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a lenda18

Published by Paulo Roberto da Silva, 2018-09-17 23:04:36

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Jairo Ferreira Machado  49puta”, lá no seu bairro). A madame mudara de idéia da noitepara o dia. Estava enviando o barbeiro, com todas as despesaspagas. O seu cão, bem a conhecia, quando ela passava em frenteà casa de Maria Rita, olhando de soslaio; de longe o cão rosnavapara a ofídia – aquela venenosa! O barbeiro (que também nãoera bobo!), tinha como certa a encomenda daqueles cabelos ebarbas. O ourives da cidade pagaria qualquer preço! A famadaquele dourado já corria longe; coisa que o barbeiro juravaque não havia antes – tosara o cabelo do moço, véspera docasamento dele com Maria Rita. Uma falação dos infernos! Ocapiau reluzia a ouro. O barbeiro também saiu dali sem nadaconseguir. Se muito, um baita safanão! Assim, não via a hora de ter alta do hospital. Estava nosnervos com todo aquele requinte terapêutico, como se fosse umrei; antes, passava na rua e ninguém o cumprimentava. Casaracom Maria Rita, ninguém fora ao casamento. Fora traído pela“moça”, indignado dera cabo do rival, fugira, fora caçado comobicho no meio da selva, pagara por lá seus pecados e agora oqueriam num pedestal; com toda certeza, pelo seu brilho áureo,por conta daquela pepita... Hipocrisia! E veja que nem sabiamdo resto, daquelas outras escondidas por lá, aquele imensolago dourado, as águas do riacho colidindo contra a solidez doouro. Desconfiassem do tanto que achara, tomaria logo o lugardo santo lá no altar da igreja (o povo adorando o bezerro deouro!). O pároco, o mais entusiasmado! (Sabe-se lá se pela dorde consciência ou outros interesses escusos). Dependesse doque não havia de santo naquele pároco, o moço nunca chegariaao céu – muito materialista, o ministro de Deus! Todo diaestava ali, na cabeceira da cama, orando; o olhar ambiciosonaquele dourado de barba. – Meu filho, eu nome de Deus, estáperdoado! Não ficava só nisso. Por precaução recomendava airmã de caridade que não poupasse esforços no tratamento docapiau, mas que não banhasse o moço por inteiro – Passe pano

50  A lenda do homem douradoúmido nas dobras. Guarde os trapos – já imaginado aquelarelíquia!... O pároco não esquecia o reluzir daqueles cabelose barba nos seus olhos, desde o primeiro encontro. Alguémo fora chamar – Seu padre, venha depressa! O homem estámorrendo! Precisa da sua extrema-unção; está estrebuchandolá na rua. Corra! Ele foi. Chegando lá, encontrara o maltrapilhodesacordado. O religioso logo se perguntou: – De onderetornara aquela alma penada toda dourada? Coitado!!!...(O pároco ali, as mãos postas!). Qual a missão que Deus lhereservara? (Perguntava-se). O pároco querendo aproximar-see o cão aguerrido, latindo ferozmente, mantendo-o longe doseu dono (Tinha razão, o cão!). Aquela saia-comprida preta,aquele indivíduo mais se assemelhando a um “coisa-ruim” quea um “santo”! O capiau lá, caído nas imediações da igreja. Apolícia precisou de um cambão para prender o cão tinhoso (oseu Deus, na terra!) e dessa maneira o “servo de Deus” e depoiso serviço médico se aproximar para cumprir os primeirossocorros. Santo era aquele cão! Que Deus o mantivesse sob Suaproteção. Oh! Maria Rita! Tinha receio de perguntar por ela.A sua musa, a sua puta (que fosse, então!), mas que pudessetê-la novamente nos braços, aquele ardente tesão, aquele calorlascivo, aquela ostentação de seios e de fluidos. Os seus fluidos,precisando desaguar nela... Então, seguiu o caminho, o cão de um lado e Maria Rita do outro. Os dias passando, ele querendo sair do hospital, e o médicona contra-ordem – Ainda há riscos. Devemos considerar operíodo de incubação de certas doenças, a contaminaçãodo metal etc. Mais uns quinze dias, talvez. Refletia nos seus

