pentagrama Lectorium Rosicrucianum O Evangelho da Verdade Feliz é o homem que desperta a si mesmo Da semana de verão na Europa Fogo e água na Alquimia A lei amorosa: Carma-Nêmesis Alguns pensamentos sobre o conceito Alquimia2009 2mar/abrilNÚMERO
Editor responsável Revista Bimestral da EscolaA. H. v. d. Brul Internacional da Rosacruz ÁureaRedação finalP. Huis Lectorium RosicrucianumImagens A revista Pentagrama propõe-se a atrair a atenção deI. W. v. d. Brul, G. P. Olsthoom seus leitores para a nova era que já se iniciou para o desenvolvimento da humanidade.Design O pentagrama tem sido, através dos tempos, o símboloCapa: Dick Letema do homem renascido, do novo homem. Ele é tambémInterior: Ivar Hamelink o símbolo do Universo e de seu eterno devir, por meio do qual o plano de Deus se manifesta. Entretan-Redação to, um símbolo somente tem valor quando se tornaC. Bode, A. Gerrits, H. P. Knevel, G. P. Olsthom, realidade.O homem que realiza o pentagrama em seuA. Stokman-Griever, G. Uljée, I. W. v. d. Brul microcosmo, em seu próprio pequeno mundo, está no caminho da transfiguração.Secretaria A revista Pentagrama convida o leitor a operar essaC. Bode, G. Uljée revolução espiritual em seu próprio interior.Endereço da RedaçãoPentagramMaartensdijkseweg I,NL – 3723 MC Bilthoven, [email protected]ção BrasileiraEditora Lectorium RosicrucianumAdministração, assinaturas e vendasTel: (011) 4016-1817Fax: (011) 4016-5638www.editoralrc.com.brResponsável pela Edição BrasileiraM. D. Eddé de OliveiraRevisão finalM. R. de Matos MoraesTradutores e revisoresS. Cachemaille, M. C. Zanon Costa, I. Duriaux,J. Jesus, M. Pedroza, A. Sader, M. S. Sader,Y. Sanderse, U. Shmit, M.V. Mesquita de Sousa,R. Dias de Luz, F. M. da Silva LuzDiagramação, capa e interiorD. B. Santos NevesLectorium RosicrucianumSede no BrasilRua Sebastião Carneiro, 215, São Paulo, [email protected] em PortugalTravessa das Pedras Negras, 1, 1º, [email protected]© Stichting Rozekruis PersProibida qualquer reprodução semautorização prévia por escritoISSN 1677-2253
p e n t a g r a m a ano 31 número 2 2009Nesta edição da Pentagrama, dirigimos a atenção para a grande sumáriodiferença entre ser e existir, entre exterior e interior, entre declí-nio e transmutação, sólido e volátil, verdade e erro. O Evangelho O Evangelho da Verdade 2da Verdade, a lei amorosa de Carma-Nêmesis e a pura alquimia feliz é o homem que desperta ado Espírito levam para a promissão e a essência do ser humano: a si mesmo 10capacidade de tornar-se um homem-espírito. da semana de verão de 2008 na europa * uma reflexão sobre o clima exteriorNinguém pode perceber algo imutável sem ter-se tornado elemesmo imutável, conforme dito no Evangelho de Filipe:“No que e interior, durante uma conferência emconcerne à verdade, não é o mesmo o que acontece no mundo, Edshult, Suécia 18onde o homem vê o sol sem ser ele mesmo um sol; onde ele * alocução durante uma noitevê o céu e a terra e todas as outras coisas sem ser ele mesmo em Noverosa, Doornspijk, Holanda 21essas coisas. Mas, na verdade assim é: se vês alguma coisa, tornas- * Impressões da conferência do grupote semelhante a ela. Se vês o Espírito, tornas-te Espírito. Se vês de jovens alunos em “La Nuova Arca”,Cristo, tornas-te Cristo. Se vês o Pai (Deus), tornas-te o Pai. É Dovadola, Itália 25por isso que aqui neste mundo vês tudo, menos a ti mesmo. No fogo e água na Alquimia 28outro mundo, porém, vês a ti mesmo, porque o que lá vês nisso alguns pensamentos sobre o conceitote tornas.” Alquimia 38 a lei amorosa Carma-Nêmesis 43 Capa: Uma tulipa de seda, em ouro precioso, como símbolo do microcosmo renovado. Ao seu redor, o esplendor de um manto ígneo, com diferentes centros de energia brilhando em várias intensidades. Istambul, séc. 17 tijd voor leven 1
O Evangelhoda VerdadeAinda que dotados de razão, percebemos o mundo através de nossos sentidos.As coisase os homens são para nós objetos diante dos quais nos posicionamos enquanto sujeitos.O gnóstico, entretanto, desenvolve uma consciência especial, um novo órgão de percepção,mediante o qual ele se torna uno com seres e coisas, o que faz desaparecer a separaçãoentre ele e o mundo, entre ele e Deus. O gnóstico reconhece nele mesmo o ser impe-recível, Deus, porque ele mesmo se tornou esse ser de essência imutável.E le se transforma, por assim dizer, nos seres e época que o cristianismo e floresceu nos primei- nas coisas, que, por sua vez, se transformam ros séculos de nossa era. Os grandes nomes dessa nele. Já não há objetos diante dele, ele torna- corrente são Valentino, Basilides e Mani. Dessase o sujeito que tudo abarca. Pode-se dizer que Gnose histórica (em sentido literal) provêem osa Gnose consiste em uma experiência espiritual escritos gnósticos descobertos em 1945, em Nagdireta. Hammadi, no Alto Egito. O Evangelho da Verdade,Ele se transforma, por assim dizer, nos seres e nas que se estima ter sido escrito por volta da metadecoisas, que, por sua vez, se transformam nele. Já não do segundo século, estava entre os documentoshá objetos diante dele, ele torna-se o sujeito que descobertos em Nag Hammadi.tudo abarca. Pode-se dizer que a Gnose consisteem uma experiência espiritual direta. A Igreja, com o passar do tempo, tornara-se in-Com base nessa compreensão da Gnose, fica evi- capaz de uma experiência espiritual direta comdente que os fundadores das religiões e das esco- o divino, tornara-se dogmática. Ela condenou oslas de mistérios, desde a noite dos tempos, eram escritos gnósticos como errôneos, heréticos, e nãognósticos,“portadores do conhecimento”, isto é, os admitiu no Novo Testamento. Para essa Igreja, aaqueles que ao longo de suas vidas experimenta- Gnose histórica era, e ainda é, uma doutrina falsa.ram a unidade de todas as coisas em Deus. Mas, sob o ponto de vista de que o cristianismoAssim disse Jesus:“Eu e o Pai (a fonte primordial original foi o instituído por Jesus, percebe-se quedivina) somos um”.1 E Paulo:“Agora vemos por esse cristianismo efetivamente se refere a uma ex-espelho em enigma (isto é, por meio de nossos periência espiritual, precisamente como a Gnose dasentidos através dos quais as coisas nos parecem mesma época. Não há diferença essencial entre oobjetos enigmáticos), mas então veremos face a cristianismo espiritual e a Gnose histórica, até mes-face”,2 ou seja, olhos nos olhos, de forma direta, mo no que concerne aos símbolos. Desse pontoimersos na essência de todas as coisas. de vista, Jesus foi um gnóstico tal como ValentinoOu como disse Buda:“O que percebo em mi e Mani foram cristãos espirituais, e também Paulonha contemplação é a verdade. O que pratico com e João.A hostilidade, ainda atual, do cristianismodevoção é a verdade, pois, vê, eu mesmo tornei-me tradicional contra a Gnose histórica e contra aa verdade”.3 Gnose em geral começou quando, em benefício doE o hinduísmo declara:“Tat tvam asi”.Tu és o ser. dogmatismo, desapareceu do cristianismo o sentidoTudo o que está à tua volta e vês como objeto, na espiritual interior fundamental, ensinado por Jesus.realidade, é tu mesmo. Mas, com a tua consciência Verificamos, no entanto, ao comparar os documen-comum não podes percebê-lo.Além dessa noção tos do cristianismo original com os pertencentes àgeral, a Gnose tem um significado específico ligado tradição da Gnose histórica – como, por exemplo,a uma religião ou filosofia que surgiu na mesma o Evangelho da Verdade – que o sentido revelado2 pentagrama 2/2009
Árvore da Vida em seda e algodão, re- presentando como todos os seres vivos estão inter- ligados entre si e têm suas raízes na força tríplice do Pai. A árvore atende a todos os desejos, mas nos submete também às conseqüências de nossa ação.O Evangelho da Verdade 3
por um confirma o significado apontado pelo “Valentino afirmava que, tendo visto um meninooutro. muito jovem, lhe perguntou quem era, e que oValentino, nascido no Egito, por volta do ano 110 menino lhe respondera: Eu sou o ‘Verbo’.”4d.C., é um dos gnósticos mais conhecidos e pro- Essa é uma bela referência à compreensão caracte-vavelmente o autor do Evangelho da Verdade. Por rística dos gnósticos: experiências interiores feitasvolta do ano 150,Valentino foi escolhido bispo da pela consciência espiritual.Valentino vê em seucomunidade cristã em Roma. Desse fato é possível interior, como em uma visão, um menino, umaconcluir que nessa época ainda não havia separa- criança. Em contraposição ao homem terrestre,ção entre cristãos e gnósticos. Sobretudo, parece ele se torna consciente do Outro, o Verbo divi-que nessa primeira comunidade cristã reinava certa no eterno, luz, vida, sabedoria. Esse Verbo é aindaliberdade. Seus bispos eram eleitos e não havia a pequeno como uma criança. Isso significa quefigura do Papa.Ao retornar para o Egito,Valentino Valentino percebe sua identidade espiritual, seufundou uma escola filosófica religiosa.Valentino verdadeiro ser, ainda por desenvolver-se, mas quemorreu no ano 170, no entanto suas idéias sobre é incondicionado e capaz de desenvolver-se comoo surgimento do mundo e o desenvolvimento da uma criança. Sem preconceitos, sem desconfianças,humanidade permaneceram através de alguns frag- sem opiniões rígidas.Assim simboliza Valentino omentos de suas cartas e alocuções, bem como do primeiro ingresso auspicioso do mundo divino emEvangelho da Verdade, que muito provavelmente é sua consciência. Foi o início de sua iluminação,de sua autoria. durante a qual o mundo divino, o ser espiritual noUm testemunho de um dos Pais da Igreja tal- imo, desenvolveu-se cada vez mais. De maneiravez nos permita compreender melhor Valentino: cada vez mais abrangente a estrutura e as forças do4 pentagrama 2/2009
Se tomamos um caminho diferente, nós mesmos temosde dissolver as conseqüências dessa escolhamundo divino revelaram-se para sua consciência. Verdade. E o Pai está neles, e eles estão no Pai.A mesma experiência foi vivida por Paulo: Porque eles são perfeitos e inseparáveis do verda-“[…] porque o Espírito penetra todas as coisas, deiro Bem e não sofrem com a carência de qual-ainda as profundezas de Deus […] Assim também quer coisa, mas vivem no repouso e são constan-ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito temente revigorados pelo Espírito”.7 E dizemosde Deus. Mas nós não recebemos o espírito do aos que não se encontram nesse repouso e nestamundo, mas o Espírito que provém de Deus.”5 alegria:“[…] saibam que eu já não posso falar so-E Paulo pergunta a seus companheiros:“Ou não bre outra coisa depois de ter estado uma vez nessesabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está lugar de repouso”.8em vós?”6 O gnóstico Paulo é consciente de sua O objetivo único do autor do Evangelho da Ver-verdadeira identidade e da identidade de seus com- dade é indicar para nós, que somos atormentadospanheiros, homens espirituais. por essas carências, o caminho para livrar-nos delas.Valentino nos relata seus pensamentos a respeito do O caminho para salvar-nos dos reinos dos infernos,mundo divino no Evangelho da Verdade. Ele fala da carência da verdade e do desejo aflitivo pelada alegria e do repouso que o preencheram desde verdade é o conhecimento, o conhecimento daque se tornou consciente da realidade espiritual. verdade. Esse caminho começa com a compreensãoValentino diz que já não faz parte dos que caíram de que nos encontramos em ignorância e enganonos reinos dos infernos, mas que se encontra no sobre a verdade e sobre nós mesmos. Esquecemos emundo onde já não há cobiça, nem sofrimento, negamos nossas raízes e as do mundo. É do mundonem morte. O mundo exterior, inferior, é o infer- divino, do Pai – diz Valentino – que fomos criados,no, um mundo de conflitos, de angústias, de cobiça, como seres espirituais “à sua imagem e semelhan-de sofrimento e de morte, no entanto esse mundo ça”, de quem recebemos tudo e por quem somosinfernal já não influencia sua vida. incentivados a progredir em nosso desenvolviOs seres que se tornaram conscientes da Verdade, mento.afirma Valentino:“[…] repousam Naquele que está Entretanto, conservamos nosso corpo, assim comoem repouso, não são atormentados pelo anseio pela nossos pensamentos e sentimentos que dele provê-Verdade e não são confundidos na busca pela em, como bens pessoais; cremos que no espaço a O Evangelho da Verdade 5
