Ele pode fazer isso porque ele própriotodos esses aspectos dessemelhantes formavam as havia conseguido escapar do domínio eclesiásticofacetas de um único caminho iniciático e não um para se devotar ao verdadeiro cristianismo.caos de sincretismo que só serviria para obscure- Em uma declaração de princípios registrada nocer a verdade. De acordo com ele, não poderia livro The task ofTheosophy (A missão da Teosofia),haver divergências fundamentais entre textos Mead afirma que os gnósticos formaram “as pri-herméticos e neoplatônicos, entre os mistérios meiras escolas iniciáticas dos verdadeiros cristãos,órficos e mitríacos e os oráculos da Caldeia, entre o que é compreensível para o teósofo que aceitaas mensagens evangélicas dos ebionitas e os textos familiarizar-se pacientemente com sua termino-mandaicos, entre o modo de vida dos essênios e o logia, pois a verdadeira Gnosis é Teosofia1.” Alémdos maniqueus, entre as cosmologias dos setianos disso, Mead foi bastante corajoso ao seguir contrae dos ofitas e do ponto de vista de Hermes. Exa- a corrente das ideias de seu tempo. Nessa época,tamente onde outros pesquisadores fracassaram em 1924,Walter Scott escreve sua tradução dena complexidade das origens e procuraram em Hermética, onde compartilha a opinião de quevão as relações de causa e efeito e as influências o hermetismo não deveria, de modo algum, terrecíprocas entre as diversas correntes gnósticas, qualquer relação com uma história egípcia ante-ele percebeu uma grande corrente subterrânea, rior, pois ele questionava “... se, no hermetismo,gnóstica, subjacente. Não havia qualquer unifor- há algo que seja derivado de uma religião egípciamidade no cristianismo original, pois este provi- original”, e afirmava: “No início dos ensinamen-26 pentagrama3/52/0210515
GEORGE STOWE MEAD, O PRIMEIRO GNÓSTICO MODERNOtos bem definidos não há quase nada e, propor- perspectiva da chave que dá acesso à sabedo-cionalmente, o que vem do Egito é mínimo na ria egípcia, a explicação da manifestação à luzdoutrina hermética, pois o essencial foi tomado de uma concepção límpida do cosmo. (...) Es-de empréstimo da filosofia grega2”. ses mistérios são de uma força e de uma belezaOra, nós sabemos que essa opinião é baseada em que até mesmo a mais vergonhosa falsificaçãoteses anteriores de Isaac Casaubon, o estudioso dos textos por desconhecidos não pode fazerlondrino que, sem mais nem menos, rejeitou a desaparecer completamente. Mesmo quando – etese da antiguidade real do hermetismo conside- esse é um modo de falar – eles se apresentam emrando-o uma falsificação tardia – e, desse modo, fragmentos, quando sua veste original era cer-jogando o jogo dos interesses da Igreja. tamente magnífica, os textos sempre podem serDurante o glorioso período do reinado de Elisa- reconhecidos por aqueles que têm olhos para verbeth I, caracterizado por grande desenvolvimento e ouvidos para ouvir4.”do pensamento hermético, a Igreja quis erradicaressa época da memória. Portanto, não devemos O SIGNIFICADO DA GNOSIS De qualquer modo, onos espantar com o fato de que Scott nem sequer trabalho de Mead acabou sendo reconhecido e étenha feito menção à magnífica tradução de Mead graças às suas traduções que podemos constatar odatada de 1906. quanto esses textos são incrivelmente modernos,Mead não compartilhava da opinião de Casaubon concretos e quantas coisas nos dizem. Por issoquanto a um hermetismo exclusivamente prove- não é de espantar que J. van Rijckenborgh tenhaniente do neoplatonismo. Para ele, o hermetismo utilizado tanto as traduções de Mead e ao seguirbaseava-se em uma antiga tradição egípcia; e essa seus rastros tenha se sentido autorizado a falar aopinião desafiava a tese de Casaubon. De acordo respeito da “Gnosis egípcia original e seu cha-com Mead, “quanto mais estudamos o que há de mado no eterno presente”.melhor nessas exortações místicas – e fazendo o Se houve um pesquisador, tradutor e analista quemáximo possível para não ter nenhum preconcei- compreendeu o significado da Gnosis exatamenteto –, num esforço sincero para partilhar do senti- como Quispel descreve esse sentir –, realmentemento dos autores, mais conseguimos nos aproxi- essa pessoa foi George Mead que, com suas obras,mar da consciência de estarmos no limiar daquilo trouxe luz à herança completa do pensamentoque supomos ter sido o verdadeiro adytum3 (o gnóstico e hermético e a colocou à disposiçãolocal mais sagrado, interditado ao público), do que de todos os que viriam depois dele. Essas obrashá de mais sublime nos mistérios da Antiguidade. são: Thrice greatest Hermes (Hermes, o três vezesSão inúmeras as referências à grandeza e ao grande), Fragments of a Faith forgotten (Fragmentoscaráter imensurável do que existe para além desse de uma fé esquecida), e, principalmente Echo’slimiar. Entre muitas ideias admiráveis, há uma from the Gnosis (Ecos da Gnosis), e também a a redescoberta da gnosis V 27
Como para ele a Gnosis não pertencia a um passado longínquo,ele atualizou essa sabedoria dos mistérios para todos os quesentem afinidade com elamagnífica tradução do Evangelho da Pistis Sophia. sis poderá constatar que é um texto sempre novoMead realmente conseguiu abrir, para os ver- e atual. Quem poderia se arriscar a dizer quedadeiros buscadores, os “iniciados”, os selos da esses textos sejam desatualizados embora tenhamcâmera do tesouro da Luz, onde a antiga sabedo- sido escritos há mais de um século?ria dos mistérios esperava sua descoberta há tantotempo. Ele pode fazer isso porque havia percebido PARA COMUNS MORTAIS A partir de Mead, é ób-que os documentos gnósticos e herméticos foram vio que houve uma guinada. Se H.P. Blavatsky foiescritos em linguagem iniciática dirigida a “es- a primeira a mencionar a tradição gnóstica a umtrangeiros” e “que somente poderia ser desvelada público mais amplo, Mead, por sua vez, trouxepor aqueles que fossem dignos dela”. uma mensagem impregnada de gnosticismo. EleComo Mead era capaz de ler essa linguagem, não se limitou a reconhecer o caráter teosófico dapode aprofundar-se e traduzir esses textos sem verdadeira Gnosis: graças a ele, a visão teosóficaser barrado pelas fronteiras do espaço e do tempo foi elevada à altura de sabedoria gnóstica autên-que nos separam delas. Ao mesmo tempo, seu tica.modo de traduzir aproximou essa linguagem da Para confirmar o que afirmamos, vamos citá-loexperiência