Eugénio de Andrade (1923-2023) Poemas selecionados Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real
Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real Centenário Eugénio de Andrade Seleção de poemas e design gráfico: Adelaide Jordão ES Camilo Castelo Branco | Vila Real Janeiro 2023
Poemas selecionados Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Eugénio de andrAde OS LIVROS Os livros. A sua cálida, terna, serena pele. Amorosa companhia. Dispostos sempre a partilhar o sol das suas águas. Tão dóceis, tão calados, tão leais. Tão luminosos na sua branca e vegetal e cerrada melancolia. Amados como nenhuns outros companheiros da alma. Tão musicais no fluvial e transbordante ardor de cada dia. (Num exemplar das Geórgicas) - Eugénio de Andrade, em \"Ofício de paciência\". 1994.
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#100 Eugénio de andrAde PASSAMOS PELAS COISAS SEM AS VER Passamos pelas coisas sem as ver, gastos, como animais envelhecidos: se alguém chama por nós não respondemos, se alguém nos pede amor não estremecemos, como frutos de sombra sem sabor, vamos caindo ao chão, apodrecidos. -Eugénio de Andrade Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Eugénio de andrAde A pedra A pedra. Sou-lhe fiel pelo aroma. Vim de longe para tocar o fogo da sua geometria sem fronteiras. Pedra viva. Ou melhor: acariciada. Pedra profunda, chamada pelo sol, num voo sem fim, sempre parada. - Eugénio de Andrade, em \"Pequeno formato\". 1997.
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Eugénio de andrAde A FIGUEIRA Este poema começa no verão, os ramos da figueira a rasar a terra convidam a estender-me à sua sombra. Nela me refugiava como num rio. A mãe ralhava: A sombra da figueira é maligna, dizia. Eu não acreditava, bem sabia como cintilavam maduros e abertos seus frutos aos dentes matinais. Ali esperei por essas coisas reservadas aos sonhos. Uma flauta longínqua tocava numa écloga apenas lida. A poesia roçava- -me o corpo desperto até ao osso, procurava-me com tal evidência que eu sofria por não poder dar-lhe figura: pernas, braços, olhos, boca. Mas naquele céu verde de Agosto apenas me roçava, e partia. - Eugénio de Andrade, em \"Poesia\". [Posfácio de Arnaldo Saraiva]. 2ª ed., revista e acrescentada Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005, p. 559.
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Eugénio de andrAde ADÁGIO O Outono é isto – apodrecer de um fruto entre folhas esquecido. Água escorrendo, quem sabe donde, ocasional e fria e sem sentido. - Eugénio de Andrade, em \"Primeiros poemas\". 1977.
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#100 Eugénio de andrAde Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real
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#100 Poema à mãe EUGÉNIO DE ANDRADE No mais fundo de ti, Olha - queres ouvir-me? -, Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real eu sei que traí, mãe! às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos; Tudo porque já não sou o retrato adormecido ainda aperto contra o coração no fundo dos teus olhos! rosas tão brancas como as que tens na moldura; Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora ainda oiço a tua voz: e noites rumorosas de águas matinais! \"Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal...\" Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, Mas - tu sabes! - a noite é enorme e o nosso amor é infeliz. e todo o meu corpo cresceu... Tudo porque perdi as rosas brancas Eu saí da moldura, que apertava junto ao coração dei às aves os meus olhos a beber. no retrato da moldura! Não me esqueci de nada, mãe. Se soubesses como ainda amo as rosas, Guardo a tua voz dentro de mim. talvez não enchesses as horas de pesadelos... E deixo-te as rosas... Mas tu esqueceste muita coisa! Boa noite. Eu vou com as aves! Esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe!
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real Eugénio de andrAde É na escura folhagem do sono que brilha a pele molhada, a difícil floração da língua.
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real Frente a frente Nada podeis contra o amor, Contra a cor da folhagem, contra a carícia da espuma, contra a luz, nada podeis. Podeis dar-nos a morte, a mais vil, isso podeis - e é tão pouco!
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Naïs Philip, Vênus , 2020 Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Eugénio de andrAde APENAS UM CORPO Respira. Um corpo horizontal, tangível, respira. Um corpo nu, divino, respira, ondula, infatigável. Amorosamente toco o que resta dos deuses. As mãos seguem a inclinação do peito e tremem, pesadas de desejo. Um rio interior aguarda. Aguarda um relâmpago, um raio de sol, outro corpo. Se encosto o ouvido à sua nudez, uma música sobe, ergue-se do sangue, prolonga outra música. Um novo corpo nasce, nasce dessa música que não cessa, desse bosque rumoroso de luz, debaixo do meu corpo desvelado. - Eugénio de Andrade, em \"Até Amanhã\", 1956.
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real Noturno a Duas Vozes #100 — Que posso eu fazer senão beber-te os olhos — Não é de medo que tremem os meus lábios, enquanto a noite tremo por um fruto de lume não cessa de crescer? e solidão que é todo o oiro dos teus olhos, toda a luz — Repara como sou jovem, que meus dedos têm para colher na noite como nada em mim encontrou o seu cume, — Vê como brilha a estrela da manhã, como nenhuma ave como a terra poisou ainda nos meus ramos, é só um cheiro de eucaliptos, e um rumor de água e amo-te, vem no vento. bosque, mar, constelação. — Tu és a água, a terra, o vento, a estrela da manhã és tu ainda. — Não tenhas medo: — Cala-te, as palavras doem. nenhum rumor, Como dói um barco, mesmo o do teu coração, como dói um pássaro ferido anunciará a morte; no limiar do dia. a morte vem sempre doutra maneira, alheia aos longos, brancos corredores da madrugada. — Não é de medo que tremem os meus lábios, tremo por um fruto de lume e solidão que é todo o oiro dos teus olhos, toda a luz que meus dedos têm para colher na noite.
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#100 Eugénio de andrAde Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Eugénio de andrAde UM NOME Di-lo-ei pela cor dos teus olhos, pela luz onde me deito; di-lo-ei pelo ódio, pelo amor com que toquei as pedras nuas, por uns passos verdes de ternura, pelas adelfas, quando as adelfas nestas ruas podem saber a morte; pelo mar azul, azul-cantábrico, azul-bilbau, quando amanhece; di-lo-ei pelo sangue violado e limpo e inocente; por uma árvore, uma só árvore, di-lo-ei: Guernica! - Eugénio de Andrade, em \"Mar de setembro\". 1961.
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Eugénio de andrAde VER CLARO Toda a poesia é luminosa, até a mais obscura. O leitor é que tem às vezes, em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver claro. Se regressar outra vez e outra vez e outra vez a essas sílabas acesas ficará cego de tanta claridade. Abençoado seja se lá chegar. - Eugénio de Andrade
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Biblioteca ES Camilo Castelo Branco | Vila Real #100 Gatos Gatos dos quintais, gatos dos portões, gatos dos quartéis, gatos das pensões. Vêm da Índia, da Pérsia, da Nínive, Alexandria. Vêm do lado da noite, do oiro e rosa do dia. Gatos das duquesas, gatos das meninas, gatos das viúvas, gatos das ruínas. Gatos e gatos e gatos. Arre, que já estamos fartos! Eugénio de Andrade
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