Important Announcement
PubHTML5 Scheduled Server Maintenance on (GMT) Sunday, June 26th, 2:00 am - 8:00 am.
PubHTML5 site will be inoperative during the times indicated!

Home Explore Revista Pentagrama 2013-1

Revista Pentagrama 2013-1

Published by Pentagrama Publicações, 2016-06-13 20:45:27

Description: revista-ano-35-numero-1

Search

Read the Text Version

pentagrama Lectorium Rosicrucianum Z. W. Leene – As duas espadas salva-nos, que perecemos! Cinco considerações sobre a palavra Simpósio – Todo movimento encontra repouso em Buda, o espírito do universo Frances A. Yates – O iluminismo rosa-cruz 2013 1número

Editor responsável Revista Bimestral da EscolaA.H. v. d. Brul Internacional da Rosacruz ÁureaLinha editorialP. Huis Lectorium RosicrucianumRedatores A revista Pentagrama dirige a atenção de seus lei­K. Bode, W. v.d. Brul, A. Gerrits, tores para o desenvolvimento da humanidade nestaH. v. Hooreweeghe, H.P. Knevel, F. nova era que se inicia.Spakman, A. Stokman-Griever, G. Uljée O pentagrama tem sido, através dos tempos, o símbolo do homem renascido, do novo homem.Redação Ele é também o símbolo do Universo e de seuPentagram eterno devir, por meio do qual o plano de DeusMaartensdijkseweg 1 se manifesta. Entretanto, um símbolo somenteNL-3723 MC Bilthoven, Países Baixos tem valor quando se torna realidade. O homeme-mail: [email protected] que realiza o pentagrama em seu microcosmo, em seu próprio pequeno mundo, está no caminho daEdição brasileira transfiguração.Pentagrama Publicações A revista Pentagrama convida o leitor a operar www.pentagrama.org.br essa revolução espiritual em seu próprio interior.Administração, assinaturas e vendasPentagrama PublicaçõesC.Postal 39 13.240-000 Jarinu, [email protected]@pentagrama.org.brAssinatura anual: R$ 80,00Número avulso: R$ 16,00Responsável pela Edição BrasileiraM.D.E. de OliveiraCoordenação, tradução e revisãoJ.C. de Lima, V.L. Kreher, L.M. Tuacek, U.B. Schmid, N. Soliz,J.L.F. Ornelas, C. Gomes, M.B.P. Timóteo, M.M.R. Leite,J.A. dos Reis, D. Fonseca, M.D.E. de Oliveira, M.R.M.Moraes, M.L.B. da Mota, R.D. Luz, F. Luz, R.J. AraújoDiagramação, capa e interiorD.B. Santos NevesLectorium RosicrucianumSede no BrasilRua Sebastião Carneiro, 215, São Paulo - SPTel. & fax: (11) [email protected] em PortugalTravessa das Pedras Negras, 1, 1º, [email protected]© Stichting Rozekruis PersProibida qualquer reprodução semautorização prévia por escritoISSN 1677-2253 tijd voor leven 2

pentagrama ano 35 2013 número 1Esta edição da revista Pentagrama tem, acima de A pintura de Rembrandt Tempestade no martudo, a intenção de inspirar seus leitores com informa­ da Galileia está relacionada ao artigo destações e artigos interessantes. edição que se inicia na página 20.Este número em especial está focado na procura do A pintura (159x127 cm), de 1633, foi roubadaprimordial, do puro, do genuíno no ser humano, e em 1990 do Museu Isabela Stewart Gardnerem como isso pode transparecer e nos tocar em suas em Boston, EUA. Desde então seu paradeiro éobras, sua poesia, sua arte e outras expressões. desconhecido.Na Rosa-cruz moderna denominamos frequentemen­te essa energia pura como centelha de luz, centelha as duas espadas 2espiritual, átomo original. Vemos ao nosso redor que z.w. leenea própria vida, sob inúmeros aspectos, está ameaçadapelo maior perigo que há: a indiferença. Nada parece a lenda das sete irmãs 4estar sadio, incorrupto ou não degradado, e, muitas a serpente cósmica e osvezes, percebemos a falta de verdadeira vida, de umânimo autêntico, de uma vida interior real. homens-serpentes 8Convidamos nossos leitores a ir ao encontro do j. murraymundo e da sociedade com os olhos do coração e a a queda 14sabedoria da cabeça para, em conjunto, mediante afe­ salva-nos, que perecemos! 20to, benevolência, compaixão e auxílio, aliviar o grande pesado e considerado demasiadosofrimento desta época... com a tranquilidade que leve? 27pode vir do interior, a tranquilidade de Buda, o espíri­ todo movimento encontra repousoto do universo, e da mansidão de Cristo “cujo jugo é em buda, o espírito do suave e cujo fardo é leve”. universo 30 impressões de um simpósio especial em renova o iluminismo rosa-cruz 37 a fascinante história de uma ideia frances a. yates - pequena biografia 44 11

as duas espadas“A seguir Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e sem sandálias, faltou-vos porventura alguma coisa? Nada, disseram eles. Então, lhes disse: Agora, porém, quem tem bolsa, tome-a, como também o alforje; e o que não tem espada, venda a sua capa e compre uma. Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido. Então lhe disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. Respondeu-lhes: Basta!”Lucas, 22:35-38Aqui doze homens corajosos abandonam tudo deveria ser feito, em que seria preciso dar seu herói. Enquanto, durante anos, conta das provas sem a situação ideal, sem a convivem com ele diariamente, nada presença do mestre.compreendem dos seus propósitos. Primeiro eles recebiam de Cristo as forçasO aspecto exterior da história da paixão necessárias. Depois seria comprovado se elesapoia-se, assim, firmemente na nossa boa fé. mesmos haviam desenvolvido essas forçasPor isso o aluno da Rosacruz procura por uma como propriedade pessoal. Quando a palavranova luz para que a verdadeira fé, como cer­ da Escritura, “a necessidade oculta”, se cum-teza eterna, comece a viver em uma persona­ pre na vida do aluno, “ele é contado entre oslidade que cresce em harmonia, habitada pelo malfeitores”; quando vem a época de noiteespírito divino. negra e de crise grave, é preciso provar que se“Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e está de posse de algo pessoal, algo próprio quesem sandálias, faltou-vos porventura alguma possa oferecer resistência à tempestade. Então.coisa? Nada, disseram eles.” é preciso que exista um alforje, sandálias eOs Evangelhos transmitem a história da mis­ bolsa como armadura. E que exista uma espa­são dos doze. Os doze discípulos de Cristo são da como energia dinâmica, como um impulsoenviados, a título de experiência, para pregar o potente. E os que não têm espada vendemEvangelho e curar os doentes. Diversas forças sua vestimenta para conseguir uma espada. Omanifestam-se nos discípulos, e elas deviam mundo precisa da ação na hora da treva, deser experimentadas na prática. E eles partiram, força espiritual, sem tomar outros como apoio.levando no coração a advertência: “De graça Nosso desenvolvimento com o mestre chegarecebestes, de graça o dareis.” ao fim. Ele se vai para dirigir nossa evoluçãoEles saíram como verdadeiros servidores, e sua de outra maneira.viagem era muito especial em relação às via- E eles dizem: “Senhor, eis aqui duas espadas”.gens de outras pessoas, para as quais é preciso Os discípulos estão de posse de duas espadas. Agrandes preparativos como carteira, bolsa e primeira espada é a brilhante arma solar dou­sapatos; para eles, primeiro vinha o reino de rada do conhecimento revelado por Cristo. ADeus – e todas as outras coisas viriam por si segunda espada é a arma da fertilidade mística,mesmas como consequências normais, lógicas. a força do Espírito Santo.Não lhes faltava nada! E eles mesmos, como portadores das duas espa­Mas durante essa viagem tudo ocorria sob o das, são as centelhas divinas do pai.olhar do mestre. Por isso eles se sentiam fortes, Uma vez que estão providos dessa forma, ressoaexecutavam bem seu trabalho. As circunstân­ para eles a resposta do mestre: É o suficiente – e,cias eram ideais! Mas viria o tempo em que então, eles podem acompanhá-lo ao Monte das2 pentagrama 1/2013

Z.W. Leene (1892–1938) Professor De Hartog, e procurando havia 30foi a força impulsionadora com o irmão Jan anos! Foi também graçasda primeira fase da ( J. van Rijckenborgh), à sua inspiração e forçaEscola Espiritual. Era ele entrou em contato espiritual que, em 1930,uma pessoa predestinada com o trabalho dos Catharose de Petria dar forma a uma grande rosa-cruzes na forma decidiu unir-se à obraobra. Na primavera de estabelecida por Max e fortalecê-la. Dessa1924, imbuído de sua Heindel, nele encontrando flamejante energia inicialprópria vivência cristã e a profundidade e o surgiu então, em 1946, oestimulado pelo objetivo que estava Lectorium Rosicrucianum.Oliveiras onde vai ter início a grande oferenda Se você quer se tornar um discípulo, umda disposição para servir até a morte. verdadeiro aluno, então conquiste as duasTalvez tenhamos inicialmente pensado que espadas. O mundo não precisa de espadas, nãoessa grande oferenda pudesse fracassar por da caricatura sangrenta que a humanidade fezcausa da insensibilidade dos discípulos, pela delas, mas das duas espadas ígneas, cruzadasabsoluta inadequação desse grupo escolhido; como a cruz clássica, plantada na terra. So-como discípulos de um ensinamento interior, mente com essa cruz nas mãos as rosas pode­quando tiver irrompido a grande hora da rão desabrochar µtreva, reconheceremos que o mestre está lá,cercado pelos doze, cada qual equipado comduas espadas como símbolo das forças con­quistadas por meio dele. Eis o que esta histórianos transmite em síntese. as duas espadas 3

a lenda dassete irmãsVários mitos aborígenes transmitidos oralmente tratam de temas universais. Eles não apenascoincidem uns com os outros, no que se refere à intenção e ao fio condutor, como tambémse assemelham a mitos da Índia, Grécia, China, América Central e do Egito. O contínuopassado do macrocosmo desempenha um papel importante – chamado pelos aborígenes de“tempo dos sonhos” – como também o presente macrocósmico, que ressoa, entre outros,no mito sobre as sete irmãs. O bom “poder da serpente”, alimentada pela energia da criaçãooriginal, em sua visão, é indispensável para a subsistência da criação.J. MurrayAS PLÊIADES E ÓRION Por mais de seis estrelas são vistas claramente. De acor­ 60.000 anos, diversas civilizações do com a mitologia grega, a sétima estrela, caminharam pela Austrália, sob o Mérope, tem um brilho fraco porque, devi­céu australiano. Levavam consigo mitos e do a um caso de amor com um mortal, estálendas que, em muitos aspectos, coincidem eternamente envergonhada.com os de outros povos. Uma história podeser considerada um mito quando é transmi­ No Japão, as Plêiades são conhecidas pelotida oralmente e esboça um caminho para nome “Subaru” - que vemos na marca deo desenvolvimento interior, sem qualquer automóveis em cujo logo se destacam seispreocupação de que este seja reconhecido estrelas.conscientemente ou não. Algumas tribos de índios norte-americanosÉ da Grécia Antiga a famosa história das acreditam que são descendentes das Plêiades.plêiades, cujo pai era o titã Atlas, e a mãe, a A mitologia da tribo indígena Cree relataninfa do mar Pleione, a “rainha navegante”. que ela veio das sete estrelas à terra, ini­Quando Atlas teve de sustentar o mundo so­ cialmente em forma espiritual, para depoisbre seus ombros, Órion partiu em busca das transformar-se, cada vez mais, em “carne esete irmãs, fazendo-lhes a corte. Ardendo de sangue”. A antiga cultura Monte Alto, dadesejo, ele perseguiu as plêiades durante cin­ América Central, conhecia a constelaçãoco anos pelos bosques da Trácia e por flores­ pelo nome de “as sete irmãs”, e acreditavatas ainda mais antigas, até despertar a com­ que ali estava a sua origem.paixão de Zeus. Para tranquilizar Atlas, Zeus Causa admiração que se atribua um papel tãotransformou as irmãs, as plêiades, primeiro importante a um grupo tão pequeno, e apa­em pombas e depois, colocou-as, com Órion, rentemente fraco, de estrelas e que ele estejanuma constelação de estrelas fixas. Conta-se presente na mitologia de tantos povos dife­que Órion ainda as persegue pelo céu. rentes, praticamente no mesmo contexto.Órion é caçador e simboliza o ser humano TJUKURPA Um dos numerosos mitos sobreelevado, cheio de saudade e expectativa, à as sete irmãs é a história da criação registra­procura das sete energias celestiais, dos sete da no secretíssimo Tjukurpa, o tempo dosmundos, dos quais fará parte, se a caçada for sonhos dos anangus, como os aborígenes sebem sucedida. No grupo das plêiades, apenas autodenominam:4 pentagrama 1/2013

