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Livro 8 ano - Coleção FIM

Published by tobiasneuhaus, 2022-02-01 03:50:17

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EDUCAR PARA O PENSAR AprendendoAprendendo a Viver a ViverJuntos Investigação sobre Juntosética, política e estética. Silvio Wonsovicz 88ºº18ª Edição Doutor em Filosofia e História da Edu- ano cação pela UNICAMP Campinas/SP Mestre em Antropologia Filosófica – PUC de Porto Alegre/RS Graduações em Filosofia e Letras Presidente do Centro de Educação para o Pensar e da Ed. Sophos Conteúdos Digitais Florianópolis, 2019.

COLEÇÃO FILOSOFIA O INÍCIO DE UMA MUDANÇA Copyright © 1998, by Editora Sophos Ltda. Editora Sophos Rua Cristóvão Nunes Pires, 161 / Centro 88010-120 / Florianópolis / SC Fone: (48) 3222.8826 e 3025.2909 www.editorasophos.com.br E-mail: [email protected] Filiada ao Sindicato Nacional dos Editores de Livros – SNEL Catalogação na publicação por: Onélia Silva Guimarães CRB - 14/071 W872m Wonsovicz, Silvio Aprendendo a Viver Juntos / Silvio Wonsovicz - 18. ed. - Florianópolis: Sophos, 2019. 96 p.: il. - (Coleção Filosofia, O Início de uma Mudança: 8º ano) ISBN Coleção: 978-85-8037-049-2 ISBN Livro: 978-85-8037-057-7 1.Filosofia – Estudo e Ensino. 2. Ensino Fundamental I. 2.Ensino, Aprendizagem – Metodologia. 4. Pensamento filosófico e criativo. 5. Programa Educar para o Pensar I. Título. CDU: 1:37 FICHA TÉCNICA Editor Silvio Wonsovicz Revisão Contextuar Ilustração Rose Gaiewski FK Estúdio Capa FK Estúdio Projeto Gráfico FK Estúdio Diagramação COLEÇÃO FILOSOFIA O INÍCIO DE UMA MUDANÇA 1º ano O Meu Quintal 18ª edição 2º ano Minha História no Quintal 18ª edição 3º ano A Pequena Grande Marília 18ª edição 4º ano Uma Ideia Puxa Outra... 18ª edição 5º ano Os 422 Soldadinhos de Chumbo do Senhor General 18ª edição 6º ano O Desafio do Pensar sobre o Pensar 18ª edição 7º ano Pensar Lógica+mente 18ª edição 8º ano Aprendendo a Viver Juntos 18ª edição 9º ano Somos Filhos da Pólis 18ª edição CENTRO DE EDUCAÇÃO 2019 PARA O PENSAR Depósito legal na Biblioteca Nacional conforme Decreto nº 1.825, de 20 de dezembro de 1907. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônicos ou mecânico, incluindo fotocópias e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora.

PLATAFORMA DO PENSAR Aprendendo a Viver Juntos Seu livro digital em: www.editorasophos.com.br/pensar Ao participar do Programa Educar para o Pensar e estudar com a Coleção O Início de uma Mudança, você recebe uma CHAVE para acessar o livro digital do 8º ano, com mais conteú- dos e mídias digitais. No seu espaço virtual, o convite é para assistir a vídeos, pesquisar, participar de videoau- las - o capítulo 1 será com o autor do livro e o capítulo 5 será com o assessor para sua escola. Na Plataforma, interações com os colegas e o professor por meio de atividades, avaliações, pesquisas, avisos, fóruns... Tudo pensado para a sua aprendizagem, para o seu entendimento e desafios às ações como protagonistas. O seu livro possui conteúdos digitais. Por isso, sempre que aparecer um QR Code, coloque seu celular ou tablet para ler ou acesse no endereço da plataforma. Faça bom uso dos conteúdos digitais no seu livro e na PLATAFORMA DO PENSAR. Dúvidas? Procure-nos! Assessoria Pedagógica Ed. Sophos e Centro de Ed. Para o Pensar [email protected]

Você tem em mãos um livro que faz parte da Coleção cocmoPmPeaaeçrrçoaao ddee O Início de uma Mudança. Este livro pertence à série coconnvveerrssaa “Investigação sobre…”, e investigação significa: Do latim, investigare, refere-se à ação de seguir os ves- tígios de algo ou alguém. Referindo-se à realização de ati- vidades intelectuais e experimentais de modo sistemático (= pesquisa), com o objetivo de ampliar os conhecimentos sobre determinado assunto. Uma investigação é a procura de conhecimentos ou de soluções para certos problemas. Uma investigação científica é todo um processo sistemá- tico, organizado e objetivo. As atividades realizadas em um processo investigativo incluem: a análise de fenômenos, a comparação dos resultados obtidos e a interpretação dos mesmos em função dos conhecimentos atuais. Há dois tipos de investigação: a investigação básica (pura ou fundamental), que costuma ocorrer em laborató- rios com a ampliação do conhecimento científico graças à criação ou modificação de teorias. A investigação aplicada, que consiste na utilização dos conhecimentos na prática. Também existem as investigações conhecidas como mul- tidisciplinar, transdisciplinar e interdisciplinar, nas quais várias áreas do conhecimento são utilizadas. O Início de uma Mudança A Coleção, que vai da Educação Infantil ao Ensino Médio, foi organizada e pensada para alunos e professores terem pistas investigativas, caminhos norteadores, entendimentos básicos e funda- mentais dos assuntos propostos, apresenta: investigação sobre o Conhecimento; investigação sobre a Lógica e a Linguagem; investigação sobre a Ética; investigação sobre a Política e a Estética. A intenção é apresentar caminhos para você e sua turma, em Comunidade de Aprendizagem Investigativa - COM.A.I., elaborem, a partir das ideias colocadas, um entendimento do mundo, do outro e de si mesmo, sempre com argumentos justificados (interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar). Bem como conhecerem pensadores que, com suas reflexões, ajudaram a desen- volver e ampliar a capacidade reflexiva diante dos temas que acompanham a humanidade.

Os caminhos do investigar e construir entendimentos estão abertos. Aprendendo a Viver Juntos Oferecemos um início com esta coleção, a partir do seu interesse e da sua turma por pesquisas, pelas discussões e pelos aprofundamentos, a conti- nuarem a investigação sobre o bem e bom pensar. No livro do 8º ano – Aprendendo a Viver Juntos –, a partir da inves- tigações sobre ética, política e estética, você perceberá que nem todos os meios são justificáveis, apenas aqueles que estão de acordo com os fins da própria ação. Sendo assim, fins éticos exigem meios éticos. E isso pressu- põe que a pessoa moral precisa ser educada para os valores morais e as virtudes. Vamos, no decorrer deste ano e do próximo, investigar alguns cami- nhos percorridos dentro da ética que têm repercussões políticas e estéticas. Iniciaremos examinando o desenvolvimento de ideias éticas na Filosofia e em sociedade. Portanto, olhos e mentes abertas, pois vamos questionar e aprofundar entendimentos, junto com algumas posições de pensadores, para encontrarmos, quem sabe, outras respostas para a realidade e o tem- po em que vivemos. Afinal, investigar, buscar e querer ser feliz, vivendo bem na sociedade e no tempo em que estamos, é aspiração de todos. Ao iniciar essa caminhada nas reflexões éticas, políticas e estéticas, um grande desejo: que você, junto com a sua turma de sala de aula, formando uma Comunidade de Aprendizagem Inves- tigativa - COM.A.I., realize bons trabalhos, com um grande senso de investigação, pesquisa, espírito de busca, discussão e aplicação na vida. Ótimos estudos! O autor Você pode enviar notícias e se comunicar com o autor.

Nosso livro foi pensado em 7 capítulos, sendo que o último eennPtPteaannrradadeerr capítulo inicia aqui e termina na Plataforma do Pensar em oosseeuu lliivvrroo www.editorasophos.com.br/pensar. Veja, a seguir, a organi- zação dos capítulos do seu livro. Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. Em todos os 7 capítulos, temos um texto motivacional que tem ligação com o conteúdo e serve como primeiro momento de reflexão nas aulas do Educar para o Pensar. Ampliação dos entendimentos É a parte teórica do capítulo. O assunto principal sendo apre- sentado e colocado de maneira bem didática. BÔNUS especial para você, aluno e professor(a): o capítulo 1 tem videoaula com o autor do livro. O capítulo 5, videoaula com o assessor da Editora para sua escola e seu professor. Para saber e refletir na COM.A.I. Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. Com objetivo de ampliar os entendimen- Aqui é o momento de registar as ativida- tos e despertar curiosidades, é um convite des individuais e coletivas para a fixação e para que você saiba mais e reflita sobre o ampliação dos entendimentos em COM.A.I. tema do capítulo. O Início de uma Mudança Pensar como PROTAGONISTAS Pensar “fora da caixa” e deixar marcas Sempre que aparecer esta chamada é para você e sua turma saberem que é uma ativi- Aqui, o encontro com pensadores que ti- dade em grupo, na qual cada um é chamado veram a coragem de pensar muito além do a ser autor de ideias e ações. seu tempo e deixaram marcas. Para ler e saber mais O convite para você, pelo celu- lar ou tablet, acessar, via QR Code, Um resumo de livro de quem pensou “fora os conteúdos disponibilizados (ví- da caixa” e deixou marcas. Um convite para deos, textos, conteúdos multimídia) você ler ou saber mais sobre as obras escritas. na Plataforma do Pensar. Comunidade de Aprendizagem Investigativa – COM.A.I. É nossa intenção transformar a sala de aula, em todas as disci- plinas, em uma comunidade que aprende e investiga. Saiba mais na Plataforma do Pensar.

SSuummáárriioo 01 Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. 10 Lição de Sabedoria 13 A IMPORTÂNCIA DA Ampliação dos entendimentos 14 EDUCAÇÃO ÉTICA NOS Inquietações éticas 15 DIAS ATUAIS Sobre os valores universais 16 A importância dos valores considerados universais 18 02 Para saber e refletir na COM.A.I. 19 Declaração do Parlamento das Religiões do Mundo 21 HÁBITOS, COSTUMES, Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. REGRAS, NORMAS − Pensar como PROTAGONISTAS 24 BEM E MAL Só mudo o mundo se eu me conhecer 27 Pensar “fora da caixa” e deixar marcas. 29 Sócrates –“O Perguntador” 32 33 Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. 34 Os macacos e as bananas Ampliação dos entendimentos 37 O que isso tudo tem a ver com a Moral e a Ética? 39 Para saber e refletir na COM.A.I. 40 Sobre o bem e o mal 41 Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. 43 Pensar como PROTAGONISTAS 43 Construção de uma comunidade 45 Pensar “fora da caixa” e deixar marcas Platão – “A visão do outro” 03 Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. Aprendendo a Viver Juntos O pote e o furo LIBERDADE DE Ampliação dos entendimentos Podemos escolher viver situações? AÇÃO E DECISÃO Escolha feita implica uma responsabilidade Para saber e refletir na COM.A.I. As três peneiras Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. Pensar como PROTAGONISTAS Jogo da NASA Pensar “fora da caixa” e deixar marcas Aristóteles – “A felicidade (eudaimonia) como busca”