A verdade é semelhante a si mesmamatéria visível – portanto mortal – tal com como tual do mundo, que se dá por meio da fé gnóstica.estrelas e planetas – são a única realidade. E com Mas, como a autêntica realidade aparece? Comobase nesse preconceito, nessa crença, reprimimos o acordar e tornar-se consciente? Façamos algumasEspírito e não reconhecemos que ele quer operar analogias para explicar como acontece esse desper-em nós e no mundo. Dormimos e acreditamos que tar interior de uma consciência gnóstica.Tomemosnossos sonhos são a realidade. Contrariamente ao um exemplo simples da vida comum: já aconteceumundo do Espírito, nossas percepções sensoriais do a todos nós de não lembrarmos o nome de alguémmundo material nos apresentam uma realidade de conhecido. Sabemos o nome dessa pessoa, senti-segunda ordem, tal como são os son hos em relação mos que seu nome está na “ponta da língua”, queao estado de vigília. está em algum lugar obscuro de nossa consciência,Nossa ignorância em relação ao Pai, diz Valentino, no entanto, embora façamos um imenso esforçonossa incapacidade de perceber o Espírito, em nós mental para lembrá-lo, não conseguimos.Temos ae fora de nós, gera medo, confusão, instabilidade, sensação desagradável e irritante de que esse nomeindecisão, divergência, muitas ilusões e vãs ficções é como que impedido de vir à nossa consciência.que são como pesadelos durante o sono. Entretanto, ao deixarmos o problema de lado e nosEsse estado é acompanhado da crença na idéia pre- ocuparmos com outra coisa, de repente o nomeconcebida de que a matéria é a única e definitiva surge em nossa memória, e respiramos aliviados.realidade.“[…] Aqueles que rejeitaram o sono da Vejamos outro exemplo: admitamos que quandoignorância já não vêem o sono como realidade… éramos jovens tivéssemos o desejo de seguir deter-eles deixam o sono e os sonhos da noite para trás. minada profissão, mas devido a diversos obstáculosO que há de melhor para o homem é despertar-se não o fizemos. Sem tocar mais nesse assunto, segui-e converter-se…”.9 mos outro caminho e esquecemos o antigo desejo.O primeiro passo no caminho da experiência do Entretanto, sem saber a razão, sentimos tristeza e“eu” verdadeiro e da verdade é reconhecer que nos nostalgia... e de repente sabemos de onde isso vem:enganamos a respeito de nós mesmos e do mundo. não realizamos uma parte de nós mesmos, que fi-Que nossas considerações de orientação puramen- cou inexplorada. Uma de nossas possibilidades nãote materialista sobre a realidade nada são senão pôde ser desenvolvida, o que vem a nossa mente.sonhos. Porém, uma concepção gnóstica é possível Pode ser então que realizemos esse antigo desejocom base em uma abertura a uma imagem espiri- mediante um passatempo, dando vazão, assim, a um6 pentagrama 2/2009
“A salvação está na verdade”, caligrafia do artista siríaco Khaled Al Saai.Tanto em chinês, como em árabe ou em siríaco a palavra “verdade” mostra uma forma vigorosade nossos talentos, antes esquecido.Um último exemplo: temos uma vida social euma vida privada às quais estamos tão habituadosque não percebemos o quanto elas contradizemprofundamente nosso coração. Habitualmente,consideramos que as circunstâncias particulares nasquais nos encontramos são realmente necessárias efundamentais para nossa existência. Entretanto, sen-timos uma tensão vaga e um conformismo, capazesde nos levar ao desespero. Então, temos a impressãode que nossa vida não corresponde à nossa natu-reza, que teríamos de mudar de direção. Mas, pormedo das conseqüências, acabamos por seguir omesmo caminho.A repentina lembrança de alguma coisa esquecida;o sentimento de ter reprimido um antigo ideal ea consciência de levar uma vida mentirosa podemser comparados à compreensão gnóstica, com adiferença que esta é muito mais profunda e global.O gnóstico chega de repente a um insight de queele esqueceu o verdadeiro sentido de sua vida. Quesua vida nesta terra e suas tentativas de encontrarfelicidade, riqueza, sucesso, ou seu impacto nomundo material já não o contentam e que o maisprofundo e espiritual de sua alma não está ativo.Ele compreende, enfim, que sua vida é uma grandeilusão. Para ele, essa é a única visão possível da vida,e apesar de tudo, ela é bela.Essa idéia traz conseqüências. O que reprimimos O Evangelho da Verdade 7
o evangelho da verdade é um testemunho da Gnose. A palavra “gnose” significa conhecimento, em grego. Mas, esse conhecimento é especial, pois refere-se a uma experiência espi- ritual direta, de primeira mão. Como esse conhecimento nasce em nós? A esse respeito lemos no Evangelho de Felipe, logion 36, outro escrito gnóstico: “No que concerne à verdade (ou Gnose), não é o mesmo o que acontece no mundo, onde o homem vê o sol sem ser ele mesmo um sol; onde ele vê o céu e a terra e todas as outras coisas sem ser ele mesmo essas coisas.A Verdade coloca os pés brincando sobre a novamente consciente daquilo que até o presenteFalsidade e a domina. Detalhe de uma escul- havíamos abandonado, esquecido, dissimulado outura de Alfred Stevens de 1876, no Victoria reprimido.À medida que esse fundamento espiri-and Albert Museum, Londres tual oprimido se revela à consciência, damo-nos conta do sentido da vida há muito tempo es-até o presente se faz sentir e clama por seus direi- quecido e desmascaramos a relatividade, o erro, atos. Se assim não fosse, o que reprimimos jamais mentira e a superficialidade de nossa vida comum.poderia vir à tona. Dessa maneira, o núcleo espiri- E aspectos de nossa consciência há muito abando-tual fundamental em nós que é eterno nos convida, nados tornam-se facilmente ativos outra vez. Dessanos chama, sim, nos tira de nossa ordem para que maneira, é possível perceber que as concepçõesele possa evoluir e tornar-se consciente. Passamos a gnósticas não são fórmulas ou teorias intelectuais,perceber em nós uma nova receptividade ao espiri- mas que se trata aqui de tornar-nos conscientestual, uma abertura ao que temos de mais profundo, de nosso ser interior profundo.A maior parte dasuma fé na Gnose. Ora, são essa fé e essa abertura tentativas filosóficas e teológicas modernas deque nos permitem adquirir a compreensão. compreender os gnósticos sofre da deficiência deA compreensão, o despertar gnóstico, de acordo acreditar que o conhecimento gnóstico é meracom a fé gnóstica, nada é senão tornar-se especulação do pensamento sobre a situação do ser humano no mundo. Quando os gnósticos dizem que são libertos pelo conhecimento entendem que passam do estado inconsciente ao consciente do que que há de mais profundo neles, que essa nova consciência age neles e os conduz à libertação; o que alguns teólogos compreendem de maneira errônea quando consideram que os gnósticos se sentem libertos graças a um conhecimento secreto especial, pois acreditam que determinadas fórmu- las e teorias sobre o mundo e a natureza humana8 pentagrama 2/2009
Mas, na verdade assim é:Se vês alguma coisa, tornas-te semelhante a ela.Se vês o Espírito, tornas-te Espírito.Se vês Cristo, tornas-te Cristo.Se vês o Pai (Deus), tornas-te o Pai.É por isso que aqui neste mundo vês tudo, menos a ti mesmo.No outro mundo, porém, vês a ti mesmo, porque o que lá vêsnisso te tornas.”“Ninguém pode perceber algo imutável sem ter-se tornado elemesmo imutável.”conduziriam os gnósticos à libertação. No entanto, 1 João 10:30.para o gnóstico, a libertação pelo conhecimento 2 I Coríntios 13:12.significa que seu ser interior mais profundo voltou 3 Carus, P. , Evangelho de Buda.à consciência e à vida, e assim, age nele e o liber- 4 Clemente de Alexandria.ta de sua superficialidade e de sua inércia. Como 5 I Coríntios 2:10–12.Valentino, o gnóstico adquire a consciência de sua 6 II Coríntios 13:5.verdadeira identidade espiritual, ele ouve o Verbo 7 O conhecimento que ilumina. Jarinu: Editora Rosacruz, 2005.divino, percebe o mundo divino, no início, como 8 Ibidem.uma criança particularmente dotada, e depois, cada 9 Ibidem.vez de forma mais ampla e intensa. Se o chamado 10 Ibidem.ressoar no mais profundo de nossa alma, sugerin-do a possibilidade de tornar-nos conscientes, dedespertar em nós a eternidade que nos libertará,poderemos apresentar duas reações: ter fé ou não.Pode acontecer também que, profundamente toca-dos, aceitemos imediatamente escutar o chamado ea ele responder.O Evangelho da Verdade a esse respeito expõe:“Quando é chamado [pelo nome], ele ouve, res-ponde e volta-se para aquele que o chama, eleva-se até ele e, nesse chamado, obtém a Gnose. E,como agora sabe, ele faz a vontade daquele que ochamou”.10 Essa seria a reação apropriada do serhumano a esse chamado proveniente do próprioimo: abertura e resposta positiva. Isso é fégnóstica µ O Evangelho da Verdade 9
feliz é o homem10 pentagrama 2/2009
que desperta a si mesmoo evangelho da verdade II“Feliz o homem que se torna consciente de si mesmo e desperta.Quando é chamado [pelo nome], ele ouve, responde e volta-separa aquele que o chama, eleva-se até ele e, nesse chamado,obtém a Gnose. E, como agora sabe, ele faz a vontade daqueleque o chamou.”Fé, em sentido gnóstico, significa: ouvir o pode dissipar-se completamente. Para Valentino, chamado, abrir-se e reagir positivamente. Em Jesus Cristo é a luz que se encarna no mundo do geral, no entanto, os que são chamados não erro como inteligência e força divina capazes dereagem. Porque seria preciso mudar completamen- penetrar no coração de todos os que anseiam porte se aceitássemos a verdade sobre nós mesmos libertação, mas que, por sua própria força, não sãoe nossa sociedade. Seria necessário renunciar a capazes de chegar ao conhecimento.muitos de nossos hábitos, de nossos falsos praze- Trata-se do tema central do Evangelho da Verdade:res, de nossas certezas e de nosso reconhecimento o Verbo divino é o redentor que vem para salvarpelo mundo que nos cerca. Sobretudo à imagem todos os que não conhecem o Pai.Várias vezes Va-lisonjeira que temos de nós mesmos, o que nos lentino exprime sua alegria por haver um meio decausaria dor, ainda que fosse a dor que acompanha escapar do mundo da ignorância, sim, de libertar-sea compreensão. completamente para chegar ao mundo divino daDe acordo com o Evangelho da Verdade:“O erro verdade e da plenitude. Ele escreve:“O Evangelhoentrou numa exaltação terrível, e não sabia o que da Verdade é suprema alegria para todos os quedevia fazer. Estava triste, queixava-se e atormenta- receberam do Pai da Verdade [...] o nome do Evan-va-se porque nada sabia. Quando a Gnose se apro- gelho é ‘Revelação’, ou seja, revelação daquilo quexima do erro, ela é a sua ruína e a ruína de toda a está fundamentado na esperança”.sua manifestação. O erro demonstra seu vazio e sua Que alívio é entender que a grande incompre-nulidade”. ensão e desesperança não são definitivas! “PorPara Valentino, o erro corresponde ao estado meio de Jesus Cristo [o Pai] iluminou aquelespresente do homem, que reage sem acreditar que, devido à perda do conhecimento, vivem nasno apelo interior. Poucas pessoas são receptivas trevas. Ele iluminou-os e indicou-lhes o caminho.à possibilidade de uma vida espiritual.Valentino O caminho, porém, é a verdade que [o Filho] lhesexpõe que, pela força do hábito e das necessida- mostrou.”des, poucos estão em condição de reagir por sua Todas as concepções gnósticas, como as expressasprópria força ao chamado da eternidade. É por isso nesse Evangelho, provêm do puro cristianismoque o mundo divino envia “seu Filho”, a luz, sob a original, do cristianismo espiritual.Tanto na Gnoseforma de um “ser” que conhece “o Pai”, o mundo como no cristianismo primitivo, Jesus, o Verbodivino. É então que a ignorância (do ser humano) divino, é a força divina que emana do Pai para inflamar a luz do conhecimento na cabeça e noAmor, conhecimento e ação como três anjos coração do ser humano, a fim de dissipar as trevas.em volta da taça, que simboliza Cristo. André A salvação do ser humano, tanto na Gnose históri-Rublev,Trinitas, ca. 1405–1410 ca como no cristianismo original, é libertar-se do erro e de suas conseqüências, despertar na verdade feliz é o homem que desperta a si mesmo 11
Fomos criados pelo Espírito divino para conhecero Espírito divino e a nós mesmos como emanação deledivina que atua no imo, tornando-se dela cons- ficou inútil e construamos, com base no Verbo di-ciente. Cristo é a corporificação dessa força divina vino, novos vasos que o possam receber de maneiralibertadora que age no ser humano. pura e firme. E isso é possível graças à encarnação do Verbo divi-Muitas pessoas, hoje, percebem a insensatez da no que age nos seres humanos:“Tornou-se cami-antiga fé dogmática e pressentem que só as experi- nho para os desorientados e conhecimento para osências espirituais internas, só uma mudança interna ignorantes, achado para os que o buscavam, firmeque também inclui uma mudança de toda a vida amparo para os vacilantes e purificação para os queexterior, podem libertar o ser humano. eram impuros”.O conhecimento, a Gnose, o saber do coração, uneperfeitamente o ser humano à verdade. Com a aju- Ele, o eterno do homem perfeito, o Verbo divinoda do Verbo divino que atua em seu imo e liberto encarnado, age sem pausa na humanidade e no co-de erro, ele torna-se um homem espiritual novo e, ração de cada indivíduo, aqui e agora, chamando-opor ter ouvido o chamado, participa, nesta vida, da e possibilitando-lhe realizar o caminho único dalibertação. compreensão. Os que seguem esse caminho sabemAí está o verdadeiro cristianismo: a eternidade quer que o que possuem espiritualmente de mais funda-libertar-se no homem, que, no entanto, é demasia- mental provém do mundo divino, que age neles edo fraco para renunciar ao erro e às ligações com os chama, até que se tornem outra vez conscienteso mundo das aparências. Quando o Cristo interior, de terem sido criados à imagem de Deus e reco-o Verbo divino, encontra eco em seu coração, uma nheçam seu Pai.Assim, fé em sentido gnóstico é serenergia nova, não-terrestre, fortalece nele a eter- receptivo à idéia de que existe uma nova possibili-nidade. Em relação a isso, o homem não salva a si dade de vida!próprio. Contudo, a salvação é um ato de cons- O Evangelho da Verdade não fala apenas do cha-cientização do ser humano, uma libertação do erro. mado do mundo divino, do Verbo divino encarna-Ele é capaz de colaborar com o Verbo divino, de do, do caminho da justa resposta ao chamado, mastomar parte em sua libertação, e, nesse sentido, não mostra também um quadro geral do caminho deobstante, pode-se dizer que ele salva a si mesmo. desenvolvimento da humanidade e o objetivo desseÉ por isso que o Evangelho da Verdade chama o caminho.homem a entregar-se à força do Verbo divino no Por que o “Pai da Verdade” criou o universo e oscaminho para a verdade:“Estejamos atentos para homens? Porque deseja que estes o conheçam eque nossa casa se torne limpa e silenciosa para a aprendam a amá-lo. No início, a perfeição descan-Unidade”. Quebremos o velho homem, que espera sava ainda (como potencial) nele, o Pai. Ele aindasua felicidade do mundo terrestre ou sua salvação não a tinha conferido ao universo… Guardava-ano dia do Juízo Final no Além, como um vaso que escondida em si, conservava-a para os que retorna-12 pentagrama 2/2009