MITOS DOS ABORÍGENES J.Angunguma.COMO FONTE DE Figura de umINSPIRAÇÃO ESPIRITUAL espírito, 1997“No início dos tempos da Terra, o criador, a lenda das sete irmãs 5Jindu-o-Sol, enviou dois seres espirituaispara dar forma à Terra. Eles vieram de umlugar da Via Láctea e fizeram os montes,vales, mares e oceanos. Quando seu trabalhoestava quase pronto, Jindu-o-Criador en-viou sete irmãs, estrelas da Via Láctea, paraa Terra, a fim de embelezá-la com flores,árvores, pássaros, animais e outras coisas.Elas estavam justamente ocupadas em criaras formigas-pote-de-mel quando ficaramcom sede. E disseram à irmã mais jovem:“Vá buscar água fresca para nós. Suba aque-le monte ali, vá naquela direção”. A irmãmais jovem pegou a cuia e foi procurar água.Os dois seres espirituais estavam na selva eobservavam as mulheres. Eles seguiram airmã mais nova quando ela saiu à procura deágua. Ela apaixonou-se pelos dois homens.As outras seis irmãs começaram a procurar amais jovem, porque fazia tempo que ela par-tira. E perguntavam umas às outras onde elapoderia estar, pois estavam realmente commuita sede e precisavam de água. Depois dealgum tempo, encontraram a mais nova comos dois seres espirituais. O criador, Jindu-o-Sol, avisou-lhes que, devido ao ocorrido, airmã mais jovem já não poderia voltar parao seu lugar na Via Láctea. Os dois homense a irmã mais jovem permaneceriam aqui naTerra. Contudo, o chamado de suas irmãs lá

As seis irmãs chamama sétima, a mais jovem,sem cessardo céu sempre tocava interiormente a maisnova. As seis irmãs continuam à espera deuma oportunidade para salvá-la das garrasdos seres espirituais ligados à Terra, paraque pudessem voltar a brilhar na Via Lácteacomo as sete irmãs.”Existe outro mito aborígene das sete irmãs perfeição e também o desejo primordial decom um final mais claro, no qual a irmã reunificação com a fonte, da reunificação domais jovem é aprisionada pelo grande caça­ elemento imortal com sua origem.dor Wurrunna, que a toma para sua mu­lher. Seguindo o chamado das seis irmãs, No contexto do mito das sete irmãs, po­ela finalmente consegue escapar, subindo demos nos perguntar: por que a irmã maisnuma árvore, cujos galhos imediatamente jovem deseja tanto a reunificação com suasa carregam para cima, de volta à sua pátria irmãs? E como pode ser satisfeito o anelocelestial, unida de novo às suas irmãs. Wur­ humano por valores mais elevados? A maisrunna, decepcionado com a vida que levava, nova recebe de suas irmãs a incumbência decompreende simultaneamente a verdadeira buscar água, mas cai na armadilha de doisnatureza das sete irmãs e deseja estar junto seres espirituais (terrestres), que deturparamdelas. Ele dá um grande salto para o alto, até sua missão original por causa das forças deo céu, onde ainda hoje acompanha a plêia­ atração e repulsão da natureza terrena.de das sete irmãs pelo céu estrelado, como Enquanto a sétima irmã está atada às forçasconstelação de Órion. da natureza terrena, o chamado das irmãs toca-a no seu imo, até que ela, finalmente,Em todos esses mitos, ou nas versões dife­ encontra o caminho de retorno. E esse cami­rentes de determinado mito, o essencial não nho traz consigo uma nova figura espiritualé tanto seu simbolismo constante e unânime, e uma consciência microcósmica que se am­simples de desvendar. O importante é que plia até o céu estrelado. Como os elevadoso alento universal expresso no mito ressoe sete raios regeneradores da vida original ena humanidade. Porque, além do fato de pura, as sete irmãs são onipresentes.numerosos mitos e lendas do passado encon­trarem paralelos nos movimentos religiosose espirituais atuais, eles também contêm as­pectos humanos de um ardente impulso por6 pentagrama 1/2013

Estas yawk-yawks (esculturas de madeira de modernos artistas aborígenes) representam moças que, durante o tempo dos sonhos, moravam nos lagos de águas doces em Arnhemland. Quando eram ameaçadas pelo gigante Luma-Luma, mergulhavam, transformando-se em sereias.A sétima irmã, a mais jovem, mora no ser Agora que ele “reconhece” suas irmãs, ashumano como uma voz divina, e vive no sete energias do início primevo penetram omicrocosmo com a voz da humanidade, o microcosmo inteiro e, passo a passo, ele per­caçador. No momento certo, o caçador reco­ corre o caminho para casa.nhece quem é sua verdadeira presa na caçadae pode dar ouvidos à voz divina. Daí em Qual é, pois, a condição para dar ouvidos aodiante, as sete irmãs alimentam a esperança primeiro raio? Objetividade e muita experiên­de se unir novamente. cia. Vemos isso no caçador mítico Wurrunna,A verdadeira convalescença do microcosmo um homem cansado das confusões e turbulên­somente começa quando a voz sublime pode cias do mundo, que lhe mostram sempre deproduzir ressonância em todo o microcos­ novo que o alvo de seus disparos termina pormo, e quando o caçador segue, então, essa revelar-se outra coisa, e não o que ele caçava.voz. As seis irmãs chamam a sétima, a mais Um espaço repleto de tranquilidade, objetivi­nova, sem cessar. No entanto, apenas quando dade e aspiração é o que a Escola Espiritual dapreenche as condições necessárias o micro­ Rosacruz Áurea quer oferecer. Nesse espaço,cosmo pode ouvir e vibrar em uníssono com o caçador pode obter “armas” melhores, umesse chamado. Começa, então, o retorno ao instrumentário interior capaz de sintonizar-seseu legítimo lugar e ao mesmo tempo a re­ com o campo sétuplo de radiação.construção do ser celestial. É também um lugar no qual Wurrunna, o ca­ çador, pode ouvir nitidamente, e sem interfe­No toque do primeiro raio do campo sétuplo rências, o chamado estimulante da irmã maisde radiação universal, o microcosmo pode nova, e pode reconhecê-lo interiormente e ainiciar sua viagem de volta ao lar. ele reagir µ a lenda das sete irmãs 7

a serpente cósmica e os homens-serpentesOs seres humanos parecem ter uma crença inata numa força imutável ou emforças que estão acima do tempo; em um “deus“, ou “deuses“ e “espíritos“,que criaram o mundo e a humanidade. Por essa razão, pessoas sensíveis estãosempre empenhadas em conectar-se, de certa maneira, com o ser mais elevado,seja por meio de uma busca espiritual consciente, seja devido ao anelo inatopela perfeição, para, finalmente, conquistar a capacidade humana original.Odesenvolvimento das diferentes que não foi formado de acordo com a matriz, religiões e movimentos humanistas com a ideia do Pai-Criador. Vista por esse através dos tempos permite que se prisma, a serpente é um ser duplo: ligada aoreconheça tal afirmação. Os homens familia­ Pai, ela é eterna, o bem absoluto, mas, emrizam-se com numerosos movimentos religio­ contato com este mundo, também serve àssos e espirituais, aprofundando-se no estudo suas forças.de seus escritos, símbolos e rituais. Percebe­ Os homens formados pela ideia original domos que os mitos e lendas que acompanham Pai-Criador podem aproximar-se dele cada vezesses desenvolvimentos apresentam, em mui­ mais, tendo a serpente como guia. É por essatos casos, uma concordância notável e um fio razão que os ophitas representavam essa serpen­condutor que corresponde ao impulso inato te mordendo a própria cauda, branca em cima,para alcançar a perfeição, para uma reunifica­ negra embaixo. Na mitologia grega, ela é oção do elemento imortal com sua origem. ouroboros, a serpente que abrange toda a cria­ ção. Ela tornou-se o símbolo da força criadora,Nos antigos mitos, é frequente encontrarmos da fertilidade e da regeneração. Observamosfiguras de serpentes num sentido cósmico. essa regeneração na troca regular de pele daNos primeiros séculos da nossa era, os ophitas serpente. Literalmente, ela está sempre “renas­atribuíram à serpente um significado especial. cendo”. E foi assim que a serpente, ao mesmoA palavra “ophita” é derivada da palavra gre­ tempo, tornou-se a representação da medicinaga ophis, que significa serpente. na Grécia. No Ocidente também conhecemos oEles acreditavam que a serpente cósmica bastão de Esculápio, com a serpente enrolada,estabelecia uma ligação entre o Pai-Criador, que é símbolo da medicina.de um lado, e a matéria, de outro. O pai é A cultura cristã geralmente vê a serpenteimóvel, porém a matéria modifica-se conti­ como personificação do mal. No Gênesis, anuamente: ela é perecível. serpente causou a expulsão do primeiro ho­A matéria é o mundo fora do Paraíso, do qual mem do Paraíso. No Apocalipse (20:3) lemoso homem foi banido. que a serpente é lançada no abismo. Isso fezA serpente é transcendente, símbolo do que na crença popular a serpente, Satanás,Logos, do filho de Deus, e movimenta-se fosse considerada inimiga e personificaçãosem cessar: a criação eterna. O filho acolhe do diabo. Muitos aspectos do mal são asso­as ideias do pai sobre o objetivo da criação ciados a esse animal rastejante e sibilante: ae preenche com elas tudo que é imanente, mordida venenosa, o réptil que rapidamentepenetrando no mundo da matéria ainda sem desaparece e se esconde. Porém, há passa­forma. “Sem forma” significa, neste contexto, gens positivas na Bíblia sobre as serpentes.8 pentagrama 1/2013

J. MurrayG. Milpurrurru. Píton do nariz preto com ovos, 1997Por exemplo, Mateus (10:16): “...sede, por­ sobre uma haste; sendo alguém mordido portanto, prudentes como as serpentes e sím­ alguma serpente, se olhava para a serpenteplices como as pombas”. Existe ainda, em de bronze, sarava”. A última versão da ser­Números (21:9), um trecho que nos fala de pente má não é bíblica; encontramo-la nosserpentes venenosas e de uma boa serpente: livros sobre Harry Potter, onde o basilisco e“Fez Moisés uma serpente de bronze, e a pôs Nagini simbolizam o mal. a serpente cósmica e os homens-serpentes 9