04 Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. - O discípulo honesto 48 Ampliação dos entendimentos 50 FUNDAMENTOS DO Pensadores e suas reflexões sobre a Ética 52 MODO DE SER (ETHOS) A ética e a análise metafísica como seu fundamento 53 COMO FORMA DE Para saber e refletir na COM.A.I. 54 VIDA CONQUISTADA Alguns ideais éticos ao longo da História 55 Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. 56 05 Pensar como PROTAGONISTAS - A maleta Pensar “fora da caixa” e deixar marcas COMPORTAMENTO Kant - “Moral do dever e imposição de normas a si mesmo” HUMANO E CONVIVÊNCIA Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. - Amizade, amor, generosidade 59 SOCIAL Ampliação dos entendimentos. 06 Comportamento moral e religião 62 NÓS SOMOS Comportamento moral e política 63 RESPONSÁVEIS POR NOSSAS AÇÕES? Comportamento moral e convivência social 64 07 Comportamento moral para quê? 65 SER FELIZ OU POR UMA Para saber e refletir na COM.A.I. ÉTICA E UMA ESTÉTICA EMANCIPATÓRIAS Comportamento moral = conhecimento e liberdade 66 Conteúdo Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. 68 disponível na PLATAFORMA Pensar como PROTAGONISTAS – Dificuldades nas escolhas 69 DO PENSAR! Pensar “fora da caixa” e deixar marcas Sartre – “A angústia da liberdade” 70 Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. – O rouxinol e o caçador 72 Ampliação dos entendimentos 73 A ignorância e a responsabilidade moral 74 A questão da força externa e a responsabilidade moral 75 As forças internas e a responsabilidade moral 75 As três posturas e a responsabilidade moral 78 Para saber e refletir na COM.A.I. 79 Livre-arbítrio na literatura 80 Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. 80 Pensar como PROTAGONISTAS – O caso das laranjas Ugli Pensar “fora da caixa” e deixar marcas Rousseau – “A liberdade como valor supremo” Pensar, discutir e produzir na COM.A.I. – O gigante e as crianças 83 O Início de uma Mudança Ampliação dos entendimentos A ética no Período Moderno A ética no Período Contemporâneo A ética Hoje A cidadania e a sociedade tecnológica Para saber e refletir na COM.A.I. A ética, a estética e a emancipação humana Reflexões e ações interdisciplinares na COM.A.I. Pensar como PROTAGONISTAS Emancipação pelos valores – Axiologia Pensar “fora da caixa” e deixar marcas Theodor Ludwig Wiesengrund Adorno – “A tarefa atual da arte é introduzir o caos na ordem” AVALIAÇÕES - FORMATIVA E REFLEXIVA - 8º ANO 85

A importância da Educação Ética nos dias atuais 01

O Início de uma Mudança10 ddPiPisseeccnnuuststaiairrrr,e,e pprordoudzuirznira CCOOMM.A.A.I..I. Comunidade de Aprendizagem Investigativa LIÇÃO DE SABEDORIA Um cientista, muito preocupado com os problemas do mundo, passava dias em seu laboratório, tentando encontrar meios de minorá-los. Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário decidido a ajudá-lo. O cientista, nervo- so pela interrupção, tentou fazer o filho brincar em outro lugar. Percebendo que seria impossível removê-lo, procurou algo que pudesse distrair a criança. De repente, deparou-se com o mapa do mundo. Estava ali o que procurava. Recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou ao filho, dizendo: − Você gosta de quebra-cabeça? Então, vou lhe dar o mundo para consertar. Pegue os seus pedaços, está todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho! Você irá fazer tudo sozinho! Pelos seus cálculos, seu filho levaria dias para recompor o mapa-múndi. Após algumas horas, ouviu o filho chamando-o calmamente. Em princípio, o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível, na sua idade, conse- guir recompor um mapa que jamais havia visto. Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança. Com muita surpresa, viu o mapa completo. Os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares. Ficou perguntando-se: como seria possível? Como seu filho havia sido capaz? − Você não sabia como era o mundo, meu filho, como conseguiu? − Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que, do outro lado, havia a figura de um homem. Quando você me deu o mundo para con- sertar, eu tentei, mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem, pois este eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo. Autor desconhecido

11 A partir do título “A importância de uma Educação Ética hoje”, com a história “Lição de sabe- doria”, escreva algumas ideias que você defende sobre a importância de uma aprendizagem ética para vivermos em um mundo mais fraterno. AAmmdppoolliissaaççããoo Com os avanços sociais, tecnológicos e eenntteennddiimmeennttooss econômicos, enfrentamos cada vez mais si- tuações nas quais é preciso tomar decisões e Aula com o autor do livro planejar ações, tanto individualmente como em comunidade. Por isso, o ponto central da Assista utilizando o leitor de código aprendizagem e vivência ética está em ter QR em seu celular ou conectan- consciência e responsabilidade, condições in- do-se na Plataforma do Pensar. dispensáveis para uma vida ética. É fundamental que, na escola, haja espaço Aprendendo a Viver Juntos para a aprendizagem e para um viver como cidadão. Por isso, a afirmação e a defesa do Estado brasileiro sobre a importância de uma Educação Ética desde a infância: “Aprender a ser cidadão é, entre ou- tras coisas, aprender a agir com res- peito, solidariedade, responsabilida- de, justiça, não violência; aprender a usar o diálogo nas mais diferentes situações e comprome- ter-se com o que acontece na vida coletiva da comunidade e do país. Es- ses valores e essas atitudes precisam ser aprendidos e desenvolvidos pelos alunos e, portanto, podem e devem ser ensinados na escola. ” Secretaria de Educação Fundamental. Ética e cidadania no convívio escolar. Brasília, 2001, p.13 Leia na página 96 as Competências Gerais da Educação Básica, extraído do documento BNCC.

O Início de uma Mudança12 É forte e muito difundida a afirmação de que a ética é hoje a arte da convivência. Isso deve-se a muitos fatores, inclusive o de que cada vez mais princípios e objetivos fixos estão em falta no mundo. Não há respostas prontas para as grandes questões, nem certezas que sustentem o viver de todos. Nada que seja capaz de explicar e justificar as angústias, as injustiças, as carências e as frustrações do tempo presente. São cada vez maiores as perguntas e não temos mais garantias. Esse é o mundo em que vive- mos hoje – um tempo de incertezas. A ética das sociedades tradicionais é vista como um código de rigidez, um repertório de valores normativos, deveres e prescrições. Essa ética não dá voz, muitas vezes, às aspirações de cresci- mento, mudanças e compreensão do tempo atual. Em toda a existência humana, nunca se foi tão longe no universo em termos de distância. Al- cançamos Júpiter, Marte, e conhecemos também as partículas subatômicas. Sem deixar de pen- sar na velocidade com que se ampliam os conhecimentos, até onde devemos ir? Onde devemos chegar? Vamos cada vez mais viver a ousadia? Ou seria melhor voltar para a tradição? Hoje, são polêmicos os assuntos que, na juventude dos nossos pais, eram vistos como ficção ou considerados tabus em discussões éticas. Muitas vezes, os assuntos eram abafados, pois havia um código de rigidez, de valores normativos. Estão na ordem do dia as discussões e investigações sobre temas que envolvem questões éticas, tais como: globalização, clonagem, mudança de sexo, transplantes, mutações genéti- cas, gestações in vitro, banco de espermas, armas químicas, armas biológicas, drogas (LSD, ecstasy, crack etc.), des- truição da natureza, alimentos transgênicos, eutanásia... Por meio desses assuntos e também de outros igualmente polêmicos, os nossos entendimen- tos, e com eles a nossa capacidade de escolha e ação, são constantemente desafiados. O grande avanço que nos diferencia das ge- rações anteriores e da natureza é a oportunidade de reflexão. No tempo dos nossos pais, com a idade que temos hoje e no 8º ano, esses assuntos não podiam ser ou não eram discutidos nas escolas. Somente pela re- flexão e aprendizagem ética é que conseguiremos realizar um mundo melhor (= ético, político e estético). Uma Educação Ética desde a Educação Infantil, sob diver- sas formas, precisa refletir sempre sobre as possibilidades e ações para um mundo melhor. Essa é a proposta desta Coleção e do Programa Educar para o Pensar. Fazer um contraponto a um mundo onde a indiferença, o cinismo, o ceticismo, o “levar vantagem” e o deboche cegam a visão e abrem espaços para o surgimento da discriminação, do bullying, do totalitarismo, de fanatismos, fundamentalismos, partidarismos e xenofobias. A necessidade urgente de termos uma Educação Ética e Crí- tica sistematizada, que você continua no 8º ano, implica em re- fletir: sobre as consequências das escolhas, individuais e coletivas; sobre as condições para uma ética do nosso tempo e aberta aos novos desafios, ne- nhum saber e nenhuma ação podem colocar em risco tudo o que já foi conquistado.

13 INQUIETAÇÕES ÉTICAS Em todas as áreas do saber e fazer há uma inquietação ética. Esse desconforto é visível nas praças públicas, nos mercados, nos sindicatos, nos governos, nos teatros e bares, nas esquinas, nos laboratórios, nas escolas.... Somente a partir da reflexão e de uma Educação Ética é que convive- remos melhor nestes tempos de mudanças rápidas em todas as áreas. Em nossa COM.A.I., principalmente no 8º ano, precisamos: ensinar e aprender a pensar a partir dos valores universais para os particulares; estimular a autoanálise e o autoconhecimento; ser educado para responder aos desafios externos e internos; utilizar o diálogo consigo mesmo e com o outro para estabelecer, de forma vital, a ampliação dos entendimentos e a fortificação dos argumentos. O mundo capitalista leva muitas vezes as pessoas para o individualismo e educa (pelos meios de comunicação, nas relações humanas e sociais) para a ambição e a competição. Ainda apresenta como medida para ser feliz e realizado somente o sucesso econômico e o acúmulo de bens mate- riais (modo de vida consumista). A partir desse modelo ético, tão arraigado na sociedade, os alunos são vistos na escola como adversários em potencial. O resultado desse modelo social em nossa vida diária gera conflitos, desgraças, violência e desigualdades sociais e econômicas, deixando milhares de pessoas à mar- gem da sociedade e do processo evolutivo, formando um enorme exército de excluídos (muitas vezes, por não serem consumidores). Por meio do diálogo e da discussão das ideias, das análises de comportamentos e de critérios de julgamento, principalmente na escola que forma a COM.A.I., é que serão desvendados os me- canismos que atuam em nossa sociedade e os meios para modificá-los. Como? A partir da investi- gação (relembre o que está colocado no “Para começo de conversa” – p. 4). A importância de uma Educação Ética em todos os anos escolares (e de maneira sistemática a partir do 8º ano) implica ligações com uma aprendizagem para a cidadania e requer uma dis- cussão e investigação sobre o que vem a ser os valores universais: verdade, paz, amor, não violên- cia e a ação. Isso pode ser obtido pelo diálogo, fundamento para uma mudança interior e social. Esse é o caminho para a formação de um caráter íntegro, capaz de trazer uma transformação das prioridades e uma nova visão da existência. Des- Aprendendo a Viver Juntos sa forma, poderá surgir uma vivência social mais compatível com o tempo em que vivemos e uma nova condição humana. Veja a história dos direi- Uma Educação Ética, a partir do despertar da tos humanos utilizando o vivência ética e do respeito aos valores humanos, leitor de código QR ou na é, hoje, de importância vital para a sobrevivência Plataforma do Pensar. do mundo e da espécie humana.

