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Livro 6 ano - Coleção FIM

Published by tobiasneuhaus, 2022-02-01 03:49:22

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51 PLATÃO, ARISTÓTELES E O CONHECIMENTO Platão afirmava que o homem tem ideias inatas, isto é, an- teriores a toda e qualquer experiência sensorial. São ideias que existem na mente humana desde o nascimento e que, com o tempo, manifestam-se. O conhecimento ocorre por meio das lembranças das ideias de um outro mundo em que conhecía- mos tudo, mas, ao cairmos neste mundo físico, as esquecemos. Estamos sempre à procura das ideias verdadeiras (a verdade está nas ideias). Para Platão, o conhecimento é um caminho que tem um processo, cujos passos são: “eikasia, doxa, episteme2”. Aristóteles dizia que o homem nasce como uma tábula rasa, ou seja, como uma folha em branco; com o tempo, em contato com as coisas, tomamos conhecimento e formamos as ideias. A verdade é uma adequação entre o conhecimento e a coisa. O CONHECIMENTO NO CRISTIANISMO E NA IDADE MÉDIA O cristianismo trouxe novos elementos que alteraram o pensamento grego. Introduziu a dis- tinção entre fé e razão, matéria e espírito e, consequentemente, concluiu que o erro e a ilusão fazem parte da natureza humana adquirida pelo pecado original, que faz um homem decair e perverter-se. Isso possibilita a crença em uma força sobrenatural, potente. Santo Agostinho utilizou os argumentos de Platão e incorporou-os ao cristianismo, intro- duzindo um elemento novo no pensamento de Platão, com relação ao mundo das ideias. Agostin- ho incluiu esse mundo das ideias na mente do Criador, o que alterou o pensamento platônico, pois este de objetivo tornou-se subjetivo. O mundo das ideias estava na mente de Deus. A IDADE MODERNA E O CONHECIMENTO O desejo de não cair em novos erros pendeu para uma nova O desafio de pensar sobre o pensar revolução baseada em métodos seguros, positivos, matemáti- Aprofunde o tema cos e que permitiam cercar os elementos estudados, enume- Correntes Filosó- rá-los e garantir um mínimo de erros. A revolução científica ficas utilizando o dava segurança aos experimentos. Duas correntes surgiram leitor de código para solucionar o problema do conhecimento e garantir um QR ou na Platafor- método que determinasse com precisão se o conhecimento é ma do Pensar. verdadeiro ou não. 2. Eikasia – quer dizer imagem simbolizada pela representação, aparência. Doxa – significa opinião, já é um tipo mais aproximado de conheci- mento, porém baseado nos sentidos. Episteme – é o conhecimento verdadeiro.

O Início de uma Mudança52 CORRENTE INATISTA A corrente inatista afirmava que nascemos trazendo em nossa inteligência não só os princí- pios racionais, mas também algumas ideias verdadeiras. O principal representante desta corrente foi Descartes. Ele foi o filósofo que apresentou o método baseado no sistema científico aplicado na Filosofia. O ponto de partida era encontrar uma verdade que não gerasse dúvida. CORRENTE EMPIRISTA A corrente empirista afirmava que a razão, a verdade e as ideias racionais são adquiridas por nós mediante a experiência. Nosso conhecimento começa com a experiência dos sentidos, com as sensações. A SEGUNDA FASE É chamada de transcendental, elaborada por Immanuel Kant (considerado o pai da teoria do conhecimento), considerava o conhecimento uma operação transcendental, isto é, vir à presença do objeto, apontá-lo ou, com o termo preferido pela filosofia contemporânea, transcender em sua direção. Kant criou um método ao propor perguntas sobre a validade lógica: como é possível o conhecimento? Sobre quais fundamentos ele repousa? Para entender a diferença entre as duas fases, podemos dizer que, para os filósofos da primeira fase, o objeto ou as coisas ocupavam o lugar principal de nossas atenções. A partir de Kant, na segunda fase, o sujeito passou a ocupar o lugar principal, sendo que os objetos e as coisas estão diante do sujeito. DOIS ENFOQUES SOBRE A RELAÇÃO ENTRE SUJEITO E OBJETO Todo conhecimento parte de uma relação entre sujeito e objeto. O problema surge quando se discute se há ou não possibilidade de conhecer ou quanto à origem do conhecimento e sua essên- cia. Há dois enfoques sobre a relação entre sujeito e objeto, em se tratando do conhecimento. OBJETIVISMO Para o objetivismo, o objeto determina o sujeito. O objeto não muda nada na relação com o sujeito. O sujeito praticamente incorpora as determinações do objeto. O sujeito, na relação com o objeto, transforma e apreende o objeto. Surge no sujeito uma figura que contém as determinações do objeto, uma imagem do objeto. O objeto, nesta perspectiva, é dado ao sujeito. O objeto é deter- minante, o sujeito é determinado. Platão foi o primeiro a defender o objetivismo. Para Platão, as ideias são realidades objetivamente dadas. SUBJETIVISMO O subjetivismo, ao contrário, tem a postura de que o conhecimento parte do sujeito. É no su- jeito que a verdade do conhecimento está. Não entende o sujeito como ser pensante individual, mas um sujeito superior, transcendente. Santo Agostinho causou essa mudança do objetivismo platônico para o subjetivismo. Ele transformou as ideias objetivas de Platão em essencialidades ideais, existentes por si em conteúdo da razão, em pensamento de Deus.

53 PPeaarrraeafsslaaebbtieerrr OUTRAS FORMAS nnaaCCOOMM..AA..II.. DE CONHECIMENTO Vamos ampliar a noção de alguns conceitos usados neste capítulo para identificar melhor as formas de conhecimen- to. Alguns foram citados acima, mas aqui são apresentadas outras formas. É importante ter claros alguns pontos quanto ao conhe- cimento do mundo e das coisas. Podemos conhecer o mundo Comunidade de de cinco formas. Algumas delas já foram vistas em capítulos Aprendizagem anteriores, porém podemos reforçar e desenvolver melhor Investigativa o conceito. Portanto, as formas de conhecimento são cinco. Mitológico: é um tipo de conhecimento elementar, a forma mais simples de obtê-lo. O mito proporciona conhecimento que é mágico e anseia por atrair o bem e afastar o mal. Este tipo de conhecimento dá segurança e bem-estar. Os homens pri- Assista ao vídeo mitivos usavam-no muito para tentar organizar o caos mental sobre o senso em que se encontravam. comum utilizando Senso comum: é o conhecimento espontâneo, resultado da o leitor de código herança e das experiências de um grupo. É um tipo de conhe- QR ou na Platafor- cimento que parte de observações simples, mas sem preocu- ma do Pensar. pação de garantia científica rigorosa. Ele se dá pela apreensão primeira do mundo (é comum ouvir dizer: o sol nasce ou o sol se põe). Científico: procura descobrir o funcionamento da natureza por meio das relações de causa e efeito por intermédio de mé- todos. É o conhecimento objetivo. Estabelece regras e descobre as leis da natureza para poder oferecer conhecimento preciso. Filosófico: busca com todo rigor a origem dos problemas re- O desafio de pensar sobre o pensar lacionados a outros aspectos da vida humana, em uma visão global. A Filosofia é conhecimento radical. “Ser ou não ser? Eis a questão”. Shakespeare Artístico: maneira peculiar de manifestar o conhecimen- to. O conhecimento não se dá por meio de um objeto, mas de um mundo interpretado pela sensibilidade de artista, por suas qualidades estéticas. Pela arte, podemos conhecer a época, os costumes e a região que o artista quer descrever, além de po- dermos interpretar a obra do artista sob vários aspectos.

54 1. O que diferencia um conhecimento mitológico do senso iaRRnçeeõtfeflelsrexdixnõieõtsescereis-- comum? 2. O que diferencia o conhecimento concebido na Idade pdnCilasiOcnCipaOMlrMine.Asa.Arn.eI.I.sa. Média do concebido na Idade Moderna? 3. Já lhe aconteceu de mudar de ideia conhecendo fatos ou Comunidade de conhecendo a realidade de um acontecimento? Conte como Aprendizagem foi. Investigativa PPcceeonnmssaaoorr AS CONSEQUÊNCIAS DAS PPRNRNOOIISSTTTTAAAAGGSSOO- OPÇÕES QUE FAZEMOS Alguns pontos foram destacados neste capítulo. En- tre estes pontos, os mais variados modos de conhecer, tanto sob o aspecto histórico quanto sob a interpre- tação da forma de conhecer. Vimos que conhecer muda nossa forma de pensar. O conhecimento é uma fonte de enriquecimento. Em COM.A.I., vamos trabalhar estes temas para fortalecer nossas convicções. Desenvolvimento: cada grupo procurará notícias de jornal e/ou revistas, vídeos, que retratem várias situações como crimes cometidos por jovens; homens e mulheres que rea- lizaram atos heroicos e de bravura; pessoas drogadas e suas atitudes de roubos, agressões; personagens que vieram de ambientes pobres e desprovidos e tornaram-se grandes empreendedores; corrupção nas mais variadas instâncias da sociedade etc. É importante recorrer à colaboração de outras disciplinas como: religião, ciências, história etc. O grupo vai escolher um desses artigos e, diante dos fatos que o artigo apresenta, responderá às perguntas abaixo. O Início de uma Mudança Registrando nossa atividade: a. É o ambiente que faz as pessoas serem o que são ou há outros fatores que influenciam no que as pessoas são? O que o grupo tem a dizer sobre isso? Exemplificar com o fato analisado. b. Para estas pessoas, há falta de conhecimento ou de condições para serem o que são? c. Qual dos dois enfoques: objetivista (o ambiente, as coisas, determinam o agir) ou subjetivista (eu determino as coisas, a verdade). Diante da possibilidade de uma agressão a uma pessoa ou um grupo de pessoas, justificar qual desses enfoques pode levar ou desistir dessa melhor situação.