As serpentes dos mitos anangus têm sua aparição ligada ao surgimento de rios, lagos e outros elementos da paisagemO mito da serpente cósmica também era guerra entre os kunia-pítons (homens-serpen­conhecido na Índia e no Egito, com mais ou tes) e as venenosas serpentes Liru, travada nomenos o mesmo conteúdo. Há certa coinci­ Uluru - os rochedos australianos Ayers Rock –dência no que se refere a esses antigos mitos e em suas imediações.da Índia, da Grécia e do Egito. Eles provêm Há muito tempo, na era da criação, os homens­de culturas que existiram milhares de anos serpentes (kunias), que eram pítons com man­antes da nossa era. chas e sem veneno, partiram de um lago noMencionamos alguns exemplos em que a ser­ leste e chegaram a uma grande duna aplainada,pente surge com características positivas. Mas no centro da qual havia uma fonte. Uma dashá muito mais, e todos os aspectos apresentam mulheres kunia carregava seus ovos na cabeça ea mesma imagem: a serpente é, sobretudo, o enterrou-os na terra, no limite oriental de Ulu­símbolo do bem, da regeneração, da medicina, ru. Os kunias montaram ali seu acampamentoda própria vida. Ao mesmo tempo, ela tam­ e viveram bem por algum tempo. As mulheresbém ressurge novamente como encarnação do encontravam suficiente alimento todos os dias,mal. Dos mitos aborígenes podem ser tiradas e os homens, depois de caçar cangurus, emus econclusões inequívocas: as características das wallabies, gostavam de descansar ao entardecer,serpentes coincidem em vários mitos. Estu­ nessa margem da duna.dos etnológicos mostraram que muitas tribosaustralianas conhecem mitos com figuras de Contudo, a paz do povo kunia na região doserpentes, tratando-se de seres espirituais sob Uluru não durou muito tempo. Certo númeroa forma de grandes serpentes. Essas serpentes de serpentes liru, venenosas, cruzava a terratêm sua aparição ligada ao surgimento de rios, dos Pitjantjatjara, causando muitos problemas.lagos e outros elementos da paisagem, como Lideradas pelo grande guerreiro Kulikudjeri,é descrito em O Caçador de Sonhos (Tjukurpa). um grande grupo mudou-se do Katatjuta, oAqui também chama a atenção o fato de essas Monte Olga, no Ocidente, para o Uluru. Eserpentes geralmente possuírem boas quali­ foi assim que chegaram ao acampamento dedades. Elas proporcionam fertilidade para o Pulari, uma poderosa kunia. Pulari havia sehomem e a natureza, curam enfermos, prote­ afastado de seu povo e acabava de dar à luz.gem fontes e águas e salvam quem está se afo­ Furiosa, desesperada e protegendo seu filho,gando. Serpentes com más qualidades causam ela atirou-se sobre os lirus, com a criançadoenças, catástrofes e a morte. São caracte­ nos braços, expelindo sobre eles arukwita, arísticas que nos fornecem uma visão única do essência da enfermidade e da morte. Muitosfundo espiritual dos mitos aborígenes. Como lirus morreram, mas os demais resistiram aoponto de partida, tomaremos o mito sobre a seu ataque.10 pentagrama 1/2013

grande batalha sobre a colina, perto da fonte. Os lirus apunhalaram vários kunias, deixaram a região como vencedores e voltaram para Katatjuta. A kunia Ingridi, porém, a grande e colorida mãe-píton, estava desesperada. Em sua amargura, cantou arukwita, a canção da doença e da morte, matando a si mesma e aos homens-serpentes que restavam. Os rastros do kunia mortalmente ferido, porém, transformaram-se numa torrente de água. Ela inundou a área onde atualmente encontram-se três fontes formadas pela água em que foi transformado o sangue do ho­ mem-serpente morto. No final do tempo dos sonhos, quando a grande duna transformou-se em pedra, esses acontecimentos épicos tam­ bém se cristalizaram e, por assim dizer, fica­ ram gravados na formação rochosa Uluru. Para nós, não é fácil estabelecer a relação en­ tre a força do pai e o totem dos antepassados, como também dos próprios antepassados entre si. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que os mitos são parte integrante das culturas tribais e do seu meio ambiente. Se investigar­ mos mais a fundo o mito dos anangus sobre os kunia, ou homens-serpentes, com base no significado universal da serpente e do ovo, verificaremos que ele nos revela um desenvol­ vimento espiritual fascinante.Topsy Ross Nagala. Ngapa, Água de sonhos, 1999 O ovo ou os ovos representam um aspecto estranho no mito sobre os kunia. Cremos queUm jovem guerreiro dos homens-serpentes esse detalhe, bem como o tipo da “serpente”desafiou Kulikudjeri a uma luta de vida ou é muito significativo nesse mito. Isso porquemorte. Este acabou ferindo o homem-serpen­ os homens-pítons são os únicos que permane­te, após uma luta feroz, de modo que o kunia cem junto a seus ovos, mantendo-os aqueci­rastejou pela duna e morreu. Em seguida, a dos e vigiando-os até a maturidade.kunia Ingridi, mãe do guerreiro morto, ficoutão enfurecida que, munida de uma pá, des­ Assim como a serpente, o ovo é um antiquís­feriu um forte golpe no nariz de Kulikudjeri. simo símbolo universal devido à sua forma,A kunia Ingridi estava de luto pela perda do e também pelo fato de que dentro dele sefilho. Ela adornou seu corpo com ocres ver­ desenvolve um embrião, aparentemente semmelhos e, à noite, cantou cantos fúnebres. auxílio externo.Enquanto isso, kunias e lirus travaram uma Nos mitos da literatura mundial deparamo­ nos frequentemente com essa combinação. Em a serpente cósmica e os homens-serpentes 11

Cristo não apenas como uma personalidade histórica e única que viveu há 2.000 anos, mas como uma energia radiante, resplande­ cente, que estabelece a ligação entre a criação original e o nosso mundo, durante toda a história da humanidade.um mito indiano, por exemplo, a Terra é ca­ Como sabemos, para alguns muitas vezes oracterizada como rainha das serpentes, como bom se transforma em desvantagem e, para“mãe de tudo que vive”, Sarparajni, porque outros, em mal. Então, vemos surgir, realmen­antes da criação do planeta, uma “longa linha te, os lirus do mito, as serpentes venenosas.de substância cósmica serpenteava sobre o O ser humano é semelhante a uma serpentecaos, para depois transformar-se numa esfera, terrestre, às vezes bom, às vezes venenoso.num ovo”. Um mito egípcio narra sobre um A serpente celestial, contudo, está acima do“ovo dos mundos”, para o qual rasteja uma bem e do mal deste mundo. Ela é sinônimo deserpente desenrolada, boa e perfeita, Sjai, a sabedoria conectada à vida divina.fim de protegê-lo. No transcurso de todas as experiências que fazemos neste mundo do bem e do mal, oEm outro mito da Índia, Brahma surge sobre coração – por mais fraco que seja – podeum cisne de ouro. Este cisne, Kalahansa, põe libertar-se de todos os sentimentos perecí­um ovo de ouro no caos, no início de cada veis. A força crística cósmica, que o coraçãoperíodo da criação, do qual surge todo o uni­ recebe, pode então espelhar-se na cabeça,verso com todas as suas criaturas. Segundo a em nossa vida de pensamentos. Assim, es­tradição, o cosmo nasceu de um ovo. Assim, tabelece-se, aos poucos, outra mentalidade,também a centelha divina se assemelha a um outro estilo de vida. O homem aprende aembrião, a um ovo, do qual sairá, um dia, o espelhar-se no bem absoluto, que se mostrahomem imortal. Essa centelha-do-Espírito é a ele em seu coração. Ele alcança um estado“imóvel”, inacessível a todos os acontecimen­ neutro de benevolência em relação a tudotos que ocorrem na vida material, em nosso o que se apresenta em sua vida. E, por fim,mundo imperfeito. Na mitologia, as serpentes ele vive na transitoriedade da matéria destesimbolizam o poder vital do cosmo e a sabe­ mundo, voltando-se, porém, cada vez mais,doria. Elas são “a longa linha de substância para seu próprio interior. Dessa maneira, elecósmica que serpenteia sobre o caos”. Ao constrói para si uma nova bússola interior. Amesmo tempo, elas são “a serpente do arco­ alma, nascida do núcleo espiritual e ligada aoíris”, a serpente dos ophitas, que representa a campo espiritual, passa então por um proces­sabedoria, o filho de Deus. so de desenvolvimento. O ovo, protegido e aquecido pela serpente, eclode, e uma novaCristo também é um poder cósmico, espiri­ consciência desperta e avista o horizonte detual, que reconduz à criação original. Dizia um mundo totalmente novo µele, pois, em João 8:23: “Vós sois cá de baixo,eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eudeste mundo não sou”. Nos velhos mitos, aserpente personifica também o poder atem­poral, que estabelece a ligação entre duascriações. De forma analógica, consideramos12 pentagrama 1/2013

ETERNO A N S E I OE se você dormisse? E se no seu sono você sonhasse? E se, em seu sonho, no Paraíso, vocêcolhesse uma linda e misteriosa flor? E se, ao despertar, você tivesse a flor entre suas mãos? Ah, e então?” felicidadeSamuelTaylorColeridge eterno anseio 13

a quedaNo seu livro The Fall (A Queda) o escritor inglês Steve Taylor faz uma análisepsicocultural clara e penetrante da sociedade atual. Como ele procede? Elevê nossa sociedade de hoje em primeiro plano, não como o apogeu de umprocesso evolutivo neodarwinista, mas como uma sociedade que se encontranum processo de queda persistente. Segundo ele, os homens dessa sociedadeapresentam todos os sintomas de “seres caídos”.E le enumera as características dessa exemplo, o homem Neandertal foi suplantado sociedade comparando-as com o que pelo homem Cro-Magnon, do qual, por fim, os antropólogos denominam hoje de somos descendentes.“sociedades antes da queda” ( pre-fall-socie- As primeiras sociedades descritas por Lawlor, eties). No tempo pré-histórico reinou, segun­ também por Taylor, demonstram grande seme­do ele, uma convivência tranquila e relativa lhança com os antigos mitos sobre a Idade deharmonia. Isso se deduz de observações do Ouro dos gregos, de Hesíodo e Platão, sobrejeito de viver, dentre outros, de várias tribos os homens da virtude perfeita de Chuang Tsé ede pigmeus na África, dos esquimós Cooper sobre o jardim do Éden bíblico. Estranhamente,e Utke no norte do Canadá, da população Taylor situa a queda mítica como evento histó­original americana, como os indígenas Hopi rico aproximadamente 6.000 anos atrás.e Pueblo, das tribos jivaro e yanomamis na Pesquisas modernas conseguem datar comAmérica do Sul, dos kung e bosquímanos precisão surpreendente enormes revoluçõesna África do Sul ou dos povos de Papua na geológicas, como terremotos, soerguimentoNova-Guiné, mas sobretudo dos anangus, de montanhas, tsunamis e outros fenôme­dos aborígines da Austrália. Essas tribos for­ nos, ao passo que as tradições remontam aomam, por assim dizer, a memória dos tempos fim da era glacial, cerca 11.000 anos a.C. Hápré-históricos. aproximadamente seis mil anos atrás, ou seja,“Os rituais, crenças e cosmologia dos abo­ 4.200 anos antes de Cristo, houve realmen­rígines poderiam muito bem encerrar as te um período de gigantescas inundações nomemórias mais profundas de nossa raça”, diz Oriente Médio. As tradições sumérias e oTaylor citando o mitógrafo Robert Lawlor Gênesis bíblico, entre outros, também men­(escritor universal de mitos). Aqui ele não cionam essas catástrofes e com frequência re­encontra, como no período neolítico, ne­ latam brevemente esses períodos de milharesnhum traço de posição ou diferença social, de anos. Importantes migrações ocorrerampoder e guerra, pois esses homens vivem sem no Oriente Médio e na Ásia central.qualquer inclinação para posse, sem cons­ As brilhantes civilizações dos egípcios e dosciência de culpa e sem vergonha pessoal. sumérios, que surgiram em seguida, formaramOs dados da geocronologia, da tecnologia com seu progresso técnico as primeiras mani­genética, da antropologia e da arqueologia festações dessa mudança de mentalidade cole­permitem-nos retroceder até o ano 300.000 tiva. Em toda a Europa a população autóctonea.C. O DNA de uma mitocôndria permitiu foi expulsa, primeiro pelos celtas e germanos,demonstrar que o homo sapiens se disseminou depois pelos romanos. Em outros lugares ospelo mundo há 60.000 anos. Na Europa, por assírios, persas e semitas conquistaram imensos14 pentagrama 1/2013