riam a ele, e também tinha preparado para eles oconhecimento total e indivisível.Portanto, nós e o universo fomos criados peloEspírito divino, como um pensamento emanadodo pensamento divino, para, de maneira autôno-ma, conhecer o Espírito divino e a nós mesmoscomo emanação dele. Ou, com outras palavras,para tornar-nos conscientes de nós mesmos comoseres divinos, para tornar-nos conscientes de provirde Deus, nossa origem, nossa fonte, a fim de podercolaborar conscientemente com sua obra. Isso,afirma Valentino, define nosso verdadeiro destino,o objetivo e o sentido da nossa vida, o objetivo detodo o universo.Podemos então imaginar que nós, de acordo como nosso ser espiritual, evoluímos, para utilizar umalinguagem moderna, ao longo das linhas de forçavivas do Espírito, presentes no universo inteiro.No início dos tempos, esses seres espirituais nãodispunham ainda de um envoltório material. Paraadquirir a consciência de si e do mundo, deviamter um corpo capaz de pensar, sentir, querer e agir.No início, ainda não tinham recebido uma formae um nome, que o Pai cria para cada indivíduo: aforma (que dele recebemos) para poder conhecê-lo. Porque enquanto permaneciam nele incons-cientes, não podiam conhecê-lo.Nessas condições, o homem deveria, nós deverí-amos, nos manifestar, porque, em nosso estado deinconsciência, não podíamos compreender aqueleem quem nos encontrávamos nem reconhecer suavontade como provinda dele.Imaginemos ser linhas de força puras, imateriais, feliz é o homem que desperta a si mesmo 13
pensamentos provindos da esfera original pura. mem fecha-se para as forças divinas que trabalhamEntão poderíamos desenvolver, independentemen- nele e querem cruzar o limiar da sua consciência.te, uma forma e um nome; ou seja, um corpo e Assim, perdemos a unidade natural com as leis douma consciência do ser divino que nunca perde- Espírito que penetram e conservam todas as coisas.ria sua ligação com o mundo divino. Isso, porém, Daí nossa angústia por não sentir o solo firme sobnão aconteceu: a ligação consciente com o Pai foi os pés, e a sensação de nossa solidão numa vidaquebrada. absurda.Além disso, o medo faz que nos agarremosNo lugar de uma consciência-eu que teria perma- ainda mais fortemente às aparências e nos feche-necido sempre em harmonia com o Pai, evoluiu mos cada vez mais para a unidade com o mundouma consciência-eu que perdeu a unidade com o puro e original. É um círculo vicioso.Pai.Ao mesmo tempo, desenvolveu-se um corpo Como, apesar de tudo, a força divina criadora estámaterial grosseiro.Vivemos na ignorância “do Pai”, presente em nós, agimos e criamos incessantemen-porque o eu material grosseiro e egocêntrico não te na matéria, fora das leis divinas; não é surpreen-provém das esferas puras da origem. É nesse estado dente que apareçam, então, o caos e a falsa beleza.que se encontra a humanidade presente.As forças E imaginamos que este mundo caótico que cria-divinas já não podem exprimir-se diretamente em mos é absoluto e eterno. Os fenômenos externosnossa consciência. Nosso corpo físico, com seus materiais, nos quais se sucedem o bem e o mal,instintos, sentimentos e concepções, já não têm lembram-nos o mito do paraíso sobre a árvore doligação direta com o mundo divino. conhecimento do bem e do mal.Agora, portanto,Valentino tira as seguintes conclusões:A ignorân- trata-se de comer de outro fruto, do fruto da árvo-cia a respeito do Pai suscita o medo e a angústia. re da vida, destinado a sustentar nossa ligação cons-E essa angústia se expande como uma nuvem até ciente com o mundo da verdade e da vida divina,que ninguém possa ver coisa alguma.Assim pro- de onde provimos. Graças a esse fruto, os gnósticos,gride a influência do erro, o qual age sem a razão de maneira maravilhosa, tinham o hábito de ex-divina sobre a matéria e cria com grande tensão primir seu conhecimento por símbolos e imagens.uma criatura na qual reina a falsa beleza no lugar Com grande inteligência,Valentino associa o frutoda verdade. da árvore da vida ao Verbo divino, a Jesus Cristo,Esse acontecimento não é algo isolado do remoto que encarna a vida, a verdade e a luz.passado: ele não cessa de repetir-se até hoje. O ho- É “um fruto que não leva à ruína quando dele se14 pentagrama 2/2009
come [como o fruto da árvore do conhecimento A grandiosa linha de desenvolvimento da huma-do bem e do mal], porém tornou-se uma desco- nidade é, então, a seguinte: fomos criados peloberta magnífica para aqueles que dele comeram”. Pai, para conhecê-lo e com ele colaborar, porém,Se vivermos de forças e de idéias divinas que espe- seduzidos pelo erro, nos apartamos dele.Trilhamosram, em nós, que nos tornemos conscientes, então nossos próprios caminhos e criamos um mundoencontraremos em nós o Espírito, o Pai divino. En- submetido ao erro, onde reinam caos, violência econtraremos Cristo, diz Paulo, e nos alimentaremos falsa beleza. Mas o Pai, que desde o início desejado fruto que não perece, Cristo em nós, as forças que o conheçamos, nunca nos abandonou em nos-espirituais em nós. Ora, vivendo e agindo com as sa ignorância e em nossa solidão. Ele envia-nos seuAssim progride a influência do erro, o qual age sema razão divina sobre a matériaforças divinas, realizamos nosso verdadeiro destino. Verbo, seu coração, seu Filho, sua força em nossoEntão dissolvemos nossa consciência-eu separada coração para nos darmos conta de nosso desvio.de Deus em uma consciência unida a Deus, plena No início, devido à nossa falta de fé, temos ten-de Deus.Assim as coisas e as criaturas já não são dência a matar em nós seu Verbo e sua força, comoobjetos diante dos quais estamos como sujeito-eu: Cristo foi morto pelos seus contemporâneos. Masreconhecemos que todas elas estão em nós e fazem Cristo em nós jamais pode morrer definitivamen-parte de nós. Tat tvam asi, tu és o ser. te. No início, sem dúvida ele desaparece, rejeitadoSuprimimos a falta que surgiu por termos comido por nossa consciência. No entanto, nas profundi-em voluntariosidade do fruto da árvore do conhe- dades do inconsciente, ele trabalha em nós e noscimento do bem e do mal e vivemos da plenitude dá a intuição e o desejo de uma vida verdadeira epor sempre comermos do fruto da árvore da vida, plena, chamando-nos para um caminho espiritual.das substâncias e forças espirituais que, como nosso E quando nos abrimos com fé para esse caminho,verdadeiro eu, como o Cristo, estão em nós. ele nos possibilita percorrê-lo. Nesse caminho nos feliz é o homem que desperta a si mesmo 15
tornamos conscientes de nosso erro, e o conheci-mento do Pai, da fonte primordial divina, torna-seativo em nós. Isso significa que o Cristo em nósressuscita. Então chegamos à meta de nosso de-senvolvimento, pois quando o Pai em nós é reconhecido ele se torna ativo em nós. Colaboraremoscom ele e construiremos uma vida e um mundoque estão de acordo com ele, que são verdadeiros.Portanto, o que reconhecemos quando o Pai, nossafonte primordial divina, se manifesta em nós?Reconhecemos a estrutura e a atividade do mun-do divino, o Pai, o princípio criador no universo eem nós. Reconhecemos a Mãe, o Espírito Santo, avida, a força divina da realização. E reconhecemoso Filho, a luz, o homem espiritual perfeito, nascidodo Pai e da Mãe.É por isso que Valentino resume o caminho dahumanidade através dos séculos do seguinte modo:“Assim, o Verbo emana do Pai para o universo, edeste emana novamente, como fruto de seu cora-ção e filho de sua vontade. Ele sustenta o universo,elege-os [os seus], acolhe a forma do universo.A seguir, ele os purifica e os leva de volta ao Pai,de volta à Mãe: ele, Jesus, o infinitamente miseri-cordioso”.Isso sempre foi possível ao longo dos tempos. OVerbo do Pai é emitido continuamente no univer-so, e retorna com numerosos resgatados que voltamao Pai. Indefinidamente, o Verbo manifesta-se em O faraó Seti I leva na mão uma escultura de Ma’at, deusa egípcia que provê “verdade, equilíbrio e harmonia” e mantém a ordem no cosmo16 pentagrama 2/2009
“Falai, pois, de todo o vosso coração, vós, que sois o diaperfeito em quem habita a luz inextinguível.”seres humanos para preenchê-los com a verdadelibertadora e deles emana uma força, a força doVerbo.E o Evangelho da Verdade proclama:“Falai, pois, detodo o vosso coração, vós, que sois o dia perfeitoem quem habita a luz inextinguível. Falai sobre averdade a todos os que a procuram e sobre a Gno-se a todos os que pecam no erro”.Em todos os tempos os seres humanos que en-tenderam o chamado e a ele reagiram de maneirapositiva uniram-se para formar comunidades. Hoje,elas existem no âmbito do sofismo, do budismo, dacabala judaica e do cristianismo.Os seres humanos que se abrem para o chamadoda verdade no presente reconhecem por experiên-cia própria que o Evangelho da Verdade confirmaa verdade imemorável e atemporal. Essas pessoaspoderão servir-se, no presente, em seu próprio ca-minho, dessa autêntica força espiritual do passado.“Assim como a ignorância é anulada pelo conhe-cimento, assim como as trevas desaparecem quandobrilha a luz, assim se desfaz a carência na perfeição.E, a partir desse instante, também desaparecem asformas exteriores. Então, elas se elevam na Uni-dade […] Por meio da Unidade, cada um acolhea si mesmo. Porque, na Gnose, cada um depura-seda multiplicidade e entra na Unidade ao consu-mir a matéria em si, assim como o fogo [extingue]as trevas por meio de luz e a morte por meio devida” µ feliz é o homem que desperta a si mesmo 17
da semana de verãoUma reflexão sobre o clima exterior e interior, duranteuma conferência em Edschult, SuéciaNo entanto, no decorrer de períodos Os sistemas esotéricos e religiosos ensinam que a bastante longos, verificamos que, ocasio- humanidade está sujeita a grandes ciclos de desen- nalmente, o clima pode sofrer mudanças volvimento. No Ocidente, fala-se de anos sideraisdramáticas. Na idade do bronze, por exemplo, os cósmicos, de períodos de aproximadamente 26.000países escandinavos gozavam de um clima ligeira- anos, durante os quais o ponto vernal faz a voltamente mais quente que o atual. Havia vastas flores- completa ao longo do zodíaco. O ano sideral étas de árvores enfolhadas e pântanos, e os homens dividido em doze períodos menores.viviam de pesca e caça. Eles deixaram monumentos Encontramo-nos atualmente no fim da era degrandiosos de pedras, inscrições e túmulos.Admi- Peixes e no início da era de Aquário. É necessá-radores do sol, tinham grande conhecimento de rio observar que a era de Aquário invoca energiasastronomia, e supõe-se que o seu sistema social era completamente diferentes das da era de Peixes; amatriarcal. Quando o clima tornou-se cada vez conseqüência é que as condições de vida externasmais frio e após o período glacial o nível da terra e internas ficam sujeitas a mudanças consideráveis.elevou-se, as condições se alteraram radicalmente. Os próprios fundamentos da existência humanaAs florestas de folhagem abundante e os pântanos são perturbados, e esse caos marca o início de no-deram então lugar às florestas de coníferas. Novas vas condições.espécies animais e novas plantas apareceram, a cul- Diz-se às vezes que o ser humano tem um grandetura da idade do bronze desapareceu e novos tipos potencial de crescimento. E é precisamente nessehumanos surgiram com novos costumes e uma período de mudança que existem possibilidadesnova religião: a religião dos Ases.1 formidáveis de realização.Era o início da idade do ferro. O matriarcado Temos em nós o necessário para concretizar esserelativamente pacífico foi substituído por um potencial, e se colaborarmos com as forças depatriarcado cada vez mais bélico: o clima interno luz e de calor divinos, estarão presentes todas asendureceu-se. Era como se as condições internas se condições e possibilidades para uma mudança ealterassem de acordo com as condições externas! E um desenvolvimento interior. Isso não é, contu-podemos imaginá-lo de fato: o nosso humor não do, um processo automático; há uma condição:se altera conforme a mudança das estações? Não é necessário que o antigo dê lugar ao novo, quetemos o mesmo entusiasmo, e sentimo-nos mais uma reestruturação fundamental aconteça. Noenérgicos ou mais cansados. No verão temos pen- passado, as transformações das condições de vidasamentos diferentes dos do inverno, e a primavera ocorriam devido principalmente aos fatores sobreinspira sentimentos diferentes dos do outono. os quais o homem não tinha nenhum ou pou- co controle. O homem não tinha controle sobre1Na religião germânica, um dos grupos principais de deidades. as mudanças interiores necessárias. Lemos em AOdin, sua esposa Frigga,Tyr (deus da guerra) e Thor eram os Doutrina Secreta que, no passado, a humanidadequatro Ases comuns das nações germânicas.18 pentagram 6/2008