Jairo Ferreira Machado  51olhos a luz áurea do pensamento do doutor que pretendia, aqualquer custo, saber muito mais: vida pregressa, os lugaresonde estivera, em que parte da montanha, a latitude, se a oesteou a leste, o que vira por lá, onde, o que mais recordava? (Umaardilosa raposa!). Não abriu a boca! Quando muito, inventavahistórias, as mais estapafúrdias, simulando amnésia, justificadapelos sofrimentos, os dias de inanição, perdido no meio daselva fechada, não sabia onde. (Embora pouco, mas sabia! Ocão, muito mais!). Preocupou-se ao lembrar do cão. Imagine,e se alguém lhe roubasse o trigueiro? Era bem capaz de o cãoensinar o caminho da mina. (O faro infalível!). Precisava sairdaquele ambiente hospitalar o quanto antes; o fiel amigo corriaperigo sozinho, no meio daquela alcatéia de lobos. – Senhordoutor! Devo, não nego; pago outro dia... Agradeço a todos!Naquele instante, lembrou-se... Não tinha para onde ir. Já sepreparava para voltar ao quarto quando adentrou o corredordo hospital Maria Rita. Aquele andar estonteante. Servidores edoentes de queixos caídos, a “moça” trajando blusa preta, saiaamarela, colar e brinco combinando, o reluzir do ouro nos seusolhos. Oh! Maria Rita! (Seria um sonho?). Maria Rita desfilandomais bonita do que nunca. Chegou com o seu jeito de poderosae foi logo tomando-o nos braços, como se fosse só dela. Puta,dizia o povo! Chifrudo, dizia o povo! Eles se merecem, dizia opovo! (O que importava?). Seus olhos marejados de lágrimas.A “moça” soubera dele, pelo rádio, quando servia uma zona,em cidade vizinha. O município inteiro comentava o fato.Fora dado como morto, aquele excomungado, e ressuscitarados confins da selva. Oh! Maria Rita! Ela se lamentando. Ocasamento, a infidelidade, o delito, tudo isso a deixara desgastadana cidade, razão por que fora embora. Estava voltando, únicae exclusivamente por causa dele. Mentira ou verdade? O queimportava? A “moça” não era mesmo confiável. Mas em quemconfiaria naquela cidade, à exceção do seu cão trigueiro? Pegou

52  A lenda do homem douradodo alforje e se foi; no corpo, a vestimenta de alguém; de certo,de um defunto qualquer – não foram poucos os que partirampara o além, enquanto estava internado. Dava-se por satisfeitose sair vivo dali. Maria Rita, amparando-o, exibindo-o para opovo que o aguardava na porta do hospital. Sabe-se lá por quê!O povo também não... O cão, bem saudável, coleira nova, um laço de fita amarelano pescoço. – Frescura, lhe dissera o cão com os olhos! Pudesse,arrancaria o objeto a dentadas. Num pulo, o cão caiu-lhe aocolo, lambendo-lhe o rosto, agradecido, enquanto ele pedia aoveterinário que colocasse as despesas na conta; um dia voltariapara pagar. Não andou três quadras e o delegado lhe deu voz deprisão. Maria Rita quis desconversar; não adiantou (não tinha“moral” para tanto!). Naquele instante chegaram também oadvogado, o prefeito, o vereador, o gerente do banco, o dono dafábrica (de onde ele se despedira naquele fatídico dia), o pároco,o ourives, a vizinhança. – Bobagem! – Solta o homem! – Ele jápagou os pecados! – Já se passou o flagrante. – Pode respondero processo, livre – Diziam em voz uníssona os mais exaltados.O delegado não era bobo de insistir; retrocedeu. Já livre, seguiuo seu caminho; o cão de um lado, Maria Rita do outro. O povocurioso, olhando de longe, pessoas tentando aproximar-se coma intenção de tocá-lo, como se ele fosse um pop star. Sabe-se lápor quê? O cão reagia, rosnando... O mais longe que puderamir: uma pensão barata, que aceitou de bom grado a presença docão no quarto; ele, o cão e Maria Rita. Muita mulher querendoo lugar de Maria Rita; muitos homens, pretendendo ser ele, ocapiau, o homem dourado, que reluzia a ouro. A cidade inteirade olho no Príncipe das Trevas. O cão sabia! Corria o boatode que o veterinário lavara o cão dentro de uma bacia – nofundo do recipiente ficara reluzindo o dourado. O ourives forachamado às pressas, para pesar o ouro; quando o espertalhãodeu com os olhos no luzir do metal, quase morreu de infarto!Assim, aquele cão valia mais que qualquer outro ser vivo