AS MAIS PROFUNDAS MEMóRIAS DA RAÇA hUMANAGustav Klimt, Árvores frutíferas. 1901 a queda 15

territórios. mundo ainda está pleno doOs últimos sagrado e povoado por seresa desa­ anímicos. Ele ainda não foiparecer dessacralizado. Propriedadeforam os de todos, ele não pertencemicenianosde Creta, Malta e a ninguém em particular.das ilhas britânicas. “Os aborígines nunca de­Simultaneamente, a par com o desenvolvi­ senvolveram o conceitomento explosivo do cérebro – o brain-explosion de propriedade parti­dos antropólogos –, produziu-se uma explosão cular. Eles tambémdoentia do ego, acompanhada de comporta­ não têm a neces­mentos patológicos variados, que causou o sidade de umaaumento dos sofrimentos psíquicos. Por isso crença emTaylor não vê a evolução do ego como um um deusdesenvolvimento harmonioso, simplesmente pessoal.porque ela é acompanhada de um sentimentode mal-estar e de sofrimento devido à cobi­ça, que se encontra na base da desigualdadesocial, da opressão e da exploração de mino­rias, da guerra e da violência. Toda forma decultura e religião, nesse plano, representaapenas um substituto para a falta deverdadeira harmonia e equilíbriointeriores. Aqui parece que Taylorconsidera os fatores externoscomo primeiros responsáveispor esse desenvolvimento eque as mudanças de consciên­cia são apenas a consequência.EVOLUÇÃO DO EGO Para uma melhorcompreensão, retomamos a imagem queele esboça das culturas “antes da queda”. O16 pentagrama 1/2013 Yann Legrand, Árvore da vida. Água-tinta, 2011

Eles vêem a natureza inteira como a buscar novos meios de vida: novas ferra­ impregnada de uma força espiritual mentas foram inventadas, as relações sociais universal, o grande espírito, ao qual se tornaram mais complexas e os métodos de dão os mais variados nomes, como caça, mais eficientes. Antropólogos demons- tram que a evolução humana deu um grande Mana ou Tirawa”. salto para frente. Houve também uma grande As idealizações e exaltações desse modo de e súbita transformação das capacidades do cé­vida primitivo caras a Taylor, seus múltiplos rebro humano – um acontecimento genético.exemplos concretos e suas referências cien­ E assim Taylor inclina-se para o desejo atualtíficas, despertam, é verdade, o entusiasmo, de um retorno a essas formas idílicas demas são, no fim das contas, decididamente vida, se bem que ao mesmo tempo reco­discutíveis. nheça essa impossibilidade. Ele mencionaPossivelmente nesse tempo distante já tenha em especial os aborígines da Austrália, queocorrido certa evolução do ego, mas este, vivem em comunidades abertas sem leis nemainda latente, não vivenciara sua plena ex­ punições, sem personalidades dirigentes nempressão e as suas consequências. Tribos pri­ determinações jurídicas de proibição, em quemitivas ainda vivem num estado de compar­ homens e mulheres se submetem aos ritostilhamento místico, uma participação mística, iniciáticos de modo equivalente. O autorcomo diz Levy-Bruhl, mas inconsciente. esboça, de maneira impressionante, as devas­Pesquisadores da área de genética indicam que tações ali causadas pelos poderes coloniais, ehá cerca de 60.000 anos houve uma notável como exterminaram tribos inteiras e destruí­redução no contingente populacional. Atual­ ram sua cultura.mente a análise do DNA das mitocôndrias É mérito do autor nos sacudir com vigor(informações celulares transmitidas pela mãe à para nos despertar de nosso sentimento desua descendência) permite afirmar que apenas superioridade. Ele percebe acuradamente na5.000 homens sobreviveram. sociedade ocidental a assinatura de um egoHomens mais evoluídos, fugindo da Ásia, hipertrofiado e separado, obstáculo maior amisturaram-se com populações que viveram toda tentativa de libertação da miséria e donos vales do Oriente Médio. Então, houve sofrimento. Se o autor tivesse aprofundadoum processo de fecundação cruzada. Assim, ainda mais sua reflexão, talvez concordasseo homem inteligente, agressivo e voltado que a condição humana está “contaminada”para automanutenção, transmitiu seus genes e que as causas não estão apenas no planoao homem agrário, muito menos evoluído, social e psicológico. Taylor jamais se refereque pouco se elevava da estreita relação com ao homem metafísico e metapsíquico!a natureza. Os sobreviventes foram forçados a queda 17

Ele trata bastante da queda como fenômeno o céu, sacerdotes, nem mesmo com Deus (nocoletivo, mas não agrega a ideia de que ela sentido habitual desse termo). Tradições espi­afetou toda a ordem natural do mundo, sim, rituais como o budismo, a yoga e o sufismo,que ela é a origem mesma deste estado. dentre muitos outros, são sistemas de trans­ formação. Seu único objetivo é curar nossaSeu esboço da psique trans-fall (a psique além desarmonia psíquica e transcender nosso atualda queda) também não é, segundo nossa estado de sofrimento. Elas nos ensinam a nosopinião, convincente. Ele de fato reconhece liberar da desarmonia psicológica e a nos re­que, mais tarde, a humanidade provou uma ligar à força do Espírito. Em outras palavras,primeira efusão de forças espirituais, graças elas nos oferecem um método para curara guias iluminados, como Buda e Jesus, mas definitivamente nossa desarmonia ao invés deque ela não foi amplamente tocada em pro­ simplesmente tratar os sintomas.”(p 213 ss)fundidade, exceto em grupos relativamente Entretanto, esse renascimento não deve nosrestritos, como os sufis, os gnósticos e mís­ reconduzir para trás, ao tempo de um estadoticos como mestre Eckhart e Jacob Boehme. paradisíaco primitivo, embora possa haverSegundo Taylor, a humanidade será con­ certas analogias, mas ela deve nos conduzirfrontada com uma segunda efusão, com uma ao estado de consciência original, do ho­nova consciência que só se tornará possível mem-espírito ainda não imerso no tempo. Ése ela conseguir inverter as consequências da um retorno... mas é, de fato, e sempre, umexplosão do ego. progresso. É possível que surja uma novaA psique trans-fall é, segundo ele, a única interdependência ecológica com o Todo, maspossibilidade para evitar uma explosão mun­ ela concerne sobretudo à ligação renovada dadial iminente. Para conter essa maré, um alma com seu núcleo espiritual µrenascimento social e psicológico fazem-senecessários: “Definitivamente, a religião não Steve Taylor, The Fall. Winchester-Nova Iorque, 2010funciona de fato, no sentido de que ela nãoé capaz de nos livrar de nosso sentimentode separação e de incompletude; ela ape­nas o compensa. Existe outro jeito de trataresse problema: mediante a espiritualidade oudesenvolvimento espiritual. É importante nãoconfundir espiritualidade com religião. Nosentido estrito do termo, espiritualidade nadatem em comum com orações, livros santos,18 pentagrama 1/2013

ETERNO A N S E I O“Todas as criaturas debaixo do sol têm sua origem no ser; o ser tem sua origem no não-ser.”criaçãoLaoTsé eterno anseio 19

salva-nos,que perecemos!CINCO CONSIDERAÇÕESSOBRE A PALAVRANO TEMPLO DA ROSACRUZI No princípio: antes que se falasse de umaA Bíblia, no altar do templo da Rosacruz, está criação, antes que se falasse de uma espécieaberta no prólogo do Evangelho de João, que de “Big Bang”, antes – quer dizer, não notem início com estas palavras: “No princípio limite do tempo, não antes, nem depois; masera o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o também não dentro dele, não dentro de umVerbo era Deus.” espaço: no atemporal. O Verbo não estava noA história da humanidade pensante é marcada que é limitado, estava no ilimitado, não haviapela palavra. O uso da palavra a fim de exprimir sido pronunciado no espaço.pensamentos somente tornou-se possível quan­ Nossa palavra, amigos, é uma forma, umdo o ser humano pôde dispor da capacidade de sinal, ela cria um referencial e limita. Ela épensar. O animal não pensa e não conhece a pa­ colocada em um contexto, por meio do quallavra; ele não dispõe do éter refletor ou mental. adquire seu significado e somente pode existirA palavra é um poder, uma criação; ela con­ em relação a algo que ela limita, dá o coloridotém uma força, uma carga que confere poder e determina.ou enfraquece. Uma palavra pode quebraruma pessoa, pode fazê-la adoecer, animá-la ou A palavra viva, da qual nos fala João, a palavracurá-la. Algumas palavras são contundentes e que basta a si mesma, que tudo abrange e à qualferem, são palavras carregadas de cinismo, afia­ todas as palavras se referem, assim como todosdas e corrosivas como ácido sulfúrico. Conhe­ os números se referem ao número “um”, nãocemos palavras que exprimem os mais elevados podemos compreender por meio de palavras.pensamentos e ideias, palavras que põem as Nosso pensamento, que se expressa por meio demassas em movimento e as impulsionam rumo palavras, imagens e significados, não pode com­a determinado objetivo. preender e apreender o Verbo; ele é inadequadoHá palavras consoladoras, palavras amistosas, para abarcar o Verbo em sua unidade.capazes de encorajar e levantar alguém, como Por isso, tampouco podemos compreendertambém há palavras que lançam a alma para por que a vida é como é, e somos obrigadosbaixo, no lodaçal da existência. Além disso, a concluir que nosso pensamento é completa­existem as muitas palavras inúteis, pronuncia­ mente “cego” em relação à palavra à qual odas ao vento, impensadamente, o redemoinho prólogo se refere.de palavras com as quais retemos uns aos ou­ Nosso pensamento corta e desfibra a unida­tros no dia-a-dia. E então lemos no prólogo do de da palavra; ele parte do princípio e doEvangelho de João a tão mágica palavra: fim, sendo o fim novamente o começo para“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava mais uma palavra ou pensamento, igualmentecom Deus, e o Verbo era Deus”. especulativo e hipotético. Nosso pensamento20 pentagrama 1/2013

senhor, salva-nos, que perecemos! 21

No plano temporal não há como percebero começo e o fim do tempobusca explicações para o porquê de processos, IIdesenvolvimentos e perturbações que ocor­ Quando nos sentimos chamados e tocados pelarem constantemente. No entanto, com um palavra viva, então convém trazer à memória ofragmento, uma parte, não conseguiremos que a palavra da Rosacruz propõe e faz. Nossoabarcar o todo. No plano temporal não há pensar é como uma peneira: ele impõe limites.como perceber o começo e o fim do tem­ E, com isso, nos separa, nos afasta do ilimita­po. E assim também não há como explicar a do, daquilo que quer brotar no infinito comodoença, a adversidade, o êxito, a felicidade uma misteriosa flor, que desabrocha na noiteou a tribulação: nós procuramos correlações, do inexplicável e exala seu perfume; uma flor,falamos de carma, damos um nome a algo, uma rosa cujas cores místicas querem apresen­mas o que está fundamentalmente dividido, tar-se a nós setuplamente, numa mescla indizí­desmembrado, não pode nem abranger nem vel de harmonia e pura radiação etérica.compreender a totalidade.A vida é diferente do que o homem presun­ Um fato sempre atual é que a palavra, a fonteçoso, em sua cegueira, dispõe-se a admitir. da vida, é atacada pelo homem dividido. EleO Verbo, que é alfa e ômega, não pode ser a adapta a si para, assim, defender a própriadividido por nós. O Verbo é a unidade que é separação e torná-la aceitável. ExplicaçõesDeus: eterna e de eternidade em eternidade. são formuladas e contextos são construídos, oQueremos dizer com isso que explicações nos que precipita inúmeras pessoas no infortúnio,isolam da palavra eterna. Mas independente aprisionando-as num dogmatismo irracional,disso, ela fala em nós como força e vida, como desatinado e cristalizante. Assim se rompe emotivação e elixir da vida, como espírito, mutila a unidade da palavra viva.como Espírito Santo. Um texto apócrifo sobre João descreve esse atoA linguagem da sabedoria não dá explicações; como “a perfuração da palavra, o sangue da pa­portanto, não se dirige ao pensamento racio­ lavra, o ferir a palavra, o sofrimento da palavra,nal que opera de forma linear, horizontal. a crucifixão da palavra, a morte da palavra”.O Verbo, a linguagem da Gnosis, refere-se à Nós, seres humanos exteriores, nascidos e cria­força viva e ativa da palavra, que concerne a dos no tempo e espaço, fenômenos que surgi­cada criatura, a cada ser humano no agora, ram e novamente desaparecerão, sabemos queno hoje vivente. Essa linguagem contraria as a criação divina, sua palavra pronunciada, étantas explicações que constituem a fonte dos imperecível, incorruptível, verdadeira e bela.conflitos humanos: ela está para a outra como O homem também pertence a essa criação,o vertical em relação ao horizontal, isto é: ela mas trata-se do verdadeiro homem que respiraé perpendicular. na criação divina e é em Deus. Este homem é22 pentagrama 1/2013