de 2008 na Europa Nas regiões do hemisfério norte do planeta, a passagem do inverno para a primavera traz uma enorme metamorfose. Uma multidão de acontecimentos transforma tudo para adaptar-se às novas condições governadas e dirigidas pelo sol. O solo, que estava em repouso, degela, e uma terra nutriz e vivificante faz a natureza expandir-se inteira com a ajuda do calor e da luz. Esse processo segue um modelo relativamente estável..era dirigida por guias e soberanos enviados pelas Marco de fronteira nos arredores de Edschult, Suéciahierarquias superiores, que poderíamos chamarde anjos, arcanjos etc. Mas as mudanças climáticas mudarmos interiormente de maneira positiva, tudoatuais – pelo menos em parte – são causadas pelos continuará evoluindo de maneira negativa. Devepróprios homens. Por isso, é evidente que devere- ser possível viver em harmonia com a natureza emmos assumir a responsabilidade, e será necessário vez de perturbá-la.A pergunta agora é esta: temosfazer o possível para alterar a situação para a boa realmente o desejo de procurar, no plano interior,direção.Assim, é exigido que tomemos a respon- algo maior que nós mesmos? Podemos deixar desabilidade por nosso clima interior, porque, se não dar importância ao nosso instinto de conservação e ao nosso egocentrismo e começar a viver em verdadeira comunhão e solidariedade? da semana de verão de 2008 na Europa 19
A Arca Deus é teu capitão; singra, minh’Arca! Mesmo que o inferno suas fúrias rubras solte E contra vivos e mortos se volte E a terra em chumbo se molde, Varrendo dos céus toda e qualquer marca, Deus é teu capitão; singra, minh’Arca! O Amor é tua bússola; veleja, minh’Arca! Para norte e sul, leste e oeste voa E tua arca do tesouro a todos doa. A tormenta levar-te-á em sua coroa, Para os nautas um farol que com as trevas arca. O Amor é tua bússola; veleja, minh’Arca! A Fé é tua âncora; zarpa, minh’Arca! Quando o trovão ressoa e o corisco cai como arpão, Quando os montes tremem e vão ao chão, E o homem torna-se tão fraco de coração, Que no esquecimento a santa centelha abarca, A Fé é tua âncora; viaja, minh’Arca! Naimy, Mikhaïl. O livro de Mirdad. Jarinu: Editora Rosacruz, 2005, p. 107.20 pentagrama 2/2009
alocução durante uma noite em NoverosaNão sou estranho. Pelo menos, acho que não. sentimentos e as intuições não são reconhecidos Sou como outros jovens de dezesseis anos. perante as idéias racionais. É por isso que, emDiria que sou até comum. Faço tudo que se espera geral, guardo minhas idéias para mim. Isso faz quede alguém da minha idade: vou à escola, faço freqüentemente existam tensões. Porque minhaesporte, me apaixono e discuto com os meus pais; cabeça, preenchida pelo conhecimento acumulado,saio de férias no verão, e também tenho muitas não parece falar a mesma linguagem que o meuperguntas: sobre o mundo e sobre mim mesmo, coração: as coisas que aprendi na escola e leio nossobre minha posição nesta vida e neste mundo. livros não estão de acordo com as coisas que ouçoA única diferença entre eu e os outros é que quero nos templos e durante nossas conferências. É comocompreender. É por isso que faço perguntas. Isso se houvesse dois mundos dentro de mim, um mun-parece aborrecer muitas pessoas. Mas quero real- do externo e um mundo interno. Não me agradamente compreender. O que quero compreender? ter de viver em dois mundos que não parecem deBem, honestamente, mais ou menos tudo: Por forma alguma concordarem entre si.que estamos aqui? Por que há tanta desigualdade,sofrimento, dor, e essa busca infinita por felicidade Para mim deveria haver apenas um único mundo.e por conforto? Porque ninguém está realmente Acho difícil ser forte e apoiar-me no que sei inte-feliz? Quero compreender tudo isso. Há respostas, riormente. Chamam isso de intuição, mas prefirosim, há. Mas nenhuma é realmente satisfatória.Às chamar de conhecimento interior. Não posso pro-vezes tenho a impressão de que as pessoas se adap- var que essas coisas são verdadeiras, mas sei que étam a qualquer resposta para evitar preocupações. assim, porque todos os dias vejo as provas em mimÉ como se não quisessem ver a verdadeira resposta. mesmo e à minha volta. Descobri que nem sem-Tudo o que parece mais ou menos plausível lhes pre foi assim. Houve épocas onde os sentimentosconvém, contanto que possam evitar de refletir. eram mais importantes que a razão.Antigamente,Sinto que existe mais, muito mais, quer dizer, que a ciência e a religião tinham o mesmo objetivodeve haver muito mais! Não pode ser só isso! O e completavam-se. Dois caminhos para o mes-objetivo da vida deve ser algo mais.Toda essa mi- mo objetivo: a compreensão da realidade na qualséria, todo esse sofrimento, não posso acreditar que vivemos. Com o tempo, as coisas se alteraram. Noseja por nada! Devo admitir: sei que há mais. fim da Renascença, o mundo ocidental encontrou-Se o mundo é como é, sei que há um motivo. se dividido entre o domínio material e o domínioComo sei? Não posso explicar. Simplesmente espiritual.A ciência limitava-se ao concreto, aosei. Poderíamos dizer que é um sentimento, uma visível, e a religião, ao invisível.Através dos séculosintuição, mas é mais que isso. No mais profundo os cientistas acabaram dividindo nosso mundo emdo meu ser, eu sei, simplesmente. Este mundo é pedaços cada vez menores: primeiro em células,construído com base em idéias evidentes. E os depois em moléculas, em seguida átomos, depois da semana de verão de 2008 na Europa 21
Noverosa, o monte de areia e “a árvore solitária”, verão de 2008em partículas subatômicas, elétrons, prótons e que o mundo é como é, mas por quê. Há tantosnêutrons, sendo que as duas últimas, por sua vez, elementos diferentes que parecem explicar-nossão constituídas por quarks. E talvez no futuro os como o mundo funciona: a estrutura do átomo, acientistas descubram partículas ainda menores. Mas, energia do ponto zero, o continuum espaço-tempo,durante essas pesquisas, surgiu um problema em a dualidade onda-partícula das partículas subatômi-nível quântico, um termo geral para a investigação cas e a influência do observador sobre o compor-das partes menores que o átomo: os experimen- tamento dessas partículas.Tudo isso parece interes-tos deram resultados incomuns, inexplicáveis por sante do ponto de vista comum. Mas é necessáriomeios normais, convencionais. Então começou-se olhar de forma diferente se quisermos realmentea perceber que talvez houvesse mais, neste mundo, compreender os efeitos desses resultados.do que se admitira até então. E agora cada vez maiscientistas reconhecem que os resultados de suas Há alguns meses, durante uma aula de biologia,pesquisas parecem aproximar-se das ideologias das foi-nos explicado o funcionamento de uma célula.escolas e sociedades esotéricas e gnósticas. O corpo humano compõe-se de vários tipos de células, cada tipo com suas funções e característi-Vivo num mundo racional, e meu cérebro pede cas próprias. Mas cada célula contém ao mesmorespostas, provas. Considero que a prova física que tempo toda a informação do corpo inteiro. Cadaprocuro nesta vida talvez possa ser encontrada nos uma contém o mapa e toda a informação para aresultados dessas pesquisas. Mas não estou ainda construção e a manutenção do meu corpo inteiro.satisfeito com as coisas que ouço: não quero saber Se for necessário, uma célula pode alterar de forma22 pentagrama 2/2009
ou função a fim de preencher os vazios. Ninguém Porque quando nosaproximamos do menor nívelsabe como uma célula sabe o que deve fazer e em possível, tudo é dinâmico, tudo está em movimen-que momento.Todas as células colaboram em har- to e interação constante. Nesse menor nível, jámonia perfeita, como um grande organismo que não existem elementos nem partículas, só energia.tem um único objetivo e é impulsionado por uma Energia e possibilidades. Isso significa que tudoforça desconhecida. Há algum tempo nosso profes- está ligado a tudo, tudo tem influência sobre tudo!sor explicou-nos a constituição de um átomo. Ele Cada pensamento, cada sentimento, cada ação temse constitui de um núcleo com um ou vários nêu- influência sobre o conjunto todo. Poderíamostrons e prótons ao redor do qual circulam elétrons. dizer que encontramos assim a prova de que umaPor que os elétrons circulam ao redor do núcleo? força universal está na base de tudo? Seria a provaNão tenho a menor idéia; eles simplesmente o da existência da Gnose? Ora, de onde vem essefazem. O átomo é 99% vazio! Pode imaginar? Ao impulso? Como tudo apareceu? De onde vem essaredor de um núcleo atômico do tamanho de uma misteriosa energia, se teoricamente, não há maismoeda, os elétrons circulariam a uma distância de nada?cerca de 10 quilômetros. Mas se todos os átomos,neste mundo, estão praticamente vazios, isso signi- A mecânica quântica revela ainda outro fenômenofica que tudo o que consideramos como material interessante: a influência do observador. Quandoduro, sólido, na realidade não o é, de forma algu- observamos certa partícula, ela comporta-se dema! Então como poderíamos provar que a matéria maneira diferente. Porque, quando não observada,é sólida se está vazia? … E está realmente vazia? uma partícula comporta-se de maneira diferente deSempre tentei imaginar um mundo onde o tempo quando é observada. Quando não é observada, eme o espaço já não existissem. Mas até agora não tive nível quântico, ela se comporta ao mesmo tempoêxito.Às vezes pareço percebê-lo de relance, mas como uma onda e como uma partícula. E quan-não consigo exprimi-lo. do não é observada, uma partícula encontra-se ao mesmo tempo em diferentes lugares do átomo. É oEm 1905,Albert Einstein mostrava na sua teoria que chamam de superposição. Somente no mo-da relatividade que o espaço e o tempo não são de mento em que o átomo começa a ser observadoforma alguma estáticos e lineares como acreditá- as partículas tomam uma posição fixa. Recordo-vamos. O tempo e o espaço são relativos à veloci- me desta velha pergunta:“Se um som é emitidodade do objeto que observamos e à nossa própria mas ninguém ouve, ele é efetivamente um som?”velocidade. Em função da diferença de velocidade Seria ele talvez apenas a possibilidade de um som?entre você e o objeto, o espaço pode diminuir ou Como dizia Einstein:“Quando à noite olho o céu,aumentar, e o tempo acelerar-se ou retardar-se. vejo a lua. Mas se me viro de costas não sei se a luaDe fato, nada neste mundo é absoluto ou estático. continua lá!” Isso quer dizer que não posso nunca da semana de verão de 2008 na Europa 23
ter certeza daquilo que vejo, e isso é certamente existem outras que surgiram no lugar. Mas não temverdade. É apenas minha percepção, minha ima- importância. Elas forçam-me a continuar a busca, egem, minha própria verdade. Minha vida está cheia continuarão a surgir até que eu atinja meu obje-de possibilidades e potenciais. Cabe a mim deci- tivo. Mas algo mudou: posso mesmo assim confiardir como utilizar essas oportunidades. E todo o na minha voz interna; já não tenho necessidade deuniverso parece querer dizer-me algo: que não há questionar. Porque o próprio mundo, cada átomo,algo como a individualidade. Não há nem eu, nem cada partícula deste mundo, confirma o que sintovocê, nem eles: fazemos parte da mesma criação. interiormente e o caminho que devo seguir.TenhoO que penso, sinto e faço, faz a diferença. É o que uma confiança renovada, uma nova esperança. Sechamamos de efeito borboleta:“Se uma borboleta tudo ao meu redor descreve-me a realidade nabate asas de um lado do mundo, isso pode desen- qual vivemos, e se tudo me indica uma só direção,cadear uma tempestade do outro lado”. Imagine então por que esperar? O que me detém? Não háas possibilidades! Se um grupo de homens decide nada que me segure. E com essa sustentação não háverdadeiramente voltar-se para a origem, para o es- falha.tado primordial, se estiverem firmemente determi-nados e o demonstram por meio de seus atos, elespodem realmente provocar uma mudança profundano mundo.Cientistas agora também chegaram à conclusão deque a consciência humana tem influência sobre arealidade física no domínio subatômico. E se o ní-vel subatômico for influenciado, então também osníveis atômicos, celulares e todos os outros serão. E,de repente, tudo torna-se claro.A prova que procu-rava encontra-se bem na minha frente. Encontra-seem mim, no meu corpo e por toda parte a meuredor. Se cada célula está sujeita ao impulso de umaforça desconhecida, uma força que se manifestano nível subatômico como um campo energéticodinâmico, isso significa que, literalmente, tudo estáligado. Isso é tão diferente do que ouvimos notemplo? As minhas perguntas não estão comple-tamente respondidas.Tive algumas respostas, mas24 pentagrama 2/2009
Impressões da conferência do grupo de jovens alunos em “La Nuova Arca”, Dovadola, ItáliaTrabalhar em conjunto e formar um grupo. Semana Ohomem tem o hábito de ouvir, compreender,do grupo de jovens alunos em “La Nuova Arca” e de, literalmente, assimilar as palavras enten- didas. Esse processo faz julgar uma pessoa de acor do com o vestuário e a aparência. Julgar de acordo com o exterior. Mas as palavras têm significados diferentes; elas são multidimensionais. São formas que transportam força, luz, calor e som.As palavras estão em movimento, vivem e criam a ordem. Para o buscador, para o aluno, as palavras do ensinamen- to universal contêm a verdade e operam como um remédio. Se as compreendemos e experimentar- mos, as consideramos sob um olhar diferente. Elas mostram-nos então sua força, sua luz, sua radiação, e as assimilamos como um alimento muito especial, um alimento espiritual, porque sabemos que po- dem trabalhar para nós e através de nós se assimi- larmos o que elas têm de essencial. Será que entendemos quais são as conseqüências dessa nova compreensão e utilização da palavra? Que se chegarmos a uma nova abordagem, uma nova compreensão e utilização da palavra, então nos abriremos a uma nova percepção, a uma nova atividade? É a isso que todo buscador aspira: um novo entendimento, uma nova inteligência inte- rior fundamentada sobre a força, a radiação, a luz. Porque no fundo se trata de extrairmos a força, a luz e a sabedoria do campo de radiação direto da Dou-trina Universal. Essa compreensão interna da única verdade, da sua essência, faz parte do pro- cesso por meio do qual a personalidade se prepara para a renovação alquímica que chamamos de transfiguração. Não é a transfiguração o objetivo único de toda a nossa orientação, de todos os nosso atos? Não se trata de tornar-se semelhante a Cristo da semana de verão de 2008 na Europa 25