55 “P“fPfoeoernrnaassadadrara PLATÃO (427-347 A. C.) ccaaiixxaa””ee “O mito da caverna” ddeeiixxaarr mmaarrccaass O mito da caverna, além de ilustrar outros temas, apre- senta a ideia de dois mundos: o mundo físico (ilusório, enganoso e mutável) e o mundo real (permanente e ver- dadeiro). O texto a seguir é de Platão, descrito no livro “A república”. Trata-se de um diálogo metafórico em que as falas na primeira pessoa são de Sócrates e Glauco, irmão de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhe- cimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca pela verdade. Sócrates – Agora, imagina... Homens em uma morada subterrânea, em forma de O desafio de pensar sobre o pensar caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz che- ga-lhes de uma fogueira acesa em uma colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa es- trada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresenta- dores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas. Glauco – Estou vendo. Sócrates – Imagina, agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transpor- tam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportado- res, uns falam e outros seguem em silêncio. Glauco − Um quadro estranho e estranhos prisioneiros. Sócrates − Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, em uma tal con- dição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte? Glauco − Como, se são obrigados a ficar com a cabeça imóvel durante toda a vida? Sócrates − E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo? Glauco − Sem dúvida. Sócrates − Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam? Glauco − É bem possível. Sócrates − E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles? Glauco − Sim, por Zeus!

O Início de uma Mudança56 Sócrates − Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados? Glauco − Assim terá de ser. Sócrates – Considera, agora, o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem liber- tados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisio- neiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fan- tasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora? Glauco − Muito mais verdadeiras. Sócrates − E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram? Glauco − Com toda a certeza. Sócrates − E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras? Glauco − Não o conseguirá, pelo menos de início. Sócrates − Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região su- perior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contem- plar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, du- rante o dia, o Sol e sua luz. Glauco − Sem dúvida. Sócrates − Por fim, suponho eu, será o Sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é. Glauco − Concordo. Sócrates − Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna. Glauco − É evidente que chegará a essa conclusão. Sócrates − Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se pro- fessa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegra- rá com a mudança e lamentará os que lá ficaram? Glauco − Sim, com certeza, Sócrates.

57 Sócrates − E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e pode- rosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia? Glauco − Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira. Sócrates − Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar. Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao afastar-se bruscamente da luz do Sol? Glauco − Por certo que sim. Sócrates − E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena ten- tar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo? Glauco − Sem nenhuma dúvida. Sócrates − Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta ima- gem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha ideia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Zeus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a ideia do bem é a última a ser apreendi- da, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligên- cia; e é preciso vê-la para comportar-se com sabedoria na vida particular e na vida pública. Glauco − Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la. Platão. A república. Livro VII Pensaram “fora da O desafio de pensar sobre o pensar caixa” e deixaram marcas. E você?

O homem posto à prova As correntes filosóficas sobre o conhecimento 05

59 ddPiPisseeccnnuussttaiairrrr,e,e pprorodudzuirznira CCOOMM..AA.I..I. Comunidade de Aprendizagem Investigativa O CRÉDULO E O INCRÉDULO Dois exploradores encontram uma clareira na selva. Nela, crescem muitas flores com beleza O desafio de pensar sobre o pensar sem par. Um dos exploradores diz: – Há, sem dúvida, um jardineiro que mantém este jardim. O outro não concorda: – Não há nenhum jardineiro. Assim sendo, eles montam suas tendas e põem-se a vigiar o local. Nenhum jardineiro é visto em nenhum momento. Será que se trata de um jardineiro invisível? Os dois exploradores fazem, então, uma cerca de arame farpado e a eletrificam, guardando-a com sabujos³. Nenhum grito surge, nunca que algum intruso tenha tentado entrar no jardim. Apesar disso, o primeiro explorador ainda não se convenceu: – Mas existe um jardineiro invisível, intangível, insensível às descargas elétricas, um jardinei- ro que não tem cheiro, nem faz barulho, um jardineiro que vem secretamente cuidar do jardim. No final, o cético desanima: – Mas o que resta de sua primeira afirmação? E em que, precisamente, isso que você chama de jardineiro invisível, intangível, eternamente inapreensível, difere de um jardineiro imaginário ou até de um jardineiro absolutamente inexistente? O primeiro explorador vai então colher uma flor e, sem nada dizer, oferece-a com um sorriso ao céptico, que não se afasta um minuto da cerca: – Por que este gesto de afeição? – Pergunta surpreso. – Para lhe perguntar se você consegue ver a velha amizade que nos une há tantos anos. O outro responde: – Lógico que não! 3. Sabujos: usados para designar aduladores e bajuladores.

60 – O essencial é invisível aos olhos (como dizia o Pequeno Príncipe). Só conseguimos ver bem com o coração! Será que não é isso o que acontece com Aquele que com tanto amor cuida deste jardim? Autor desconhecido A nossa experiência tem demonstrado que, muitas vezes, o que não é visível é o que mais signi- ficado tem na nossa vida. Para descobrir, é necessário aguçar nossos sentidos e desenvolver nossa sensibilidade. Na COM.A.I., vamos partilhar fatos e acontecimentos que pareciam invisíveis aos olhos, mas que foram marcantes para nós. Cite e comente pelo menos dois destes fatos, tendo presente a mensagem do texto “O crédulo e o incrédulo”. O Início de uma Mudança CORRENTES FILOSÓFICAS AAmmpplliiaaççããoo ddooss SOBRE O CONHECIMENTO entendimeennttooss A mente, diante do desconhecido, procura es- Aula com o assessor pedagógico tabelecer uma ordem. Esse processo dá-se quan- do, diante do já existente, dado como certo, in- Assista utilizando o leitor de troduzem-se novos espaços, de modo a alcançar código QR em seu celular ou novas interpretações da realidade. conectando-se na Plataforma Os primeiros filósofos tinham certeza de que do Pensar. podiam conhecer as coisas, porque o conheci- mento é aletheia, as coisas eram como se apre- Aletheia: significa verda- sentavam. Para eles, o conhecimento não era um de, desvelamento. Desvelar é problema, pois o mundo era inteligível. “O co- tirar o véu. Véu que encobre nhecimento se faz pela formação de conceitos o que existe. que são verdadeiros enquanto são adequados à realidade existente”. (Aristóteles) Aprofunde o tema “As Correntes Filo- Surgiram várias correntes filosóficas das mais sóficas”, utilizando o variadas tendências, como o dogmatismo e o ceti- leitor de código QR cismo, e, deles, surgiram outras correntes. Todas ou na Plataforma essas correntes procuram responder a estas per- guntas: do Pensar. É ou não possível conhecer a realidade? Como se dá o conhecimento no sujeito?

61 O DOGMATISMO Dogmatismo vem do grego “dogma”, que quer dizer doutrina estabelecida. Esta corrente filo- sófica parte do princípio de que podemos conhecer a realidade tal qual ela se nos apresenta. Não a vê como uma relação entre sujeito e objeto. Aceita conhecer a verdade, mas por meio de uma combinação entre nossos sentidos e nossa inteligência. Segundo ele, é certo que o conhecimento se dá mediante essa harmonia entre os sentidos e a inteligência. O dogmatismo parte da certeza de que podemos conhecer o mundo tal qual ele é, sem grandes dificuldades. Quando conhecemos uma mesa, conhecemo-la tal qual ela é, mas não é só nesse nível, pois podemos conhecer tudo: a origem das coisas e do mundo, por sua manifestação a nossos sentidos. Muitas vezes, não conhe- cemos tudo, porque faltam a nossos sentidos mais informações, como um cego que pode conhe- cer as coisas parcialmente e não completamente. O dogmatismo pode ainda ser: o dogmatismo ingênuo e o dogmatismo crítico. Do dogmatis- mo, descortinam-se várias correntes como as a seguir. EMPIRISMO Afirmam os empiristas que conhecemos os objetos desde que tenham passado por nossos sen- tidos (audição, olfato, paladar, tato, visão). John Locke disse: “Quando nascemos, nossa mente é como um papel em branco, completamente desprovida de ideias. Os sentidos, por meio da expe- riência, dão o conhecimento das coisas. Eles escrevem no papel da nossa mente”. RACIONALISMO O termo expressa a “total e exclusiva confiança na razão humana”, como instrumento capaz de conhecer a verdade. O Racionalismo defende que só a razão dá certeza de conhecer algo. Os erros e as confusões veem de nossos sentidos. Descartes é o grande defensor deste pensamento. MATERIALISMO O desafio de pensar sobre o pensar Doutrina filosófica que admite como realidade apenas a matéria. Nega a existência da alma e do mundo espiritual ou divino. Embora tenha sua origem desde os primórdios da filosofia grega, ganhou destaque de forma mais presente na história a partir do século XVI. As principais ideias desenvolvidas pelo materialismo são:

O Início de uma Mudança62 A matéria é a substância de todas as coisas. A geração e a degeneração do que existe obedecem a leis físicas. A matéria encontra-se em permanente metamorfose. A alma faz parte da natureza e obedece às suas leis. Há vários tipos de Materialismo, porém o que se destacou foi o materialismo dialético. MATERIALISMO DIALÉTICO Esta corrente vê o conhecimento como um processo que evolui da experiência sensível à lógica racionalista, e os dados sensíveis, ordenados pela razão, são confrontados, e chega-se à conclusão. O processo do conhecimento, segundo o materialismo dialético, acon- tece do confronto entre duas forças: negativa – o não saber; positiva – para o saber. Este chegar ao conhecimento é a síntese. O materialismo afirma que cada conceito possui em si o seu con- trário; cada afirmação, a sua negação. É a luta dos contrários. O ma- terialismo dialético vê o mundo não como um conjunto de coisas prontas e acabadas, mas sim o resultado do movimento gerado pelo choque dessas forças opostas e contradições. A afirmação traz em si o germe de sua própria negação; depois de se desenvolver, essa negação entra em choque com a afirmação e esse choque vai gerar um terceiro elemento mais evoluído que é denominado de “síntese”. CETICISMO Nos primórdios da Filosofia, surgiu um modo de pensar oposto ao dogmatismo, que se baseava no princípio de “não aceitar uma informação como conhecimento seguro sem antes investigá-la”. Esta corrente filosófica foi denominada como ceticismo. Propunha responder à pergunta: é possí- vel o conhecimento? A palavra “cético” vem da língua grega e quer dizer “aquele que observa, reflete”. Filosofica- mente, apresenta-se como uma doutrina para a qual o espírito humano não poderia atingir com certeza a verdade, pois, para isso, seria necessário suspender o juízo e praticar a dúvida. O modo de agir dos céticos é observar tudo e sempre continuar investigando. Duvidavam, porque o resul- tado de suas pesquisas era a dúvida. Devido à forma de se posicionarem diante da realidade, com as discussões e os debates dos pensadores, desenvolveram duas correntes de ceticismo. Ceticismo absoluto: nega qualquer possibilidade de conhecer algo. Ceticismo relativo: admite nossa capacidade de conhecer.