atual de cada um de nós. Ao con- mais uma vez quanto à sua definição do objetivotrário dos eruditos e cientistas que, antes dele, a sobre o qual toda a sua vida espiritual giraria. “Aconsideravam algo distante das pessoas, distante meta buscada pelo místico honesto era a de fazerdos “profanos”, para ele a Gnosis não pertencia a nascer seu próprio corpo cósmico autêntico e,um passado longínquo, encerrado no interior de portanto, tornar-se um deus. Em outras palavras,uma língua morta. Por isso Mead atualizou essa a meta seria a regeneração de si mesmo, pas-sabedoria dos mistérios e tornou-a positivamente sando pela indispensável experiência prévia dalegível para todos que sentem alguma afinidade travessia de todos os estágios da cosmogênese emcom ela e podem abrir-lhe o coração. Assim, sua própria natureza. (...) Hoje, assistimos a umele não somente conseguiu oferecer uma visão renascimento da consciência cósmica. Isso nãolímpida e compreensível dos textos-fonte como tem nada de novo: trata-se do velho, do antigotambém deu sua própria expressão, fluida, cinti- segredo. Para ter uma consciência cósmica, paralante, despojada, impregnada de gnosticismo. estar em contato com a grande Alma do Todo,Quem ler ou reler os dois tomos de Ecos da Gno- é preciso que o ser humano gere em si mesmo28 pentagrama3/52/0210515
um organismo cósmico – e, assim, aos poucos, ele vel fazermos ressoar, com força, precisamentepermite que o Homem-Deus nasça integrando-se nesta assembleia, os Ecos da Gnosis? Agora que aao poder do pensamento divino”. ironia da História quis que fossem desenterradas das areias poeirentas onde elas jaziam, esquecidas,O PRIMEIRO GNÓSTICO MODERNO Isso mostra mesmo depois das descobertas de Nag Hammadi?como Mead, como um gnóstico contemporâneo, µestava preparado para lançar uma ponte entrea antiga e a nova sabedoria dos mistérios. Ele Nota:tornou a sabedoria antiga acessível ao ser hu- 1. Lúcifer N° 8, pp. 477-480mano gnóstico atual. Isso somente foi possível 2. Hermética, p. 34; 41porque ele próprio era um iniciado que estava 3. O adytum representa a “porta da libertação”:aplicando os preceitos antigos em seu próprio “E essa rosa, como um coração renovado,discipulado. Se é verdade que ele sempre encon- manifesta em toda a sua belezatrava as palavras exatas e atuais, também é ver- o mistério do adytum,dade que, para ele, era importante, antes de tudo, o mistério do sacrário do coração”.de não se apegar a elas. É por essa única razão, e Rijckenborgh, J. v e Petri, C. O mistério do ádito. In O Caminho Univer-somente por ela, que é absolutamente justificável sal. São Paulo: Lectorium Rosicrucianum, 1984, p. 27-34.que G.R.S. Mead seja chamado de “o primeiro 4.“Revista Teosófica”, pp. 233-242gnóstico moderno”. Como ele ficaria feliz emsaber que, apenas pouco mais de dez anos depoisde sua morte, as areias egípcias iriam ainda liberarmuitos segredos mais, que permitiram à Gnosiscaminhar diretamente para o triunfo! Além disso,pouco tempo depois, uma nova escola de mistérioestava se preparando para se manifestar – uma es-cola na qual toda essa herança iria tomar vida, emum grupo que traçaria em comum um caminhognóstico libertador atual.No interior desse círculo, todo o trabalho deMead iria verdadeiramente ser colocado a serviçode uma maneira concreta nos comentários de J.van Rijckenborgh sobre o Evangelho da Pistis So-phia e nos textos de Hermes Trismegisto.Para concluir, não seria completamente justificá- da redescoberta da gnosis V 29
limitesUltrapassar os limites, as fronteiras, os extremos: esse é o desafio, quer seja no esporte, naaeronáutica, na ciência (médica, por exemplo), na tecnologia ou na nuvem virtual.A vida éassim; esse é o jogo. A existência terrestre está submetida à lei dos opostos: ela é uma escolade aprendizagem, porém o homem tem o espirito lento.Ele está apenas começando a perceber, ga- nhando a consciência de que, na matéria, as tando hoje em dia. Mas o problema fundamental possibilidades são limitadas. Agora, quase não seriam as fronteiras propriamente ditas?tarde demais, o homem sonha com uma explo- FRONTEIRAS TERRESTRES Quando considera-ração sustentável das matérias-primas, e está se mos a história da origem das fronteiras entre osesforçando para reduzir as emissões de Co2 e países, inevitavelmente falamos em guerras, assimdesacelerar o aquecimento global. Finalmente como explica Karen Armstrong em seu livroestá nascendo dentro dele a compreensão de Em nome de Deus – religião e violência. Na épocaque existem limites para o crescimento. Como dos caçadores, as fronteiras não tinham grandejá afirmava Lao Tse há três mil anos: o maior importância. Com a descoberta da agricultura,erro é ignorar que o excesso é o excesso. Alguns cerca de nove mil anos a.C., uma mudançaeconomistas atuais defendem uma economia decisiva ocorreu na vida das comunidades. Nosóbria. No entanto, a tendência é que os interes- Oriente Médio, os homens aprenderam a cultivarses a curto prazo prevalecem. Será que essa visão e preservar sementes silvestres. Nos tempos deainda pode ser revertida? Jericó, os armazéns de alimentos exerciam uma atração magnética sobre os nômades famintosAí estão alguns limites práticos da ecologia mun- que assim povoavam regiões áridas. A guerra sedial com os quais a humanidade está se confron- impôs então para defender as fronteiras e, mais30 pentagrama3/52/0210515
tarde, para conquistar matérias-primas. As popu- consciência humana deve ser desenvolvida. Al-lações se organizaram, elites foram formadas e se guns pensadores, alegando que tudo faz parte deampararam com excedente de produção. Nesse um grande plano, nos colocam perante a visãoremoto período da modernidade, economia e de um contexto evolutivo. Atualmente estamosreligião estavam intimamente ligadas. Quando a diante do seguinte passo: o homem vai dispôrelite no poder aderia a uma tradição ética como de um novo órgão e vai se revestir de um novoo budismo, o cristianismo ou islamismo, os reli- estrato de consciência cujo principal atributogiosos simplesmente adaptavam suas ideologias será a alma. Agora que já experimentamos sufi-de modo que elas pudessem legitimar a violência cientemente os limites da matéria, que não nosestrutural do Estado. É o mesmo fenômeno que oferece nenhuma saída, vamos começar a com-podemos observar ainda hoje. A guerra e a luta preender