Jairo Ferreira Machado  53daquela cidade – o faro aprimorado, a primazia da memória...Para ele, o cão era vida! Colocassem a mão naquele cão e osujeito estaria morto, feito o finado – de tiro no peito. O cãoali, estirado sobre o tapete, amarrado no pé da cama; naquelequarto, o seu maior paraíso – o cão e Maria Rita. A “moça”lhe recomendou um bom banho. Mas antes, pedira à dona dapensão uma bacia emprestada; tinha a intenção de colocar àprova a falação do povo – de que havia ouro naquela barba. (“Opovo aumenta, mas não inventa!”). Não custava nada se ceder aos caprichos dela. Oque importava? No fundo da bacia o reluzir do ouro nosolhos de Maria Rita; a “moça“, passada a euforia, logoguardou o recipiente. (O povo tinha razão). A alma rindode contentamento... Entraram os dois, sob o chuveiro (elemal podendo manter-se de pé). Maria Rita fez que fez, que oressuscitou. A puta tinha experiência. Aquelas mãos maciaslhe ensaboando a pele, a água quente do chuveiro escorrendo-lhe de cima abaixo, Maria Rita nua, inteiramente nua, alià sua frente, como desejara aquele dia lá no lago dourado,lá nos confins da mata, naquele paraíso perdido. Sabe-selá onde? (De certeza, seu cão sabia...). Tudo o que precisavaestava ali. A beleza de Maria Rita; a língua dela entrando suaboca adentro, ela lhe manipulando os genitais, com a mestriade sempre; o calor reconfortante de um banho quente. Numinstante, o seu falo hirto, desaguando nela... Oh! Maria Rita!Oh!... Oh!... Oh! Maria Rita!... (O lobo uivando o seu cio!).Maria Rita massageando o seu ego; o seu corpo desfalecendoaos poucos, minguando de fraqueza e contentamento. MariaRita acolhendo-o nos braços (seus ossos pesados e músculosdefinhados). Depois levando-o para a cama, um pouco nocolo, um pouco arrastando e depois enxugando-o... (Deus sejalouvado!). No embalo das carícias, dormiu. Tinha todo direitoa um sono sagrado, depois daqueles três meses de sofrimento,dormindo em árvores, a maioria das vezes não dormindo.