63 SUBJETIVISMO Corrente filosófica que centraliza as certezas no sujeito. O juízo só vale para o sujeito que o formulou, mas esse tipo de juízo desemboca no ceticismo, porque, ao se afirmar como certo seu modo de conhecer, negam-se todas as outras pessoas que pensam diferentemente. Considera que existe a possibilidade de que um juízo verdadeiro para os homens seja falso para seres de outro tipo. Os sofistas são os representantes clássicos do subjetivismo. Protágoras foi seu maior representante, sendo isso expresso na frase “O homem é a medida de todas as coisas”. RELATIVISMO Para o relativismo, não há verdade absoluta, toda verdade é relativa, e tem validade restrita. “Só há verdade para as pessoas no âmbito cultural a que pertencem”. Splenger PROBABILISMO Os probabilistas defendem que se pode apenas alcançar uma verdade provável, mas nunca se chegará à plena certeza, portanto, caem no ceticismo, pois, quando afirmam que não há verdade universalmente válida, contradizem-se, pois já afirmam uma verdade que se garante universal- mente. PPaarraa ssaabbeerr É OU NÃO POSSÍVEL O desafio de pensar sobre o pensar e refletir CONHECER A REALIDADE? nnaaCCOOMM..AA..II.. Vivemos em sociedade e precisamos dos outros. Po- Comunidade de rém, quando buscamos ser éticos, estamos mostrando um Aprendizagem modo de ser, a maneira como organizamos nossa própria Investigativa vida na sociedade. Você acha isso fácil? Junto a essa característica humana, está outra que se refere ao desejo de ser livre, autor dos próprios atos. Uma busca que fazemos durante toda nossa existência.

64 Parece que esta é a função de quem busca ter um pensa- Pesquise mais so- mento reflexivo, filosófico: “refletir sobre os fatos e as suas bre os pensadores consequências. Pensadores modernos, entre eles Heidegger e Heidegger e Georg Georg Lukács, utilizam a palavra metafísica quando a reflexão Lukács utilizando busca o significado das coisas, dos entes (ser). Como a Filosofia, o leitor de código a metafísica leva o homem a “ler por dentro” dos fatos aconteci- QR ou na Platafor- dos e que acontecerão. Esse “ler por dentro” nada mais é do que ma do Pensar. investigar a base, o que sustenta, o que é permanente, para daí poder interpretar a dinâmica das coisas e dos homens. Diante disso, podemos analisar os modos como as pessoas veem o mundo, como nós vemos o mundo e o que sustenta tal forma de ver. Assim temos a lista abaixo: Pessoas religiosas: cuja base, o modelo, é uma crença, uma di- vindade, um deus. Ex.: a vida é um dom de Deus, é sagrada porque Deus é sagra- do. Portanto, a vida é intocável, estando em embrião ou des- envolvida, sob qualquer aspecto. Pessoas racionalistas: cuja base, o modelo, é a razão, o logos. Ex.: uma inteligência, ideia ou razão que está dentro do uni- verso e se manifesta, sobretudo, na mente e na história dos homens. Pessoas materialistas: cuja base, o modelo, é o trabalho e sua dimensão humana. Ex.: as relações de trabalho são vistas em sua dimensão huma- na, e daí analisados os problemas da sociedade e os caminhos de solução. Pessoas pragmáticas: cuja base, o modelo, é o agir humano. Ex.: é boa a ação com resultados positivos, é o futuro ou o re- sultado que dirá se a ação é boa ou má, verdadeira ou falsa. Pessoas positivistas: cuja base, o modelo, é o fato observado. Ex.: pelas leis físicas, é possível entender toda a realidade. Pe- las leis naturais, temos a ordem e, dentro desta, acontece o progresso da razão humana/científica. O Início de uma Mudança

65 iaRRnçeeõtfeflelsrexdixnõieõtsescereis-- 1. Quais são as certezas que você tem hoje? Cite algumas. pdnCilasiOcnCipaOMlrMine.Asa.Arn.eI.I.sa. Estas certezas foram as mesmas que você tinha há quatro ou cinco anos atrás? Comente. 2. Imagine como agiria na vida uma pessoa que duvida de tudo? Descreva suas atitudes. Comunidade de 3. Haveria outra forma de se posicionar diante de aceitar tudo ou Aprendizagem negar tudo? Investigativa 4. Quando eu conheço um fato histórico, isso me garante que ele é verdadeiro? 5. Você conhece as coisas por meio dos sentidos ou da razão? EXISTE OU NÃO PPcceeonnmssaaoorr O desafio de pensar sobre o pensar GARANTIA DE CONHECER? PPRNRNOOIISSTTTTAAAAGGSSOO- No decorrer deste capítulo, observa-se a apresen- tação das mais variadas tendências a respeito da pos- sibilidade de conhecer. Várias correntes filosóficas de- fenderam posições opostas ou complementares. Desenvolvimento: com o quadro abaixo, a COM.A.I. é chamada a refletir e identificar as correntes e argu- mentar se as notícias e os fatos apresentados confir- mam ou põem em questionamento as correntes filosó- ficas que o texto apresenta.

66 O que pensavam O que acontece até nossos dias Sexo sem Sexo Relatório Shere Hite, em uma pesquisa femi- Obviamente, o sexo reina. Hoje, nina em 1980 mais do que nunca, as músicas, O Computador O ato sexual perderá importância. O intercur- os reclames dos MSC (Meios de O Brasil so deixará de ser tão popular. O uso do anti- Comunicação Sociais) são cada concepcional entrará em declínio e o debate vez mais voltados para o aspecto O Triunfo do homossexualidade versus heterossexualidade sexual. Comunismo não terá mais sentido. Já foram fabricados 300 mi- Espaço Thomas Watson, fundador da IBM, 1943 lhões de computadores em todo Família O mercado mundial terá lugar para cinco com- o mundo. putadores. A renda per capita brasileira é de 4.800 dólares e o PIB beira os Herman Khan, futurólogo americano no livro 800 bilhões de dólares. “O ano 2000”, de 1967 O Brasil terá uma renda per capita de 506 dóla- A União Soviética acabou em res e um produto interno bruto de 246 bilhões 1991 e o comunismo sobrevive de dólares. em estado puro apenas em Cuba e na Coreia do Norte. Timothy Leary, guru americano da contracul- tura nos anos 60 Continuamos com os pés no O comunismo dominará o mundo, com exceção chão. de Estados Unidos, Canadá, Austrália. A Europa Ocidental se tornará satélite da União soviética. A vida ainda gira em torno do núcleo familiar. Gerared K. Oneil, professor de física da Uni- versidade Princeton e autor do livro Colônias humana no espaço, 1980 Haverá mais humanos vivendo no espaço do que na Terra. Ernest Callenbach, autor de Ecotopia, em 1961 A família será substituída por clubes de amigos. Todos trabalharão menos, ganharão menos, as- sistirão menos à televisão. ANALISANDO O QUADRO: a. Este quadro confirma alguma corrente filosófica apresentada neste capítulo? Qual? b. Como você justifica a confirmação da corrente filosófica que você aponta como correta para estas previsões? c. As afirmações apresentadas na primeira coluna da esquerda são fundamentadas ou houve muito otimismo nas previsões? d. Em COM.A.I., acrescente uma terceira coluna neste quadro e coloque como estão hoje as pre- visões da primeira coluna. O Início de uma Mudança e. Tem algum fato ou alguma descoberta nos dias de hoje que contribuiu para justificar a corrente filosófica racionalista? Cite algumas descobertas ou avanços científicos. f. Pode justificar ou não, nos dias de hoje, as ideias do empirismo? Acesse mais exer- COMENTE: cícios e atividades Faça uma relação de três fatos de sua vida que você não sabia utilizando o leitor e que agora sabe. Descreva como você soube deles. Destaque a de código QR ou idade e o ano que tinha e, depois, exponha na COM.A.I. na Plataforma do Pensar.