chamado Manas, pensador. Ele se move simulta­ apelar ou debater infinitamente.neamente com o movimento eterno da vida, na Em sua Epístola aos Hebreus, Paulo forneceinspiração e expiração da vida divina; nela ele se uma clara descrição da palavra viva:eleva, torna-se consciente e consegue compreen­ “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, eder o que não pode ser entendido pelo homem mais cortante do que qualquer espada de doisexterior, nascido da matéria: o mistério de sua gumes, e penetra até ao ponto de dividir averdadeira origem, da nova gênese humana! alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do cora­III ção. E não há criatura que não seja manifesta“No princípio era o Verbo... e todas as coisas na sua presença; pelo contrário, todas as coisasforam feitas por ele, e sem ele nada do que foi estão descobertas e patentes aos olhos daquele afeito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a quem temos de prestar contas.” (Hb 4:12-13)luz dos homens.” Essa “vida” é o mistério do A palavra de Deus é viva e forte. Ela está ativavir-a-ser humano, da gênese humana, que não em nós como energia alquímica; ela afasta opode ser pronunciado nem explicado no exte­ “morto”, regenera o que está enfermo, endirei­rior, pois ele fala no que está oculto e ilumina ta o que é falso, reforma e influencia o que éo ser humano latente. E, no entanto, ele se mortal dissolvendo nossas alucinações e ilu­torna visível. Os escritores do Romantismo sões. Toda a estrutura auto-afirmadora do egoprocuravam-no em um relâmpago, um piscar é renovada na luz da verdade, sem acepção dade olhos, inesperadamente, em um sorriso, um pessoa, para obtermos autoconhecimento.silêncio repentino, no “brilho da alma”. O Verbo, que é vida, irrompe, penetra noAs ações e as atitudes dos seres humanos teste­ tempo. No entanto, a palavra é e age somentemunham de sua alma, assim como também o onde há uma alquimia pura e ativa.sangue, que flui pelo sistema vital humano como O Verbo, a luz do mundo, manifesta-se parauma corrente capaz de despertar para a verda­ uma ressurreição ou uma queda. Ele se tornadeira vida o que está morto. O que está “morto” luz e vida no ser humano que age, que vive eé a consciência com sua compulsão de explicar está, segundo sua alma e sua consciência, natudo, e que pretende comprimir e forçar a vida força e ordem da palavra.a formas pré-estabelecidas, imagens concebidas Em sua grande obra, Ética, Espinosa escreve:pelo pensamento, temas, opiniões ou dogmas.Se estamos abertos e seriamente empenhados “Se a vida consiste em ações, e torna-se melhorem sondar a palavra viva da Gnosis, a palavra na medida em que agimos da melhor forma,que dá a vida, não devemos nos aproximar dela então a melhor das ações, que se distingue pelae vivificá-la como algo passageiro, como todos dignidade e firmeza, é a contemplação, isto é, aos fenômenos sujeitos incessantemente à ação orientação da alma à Gnosis.do tempo; não como algo que envelhece ou Ela nos proporciona a vida mais sublime eque está sujeito a estilo, tendências, juventude, magnífica. E desejaria acrescentar: também avelhice ou aos caprichos da moda. mais feliz. Porque essa orientação interior não retira alegrias turvas, falsas e inconsistentes dasNão devemos abordar essa palavra sagrada formas externas das coisas, como fazem os nos­curadora como se fosse um estímulo intelec­ sos sentidos. Não, ela possui em si mesma umatual, ou a uma sugestão, à qual poderíamos profusão de legitimidades verdadeiras e eternas, senhor, salva-nos, que perecemos! 23

causas de todas as coisas. Ou trata-se, talvez, de você e de mim? EleDe forma pura e verdadeira, ela liga-se a tudo não era a luz, mas veio e foi chamado para daro que é puro, verdadeiro e constante, e essa é testemunho da luz. Como ele fez isso? Comsua alegria. (...) muitas palavras, explicações, ideias, opiniões,E o que, de longe, é o mais importante: uma pensamentos? Com as fanfarras da vida ilusóriavida que se mantém tão próxima de Deus na dialética? Não; mas mediante uma vida natransforma o ser humano na sua perfeita e viva alma eterna e com base na alma eterna. Testifi­imagem!” cando, portanto, da sua força ativa que produz milagres e atravessa a realidade da existênciaIV no espaço-tempo graças à sua poderosa força deAmoroso – não amoroso; bonito – não boni­ radiação, da mesma forma que o sol nascenteto; bom – não bom; tolo – não tolo; brilhante abrasa o ar com seu calor e dissipa a escuridão– simplório; culpado – inocente; fraco – for­ da noite. Não passará isso de uma ficção, umte; preto – branco; esta ou aquela roupa – ou sonho, um ideal, uma irrealidade que rapida­não; talentoso – medíocre; Deus – não Deus: mente será desmascarada pela dura realidade?tudo isso são qualificações do ego que, em si, Espinosa escreveu um breve livro intituladoé dividido. Nelas ele encontra sua identidade e Tratado da Correção do Intelecto. Ele recorreuautoafirmação. O homem rompe, e quebra, a a uma “reflexão insistente”, segundo suaspalavra. Ele a mutila e tira o seu poder. O eu palavras, para examinar o que é maisé mantido com esses farrapos e fragmentos. A proveitoso para o homem:palavra torna-se mera decoração, fina e acha­ “Em verdade, tudo aquilo que o vulgo seguetada como um papelão, no qual a impressão já não só não traz nenhum remédio para a con­está descolorida. servação de nosso ser, mas até o impede e fre­O que podemos fazer? quentemente é causa de morte para aqueles queÉ na maior simplicidade e modéstia que po­ o possuem e sempre causa perecimento para osdemos começar a servir ao ser interior, que que são possuídos por isso.”conhece a Palavra! A questão, então, seria esta: A esse respeito, ele apresenta alguns exemplos:Podemos fazê-lo? Como? há inúmeros exemplos de pessoas “que, paraExiste o ser humano exterior e perecível, e conseguir a honra ou defendê-la, muitíssimoexiste o ser humano interior, possivelmente sofreram. Por último, há inúmeras pessoas queainda inativo, latente, uma imagem de olhos aceleraram a sua morte pelo excesso de concu­ainda mortos. E existe a palavra, que vem a nós piscência”.e fala em nós. Espinosa continua investigando o que o deseNo Verbo “a vida estava nele, e a vida era a jo de coisas mundanas significa para a alma eluz dos homens”..., que brilha nas trevas. E chega à conclusão lógica de que “o amor poro Evangelho prossegue: “Houve um homem uma coisa eterna e infinita alimenta a almaenviado por Deus, cujo nome era João. Este de pura alegria, sem qualquer tristeza, o queveio como testemunha, para que testificasse a se deve desejar bastante (anelo de salvação) erespeito da luz, a fim de todos virem a crer por procurar com todas as forças. Entretanto, aindaintermédio dele. Ele não era a luz, mas veio que percebesse mentalmente essas coisas compara que testificasse da luz”. Quem era esse bastante clareza, nem por isso podia desfa­homem? Trata-se de uma determinada pessoa? zer-me de toda avareza, da busca por prazer e24 pentagrama 1/2013

É na maior simplicidade e modéstia que podemos começar aservir ao ser interior, que conhece a Palavraglória. Apenas via que, enquanto a mente se além do tempo, pode ser descoberto consciente­ocupava com esses pensamentos (a clara orien­ mente. Quanto ao resto, não faça mais nada comtação à Gnosis), afastava-se daqueles e refletia a sua personalidade, a não ser orientar-se para aseriamente no novo empreendimento, o que senda de libertação da alma, em reflexão diária,me servia de grande consolo, pois percebia que para concluir o processo iniciado”.aqueles males não eram de tal espécie que nãocedessem aos remédios”. VO que Espinosa chama de amor por algo eterno Em um pequeno quadro de Rembrandt vê-see infinito é a vida que não conhece a morte. Ela um barquinho numa tempestade, a mercê decontinuará sendo estranha ao nosso mundo, um furiosas ondas do mar e ameaçado de afundar.fator de perturbação, ao qual se pode reagir de Todos a bordo estão em pânico, exceto umaduas maneiras: negar e rejeitar, ou então, acei­ pessoa que dorme tranquilamente na popa.tar. Ambas as possibilidades nos conectam com Esse acontecimento é relatado nos diferentesas leis, condições e consequências que lhe são evangelhos:próprias. A vida dá a vida. Ela nos ensina a viver “Então, entrando ele no barco, seus discípulos osegundo o áureo e eterno critério do Único Bem, seguiram; E eis que sobreveio no mar uma gran­da mesma forma como Hermes nos ensina. de tempestade, de sorte que o barco era varridoEm seu livro Cartas, Catharose de Petri res­ pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia. Mas osponde à pergunta sobre a possiblidade de uma discípulos vieram acordá-lo, clamando: Senhor,pessoa anelante poder acelerar o processo da salva-nos, que perecemos! Acudiu-lhes, então,mudança fundamental por meio de uma ou Jesus: Por que sois tímidos, homens de pouca fé?outra ação: E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar,“Caro amigo, você usa um sobretudo, o sobre­ e fez-se grande bonança”. (Mt 8:23-26)tudo do seu antigo ser. O seu discipulado ainda O barco é a sagrada arca, que navega peloestá nesse sobretudo, e não no seu imo, no ser mar da vida. O aluno entrou a bordo e ali estáinterior mais profundo. Esse sobretudo é um dos seguro. Ele não tem nada a temer das violentasmuitos véus entre você e a Gnosis. Nesse esta­ tempestades e movimentações que pertencem àdo, a Gnosis continuará sendo um mistério para vida na nossa natureza. Elas não irão atacá-lovocê, a não ser que o seu pensamento, senti­ muito profundamente se a alma eterna e ocultamento, seu elemento volitivo e sua vida de ações nele despertou para a vida. E se mesmo assimestejam em plena consonância com o fogo que ele clamar pela alma, em situação de perigo ese inflamou em você. Então a força do Espírito com medo, então soará: “Estou convosco, ho-Santo poderá fluir no seu santuário da cabeça. mens de pouca fé!” E Jesus estenderá sua mão eE no silêncio, o eterno, o onipresente, que está aplacará a tempestade µ senhor, salva-nos, que perecemos! 25

ETERNO A N S E I O O céu é o lar onde aqueles que levam o corpo imperecível recebem as boas-vindas; a terra é a morada de corpos mortais. O terrestre é destituído de razão; o céu é conforme a razão divina. As harmonias do alto servem como fundamento do céu; as determinações da lei na terra são impostas a ela. homemHermes26 pentagrama 1/2013

pesado e consideradodemasiado leve?Em casa, depois de uma semana de viagem pela Turquia, eleainda pensa no encontro que teve no anfiteatro de Aspen-dos localizado no interior verdejante próximo à costa sul deAnatolia. Depois de uma longa viagem pelo litoral florido, eleencontrou finalmente o velho e bem conservado anfiteatro.Através de um escuro corredor pode-se entrar na excelenteconstrução. A bela arquitetura deixa uma profunda impres­são: a sensação de se poder ouvir uma pena cair no chão...O anfiteatro estava vazio, com exce­ estojo de violino. De imediato, tira o violino ção de cinco turcos, um dos quais e o oferece aos presentes. Ninguém aceita. subiu até a fileira de assentos mais Depois de alguma hesitação, o viajante dá aelevados e se pôs a cantar com uma bela entender que está disposto a tentar.voz de barítono um pequeno fragmento de Nesse momento, dentro dele passa comoópera. Outros dois também quiseram testar um filme, e uma voz lhe sussurra: “Este éa acústica, primeiro murmurando e depois o momento! Diante de 20.000 lugares... aindo do pianíssimo até o fortíssimo. Nisso, gente se torna o herói de Aspendos...” Outramais um deles ganha coragem e começa a voz diz, no entanto: “Não, nada de blefes.cantar suavemente uma doce melodia. Seja mais modesto... Af ine o violino... PorDevido à tranquilidade que o anfiteatro ema­ que de repente você está cheio de cuida­na, desaparece a timidez. Uma voz responde dos?... Seu braço dolorido testemunhará deà outra, e a ideia se define: “Um diálogo, um você, o herói...”diálogo cantado!” E eles cantam alegres, num Ele começa a improvisar um pouco. Depois,inglês fragmentado, e em seguida: “Em coro, sob os brados encorajadores dos amigos tur­cantemos em coro”. E começam a cantar cos continua com Bach, Mozart e Vivaldi.Alegria, formosa centelha divina, da nona sinfo­ E conforme o anfiteatro vai se enchendo denia de Beethoven, e as vozes se amplificam, turistas, ele deixa-se levar e toca o violinojubilantes. Dessa forma, a esplêndida acústica cada vez mais forte e mais rápido, numdo teatro realça as palavras e a melodia. ritmo frenético. Cada crescendo é seguido de um diminuendo, ao qual sucede um novoEntretanto, um dos turcos, que havia desapa­ frenesi. Depois, gradualmente, a inspiraçãorecido momentaneamente, retorna com um diminui e desaparece sob os aplausos. pesado e considerado demasiado leve? 27