As fotos são de Daniël Schmidt; podem ser vistas em: http://picasaweb.google.com/youngpupils2008e de cumprir sua missão sublime a fim de elevar e “concreto, evidente, visível” é posto em primeirocurar a humanidade pela oferenda de seu sangue? plano? Como isso priva o ser humano de seu obje-É esse nosso objetivo; e nada deve impedir-nos tivo mais elevado? Como a vida é, então, reduzidase realmente almejamos realizar a transfiguração. ao que “pode ser provado” em primeiro plano?Declaramos isso com ênfase, porque a personalida- Em nosso estado de aluno, em que somos semprede tende sempre a relativizar esse objetivo elevado confrontados de modo consciente com o que háe ao mesmo tempo concreto, colocando-o em de mais sublime, podemos deslizar imperceptivel-segundo plano, conscientemente ou não, a fim de mente em direção a algo que nos faça relativizar odedicar-se à suposta “realidade concreta”. E então objetivo absoluto da libertação ou transpô-lo paradizemos:“Sim, isso acontecerá efetivamente um fora de nós mesmos. Já não nos baseamos no fatodia, mas, hoje, outra coisa acontece. O absoluto está de que atingir esse objetivo supõe atos conscien-muito distante de mim ainda, muito abstrato, muito tes, intencionais. É o que acontece quando noselevado!” Mas verifiquemos mais de perto o que se deixamos influenciar por problemas que provo-esconde por trás dessa atitude. O que é que obscu- cam divergências de opinião, quando colocamosrece a perspectiva libertadora e nos coloca diante em prática idéias e intenções que não têm relaçãoda dura realidade deste mundo como um fenôme- alguma com a cura e a libertação da alma. Nesseno aparentemente inegável? Percebemos como essa momento, o buscador perde de vista seu objetivopostura nivela tudo assim que o elevado: libertar a alma. Ele já não luta pela vitória26 pentagrama 2/2009
nem oferece seu sangue em sentido libertador, mas radiação tem uma qualidade totalmente diferen-desperdiça suas forças e seu sangue por nada.Além te e manifesta-se num plano superior de maneiradisso, envenena a si mesmo e, portanto, também os completamente diferente daquilo que os homensoutros. E o resultado não é uma libertação, mas um concebem como amor.envenenamento do sangue. No mundo onde vive- É necessário estarmos cada vez mais conscientesmos, ninguém jamais concorda sobre os diferentes desse conceito e desse ponto de vista, e nos entre-aspectos da existência, sobre os desenvolvimen- garmos a ele. Esse conceito e esse ponto de vistatos da existência e sobretudo sobre a maneira de nascem da profunda consciência de nada quererrealizá-los. Mas não é disso que falamos aqui! Não além de estar a serviço do Amor e do Espírito.se trata aqui de um aspecto ou de outro, de certa Trata-se, portanto, de ajustar nossa vida diáriaopinião entre tantas outras; não se trata de um mé- às exigências da vida da alma-espírito e direta etodo para realizar algo nem de qualquer explicação, resolutamente agir com base nessa orientação. É anão se trata aqui de uma palavra ou outra. Não, única tarefa que se apresenta a nós, e tudo o mais,amigos, não se trata de nada disso. Haverá sempre tudo o que for necessário, decorrerá disso. Essa é atantas visões e opiniões quanto há homens. base da nova atitude de vida da qual tão freqüente-No que diz respeito à transfiguração, trata-se do mente falamos µcaminho que realiza a cura do ser e o eleva aonível mais alto – trata-se mera e simplesmenteda manifestação e da demonstração do caminhodivino, da verdade divina e da vida divina. E ocaminho, a verdade e a vida divinas são uma reali-dade que se pode experimentar apenas ao realizaro caminho, ao conhecer e confessar essa verdadee vivenciar Deus. E para isso não existem palavras,nem símbolos, nem sinais. Somente o ser divinotestemunha e manifesta-se aqui.O ser divino é Amor. Esse Amor é a inteligênciasuprema. O Amor é a força de radiação do homemalma-espírito. Isso não quer dizer que devemosmostrar-nos amáveis e amigáveis devido a pensa-mentos humanistas ou sentimentos românticos.Não, o Amor com letra maiúscula é a inteligênciasuprema. É a força de radiação do novo poder depensamento do homem alma-espírito. Essa da semana de verão de 2008 na Europa 27
fogo e águana alquimiaNa Doutrina Universal encontramos indicações de que a Alquimia nas eras e civilizaçõespassadas era uma arte e uma ciência de transformação e libertação. O empenho e a dedica-ção dos pesquisadores alquimistas árabes e ocidentais da Idade Média para encontrar a chavedessa ciência perdida, ou restabelecê-la, implicavam em processos interiores.Alguns dosprincipais testemunhos foram conservados sob a forma escrita.AAlquimia da qual temos conhecimento teve tradições não impedem de encontrar a verdade no seu apogeu ao longo dos últimos séculos caminho, e não devemos considerá-las incômodas que precederam o cristianismo até o fim da nem perigosas.Idade Média ou o começo dos tempos modernos,períodos nos quais se via a existência do mundo e Se nos comportarmos assim e perseverarmos,da humanidade de maneira completamente dife- também nosso imaginário interior, além de nos-rente. so entendimento, pode tornar-se ativo. Então, deCom o passar do tempo, a Alquimia já não pôde repente, se revelam os profundos significados queprogredir sob a forma de ciência reconhecida da os autores dos textos alquímicos queriam trans-transmutação ou transfiguração.Assim, essa ciência mitir a seus leitores.Assim, eles nos oferecem uminterior de purificação e transmutação do que é rico presente: vemos o ser humano, o cosmo, oinferior em superior resultou pura e simplesmente universo e tudo que se encontra aqui constituirna Química, na ciência da destilação ou da decom- um todo vivente em virtude de suas leis comunsposição das matérias naturais, perdendo assim todo e de sua interdependência.Vemos que não se tratao poder de abrir aos seres humanos o caminho real de modo algum de compreender apenas sua formada transfiguração.As ciências originais, das quais a exterior ou sua composição material.AprendemosAlquimia faz parte, estão novamente à nossa dis- a nos dirigir ao essencial, ou seja: aos processos, àsposição quando encontramos o fundamento justo: atividades nas coisas, à gênese e à transformação deum ânimo totalmente novo em harmonia com o tudo o que é criado e como, em todos os planos dauniverso; um comportamento que não causa mal existência, isso se realiza.Assim, chegamos ao gran-algum a quem quer que seja, nem ao próximo, nem de axioma da filosofia hermética:“Assim como éao planeta, mas que procura continuamente o bem em cima, assim é embaixo”.A evolução do cosmode todos. Nos tempos atuais, em que atingimos o e o futuro do homem (o microcosmo) não estãoponto mais baixo do materialismo e um voltar-se separados. E descobrimos que somos uma partepara o interior se anuncia, sem dúvida será possí- vivente da criação divina.vel compreender a antiga linguagem alquímica domodo correto. A CRIAÇÃO PELO FOGO E PELA ÁGUA Aqui, Reli- gião e Alquimia se reúnem.As religiões monoteís-uma coesão vivente Para começar, é necessário tas, atualmente professadas por muitos, baseiam-seter coragem de mergulhar na grande quantidade de no princípio que o Deus Único criou de si mesmoimagens e especificações que formigam nos textos o céu, a terra, o homem e todas as outras criaturas.alquímicos. Em seguida, é preciso pôr de lado nossa No relato bíblico da criação (Gênesis), fala-se daspropensão para classificar as coisas por categorias e águas primordiais sobre as quais “se movia o Espí-para pensar de modo linear. Nesses textos, as con- rito de Deus”; depois, após a criação da luz e sua28 pentagram 6/2008
A serpente crucificada,mercúrio vencido (ver p. 37).Em primeiro plano vemosuma árvore murcha, enquantona árvore jovem brotam no-vos ramos.Abraham Eleazar (Pseudôni-mo), Uraltes chymisches Werck,1735 fogo e água na Alquimia 29
Na Alquimia, a serpente simboliza o mercúrio fluido, a natureza de desejos humana, que o alquimista tem de “fixar”, crucificar. Em Pompéia a ser- pente simbolizava o candidato, o homem inferior, que, mediante sua oferenda no altar, se tornava digno de participar nos mistérios (79 d.C.)“separação das trevas”, surgiu o mundo dividido É somente na segunda criação (o segundo capítu-entre céu e terra. Em seguida foi criado “o homem lo do Gênesis) que acontece a separação entre oà imagem de Deus”, homem e mulher em um úni- homem e a mulher, a mulher é formada do ho-co ser. mem. Essa separação acarretou a queda: eles foramEsse relato da criação representa uma idéia essen- expulsos do paraíso. Para os gnósticos, foi a quedacial extremamente importante que só é compre- do homem nas trevas.A serpente impeliu Eva aensível de maneira abstrata. Se Deus, o Único, se comer o fruto da árvore do bem e do mal, e nossomanifesta porque pensa a si mesmo, ele faz uma espírito está habituado, há séculos, a considerar issoimagem de si mesmo, conseqüentemente do Um como uma conduta moralmente culpável. No en-aparece imediatamente o dois: Deus oculto e sua tanto, poderíamos, ao contrário, considerá-la comomanifestação divina, o criador e o criado, o ativo e o símbolo da nossa incompletude, da nossa falta deo passivo. Esses são na Alquimia os princípios sim- unidade e perfeição das quais tínhamos um desejobólicos do fogo (O Espírito) e da água (a matéria). profundo. Podemos também interpretá-la além deEstes dois elementos, uma vez que provindos de todas as considerações morais. Os seres humanos,Deus, não são diferentes de Deus.Assim, este últi- como imagem dupla de Deus, devem passar pormo adquire em si os princípios contrários: masculi- uma nova fase evolutiva.Tendo passado da unida-no e feminino, criador e receptor, fogo e água. de à dualidade, eles podem obter compreensão e,30 pentagrama 2/2009
assim, de modo consciente e deliberado, retornar cimentos atuais consistem na soma de numerososà unidade. Essa é a imagem da Alquimia. Muitas assuntos independentes. Na Alquimia, assim comorepresentações e relatos têm como tema o homem nas doutrinas gnósticas e na filosofia hermética, ae a mulher e as diversas fases de sua reunião.A Al- compreensão é completamente diferente: trata-sequimia alude a isso sob a forma de fogo e água, de de um pensamento intuitivo que se sabe ligadoenxofre e mercúrio, de sol e lua. à universalidade, à consciência da alma divina. Esse conhecimento, em todas as suas concepções,Os sábios da Idade Média e da Antiguidade eram provém da vida interior vivente e vibrante que, seuniversalistas. Eles dominavam numerosas discipli- trabalhamos com ele, ressoa no homem.Não havia um conhecimento árido sobre a natureza;todas as coisas eram ensinadas e vistas como partede uma grande unidadenas e não eram especializados como os de hoje.As Muitas idéias religiosas e filosóficas envelheceram,grandes idéias que abriram novos caminhos foram e hoje as encontramos apenas nos antigos infólios.encontradas por cientistas que, em linguagem mo- Mas quem se arrisca a abrir seus pensamentos àderna, faziam pesquisas sobre a natureza e a espiri- “compreensão universal” – que apenas poucostualidade. Eles eram ao mesmo tempo astrônomos, possuem – aproveita essa rica herança.Trata-se domatemáticos, (al)químicos e filósofos. Não havia conhecimento antigo e atemporal em todas as di-um conhecimento árido sobre a natureza; todas as ferentes linguagens, por exemplo, na linguagem re-coisas eram ensinadas e vistas como parte de uma ligiosa, filosófica ou alquímica.A expressão “com-grande unidade. Quem explorava as profundezas da preensão universal” mostra ser possível traduzir asnatureza extraía conhecimentos sobre a alma em si idéias alquímicas para a linguagem hermética oumesmo. E via a coesão entre o homem e a natu- religiosa e inversamente. Se traduzirmos o relatoreza, percebia a maneira pela qual o homem podia bíblico da criação para a linguagem alquímica,transcender a natureza. Hoje, temos a tendência a obteremos mais ou menos o seguinte:desprezar as visões “limitadas” da Idade Média ea achar o pensamento moderno mais livre, mais A matéria prima, a substancia primordial que consautônomo; no entanto, falta-nos a visão geral que titui o universo, é um “todo”: um círculo ○ quepossuíam os eruditos daqueles tempos. Os conhe- representa o caos como substância ou fogo e água na Alquimia 31