67 ““PPffooeerrnnaassaaddrraa DESCARTES (1596-1650) caixa” e “O Discurso do Método” deixar mmaarrccaass O MÉTODO CARTESIANO Descartes, na sua obra “O discurso do método”, entre tantos outros temas, descreve sobre seu método como garantia para poder chegar a um conhecimento seguro e mais preciso. Apresenta vários passos significativos não só para a comunidade científica da época, quanto até para nós. Descartes apresenta a história da sua pesquisa nas mais variadas ciências para elaborar o seu método. Vale a pena ler e observar o exemplo para realizar uma ativida- de reflexiva: observação, pesquisa e síntese. Eu estudara um pouco sendo mais jovem, entre as partes da filosofia, a lógica, e, entre as matemáticas, a análise dos geômetras e a álgebra, três artes ou ciências e que pareciam dever contribuir com algo para meu desígnio. Mas, examinando-as, notei que, quanto à lógica, meus silogismos e a maior parte de seus outros preceitos servem mais para explicar a outrem as coisas que já se sabem, ou mesmo, como a arte de Lúlio, para falar, sem julgamento, daquelas que se ignoram, do que para aprendê-las. E embora ela con- tenha, com efeito, uma porção de preceitos muito verdadeiros e muito bons, há, todavia, tantos outros misturados de permeio que são ou nocivos, ou supérfluos, que é quase tão difícil separá-los quanto tirar uma Diana ou uma Minerva de um bloco de mármore que nem sequer está esboçado. Depois, com respeito à análise dos antigos e à álgebra dos modernos, além de se estenderem apenas a matérias muito abstratas, e de parecerem de nenhum uso, a primeira permanece sempre tão abstrata à consideração das figuras, que não pode exercitar o entendimento sem fatigar muito a imaginação: e este- ve-se de tal forma sujeito, na segunda, a certas regras e certas cifras, que se fez dela uma arte confusa e obscura que embaraça o espírito em lugar de uma ciência que o cultiva. Por essa causa, pensei ser mister procurar algum outro método que, compreendendo as vantagens desses três, fosse isento de seus defeitos. Como a multidão de leis fornece amiúde escusa aos vícios, de modo que um Estado é mais bem dirigido quando, tendo embora muito poucas leis, são estritamente cumpridas, assim, em vez desse grande número de preceitos de que se compõe a lógica, julguei que me bastariam os quatro seguintes, desde que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de observá-los. O primeiro era jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal, isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção e nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão claro e tão distintamente a meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida. O segundo era dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para Pensaram “fora da O desafio de pensar sobre o pensar mais bem resolvê-las. O terceiro, conduzir por ordem meus pensamentos, começando pe- caixa” e deixaram los objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a marcas. E você? pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, su- pondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada omitir. DESCARTES. Discurso do método. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p.77-79

A natureza humana 06

69 ddPiPisseeccnnuussttaiairrrr,e,e pprorodudzuirznira CCOOMM..AA.I..I. Comunidade de Aprendizagem Investigativa O PEQUENO CONTO CHINÊS Conta-se que, por volta do ano 250 a.C., na China antiga, um príncipe da região norte do país O desafio de pensar sobre o pensar estava às vésperas de ser coroado imperador, mas, de acordo com a tradição, ele deveria se casar. Sabendo disso, ele resolveu fazer uma “disputa” entre as moças da corte ou quem quer que se achasse digna de sua proposta. No dia seguinte, o príncipe anunciou que receberia, em uma celebração especial, todas as pre- tendentes e lançaria um desafio. Uma velha senhora, serva do palácio havia muitos anos, ouvin- do os comentários sobre os preparativos, sentiu uma leve tristeza, pois sabia que sua jovem filha nutria um sentimento de profundo amor pelo príncipe. Ao chegar em casa e relatar o fato à jovem, espantou-se ao saber que ela pretendia ir à cele- bração, e indagou, incrédula: – Minha filha, o que você fará lá? Estarão presentes todas as mais belas e ricas moças da corte. Tire essa ideia insensata da cabeça. Eu sei que você deve estar sofrendo, mas não torne o sofri- mento uma loucura. A filha respondeu: – Não, querida mãe, não estou sofrendo e muito menos louca. Eu sei que jamais serei a esco- lhida, mas é minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos perto do príncipe, e isso já me torna feliz. À noite, a jovem chegou ao palácio. Lá estavam, de fato, todas as mais belas moças, com as mais belas roupas, com as mais belas joias e com as mais determinadas intenções. Então, inicialmente, o príncipe anunciou o desafio: – Darei a cada uma de vocês uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor, será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China.

70 A proposta do príncipe não fugiu às profundas tradições daquele povo, que valorizava muito a especialidade de “cultivar” algo – costumes, amizades, relacionamentos etc. O tempo passou e a doce jovem, como não tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava com muita pa- ciência e ternura de sua semente, pois sabia que, se a beleza da flor surgisse na mesma extensão de seu amor, ela não precisava se preocupar com o resultado. Passaram-se três meses e nada sur- giu. A jovem tudo tentara, usara de todos os métodos que conhecia, mas nada havia nascido. Dia após dia, ela percebia cada vez mais longe seu sonho, mas cada vez mais profundo seu amor. Por fim, os seis meses haviam passado e nada havia brotado. Consciente de seu esforço e sua dedicação, a moça comunicou a sua mãe que, independentemente das circunstâncias, retor- naria ao palácio, na data e hora combinadas, pois não pretendia nada além de mais alguns mo- mentos na companhia do príncipe. Na hora marcada, estava lá, com seu vaso vazio, bem como todas as outras pretendentes, mas cada uma delas tinha uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. Ela estava admirada, nunca havia presenciado tão bela cena. Finalmente, chegou o momento esperado, e o príncipe observava cada uma das pretendentes com muito cuidado e toda a atenção. Após passar por todas, uma a uma, ele anunciou o resultado e indicou a bela jovem como sua futura esposa. As pessoas presentes tiveram as mais inesperadas reações. Ninguém compreendeu por que ele havia escolhido justamente aquela que nada havia cultivado. Então, calmamente, o príncipe esclareceu: – Esta foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma imperatriz: a flor da honestidade, pois todas as sementes que entreguei eram estéreis. Moral da história: “Se, para vencer, estiver em jogo sua honestidade, perca. Você será sempre um vencedor.” Autor desconhecido Muitos dizem que é da cultura do povo brasileiro usar da mentira para se safar. Esta afirmação é verdadeira, é uma característica da natureza humana ou faz parte da nossa cultura? Justifique. O filósofo holandês Erasmo de Roterdã afirma que “A mente humana é mais suscetível à men- tira do que à verdade”. Com esta afirmação, podemos dizer que se justifica nossa tendência para enganar, ultrapassar as pessoas e fazer corrupção? O Início de uma Mudança

71 AAmmpplliiaaççããoo O NATURAL E A NATUREZA dos Do latim naturalis, o termo natural tem vários significados e usos. Trata-se de tudo aquilo que eenntteennddiimmeennttooss pertence ou que é relativo à natureza. Por exemplo: “Este sumo da laranja é natural, não tem qualquer conservante nem aditivo”. Outra maneira de expressar esta palavra, natu- ral, é o que está em conformidade com a proprieda- de ou a qualidade das coisas: “É natural que a mesa tenha se partido, não podia suportar tanto peso em cima”. “O povo foi castigado com uma catástrofe natural de imensas proporções”. “O fogo iniciou por causas naturais, sem interferên- cia humana”. Uma pessoa natural é aquela que age com espontaneidade na sua forma de estar: “O Ricardo é bastante natural, é impossível não reparar no que está sentindo”. Dizer que alguma coisa é natural ou faz parte da natureza implica dizer que essa coisa existe como efeito de uma causa necessária. Isso significa que essa coisa não depende da ação e intenção dos seres humanos. Exemplos: É da natureza do homem ter um coração. É da natureza da água ser composta por H2O. É da natureza da macieira produzir maçã. É da natureza do pássaro voar. O termo natureza faz referência aos fenômenos do mundo físico, e também à vida em ge- O desafio de pensar sobre o pensar ral. Geralmente, não inclui os objetos construídos pelo homem. A palavra natureza provém da palavra latina natura, que significa “qualidade essencial, disposição inata, o curso das coisas e o próprio universo”. A palavra natureza pode oferecer diversos conceitos para o seu significado, como, por exem- plo, algo que caracteriza qualquer ser vivo, que pode ter como sinônimo o termo essência. Muitas vezes, ouvimos alguém dizer: “Não se pode mudar isso, faz parte da sua natureza”. “A natureza é o princípio e a causa do movimento e do repouso da coisa a qual ela se insere primeiramente e por si.” Aristóteles

72 A natureza é entendida como algo que ocorre na história sem interferência do homem. É natural o curso das águas rio Aprofunde mais o abaixo. É natural, depois de nove meses de gestação, o nasci- tema utilizando o mento de uma criança. Este seria o período de maturação do leitor de código QR feto no ventre da mãe para nascer. Esta é nossa história. ou na Plataforma Quando saímos deste curso, geralmente isso aconte- do Pensar. ce por uma intervenção humana direta ou indireta. Esta é outra forma de conceber a natureza: a científica, que difere das anteriores. A natureza não é apenas a realidade externa, mas é um objeto de conhecimento construído pelas operações científicas. Os laboratórios são aparelhos que reproduzem ambientes externos, como se fossem da natureza externa, mas controlada e orientada pelos homens. Por exemplo: reproduzir descargas elétricas (raios) como acontece nas tempestades, só que quando e onde o homem quer. NATUREZA HUMANA A cultura, então, passa a ser uma segunda natureza para nós. Embora não seja da nossa natu- reza, a cultura está tão internalizada que passamos a aceitar como algo que já faz parte de nossa existência, como natural. Observe o exemplo: quando vieram para o Brasil, os imi- Assista aos vídeos grantes alemães trouxeram seus costumes, que eram carac- “A Natureza Hu- terísticos de sua origem. As casas, por exemplo, eram com mana”, utilizando o telhados altos e empinados, para que a neve escorresse, evi- leitor de código QR tando o peso acumulado sobre as telhas. Aos poucos, perce- ou na Plataforma beram que esse tipo de casa, próprio para lugares com neve, do Pensar. como a Alemanha, não era conveniente no Brasil, devido ao clima ser bem diferente do europeu. Em algumas cidades em que há construções deixadas por colonizadores, há redução nos im- postos ou outros incentivos fiscais, para que os moradores conservem ou construam as casas no estilo original. Embora a cultura seja duradoura, ela adapta-se e modifica-se para enfrentar os desafios da existência. Um pesquisador pode descobrir, pelo modo de agir, de falar, de fazer e de construir, a origem e as influências que um determinado povo teve ao longo de sua história. Ele observa os instru- mentos, utensílios e vestígios encontrados em uma certa região ou um povoado. Basta ver nossa história: como viviam os índios e o que aconteceu com eles na colonização portuguesa? Até hoje procuram manter seu modo de agir (apesar de tantas agressões à sua cultura), bem como com suas danças, seus remédios. O Início de uma Mudança Alterar costumes é tarefa penosa, e exemplos disso não faltam, basta notar a dificuldade dos mais idosos em aceitar algumas mudanças nas atitudes de nossos tempos, e assim por diante. Esses costumes foram internalizados e passam a ser considerados naturais em um ambiente ou em uma sociedade. Por isso, ouvimos muitas vezes expressões como: “aqui, há um conflito de ge- rações”, sobretudo nas relações entre pais e filhos, ou nas relações sociais, quando nos referimos a mudanças de valores. Portanto, todo esse conjunto de elementos que compõe a existência das pessoas forma a natu- reza humana.