O Início de uma Mudança14 SOBRE OS VALORES UNIVERSAIS Os valores universais são os pilares para a convivência entre cidadãos de todo o mundo. Fo- ram apresentados na Declaração Universal dos Direitos Humanos - DUDH, adotados e procla- mados na Assembleia Geral das Nações Unidas, de 10 de dezembro de 1948. Após o término da Segunda Guerra Mundial (1939- 1945), os países começaram a discutir a necessidade de uma Declaração Universal para garantir o direito de igualdade entre os povos sem ir contra a diversidade das muitas culturas espalhadas pelo mundo. Os valores descritos na declaração têm como ob- jetivo principal ajudar no entendimento das dife- renças entre o certo e o errado. Querem, também, alertar para a melhor maneira de agir e conviver bem com as pessoas e culturas diferentes. No primeiro artigo, a Declaração diz que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dig- nidade e direitos”, são “dotados de razão e cons- ciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. Palavras que se tornam cada vez mais fortes e importantes no mundo globalizado, onde reconhecer a igualdade entre os indivíduos, independentemente de cor, raça, religião, condição social ou opção sexual é a base para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e igualitária. Essa é uma atitude que deve começar dentro de cada um. Com a publicação da Constituição Brasileira, em 5 de outubro de 1988, os Direitos Humanos receberam mais atenção no nosso país. Pela primeira vez na história das constituições nacionais, os Direitos Humanos foram regulados no início do docu- mento, após a declaração dos princípios fundamentais. “A dignidade da pessoa humana” é considerada fundamento do Brasil no artigo primeiro da Constituição. A nossa Constituição Federal aponta que princípios éti- cos, como a solidariedade, o cultivo da liberdade de opi- nião e discussão e uma série de direitos econômicos e so- ciais são fundamentais para a vida em sociedade. Assista ao vídeo: “30 arti- gos da DUDH” utilizando o leitor de código QR ou na Plataforma do Pensar.

15 A IMPORTÂNCIA DOS VALORES CONSIDERADOS UNIVERSAIS A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem valores que são a base de toda sociedade Aprendendo a Viver Juntos e precisam ser considerados, além de, cada vez mais entendidos. Valores universais comuns às várias culturas e religiões, às vezes, com outros nomes ou diferentes classificações. Por isso, é im- portante saber o que vem a ser: verdade, ação correta, paz, amor e não violência. Verdade: a busca da Verdade nos diferencia dos animais, porque temos condições de ques- tionar o que é certo ou errado, e podemos optar por seguir o caminho que o entendimento nos indicar. A verdade é um valor humano, uma vez que o homem, mesmo conhecendo e emitindo julgamentos variáveis sobre as coisas, pode fazer dela a motivação para a busca constante. Valores relacionados à Verdade: otimismo, discernimento, interesse pelo conhecimen- to, autoanálise, espírito de pesquisa, perspicácia, atenção, reflexão, sinceridade, otimis- mo, honestidade, exatidão, coerência, imparcialidade, sentido de realidade, justiça, leal- dade, liderança, humildade etc. Ação Correta: os animais, pelo instinto de proteção, defendem aqueles com quem convi- vem. Já o ser humano é caracterizado pelo amor, que ultrapassa os limites familiares e os laços de amizade, e abrange toda a humanidade e o planeta. Valores relacionados à Ação Correta: dever, ética, honradez, vida salutar, iniciativa, perseverança, responsabilidade, respeito, esforço, simplicidade, amabilidade, bondade, disciplina, limpeza, ordem, coragem, integridade, dignidade, serviço ao próximo, pru- dência etc. Amor: a mente repleta de pensamentos harmoniosos, de amor e paz, gera sentimentos de afeto, alegria e tranquilidade. Ao receber pensamentos de ódio, inveja e agressividade, gera sentimentos de violência, tristeza e desunião. Em outras palavras, a mente humana é como terra fértil, tudo o que nela se planta, nasce. Valores relacionados ao Amor: dedicação, amizade, generosidade, devoção, gratidão, caridade, perdão, compaixão, compreensão, simpatia, igualdade, alegria, espírito de sacrifício, renúncia etc. Paz: ao buscar o caminho do bem e da paz, provavelmente, surgirá a pergunta: a mente sem pensamentos agressivos tem mais capacidade de compreensão? A resposta pode ser sim, pois os sentimentos de paz e tranquilidade abrem-na para a intuição, que indica o melhor caminho a seguir. Valores relacionados à Paz: silêncio interior, calma, contentamento, tranquilidade, paciência, autocontrole, autoestima, autoconfiança, auto aceitação, tolerância, concentração, desprendimento etc.

16 Não Violência: é o resultado da prática de todos os outros valores. É alcançar o mais alto estágio do crescimento espiritual − o amor universal é o conhecimento da verdade. Valores relacionados à Não Violência: fraternidade, cooperação, concórdia, altruís- mo, força interior, respeito à cidadania, patriotismo, responsabilidade cívica, unidade, solidariedade, respeito à natureza, respeito pelas diferentes raças, culturas e religiões, uso adequado do tempo, da energia, do dinheiro, da energia vital, do alimento, do conhe- cimento. O segredo da Educação Ética hoje em todo o processo escolar é praticar os valores na família, na turma e escola, com os amigos e conhecidos. Isso fará com que todos percebam mudanças. En- tão, muitos perguntarão: o que mudou em você? Muitos dirão: como você está feliz? Acreditar, agir e fazer cada um a sua parte. A ação consciente de cada um de nós terá reflexos nas ações de outras pessoas que convivem conosco. Segue a declaração assinada por 125 líderes e represen- PPeaarrraeafsslaaebbtieerrr tantes de 17 tradições religiosas, durante o encerramento do Parlamento das Religiões do Mundo, em agosto de 1993, na cidade de Chicago (EUA). NÓS DECLARAMOS: Somos interdependentes. Cada um de nós depende do nnaaCCOOMM..AA..II..bem-estar do todo e, assim, sentimos respeito pela comunidade dos seres vivos, pelas pessoas, pelos animais e pelas plantas, assim como pela preservação da Terra, do ar, da água e do solo. Comunidade de Temos a responsabilidade individual por tudo o que fazemos. Aprendizagem Todas as nossas decisões, ações e omissões têm consequências. Investigativa Devemos tratar os outros como gostaríamos que os outros nos tratassem. Assumimos o compromisso de respeitar a vida e a dignidade, a individualidade e a diversidade, para que cada pessoa, sem exceção, seja tratada humanamente. Devemos ter paciência e uma visão positiva da vida. Devemos saber perdoar, aprendendo com o passa- do, sem jamais nos tornarmos escravos de lembranças odiosas. Abrindo nosso coração aos outros, devemos eliminar nos- sas pequenas diferenças em prol da causa da comuni- dade mundial, pondo em prática uma cultura de solidariedade e de relacionamento harmônico. O Início de uma Mudança Consideramos a humanidade como nossa fa- mília. Temos de nos esforçar para sermos bons e generosos. Não devemos viver somente pen- sando em nós mesmos, mas também para servir aos outros, nunca nos esquecendo das crianças, dos idosos, dos pobres, dos que sofrem, dos in- capazes, dos refugiados e dos que vivem na so- lidão.

17 Ninguém deveria jamais ser considerado ou tratado como cidadão de segunda categoria, ou explorado da maneira que for. Deveria existir uma parceria de iguais entre homens e mulheres. Devemos deixar para trás qualquer forma de dominação ou abuso. Assumimos um compromisso com uma cultura da não violência, do respeito, da justiça e da paz. Não praticaremos a opressão, a ofensa, a tortura, nem mataremos outros seres humanos. Abandonaremos a violência como meio de resolver nossas diferenças. Devemos nos empenhar por formar uma ordem social e econômica justa, na qual todos tenham oportunidade igual para atingir o seu potencial máximo como seres humanos. Temos de falar e agir com veracidade e compaixão, tratando a todos com equidade, evitando preconceitos e ódios. Devemos nos colocar acima da cobiça pelo poder, por prestígio, por dinheiro e pelo consumo, a fim de criarmos um mundo justo e prático. A terra não poderá ser mudada para melhor sem que se mude antes a consciên- cia dos indivíduos. Comprometemo-nos a expandir nossa consciência, disciplinando nossas mentes por meio da meditação, da oração ou pelo pensamento positivo. Sem riscos e sem uma disposição ao sacrifício, não haverá mudanças fundamen- tais em nossa situação. Comprometemo-nos, portanto, com essa ética global, com a compreensão do outro, com modos de vida socialmente benéficos, geradores de paz e que estejam em harmonia com a natureza. Convidamos todas as pessoas, religiosas ou não, a nos acompanhar. Assista a Diversidade reli- giosa e Direitos Humanos utilizando o leitor de código QR ou na Plataforma do Pensar. Aprendendo a Viver Juntos

18 1. Vamos, em COM.A.I., discutir, pensar e reescrever alguns dos valo- res que estão presentes na Declaração do Parlamento das Reli- giões do Mundo e que nós, do 8º ano, consideramos funda- aRiRçneõfetelefeslxreindõxetiõessrcee-is- mentais nos dias de hoje. 2. No seu primeiro artigo, a Declaração diz que “todos dnpiaCslciCOnipOaMlMirne.a.AAsren..IIs..a os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”, são “dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraterni- dade”. Escreva seu entendimento sobre a frase acima e coloque um exemplo em que esse artigo torna-se con- creto. Comunidade de Aprendizagem Investigativa 3. A necessidade de haver uma educação e uma vivência ética nas escolas é urgente. Seguem algumas propostas, para que a COM.A.I. leia e, posteriormente, amplie, escrevendo e propondo a realização na escola: acolhimento dos alunos pela escola, em todas as situações, com momentos especiais no início do ano letivo; criar espaços para que os pais entrem na escola e participem dela; resolver todos os conflitos por meio do diálogo; criar código de ética da classe ou da escola; estabelecer conjuntamente normas de condutas periodicamente revistas – por exemplo, ouvir e respeitar a opinião dos colegas, não interromper a fala do outro; ... O Início de uma Mudança

19 PPcceoeonnmssaaoorr SÓ MUDO O MUNDO SE EU ME CONHECER PPRROOTTAAGGOO- NNIISSTTAASS DESENVOLVIMENTO A partir da ilustração colocada na página seguinte, cada aluno está convidado a responder às perguntas, baseando-se em suas características e suas ideias, tendo sempre justificativas para sua escolha. ANOTAR NA FIGURA Diante dos olhos: as coisas que vejo e mais me im- pressionam no mundo em que vivemos. Diante da boca: três expressões (palavras, atitudes) das quais arrependeu-se de dizer até este momento da sua vida. Diante da cabeça: três ideias das quais não abre mão. Diante do coração: três grandes amores. Diante das mãos: ações inesquecíveis que realizou. Diante dos pés: piores enrascadas em que se meteu. COMENTÁRIOS Foi fácil ou difícil esta reflexão? Por quê? Este exercício é uma ajuda? Em que sentido? Em qual anotação sentiu mais dificuldade? Por quê? Por que este exercício pode favorecer o diálogo entre as pessoas e o conhecimento de si mesmo? Que relação dá para fazer com a história inicial “Lição de Vida”? DESAFIO AOS PROTAGONISTAS Aprendendo a Viver Juntos Neste capítulo, vemos a defesa da necessidade e a importância de uma aprendizagem e dis- cussão sobre a vivência ética e o comportamento moral de cada um, pois vivemos em sociedade. Com esta atividade e todo conteúdo deste capítulo, devemos salientar nossa convicção de que a sociedade irá modificar-se na medida em que cada pessoa possa se conhecer e mudar a si mesma. Diante disso, a COM.A.I. irá pensar e propor uma atividade para todas as turmas do Ensi- no Fundamental, tendo essa atividade e ideia forte: “a sociedade irá modificar-se na me- dida em que cada pessoa possa se conhecer e mudar a si mesma”