que essa nova forma de consciênciapela sobrevivência são partes integrantes da pode gerar a onipresença que inclui o amorexistência terrena. É a vida, é o jogo das frontei- absoluto por tudo e por todos. Essa consciênciaras, é a maneira de o ser humano agir na maté- nos permite ultrapassar as limitações e con-ria em concordância com suas leis, como a de tingências da matéria; graças a ela o homem“devorar ou ser devorado.” pode alcançar a liberdade. Nesse novo estrato de consciência, as leis da matéria já não são deter-AUTO-CONSERVAÇÃO VERSUS EMPATIA Karen minantes, pois ele sugere outros princípios, queArmstrong também explica que o cérebro mais dizem respeito a uma ordem superior e exigemantigo – o cérebro reptiliano – é o responsá- uma não-combatitividade total, muito difícil devel pela auto-preservação, para a qual todos os conciliar com nosso mundo tão limitado pormeios são bons. O segundo cérebro, que posteri- oposições sem fim. Para isso, o ser humano é so-ormente deu origem ao sistema límbico, tornou licitado a apresentar certa conduta, um modo deo homem capaz de amar e de sentir afeição por vida que se tornou possível porque ele é inspi-outras criaturas. Assim desenvolveu-se a preciosa rado por outra dimensão, que o alimenta.faculdade da empatia. Há cerca de 20 mil anos– durante o período Paleolítico – o neocórtex Falamos de uma atmosfera de ordem espiri-ou terceiro cérebro se desenvolveu. Ele é a sede tual, muitas vezes chamada de esfera crística. Sedo nosso poder do pensamento ou faculdade conseguirmos manter nossa consciência orien-do pensamento, e de nossa auto-consciência, a tada para essa esfera de bondade, de amor e deconsciência do eu, que nos permitem ter distan- unidade, é absolutamente certo que outras leis seciamento das nossas emoções primitivas, instin- estabelecerão.tivas. A conclusão de K. Armstrong é a seguinte:“Globalmente, o homem tornou-se o que ele é Qual é então essa liberdade que não conheceatualmente, sujeito aos impulsos contraditórios nenhum limite? O ilimitado começaria aí? Seja-dos três cérebros separados. O nosso neocórtex mos claros: a verdadeira liberdade só existe nanos torna intensamente conscientes da tragédia e interação perfeita com toda vida, graças ao “sim”da natureza enigmática da nossa existência.” espontaneamente consentido em tudo o que diz respeito ao desenvolvimento harmonioso doO TORNAR-SE CONSCIENTE Durante a evolução, plano interior previsto para o homem. µo ser humano adquiriu possibilidades grandiosasde consciência. Estamos no ponto em que a limites 31
o panteísmo superiorO sol, a lua, as estrelas, Deus é lei, diz o sábio;os mares, as colinas e planícies Ó Alma, rejubilemos,Não são, ó alma, Pois se ele troveja através da lei,a visão daquele que reina? o trovão é a sua voz.E a visão não é ele, A lei é Deus, dizem alguns;Aquele que não é o que aparenta ser? não há nenhum Deus, diz o louco,Sonhos são verdadeiros enquanto duram; Pois tudo o que conseguimos ver.e não vivemos sonhando?Terra, estas sólidas estrelas, este peso docorpoe dos membros,não são o sinal e o símbolode tua separação dele?Sombrio é o mundo para ti;tu mesma és a razão dessa escuridão.Pois não é ele tudo, exceto tu,que tens o poder de sentir “eu sou eu”?Glória sobre ti, sem ti;e cumpres tua desgraça,Fazendo dele um raio fragmentado,esplendor sufocado e escuridão.Fala com ele, pois ele escuta, e Espíritocom Espírito podem se encontrarEle está mais perto de tique tua respiração,mais próximo que mãos e pés. Alfred, Lord Tennyson com sua família, aprox. 186532 pentagrama3/52/0210515
é o corpo reto que dentro d’água fica The Higher Pantheism. Poesia dotorto; The Holy Grail and Other PoemsE o ouvido do homem não consegue ouvir, Alfred, Lord Tennyson.e o olho do homem não consegue ver. Londres: Strahan, 1870Mas se pudéssemos ver e ouvir,essa visãonão seria ele? The sun, the moon, the stars, the seas, the hills and the plains,- Are not these, O Soul, the Vision of Him who reigns? Is not the Vision He, tho’ He be not that which He seems? Dreams are true while they last, and do we not live in dreams? Earth, these solid stars, this weight of body and limb, Are they not sign and symbol of thy division from Him? Dark is the world to thee; thyself art the reason why, For is He not all but thou, that hast power to feel “I am I”? Glory about thee, without thee; and thou fulfillest thy doom, Making Him broken gleams and a stifled splendour and gloom. Speak to Him, thou, for He hears, and Spirit with Spirit can meet- Closer is He than breathing, and nearer than hands and feet. God is law, say the wise; O soul, and let us rejoice, For if He thunder by law the thunder is yet His voice. Law is God, say some; no God at all, says the fool, For all we have power to see is a straight staff bent in a pool; And the ear of man cannot hear, and the eye of man cannot see; But if we could see and hear, this Vision-were it not He? o panteismo superior 33
defender a verdade até amorteA data do nascimento do protestantismo não é, na verdade, 31 de outubro de 1517, diaem que Lutero afixou suas teses na porta da igreja do Castelo de Wittenberg, mas sim6 de julho de 1415 – 600 anos antes, portanto – dia em que Hus morreu na fogueira.O tenso Concílio de Constança (1414 – 1418) ocorreu com a finalidade de estabelecerJan Hus (1369 – 1415) foi um pregador caris- no âmbito da Igreja. Para isso, apoia-se nas ideias mático e popular que, a partir de 1402, fre- formuladas três décadas antes por um pregador quentemente atuava duas vezes por dia na inglês: o teólogo John Wycliffe, inspirador “silen- famosa capela de Belém, no coração de Praga. cioso” de seus escritos teológicos.Segundo testemunhas oculares, ele exercia umainfluência magnética sobre o público. Sabia con- TRATADOS DE WYCLIFFE Hus toma conheci-quistar os corações dos ouvintes porque pregava, mento dos tratados de Wycliffe através de seude modo consequente, no idioma tcheco. Cen- erudito colega Hieronymus von Prag, que ostenas de fiéis reuniam-se diariamente na capela trouxera de Londres para Praga em 1382, quandode Belém – entre eles, a esposa do rei Wenceslau: do casamento de Richard II e Ana von Böhmen.a rainha Sofia, para quem foi construído um au- Wycliffe, um grande representante do anúncioditório particular na igreja, com passagem separa- da Palavra de Deus na língua materna, pareceda, para que