73 A SEGUNDA NATUREZA Há uma íntima relação entre linguagem, pensamento, conhecimento e cultura. Há uma só re- lação em um todo. É claro que a cultura não se faz sem linguagem, pensamento e conhecimento, mas a linguagem e o pensamento não se estruturam sem a cultura. Se há uma divisão, ela existe apenas para efeitos didáticos. A palavra cultura vem do latim colere, que significa cuidar, tomar conta. Foi usada primei- ramente entre os povos primitivos para as atividades agrícolas, mais tarde foi incorporada aos vocabulários religiosos, pois o cuidado das coisas divinas e o fato de tomar conta das atividades religiosas passaram a ser um culto. Esse termo não se restringiu a essas atividades, pois passou a ser utilizado na política, nos conhecimentos, nas ciências e nas artes, e é por isso que hoje abre um leque de interpretações. A palavra cultura, como vimos, tem uma ampla significação. Essa multiplicidade de conceitos é característica da cultura que, por ser um processo, é dinâmica. Essa dinamicidade gera caracterís- ticas que determinam a cultura. O que há de comum em todos estes conceitos é que eles contêm uma ideia de desenvolvimento, de formação e realização. A cultura não tem período para acontecer. Não é privilégio de povos desenvolvidos ou de civi- lizações e sociedades. Tanto os povos pré-históricos como os atuais possuem sua cultura. Como se pode perceber, nascemos e somos envolvidos dentro de uma sociedade, sendo nutri- dos com seus valores, suas verdades e atitudes. Vamos assimilando-os e nos adaptando a eles de tal maneira que parece ser de nossa natureza o fato de pensarmos e agirmos dessa ou daquela forma. CULTURA É: O vestígio de tudo aquilo que adquirimos ao longo de nossa história. A soma dos fazeres humanos (conhecimento, crenças, arte, moral, direito, costumes, aptidões). Fruto de um trabalho de construção, assimilação de ações, que é interna- lizado de forma sutil e imperceptível. TRADIÇÃO A tradição é algo que passa de pessoa para pessoa ou de um grupo humano para outro. O desafio de pensar sobre o pensar Ultimamente, fala-se pouco de tradição. A palavra tradição, conforme a circunstância, pode ser entendida sob dois aspectos: positivo ou negativo. Sob o aspecto positivo, tradicional, significa: que tem experiência, que tem valor, que tem história, que tem qualidade. Quando nos referimos ao tradicional sob o aspecto negativo, ressaltamos alguns pontos que se desgastaram durante o processo de atividade. A tradição cristalizou-se e perdeu sentido. Nesse aspecto, tradicional significa:

74 que é muito antigo, que é muito pesado, que é cheio de regras e estruturas, que é antiquado. A palavra tradição pode ter os dois sentidos, po- rém, o sentido mais comum deveria ser o do aspecto positivo. Negar o tradicional é não reconhecer o real valor das coisas, pois seria negar sua história, seus valores etc. Seria importante resgatar essa ideia. O texto a seguir ilustra a força e a influência dos costu- PPeaarrraeafsslaaebbtieerrr mes que adquirimos na convivência com o ambiente. Outro nnaaCCOOMM..AA..II.. aspecto muito interessante é a resistência para mudar esses costumes. A proposta deste momento é provocar, na nossa Comunidade de Aprendizagem, a investigação sobre a força da cultura e suas riquezas em nossa vida, como também a imperiosa necessidade de cultivar os costumes e os valores adquiridos e internalizados ao longo da nossa existência. AMALA E KAMALA Comunidade de Aprendizagem Investigativa O Início de uma Mudança Na Índia, onde os casos de meninos-lobo são relativamente nu- merosos, descobriram-se, em 1920, duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma família de lobos. A primeira, tinha um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, vi- veu até 1929. Não tinham nada de humano e seu comportamento era exatamente semelhante àquele de seus irmãos lobos. Elas caminhavam sobre quatro patas, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os peque- nos trajetos e sobre as mãos e os pés para trajetos longos e rápidos. Eram incapazes de permanecer em pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre, comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para a frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas em uma sombra. Eram ativas e ruidosas durante a noite, procu- rando fugir e uivando como lobos. Nunca choraram ou riram. Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e, pouco antes de morrer, seu vocabulário era de apenas cinquenta palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pes- soas que cuidaram dela e às crianças com as quais conviveu. Sua inteligência permitiu-lhe comu- nicar-se com outros por gestos, inicialmente, e depois por palavras, em um vocabulário rudimen- tar, aprendendo a executar ordens simples. REYMOND, B. Le développement social de l’enfant et de l’adolescent. Dessar, Bruxelas, 1965. p. 2-14

75 ENTENDENDO O TEXTO: a. Levando-se em consideração o texto, é possível a história de Mogli ou a de Tarzan? b. Diante de fatos semelhantes, que atitudes e procedimentos podem ser tomados para haver mudanças de hábitos e costumes nas pessoas? iaRRnçeeõtfeflelsrexdixnõieõtsescereis-- 1. Sendo a cultura tudo aquilo que um povo adquiriu e in- ternalizou ao longo de sua história, percebemos que faze- res humanos desenvolveram crenças, costumes, artes etc. Conhecendo a história do país e da nossa região, conhe- cendo com a colaboração dos professores de história, ar- tes, português, geografia e ensino religioso, matemática e pdnCilasiOcnCipaOMlrMine.Asa.Arn.eI.I.sa. ciências etc., encontrem alguns exemplos da nossa cultura e de como ela se transformou ao longo dos séculos nos se- guintes ambientes: a. No mundo: Comunidade de b. No Brasil: Aprendizagem c. No nosso Estado: Investigativa d. Na nossa cidade: 2. A tradição é um marco forte em alguns povos, em algumas regiões e até mesmo em nossa famí- O desafio de pensar sobre o pensar lia. Identifique algumas tradições comuns: a. Nos povos com descendência germânica, latina, oriental etc. b. Nas tribos indígenas. 3. O que conheço sobre os transgênicos e as suas consequências sobre as pessoas? Muitos dizem que os produtos transgênicos podem mudar nossa constituição genética. Sendo assim, eles podem mudar nossa cultura?

76 4. Complete os espaços vazios com palavras ou frases. a. é aquilo que está em cada um de nós. b. O pesquisador que, por meio de vestígios, descobre de um povo é fazem chamado de . c. Baião, boi de mamão ou bumba meu boi, festa junina e parte da . SOU O REFLEXO DO QUE SOU PPcceeonnmssaaoorr A constituição social e de valores de uma família ou de um povo passa por um processo longo que inclui vivên- PPRNRNOOIISSTTTTAAAAGGSSOO- cias, transmissão de conhecimentos, adaptação e assimi- lação. O tema deste capítulo será trabalhado nos livros do 8º e 9º anos, quando serão desenvolvidas e aplicadas no dia a dia as questões de valores (Ética) e das relações de poder e harmonia (Política e Estética). Você vai observar algumas características pessoais e do grupo, ou da própria escola, que influenciam e influenciaram no nosso modo de ser. Desenvolvimento: será distribuída uma folha com duas colunas. Na primeira, você deve listar as pessoas ou os fatos que contribuíram para o seu modo de pensar. Na segunda coluna, escreva qual foi a influência que você recebeu das pessoas (parentes, amigos, professores, escola, livro, filme etc.) ou dos fatos. LISTA DOS QUE INFLUENCIARAM MINHA FORMA DE PENSAR Fatos Contribuição Meus pais Amiga(o) A escola Professor(a) Um livro Fato presenciado O Início de uma Mudança Comentário e avaliação: a. Esta atividade ajudou a me conhecer? b. Percebi que não sou apenas uma soma do que eu faço, mas das influências das minhas relações com os outros e com o ambiente? Comente. c. O que você diria a alguém que diz “Eu nasci assim, sou assim e não mudo”? d. Nesta atividade, descobri coisas que nem imaginava ter conhecimento? Cite quais.