Ah, ele não estava sozinho? Então diz um para cima e para o seu interior.” Após umados amigos turcos despreocupadamente: curta pausa, o viajante agradece aos turcos“Você me empresta o violino? Somente e, após calorosa despedida, segue seu cami­para tentar tocar algumas notas”, diz o belo nho, profundamente tocado.barítono, que mais tarde fica-se sabendo Ele retoma sua marcha sobre o caminhoser médico. “Naturalmente, claro... se eu pedregoso entre as oliveiras, quando uma pe­soubesse...” quena serpente sibilante se insinua entre seusLentamente o homem faz vibrar as cordas e passos antes de desaparecer na folhagem.toca introspectivamente uma simples me­ Isso foi real ou um sonho? Retornando aolodia do folclore. “Você percebe o silêncio longo dessa costa agreste, o viajante pensanestas notas?” Então, o espaço responde, e o no que acaba de viver. Restou a sensação desupérf luo, o acessório, é tragado como num ter sido tocado. Mas há algo nele que lutasuspiro: “Não pare de ouvir: para baixo, com a compreensão querendo despertar. A28 pentagrama 1/2013

Não pare de ouvir:para baixo, para cimae para o seu interior.alma, como um “nada” de prata, confronta­ E de repente, bem acima das nuvens, surgese com o pretensioso orgulho, banhado a luz do sol matinal que, com os seus raios,em suor. O que acontecera ainda não ilumina também seu coração inquieto. Numhavia sido incorporado à sua consciência. instante, ele compreende: não foi somenteÉ o ultimo dia de férias. O ônibus para o um teste da acústica do anfiteatro, mas tam­aeroporto parte pouco depois da meia-noite. bém a pesagem de um homem. ConsideradoA chuva bate contra as janelas enquanto demasiado leve – ou demasiado pesado? µas palmeiras se retorcem sob os violentosgolpes do vento noturno. Depois da deco­lagem, de manhã cedo, o avião desapareceroncando entre as espessas nuvens de chuva,totalmente sacudido. Espíritos irrequietosbuscam a luz do dia. pesado e considerado demasiado leve? 29

todo movimento encontrao repouso em buda,o espírito do universoA luz brilha como uma incontestável e eterna realidade em todas as suasmanifestações infinitas. Ela é o espírito do universo, a natureza de Buda.Ela é a base de toda a existência – mesmo que a existência não sejaconsciente dela. Muitos olham para fora, procurando inúmeros relatosdaqueles que se ligaram a ela interiormente. Seus testemunhos, alegres econsoladores, oferecem a perspectiva de uma nova realidade de vida.O estilo de vida budista é um processo intenso de purificação das atitudes,dos pensamentos e da fala. É autodesenvolvimento e autopurificação.Este é o ensinamento de Buda: abandonar o O budismo fala de três tesouros, ou três joias,mal, desenvolver o bem, limpar a mente. Paul que são o refúgio para os budistas. Eles formamCarus escreve em O Evangelho de Buda: a base desse ensinamento extraordinário. Eles são denominados buda, dharma e sangha.“Há bálsamo para o ferido e pão para o fa- O Buda é o iluminado. Buda pode indicarminto. um personagem histórico e também o anseioHá água para o sedento e esperança para o ao potencial espiritual mais elevado presentedesesperado. em todas as pessoas. O dharma é o ensina-Há luz para o que está na escuridão. mento do buda, o caminho de libertação queHá infinita bênção para o justo. conduz à salvação. Essa é “a doutrina liberta-Curar sua dor, quando estiver doente. dora que leva além da sabedoria”, ao Nirva-Comer até saciar-se, quando tiver fome. na. A terceira joia é encontrada no conceitoDescansar quando estiver cansado. de sangha, onde a comunidade é fundamen-E quando estiver com sede, saciar sua sede. tal como condição para a libertação. SanghaOlhar para a luz quando estiver sentado na é a comunidade, no sentido da relação comescuridão. nossos semelhantes.E ser preenchido por alegria.As trevas do erro são afastadas pela luz da O SANGHA Quase todas as grandes religiõesverdade. apresentam de maneiras diferentes a complexi-Podemos ver nosso caminho e nossos passos dade da existência humana e sua conexão compodem ser certos. um outro mundo, que não conhecemos, masBuda revelou a verdade.Essa verdade nos fortalece.”  Continua na página 3330 pentagrama 1/2013

IMPRESSÕES DE UM SIMPóSIO ESPECIAL EM RENOVA todo movimento encontra o repouso em buda, o espírito do universo 31

ETERNO A N S E I O Abre-te, ó terra! Que as águas do céu abram suas comportas ao ouvir minha voz! Permanecei imóveis, ó árvores! Porque quero cantar louvor ao Senhor da criação, ao Todo e ao Uno! Abri-vos, ó céus! Silenciai, ó ventos! A fim de que o ciclo imortal de Deus possa ouvir a minha palavra. Porque vou cantar o louvor daquele que criou o Todo, que indicou à terra seu lugar e estabeleceu o céu; que ordenou à água doce que saísse do oceano e se estendesse sobre a terra habitada e desabitada, a serviço da existência e da continuação da vida de todos os homens; que ordenou ao fogo que ardesse para todo o fim que deuses e homens quiserem dar-lhe. Que todos nós, em conjunto, louvemos a ele que está acima de todos os céus, o criador da inteira natureza. Ele que é o olho do Espírito; a ele seja o louvor de todas as forças. Ó vós, forças que estais em mim; cantai o louvor do Uno e do Todo; cantai conforme a minha vontade, ó vós, forças que estais em mim. Gnosis, ó sagrado conhecimento de Deus, iluminado por ti, é-me dado cantar à luz do saber e regozijar-me no júbilo da alma-espírito. vontadeCantodelouvordeHermes32 pentagrama 1/2013

sobre o qual os mestres nos falam. O mundo vez mais apáticos. Todos fogem do própriodo reino de Deus, o outro reino, que não po­ sofrimento e cuidam tão incrivelmente bemdemos ver com nossos olhos, vive em cada ser do sofrimento dos outros, dos homens, doshumano como um princípio. Também pode­ animais, das plantas...mos aprender com os ensinamentos de diversas Segundo Buda, o esforço para libertação esabedorias. Partindo dessas esferas os enviados iluminação só é possivel quando se buscase aproximam dos seres humanos. a libertação de todos os seres que sofrem.Esses mestres podem fazer isso porque são O caminho mais curto para a vitória sobreseres humanos, ou seres que se tornaram hu­ o sofrimento é abraçar o sofrimento, umamanos. Certamente temos gratidão por seus aceitação geral, por mais paradoxal que issoensinamentos e pela profundidade com que possa parecer. Como seres humanos, temosseus textos nos tocam, revelando a existência uma grande responsabilidade na vida: preci­de outro mundo e indicando as condições para samos carregar o outro e, se necessário, sofrernos aproximarmos dele. com ele. E, dessa forma, aprendemos sobre oSidarta Gautama não faz assim; ele começa homem e sua real relação com o cosmo, e nosno que está no mundo material. O que é para tornamos mais conscientes.ele, nesta natureza decaída, a origem da nossa Isso nos leva a um princípio simples: o sofri­existência? Toda a vida neste mundo físico é mento tem um sentido, ou ainda, o sofrimentouma limitação, um sofrimento, um medo e é o sentido da existência. Porque, afinal, éuma preocupação. O príncipe Sidarta entende pela compreensão do sofrimento que surge aque toda a vida é feita de sofrimento. libertação. Você tem coragem de assumir asQuem sofre ganha experiência e quem tem consequências dessa afirmação?experiência, sofre. O conjunto desta nature­ Como explicar que o sofrimento é o senti-za é uma miséria ígnea, e tudo o que vive, do da existência se as plantas, os animais ede fato, queima. Este é um dado fascinante: os seres humanos nada fazem além de ansiartodo ser humano sofre, embora ele não queira! por alimento, luz solar, moradia e segurança?Todo ser humano busca a felicidade, embora a Bem, esse anseio, esse desejo, é que traz averdadeira felicidade não exista! consciência. O desejo vai do amor às pessoasO que existe é o sofrimento, e esse sofrimen­ que estão à nossa volta ao amor pela beleza,to é a nossa realidade. Como isso é possível? ou seja, ao amor em círculos sempre maisBem, porque os que não sofrem, não vivem amplos, até culminar em formas cada vezconscientes. Então, ficam à deriva com al­ menos concretas.gumas ideias ilusórias. Queremos desfrutar Esse conhecimento traz também a consciên­nossas vidas, e esse desfrutar nos deixa cada cia de um amor permanente, consciência quetodo movimento encontra o repouso em buda, o espírito do universo 33

34 pentagrama 1/2013

… então você desperta e entra no estado de repousoem Buda, a luz do universo...significa que o homem nesta natureza quer Compaixão é o sentido do sofrimento. Ela étudo para si, sempre de modo parcial. E isso a unidade universal da vida, como o sofri­causa sofrimento. Esse sofrimento é parte de mento é a separação universal do todo emtodos neste mundo, o sacrifício que cada um partes.carrega consigo. Na compaixão, a luz nos preenche completa­“O ser inteiro arde em chamas.” Quem sofre, mente e o Nirvana transborda inteiramentevive. Quem está consciente, sofre, conecta-se em nós.com o grande, porém vive com as limitações E você dirá novamente:da matéria. Um passo além é o “sofrimento “Por mais numerosos que sejam os seres huma­perfeito”. O sofrimento perfeito é a compai­ nos, irei salvá-los. Eu prometo salvar a todos.xão por todos os seres vivos, e essa compaixão Por mais insondavelmente profundas queé uma escolha consciente. Buda sofreu em to- sejam as causas do sofrimento, eu prometodos os seres. Cristo sofreu o maior sofrimento, removê-las inteiramente.e ele é a vida! Por mais incontáveis que sejam os falsosDaí o paradoxo evidente: uma profunda com­ portais, eu prometo fazer deles verdadeirospaixão substitui o sofrimento. portais e neles adentrar.Imaginemos Sidarta com a mente limpa, esse Por mais infinito que seja o caminho do des­homem único, um príncipe. E vamos imaginar pertar, mesmo assim vou segui-lo.”então: eu sou Sidarta, o eterno.Como um relâmpago o caminho surge, como Quão longe se pode chegar? A essência douma forma de compreensão, como um dia­ budismo é que não há distinção entre o Budamante de oito faces iluminado, isento de e o “si mesmo” eterno que está escondido nodesigualdade e sofrimento. A solução do fundo do coração. Se trilharmos o caminho,problema está à sua frente: o buda, o dharma, silenciando nossa personalidade, a verdadeirao sangha. Eles são a luz que unifica o todo, a natureza de buda se refletirá em nós. Então,palavra do ensinamento e a unidade de grupo. poderemos compreender o sentido de “todosE você dirá: os seres são budas desde o início”, ou, como“Todos os seres são budas desde o primeiro o patriarca chinês Hui-Neng diz: “Umainício.” visão correta é chamada de transcendente,todo movimento encontra o repouso em buda, o espírito do universo 35