possibilidade indiferenciada.“O Todo tem a figura forma diferenciada inflamada pelo fogo, surgiudo ovo porque, em sua forma indiferenciada, tem nesta natureza a dualidade do elemento fogo eem si a possibilidade de um desenvolvimento e água, ou masculino-feminino. O ○ ainda nãode uma manifestação. Ele dorme nas profundezas diferenciado, o Caos, receptor, passivo, submis-de cada ser e se manifesta na plenitude das formas so, feminino, ligou-se ao princípio criador, ativo,caóticas presentes no espaço e no tempo do aqui diretor, masculino, representado pelo ponto •, paraembaixo.”A matéria prima é o princípio receptor, a água formar uma ordem vivente (um cosmo) ☉. Foique, vitalizada pelo fogo espiritual divino, tomaforma, se estabiliza. Daí vem o símbolo do círculo por essa ação do fogo sobre a água primordial que apareceu o homem à imagem de Deus, ummarcado por um ponto no centro ☉. Essa água microcosmo onde o masculino e o feminino ainda estavam unidos. Foi somente depois da queda queé a água misteriosa, a água viva ou água eternal; esses dois princípios aparecem separadamente. Oela corresponde ao mercúrio alquímico. Fala-se mundo originou-se deles. Para marcar a diferençatambém da “água mercurial”; tudo é composto entre o mercúrio originalmente inflamado e o mercúrio inferior de nosso plano de vida,de água mercurial. O símbolo anterior ☉ é, pois, a Alquimia emprega dois símbolos:a representação do começo e do fim das transfor-mações alquímicas.No século 17, o alquimista e defensor da Frater- O conhecido símbolo de mercúrio ☿ é consti-nidade da Rosacruz, Robert Fludd (1574–1637), tuído, de baixo para cima, por: a cruz dos quatrodeclarou:“Tudo que está oculto daquilo que está elementos +, o círculo representando o sol, e sobreoculto quer manifestar-se e começa pela apari- ele a meia lua – que pode também representar osção de um ponto luminoso. Antes que esse ponto chifres do carneiro, que é um símbolo milenar daluminoso surja e apareça, o infinito (o Ain Sof força do fogo, força masculina, ativa e criadora.dos cabalistas) está completamente oculto e não Nesse símbolo o alquimista vê a força do fogo e daemite luz alguma. Pela criação divina o ○ torna- água originais da manifestação primordial divina. A meia lua, ou foice, significa o mercúrio depoisse ☉. Quando Deus diz no Gênesis:“Que haja de sua separação, portanto o mercúrio na nossa dualidade cósmica.A lua simbólica desse símbolo éluz”, isso significa que o Espírito, o fogo, inflama aquela que recebe e reflete a luz do sol. Ela dirige aa água primordial. Essa água inflamada é Espíritoou água de luz. Apareceram então as formasoriginais que constituíram o universo.Mercúrio e enxofre na ordem da dualida-de Assim que da matéria prima apareceu uma32 pentagrama 2/2009
“Pelo elemento para os elementos”: Hermes, com o caduceu (bastão com as serpentes) em uma das mãos e os sete planetas na outra, desce ao ha- des, a fim de libertar o elemento-luz. Baro Urbigerus, Besondere chymische Schrifften, 1705 Aqui, a representação simbólica do enxofre, o prin- cípio do fogo, está clara. O símbolo do enxofre na ordem da dualidade é a cruz dos quatro elemen- tos +, sobre a qual se encontra o signo do fogo, o triângulo orientado em direção ao alto △. No entanto, o enxofre puro da manifestação ori- ginal divina é, para o alquimista, simbolizado pelos chifres bifurcados do carneiro ♈. Esse enxofre superior é o enxofre espiritual.vida terrestre. Ela está relacionada com o mercúrio, água congelada e água corrente Assime o sol com o ouro flamejante. Misticamente falan- como as principais religiões, a Alquimia baseia-sedo, a lua é a bem-amada do sol, e a alma humana na idéia de que o ser humano atual já não corres-pode ser o espelho do Espírito até que sua uniãoaconteça. ponde à díada pura original. ☉. O alquimista nãoA elevação sublime da alma até Deus, a transmuta-ção alquímica do vil metal em ouro puro, só pode se ocupa com a questão do por que isso é assim,realizar-se se a água receptora e o sol vitalizador ele procura a via que, da dualidade, leva à uni-estiverem perfeitamente puros. O alquimista deve dade, à união dos contrários. Para exprimir que,ser mestre da água e do fogo, do mercúrio e do en- na dualidade, domina sempre um dos dois prin-xofre, a fim de fazer os elementos agirem na justa cípios, os alquimistas distinguem dois estados, aproporção. água congelada e a água corrente.A água corrente simboliza a lua dominante, o efêmero e o vir-a-ser, portanto o mercúrio inferior: a natureza na qual vivemos se explica, portanto, pela atividade da água corrente, as forças lunares que nos influenciam. Na transmutação alquímica, essa força é utilizada no processo da dissolução (solve), seguido da concen- tração ou estabilização (coagula). Na linguagem de Jacob Boehme esse fenômeno é comparável “ao inverno quando um grande frio transforma a água fogo e água na Alquimia 33
“Jesus declarou: se reduzirdes dois a um, se fizer- des o interior como o exterior, e o exterior como interior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino já não seja masculino e o femi- nino já não seja feminino […] então entrareis no reino”.(logion 22) “Quando éreis um, tornaste-vos dois; mas agora que sois dois, que fareis?” (logion 11) A Alquimia dá precisamente a mesma definição da transformação da natureza.A fórmula:“A natureza desfruta da natureza, a natureza domina a natureza, a natureza governa a natureza” é atribuída a Osta- nes.A natureza desfruta da natureza significa que a força cega de mercúrio impulsiona o homem a seguir seus instintos e cobiças; e como resultado, a matéria o domina. É compreensível que se pense que o mercúrio não estabilizado, ○, que não tem centro, age na natureza inferior como um impulso cego, sob forma de uma sede ardente, de um desejo irreprimível, de uma fome cega de prazer.em gelo”.A esse respeito, os alquimistas falam do A expressão “a natureza vence a natureza” querfogo frio ou do fogo ardente.Assim que uma dessas dizer que não é um deus superior que possibilitaforças age, aparece uma interrupção, uma mudança, a transfiguração do homem natural, mas que tudopor exemplo, uma dissolução ou uma estabilização. o que é necessário para isso está oculto na nature- za humana. Se seguirmos as regras da Arte, haveráA NATUREZA vence A NATUREZA É apenas quan- transformação assim que o chumbo da naturezado essas duas forças se unem que o homem se tor- mortal se transmutar no ouro do Espírito.na novamente a imagem de Deus. Na linguagem Quando atingimos esse terceiro estado, a naturezareligiosa, encontramos esta fórmula no Evangelho domina a natureza, e o círculo adquire um centrode Tomé: ☉, imagem de um ser de água e de fogo,34 pentagrama 2/2009
cuja matéria e espírito foram unidos pela água As palavras de Jacob Boehme acima evocam clara-flamejante da alma. mente a relação entre os princípios da Alquimia e a expulsão do paraíso relatada na Bíblia. Na Bíblia seOuroboros,a serpente do mundo As mesmas fala também da serpente que inspira Eva. Quandoanalogias estão também representadas na Alquimia. Jacob Boehme fala do mercúrio de fogo, ele mostraO círculo do mercúrio não está longe do ouroboros, a ação que este exerce sobre o ser humano. Para oa serpente que morde a cauda. Em muitas represen- homem, o mercúrio é a água ardente que, em seutações gnósticas do mundo, ela envolve o mundo da aspecto inferior, é o fogo astral do desejo. Deve-secriação, como nos gnósticos ofitas.A palavra grega aprender a dominar essa força para transformá-la emophis significa serpente. Jacob Boehme descreve a mercúrio superior.maneira como o diabo seduziu a pobre alma amar- Se a água mercurial ainda não está estabilizada, o serrando-a à “roda de fogo do princípio da natureza”. humano corre o risco de sofrer novamente a forçaEssa roda dos desejos ardentes é uma imagem do fatal da queda. Isso corresponde ao triângulo que“A natureza vence a natureza” quer dizer que não é umdeus superior que possibilita a transfiguração do homemnatural, mas que tudo o que para isso é necessário estáoculto na natureza humanademônio que disse à alma:“Eu também sou o mer- tem uma das pontas dirigida para baixo, o símbolo dacúrio de fogo quando te inspiro o desejo de te en- água da Alquimia. Essa energia dissolvente opera detregares a esta arte. Mas tu deves comer um fruto que maneira indiferenciada e caótica sobre tudo o que éte fará entrar lá onde os quatro elementos reinam estável. É por isso que a serpente morde a cauda.uns sobre os outros, cada um por si, e estão, portanto,em conflito.” Então, nessa alma, despertam todas as O alquimista pode utilizar essa atividade dissolventecaracterísticas da natureza, de modo que a cobiça e a no momento de seu processo de transmutação, seluxúria se lhe tornam familiares. No sentido alquí- ele souber dirigi-la. O processo começa sempre pelamico, trata-se do estado que exprime a fórmula:“a dissolução seguida da coagulação, solve et coagula.natureza desfruta da natureza”. Muitos mitos antigos relatam simbolicamente sobreO microcosmo humano passa, então, a sofrer a influ- essa força descontrolada do mercúrio que deve serência do mercúrio instável. vencida, a fim de que já não seja capaz de causar fogo e água na Alquimia 35
“Olhai bem esses dois dragões, eles representam o autêntico começo da Filosofia, a qual não era per- mitida aos sábios revelar aos próprios filhos.Aquele que está em baixo e não tem asas representa o que é fixo e estável: aquele que denominamos o homem. A serpente em cima é a mulher, obscura, sombria e mutável. O primeiro é o enxofre, ou o calor e o seco. O outro é mercúrio, ou o frio e o úmido. Quando os dois se unem e assim se transformam em quinta- essência, são capazes de vencer tudo o que é duro, sólido e metálico”.danos.A serpente corresponde ao dragão, contra o a serpente crucificada Nicolas Flamel mostraqual o candidato deve lutar. em suas ilustrações uma serpente crucificada paraO dragão e o touro são figuras herméticas, repre- exprimir que o mercúrio dissolvido deve ser ven-sentações dos heróis de natureza fundamentalmente cido.A cruz de quatro hastes refere-se aos quatrorebelde como Mitra, Jasão,Apolo, Hórus e outros elementos do qual o mundo é composto. No pon-combatentes. Esses seres (os dragões) são considera- to de interseção se encontra o quinto elemento, ados pelos alquimistas como “verdes” e “sem direção”, quinta-essência. Quem prega a serpente na cruzpois ainda não adquiriram a maturidade, ou seja, eles estabiliza, fixa o mercúrio.ainda não se submeteram à força que os transforma-ria para alcançar uma ordem superior. Em muitasilustrações, o círculo é constituído de duas serpentesou dragões, cada um mordendo a cauda do outro.Um deles tem asas.O célebre alquimista Nicolas Flamel (falecido porvolta de 1413) disse sobre esse assunto:36 pentagrama 2/2009
pouco importa se falamos do mercúrio, da água, do fogo, da lua, da prata ou do enxofre, do fogo, do sol ou do ouro; todas essas deno- minações enigmáticas têm um sentido, e compreende- mos o essencial.A conse- qüência disso é um pensamento que já não con- sidera as formas aparentemente petrificadas, mas a ação das energias, um pensamento que abrange a coesão de toda a criação µEstes símbolos remetem-nos ao caduceu, ondeduas serpentes se entrelaçam em direção ao alto.Trata-se de uma alusão à união dos contrários.Ahaste que se eleva entre elas é o símbolo do fogoserpentino, o aspecto espiritual da coluna vertebral.Quem quer que, graças a essas numerosas ilustra-ções, penetre os conceitos e os símbolos até a com-preensão fundamental do fogo e da água na cria-ção, dispõe de um importante instrumento.Assim, fogo e água na Alquimia 37
alguns pensamentos sobreEm sua obra Alquimia na Idade Média, B.D. traduções oriundas da Pérsia e da Mesopotâmia. Haage faz referência a um escrito do sécu- Entre os autores traduzidos havia Tales, Pitágoras, lo 3 de nossa era, a Physika kai Mystika. As Empédocles, Demócrito, Sócrates, Platão,Aristóte-purificações e os processos iniciáticos ocorriam na les, mas também escritos herméticos como a Tabulaobra alquímica da mesma forma que no espírito do Smaragdina (Tábua de Esmeralda).Através da Espa-alquimista. nha, muitos escritos árabes traduzidos para o latim chegaram aos alquimistas da Idade Média.As metáforas recorrentes sobre sofrimento, morte eressurreição têm suas raízes na mística dos antigos H.W. Schüt inicia sua história da Alquimia pelomitos e cultos dos mistérios que acompanham a Antigo Egito. Ele vai longe ao afirmar que o Sera-existência humana desde tempos imemoriais. peum (o templo do deus Serápis) é a prova de queEle escreve que, graças à Alquimia árabe, a arte mé- a religião e a filosofia gregas haviam sido profun-dica tinha lugar na Alquimia e mostra a importância damente influenciadas pela religião egípcia. Comoparticular de Paracelso e de seus discípulos nesse conseqüência, surgiu no final da Antiguidade umaassunto. síntese da Religião, da Filosofia e da Medicina, sín-Eles já não limitavam o ensinamento hermético tese determinada pelas idéias e conhecimento dossobre os processos alquímicos aos sais minerais, antigos alquimistas. Eram os médicos que se ocupa-mas utilizavam-no também, até mesmo com maior vam da farmacologia. Os gregos apreciavam muitoefetividade, para as matérias vegetal e animal.Assim, a arte médica egípcia, particularmente a anatomia.ele eram capazes de produzir a “pedra vegetal” e a Em certas receitas empregadas pelos alquimistas“pedra filosofal”. Dessa forma eles descobriram a reconhecemos a influência grega: a matéria depanacéia universal, o remédio universal. muitos escritos alquímicos, como os textos gregos,O conceito “alquimia” provém das traduções dos procedem da arte médica.As experiências sobre otextos árabes do século 12: al-kimiya em árabe, tratamento alquímico dos metais servia para o tra-traduzido em latim por akimia, aquimia ou alchimia. tamento de todo tipo de doenças. Os processos daAlberto, o Grande (1193-1280) fala da Alquimia digestão, da fermentação e da putrefação desempe-como sendo a arte nova, ars nova. O autor remonta nhavam grande papel na Alquimia. Os alquimistasa palavra chemia ao Livro de Enoque, citando Zózi- precederam a chegada dos químicos. Em um resu-mo. No período sassânida (224-651) foi instituída aacademia de Jundishapur e outros centos científicos Heinrich Khunrath mostra nas ilustrações de sua obrano Egito. Neles eram utilizados textos traduzidos Amphitheatrum Sapientiae Aeternae (Anfiteatro dado grego e de outros idiomas sobre Matemática, sabedoria eterna), de 1595, que era adepto da AlquimiaFísica,Astronomia, Geografia, Medicina e também espiritual, a qual, do mesmo modo como os rosacruzesAlquimia.Vários textos alquímicos provinham de algum tempo depois, liga a filosofia cristã com a filoso- fia hermética38 pentagrama 2/2009