ela não precisasse sentar-se em meio ter sido influenciado pelos pontos de vista dosao povo. Hus foi também seu confessor pessoal. cátaros e bogomilos. -Sua famosa frase: “God must obey the devil”O interesse da soberana não impede Hus de – (Deus precisa obedecer o demônio) é, na verdade,além de fazer a exegese da Bíblia – atacar uma tradução direta do postulado dos bogomilosconstantemente a opulência do clero, sua lassidão “o diabo (o demiurgo) é o onipotente e verda-e os esforços da Igreja para aumentar sua riqueza. deiro regente deste mundo”;“Esses pregadores... são beberrões, suas barrigas -A alteração que fez no texto do Pai Nosso “ouregorgolejam de tanta bebida e são tão vorazes breed ouer othir substaunce” – dá-nos hoje nossoque enchem seus estômagos até ficarem com a pão de cada dia de outra espécie, transcendente,papada pendendo.” Com tais expressões, Hus põe imperecível – é encontrada entre os bogomilos eem jogo sua liberdade pessoal principalmente ao os cátaros;questionar a direção da Igreja. “O papa só pode -O mesmo vale para a rejeição das liturgias, dosser o representante de Cristo se for um fiel ser- sacramentos, de juramento, da proibição de sacer-vidor da glória de Cristo.” Em outras palavras: se dotes pecadores de presidirem cerimônias (videalguém se torna papa não tendo sido eleito por quadro). Hus traduziu literalmente as teses deDeus, será que devemos obedecê-lo? Tal pergunta Wycliffe para o idioma tcheco sem se preocuparnaturalmente tem um efeito explosivo sobre o com a fonte. Plágio ainda não era um conceitoestablishment eclesiástico ameaçado. conhecido na época. Mas, na prática, o tcheco as- sume um ponto de vista mais aprimorado do queHus sempre aponta a Bíblia como única fonte Wycliffe.vívida para estabelecer diretrizes e tomar decisões34 pentagrama3/52/0210515
A PRIMEIRA REFORMA JAN HUSdiretrizes para a Igreja, que se achava muito dispersa naqueles diasdepois que Hus e seus seguidores foram os primeiros a se afastar daIgreja Romana no século XV. O movimento popular dos husitas deuorigem à primeira organização eclesiástica protestante. defender a verdade até a morte 35
A santa simplicidade recordação.“Este é vosso salvo-conduto?”, pergunta aindaQuando as chamas já o cercavam, aproxima-se dele uma ironicamente Hus ao passar pelo rei Sigismund a caminho davelhinha e atira um graveto à fogueira. Sancta simplicitas (Ó fogueira. Este fica muito ruborizado. Essa reação reveladorasanta simplicidade!) teria ele dito, nesse momento, entregan- entrou para os livros de História. Um século mais tarde,do decididamente o corpo ao fogo (5). Depois, os algozes Carlos V refere-se a Sigismund durante um julgamento comjuntaram as cinzas e dirigiram-se ao Reno, onde as espa- condenação à morte:“E eu não vou ficar ruborizado” avisalharam. Isso serviu como damnatio memoriae (condenação a seus ouvintes, no momento do anúncio da ordem deda memória), como para apagar definitivamente qualquer execução. Bíblia Martinitz, ca. de 1430. Iniciais no livro do Gênesis, provavelmente a mais antiga representação da morte de Jan Hus na fogueira36 pentagrama3/52/0210515
O intermediário entre Hus e Wycliffe, Hieronymus von Prag, também não foram ouvidas confissões. Durante o suplício,teve o mesmo destino, no mesmo local, em 30 de maio de viveu por mais tempo de que Hus e gritou terrivelmente,1416. Na Crônica de Richental (registro dos fatos à época pois era um homem forte, com uma densa barba preta.do concílio feito por Ulric Richental) consta: “Ao ser con- Depois de queimado, suas cinzas e tudo o que sobrou foiduzido para fora ele rezou o Credo. Em seguida começou a espalhado no Reno. Muitos eruditos ficaram profundamentecantar a litania (Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat! desolados com sua morte, pois ele era mais instruído do– Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera!) e então repetiu que Hus. Era mestre das artes livres em Praga, Londres,o Credo. Ele foi queimado no mesmo lugar que Hus e dele Colônia e Erfurt.”No âmago desse reformador da Igreja desperta vivia em estilo borgonhês. O rei só se apresentauma autoconsciência que se expressa por meio de em Constança no fim de dezembro.Também oum pensamento religioso no qual a relação entre prometido acompanhante real não está presenteDeus ou a supranatureza e o homem representa com Hus quando este vai confiante em direçãouma questão individual. Isso mostra que surgiu ao lago de Constança.uma forte necessidade de viver de acordo comas normas, os ideais elevados dos “seguidores de LUTA EXAUSTIVA Por toda parte da Europa Cen-Cristo” (ou seja, de viver de acordo com a Swet, tral onde fica hospedado, Hus é recebido calo-que, na língua tcheca, quer dizer “luz primordi- rosamente – menos em Constança. Logo apósal”). Juntamente com humanistas como Erasmus alguns dias ele é detido, por ordem dos cardeais,ele estabelece a base para um cristianismo no em uma sala abafada para, por assim dizer, “serqual o homem segue sua consciência e coloca a interrogado”. Aquilo se torna uma luta exaustivavivência espiritual acima dos dogmas eclesiásticos. que dura várias semanas, com interrogatóriosAo mesmo tempo, ele é um catalisador em um diários e disputas extenuantes com o colégio dosconflito social em vias de irromper: o velho con- cardeais. São apresentados a ele os “45 artigos deflito secular entre autoridade e liberdade, centrali- Wycliffe” e pedem-lhe que os renegue.zação e descentralização, entre a classe dominantee os pobres. Quanto a certos artigos, ele desiste; quanto a outros, ele duvida abertamente da formulaçãoNa preparação do Concílio de Constança, o correta por parte dos interrogadores. Mas se atémrei Sigismund, entronizado em 1411, consegue inabalavelmente ao propósito dos artigos e àconvencer Hus a comparecer para defender suas visão que Wycliffe tem da igreja: Jesus Cristo é oopiniões – pela paz em seu reino e na Igreja. Hus dirigente da verdadeira Igreja. Hus sempre é for-concorda quando o rei lhe promete que nada çado a desmentir seus pontos de vista, mas ele selhe aconteceria, que receberia um salvo-conduto recusa a isso. Encontra sua força interior em Joãoe que, durante a viagem, teria um plenipoten- 8:32, procura a verdade, ouve a verdade, ensina aciário do rei a seu lado. Hus prepara três discur- verdade, fala a verdade, guarda a verdade, defendesos calorosos e parece estar convencido de que a verdade até a morte.pode conseguir conquistar o concílio a favor desuas ideias. No início de outubro de 1414, ele sai LIVRO DE MOISÉS (LEVÍTICO) O rei Sigismundde viagem. Primeiro ainda se dizia que o rei o intervém após alguns meses. Ele faz saber a Husacompanharia, mas este só chega dois meses mais que lhe é impossível responsabilizar-se pela suatarde. Os dois também não se entenderam bem: o segurança se este não renunciar a suas opiniões.sério asceta Hus e o imperialista Sigismund, que Sigismund determina que sejam realizados três defender a verdade até a morte 37