O grande santuário Borobudur em Java foi construí­do no século VIII, de acordo com normas budistasdo ritual Karmavibhanga (ou equilíbrio entre causa eefeito). Ele mostra ao mundo, de maneira única, a vidade Buda e o sétuplo caminho de salvação e libertação.Na construção altamente estruturada do templo, compainéis esculpidos em baixo-relevo, vemos inúmerasrepresentações do bem e do mal, da lei do carma, davivência de experiências ao trilhar o caminho, dos qua­tro estágios da meditação, do desapego da turbulênciae do caos da vida mundana e da entrada nos mundospuros de bodhi (iluminação), os andares superioresdesse sétuplo complexo de templos.uma visão errada é dialética. No entanto, se mina a consciência pessoal superior, da qualtoda visão for omitida, aparece a essência de todos somos essência. O dharma, o caminhobuda”. que nos liberta do mundo das aparências eO que Sidarta disse 2.600 anos atrás ressoa ilusões, e que ao mesmo tempo não é umainda através de vós: “Por mais numerosos caminho, mas uma sabedoria que vai além deque sejam os seres humanos, irei salvá-los. toda sabedoria.Eu prometo salvar a todos.” Nesse sentido, os E para finalizar, o sangha, a unidade de gru­ensinamentos de Buda são um presente que po, a compaixão com todos os seres vivos, arecebemos, mas, enquanto não o realizamos ponte para uma nova realidade de vida.em nós mesmos, não o percebemos e não o Buda disse o seguinte, pensando em sua ilu­colocamos em prática em nossas vidas, esse minação:dom não pode nos ajudar. Quem entra nesse “Procurando o construtor dessa cabana,caminho desmistifica seu próprio destino e é passei em vão vários ciclos de nascimentos,capaz de resolver o destino dos outros. Então e o nascimento é sempre cheio de sofrimen­você está salvo, porque pode salvar outros. to. Mas agora, como construtor da cabana,Então você acorda, e entra no repouso em você foi reconhecido, você não vai deixarBuda, a luz do universo. que tudo se repita, pois toda a estrutura estáAssim, descobrimos que nossos três tesouros quebrada, as colunas estão rachadas. Livre,foram entregues, as três jóias. O buda, o es­ liberto de todos os laços, o espírito volta parapírito do universo, aquele que em nós ilu­ onde já não há desejos” µ36 pentagrama 1/2013

o iluminismo FRANCES A. YATESrosa-cruzQual é a particularidade do período em torno dos anos 1600na Europa sob a luz da história dos rosa-cruzes? Os famososmanifestos publicados de 1604 a 1616 simplesmente caíram docéu? Frances A. Yates, em seu livro The Rosicrucian Enlightenment(O iluminismo rosa-cruz) (1973), descreve uma história fascinan­te de um nascimento que provocou controvérsias.F rances A. Yates descreve em The rosicru- que praticava a alquimia e atribuía grande cian enlightenment um período da histó­ significado à Monas Hieroglifica de Dee. ria europeia do século 17 que caiu no Esperamos que a reprodução exata do ideárioesquecimento, mas que teve um papel muito europeu desse período da História possa tirarimportante no ideário hermético e rosa-cruz. esse tema do obscuro ocultismo e fazer deleQuão importante foi esse período e como um campo científico legítimo e importante.”ele desapareceu da história é algo que, aospoucos, fica evidente para o leitor. O grande Vamos esboçar um quadro do ano de 1600. Émérito de Yates é trazer à tona a história da o início da época de ouro nos Países Bai­tradição esotérica ocidental e seu papel no xos, com os grandes pintores e inventores.nascimento da Ciência e da Medicina mo­ As transformações religiosas estão em plenodernas. Mais do que um livro de História, curso. Depois do Iconoclasmo de 1555, co­seu livro também pode ser lido como uma meçou, em 1568, a guerra de 80 anos contranão-ficção empolgante. a Espanha. Na Inglaterra, em 1600, a Renas­ cença está em seu glorioso apogeu.A esse respeito ela diz na introdução: “O Shakespeare ainda vive, suas peças são repre­fato que desapareceu da História foi que a sentadas na corte; o cientista e ocultista Johncultura rosa-cruz e os manifestos rosa-cruzes Dee (falecido em 1608) exerce grande in­estavam relacionados a esse episódio, e os fluência sobre a rainha. Elizabeth I (falecidamovimentos nos quais John Dee anterior- em 1603) apoia a Europa contra os agressivosmente exercera um papel na Boêmia esta­ Habsburgos, ligados à contrarreforma católi­vam na base destes manifestos. Também foi ca. Muito interessada pela ciência, ela tam­esquecido que o curto período de governo bém dá suporte a seus praticantes mediantede Frederico e Isabel foi uma época de ouro uma contribuição anual. Durante seu gover­para o hermetismo, propagado por um grupo no, a Renascença inglesa tem seu ponto alto.sob a direção de Michael Maier, grupo esse Ela resiste aos espanhóis e, com isso, também o iluminismo rosa-cruz 37

Praga era um cadinho de concepções religiosas, uma cidadeempolgante, aberta para os novos desenvolvimentosà influência católica, e a Invencível Armada alegria e satisfação com esse casamento,naufragará na costa inglesa. Ela estabelece que é como um sólido fundamento para aalianças com protestantes holandeses, ale­ religião”. Os cônjuges transferem-se paramães e franceses. Na França, Henrique IV Heidelberg, porém antes têm uma recepçãoapoia os huguenotes, mas o rei é morto em grandiosa em Den Haag, evento relatado1610. Em Veneza, a oposição à supremacia de minuciosamente.Roma predomina e procura-se aproximar-se Espera-se que James I apoie o genro nados ingleses. No sul da Itália, Campanella aliança protestante contra a Espanha. Maslidera um levante contra os ocupantes espa­ James é contra tudo o que se pareça comnhóis. Em Praga, o imperador Rodolfo II, ciências mágicas e faz tudo para aniquilá-las.grande pensador, opõe-se veementemente Com isso também exerce uma influência ini­ao uso da violência contra os protestantes, bidora sobre as aspirações de sua filha Eliza­apesar de ser descendente dos Habsburgos. beth e seu marido. Ele não os ajuda.No final de sua vida, ele institui a liberdade Quando Rodolfo II, em 1583, transferiureligiosa na Boêmia, o que leva à Guerra dos sua corte para Praga, esta cidade tornou-seTrinta Anos em 1618. um vasto centro de alquimistas, astrólogos,Na sua corte, há um ir e vir de artistas, cien­ pesquisadores das ciências mágicas, com suastistas, alquimistas e músicos. Em suma, um bibliotecas e suas “câmaras de prodígios”espírito de iluminação perpassa a Europa – o com achados técnicos, mágico-científicos.berço para o iluminismo dos rosa-cruzes. Praga tornou-se o centro de referência paraNos dois primeiros capítulos de seu livro, pessoas de toda a Europa que se interessavaYates mostra pormenorizadamente como por estudos esotéricos e científicos. John DeeJames I (sucessor de Elizabeth I) casa uma e Edward Kelly, Giordano Bruno e Johannesfilha, a princesa Elizabeth Stuart, com Fre­ Kepler foram para lá. Judeus podiam prosse­derico V do Palatinado, neto de Guillaume guir ali seus estudos cabalísticos sem ser per­d’Orange, cavaleiro da Ordem da Jarreteira turbados. A da Boêmia, fundada por Johan­e dirigente dos protestantes alemães. nes Hus, foi a primeira igreja reformada daO casamento, em 1613, em Londres, tes­ Europa. A tolerância de Rodolfo estendia-setemunha de um esplendor e uma pompa à Igreja da Boêmia, uma irmandade quejamais vistos antes. “O Reno junta-se ao interpretava as Escrituras de maneira místi­Tâmisa, a Alemanha é unificada com a ca. Na Europa Oriental, Praga foi, durante oGrã-Bretanha, das estrelas f luem harmonias reinado de Rodolfo, uma cidade totalmentesobre essas núpcias”, consta das crônicas, e influenciada pela Renascença. A cidade era“todas as pessoas bem intencionadas sentem um cadinho de pensadores, era misteriosa e38 pentagrama 1/2013

emocionante porque estava aberta para um Editora Cultrix-Pensamentonovo desenvolvimento. ISBN8531503205Quando, após a morte de Rodolfo, em 1612,o Habsburgo católico fanático, arquiduque obter a coroa da Boêmia.”Ferdinand von Stiermarken subiu ao trono e Segue-se então uma descrição dasaboliu a liberdade religiosa, o povo da Boê­ circunstâncias da vida de Johann Valentimmia revoltou-se e ofereceu a coroa a Frede­ Andreæ, o autor dos manifestos rosa­rico V. De 1619 a 1620 Frederico e Elizabeth -cruzes. Frederico I, duque de Württembergforam os soberanos do Estado coroados pelos (falecido em 1608), era alquimista, ocultistahussitas – partidários de Johannes Hus, po­ e anglófilo. Em 1603 ele recebeu na capital,rém apenas por um inverno (daí o nome de Stuttgart, de um enviado especial deRei do Inverno). James I, a insígnia da Ordem da Jarreteira.O duque católico da Baviera venceu o exér­ Yates escreve a esse respeito: “A visita docito da Boêmia na batalha do Monte Branco. enviado da Ordem da Jarreteira e dos atoresO palácio também foi ocupado e destruído. que o acompanhavam deve ter sido umA grande Biblioteca Palatina foi transferida acontecimento emocionante para Johannpara Roma. A esse respeito diz Yates: “Uma Valentim Andreæ, um jovem estudantecultura completa desapareceu, seus monu­ de Tübingen com uma grande capacidadementos foram profanados ou aniquilados e de imaginação. Suas Núpcias alquímicas deseus livros e arquivos desapareceram. Os Christian Rosenkreuz, de 1616, são ricas emhabitantes que conseguiram escapar torna­ cerimônias faustosas e festas de determinadaram-se fugitivos ou morreram pela violência, fraternidade ou fraternidades e contêmpeste ou fome nos anos que se seguiram.” E, fragmentos de peças de teatro fascinantes.como introdução ao capítulo 3, diz: “Agora Como expressão artística elas se tornamvamos descobrir essa Renascença malograda, mais compreensíveis se as considerarmosesse iluminismo prematuro ou essa alvorada consequência de influências inglesasmal compreendida dos rosa-cruzes. sobre Andreæ. Tanto do ponto de vistaQual foi o ponto de partida desse movi­ do espetáculo como do cerimonial, elasmento que levou aos manifestos rosa-cruzes constituem uma inspiração para uma obra deo prenúncio da aurora de uma nova era de arte nova e original”.conhecimento e percepção? Uma resposta a A respeito do papel de John Dee, que, comoessa pergunta deve ser procurada na esfera homem instruído, em sua viagem pela Ale­de influência dos movimentos em torno de manha, despertou uma forte impressão, YatesFrederico do Palatinado e sua tentativa de diz: “Não há dúvida, portanto, que é preciso ver o movimento por trás das três publica­ ções dos rosa-cruzes como, em última análi­ se, procedente de John Dee. o iluminismo rosa-cruz 39