54  A lenda do homem douradoSabe-se lá o que viria depois? Depois que acordasse, depois querecuperasse as energias? O que seria do seu amanhã? (O povo láfora decidiria!). Maria Rita ali, ressonando a sua sensualidade.O cão, ressonando, digeria um naco de músculo que a donada pensão lhe dera, de cortesia. Nunca fora tão bem tratado,o danado! Nunca fora tão benquisto, o capiau! Nunca fora tãomadame, Maria Rita!... Assim, sonhou. A pepita de ouro, numadas mãos; na outra, o facão; e um entusiasmado discurso! Deum lado a riqueza; do outro, o poder. O povo submisso, aspessoas ajoelhadas à sua frente (ele, um entusiasmado bezerrode ouro!), o povo na clemência, a ecologia morrendo, a fomese abatendo. Lá distante a selva, a montanha revirada ao avesso,os escombros, a enfermidade, os pedintes. Seus olhos vagandona busca de uma explicação para tudo aquilo. A natureza queum dia conhecera majestosa, numa nudez descarada; a nudezde Maria Rita, com certeza – a imoralidade, a ganância, ahipocrisia! Acordou (Maria Rita o sacudindo). Tomaram junto odesjejum, com direito a omelete, pudim, frutas, sucos naturais,duas xícaras de café com leite quente e tudo o mais. O cão jácomera sua ração. Maria Rita, lindamente produzida e faceira,ali à sua frente – O gerente do banco solicitou sua presençalá, na agência; onze horas da manhã. O banqueiro vai estarpresente... (Que esperem!). Saboreou o seu deleite como secomesse Maria Rita, o doce mel daqueles lábios, deliciandoaqueles seios, como saboreava, naquela hora, um suco demanga. O sol brilhava áureo lá fora. Ele, de braços dados comMaria Rita, a madame mais espetaculosa da cidade, naquelemomento (que fosse, tinha ela todo o direito de se exibir!), ocão preso à coleira, rabo entre as pernas, cara feia, incomodado.Os flashes disparados... Maria Rita sorridente (a madame quesempre sonhara ser!). Ele, barbudo, cabelo longo, metidonuma camisa branca de mangas compridas, uma calça azul

Jairo Ferreira Machado  55marinho e um par de alpargatas confortáveis (as chagas dos pésainda abertas!). Maria Rita acordara cedo naquele dia, tiraraalguns trocados da bolsa (nunca lhe faltava algum!) e foracomprar-lhe umas vestimentas. Pudera, depois de lhe causartantos sofrimentos, sentia-se na obrigação! (Bom gosto não lhefaltava!) Os flashes disparados... Repórteres de todos os cantos erecantos. Quanta hipocrisia! O ouro reluzindo no pensamentodos felinos – as onças, as jaguatiricas, todas ali... O cão, aindaque acuado, rosnava, no afã de protegê-lo, procurando manteros felinos à distância. Mas de nada adiantava toda aquelabrabeza: as jaguatiricas, as hienas vinham aos punhados – Oque o senhor pretende fazer da pepita? – Estão falando que vaidoar para a igreja – Onde o doutor a encontrou?... (Diabos!Já virara doutor!). A imaginação do povo num disse-me-disseincontido, tirando conclusões precipitadas. – É verdade que oprefeito o convidou para candidato na chapa dele? (Tinha lógica!Só faltou o sem-vergonha dizer abertamente!). – Falaram queo banqueiro vai oferecer uma fortuna pela pepita. O senhorconfirma? – É verdade que vai comprar fazendas? Não tinharespondido uma pergunta sequer quando adentraram a portado banco – lá dentro, as raposas, as maiores, as mais astutas! Maria Rita sestrosa numa poltrona de veludo, o torneado das coxas de miss à vista. Maria Rita sestrosa numa poltrona de veludo, o torneadodas coxas de uma grande “miss” à vista. O cão ali, espiando (Seucão e os demais agourentos do recinto!). Cafezinho, biscoitodo melhor, enquanto um gorducho bonachão debulhava alábia. – O banco tem advogado próprio para defendê-lo. Adepender de nós, não haverá prisão. Tem apenas um senão:

56  A lenda do homem douradoa pepita bruta como se apresenta, não tem valor de mercado.É certo que pesa pra lá de três quilos e é original; nunca seviu igual; porém, vale mais pelo valor simbólico. Ouro mesmo,muito pouco. Estamos consultando um especialista. Contudo,o banco lhe faz uma proposta irrecusável; é claro, dependendoda sua intenção. De qualquer forma, já estamos providenciandoum adiantamento. Precisamos de alguns dados seus; nomecompleto e o dinheiro logo será liberado... A pepita fica nocofre; para nós é uma honra. Mas, a honra maior é tê-lo comocliente. Maria Rita de olho. Mostrava ciúmes da recepcionistaque escancarava um sorriso pretensioso para o seu homem (ocapiau rico!). Ciúme sim, de verdade! Naquelas circunstâncias,qualquer mulher teria; o “moço”, embora com jeitão de matuto,tinha o porte físico avantajado, olhos grandes e azuis. Não foià toa que ela aceitara casar-se com ele. Bem trajado comoestava e reluzindo a ouro, ficava mais atraente ainda, aqueleespadaúdo. As mulheres iriam implorar por uma noite comele! A “modelo” ali, toda sestrosa, escolhida a dedo, viera lá dagrande cidade em companhia do banqueiro, de certeza, paraajudar na persuasão do tal capiau. Sabia lá ele quem era aquelaputa, sem-vergonha? Pretensão, a deles. A “moça” não chegavaaos pés de Maria Rita. Maria Rita, puta sim, mas não escondia aprofissão; a cidade inteira sabia, os homens dali e da redondezasabiam. Enquanto a outra, mal disfarçava a faceta de prostitutainteresseira. A “moça” sentia pruridos ao ouvir a palavra ouro.Maria Rita vivia do comércio do corpo, precisando “dar” paraquem aparecesse lá na zona, mas não explorava ninguém– dinheiro curto, minguado! Sujeitara-se a “dar” até para osafado do prefeito, aquele barrigudo cara de pau; o mesmo queo visitara lá no hospital, com propósitos políticos; descarado!A julgar pela “moral”, ainda que sentisse na pele a traição, ador da falsidade, ficaria com Maria Rita. No fundo, no fundo,ainda curtia um certo sentimento por ela. No coração, estava

Jairo Ferreira Machado  57casado com ela; na mente, fazia tudo para esquecê-la, mas nãoconseguia. Saiu do banco com algum dinheiro no bolso, semmuito se comprometer. O único jornal da cidade vendia emquantidade. Estampa da capa: Maria Rita, o cão, ele e a pepita(parecia maior ainda!), reluzindo na sua mão. Sabia lá como ojornalista safado montara aquela foto? O repórter insistindo,implorando a exclusividade da entrevista. (Não era bobo debater com a língua nos dentes!). Pensasse bem, jamais abririaa boca. O risco maior, o faro e a memória do cão. Assim,mantinha o Príncipe das Trevas acorrentado à sua cintura, diae noite. – Lá vai o homem dourado e o seu cão trigueiro. Acidade inteira lhe fazendo reverência; alguns até o venerando;outros, santificando-o. – Tendo sobrevivido lá na selva, temparte com Deus! – falavam. Ou talvez com o Diabo – diziamoutros! Hipocrisia! Sandices! Nenhuma semelhança com oDivino, nem fisicamente, nem nos atos! Precisaria morrere reviver milhões de vezes e ainda assim não conseguiriatal nobreza, embora pressentisse Deus e toda sua obra noscaminhos onde andara. Mais precisamente, lá naquele paraísoonde permanecera por mais de mês. Lá, sim, o lugar prediletode Deus; tinha certeza disso. Não por causa do ouro (o vil metaltinha-se ali como mais um dos caprichos da natureza!), massim pela biodiversidade que lá havia, a riqueza natural, a fauna,a flora! É certo que quase morrera por lá, nas garras dos felinose das picadas dos animais peçonhentos. O que importava? Edaí? A cidade inteira cheia de felinos e peçonhentos dos piores.– O homem é um santo, diziam os mais cristãos! (O povo nãosabe o que diz!) A envergadura, a face magra, a barba longa,os cabelos compridos, o rosto sofrido, o cajado como apoio(ainda não estava de todo sarado das chagas), se tudo aquiloo assemelhava a alguma coisa na vida, era, quando muito, aum mendigo! (O ouro deturpa a visão das pessoas.). Deus seja