O Início de uma Mudança 20

“cPf“caPofeaoiernixrnxaaasasad”a”dreraa 21 ddeeiixxaar mmaarrccaass Para o mundo grego clássico, os problemas éticos e políticos tinham um destaque. Após o naturalismo dos pré-socráticos (Tales, Heráclito, Parmênides, Anaxágoras, Empédocles…), há uma preocupação com os problemas políticos e morais do homem na sociedade. Por isso, as ideias de Sócrates, Platão e Aristóteles sobre a ética e a po- lítica estão ligadas a uma comunidade limitada e local – o Estado-cidade ou a pólis, principalmente Atenas. Filósofos naturalistas: dedicavam-se ao proble- ma de determinar o princípio material de que era constituída a ordem da natureza. Foram chamados de naturalistas porque procuravam responder a questões do tipo: o que é a natureza? Qual é o funda- mento último das coisas? Tinham como principal objetivo viver para contemplar a natureza. SÓCRATES (470-300 A.C.) Aprendendo a Viver Juntos O “perguntador” Na democracia ateniense, temos a arte da conversação como principal instrumento da convivência social. Por isso, Sócrates perguntava, inquiria as pessoas sobre as- suntos que eram do dia a dia. Mostrava que, no plano das opiniões, todos têm razão e, por isso mesmo, ninguém a tem. Ampliando o diálogo pelas perguntas, queria chegar à essência das coisas. Há quem diga que, a partir de Sócrates, começou de fato a existir a Filosofia, pois ela chegou à sua maturidade. Sem dúvida, ele é o destaque da filosofia clássica grega. Não es- creveu nada, mas falava e muito, interrogava as pessoas sobre suas crenças, buscava um conhecimento mais ela- borado. Percebia e fazia perceber que, quanto mais co- nhecia, mais tinha consciência de que sabia muito pouco. Sócrates participou do apogeu e da crise da democracia ateniense. A vida cultural de Atenas era repleta de escul- tores, artistas, dramaturgos, historiadores, filósofos, ora- dores, grandes personalidades, como médicos (Hipócrates) e homens públicos (Péricles). Ouça o PODCAST “Quem é esse Sócrates?”, disponível na Plataforma do Pensar.

22 A DEFESA DE SÓCRATES PlPleeaarrrreeaa ssaabeerr Como Sócrates não escreveu nem uma linha sequer, conta-nos mmaaiiss a tradição filosófica que ele, pelo diálogo (método da Maiêutica: pergunta/resposta), fazia sua Filosofia. Foi condenado sob a acu- Pensaram “fora da sação de corromper a juventude, ter atitudes e ideias contra os caixa” e deixaram deuses da pólis. Lemos isso no livro de Platão, A Defesa de Só- marcas. E você? crates1, que relata o processo e a condenação de Sócrates, em 399 O Início de uma Mudança a.C. Ele foi acusado por Meletos, Anitos e Líncom de corromper a juventude e de introduzir novos deuses, além de questionar outros já existentes na cidade. O conteúdo do livro de Platão apresenta-se dividido em três partes. A primeira, fala das objeções de Sócrates às acusações a ele impostas. Na segunda parte, ele defende-se da sentença que, segundo o costume e as leis, era a pena merecida. Na terceira parte, o filósofo reflete sobre o sentido político e filosófico que representava sua condenação à morte. Nesse julgamento, Sócrates não queria convencer o júri de sua inocência, nem buscar ajuda de outros para tal fim. Ele mesmo faz a exposição da verdade, com toda sua crueza. Por isso, não satisfeito em mostrar que as acu- sações eram tolas, assume o papel que escolheu cumprir na cidade. Assim, propõe que a cidade, em reconhecimento aos seus serviços, viesse a sustentá-lo gratuitamente. É óbvio que tal pro- posta soou como provocação e contribuiu para sua condenação à morte pela maioria dos juízes. A defesa de Sócrates é, mais do que qualquer outro escrito, uma modelagem do caminho para o surgimento do primeiro mártir da Filosofia. “Bem, é chegada a hora de partirmos; eu, para a morte; vós, para a vida. Quem segue melhor des- tino, se eu, se vós, é segredo para todos, exceto para a divindade”. O livro “Apologia de Sócrates” (ou defesa...) é responsável por ampliar a imagem do Sócrates emblemático, perseguido pelos pode- res constituídos, e até pela opinião do povo. 1. Col. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

Hábitos, costumes, regras, normas – bem e mal 02

O Início de uma Mudança24 ddPiPisseeccnnuussttaiairrrr,e,e pprorodudzuirznira CCOOMM..AA.I..I. Comunidade de Aprendizagem Investigativa OS MACACOS E AS BANANAS Em um laboratório de estudo do comportamento animal, um grupo de cientistas colo- cou quatro gorilas em uma jaula. No meio da jaula, foi colocada uma escada que permitia que os gorilas alcançassem um suculento cacho de bananas. O experimento consistia em jogar um forte jato de água fria nos quatro gorilas quando algum deles tentasse subir a escada para pegar as bananas. Depois de alguns dias, nen- hum deles se atrevia a tocar na escada para não ser atingido pela água fria. Os cientistas, então, retiraram um dos quatro macacos e o substituíram por outro, que, chegando à jaula, logo dirigiu-se à escada, sendo que os três antigos imediatamente lhe aplicaram uma tremenda surra. Os cientistas, dessa forma, substituíram mais um dos macacos e este, ao tentar subir a escada, também levou uma surra dos demais. Os cien- tistas, então, substituíram o terceiro macaco e o substituto também apanhou. Depois que os cientistas substituíram os quatro gorilas, não havia na jaula nenhum que tivesse recebido o jato de água fria, contudo, um quinto gorila introduzido na jaula, ao tentar tocar na escada, levou uma surra dos demais. Este experimento sugere que, se os gorilas pudessem falar, diriam para os novos ocu- pantes da jaula algo parecido com o seguinte: “Aqui, sempre foi assim, se encostar a pata na escada, leva uma surra”. Autor desconhecido

25 O texto não revela se os cientistas iriam ou não continuar jogando água gelada nos macacos caso eles parassem com as agressões. O que se percebe é que eles passam a agredir para não serem agredidos pela água gelada dos cientistas – é a violência defensiva, mas não uma ação legítima. Muitos seres humanos agem como os macacos dessa história, fazendo sem refletir por que razão ou com que objetivos fazem. As pessoas agem, às vezes, movidas somente por costumes arraigados ou por hábitos e, dessa maneira, não exercem o mais precioso atributo da espécie hu- mana: a inteligência. O texto, retirado do livro Discurso da servidão voluntária, de Etienne de La Boétie, reitera um pouco a afirmação anterior: Saiba mais sobre Mitrí- “É verdade que, no início, serve-se obrigado e dates utilizando o leitor vencido pela força; mas os que vêm depois ser- de código QR ou na Pla- vem sem pesar e fazem de bom grado o que seus taforma do Pensar. antecessores haviam feito por imposição. Des- se modo, os homens nascidos sob o jugo, mais tarde, educados e criados na servidão, sem o- lhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outro bem nem outro direito que o que encontraram, consideram natural a condição de seu nas- cimento. E, no entanto, não há herdeiro tão pródigo e despreocupado que às vezes não corra os olhos nos registros de seu pai para ver se goza de todos os direitos de sua herança ou se não usurpa- ram a si ou a seu predecessor. Mas o costume, que por certo tem em todas as coisas um grande poder sobre nós, não possui, em lugar nenhum, virtude tão grande quanto à seguinte: ensinar-nos a servir − e como se diz de Mitrídates, que se habituou a tomar veneno: para que aprendamos a engo- lir e não achar amarga a peçonha da servidão”. A partir da história dos “Macacos e as bananas” e das ideias apresentadas acima, em sua opi- Aprendendo a Viver Juntos nião, o que isso tem a ver com os assuntos: regras, normas, costumes, hábitos bem e mal, os quais iremos trabalhar neste capítulo?

26 Vivemos e buscamos ser autores da nossa exis- AAmmdpdpololisiasaççããoo tência no mundo em que estamos. Queremos fazer eenntteennddiimmeennttooss as coisas, escolher o que é melhor, ser livre para responder pelas ações. Enfim, somos diferentes das outras pessoas porque pensamos de forma diferen- te. A inteligência e a razão nos diferenciam. Isso é bom, mas também exige mais de cada um. Por isso, algumas coisas são essenciais para vivermos em co- munidade. Aceitando essa constatação, fica a pergunta: Podemos realmente escolher e fazer o que que- remos? A resposta é: O Início de uma Mudança Quase sempre não podemos escolher o que acontece conosco, mas podemos escolher o que fazer a partir do que aconteceu. (Essa é uma ideia defendida por Sartre). Muitas vezes, somos obrigados a escolher entre duas ou mais possibilidades, em- bora preferíssemos não precisar escolher, pois, feita uma escolha, deixamos ou- tras de lado. (Essa é uma ideia defendida por Santo Agostinho). Não passamos a vida só pensando nas escolhas que temos ou não que fazer. Muitos dos nossos atos são automáticos, fazem parte de regras da casa, da sociedade e das normas estipuladas para vivermos em grupo. Agimos e escolhemos sem muito pensar, sem refletir, pois vivemos si- tuações que passaram a ser regras e/ou normas. Por exemplo: levan- tar no horário por causa das obrigações diárias, fazer a higiene pessoal, tomar café, vir para a escola, respeitar os outros etc. Essas ações repetidas no dia a dia podem ser entendi- das como regras/normas de convivência social, familiar. Por isso, quando fazemos escolhas a partir do que aconte- ceu, por exemplo, de não seguir o estipulado na questão horários, invertemos nossas ações rotineiras e isso pode ou não nos fazer sentir bem. Em algumas situações, parar para pensar a respeito de tudo o que fazemos ou não aca- ba por paralisar-nos e isso também não é bom. Vamos retornar à ideia do primeiro parágrafo. Pode- mos nos perguntar: por que fiz o que fiz? Por que tomei aquela atitude e não outra? Isso nada mais é do que que- rer saber os motivos que levam a agir ou não agir.