Este desenho contemporâneo é um compêndio das ideias dos rosa-cruzes do século 17O ideário de Dee, tendo passado pelas rela­ cialidades, tornou-se claro que essa afirma­ções do príncipe-eleitor do Palatinado com ção não era sustentável. Apesar de a Monasa Inglaterra, pode ter chegado à Alemanha Hieroglyphica representar um fenômeno muitoe daí se propagado a partir da Boêmia. [...] interessante e importante, pode-se dizer comA ideia de que o movimento da Rosa-cruz certeza que os manifestos tiveram origemna Alemanha possa ser o resultado tardio da no círculo de Tobias Hess, Christoph Besoldmissão de Dee na Bohemia vinte anos depois e Johann Valentim Andreæ. Em um círculoé empolgante”. de espíritos unidos por suas afinidades, umaApós a publicação do livro de Yates (1973), “Liga do Amor” não contando com mais quee em 40 anos de pesquisa dirigida por cien­ sete homens e inflamado pelo espírito de To­tistas internacionais das mais diversas espe­ bias Hess, surgiu a Fama Fraternitatis partindo40 pentagrama 1/2013

da ideia de uma comunidade da rosa, supe­ misteriosos sinais e suas partes, no triângulo,rior ao movimento dos opostos terrestres, bem como na cruz. Esse texto surge comouma sociedade de amor-caridade bem com­ parte dos manifestos: de acordo com Yates,preendido, de um altruísmo empregado de mais um sinal de que os manifestos sãomaneira inteligente e universal. Esse círculo inspirados em Dee. Então Yates proporcionatornou visível e ativa na Europa uma nova ao leitor um capítulo interessante sobreenergia espiritual: a concretização daquilo contatos de Andreæ com Robert Fludd eque era a intenção central da Reforma. Dessa Michael Maier e seus comentários sobre osconcretização originou-se algo maior: uma manifestos. Também na França, Inglaterra epaternidade espiritual, um ser denominado Itália os manifestos causam agitação (capítulosChristian Rosenkreuz. Um impulso do mun­ 8 e 10). Boccalini (falecido em 1603)do espiritual torna-se carne e sangue. escreveu uma sátira da qual foi introduzidoNessa esfera de amizade, anelo, observação na Fama Fraternitatis o seguinte fragmentoe busca espiritual, a Luz torna, por assim que deixa claro ter havido também contatosdizer, a nascer outra vez. Após essa digressão com Veneza: “O pavoroso ódio e inveja quevoltemos ao excelente livro de Yates. A reinam atualmente nas pessoas levaram nossarespeito da aventura em que Frederico se época a uma grande desordem. Todo auxíliotornou rei do Palatinado da Boêmia, lemos: contra essas influências virá, como se espera,“Os anos de 1614 a 1619 foram de grande por meio de uma grande afluência de amor,celeuma sobre os manifestos rosa-cruzes. afeto mútuo e amor ao próximo, o que,E essa aventura não era apenas dirigida enfim, é a dádiva mais importante de Deus.politicamente contra o poder dos Habsburgos. Por isso devemos, com todo o tato que emEra a expressão de um movimento religioso nós existe, eliminar as causas desse ódio que,que ganhara força ao longo de muitos anos, nestes dias, reina no coração do ser humano”.crescera baseado em influências misteriosas Houve outro contato com Campanella. Eleque circulavam na Europa. Era um escreveu na prisão, após o malogrado levantemovimento que se orientava para a solução contra os ocupantes espanhóis, A cidade dode problemas religiosos seguindo uma linha Sol, a descrição de uma cidade ideal ondemística originária de influências herméticas os sacerdotes põem em prática o ideárioe cabalísticas”. Nos capítulos 4 e 5 são hermético e regem a cidade. O manuscritocomentados os manifestos e é relatado que foi levado por seus discípulos alemães paracom a Confessio Fraternitatis foi publicada a Andreæ na Alemanha, e ele também escreveuConsideratio brevis de Philip a Gabella, a qualé baseada na Monas Hieroglyphica de Dee, nos  Continua na página 43 o iluminismo rosa-cruz 41

ETERNO A N S E I O “Concentre-se no céu, e a terra lhe será dada. Concentre-se na terra e você vai perder ambos. Porque só o amor que é do céu vence. Só o amor salva. Quando o céu quer proteger um homem, enche seu coração com amor.” belezaC.S.Lewis42 pentagrama 1/2013

posteriormente um livro sobre utopia, dos estudos da autora. Sua conclusão diz:Christianopolis. “É de se esperar que este tema complexo eNo capítulo 11, Yates trata dos possíveis rico do entusiasmo alemão seja agora objetomotivos de Andreæ para afastar-se (publica­ de consideração séria como uma fase impor­mente) da Fraternidade da Rosa-cruz: “Não tante da História europeia. O mais notávelhá dúvida de que Andreæ se preocupava é, porém, a ênfase que a Rosa-cruz dá aoseriamente com a forma como evoluía, desde iluminismo iminente indicado no título deste1617, a agitação a respeito dos rosa-cruzes. livro. Ao mundo, que se aproxima do fim,Porque entreviu que ela era prejudicial para está reservado um novo iluminismo pelo quala causa a que queria servir, ele tentou res­ o progresso do conhecimento, realizado notringir e canalizar a forte corrente”. Andreæ decorrer da era que precedeu a Renascença,escreve no prefácio de Christianopolis: “Pes­ vai se propagar enormemente. Serão fei­soas com um espírito ardente conclamaram a tas novas descobertas e uma nova época vaiuma tomada de consciência, à propagação de irromper. E esse iluminismo reluz tanto paraum novo derramamento do Espírito de Cris­ o interior como para o exterior. É uma ilu­to nesta época. Uma determinada irmandade minação espiritual interior que desvela para oprometeu isso, mas, em vez disso, deu-se a homem uma nova possibilidade interior e fazmaior desordem entre os homens”. Ele cons­ que ele compreenda sua dignidade, seu valortituiu então a Societas Christiana, provavel­ e o papel que deve assumir no plano divino”.mente com o mesmo objetivo e outro nome. E ela finaliza com uma citação da Via LucisSeguem-se ainda no livro de Yates capítu­ “também denominada Fama de Comenius”, quelos sobre Comenius, Ashmole, Newton e a pode servir como moto para as duas ilumina­Alquimia da Rosa-cruz, bem como o exame ções: “Quando uma luz da sabedoria universaldas relações entre Rosa-cruz e Maçonaria. pode ser acesa, ela pode propagar seus raiosYates cita a primeira referência impressa em sobre todo o espectro do entendimento huma­1676: “Comunicamos que os modernos cabal- no (assim como a luz solar se estende desdeministers, os quais portam a fita verde (cinco a aurora até o pôr do sol) e poderá despertarinfluentes ministros da época de Carlos II), alegria no coração dos homens e transformar apropõem-se, com a antiga Irmandade da Ro­ orientação de sua vontade. Ora, quando, nestasa-cruz, a servir os adeptos herméticos e a luz clara e radiante, eles virem nitidamentesociedade da renomada Maçonaria em 31 de diante de si seu próprio destino e o destino donovembro próximo...” mundo e aprenderem como devem utilizar osO livro se encerra com o capítulo chamado recursos que conduzem infalivelmente para o“O iluminismo da Rosa-cruz”. É uma síntese bem, por que, então, não o fariam?” µ o iluminismo rosa-cruz 43

frances amelia yatesPelo fato de seu pai ser engenheiro naval e ser necessário memorização. Ela descreve de maneira muito interessantemudar regularmente de uma cidade portuária para outra, quais as transformações provocadas por essa capacidadeFrances Yates (1899-1981) teve uma infância bastante isola- na Renascença, especialmente com relação ao teatro. Osda e frequentou a escola com irregularidade. Era sua mãe antigos métodos de aprendizado por memorização até jáquem lhe ministrava aulas diariamente ao passo que suas se haviam tornado desnecessários, mas Bacon, Descartes,irmãs lhe proporcionavam a leitura... com Shakespeare. Comenius e Leibniz ainda o utilizavam.Assim cresceu nela o amor por esse embaixador da lite- Frances Yates segue essa linha sem se preocupar com aratura inglesa. Mais tarde foi a Renascença que a fascinou reação da ciência a seu trabalho. Em 1969 escreve seupelo resto de sua vida. livro Theatre of the World. Nesse livro ela se concen-A Primeira Guerra Mundial influenciou Frances profun- tra em John Dee e Robert Fludd, que em 1600 eramdamente. Seu irmão mais velho faleceu no front em 1915. os mais importantes representantes do hermetismoEsse acontecimento perseguiu-a pela vida inteira e levou-a na Inglaterra. Ela se tornava cada vez mais conscientea tentar encontrar uma explicação para as terríveis guer- do conhecimento hermético na Renascença. No livroras religiosas dos séculos 16 e 17. The Rosicrucian Enlightenment, publicado em 1973, ela exa-Em Londres, estudou francês e literatura francesa, porém mina a tradição hermética na Inglaterra de Elizabete I e naseus dois primeiros livros, publicados em 1930, tratavam Europa central. Frances contava 18 anos de idade quandoambos de Shakespeare. escreveu The Occult Philosophy in the Elizabethan Age.Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial ela Nesta obra ela reúne todo o conhecimento – publica­esteve na ativa como motorista de um veículo de resgate. do pela primeira vez – sobre as correntes espirituaisCom o convite para assumir o lugar de assistente de pes- secundárias de uma cultura que os cientistas só haviamquisa no Instituto Warburg, em Londres, ela teve acesso considerado por meio de fenômenos perceptíveis e daa uma grande biblioteca. A coleção Warburg, de 60.000 literatura. Frances Yates estava fascinada com o fato delivros, reunida por Aby Warburg (1866-1929), foi levada que, na época da guerra e dos protestos ideológicos empor seus descendentes para Londres para que não caísse toda a Europa, distinguiram-se pessoas íntegras, eruditos,nas mãos dos nazistas. A coleção foi recebida ali de braços artistas e também políticos que, com o emprego de todoabertos e colocada em lugar adequado. Nessa atmosfera, o saber e talento de que dispunham, procuravam umFrances Yates pesquisou o conhecimento hermético e pu- caminho para reconduzir seu mundo à paz e à tolerân­blicou-o com base científica. Até seu 80º ano de vida ela cia. Ela estava convencida de que, por exemplo, Ficino,promovia um seminário por semana no edifício da Praça Picco della Mirandola e seus numerosos seguidores nosWoburn, em Londres. Quando um estudante concluía séculos 16 e 17 não eram acima de tudo humanistassua apresentação, seguia-se uma discussão. Isso significava, ou filósofos, porém magos. Sua designação renaissanceacima de tudo, que se ouvia a voz suave de Lady Frances magus (mago da renascença) refere-se ao tipo humanoque levantava todas as hipóteses possíveis ou apresentava que é o precursor direto do cientista do século 17. Emquestões quase impossíveis de responder. Parecia que uma retrospectiva no Sunday Times, ela foi descrita comoestas ficavam no ar para serem respondidas às vezes anos uma “amadora, no sentido literal da palavra, que crioumais tarde. Esse era seu “método”. Por sua experiência de sua própria disciplina científica [...], mas uma amadora quevida e erudição, ela pertencia à tradição de pensadores combinava o entusiasmo com um ponto de referênciaindependentes cujas opiniões de modo algum ficaram profissional exigente”.estagnadas. Um grande anelo por evolução e realização “Frances Yates”, assim conclui o redator, “foi aespiritual marcou-a dando-lhe a possibilidade de analisar historiadora de maior vivacidade que já conheci.” Comoa tradição hermética e o papel de Giordano Bruno, por reconhecimento por seus 12 livros, numerosos artigos eexemplo. Ela teve, por assim dizer, sua apresentação como outras publicações, foi-lhe concedida, em 1977, The Ordercientista em 1964 com a publicação de Giordano Bruno e of the British Empire, sendo-lhe então permitido colocara tradição hermética. Ela via Bruno como um mago que Lady precedendo seu nome.procurava um vínculo tanto entre o homem e o mundocomo entre o mundo e o cosmo mediante o programa Fontes:de uma reforma moral com fundamento esotérico. À JONES, MARJORIE Frances Yates and the Hermetic Tradition. USA:Renascença pertencem disciplinas como astrologia, cabala Ibis Press. 2008e alquimia, designadas hoje ciências ocultas pelo pensa- BAChRACh, A. G. h. Herdenking van Frances Amelia Yates,mento científico. O livro sobre Bruno foi seguido, dois Amsterdã: KNAW, no anuário 1981-1982anos mais tarde, pela publicação de The Art of Memory, um VAN DORSTEN, J. A. “Dame Frances Yates overladen”, artigo emestudo sobre a arte medieval do aprendizado obtido pela jornal, setembro de 198144 pentagrama 1/2013



Logo após a conclusão do quadro de Rembrandt “Cristo no Mar daGalileia” ficava-se impressionado pela contraposição das sensações edos efeitos de luz e trevas. Na realidade trata-se de uma obra impo-nente, mas existe ainda um sentido mais profundo. Porque quandoas tormentas se intensificam, como sentimos nitidamente em nossasociedade, pessoas que estão sintonizadas com a harmonia da supra-natureza e dispõem de uma energia anímica que irradia tranquili-dade – muitas vezes designada como “radiação de Cristo” – podemrepresentar um fator importante na comunidade humana, fator quepode levar muitos a se voltar para o Bem. R$ 16,00


Like this book? You can publish your book online for free in a few minutes!
Create your own flipbook