77 “P“fPfoeoernrnaassadadrara JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1712-1778) ccaaiixxaa””ee “A natureza e a Educação” ddeeiixxaarr mmaarrccaass Rousseau comumente conhecido e intitulado pela lite- ratura, filósofo e escritor. Visto como muito controverso, tanto na sua época quanto nos dias atuais. Uma das teses mais polêmicas de Rousseau é de que o homem é naturalmente bom, mas a civilização o corrom- pe. Defende uma educação baseada no contato com a na- tureza e de seguir o curso natural tanto da criança quanto da sociedade. O contato constante com o natural produz uma alma nobre no sentir e no pensar. Já a civilização cor- rompe aquilo que conquistamos na natureza: as exigências morais que norteiam e estruturam a nossa conduta no mundo. Corrupção, deslealdade, violência e egoísmo são frutos de um pro- cesso civilizatório desumano que o indivíduo não conhecia em estado primitivo. Os textos abaixo são de várias citações de Rousseau e tirados da obra Emílio, que retrata bem estas ideias. “Oh! Homem de qualquer região que sejas, quaisquer que sejam tuas opiniões, ouve-me; eis tua história como acreditei tê-la lido não nos livros de teus semelhan- tes, que são mentirosos, mas na natureza, que jamais mente.” (ROUSSEAU, 1978a, p. 237) “Ousarei expor aqui a maior, mais importante, a mais útil regra de toda a edu- cação? Não se trata de ganhar tempo, mas de perdê-lo. Leitores vulgares, perdoai meus paradoxos, é preciso cometê-los quando refletimos; e digam o que disserem, prefiro ser homem de paradoxos a ser homem de preconceitos. [...] É o tempo em que germinam os erros e os vícios sem que tenhamos ainda algum instrumento para destruí-los.” (ROUSSEAU, 2014, p. 96) “[...] O único hábito que devemos deixar que a criança adquira é o de não contrair nenhum (p. 49); [...] Homens, sede humanos, este é o vosso primeiro dever (p. 73); [...] Tudo é apenas loucura e contradição nas insti- tuições humanas (p. 78); [...] Vosso filho nada deve obter porque pede, mas porque precisa, nem fazer Pensaram “fora da O desafio de pensar sobre o pensar nada por obediência, mas somente por necessida- caixa” e deixaram de (p. 89); [...] A natureza quer que as crianças sejam marcas. E você? crianças antes de serem homens (p. 91); [...] Não há perversidade original no coração do homem (p. 95); [...] Mestres zelosos, sede simples, discretos, con- tidos (p. 101); [...] Tudo o que os homens fizeram os homens podem destruir; os únicos caracteres inde- léveis são os que a natureza imprime, e a nature- za não faz nem príncipes, nem ricos, nem grandes senhores (p. 260).”

Os riscos de se conhecer? Desafios – Atitudes – Realizações 07

79 ddPiPisseeccnnuussttaiairrrr,e,e pprorodudzuirznira CCOOMM..AA.I..I. Comunidade de Aprendizagem Investigativa CORAGEM Diz uma antiga fábula que um camundongo vivia angustiado com medo do gato. Um mágico teve pena dele e o transformou em gato. Mas aí ele ficou com medo do cão, por isso o mágico o transformou em cão. Então, ele começou a temer a pantera, e o mágico o transformou em pantera. Foi quando ele se encheu de medo do caçador. A essas alturas, o mágico desistiu. Transformou-o em camundongo novamente e disse: “Nada que eu faça por você vai ajudá-lo, porque você tem a coragem de um camundongo”. MORAL DA HISTÓRIA: é preciso coragem para romper com o projeto que nos é imposto. Mas saiba que coragem não é a ausência do medo, e sim a capacidade de avançar apesar do medo. Aprendi que a coragem não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas o que conquista esse medo. a. O que significa coragem para você? b. Todos os que têm coragem devem ser valentões? O desafio de pensar sobre o pensar c. Paradigma: é um termo muito usado hoje e significa ponto de referência, mais precisamente é entendido como modelo, padrão. Por isso escutamos: “mudaram os paradigmas”, “novos paradig- mas movem o mundo hoje” etc. Quais são os paradigmas que devem ser revistos hoje com relação a conceitos como: homem, mulher, pessoa fraca, herói, covarde...

80 OS DESAFIOS DE SE CONHECER AAmmpplliiaaççããoo Durante todos os capítulos deste livro, foram dos desenvolvidos os temas: o que é o conhecimento? Como funciona o nosso cérebro? E o que é o conhe- eenntteennddiimmeennttoosscimento de si? Neste capítulo, será tratado sobre o instrumento importante do conhecimento para que seja desenvolvido na realidade da vivência de cada um. Sabendo como conhecemos e em que aspecto o conhecimento interfere na realidade do dia a dia. A rea- lidade é o material em que o conhecimento trabalha. Os primeiros pensadores começaram a refletir a partir da reali- dade que os envolvia e justamente desses questionamentos é que perceberam o distanciamento entre as coisas e o sujeito que conhece. Iniciaram um novo modo de propor a reflexão de forma mais voltada ao interior de si, sobretudo de como a pessoa conhece e se o que conhece é o real. Tudo parte da realidade que nos envolve. Conhecer a realidade passa a ser o principal objetivo. O conhecimento não é tudo, e nem a solução dos nossos problemas e nossas dificuldades, mas é um instrumento para mudar e alterar o curso da realidade que nos cerca. A realidade faz parte da nossa condição humana. As ciências, os pensadores e pesquisadores têm como primeiro objetivo desvendar o desconhe- cido e propor novos caminhos. Mas, enquanto que para muitos, a realidade estimula o fascínio e a curiosidade, para outros essa mesma realidade pode assustar e intimidar. O fascínio é o deslumbramento de algo que mexe com as nossas emoções e gera a expectativa de novidade e por isso provoca a curiosidade. E por que assusta e intimida? Porque o conheci- mento nos leva a desalojar do nosso comodismo e da comodidade de estar como está. Por isso o conhecimento é um desfio e um risco porque não temos a certeza do que virá do novo, do devir. Toda esta tarefa de estudar o conhecimento e o próprio conhecimento passa a ser um desafio, um risco. A ideia de risco contém estes dois aspectos: O Início de uma Mudança 1. por um lado, o risco estimulante e atraente do novo; 2. do outro, o preço a pagar pela mudança, e esse preço pode ser alto o de mudar e mudar constantemente. É bom não esquecer, no entanto, que na maior parte dos casos o fascínio ou o medo estão mais associados às aplicações do conhecimento e do conhecimento de si.

81 O desafio de pensar sobre o pensar O medo nos paralisa, mas Kant diz: “O maior risco é não se arriscar. Em um mundo que muda muito rápido, a única estratégia em que a falha é garantida é não arriscar”. O que foi apresentado em grande parte deste livro? Conceitos, história das correntes filosóficas sobre o conhecimento e o conhecimento de si, exemplos de representações em que a ciência e as suas aplicações tecnológicas ou são usadas para resolver problemas, ou criam elas próprias problemas novos. Por isso, vimos essas apresen- tações para entender o quão é importante continuar neste caminho do conhecimento e do que vem a ser o conhecer em nossa vida. Aprender, continuar aprendendo e desenvolvendo a impor- tante capacidade de conhecer é um risco e um desafio, é uma ousadia. É nesse sentido que usamos a palavra risco. Ao expli- car o que é esclarecimento, em alemão “aufklaüng”, Kant lança um grito ao homem que saiba ousar conhecer. Expressão que identifica um movimento provocativo para despertar do sono e da preguiça, comodidade ou letargia humana. Mais do que nunca nossa época precisa acordar para a rea- lidade. O conhecimento, as decisões e atitudes são indispensá- veis para o homem poder conquistar sua autonomia. O conhe- cimento de si e da realidade são armas importantes aos desafios que a própria realidade, tanto física quanto histórica, propõe. ATITUDE É importante lembrar que a atitude reflexiva não é uma atitude natural no ser humano. Para termos uma atitude reflexiva, precisamos pensar bem. Por isso, queremos em sala de aula a Co- munidade de Aprendizagem Investigativa, que é o espaço para dizer e escutar a palavra, pelo diá- logo, para cada vez mais cada um pensar bem e que o grupo (a comunidade) pense e tenha ações de protagonismo. De maneira geral, há certo receio de nos posicionarmos. O costume cotidiano tende a nos di- recionar à resolução de problemas práticos, guiados pelo senso comum, tendo em vista atender necessidades imediatas. Ninguém pode viver sem se adaptar constantemente às condições do seu mundo. Essas exigências de sobrevivência tendem naturalmente a sobrepor-se a todas as outras pre- ocupações. O confronto constante com novos problemas coloca-nos perante novas situações imprevisíveis, e que obriga a alargarmos os horizontes de compreensões da realidade. Cada mu- dança pode representar, assim, uma nova possibilidade para ampliar o conhecimento. Essas mudanças frequentemente inquietam-nos ou maravilham-nos, despertando a nossa cu- riosidade sobre o porquê das coisas, levando-nos a questionar o que nos rodeia. Ao fazê-lo, esta- mos distanciando-nos da realidade, que, de repente, tornou-se estranha. Esta atitude reflexiva pode nos conduzir a uma atitude mais radical.