27Aprendendo a Viver Juntos O sentido da palavra motivo, aqui colocado, é a razão que há ou acredita-se que há para fazer algo. Uma das prováveis respostas é a da existência de regras/normas. Em algumas ações, o motivo é o hábito (“sempre fiz assim” e/ou “todos fazem dessa forma”), e muitas vezes nem pensamos o porquê. Como todos fazem, dizemos que passou a ser um costume, lembre da história inicial − Os macacos e as bananas. Os costumes dão certa comodidade ao seguir uma rotina e também por não contrariarem as demais pessoas, por conta disso não sofremos pressões ou represálias. Os costumes também implicam certa obediência a algumas regras. Um exemplo é a moda: um tipo de roupa que você é obrigado a vestir porque é comum entre amigos, e você não quer destoar. Por isso, podemos entender que regras/normas e hábitos/costumes parecem ter algo em comum: vêm de fora e não podemos nos posicionar contra por uma série de razões. Os hábitos são a repetição de costumes, que podem tor- nar-se regras/normas, que, pela repetição (muitas vezes mecânica), estranhamos quando não são realizadas. O QUE ISSO TUDO TEM A VER COM A MORAL E COM A ÉTICA? Em princípio, queremos dizer que os termos moral e ética são usados muitas vezes de forma confusa. Como é nosso objetivo iniciarmos uma investigação sobre ética, cabe aqui entendermos o significado etimológico das palavras. MORAL: vem da língua latina, mos – mores. Significa costu- mes ou regras que determinam a vida. Por essa razão, dize- mos que a moral indica normas e valores que orientam a vida do homem dentro de uma sociedade. Assim, a moral busca distinguir o certo do errado, o justo do injusto, o permitido do proibido, o bem do mal. Procura determinar quais ações e atitudes devem ser adotadas diante das situações. Quem diz quais são os deveres morais de uma pessoa? A primeira resposta parece ser o grupo social, a turma a qual pertence. Como cada grupo, cada turma, tem ideias e pode ter interesses diferentes, percebemos a existência de várias regras morais em uma mesma sociedade. ÉTICA: vem da língua grega, ethos, significando modo de ser. A forma usada por uma pessoa para organizar a vida em sociedade. É a forma como a pessoa transforma em nor- mas/regras as práticas, os valores do grupo e da cultura em que está vivendo.

O Início de uma Mudança28 Portanto, a ética tem a moral como base de estudo. Seu papel é o de analisar as opções feitas pelas pessoas, avaliar os costumes. É a reflexão crítica da moral do grupo no contexto social e his- tórico em que ele encontra-se. Busca questionar os fundamentos da moral e sua validade. Sendo assim, a ética preocupa-se em analisar, na ação e na reflexão, os conflitos do dia a dia. Há um fio muito tênue que separa a ética da moral, então, vamos estabelecer a seguinte dis- tinção. MORAL: são os valores ou as normas práticas que asseguram conduzir ou deveriam nortear a vida social de uma coletividade. ÉTICA: é a análise e a reflexão sobre o comportamento do homem na vida social de uma coletividade. Ter a capacidade para analisar uma conduta moral requer que haja uma pessoa consciente, que conheça as diferenças entre: bem / mal; certo / errado; pode ou não pode fazer; virtude / vício; direitos / deveres. A consciência ética é a capacidade de julgar o valor dos atos e das condutas e ter uma ação que está de acordo com os valores morais. Chegamos ao ponto central do assunto, que são a consciên- cia e a responsabilidade, condições indispensáveis para uma vida ética. O que caracteriza uma vida ética? Quem pode dizer que as suas ações são moralmente corre- tas? Procurando respostas, podemos dizer que uma pessoa ética, ou uma pessoa moral, tem que preencher alguns requisitos, como os apontados a seguir. Capacidade de reflexão e reconhecimento da existência do outro (= consciên- cia de si e dos outros). Capacidade para dominar-se, controlar-se e também decidir e deliberar entre alternativas (= domínio da vontade, do desejo, dos sentimentos etc.). Ser responsável (= assumir as consequências da ação ou não, respondendo pela escolha). Ser livre (= conseguir autodeterminar-se, fazer suas regras de conduta). Uma pessoa pode, diante dos comportamentos humanos e da sociedade em que vive, ter uma atitude ética passiva ou ativa. A atitude ética passiva é quando a pessoa deixa-se governar por impulsos, inclinações e paixões; balança conforme o momento. Uma pessoa que se deixa levar pela boa ou má sorte, pelas opiniões alheias, pelo medo e pela vontade dos outros, não tendo consciên- cia, vontade, liberdade e responsabilidades. A atitude ética ativa é a da pessoa que controla seus impulsos, suas inclinações e paixões. Uma pessoa que questiona o sentido dos valores e dos fins estabelecidos, que avalia as ações diante das regras de conduta e age conscientemente, que é respon- sável, respeita os outros e é autônoma.

29 PPaarraa ssaabbeerr SOBRE O BEM E O MAL Aprendendo a Viver Juntos e refletir nnaaCCOOMM..AA..II.. O que é o Bem? O que é o Mal? São perguntas feitas ao longo da história da humanidade. Perguntas que são Comunidade de “problemas filosóficos”. Aprendizagem Investigativa São perguntas que ocupam o tempo e Problemas filosóficos são in- provocam a reflexão trigantes e instigantes. Pen- de muitos pensadores. samos ter a resposta, mas, ao As respostas são mui- tentar formular as justifica- tas e alguns acham tivas ao que queremos de- que trouxeram a so- fender, percebemo-nos, com lução definitiva a elas. espanto e até admiração, que Pensadores buscaram pelos nossos preconceitos responder a partir de e nossas limitações intelec- um código de man- tuais, temos dificuldades de damentos ou princípios de conduta, assim como os Dez dar uma resposta firme e com- Mandamentos do povo hebreu. Respostas que muitos pleta sobre a questão. Sen- acreditam ter vindo de autoridade divina e com força su- do a filosofia uma atividade ficiente para estenderem-se a todos os tempos e lugares. que procura compreender as coisas que nos intrigam e fa- Vejamos o que alguns pensadores responderam e lam a nosso respeito, a única quais as suas teorias. maneira de filosofar consiste simplesmente em praticá-la, PENSADORES GREGOS abertos para modificar a visão de mundo, dialogando com os HERÁCLITO: Filósofo da mudança, da transformação. outros e não sendo preconcei- Defendia que o universo resulta da combinação de opostos tuosos e arrogantes no saber e − o bem e o mal, que são duas notas em uma harmonia. entender. DEMÓCRITO: Ensinava que a felicidade constitui o alvo da vida. Afirmava que o homem bom não é o que pratica o bem, mas o que deseja praticá-lo sempre. PLATÃO: O bem seria o mundo das ideias puras e imutá- veis. O mal, o mundo dos sentidos, que é irreal, transitório e mutável.

O Início de uma Mudança30 PROTÁGORAS: Dizia que “o homem é a medida de todas as coisas”, sen- do, então, também a medida do bem e do mal. Daí a ideia de que a mo- ral é uma simples convenção, um hábito. Não há verdadeiramente leis morais nem princípios completos sobre o bem e o mal. SÓCRATES: Grande parte de suas ideias são sobre a significação do bem e do mal. Perguntava constantemente: que bem é esse? Qual o mais elevado bem, pelo qual se pode medir tudo o mais no mundo? Sua resposta: o Conhecimento. ARISTÓTELES: Toda ação tem um objetivo a alcançar. Sua pergunta: que é o mais alto bem? Uma resposta sua acentuava que o alvo de tudo no mundo é a realização completa. Homem bom é aquele que vive segundo o meio termo, que em seus atos não vai aos extremos. EPICURO: Defende que o objetivo de toda atividade humana é o prazer, sendo a felicidade o bem supremo para todos. ESTOICOS: O mais alto bem do homem está em agir em harmonia com o mundo. Afirmavam que, se vivermos como os homens bons vivem, teremos uma vida virtuosa e a felicidade certamente virá. A partir desses pensadores gregos, vemos que o bem e a bondade estão relacionados com a harmonia do mundo. O mal é apenas imaginário ou uma discordância da harmonia. PENSADORES CRISTÃOS OS APOLOGISTAS: Deus cria o homem com o próprio espírito de bonda- de, mas o homem escolheu afastar-se e voltar-se para o corpo. Assim, o homem, ao cometer o pecado original, vive perseguido pelo mal, está per- dido, e seu trabalho é encontrar a salvação por meio da graça divina. SANTO AGOSTINHO: Incomodava-o o fato de Deus, todo bondade e perfeição, criar o mundo com o mal. Afirmava que tudo no mun- do é bom. O mal é relativo, é a ausência do bem, da mesma maneira que as trevas são a ausência da luz. Agora, esse mal que encontra- mos foi posto por Deus para tornar o mundo bom. ABELARDO: O bem ou o mal de um ato não está no ato em si, mas na intenção de quem o pratica. Bondade e maldade são uma questão de cons- ciência. TOMÁS DE AQUINO: Deus criou o homem para um determinado fim, o bem maior é a concretização desse fim. Dizia que a melhor maneira de atingir a bondade é abandonar os bens mundanos e procurar viver para Deus. O mal é a privação, a falta daquilo que é bom.

31 PENSADORES MODERNOS THOMAS HOBBES: O bem e o mal são uma questão de movimento. Quando o movimento é bem-sucedido, gera prazer; o contrário resulta em dor. O bem e o mal são relativos a determinado homem, dependem da natureza de cada um e na ocasião. DESCARTES: Deus é perfeito, e, por isso, incapaz de nos fazer errar. O erro não está no ato de Deus, porém em nós, pois tomamos decisões e agimos sem provas suficientes. SPINOZA: O erro é falta de conhecimento, e daí vem a dor. O bem é o esforço individual de preservar-se. JOHN LOCKE: Como as ideias que vêm de fora e são escritas em uma folha branca de papel, assim se produz nossa ideia do que seja o bem e o mal. Por isso, muitas pessoas passam por experiências iguais e chegam às mesmas conclusões, concordam que certas coisas são boas e outras, más. KANT: Acreditava ser seu imperativo categórico “age somente de acordo com uma máxima que possas, ao mesmo tempo, querer que se converta em uma lei geral; age de modo a poderes desejar que todo o mundo siga o princípio do seu ato”, um critério seguro sobre o que constitui o bem e o mal. ALGUMAS CORRENTES FILOSÓFICAS CONTEMPORÂNEAS Pensamentos dos filósofos mais recentes acerca do bem e do mal têm em conta as relações so- ciais do homem. Por esse motivo, vemos uma ética mais do grupo humano do que das leis divinas. Vemos, então, a questão da bondade e da maldade tornar-se qualidade dos atos, dependendo da situação em que são praticados. A Escola Utilitarista: Os pensadores desta corrente afirmam que o Acesse a Platafor- bem é medido em termos de “o maior bem para o maior número possí- ma do Pensar e leia o vel”. O grupo social é o objetivo final da moralidade. texto: “Os problemas éticos e filosóficos no A Escola Pragmática: Os pensadores desta corrente definem o bem Século XXI”. como aquilo que atende aos objetivos do grupo e do indivíduo nesse grupo. Ato bom é aquele que considera o indivíduo como fim em si Aprendendo a Viver Juntos mesmo e não como meio. Podemos dizer que, nas questões éticas relacionadas ao bem e ao mal, ao longo da história da humanidade, percorreram-se dois caminhos: um absoluto e outro relativo. Ambos os caminhos precisam ser redescobertos, porém o ponto de vista relativo é o mais acentuado. Hoje, quando a ciência e a razão humana têm certo destaque, torna-se difícil encontrar argumentos para a de- fesa de uma ética absoluta sobre o bem e o mal. A tendência é termos colocações relativas sobre essas questões éticas.