o conceito alquimia alguns pensamentos sobre o conceito Alquimia 39
mo da filosofia da Rosacruz do século 17, Roland Chi é freqüentemente traduzido por “energia”;Edighofer escreveu:“No século 17, como conse- ele circula pelo corpo e pelo universo. Ele penetraqüência da literatura dos rosacruzes, muitos leitores tudo; podemos designá-lo como a força vital.conservaram o lado maravilhoso de suas mensagens Ele não é invisível.As coisas materiais são constitu-bem como a Alquimia a elas associada”. ídas por ele: ele lhes dá estrutura e características.Qual era, no século 17, o direcionamento espiri- Os dois princípios yin e yang são duas forças com-tual dos rosacruzes sobre a Alquimia e a Química plementares que agem no universo e estão subme-nascente, sobre os alquimistas e os químicos? Re- tidas a uma forma de fluxo e refluxo.Assim comoconsiderando a Alquimia e os alquimistas, podemos é descrito no Tao Te King, o yin e o yang envolvemafirmar que apenas a Alquimia era compreendida os seres vivos.A harmonia de sua vida tambémcomo sabedoria misteriosa que levava a grande depende da harmonia desses dois princípios. O Taoelevação, sabedoria que abarcava algumas pessoas produz uma energia própria e gera com a energiafavorecidas pela graça. Isso harmoniza bem com a do yin e do yang.imagem do alquimista tradicional, mas de modo Os caracteres chineses que o representam estãoalgum com a do cientista moderno. Porém, o associados à escuridão e à luz.Yin está ligado àpáthos da Reforma, a ruptura com a tradição, já não sombra, à escuridão e ao norte da colina; o yangse harmoniza com a imagem do adepto tradicional. está ligado à claridade, ao sol e ao lado sul da coli-Vários escritos rosacruzes referem-se à prisca na. Nos textos alquímicos da China, o yin é repre-sapientia, a tradição de um saber original que sentado pelo tigre, a água e a mulher; o yang peloremonta a Adão e Moisés. dragão, o fogo e o homem. O alquimista esforça-se por retornar ao processo original da separação doPeter Marshall começa sua busca pela “pedra yin e do yang para proceder à sua reunião, em sifilosofal” na China, depois a Alquimia o leva à mesmo e no laboratório, a fim de fazer surgir oÍndia, ao Egito, aos países árabes e à Europa, a fim elixir áureo da imortalidade. O terceiro elementode encontrar a iluminação hermética. O professor de base da Alquimia chinesa é a teoria pela qualZhao Kuang Hua, ao ser indagado sobre a alquimia todos os processos e todas as substâncias do univer-chinesa, responde:“Ela data de aproximadamente so são ligados com base nos cinco elementos (wuduzentos anos antes de nossa era, mas não sabemos hsing).A teoria dos cinco elementos remonta aoprecisamente.A Alquimia provém do taoísmo.Todo décimo século antes da nossa era. O mais impor-alquimista é um taoísta, mas nem todos os taoístas tante nela é que os cinco elementos correspondemsão alquimistas.A Alquimia é um aspecto do tao- não a cinco tipos de materiais fundamentais, masísmo”.A Alquimia chinesa está fundamentada em sim ao conceito ocidental de quatro elementos. Otrês idéias principais sobre o cosmo – os conceitos pensamento chinês ocupa-se dos processos, não daschi, yin e yang – e a teoria dos cinco elementos. substâncias. Esses elementos nada têm de passivos;40 pentagrama 2/2009
A atividade alquímica da Rosacruz opera comoum remédio para a cura de toda a humanidadesão cinco forças poderosas em movimentos cíclicos. reflexo da transformação interior da alma.A desco-Os cinco elementos intrínsecos de um ser humano berta da “pedra filosofal” é expressão simbólica dasão a essência, a compreensão, a vitalidade (ching), completude interior do alquimista. Há, portanto,o espírito (shen) e a energia (chi). Os dois primei- duas interpretações possíveis da Alquimia, a exo-ros constituem a consciência, os três outros são térica e a esotérica.A exotérica é a ciência práticaconhecidos como os três tesouros. Os cinco estão da preparação e da transmutação do metal em ouroligados aos planetas visíveis a olho nu: Mercúrio- bem como do prolongamento da vida.água, Marte-fogo, Júpiter-madeira,Vênus-metal e Esse aspecto desempenha um papel chave na his-Saturno-terra.Admitindo que cada planeta emita tória e no desenvolvimento dessa ciência. Para aum som com certa freqüência, falamos também da tradição esotérica, a transmutação em ouro é uma“música das esferas”. Na raiz da Alquimia chinesa atividade simbólica: o ser humano esforça-se porestá a crença de uma rede complicada e muito fina mudar sua matéria fundamental em puro espírito,que liga entre si todas as partes do universo que quer dizer, em ouro da iluminação espiritual.constituem o imenso Tao.Trata-se de um modelo Desde tempos muito antigos, a tradição esotéricade organização.Tudo confere energia a tudo.Tudo revela verdades sobre a estrutura do mundo, o lugartrabalha em harmonia, e nenhuma parte é mais da humanidade no universo, a meta da vida e aimportante que a outra.“O Tao do céu trabalha natureza do Espírito.misteriosamente e em segredo; ele não tem forma Alquimistas célebres são Paracelso, o pai da farmá-definida; não segue regra fixa; ele é tão grande que cia moderna, Johannes Baptista van Helmont, quejamais chegamos a seu fim; é tão profundo que é demonstrou a existência do gás, Johann Friedrichinsondável”.A Alquimia, que combina filosofia e Böttger, que descobriu, na Europa, a fabricaçãoreligião, psicologia e arte, teoria e prática, visão e da porcelana, e Robert Boyle, que estabeleceu osexperimentação, é única. É uma ciência “holística” fundamentos da química moderna. Fato digno deque abarca ao mesmo tempo corpo, intelecto e es- nota: Isaac Newton freqüentemente mergulhavapírito, considerados como um todo. Os alquimistas nos escritos dos alquimistas.chamam seu trabalho de Opus Magnum, a “GrandeObra” ou “a Obra”, compreendendo o trabalho A VISÃO DA ESCOLA ESPIRITUAL DA ROSACRUZexterno de experimentos em laboratório e o traba-lho interno de auto-aperfeiçoamento.Todas as ex- áurea sobre Alquimia foi apresentada por J. vanperiências no laboratório têm uma dimensão moral Rijckenborgh da seguinte maneira: há duas con-e uma dimensão espiritual. O alquimista aplica o cepções de Alquimia.A primeira, errônea, é que elaprincípio “assim como é em cima, assim é embai- representa a transmutação dos vis metais em ouro;xo, e o que está no exterior é como o que está no a segunda, correta, é que ela representa a transmu-interior”.A transformação da matéria exterior é o tação dos metais espirituais em ouro do Espírito. Esse ouro deve livrar-se de tudo o que é inferior alguns pensamentos sobre o conceito Alquimia 41
para ser sublimado em ouro superior. da alma, exatamente como expõe a simbologia daÉ o verdadeiro objetivo que cada ser humano deve obra alquímica.perseguir. Mas isso ainda nada diz da Alquimia dos Segundo sua própria visão, ele faz um apanhadorosacruzes. Qual é ela? Trata-se evidentemente da e dá uma explicação das correspondências entre arejeição de qualquer impureza.Vivemos na esfera quí- alquimia do buscador da “pedra filosofal” e a domica do mundo material e chegamos ao nível mais buscador da “idéia-Cristo” µbaixo, à maior materialização. Este mundo é consti-tuído de elementos, forças, minerais e metais. Mas eleé trespassado por uma essência espiritual: a força deCristo.A ação dessa essência espiritual é impulsionar semdescanso a evolução da vida para restabelecer o mun-do material em sua pureza original.Todas as escolasde mistérios colaboram nessa obra de Cristo.Atrásde cada processo de despedaçamento e de renova-ção está a Ordem da Rosacruz, que age em todos osplanos. Essa é a Alquimia, a Alquimia da Rosacruz. Elainfluencia todos os domínios da Ciência, da Arte e daReligião.Trata-se para ela da renovação da humanidade: aliberação do ouro do Espírito.A atividade alquímicada Rosacruz opera como um remédio para a cura detoda a humanidade.uma sinopse sobre alquimia não está com- Fontespleta sem uma referência a Carl Gustav Jung, que Haage, Bernard Dietrich. Alchemie im Mittelalter, Ideen und Bilder vonse interessava por ela no plano psicológico. Para Zosimos bis Paracelsus, Düsseldorf:Artemis und Winkler, 1996.ele, as idéias alquímicas inovadoras provavam ser Marshall, Peter. The Philosopher’s Stone, Macmillan, 2001.de grande importância para a Filosofia e para a Rijckenborgh, J. van. O Confessio da Fraternidade da Rosacruz. São Paulo:Psicologia. Duas de suas obras surgiram em Zuri- Lectorium Roscicrucianum, 1987. Muitos outros livros deste autor tra-que sob o título Psicologia e Alquimia, em 1944, e tam sobre o tema Alquimia.Mysterium Coniuncionis, em 2 volumes, em 1956. Schütt, Han Werner. Auf der suche nach der stein der Weisen, Die GeschichteEssas duas obras têm por objeto a separação e a der Alchemie. Munique: C.H. Beck, 2000.união dos contrários no plano do inconsciente ou42 pentagrama 2/2009
a lei amorosaDeterminadas energias moldam nosso campo de vida e nosso campo de consciênciacoletivos.A que forças nós reagimos? Somos impulsionados ao longo da vida pornossa herança genética? Ou somos capazes de mudar essa influência de maneirafundamental e estrutural? Para isso é necessário sondar a característica do carma,a força de Nêmesis.carma-NÊmesisOhomem do século 21 está acostumado de um imenso assombro misturado a uma grande com o pensamento de que radiações e modéstia. campos eletromagnéticos penetram e Por fim, descobrimos que estamos no planetadirigem a vida. Conhecemos a luz visível, os raios de uma pequena estrela na periferia de uma dasultravioleta, as ondas de rádio, as radiações térmicas, milhares de galáxias de um universo consideradoas microondas, os raios X etc. Conhecemos tam aparentemente “vazio”.bém o campo magnético terrestre, os campos eletromagnéticos, os campos etéricos, astral TeMOS A CONSCIÊNCIA DE UM MOSQUI-e mental, os campos morfogenéticos, o campo do Akasha, a ener TO O homo sapiens gira em torno de sigia do ponto zero. O homem mesmo e, em sua ignorância e orgumoderno tem consciência lho, proclama-se “senhor da criade um número inimagi ção” e comporta-se como tal,nável de redes energéticas governando seus semelhantes,vibrantes que constituem explorando-os, oprimindo-osnosso campo coletivo de e massacrando-os. Então, emvida e de consciência. algum lugar, ressoa a melodiaPara J. van Rijckenborgh de Bach; ou ficamos subjutrata-se do “mar acadêmi gados, reduzidos ao silêncio,co”, ao passo que Buda fala diante de uma pintura deda “grande casa da morte”. Rembrandt, ou cativados pelaTodavia, o universo que perce arte escultural de Miguelângelo,bemos é para nós de uma grandeza ou ainda sob o encantamento dee de uma beleza incríveis. Os sistemasestelares resplandecem e depois desaparecem, bu uma peça de Shakespeare. O homemracos negros engolem as estrelas.A nossas retinas, mostra-se pequeno ou grande, tanto na suatravés dos telescópios, chega a luz de supernovas blimidade como na depravação.que explodiram há milhões de anos, pulsares (estre Uma compreensão crescente nos ensina que enorlas de nêutrons) giram a toda velocidade ao redor mes concentrações de forças operam sobre e emde seu eixo, quasares (núcleos galácticos com um nosso campo de vida, onde, de tempos em tempos,buraco negro superdenso ativo no centro) mostram fortes tensões se acumulam, onde violentas erupçõesa luminosidade de milhões de sóis, e há galáxias de uma energia irreprimível fazem desaparecer conque viajam em direção umas das outras.Tudo isso tinentes e civilizações, e em seguida emergir outros.nos causa vertigem.A primeira lição a aprender é Assim ocorre uma evolução de formas vitais, da qual participamos, enquanto os ciclos e as eras se suce dem, causando a mudança de nossa consciência. a lei amorosa 43
O objetivo de uma escola espiritual é: que o ser huma-no reconheça sua origem, mude fundamental e estru-turalmente, transforme-se, e então transfigure-se.Ora, é nossa consciência que determina de qual que há leis que regulam e mantêm o todo, comocampo de vida tomamos parte e como. Se um mos a lei do carma: o destino, a sorte, a fatalidade cega,quito não tem acesso às idéias de Espinosa, menos Nêmesis. De fato, a deusa Nêmesis, representadaacesso ainda temos nós às dimensões e aos campos com os olhos vendados, é a lei da justiça rigorosa.de vida que escapam aos nossos poderes sensoriais.A Quanto a nós, estudamos apenas as conseqüênciasconsciência e a percepção sensorial determinam-se da lei. E nossas células cerebrais apenas compreenmutuamente. dem vagamente que fazemos parte de um imensoE nossos sentidos são extremamente limitados.Ape complexo que nos domina; e talvez tenha mesmonas uma fração da realidade penetra nosso cérebro sido feita uma “aliança” conosco. Deve haver, dopelas minúsculas aberturas de nossos sentidos. E mesmo modo, uma inteligência superior escondidafalta-nos ainda interpretar essas vagas imagens. Os atrás de tudo isso? E tateamos no escuro durantepássaros vêem cores que não vemos, como o ultra as poucas dezenas de nossa vida para descobrir ovioleta, por exemplo. E nossos outros quatro senti plano e o objetivo.dos são extremamente rudimentares.As borboletas Havia certo espírito que, nos séculos precedentes,sentem a presença umas das outras a quilômetros, deve ter se extinguido nos cérebros dos cientistasas serpentes podem ver o calor, o canto da baleia é dos filósofos: eles foram pesquisadores da matéria eouvido por outras a cem quilômetros. Os pássaros de suas leis naturais e reduziram tudo ao materiasabem navegar no campo magnético da terra; os lismo e mesmo ao fatalismo. O fatalismo é a crençamorcegos voam nas cavernas sombrias por meio de no destino, no mecanismo que, finalmente, deterultra-sons. mina a vida.“Deus é uma hipótese da qual não tenho nenhuma necessidade”, disse Laplace. EmUMA GRANDE COESÃO Não podemos imaginar seguida, Descartes e Bacon puseram-se a estudarnossa galáxia com suas trezentas bilhões de estrelas as leis da chamada matéria “morta”, despida donem saber como parece um próton ou um quark. espírito, e aplicaram-nas sob a forma de técnicasNosso cérebro não é feito para contemplar e com para reinar sobre a criação. Nossas universidadespreender toda a realidade. e escolas, depois de três séculos, funcionam comoEstamos dependurados numa teia de aranha presa templos onde oficiam os grandes pais do materiaa um turbilhão de flutuações e pulsações ultra-rá lismo ateu.pidas, uma rede na qual não vemos nenhum pontode junção, nenhum intermediário. O que percebe reviravolta na visão do mundo Mas o relómos são as leis de sobrevivência da vida, as leis de gio dos anos siderais gira inexoravelmente, e H. P.evolução de um ser unicelular até seres de centenas Blavatsky abriu ao mundo ocidental uma janelade milhões de células chamados seres humanos. completamente nova.Progressivamente terminamos por compreender Então, as teorias da relatividade e da mecânica44 pentagrama 2/2009