Todos têm o direito de ler a Bíblia debates nos quais ele próprio possa estar presenteSinopse de algumas opiniões de John Wycliffe: e que, para isso, sejam instituídos “teólogos de- A eucaristia é uma invenção humana para a qual não há alto escalão”. Um deles, Johannes Zacharias, dabase nos Evangelhos; cidade de Erfurt, sabe como pode “ganhar” Hus- Não acredita na transformação do pão e do vinho no com um pequeno tropeço em sua interpretaçãocorpo e no sangue de Cristo (a assim chamada tran- de algumas ideias do Velho Testamento no 3ºsubstanciação preconizada por Inocêncio III em 1215); Livro de Moisés. O prelado de Erfurt sai do de-- O status divino e a infalibilidade do papa são absurdos. bate como “vencedor”, deixando-se adornar comPelo contrário: ele é o anticristo; uma rosa branca. Foi considerado como aquele- Não reconhece autoridade de diáconos e bispos. Con- que conseguiu levar Jan Hus à fogueira. Este é osequentemente, nem de arcebispos, cardeais e do papa. mais destacado “mérito” de seu currículo. Após aDecisões do papa e de concílios não têm valor; morte de Zacharias, foi feito um sepulcro debaixo- O poder de “abrir e fechar o céu” não está na igreja ou do altar na catedral de Erfurt. Até Sigismundno papa; portanto, a excomunhão é impossível; abandonou Hus nessa hora. Em 6 de julho de- É contra a confissão que foi introduzida por Inocêncio 1415, o recalcitrante “herege superobstinado”III, contra indulgências e tradições eclesiásticas; Hus é condenado à morte durante uma reunião- Não reconhece santos e é contra peregrinações; plenária (com a presença de todos os membros- Luta contra a riqueza da igreja; do concílio), na catedral de Constança. µ- A Bíblia é a Palavra de Deus e todos têm o direito deler. A proibição de lê-la enunciada no Concílio de Valência Citações a pedido dos editores.em 1299 é absurda;- Junto com seu secretário, John Purvey, e seus colabo-radores foi o tradutor da Bíblia do latim para o idiomainglês.38 pentagrama3/52/0210515
JOVENS ROSACRUZES EM CAUX 2015Na conferência, os textos trataram de assuntos como reencarnação, influência dos planetas dosmistérios, cristalização, realização da própria escolha e olhar para frente, necessidade de cuidar bemdo corpo e outros temas atuais. Falaram sobre transfiguração e renovação, do abrir mão do velhoe a vida no agora. Provavelmente a lição mais importante da conferência, que nem precisou sermencionada, mas que foi vivenciada por todos os presentes, foi: você não está sozinho! imagens do mundo: jovens rosacruzes em caux 2015 39
a viagem de mantao lll (final)C.M. CHRISTIANGalopei com meu burrinho pelo menos dos, das vigas que ainda queimavam, dos destroços sete dias, seguindo sempre o curso do rio, carbonizados, até que atingimos o coração da cida- através de vastos campos férteis, até que os de, onde há pouco se elevava o magnífico paláciotelhados de estanho de uma cidade aparecessem de dezoito cúpulas. Sobre uma coluna negra dena aurora do dia nascente. O espetáculo, ao longe, fumaça estava sentado, sozinho, um velho homem,era extremamente belo. Depois de uma viagem vestido de trapos como um mendigo, os cabelostão longa, alegrava-me repousar alguns dias num chamuscados, o rosto pálido de terror.lugar hospitaleiro. Instiguei, portanto, vivamentemeu burrinho cinza. Mas ele se imobilizou de “Como um destino tão atroz pode perturbar estaimediato e se recusou obstinadamente a avançar. cidade?”, perguntei-lhe. “Infelizmente!”, lamentou-“O que foi?”, perguntei. “É melhor não entrarmos -se ele, “Infelizmente, esta cidade era a joia de umnessa cidade hoje”, respondeu ele. Esse conselho soberano que se fazia passar por imperador dome desagradou. “Então vou sozinho”, respondi mundo, mas que se comportava como umimpaciente. “Bom, então vá sozinho”, respondeu ignorante quanto à natureza e aos céus! Utili-ele, muito calmo. Eu me pus a caminho. Apoiando- zando, sem dominá-las, certas forças secretas, ele-me em meu bastão de peregrino, marchei através abusou de seu poder e, tomado de loucura, condu-dos bosques verdes e luxuriantes, até que tive a ziu seu povo à perdição. E vocês? O que procuramalegria de contar, do alto de uma colina, as oitenta neste lugar terrível?”, perguntou ele. “Estamose quatro torres da cidade, que orgulhosamente se aqui apenas de passagem; seguimos a voz inte-erguiam no vale. Mas, de repente, um violento es- rior para encontrar a pista do tesouro da luz quetrondo de trovão me jogou por terra, uma coluna outrora perdi e que devo agora recuperar”, res-de fogo se ergueu da cidade até o céu, envolta em pondi suavemente. O velho tomou minha mãofumaça e flamas. Ouvi, ao longe, um assustador e não a largou mais. “Eu lhe peço, fale-me entãotumulto de pessoas e animais que tentavam sair desse tesouro.” Sem saber o que dizer, permanecidesse mar de fogo para salvar suas vidas. Profunda- silencioso. Depois de algum tempo, no entanto,mente agitado pelo horrível destino que sobreveio as palavras chegaram-me aos lábios: “Ele é cha-a essa cidade, permaneci como grudado sobre a mado fruto áureo celeste, a pedra dos sábios ou acolina, até que tudo foi consumido. pérola. Mas como eu mesmo estou em peregrina-Então meu burrinho surgiu a meu lado e pousou ção, dificilmente poderia descrevê-lo. No entanto,em mim seus olhos fiéis e suaves: “Veja o que escute o que vou dizer: quando as coisas engana-tentei lhe dizer”. Reconhecido, beijei sua fronte e doras deste mundo se revelam a você como numacariciei longamente sua pelagem. Depois, nós dois espelho, aí sua pista se desvela. Se lhe estendemabrimos caminho através da espessa fumaça e dos um cálice da fonte da verdade, aí se manifesta suaescombros, do fogo latente, dos muros desmorona- força. Quando você descobre que todo o saber do40 pentagrama3/52/0210515