32 1. A partir do fato verídico ocorrido no 8º ano em uma escola do nos- so país e, depois das discussões e do aprofundamento sobre o conteúdo deste capítulo, vamos ler, pensar e discutir na aRiRçneõfetelefeslxreindõxetiõessrcee-is- COM.A.I. quais as consequências de uma discussão e ação em nossa escola? Lembrando de que os pontos centrais do assunto são a consciência e a responsabi- lidade como condições indispensáveis para uma vida e ação ética. UMA DISCUSSÃO SOBRE dnpiaCslciCOnipOaMlMirne.a.AAsren..IIs..a REGRAS E NORMAS Em uma das primeiras aulas reflexivas em uma sala de 8º ano, alunos que estudam no Programa Educar para o Pensar desde as séries iniciais discutiam sobre regras e normas. Ao final dessa aula, o professor solici- Comunidade de tou que os alunos levantassem as normas e regras do colé- Aprendizagem gio. Depois de alguns exemplos, o assunto predominante foi Investigativa o uniforme escolar (= fardamento). O professor solicitou bons argumentos contra e/ou a favor. A escola tinha bons argumentos a favor do uso. Após alguns instantes, um aluno expôs um argumento contrário, com a justificativa: O primeiro parágrafo da página 26, diz que todos somos diferentes porque pensamos diferente. Por que precisamos usar a mesma roupa na escola se somos diferentes? O professor concordou com o aluno e a justificativa foi aceita. Em seguida, vieram duas outras colocações com argumentos. Quando a escola quer fazer propaganda na mídia, compra espaços em jornais, televisão, rádio, outdoors, revistas etc. E, para isso, paga caro. Quando uso uniforme, ao vir para escola e voltar para casa, sou uma propaganda ambulante. A escola não deveria pagar para eu usar uniforme? Meu pai trabalha em uma empresa que exige uniforme no trabalho. Pela legislação trabalhista, a empresa deve dar o uniforme. A escola é uma empresa e exige uniforme, então deveria dar os uniformes aos seus alunos, porque os obriga a usá-lo. O professor, então, elogiou a turma, os argumentos e solicitou uma ação. Depois de algumas discussões, surgiu a ideia de toda a turma assinar um abaixo assinado contra o uso do uniforme na escola. O documento foi entregue à direção, e o professor propôs que, na semana seguinte, os alunos da turma viessem sem uniforme. Isso aconteceu e foi um transtorno na escola. Ao final da semana sem uniforme, todos os professores daquele 8º ano reuniram-se com os alunos e mostraram que eles usaram outros uniformes. Esses colocados pela sociedade – calças, camisetas, bonés, tênis, pulseiras, tatuagens etc. E usaram os três mesmos argumentos colocados contra o uso do uniforme escolar. O Início de uma Mudança Terminaram a discussão reforçando a importância de A COM.A.I do 8º ano pertencer a um grupo, ter regras e normas de convivência, e realizará o trabalho de questionar e ser livre para fazer escolhas. de pesquisa sobre o Bem e o Mal utili- Escreva e justifique um costume que você precisa respei- zando o leitor de có- tar para poder viver em sociedade. digo QR ou na Plata- forma do Pensar.

33 CONSTRUÇÃO DE PcPecoeonmnmssaoaorr UMA COMUNIDADE PPRNRNOIOSITSTTTAAAAGGSSOO- Objetivos: reflexão prática sobre a realidade, ligando com os conteúdos dos capítulos 1 e 2. Preparação da turma para a importância de pertencermos a uma Comunidade de Aprendizagem Investigativa - COM.A.I. Material: fichas com nomes de profissões criados pelo(a) professor(a). Desenvolvimento: 1º passo: Cada participante recebe uma ficha com o nome de uma profissão e deve encorporá-la. Individual- mente e em poucos minutos, cada aluno deve analisar a im- portância da sua profissão nessa cidade, levantando argumen- tos, defendendo sua importância e escrevendo na sua ficha. Em seguida, cada um lê ou defende na COM.A.I. a sua profissão e a impor- tância de sua existência. 2º passo: O(a) professor(a) coloca a seguinte situação: Vamos viajar por mar, porque a cidade em que gostaríamos de ter todas essas profissões fica distante. Depois alerta que haverá um problema, o navio poderá afundar, e só há um bote capaz salvar sete pessoas. 3º passo: O grupo deverá decidir quais profissões devem ser salvas com mais urgência. OBS.: é importante que todos os alunos tenham conhecido todo o conteúdo e todas as dis- cussões destes capítulos. Deve-se escolher um aluno que terá a função de secretariar, re- gistrando os argumentos e fazendo uma síntese das discussões e das decisões e escolhas. Estas são as sete profissões escolhidas por nossa COM.A.I.: DESAFIO AOS PROTAGONISTAS Aprendendo a Viver Juntos O trabalho teórico deste capítulo é a base do estudo e entendimento do comportamento moral e ético que queremos que seja de todos na comunidade. Vamos, agora, realizar esta atividade na turma, tendo presente a formação da COM.A.I. que buscamos em todas as dis- ciplinas escolares e também em nossas relações sociais. Por isso, a partir das discussões e dos exemplos abordados em sala e neste capítulo, a tarefa é pensar em como fazer que esse entendimento possa ser repassado para outras turmas do nosso colégio. Vocês devem usar a criatividade para que haja envolvimento.

34 PLATÃO (427-347 a.C.) “Pf“Pofeoernrnaassadadrraa “A visão do outro” Discípulo de Sócrates, é responsável pela primeira siste- matização do conhecimento filosófico. Afirma-se que quase tudo o que a Filosofia toma como tema para investigação ccaaiixxaa””e tem origem em Platão, seja para aprofundar ou para ir con- ddeeiixxaar tra. mmaarrccaass Como seu mestre, ele tem críticas à vida política e cultu- ral de Atenas, tanto pelo falso saber quanto na questão dos valores humanos. Em seus escritos, temos críticas à política de Atenas, que tinha orgulho de que seu modo de governo era o mais justo, mas desgastava-se de injustiça em injustiça. Escreveu ele: “A legislação e a mora- lidade estavam a tal ponto corrompidas que eu, antes cheio de ardor para trabalhar para o bem público, conside- rando essa situação e vendo que tudo rumava à deriva, acabei por ficar atur- dido”. Quando jovem, Platão tinha a intenção de seguir carreira política. Com a condenação e morte de Sócrates, as intenções modificaram-se e ele escreve em outro diálogo: “Fui, então, irresistivelmente levado a louvar a verdadeira filosofia e a proclamar que somente à sua luz se pode reconhecer onde está a justiça na vida pública e na vida privada”. Assim, funda uma escola por volta de 387 a.C., quando compra uma proprie- dade nos arredores de Atenas. Sua Academia, na entrada, tinha a seguinte frase: “Não entre quem não saiba geometria”. Não era uma escola no sentido que temos hoje. Era uma espécie de “convento”, até com algumas conotações religiosas. Nesse espaço, discutia-se livremente a respeito de temas como matemática, música, astronomia e questões filosóficas. Ouça o PODCAST “Platão e a Visão do Outro”, disponível na Platafor- ma do Pensar. O Início de uma Mudança PlPleeaarrrreeaa A REPÚBLICA, OU SOBRE A JUSTIÇA ssaabeerr mmaaiiss É considerada uma das principais obras de Platão. É a obra da maturidade. Abrange toda sua filosofia, da ética à política e à metafísica. Inicia-se, assim, a maioridade das problemáticas fi- losóficas. Sua obra divide-se em dez livros, originalmente apre- sentada em forma de conversas entre Sócrates e um pequeno grupo de discípulos e amigos sobre a natureza política. No Livro I, busca-se a definição de justiça – será ela dar a cada um o que lhe é devido? Fazer o bem aos amigos e o mal aos inimigos? Isso seria piorá-los!

35 A justiça não pode produzir injustiça. No Livro II, a busca em provar que a justiça é um bem em si. Examina sua natureza na vida da cidade e não mais do indivíduo. Descreve o nascimento da cidade, como as necessidades e a divisão do trabalho, depois os requintes organizacionais e, por fim, a expansão (conquistas, guerras). Para que haja justiça, é necessário o guardião, que deve ter dons naturais, uma educação especial. Os comandantes dos guardiões serão escolhidos entre os mais velhos, mais ilustrados e que amem a cidade. Defendia que os guardiões não tivessem ne- nhum bem próprio, e fossem alimentados e alojados em comunidade pela cidade. Os Livros III e IV abordam o tema da exclusão da música dolente e debilitante e a importân- cia da ginástica para fortalecer a força moral mais do que a física. Também trata da questão do bem-estar dos guardiões para que haja felicidade na cidade inteira. Já no Livro V, promove uma discussão sobre a educação para homens e mulheres; suas di- ferenças não importam para a função de guardião. Mulheres e crianças não serão propriedade deste ou daquele homem, mas serão comuns a todos. Para que haja felicidade na cidade, é preciso que os filósofos tornem-se reis, ou os reis filósofos. A questão do conhecimento, a ideia de Bem e o mito da caverna estão presentes nos Livros VI e VII. Neles, Platão chega a falar do governo perfeito, em oposição ao governo corrupto, presen- te no Livro VIII. No Livro IX, fala do homem tirânico com desejos desregrados. Faz a pergunta: esse homem é feliz? Finalmente, no Livro X da obra A República, surge a crítica aos artistas: eles praticam a imitação afastada do real. Pensaram “fora da caixa” e deixaram marcas. E você? Aprendendo a Viver Juntos

Liberdade de ação e decisão 03

37 ddPiPisseeccnnuuststaiairrrr,e,e pprordoudzuirznira CCOOMM.A.A.I..I. Comunidade de Aprendizagem Investigativa O POTE E O FURO Certa vez, Deus resolveu descobrir quem era o ser humano mais inteligente e livre de todo o Aprendendo a Viver Juntos universo. Ele estava cansado de ver os seres que havia feito com tanto amor transformarem-se em criaturas preguiçosas, complicadas, desanimadas com a vida. Seu maior desejo era encontrar um ser humano que, além de inteligente, fosse corajoso, leal, livre, sincero e honesto. Então, Deus apanhou um pote de argila e fez um buraco no fundo. Depois, sempre que encontrava uma pes- soa, dizia-lhe: - Por favor, traga um pouco de água para mim. A primeira pessoa a quem Deus fez esse pedido correu para atendê-lo. Mas, quanto mais ela enchia o pote, mais rapidamente este esvaziava, porque a pressão da água alargava o buraco do fundo. A pessoa acabou desistindo e pediu perdão por não ter conseguido ajudá-Lo. Deus apa- nhou o pote e continuou a procurar. Encontrou outro homem e lhe fez o mesmo pedido. O homem reparou que havia um buraco no fundo do pote, mas fingiu ignorá-lo. Correu para encher o pote e, cada vez que este esvaziava, corria para enchê-lo novamente. E também acabou desistindo e desculpando-se por não ter con- seguido ajudar Deus. Deus continuou a pedir a mesma coisa a todas as pessoas que encontrava pelo caminho, mas não encontrava ninguém que o enfrentasse e respondesse que seu pedido era absurdo. Como é que se poderia encher de água um pote furado? Até que um dia passou por uma casa e avistou uma linda criança brincando na terra. Deus olhou ao seu redor, mas não viu ninguém por perto, então, resolveu observar a criança. Ela havia feito vários buracos na terra e brincava de jogar pedrinhas dentro deles. Deus ficou surpreso com a pontaria certeira da criança e decidiu testá-la. Deu-lhe o pote furado e pediu-a que o enchesse de água. Depois de examinar cuidadosamente o pote e ver que estava furado, a criança levantou os olhos para o céu, que estava completamente azul e sem nuvens, virou-se para Deus e disse:

38 - Está começando a chover. Quero que o senhor pegue meus buracos e guarde-os em uma gru- ta para que eles não fiquem cheios de água. Ao ouvir esse pedido, Deus começou a rir. Percebeu que a criança fazia-Lhe um pedido tão extravagante quanto o que Ele andava fazendo aos humanos. Então, abaixou-se, fez um carinho na cabecinha da criança e declarou: - Você é o ser humano mais inteligente que já encontrei, mesmo sendo tão pequenino! História do folclore africano Depois de conversar sobre a história na COM.A.I., escreva algumas relações entre a história e o tema “Liberdade de ação e decisão”, que vamos trabalhar neste capítulo. O Início de uma Mudança Quem não quer ser livre? Esta é uma aspiração AAmmdpdpololisiasaççããoo que faz parte do ser humano. Na história dos po- eenntteennddiimmeennttooss vos, lutas, guerras e revoluções foram deflagradas buscando a liberdade. Quantas vezes reclama- É classificado pela filosofia como a in- mos, brigamos e até nos magoamos em defesa da dependência do ser humano, o poder de liberdade que queremos ou que achamos ser de ter autonomia e espontaneidade. A li- nosso direito? berdade é um conceito utópico, uma vez que é questionável se realmente os in- Buscamos a condição de ser livre. Como falar divíduos têm a liberdade que dizem ter, da liberdade humana não levando em conta uma se ela existe ou não. Muitos pensadores condição concreta, histórica e socialmente locali- pensaram sobre o conceito de liberdade, zada? Liberdade é só aquela que existe realmente, como: Sartre, Descartes, Kant, Marx. e ela é possível dentro dos condicionamentos hu- manos, sociais e políticos. Liberdade significa o direito de agir se- gundo o seu livre arbítrio, de acordo com Outra questão apresentada é sobre o significa- a própria vontade, desde que não preju- do do termo liberdade. Existem definições histó- dique outra pessoa, é a sensação de estar ricas, concepções particulares, dogmáticas e ideo- livre e não depender de ninguém. Liber- lógicas em que a vida e a liberdade estão muito dade é também um conjunto de ideias li- próximas – “Eu sou a minha liberdade”, já dizia berais e dos direitos de cada cidadão um dos personagens na peça As Moscas, de Sar- tre. Em busca do significado dá para contrapor li- berdade ao que não é ter liberdade de ação, de pensamento, de desejos. Na busca de um ponto comum, pode-se dizer que liberdade é, por essên- cia, a capacidade de escolha. Por isso, onde não há possibilidade de escolha, não há liberdade. Diante disso, outras questões podem ser fei- tas: o que está e o que não está ao nosso alcance? Até que nível vai o poder de escolha, de desejo, de querer algo? Enfim, somos totalmente livres? Poderemos algum dia ser realmente livres?

39 PODEMOS ESCOLHER, VIVER SITUAÇÕES? Seres humanos vivem determinadas circunstâncias. Somos levados a fazer algumas coisas, de- Aprendendo a Viver Juntos fendemos e escolhemos outras. Muitas vezes, a realidade em que vivemos obriga-nos a realizar ações contra a nossa vontade, pois estas são necessárias. Aqui, entra outra questão para pensar. As necessidades da vida, as regras sociais, não são maio- res e mais fortes do que o desejo de ser livre? Ao fazer algumas coisas, apesar da definição de liberdade como a possibilidade de escolha, de autodeterminação, sofremos pressões internas e externas, as quais chamamos de coação: Coação Interna: Pelo inconsciente, os instintos, as energias vitais, os senti- mentos reprimidos, a nossa herança genética. Vejamos alguns exemplos: em uma mesma família há filhos com temperamentos, tendências, desejos, formas de expressar seus sentimentos totalmente diferentes; uma pessoa que tentou suicidar-se não pode ser julgada moralmente, por- que, no momento do seu ato, não estava em condições mentais estáveis, esta- va sob o domínio de forças inconscientes. Coação Externa: Quando as obrigações vêm do mundo em que vivemos. Al- guns consideram essa forma de relação uma violência que pode ser física (ameaça à vida), moral (sua integridade) e psicológica (adotando certos com- portamentos que são impostos por alguém). Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo, escritor de vários romances e algumas peças de teatro, engajado nos problemas do seu tempo, afirmava que a li- berdade é o fundamento do ser humano. A liberdade está no começo do comportamento humano, porque sempre há necessidade de escolha. Sendo assim, o ho- mem é essencialmente livre, e por isso Sartre dizia que “o homem está condenado a ser li- vre”. Com essa afirmação, a provocação para pensar em algo que não é possível escolher, e vem a condição da morte: “Faço certas coisas ou morro!” Podemos pensar que morrer por algo em que se acredita é uma escolha, por- tanto, a morte pode ser uma escolha e, ao fazê-la, estamos exercitando a liberdade.

40 É claro que, ao colocarmos esse extremo, estamos simplesmente reforçando a capacidade de escolha, pois a opção principal sempre é pela vida. Para Sartre, a liberdade do homem é integral, não há possibilidade de escalas ou graus de liber- dade. O homem não pode ser mais livre ou menos livre, ninguém pode escolher “mais ou menos” entre duas ou mais coisas. A liberdade defendida por Sartre, a qual não admite graus, entra em atrito com a liberdade vivida, que leva em conta as condições do dia a dia. Essa liberdade não é absoluta, é situada. Sou livre em determinadas situações e, em outras, não. Essa é a liberdade que existe em graus, em etapas, que pode ser conquistada ou reprimida. Viver cada situação é dar-se conta de que, na complexidade das relações sociais, culturais, político-econômicas, enfim, da vida humana, a possibilidade da liberdade é uma conquista. A liberdade é uma construção a todo instante, aceitando as determinações das quais não se pode escapar e a resistência às determinações que serão superadas. Essa liberdade vivida, situada, é também um ato de escolha. A todo instante precisamos exer- cer a capacidade para sermos livres, pois ninguém foge da escolha. Quando há muitas ou poucas opções, essa liberdade pode ser mais fácil ou mais difícil de ser realizada. ESCOLHA FEITA IMPLICA EM UMA RESPONSABILIDADE O Início de uma Mudança A palavra responsabilidade deriva da palavra resposta. Saiba mais sobre Res- Assim, dar uma resposta a um fato, a uma situação, é dar o ponsabilidade Moral e o consentimento, o aceite, a palavra; e somos responsáveis por Poder da Escolha pesqui- tal situação. sando na Plataforma do Pensar. A definição filosófica do termo responsabilidade remete à possibilidade de prever os efeitos do próprio comportamento e de corrigi-lo com base em tal previsão. Na verdade, a noção de responsabilidade baseia-se na de escolha, e a noção de es- colha é essencial ao conceito de liberdade limitada*. Ao escolher algo, deixo imediatamente outra possibilidade de lado. Isso implica em consequências, resultados. Uma vez a escolha feita, pela ação dela, tenho responsabilidades. Tam- bém tenho responsabilidade sobre as consequências de mi- nha ação. Liberdade e responsabilidade estão sempre juntas. Detectar o progresso moral é ter como índice a responsabi- lidade moral das pessoas ou dos grupos sociais. Porém, falar de responsabilidade moral é relacionar as ações com a neces- sidade e liberdade humanas. A pessoa só pode ser cobrada pe- los seus atos quando tem certa liberdade de opção e decisão. Nesse sentido, só posso julgar uma ação, um ato, como res- ponsável ou não, ao examinar as condições concretas em que se realiza. Somente assim é possível perceber se existe a pos- sibilidade de opção, de decisão, de escolha (= liberdade), para cobrar uma responsabilidade moral. *.ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4ª.ed., São Paulo: Martins Fontes, 2000.

41 PPeaarrraeafsslaaebbtieerrr AS TRÊS PENEIRAS nnaaCCOOMM..AA..II.. Certa vez, um homem esbaforido aproximou-se de Sócrates... Comunidade de Na condição de teu amigo, Aprendizagem tenho algo muito grave para Investigativa dizer-te, em particular. ...e sussurrou-lhe nos ouvidos: Espera! Já passaste o que Sim, meu caro amigo, três vais dizer pelas três peneiras? peneiras. Observemos se tua confidência passou por elas. A primeira peneira é a da verdade. Guardas absoluta certeza quanto àquilo que pretendes comunicar? Três peneiras? Bem, assegurar mesmo, não Exato. Decerto peneiraste o assunto pela posso, mas ouvi dizer… segunda peneira, a da bondade. Ainda Ah! Então recorramos à ter- que seja real o que julgas saber, será pelo ceira peneira, a da utilidade, menos bom o que me e diz-me o proveito do que queres contar? tanto te aflige. Útil? Útil não é. Aprendendo a Viver Juntos Isso não! Muito pelo contrário. Bem, aquilo que pensas confiar não é verdadeiro, nem bom, nem útil, portanto esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que de nada valem casos sem edificação para nós.

42 ESTRUTURA DO TEXTO VERDADE Qual a correspondência com o fato? É verdadeira É falsa BONDADE Qual a intenção daquele que fala? É boa UTILIDADE Qual a consequência daquilo que se fala? É má É benéfica É prejudicial Aqui, surgem algumas questões para refletir, relacionando essa história com o conteúdo do capítulo. a. Há condições necessárias e suficientes para colocar alguém como responsável por determinado ato? b. Quando e como posso censurar ou louvar uma pessoa por sua maneira de agir? c. Onde se encontra o fio que separa a ação de um indivíduo, de modo que ele possa ser julgado total ou parcialmente responsável ou isento por seus atos? O Início de uma Mudança

43 1. Vivemos em uma sociedade que defende liberdades para o ser hu- mano, tais como: de expressão, de ir e vir, de crença, de traba- lho etc. Procure assistir a dois programas de auditório na iRaRnçeetõfefellresedxixnõiõsetceesrise- televisão. Analise e registre no espaço abaixo se neles está sendo defendido ou não algum tipo de liberdade. Procure justificar suas anotações: Programas: e pdnCliaisOncCiaMpOrlMien.Asa.Anr.Ie..aIs. Quais liberdades estão sendo defendidas? Quais liberdades não estão sendo defendidas? Comunidade de Aprendizagem Investigativa 2. Uma pessoa pode considerar-se livre mesmo com os seus direi- tos de ir e vir retirados temporariamente (ex.: exilados políticos, presos, ameaçados e outros)? PPcceeonnmssaaoorr JOGO DA NASA Aprendendo a Viver Juntos PPRNRNOOIISSTTTTAAAAGGSSOO- REGRAS: 1. Ler as instruções e fazer a atividade, sem fazer perguntas. 2. Perguntar apenas em caso de dúvida sobre o preenchi- mento do formulário. 3. Na fase da discussão e escolha na COM.A.I., deve prevale- cer a opinião da maioria, sempre tendo justificativas. 4. Atentar para o tempo estabelecido. 5. O professor tem no livro do Professor, que está na Pla- taforma do Pensar, a resposta da NASA para continuação da atividade. Após a sua resposta e a do grupo, junto com a resposta do professor e da NASA, vocês deverão chegar a um consenso.