82 SABER OUSAR O desafio foi lançado: ousemos, saibamos ousar. Ao não tomarmos essa atitude, corre- mos o risco de sermos levados pelos acontecimentos e pelo senso comum. O conhecimento nos propõe ações efetivas diante da realidade que nos apresenta. Quem tem o conhecimen- to tem a possibilidade de tomar as rédeas dos acontecimentos e da realidade. Portanto, é importante ousar para mudar a história. A filosofia revela-se uma atitude de desilusão para quem quiser encontrar nela respostas para as suas inquietações. O que o aprendiz encon- tra nesta tarefa são perguntas e problemas para que não confie em nenhuma autoridade exterior à sua razão, para que duvide das aparências e do senso comum. A “receita” para o caminho da reflexão e ação é que faça da procura do saber um modo de vida. Não se satis- faça com nenhuma conclusão, queira saber sempre mais e mais. Ouse. O conteúdo, as atividades e ações deste capítulo estão dis- ponibilizados na Plataforma do Pensar em seu livro digital. Você e a COM.A.I. do 6º ano irão acessar via celular, tablet ou pelo endereço eletrônico: www.editorasophos.com.br/pensar O Início de uma Mudança

Avaliações Formativas e Reflexivas 6ºano

84 Para cada aluno perceber seu nível de entendimento dos AAVvAaLlIiAaÇçÃãOo conteúdos. Para o professor perceber seu desempenho e dinamismo no envolvimento com a matéria. Para sentir como se processa o nível de discussão e enten- dimento da turma que forma a COM.A.I. Para que cada questão sirva para ampliar as reflexões e discussões individuais e do grupo. Para pensar e perceber como vemos as Avaliações dentro de uma visão atual e que valoriza a individualidade, respeita a formação de suas ideias e vê a Educação Reflexiva, dentro do Programa Educar para o Pensar, como um processo. Visão Conservadora Visão Progressista Ação individual e Ação coletiva e competitiva consensual Concepção classificatória Concepção investigativa e reflexiva Apresenta um fim em si mesma Atua como mecanismo de diagnóstico da situação Postura disciplinadora e diretiva do professor Postura cooperativa entre Privilégio à memorização professor e aluno Pressupõe a dependência Privilégio à compreensão do aluno Incentiva a conquista da autonomia do aluno Em conformidade com a Base Nacional Comum Curricular - BNCC. AVALIAÇÃO DOS CONTEÚDOS (FORMATIVA) O Início de uma Mudança Sabemos que a avaliação deve ser um processo e não somente um produto acabado de pergun- tas e respostas. A seguir, seguem algumas questões que você, aluno, poderá pensar quando estiver estudando os conteúdos. Questões que o(a) professor(a) poderá utilizar também em momentos fixados para avaliar. Também reafirmar que na Plataforma do Pensar, onde sua escola tem o seu espaço de apren- dizagem e investigação, temos lá muitas avaliações que ajudarão aos professores e alunos – www.editorasophos.com.br/pensar − com a chave e a senha para sua escola, que faz parte do Programa Educar para o Pensar.

85 1. O QUE É TEORIA DO CONHECIMENTO? 1. Cite alguns benefícios da Teoria do Conhecimento para nossa vida. 2. Como você justifica a afirmação: “O filósofo vive no mundo da lua”? 3. É correto dizer que o diálogo abre as portas para o conhecimento? Justifique. 4. Quais são os requisitos para desenvolver uma boa razão? 5. Ter opiniões diferentes é empecilho para desenvolver o diálogo entre as pessoas? Baseado no que estudou, quais são as suas considerações? 2. O QUE EXISTE ALÉM DO QUE VEMOS? O desafio de pensar sobre o pensar 1. Quem pode ser filósofo? 2. Você concorda que o maior problema entre os homens hoje é a falta de comunicação? 3. Em que a linguagem humana diferencia-se da linguagem dos animais? 4. Quais são os tipos de comunicação mais comuns que utilizamos no nosso dia a dia? 5. Uma pessoa que não teve estudo pode fazer uma leitura? Que tipo de leitura ela pode fazer?

O Início de uma Mudança86 3. ONDE ESTÁ O NOSSO CONHECIMENTO? 1. Poupar o cérebro com exercícios e muita memorização pode enfraquecer os neurônios? Isto é uma boa opção para manter o cérebro sempre bom? 2. É preferível não mudar e permanecer como sempre não correndo o risco de errar? Ou é prefe- rível correr o rico de cair em erros, mas ousar novas possibilidades? Qual a sua opinião sobre estes questionamentos? 3. Quem pensa desta forma: “Eu nasci assim, eu sou assim, penso assim e não vou mudar” que enfoque esta pessoa está dando ao pensar deste jeito? 4. Quando afirmamos que o cérebro é importante, isso significa que é o órgão mais importante do corpo? 4. O MAPA DA REALIDADE: O CONHECIMENTO E SUAS FORMAS 1. Como cada filósofo abaixo entendia o conhecimento? a. Platão: b. Aristóteles: c. Os céticos:

87 2. O conhecimento científico é mais importante do que um conhecimento filosófico? 3. Só podemos acreditar naquilo que passa por nossos sentidos? 4. As correntes filosóficas defendem alguns princípios. Destaque as ideias principais destas cor- rentes: Racionalismo, Empirismo e Ceticismo. 5. O HOMEM POSTO À PROVA O desafio de pensar sobre o pensar 1. É possível conhecimento? 2. Só podemos acreditar naquilo que passa por nossos sentidos? 3. Precisamos dos outros para conhecer? 4. Quando temos conhecimento de algo, isso significa que temos poder sobre ele? 5. Sabendo que pessoas veem o mundo sob algumas formas (religião, razão, matéria, praticida- de...), procure escrever com suas palavras, como pessoas positivistas veem o mundo? 6. A NATUREZA HUMANA 1. Quando podemos dizer que uma coisa é natural? 2. A verdade faz parte da natureza do homem?

88 3. Para o homem é natural o pensar? 4. Porque a palavra cultura é entendida como a segunda natureza? 5. A cultura de um povo deixa vestígios que podem ser ricos materiais de pesquisa. Podemos co- nhecer os costumes de um povo extinto? 7. OS RISCOS DE SE CONHECER 1. Qual o maior risco de conhecermos a nós mesmos? 2. Entre os desafios que enfrentamos na realidade, qual é o maior deles? Por quê? 3. Por que os pensadores e cientistas têm chamado muito a atenção para o conhecimento e nosso desafio de ousar novos paradigmas? 4. Que atitudes podemos tomar diante de situações que contrariam nossas opções ou nossos ideais? 5. Diante do exposto neste capítulo, que desafios (pessoais, escolares e sociais) podemos ousar para mudar? Desafios Ousar para mudar Escolares O Início de uma Mudança Sociais Políticos

89 AAvVAalLiIaAnNdDoO AVALIAÇÕES DAS ATITUDES MmINiHnAhaCA- caMmINinHhAaDdAa Afinal, sou um SER pensante – Faço reflexões no 6º ano Autoavaliação 1º Semestre 2º Semestre 1. Minha nota como participante da turma, pelo cuidado que tenho com meus pertences e com os objetos da sala e da escola. 2. Minha nota como membro da COM.A.I., na qual apren- do a lidar com as minhas fraquezas e forças e com as fra- quezas e forças de meus colegas. 3. Minha nota sobre o relacionamento com os professores de todas as matérias, os quais são profissionais que escolhe- ram trabalhar com adolescentes e jovens. 4. Minha nota sobre o relacionamento com os funcio- nários e demais responsáveis pelo andamento da escola, os quais trabalham muito para que a escola cresça. 5. Minha nota sobre as atitudes durante as aulas, frente ao conhecimento compartilhado com os outros nas inves- tigações em sala ou em qualquer lugar. Nota do(a) professor(a) pela participação nas aulas. Minha nota para a COM.A.I., que se forma a cada semestre. Obs.: com critérios estipulados na COM.A.I. e tendo em vista como sua escola mede o desem- O desafio de pensar sobre o pensar penho e a participação nas disciplinas, estabeleça um valor numérico (5 a 10) ou um conceito (bom, ótimo, excelente) para sua participação. Também é necessário você justificar a cada semes- tre o porquê de sua média ou seu conceito geral. 1º semestre −Justificativa: 2º semestre −Justificativa:

90 QUADRO DAS EQUIVALÊNCIAS DE CADA NOTA OU CONCEITO ATRIBUÍDO NA CAMINHADA DESTE ANO GUIA PARA COMPLETAR O QUADRO DE EQUIVALÊNCIAS Cor – Você deverá escolher três cores e justificar o significado de cada uma, pensando nos conceitos: Bom, Ótimo e Excelente. Sentimento – Escolha um destes três rostos e saiba justificá-los, conforme o conceito atribuído: Bom, Ótimo e Excelente. Símbolo – Crie três símbolos para utilizá-los e justifique: Bom, Ótimo e Excelente. Nota – Você irá, com critério e coerência, estipular o valor numérico: Bom: 5 ou 6; Ótimo: 7 ou 8; Excelente: 9 ou 10. Critérios para avaliar Semestre Cor Sentimento Símbolo Nota O Início de uma Mudança Os outros melhoram, e isso acontece 1º também por causa do meu incentivo; 2º percebo cada vez mais que sou res- 1º ponsável pelo bem comum. 2º 1º Cresço a cada dia, mas sei que sou 2º capaz e posso melhorar muito mais. 1º Acomodando-me aqui, estarei men- 2º tindo para mim mesmo. 1º 2º Percebi que não é difícil mudar aquilo 1º que, em mim, prejudica os outros; de 2º minha parte, tenho ficado muito con- tente com minhas melhoras. Estou naquela de deixar para ama- nhã o que posso mudar hoje; tenho que reconhecer que estou esconden- do mi-nhas capacidades. Estou naquela situação: se não largar os amigos e as ideias egoístas que te- nho, nunca virão as ideias e os amigos novos; tenho que ousar mudar. Preciso de uma boa conversa com al- guém maduro; meu orgulho me en- ganou, pois pensei que poderia viver sem a ajuda de ninguém.