mundo é apenas engano, aí começa sua sabedoria. Mostrei a ele a flor branca em meu peito. SeuNo exato momento em que a senda da rosa traça perfume e sua radiação suave penetraram no maisquatro caminhos em forma de cruz, você conhece profundo de seu ser e seu coração se abriu. Entãoseu alento. Lá onde a sombra do passado toca o todos partimos. Abandonando atrás de nós o lugarvéu do futuro, ali tem início seu presente radiante. queimado que, ainda ontem, era chamado “Kingt-Quando o maior dos saberes se inclina diante do scharnobiliskan”, a cidade imperial mundial, dirigi-ser mais ínfimo, você encontra seu amor. Lá onde mo-nos a Oeste, e a viagem prosseguiu durantea palavra solar ressoa no coração silencioso, ali quase três luas. Embalado pela cadência monótonacomeça seu mistério...” de meu burrinho cinza, comecei a devanear quando, de repente, como surgido do chão, umDepois me calei. O velho começou então a se vento gelado e belicoso, semelhante a virulentaslamentar: “Eu, eu… enlouqueci, fui eu quem agulhas soprando em nossas orelhas, nos envolveu.dominou esta cidade com fogo e sangue, por um Ele nos puxava, nos assediava como se brincasseartifício do maligno”. Alquebrado, atormentado com pequenas bolas e, zombeteiro, nos empurravapor sua culpa, profundamente emocionado por adiante de si. Para escapar, jogamo-nos no chão.sua tomada de consciência, ele caiu de joelhos e Então, com um riso sarcástico, suas flechas, atiradasgritou: “Meu Deus, como posso expiar semelhante do alto, nos alcançaram. Erguemo-nos num pulo e,ato?” Por longo tempo permanecemos em silencio, titubeantes, a toda velocidade, abrimos um cami-à espera de uma possível resposta, mas em vão. nho até que, completamente exaustos, alcança-Dos escombros somente ressoava o eco dos gemi- mos uma formação de rochas que se estendiamdos da morte. Então ofereci meu apoio ao velho a perder vista rumo ao Sul. Pensávamos estar emhomem e estendi-lhe o cálice de água viva para segurança, mas a tempestade se abateu novamente,que, segundo a vontade de Deus, um raio de luz jorrando das fissuras, dos buracos, dos barrancos,pudesse iluminar seu coração ensombrecido. Ele empurrando-nos de um rochedo a outro, num es-me agradeceu em silêncio, pediu que esperás trondo ensurdecedor semelhante ao mesmo tempo-semos um instante e afastou-se titubeante.Voltou a um escárnio, a um rugido melancólico e a umpouco depois, tendo na mão um rubi de grande chicotear selvagem.beleza, do tamanho de um ovo, e me disse: “Este, O labirinto! Meu espírito confuso e desordenadopoupado pelas chamas, permaneceu intacto. É acabara de compreender algo: nós, pobres coita-a pedra de fogo que, outrora, caiu do céu, mais dos que éramos, encontrávamo-nos prisioneiros daexatamente da grinalda que ornava os cabelos astúcia e da maldade no labirinto dos demônios dode um anjo quando ele se revoltou contra Deus. Vento. Essa era a marca, assim diz a história, de umEla os preencherá de bênçãos.” Aceitei a estranha ajuntamento de poderosos éons com seus arcon-pedra. As bênçãos se transformariam em salvação? tes e de legiões de almas de mortos. Nenhuma a viagem de mantao III 41
alma vivente ousaria se aventurar ali. Felizmente, Bem alto nos céus, acima de nossas cabeças, atra-nessa noite os céus nos foram favoráveis. Uma boa vés de uma fissura do rochedo, admirei, cintilanteestrela nos conduziu a um esconderijo protetor em e bela, a estrela que velava por nós.um rochedo em forma de pentágono. Ali encon- Dormíamos ainda profundamente – quem pode-tramos um abrigo contra a tempestade e, por certo ria dizer por quanto tempo? – quando uma voztempo pelo menos, pudemos escapar da cólera dos me acordou, pura e suave como eu jamais ouvira:demônios e de seu jogo cruel. Abrigados em nosso “Não tema, amigo, mas alegre-se de ter chegado aesconderijo, repousamos e, após uma sincera e tempo! Já faz mil anos que estou aprisionado aquiprofunda prece, tomamos um banho de frescor na e aguardo que um homem venha me libertar”.nova força de meu cálice. “Quem é você?” perguntei eu, animado por uma42 pentagrama3/52/0210515
alegria extrema. “Eu sou a verdade revestida de formação de batalha ao redor de meus pés.pele de águia.Venho da grande luz. Sou o men-sageiro do reino do Pai ao filho perdido. Sou a Senti profunda repulsa quando me dei conta dosabedoria que, suspensa no rochedo, conhece o que nosso destino nos reservava, pois essas eram assupra caminho que conduz a Ele. Sou o amor, que infames formigas necrófagas que, em um segundo,deu a serpente em oferenda, por amor do filho. nos devoram até o esqueleto.Sou a vontade do Pai, que guarda num ninho, no Minha intenção era dar pontapés furiosos ao meualto, a pérola de luz. Sou a força do silêncio que redor, quando minha alma, pela terceira vez, mechama o filho para despertar. Sou o raio do poder repreendeu, mas dessa vez me tocou com seu cas-do rei que aguarda que você volte para casa. Sou a co: “Ao invés de fazer isso, escute o que o mundoáguia da luz.” dos espíritos quer lhe dizer!”Depois fez-se silêncio. Eu me inclinei profundamente até que, nesseVivamente comovido, eu disse: “Onde está você, formigamento e nesse zumbido infernal, ouvi umaáguia? Como posso encontrá-la?” Apenas o eco ameaça claramente reconhecível.Tratava-se dasde minha voz me respondeu. Depois houve um forças do vento e dos reis dos espíritos que, noprofundo silêncio. Eu quis deixar imediatamente reino dos demônios, transformaram-se volunta-o esconderijo no rochedo. No entanto, assim que riamente em parasitas. Como legiões de formigas,pus a cabeça para fora, as flechas da tempestade eles faziam, em coro, parte dessa ameaça. Elescaíram novamente sobre mim. Por isso decidimos ameaçavam nos devorar instantaneamente até ospermanecer ali e aguardar um momento mais ossos se eu não colocasse imediatamente no meiofavorável. deles o cálice que trazia comigo.Na terceira noite a estrela brilhava sempre acima O cálice! O objetivo da caçada, a intenção do jogode nossas cabeças; meu burro me tirou de minha dos demônios, era se apropriar, mediante astúciasonolência e disse: “Você está ouvindo os espíri- e maldade, da fonte da água da vida, do cálicetos dos reis? Eles querem falar com você!” Mas eu sagrado.nada ouvia além de estremecimentos, murmúrios esilvos, e cochilei. Um pouco mais tarde, meu bur- Antes mesmo que eu pudesse me dar conta darinho me sacudiu novamente: “Olhe! Agora eles brutalidade do jogo e que, tonto de hesitação,vêm nos visitar!” pudesse refletir sobre uma resposta adequada, ouviEntão esfreguei os olhos e olhei com cuidado ao novamente, de modo claro e cintilante, dentro demeu redor. Na luminosidade da aurora, percebi, mim, a voz da águia: “O momento oportuno che-saindo das fendas do rochedo, milhares de solda- gou, meu amigo, venha para mim!”dinhos negros insignificantes, vindos de toda parte, “Eu vou!”, disse eu, “Pai bem-amado, que suamarchando em longas filas e colocando-se em vontade se cumpra!” a viagem de mantao III 43