quântica reverteram completamente a imagem hemisférios cerebrais.A vida que se seguirá é assimmecanicista do mundo. O interesse pelas filosofias claramente determinada.orientais fez surgir conceitos diferentes da causalidade. C.G. Jung revelou o fenômeno da sincronici GenÓTIPO e fenÓtIpO Finalmente, com basedade, e os tempos estavam maduros para um novo na divisão dos cromossomos no dna, o carma dosimpulso espiritual. Como pioneiros de uma nova pais imprime sua marca: um arsenal hereditárioera, Rudolf Steiner, Max Heindel e outros abriram de aproximadamente 24.000 genes.A predisponossos olhos. Surgiram para a consciência novas sição genética do recém-nascido, seu genótipo, épossibilidades bem como a idéia de um universo o produto do carma do mundo, do carma de seuparalelo, e passamos a considerar as leis da reencar povo, de sua família, mais especialmente de seusnação e do carma. pais, e finalmente, porém o mais importante, da história particular do microcosmo que servirá deFoi então que os irmãos Leene redescobriram a morada ao recém-nascido.As características cósmiRosacruz, seus eminentes Manifestos, e adotaram cas ou astrológicas, bem como as raciais, regionais,as convicções dos maniqueus, dos cátaros, dos familiares, parentais, são agrupadas nessa rede únicagnósticos e do hermetismo: o imemorável ensi e muito particular do ser que encarna – via lípica,namento universal. Esses enviados surgiram como dna e santuário da cabeça.arautos da nova era; um terceiro enviado juntou-se Um exame do horóscopo natal e do genótipoa eles e, juntos, desvelaram o ensinamento liberta talvez mostre semelhanças surpreendentes, pois ador da transfiguração, ao criar um poderoso órgão constelação cármica está ancorada nos genes.iniciático: a Escola Espiritual da Rosacruz Áurea. Podemos perguntar se os genes são o produto dosSeu campo de irradiação muito particular, seu pais, porque, como pode o genótipo resultantecorpo-vivo, pode ser comparado a um fio arre estar de acordo com o céu aural, que é produtomessado ao “mar acadêmico”, um tipo de fina rede do microcosmo? Isso demonstra a estreita interdeviva e vibrante para pescar todos que podem ainda pendência de tudo que está sob o sistema dialétireagir, pois há apenas um único órgão receptível co-cármico. O destino pessoal está intimamenteaos sinais sutilíssimos dessa rede de vida nova: o interligado com o dos pais, da família, do povo, daátomo original do coração. raça, da humanidade, e claro, do microcosmo.A primeira reação consiste em se ligar a essa rede Devido à grande inconsciência geral da humanisutil. Então segue-se o processo de libertar-se deste dade, não há senão uma pequena manifestação domundo, de nosso carma e de Nêmesis, a fim de que denominamos “livre-arbítrio”. Essa liberdadeconseguir acesso ao reino “que não é deste mun é apenas uma ilusão. Decorre daí que são as leisdo”. Mas como opera o carma e como nos desven cármicas, os senhores do destino, que regem estricilhamos dele? tamente as encarnações e escolhem os pais. EstesSabemos que o carma é a soma de toda a herança deverão transmitir seu próprio destino às entidadesdas vidas passadas no microcosmo. No oceano da que nascerão deles para aprender as lições da vidavida, o destino da humanidade inteira imprime-se a fim de poder eventualmente proceder a umana rede individual de cada microcosmo.As cons mudança fundamental. Pais e filhos deverão, cadatelações do passado influenciam o microcosmo, um por sua vez, aprender essas lições e perdoar-sedepois, no santuário da cabeça, o cérebro.A cor mutuamente as faltas. Essa tarefa é impressa nasrente cármica aflui pelo fogo serpentino na coluna moléculas de dna e nos genes aí presentes. Umavertebral do embrião em crescimento e se religa ordem sábia mantém tudo isso em equilíbrio eao seu plano de desenvolvimento em seus dois detalhe algum, por menor que seja, é negligencia a lei amorosa 45
cármica não deve absolutamente desviar-se, Car ma-Nêmesis, após uma intervenção material, talvez deva mudar o curso de desenvolvimento provocan do doenças ou grandes sofrimentos.do. Carma-Nêmesis é de uma retidão absoluta, sem a balança de carma-nêmesis A lei de Carma-distinção de pessoa. Nêmesis não se deixa manipular, e é por isso queOs biólogos acham difícil considerar tais deter devemos considerá-la inexorável. Mas voltemosminações genéticas. Eles vêem as anormalidades ao assunto. Observamos com freqüência que asgenéticas, compreendem as mutações e doenças, doenças ou as características hereditárias reprimidase tentam ajudar a humanidade por meio de ma se manifestam às vezes mediante um desvio comonipulações genéticas. Esforços louváveis! Porém… novas doenças e desordens hereditárias. É umacomo somente têm olhos para os aspectos mate corrida entre Carma-Nêmesis e a ciência, na qualriais e as deficiências aparentes dos tecidos, eles não os médicos e os biólogos, após certas descobertas,consideram a constituição propriamente dita. Por eventualmente se precipitam para observar novosisso, com freqüência tiram conclusões falsas, amea fatos e novas doenças.çando, assim, intervir na estrutura fundamental da Assim a humanidade contrai cada vez mais doençascriação com todas as conseqüências. Não se dão porque não compreende o curso de Carma-Nêconta que, ao intervir na matéria, atentam contra mesis, que ela não espera que lhe batamos à porta,sua estrutura subjacente etérico-astral. e que a porta se fecha de modo cada vez mais herE como, de um modo ou de outro, a determinação mético. E é assim que somos levados a ver Nêmesis como a deusa impiedosa da justiça vingativa da mitologia grega.A deusa dupla, Carma-Nêmesis, é também a terrível retidão que pune a injustiça e, como a Justiça, a balança cármica que retifica e mantém sempre o equilíbrio: tudo que o homem semeia, ele colhe, tanto o bem quanto o mal. Pensamos assim: a sorte, o destino, está em nossos genes e, portanto, determina inelutavelmente nosso genótipo, sejamos quem formos e o que formos. Mas isso não é nada. um número infinito de variações Nosso ge nótipo não é um painel de controle que determina46 pentagram 6/2008
toda a nossa vida.Ainda que nossos genes tenham te interior, sua revolução pessoal no sentido maisapenas duas possibilidades de ação (eles podem absoluto do termo, algo que ultrapassa muito oestar “abertos” ou “fechados”), sua ação pode variar problema de uma diminuição da emissão de CO2.de forma infinita. Eles também podem agir uns Trata-se primeiro do que os próprios homens emisobre os outros. tem, e em seguida apenas de equipar os carros comO que resultará disso? Que modelo dominará? De um filtro ou outro dispositivo.que qualidade será finalmente a vida dependerá de É bom que se tome medidas externas, mas elasfatores muito numerosos. O genótipo é a predis não afastam a escuridão fundamental. Mas esse éposição que conduz em determinada direção.A precisamente o objetivo de uma escola espiritual:maneira pela qual o homem finalmente se mani dissipar as trevas emissoras de ciúme, ódio, malfestará é o “fenótipo”. Devemos observar a seguin dade, inveja e medo para propagar em seu lugar ate fórmula: fenótipo = genótipo + ambiente. O esperança, o amor e a luz. Em outras palavras: o serambiente compreende, no sentido de espaço, humano deve reconhecer sua verdadeira origem,todas as influências do exterior como educação, mudar fundamental e estruturalmente, tranformar-meio social, poluição atmosférica bem como se, e então transfigurar-se.numerosas experiências; não menos importantessão as influências interiores como a alegria, a dor, A EXISTÊNCIA HUMANA COMO POSSIBILIDADEo otimismo ou o pessimismo, a coragem ou odesespero, em resumo, todas as reações que não são Certas influências são capazes de mudar completapuramente bioquímicas ou elétricas. mente as células cerebrais e suas relações.Trata-seSurge aqui a influência do espírito humano e, para da “neuroplasticidade”. Sem falar da possibilidadeo aluno do Lectorium Rosicrucianum, a atividade de o Espírito ingressar em nosso sistema!do átomo-centelha-do-espírito. Uma realidade Tudo isso explica que o homem que busca asublime: a força de Cristo toca o aluno no coração verdade, que aceita a grande missão de seu genócom o poder de criar um novo estado de vida, um tipo pessoal e cumpre seu destino dá prova de umnovo fenótipo que transcende, de muito longe, fenótipo que representa verdadeiramente um novoas predisposições genéticas.Voltemo-nos ao que estado de vida.chamamos “o meio”, o ambiente. Sabemos que Ele começará por assumir plenamente e de todoesse é um problema espinhoso e que muitos se coração seu carma e seu genótipo, por mais duropreocupam com o ambiente. O ambiente mundial que seja seu destino. Mediante a Gnose e nela, aé uma projeção externa dos problemas internos alma-espírito que se desenvolve no aluno permite-do ser humano: a poluição do ser aural e mental e lhe transcender totalmente seu pesado fardo cármiseu aprisionamento astral. O rosacruz pensa que o co, as forças da lípica (o ser aural) e sua ligação comambiente diz respeito antes de tudo a seu ambien todo seu arsenal genético. Portanto: primeiro tudo aceitar, depois tudo superar, tudo sublimar! het liefdevolle lot 47
A doença pode, portanto, ser um instrumento namento das duas ordens de natureza, que parecemaravilhoso para liberar os buscadores das leis difícil de associar com “a unidade de tudo quede Carma-Nêmesis, desde que eles observem as existe”, princípio sobre o qual insistimos. Mas porexigências do novo campo de vida. É interessante que é uma dificuldade se nos baseamos no fato delembrar que a deusa Nêmesis tem os olhos ven que o plano divino prevê que a todo desvio jamaisdados para julgar de modo absolutamente justo e falte a sustentação do amor divino? Após um temimparcial, independente de preferências e aversões po indizivelmente longo, tudo pode novamentepessoais. Não há justiça vingadora, mas uma reti voltar à unidade. Por essa razão declaramos que adão, uma bondade e uma verdade que emanam do lei de Carma-Nêmesis é inexorável, ou que, paraamor divino. o “Tao”, os homens são apenas “cães de palha”. OAgora compreendemos que o amor infinito de amor divino atua de modo a que os seres humanosDeus guarda e engloba a natureza da morte inteira, devam inelutavelmente sofrer as conseqüências deo “mar acadêmico”, o “oceano do sofrimento”, e seus atos.Não há justiça vingadora, mas uma retidão, umabondade e uma verdade que emanam do amor divinoinclui a rede do destino e a lei de Carma-Nêmesis. O amor e a justiça que, com os olhos vendados,O reino original não está distante, mas aqui e ago com toda objetividade, prevêem que os homensra, o reino de Deus está dentro de nós. recebam o que chamaram para si, sabendo queAh, pensarão alguns, mas então estou dentro desse todas as suas experiências terminarão por levá-los àoutro reino! Completo engano, pois em primei unidade divina.ro lugar é necessário que nós, ou melhor, que o É por isso que carregamos nosso carma e o mihomem primordial em nós emerja do oceano do crocosmo reencarna. Carregamos o plano de nossasofrimento. É preciso primeiro reconhecer verda missão nesta vida em nossos genes. O genótipo édeiramente que a contranatureza na qual vivemos como um instrumento musical que devemos tocar.é exatamente a “natureza da morte” para admitir, Embora as melodias ou dissonâncias que serão procomo o filho pródigo:“Como a comida dos por duzidas estejam ainda indeterminadas, se uma almacos, mas levantar-me-ei e irei ter com meu Pai”. nova pode fazer que os sons desse maravilhoso insÉ impossível fazer essa declaração se não tivermos trumento sejam compreendidos, as predisposições evivenciado que esta natureza é a casa da morte, as leis cármicas serão completamente dissolvidas.pois então manteremos o estado da realidade apa Esse declinar do homem-personalidade permite arente de nosso naufrágio no oceano do sofrimento. elevação do homem-alma vivente: o ser primordialA verdade é que a pessoa não-desperta sofre mais que “era, e que há de vir”, na unidade original µpor não aceitar perder-se em algo infinitamentesuperior.O HOMEM-ALMA Discutimos se a filosofia doLectorium Rosicrucianum está fundamentada nodualismo ou no monismo. O dualismo é o ensi48 pentagram 6/2008
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