58  A lenda do homem douradolouvado! Até então, não tinha um nome. Ou melhor, tinha:Capiau. Assim mesmo, poucos sabiam. E se assim o chamavamera devido ao seu hábito rústico, sempre lá no rancho, beirade serra; pouco vinha à cidade; quando muito, para comprasda semana. Em banco, então, nem passara perto; era aquela aprimeira vez! Estranhou o tratamento do banqueiro: “SenhorLourenço! O banco tem advogado próprio para defendê-lo...”Muito estranho aquele tratamento! Nem sequer lembrava opróprio nome; Capiau bastava! O povo já dera também apelidoao seu cão: Sansão. Tudo a ver – a força física, a bravura, a lutapela sobrevivência. (O povo, às vezes sabe o que diz). Para ele,era cão; e continuaria cão! Assim como também se acostumaraao apelido: Capiau. Soava melhor aos seus ouvidos... Por onde passava: pedintes, mendigos, entidadesfilantrópicas, aproveitadores, filas homéricas, as pessoas embusca de alguma coisa – Por favor, senhor! Tenho seis filhospara criar. Sou viúva... – Senhor! Meu marido morreu; falta-medinheiro para o enterro... Doutor! É verdade que vai explorara mina? Meu marido é garimpeiro... (É!... já virara mesmodoutor!). Senhor! Posso testemunhar a seu favor; eu bem quevi o sem-vergonha... Os flashes, disparados. Naquele dia e nosseguintes, enorme aglomeração envolvendo os lugares por ondepassava. Sorte sua, o cão bravio. O animal ainda não se habituaraà confusão, daí os rotineiros avanços na tentativa de manter osfelinos a distância. Já aprendera a ler os pensamentos do cão –Cuidado com as hienas! Assim, obedecia aos pressentimentosdo cão, precavendo-se. Ó! Maria Rita! Quão bonita ela estava,ali desfilando ao seu lado; depois, lá na sua cama. Já recuperadoda saúde, da farta alimentação da pensão, ele podia “comer”Maria Rita quantas vezes ela quisesse, dia e noite, noite e dia.É certo que não era páreo para ela; pior ainda depois daquelelongo período de sofrimento. Não se iludia! Logo, logo ela oespetaria com um par de chifres. Não tinha muita ilusão de que

Jairo Ferreira Machado  59a sorte lhe sorrisse sempre, embora os tempos fossem outros –“possuía” uma mina de ouro. A sua mulher cheirando a cio, a perfume e cheirando a alma. Passados alguns dias, já havia recuperado o seu rancho;comprara pela mesma bagatela que vendera. A única exigência:que a mula estivesse lá no dia da tomada de posse. Melhoroua mobília do rancho: uma cama bem grande para ele e MariaRita se deliciarem. Se Maria Rita quisesse ir embora, tudobem; nem todo dinheiro do mundo compraria aquele tesão!A estrada era bem larga para ela ir e voltar quando quisesse.Pagou o serviço da terraplenagem do próprio bolso; não estavaali para ficar devendo favores a prefeito nenhum, muito menosàquele canastrão! Se Maria Rita resolvesse partir, teria a mula.(Tudo como antes de conhecer Maria Rita!). Queria era ficarlonge daquela amolação. Pagou o hospital, a dona da pensãoe se foi, aproveitando-se do momento que Maria Rita saírapara as compras. Viu a “moça” ir, toda sestrosa. Deixou que eladecidisse sozinha sua vida. Assim, aproveitou e tomou possedo rancho; só ele e o cão. Amarrou o Príncipe das Trevas lána porteira; dali para dentro ninguém passaria, só Maria Rita;claro, se ela assim o desejasse! Precisava mesmo de uns diasde sossego e de reflexão. (Nem tanto a solidão da mata, nemtanto aquela amolação!). Muita confusão para sua cabeça decapiau. O gerente do banco mandando recado todos os dias;o ourives querendo negociar; o pároco, exigindo presença naquermesse; o advogado, no caso do processo etc... Começava aachar que não devia ter voltado! De noite, o cão amarrado ao péda cama; a foice debaixo do colchão; o facão, sob o travesseiro.