91 No Programa “Educar para o Pensar”, avaliar é: AAVVAALLIIAAÇÇÃÃOO valorizar o ser humano, pois defendemos que ele é FFOORRMATTIIVVAA responsável, generoso, solidário e quer ser feliz; EERREEFFLLEEXXIIVVAA acreditar no desenvolvimento de todas as suas poten- cialidades; incentivar para que este assimile a importância de participar ativamente da Comunidade de Aprendi- zagem Investigativa (COM.A.I.), assim, perceberá a importância de saber trabalhar e aprender em grupo para sua vida, de dialogar em equipe, agora e para sua vida profissional; considerar cada aluno como protagonista de seu cres- cimento, incentivando a pesquisa, argumentação e clareza de suas ideias, bem como estimular os alunos a estarem abertos ao pensar do outro, aos avanços cien- tíficos, sociais, às inovações tecnológicas. O Programa, em conformidade com a Base Comum Curricular, propõe desenvolver os con- ceitos reflexivos de maneira equilibrada e condizente com a faixa etária (Ed. Infantil ao E.M.), relacionando-os aos demais conteúdos. Dos alunos e da turma, busca-se o respeito aos aspectos físicos e estéticos, o equilíbrio no tocante à afetividade, inteligência, aos conhecimentos, à va- lorização das dimensões comunitária e social, formando para os valores humanos. Isso feito em equipe, que, tecnicamente, chamamos de formar em sala de aula a Comunidade de Aprendiza- gem Investigativa. Defendemos que o processo de avaliação é amplo e complexo, tem um papel importante na vida de cada aluno, do professor e do grupo de alunos. Deve esta avaliação mais ampla mostrar o desenvolvimento do estudante, analisando os resultados para a construção dos conhecimentos. Quais os caminhos para avaliar o desempenho intelectual, social, filosófico, interativo? Defen- demos que o ensino, a aprendizagem e a avaliação acontecem de maneira integrada no cotidiano de cada aluno e turma de sala de aula. Em outras palavras, a avaliação é um processo coletivo, no qual a participação de cada um soma para o todo, de modo que é possível perceber o desenvol- vimento de cada aluno. Portanto, nos momentos de ensino e aprendizagem, todos avaliam e são avaliados, pois promovem aprendizagens. EDUCADOR! O desafio de pensar sobre o pensar Continue sua reflexão e entendimento do que defendemos como Avaliação no Pro- grama Educar para o Pensar indo na Plata- forma do Pensar: www.editorasophos.com.br/pensar ou com o QR code pelo seu celular ou tablet.

92 EEPPDDAUURCCAAAORR PPEENNSSAARR CAMINHO PARA O DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS E HABILIDADES NAS ESCOLAS (Em conformidade com a Base Nacional Comum Curricular − BNCC) Nossa defesa é que crianças, adolescentes e jovens precisam estar preparados para o hoje e o amanhã. Portanto, defendemos, como processo avaliativo, uma série de procedimentos, que todas as disciplinas preci- sariam levar em conta. O Educar para o Pensar, defendido e executado na sua escola, utilizando nosso programa com a Coleção O Início de uma Mudança, tem como metodologia o diá- logo e a formação na sala de aula da Comunidade de Aprendizagem Investigativa – COM.A.I. Defendemos que, com e pelo diálogo, podemos ser entendidos e en- tenderemos os outros, formando pessoas responsáveis pelo protagonismo juvenil. QUAL É O PAPEL DO PROFESSOR, DOS ALUNOS E TAMBÉM DA FAMÍLIA? Oportunizar condições para que, pelo diálogo e pela investi- gação, os envolvidos no processo ensino-aprendizagem desenvol- vam recursos para resolverem as situações complexas surgidas nos relacionamentos e propostas nos vários conhecimentos, via disciplinas como: interpretar textos, resolver situações matemáti- cas, interpretar fatos históricos, analisar fenômenos sociais etc. Ensinar, avaliar e agir nesse contexto é ajudar os educan- dos a conseguirem os recursos necessários para o de- senvolvimento de diferentes competências. O Início de uma Mudança

93O desafio de pensar sobre o pensar Na Coleção O Início de uma Mudança (desde a Educação Infantil até o Ensino Médio), propo- mos o desenvolvimento de competências e habilidades por: a. conteúdos conceituais que necessitam ser claramente compreendidos e discutidos e dos quais os envolvidos (educador e educandos) precisam apro- priar-se, via investigação, discussão, análise e reconsideração; b. habilidades que oportunizem o saber fazer, o que podemos também chamar de conteúdos procedimentais; c. linguagem que deve ser apropriada a cada contexto, pois é fundamental para a compreensão dos fatos, uma vez que as mesmas palavras, em contextos diferentes, podem assumir significados distintos, por isso a linguagem reflexi- va tem características diferentes da linguagem das artes que, por sua vez, não é a mesma das ciências exatas; d. valores culturais, pois uma situação complexa investigada e discutida deve estar inserida no entendimento cultural do grupo, isso dará sentido às lingua- gens e à postura para decidir as ações advindas da situação; e. administração do emocional é o conhecer a si mesmo, pois, a cada situação de aprendizagem, investigação, discussão, proporcionadas nas aulas, os alunos são convidados para reforçarem os conceitos teóricos, as habilidades, o domí- nio da linguagem e o entendimento do contexto cultural da atividade, porém podem falhar no momento crucial da participação e ação, que é ter o neces- sário controle emocional. Avaliar a aprendizagem reflexiva do aluno, com foco no desenvolvimento de competências, é usar instrumentos que possam fornecer indicadores dos recursos desenvolvidos pelos alunos. Ao exigir dos alunos, desde os primeiros anos escolares, maior capacidade de raciocínio, de análise e de síntese, com e pelo diálogo reflexivo, formando a Comunidade de Aprendizagem Investigativa, estamos, também, desenvolvendo e avaliando o: 1. Aprender a conhecer por meio de situações que levem para: cultura geral; espírito investigativo; visão crítica; aprender a aprender. 2. Aprender a fazer, buscando que crianças, adolescentes e jovens sejam pro- tagonistas em suas vidas, conseguindo: relacionar-se em grupo; resolver problemas; qualificar-se profissionalmente. 3. Aprender a viver com os outros, formando a Comunidade de Aprendiza- gem Investigativa que proporciona: saber compreender o outro; saber resolver conflitos; respeito ao outro. 4. Aprender a ser, como meta de uma aprendizagem significativa e com um novo olhar sobre a realidade para: agir com autonomia; expressar opiniões; assumir responsabilidades pessoais.

94 A META É TRANSFORMAR A ESCOLA EM UMA COMU- NIDADE DE APRENDIZAGEM INVESTIGATIVA? É importante avaliar as habilidades dos alunos. Defendemos que é preciso ir além, ava- liando a escola, as disciplinas e os relacionamentos como um todo. Junto com essa avaliação mais abrangente, é preciso que os dados da avaliação sejam analisados, discutidos e que in- tervenções sejam planejadas e implantadas. Queremos pensar a avaliação escolar pela ótica do Programa Educar para o Pensar, por isso propomos realizar uma mudança de paradigma na escola. O currículo do Educar para o Pensar favorece, mas a aprendizagem e a avaliação acontecem no exercício cotidiano. Defendemos que a escola constitua-se em um ambiente cooperativo (Comunidade de Aprendizagem Investigativa), no qual possam acontecer modificações, por exemplo, a for- ma como as regras são elaboradas e legitimadas, a concepção e intervenção em situações de conflitos, os mecanismos de cooperação e de participação dos alunos, o trabalho com o conhecimento. Porque, só com vivências efetivas que a escola conseguirá oferecer um ambiente favorável para os alunos desenvolverem a coordenação de perspectivas, a argu- mentação, o diálogo, a generosidade, e isso vai além de algumas situações organizadas. Precisamos, portanto, avaliar e proporcionar junto a todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem (toda comunidade escolar − professores, alunos, pais, profissionais da educação etc.) as dimensões socioemocionais eficazes ao relacionamento humano. O Educar para o Pensar é um caminho a seguir e, assim, oferecemos algumas pistas para uma avaliação que defendemos e queremos que seja realizada em todo o ambiente escolar. O Início de uma Mudança

95 EM CONFORMIDADE COM DOCUMENTO DA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) AS COMPETÊNCIAS GERAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, so- O desafio de pensar sobre o pensar cial, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar cau- sas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive, tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corpo- ral, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos, e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crí- tica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver proble- mas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na di- versidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capaci- dade para lidar com elas. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, suas identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.

96 AS COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS HUMANAS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL 1. Compreender a si e ao outro como identidades diferentes, de forma a exercitar o respeito à di- ferença em uma sociedade plural e promover os direitos humanos. 2. Analisar o mundo social, cultural e digital e o meio técnico-científico-informacional com base nos conhecimentos das Ciências Humanas, considerando suas variações de significado no tempo e no espaço, para intervir em situações do cotidiano e posicionar-se diante de problemas do mun- do contemporâneo. 3. Identificar, comparar e explicar a intervenção do ser humano na natureza e na sociedade, exer- citando a curiosidade e propondo ideias e ações que contribuam para a transformação espacial, social e cultural, de modo a participar efetivamente das dinâmicas da vida social. 4. Interpretar e expressar sentimentos, crenças e dúvidas com relação a si mesmo, aos outros e às diferentes culturas, com base nos instrumentos de investigação das Ciências Humanas, pro- movendo o acolhimento e a valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, suas identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. 5. Comparar eventos ocorridos simultaneamente no mesmo espaço e em espaços variados, e eventos ocorridos em tempos diferentes no mesmo espaço e em espaços variados. 6. Construir argumentos, com base nos conhecimentos das Ciências Humanas, para negociar e defender ideias e opiniões que respeitem e promovam os direitos humanos e a consciência so- cioambiental, exercitando a responsabilidade e o protagonismo voltados para o bem comum e a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. 7. Utilizar as linguagens cartográfica, gráfica e iconográfica e diferentes gêneros textuais e tecno- logias digitais de informação e comunicação no desenvolvimento do raciocínio espaço-temporal, relacionado à localização, distância, direção, duração, simultaneidade, sucessão, conexão e ao rit- mo. O Início de uma Mudança


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