44 ATIVIDADE: Você faz parte da tripulação de uma nave espacial que deveria encontrar-se com a nave mãe na superfície iluminada da lua. Entretanto, devido a um defeito mecânico, sua nave foi obrigada a alunizar em um ponto distante, cerca de 200 milhas (= 322 km) do local do encontro. Durante a alunissagem, a maior parte do equipamento a bordo foi danificada. Uma vez que a sobrevivência da tripulação depende da chegada até a nave mãe, devem ser escolhidos os utensílios mais impor- tantes e necessários para a viagem de 200 milhas. A seguir, são apresentados os quinze utensílios que ficaram intactos, apesar da queda. Sua ta- refa consiste em classificá-los por ordem de importân- cia para a sua tripulação alcançar o ponto de encontro. Coloque o número 1 no mais impor- tante, o número 2 no segundo mais importante e assim por diante, até o número 15, o menos importante. Lembre-se de que você tem liber- dade para escolher em um primei- ro instante, depois irá discutir na COM.A.I. sobre o que realmente le- vará, mas, acima de tudo, é preciso estar consciente da sua responsabili- dade. Minha Decisão: NASA Consenso COM.A.I. O Início de uma Mudança Caixa de fósforos Comida concentrada 20 metros de corda de náilon Seda de paraquedas Estufa portátil Duas pistolas calibre 45 Uma lata de leite desidratado para animal Dois tanques com 50 kg de oxigênio Mapa das estrelas Barco salva-vidas Bússola Cinco galões de água Sinais luminosos (com chamas) Estojo de primeiros socorros com agulha de injeção Rádio com frequência modulada trans- missor-receptor com bateria solar

45 AVALIAÇÃO: Conversar sobre o porquê das respostas, tanto pessoal quanto grupal. Os participantes podem chegar a algumas conclusões pensando como COM.A.I. as questões abaixo. 1. O grupo pensa melhor e chega a resultados satisfatórios: a diferença individual geralmente é menor do que a do grupo? 2. Quanto mais interação houver entre os participantes, melhores são os resultados? 3. Quanto maior o conhecimento sobre um assunto, também melhores são os resultados? 4. A liberdade de escolha exige que sejam explicitados os argumentos e a responsabilidade por essas escolhas? DESAFIO AOS PROTAGONISTAS Como lemos e discutimos neste capítulo, “somente quando a pessoa tem certa liberdade de opção e decisão, pode ser cobrada por seus atos”. Sendo assim, ao realizar esta atividade, em primeiro lugar individual e, depois, em grupo, foi exercitada a liberdade com responsa- bilidade. Agora, é hora de todo o 8º ano pensar uma atividade concreta na qual envolva a liberdade de escolha (ação e decisão), e que tenha uma responsabilidade moral. Sugestão: fazer com outras turmas do Ensino Fundamental 2 o que foi apresentado no texto inicial – O pote e o furo. Fazendo, é claro, uma releitura e algumas adaptações necessárias à realidade da escola. “Pf“Pofeoernrnaassadadrraa ARISTÓTELES (384-322 A.C.) ccaaiixxaa””e “A felicidade (eudaimonia) como busca”. Filósofo decisivo na história da Filosofia, serviu de fonte inspiradora para muitos outros, e as questões lógicas por ele propostas são importantes até hoje. Ele não nasceu em Atenas, mas em ddeeiixxaar Estagira, por isso foi apelidado de “O mmaarrccaass Estagirita”. Seu pai foi médico da cor- te de Felipe, rei da Macedônia, pai de Alexandre Magno, do qual Aristóte- les foi professor. Realizou seus estudos na Academia e foi discípulo destacado de Platão, permanecen- do ali até a morte do mestre. Funda, então, sua própria Aprendendo a Viver Juntos escola, situada nos arredores de Atenas, o Liceu, um centro de estudos de ciências naturais. No Liceu havia dois cursos: um aberto ao público em geral, chamado “exotérico”, e outro só para os discípulos, chamado “esotéri- co”. Os seus discípulos eram chamados de peripatéticos (porque aprendiam enquanto passeavam com seu mestre). Ouça o PODCAST “Aristóteles e a Felicidade”, disponível na Plataforma do Pensar.

46 ÉTICA A NICÔMACO PlPleeaarrrreeaa Obra em dez livros, escrita por Aristóteles e endereçada ao ssaabeerr seu filho Nicômaco. O título indica o tema ética, designando as mmaaiiss concepções morais nas quais o ser humano deve acreditar. Aristóteles fala das virtudes humanas, que se dividem em dois tipos: as que nascem do hábito e as virtudes dianoéticas, que decorrem da inteligência e podem ser desenvolvidas por um ensinamento. O Livro II discorre sobre as virtudes: “A virtude é uma qualidade que se adquire voluntariamente, mas é preci- so ser justo, comedido e razoável. A virtude não é nem um dom nem uma paixão, mas um ato perfeito”. No Livro III, trata do aspecto voluntário e involuntário da ação. Uma ação pensada tem origem no desejo da pessoa. O ho- mem é, portanto, totalmente responsável por sua virtude, que nasce de sua intenção. A descrição, no Livro IV, é de certas atitudes éticas necessárias, tais como a temperança, o pudor, a magnanimidade, a franqueza. Já o Livro V trata da jus- Pensaram “fora da tiça e dos diversos tipos de relações. No caixa” e deixaram Livro VI, estão as virtudes dianoéticas, marcas. E você? que decorrem da inteligência; e ele fala de cinco: ciência (episteme), arte (techne), prudência (phronésis), inteligência (noûs) e sabedoria (sophia). O Livro VII condena os homens que utilizam o saber para objetivos nefastos. Já os Livros VIII e IX são os mais conheci- dos e tratam da amizade, do amor. Finalmente, no Livro X, a teoria da felicidade. Libertado de seus males O Início de uma Mudança terrestres, o homem atinge a felicidade suprema, que não é contínua, por isso, é preciso ser virtuoso e respeitar os valo- res morais segundo os quais cada um foi formado.

Fundamentos do modo de ser (ethos), como forma de vida conquistada 04

48 ddPiPisseeccnnuuststaiairrrr,e,e pprordoudzuirznira CCOOMM.A.A.I..I. Comunidade de Aprendizagem Investigativa O DISCÍPULO HONESTO Uma vez, um rabino decidiu testar a honestidade de seus discípulos; por isso, os reuniu e fez- lhes uma pergunta: - O que vocês fariam se estivessem caminhando e achassem uma bolsa cheia de dinheiro caída na estrada? - Eu a devolveria ao dono - disse um discípulo. A resposta dele foi muito rápida, preciso descobrir se ele realmente pensa assim -, pensou o rabino. - Eu guardaria o dinheiro se ninguém me visse encontrá-lo -, disse um outro. Ele tem uma língua fraca, mas um coração mau -, o rabino falou consigo mesmo. - Bem, rabino - disse um terceiro discípulo, - para ser honesto, acredito que eu ficaria tentado a guardá-lo. Por isso, eu rezaria a Deus, pedindo que me desse forças para resistir a tal tentação e para fazer a coisa certa. - Ah! - pensou o rabino. Eis o homem no qual posso confiar. História do folclore judaico Imagine e escreva a sua resposta ao rabino. O Início de uma Mudança

49 AAmmdppolliissaaççããoo Com as reflexões surgidas pela história inicial eenntteennddiimmeennttooss deste capítulo e para aprofundar o tema “Funda- mentos da Ética” é importante relembrar o que já vimos no capítulo 2. Ética vem da língua grega, ethos, signi- ficando modo de ser, a forma usada pela pessoa para organizar sua vida em socie- dade. É o processo a partir do qual trans- formamos os valores surgidos no grupo e na cultura em que vivemos em normas/ regras práticas. É a análise e reflexão so- bre o comportamento do homem na vida social de uma coletividade. Na história, a ética é vista como um estudo ou uma reflexão sobre os costumes ou sobre as Aprendendo a Viver Juntos ações humanas, e também como a própria realização de um tipo de comportamento. Quando trata das regras de comportamento so- cial, poderia ser chamada de ética normativa. Quando se refere aos costumes, é mais uma ética descritiva, especulativa. Assim, de maneira didática, acostuma-se a diferenciar os problemas éticos em dois segmentos: 1º o que trata dos problemas gerais e fundamentais, que são liber- dade, consciência, bem, valor, lei etc.; 2º o que trata dos problemas específicos, que se aplicam nas ações individuais, que são os da ética profissional, da ética política, da éti- ca sexual, da bioética etc. Vale a importante observação de que essa separação é didática, pois, na vida real, os problemas éticos (gerais) estão juntos com os aspectos específicos. A ética, sendo uma reflexão sobre os costumes, as ações e as realizações, pode ser vista como uma arte que torna bom aquilo que é feito e também aquele que a faz. Sendo uma arte, um há- bito (ethos), é esforço repetido, cujo fim é a boa qualidade das ações e do próprio indivíduo como pessoa. Um comportamento ético exemplar deveria atender às pretensões de universalidade e expli- car as variações de comportamento, devido às formações culturais e históricas.

O Início de uma Mudança50 PENSADORES E SUAS REFLEXÕES SOBRE A ÉTICA É importante saber que a reflexão ética sempre foi preocupação de muitos pensadores. Tam- bém muito do que hoje é aceito como comportamento moral e postura ética foi discutido e vivido em todos os tempos. Faz-se necessário relembrar que, desde a Grécia Antiga, no período clássico grego, filósofos que viveram dos Séculos V ao III a.C. consolidaram pensamentos que fundamentam muitas ações hoje. Entre outros, temos. SÓCRATES Um dos maiores filósofos da Grécia clássica, consta que ele não escreveu nada, mas andava pelas praças e ruas de Atenas conversando com todos. Usava o mé- todo da Maiêutica, o qual consistia em interrogar a pessoa até que esta chegas- se por si mesma à verdade. Questionava as crenças das pessoas, ia atrás das ideias, sendo uma espécie de “parteiro de ideias” (no sentido de trazer à luz, dar vida), querendo e buscando um conhecimento mais elaborado. Só que, quanto mais conhecia, mais tomava consciência do limite do seu saber. Usando o diálogo, levava as pessoas a perceberem, a partir de suas pergun- tas, os pontos fracos de suas reflexões. Buscava compreender os conflitos da cidade, das gerações, dos costumes, enfim, procurava entender a vida. Uma de suas afirmações famosas é a que retrata o filósofo humilde e investigador, e é o ponto de partida para chegar à verdade: “Só sei que nada sei”. Acreditava que, ao sabermos o que é o certo, estaríamos agindo corretamente. Por meio dos seus questionamentos, queria encontrar definições claras e válidas para o que são o certo e o errado. Isso só seria possível pelo uso da razão. Usando a razão, a pessoa seria feliz, e teria não uma felicidade passageira, mas real. Isto é, uma felicidade na qual está o desejo de fazer os outros felizes. PLATÃO Discípulo de Sócrates, fundou, em Atenas, uma escola que chamou de Aca- demia. Usava o método socrático – a Maiêutica. Platão considerava esse méto- do seguro e importante para o avanço do pensamento filosófico entre os seus alunos. Constatou Platão que tudo o que sabemos e fazemos ou se dá pelos sentidos (visão, audição, tato, paladar, olfato) ou pelo pensamento, pela razão. O conhe- cimento pelos sentidos é transitório e até enganoso. O verdadeiro conheci- mento é o das ideias. O mundo das ideias é o mundo da perfeição, que é eterno. Esses dois mundos e sua divisão são o ponto central da filosofia de Platão, também caracterizada por sua visão de homem como sendo corpo e alma. Assim, a alma, ou o espírito, é intelectiva (racional), superior. O corpo é irracio- nal (sensível), inferior.


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