Tomei o cálice e o segurei firmemente na mão. em vão. Meu burrinho deitou-se de lado e disseDepois subi a toda velocidade no meu burro e com voz suave, mas firme: “Fico aqui. Continuelhe sussurrei: “É agora o momento. Galopemos, sozinho, com a graça de Deus. Meu tempo chegouvamos!” e vou morrer, mas é para sua salvação, você vaiE quando ele aumentou a velocidade, eu, orando ver.”interiormente, aspergi os arredores com gotas mi- Isso me tocou profundamente. Essas palavras delagrosas do cálice. meu amigo pesaram em mim. No entanto, senti,A legião de formigas, assustada e desconcertada, devido à antiga lei das estrelas, que deveria ser as-fugiu. Os demônios do vento e seus éons, os reis sim. Dei um beijo fraternal em meu companheirodos espíritos e suas legiões, consternados, fizeram de caminhada e agradeci por toda sua fidelidade.o mesmo, pois as gotas inflamadas da água viva Depositei a flor branca sobre seu peito, e ele mor-os asfixiava. Foi assim que o cálice, por meio de reu. Foi assim que nos despedimos um do outro.suas forças e pela graça de Deus, traçou-nos um Nesse momento, a voz da águia elevou-se comcaminho para a liberdade. E, pelo menos por esse força: “Venha, filho do Pai, agora realmente está namomento, pudemos escapar. hora!”. À beira do desespero, procurei na parede da rochaContinuamos nossa rota através do labirinto ro- um caminho. Mas tudo se mostrou em vão. Achoso que, em espiral, parecia subir cada vez mais parede era negra como ônix e lisa como cristal.alto. Na rocha havia também, aqui e ali, hieróglifos Nenhum ponto de apoio, nenhuma fenda paragravados, que nos apontavam passagens para as pés ou mãos. Como eu poderia escalar a parede?rochas mais elevadas. Quando já havíamos subido Impossível! Eu estava diante de um muro. Seria oseis espirais, fatigados, deparamos com uma mura- fim? E o exército de formigas se aproximava cadalha rochosa: o fim de nossa viagem. Porque, como, vez mais.em tais circunstâncias, seria possível continuar? Aoolhar para baixo, no abismo vertiginoso, surpreendi Repassei todo o comprimento do muro de rocha ecaretas iradas entre as rochas, criaturas malignas percorri pelo menos noventa e nove passos, de ume, além do mar cinza de pedras, um exército de lado a outro da parede. Por fim, descobri, gravadainsetos abomináveis que se aproximava. na pedra, uma cruz com uma flor no centro. Isso“Até aqui e não mais além”, disse meu burro. Para me deu coragem. E exatamente nesse local percebiminha grande consternação, percebi que meu ami- uma fissura, do comprimento de pelo menos trêsgo cinza mancava. Sob seu casco esquerdo traseiro mãos, no muro vertical de rocha! No entanto, an-vi um ferimento causado por mordida de formiga. tes de começar a subir, olhei para o local onde meDepressa, coloquei sobre ele uma gota do bálsamo separara de meu amigo e um tremor de horror,sanador e massageei suavemente com o rubi. Mas mas também de gratidão, percorreu minha espinha.44 pentagrama3/52/0210515
Lá, naquele lugar, estava estendido um esqueleto e me encontrei diante do rochedo em forma detotalmente branco, bem limpo pelas formigas. Foi T. Então, voltei os olhos para ele. Um sopro puro,assim que meu burrinho deu sua vida por mim. suave e calmo, nesse instante, prendeu toda minha atenção. A águia me perguntou: “Você está prontoEntão, eu me introduzi na fenda e me impulsionei para a ação?” Eu a olhava com o coração... Bemcom toda a força de minha esperança aproximada- no alto do céu cintilava, brilhante, a estrela, emente cem metros mais alto. eu respondi: “Sim!”. “Escute isto,” prosseguiu aComo cheguei ali, não sei. Mais morto que vivo, águia, “em total liberdade eu me fiz prisioneiraarrastei-me até um platô rochoso, e fiquei estupe- do mundo, na esperança de que uma semente defato com o panorama! Era como se o mundo amor pudesse germinar e se inflamar nos coraçõesinteiro estivesse a meus pés. E bem ao longe, no dos homens até a ação libertadora.”horizonte, o sol poente mergulhava no mar de Estimulado por essas palavras, coloquei o cálicebrumas flamejantes. Que vista magnífica! Eu me diante do rochedo e depositei ali o rubi. “Estousenti infinitamente pequeno. Acima de mim, na su- pronto. Permita que a liberte rapidamente!” “Vocêavidade violeta do firmamento, brilhava a estrela. está pronto a fazer o mesmo que eu por seus ir-Então a voz, claramente reconhecível, soou em mãos humanos? Então suba, desate minhas corren-meus ouvidos: “Então, você chegou!” tes e prenda-as a você mesmo.” Quando ouvi isso, as estrelas desapareceram atrásEu me voltei e, sobre a mesa de pedra cavada no de leves nuvens. Apenas a ideia do destino querecinto, estava um lagarto gigante, sinuoso, enla- me aguardava fez que um tremor percorresse meuçando uma rocha em forma de T, que se erguia peito. A dúvida me assaltou: teriam sido vãos todoscom imponência. Sobre esse rochedo estava, imó- os meus esforços para alcançar a salvação eterna?vel, arnesada com suas potentes asas, mas tendo na Minha busca acabaria com um resultado assim?pata um pesado anel de ferro, prisioneira e coberta Em que onda tenebrosa eu submergiria aqui,de ferimentos, a águia. agora? A águia percebeu meu tremor e, num tom“Não tenha medo! Aproxime-se de mim!”, disse carregado de doçura, me disse: “Volte, meu amigo,ela. A irradiação de seu olho de águia penetrou se a ação é muito difícil para você. Esperarei umprofundamente em mim. Corajoso, mas tremendo momento mais oportuno.”como uma folha, eu me aproximei das escamas Essas palavras clementes me atingiram como umnegras do lagarto gigante que estava ali deitado, raio fulgurante. Somente então percebi o sentidocom a cauda na própria boca. Sem fazer barulho, da oferenda e seu maravilhoso mistério se desve-alcei-me mais alto graças às placas pontudas, das lou: é o que chamamos Amor de Deus.quais emanava o hálito quente e sulfuroso de um Inclinei profundamente a cabeça e implorei: “Pai,mundo de sonhos calcinado. Um último impulso perdoe-me!” a viagem de mantao III 45
Então, estando pronto, executei a ação. Alcei- ressoado, claro como o dia, a águia me interpelou:-me ao alto do rochedo e desfiz o anel de ferro “Agora, irmão, venha! Voemos juntos ao monte doque encerrava a pata da águia. Nesse momento, Éden!”somente reinava acima de mim o silêncio, infi- “Ao monte do Éden? Como é possível, com meunitamente puro. Coloquei meu pé no anel e o pé preso neste anel, que está soldado à rocha?”fechei. Atualmente carrego eu mesmo o jugo: fui Então – oh maravilha incompreensível! – apesar deincorporado na corrente de oferenda a serviço de meu corpo suspenso no rochedo, voltado à terratodos os meus irmãos humanos, para ajudá-los a se em auto-oferenda, minha alma, orientada para olibertar e a retornar à casa do Pai. céu, viu-se inflamada pelo amor. Agora, duas asasQuanto à águia, já liberta do anel aprisionador, magníficas estavam brotando, uma de cada ladomergulhou no cálice, e este curou suas feridas. Ela de minha alma. Eu as fiz moverem-se para cimatomou o vinho. E o rubi, a pedra ígnea, ela o en- e para baixo, e me desprendi do rochedo graçasgoliu. Então, desdobrou suas asas e, na paz irradi- a esse corpo singular, e voei com a águia, trans-ante de sua força interior, cantou seu Hino ao Sol: passando, assim, o reino da noite, ao encontro da aurora flamejante.“Da árvore das joias eternas Bem abaixo de nós, formando um tipo de espuma,uma pérola caiu no espaço-tempo. estendia-se um oceano de brumas: o mundo daE, com ela, o coração dos homens ilusão. Bem acima de nós, resplandecia, cada vezmergulhou na noite do mundo e na dor mortal. mais luminoso, o espaço incomensurável. Por quanto tempo voamos não sei dizer, uma vez queMas o Sol dos sóis buscou por toda parte; nesse domínio os dias e as horas não existem.ele enviou seus raios através do espaço e dotempo, Aqui, ao lado da águia, torno-me consciente deaté que encontrou a pérola como os mundos se interpenetram: sete esferase reconquistou o coração dos homens. girando umas dentro das outras e gravitando ao se inclinar em um movimento espiralado ao redorAgora, no mundo da noite e da morte, de um ponto central do universo, o Sol dos sóisé nessa irradiação que o coração do homem - esse Sol que se reflete no interior dos homenstraz sua pérola e a carrega até o céu, para o Reino como centelha divina. Esse Sol que conduz o tododo Sol, à vida. Esse Sol que quer ser conhecido por todose a pendura novamente na árvore das joias.” os seres, que quer se manifestar em toda a criação como amor de Deus, Espírito e Vida.Depois de seu hino, que penetrou meu coração Como era delicioso deslizar e planar no azul, comprofundamente como um bálsamo, pois ele havia batidas de asas macias ao lado da águia, sem gra-46 pentagrama3/52/0210515
vidade e com toda liberdade! Mas, de repente, de- tapete de rosas se estende sobre a região comoparamos com um imponente maciço montanhoso. uma esposa envolta em seu véu e, em miríadesHavia milhares de picos abaixo de nós, envolvidos de pérolas, se reflete, resplandecente, o Sol. Dessepor neves eternas. O mais elevado deles, que a esplendor de luz elevam-se rosas perfumadas, eáguia havia escolhido como destino final, era cha- todos os pássaros, em coro, dão gritos de alegria.mado Montanha do Éden. Ali, gravitando ao redor Sim: voltei à minha casa, ao meu país de origem!desse local, nos deixamos cair lentamente até a Tenho novamente uma veste brilhante, permeadaterra. No cimo, próximo a um glacial em declive, de pedras preciosas e, sobre minha cabeça, umaem um enclave de rocha protegido do vento, havia coroa: de agora em diante eu me chamo Mantao,um abrigo. “Filho de Rei”. E diante de mim está meu Pai,“Venha e veja”, disse ela, e me mostrou seu ninho. como antes, como se nada tivesse ocorrido. EmA princípio, vi apenas ramos nodosos. Mas, de- minha mão, tenho o mais belo fruto da velha ár-pois de me aproximar, descobri, incrustado entre vore. Pleno de alegria, eu o ofereço a Ele. Meu Paimusgo e galhos, num recipiente verde aveludado, o toma e, sorridente, diz: “Meu filho bem-amado,algo resplandecente, irradiante de beleza, redondo estou feliz. Agora você compreende o que é oe imaculado. Eu jamais vira tamanho esplendor! tempo?”“Aceite isto de minha parte em sinal de gratidão “Oh, Pai,” digo com voz suave, “o senhor me ini-e de reconhecimento e leve-o a seu Pai”, disse a ciou no seu mistério. Profunda foi minha queda. Oáguia. caminho foi longo e a viagem prodigiosa. Permita- -me contar-lhe o que aconteceu”.E embora o recebesse com júbilo, tive de fechar os Assim que disse isso, minha Mãe, o Silêncio, pene-olhos, cegado que estava por seu brilho deslum- trou no meio do jardim e depositou um beijo embrante. Era a pérola, o fruto celeste há tanto tempo minha boca. Bem-aventurado, eu me calei. Então,desejado! A pedra dos sábios! Que força, que luz na velha árvore perto da fonte ouvimos cantar ojorrava em mim! Meu olho solar despertou. Imergi hino de alegria dos serafins e dos querubins aladoscompletamente no oceano de flamas douradas e, em honra ao Sol dos sóis. µgraças ao banho de fogo alquímico que me impe-lia, fui transportado para o alto através de sete cír-culos, até o ponto de partida onde, outrora, minhaviagem havia começado.Novamente, como no primeiríssimo começo, euestava no jardim de meu rei Man. Lá está a velhaárvore. Na fonte, a nascente está cantando. Um a viagem de mantao III 47
IMAGENS DO MUNDOO caminho é longo e difícil quando estamos sós, mas juntos o caminho se torna mais curto e maisfácil. Aproveite as chances que se apresentarem e aceite a ajuda do grupo e dos irmãos. Sempre háajuda e sempre há Luz. Assim como os olhos humanos conseguem perceber uma vela acesa a umadistância de uns 1,6 km, assim a Luz de Deus consegue ser vista melhor na escuridão.Foi assim que a Páscoa foi vivenciada em Caux, tanto pelos alunos mais jovens como pelos mais velhosdirigentes da mocidade: como um archote de Luz e Alegria. É essa Luz que é levada para um númerocada vez maior de irmãos e irmãs fazendo que a unidade que já temos se fortaleça ainda mais.48 pentagrama3/52/0210515
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