60  A lenda do homem douradoUma semana se passara desde que chegara. O cão já correracom muitos intrometidos terreiro afora; tinha ele a impressãode que o cão predizia os piores acontecimentos. Aprenderamuito lá nos cafundós da selva, onde Judas perdera as botas. Apercepção infalível do animal – a distância já notava as hienas,as onças, as jaguatiricas, prontas para o bote. No que o cãolevantava as orelhas, ele também aguçava o ouvido... Num fim de tarde daqueles dias de descanso, o soltombando seus raios no horizonte, o cão ladrava acintosamente.Lá fora, a voz suave de Maria Rita – Meu capiau!... Meu capiau!...Assim, foi até o terreiro, o coração palpitante. Depressamandou o cão calar. A muito custo, o bravo acalmou; estavameio estranho, o trigueiro! (O que mais poderia fazer o pobrecão?). Maria Rita, toda sorridente, foi chegando e abraçando-o.Os lábios carregados no batom ruge. E ali, naquela cama decasal, se “comeram” à exaustão; e gozaram até o último fluidoorgástico. Não feito aquela primeira noite, quando apenas eletinha chegado ao clímax; Maria Rita, no papel de puta (puta,não se dava ao dever de gozar); apenas participava. Se muitoela fizera, fora algum agrado! Não tinha experiência commulher para saber o que de fato acontecera naquela primeiravez. Ali, naquele momento, ele e Maria Rita, no lusco-fusco deuma luz de lampião; Maria Rita se oferecera de corpo e alma!Ou eram os seus sentimentos, enganados? A sua alma tola,apaixonada?... Ou o seu coração solitário, cheio de desejos?...Ou era aquilo tudo o cheiro do ouro entranhado na sua carne?O que importava? De tanto “comê-la”, tombou de lado, numdesmaio, a respiração sôfrega, o coração descompassado – oclímax, incomparavelmente pleno. Deus seja louvado! Nãohavia ouro que pagasse aquela sublimidade. A sua mulhercheirando a cio, aquele perfume inconfundível e a almasublimada, instante em que a claridade da lua invadiu-lhe ajanela, refletindo nos seus olhos o brilho do olhar de Maria

Jairo Ferreira Machado  61Rita; não sabia se brilhavam os olhos dela, do efeito da lua ouse de algum sentimento ruim que lhe vinha de dentro. Comosaber? Como acreditar que tudo aquilo pudesse ser verdade?Ela doara-se por inteiro, mas o que esperar de uma puta – a nãoser um par de chifres? O que importava? E assim, nos braçosdela, adormeceu... Lá pela madrugada, acordou. Os olhos incrédulos doque via: nem Maria Rita, nem o cão! O frio da madrugada,o crepúsculo matutino surgindo aos poucos; o arrebol quelhe fora áureo, naquela manhã, nada mais que labaredas defogo na sua alma ardente. Oh! Maria Rita! Deus seja louvado!Não acreditava no que não via. Enquanto pegava o facão ea munição que comprara com a intenção de um dia voltar àselva, onde escondera a espingarda e o ouro, concluiu: MariaRita dera água de beber ao seu cão, logo que ali chegara. (Nãotinha por que desconfiar daquele gesto de “amor”!). Tambémele bebera da água que ela trouxera, depois daquela inusitadasessão de lubricidade, em que se atrevera a ver nela um poucomais de alma. (Não havia como desconfiar.) A “moça” fora tãoentusiasmada na cama... Num instante, entendeu! Maria Ritadespertara no meio da noite, aproveitando-se do sonífero quebotara na água e levara o seu cão. De certeza, com a ajuda dealgum outro malfeitor que por ali se encontrava – já de casopensado. Maldita a hora em que não dera ouvidos ao cão, obravo querendo a todo custo morder Maria Rita! Oh! MariaRita! Os olhos crispados de dor e ódio. Pegou do alforje,meteu os apetrechos dentro e partiu; antes, incendiou orancho com tudo dentro, tendo atirado às chamas a aliança,a única lembrança daquele fatídico casamento. No flamejardas labaredas, o pensamento: maldito companheiro que oapresentara a Maria Rita; maldito ouro; maldito povo; e malditaa sua sina!... Os olhos crispados em fogo. Lá distante, o arrebolassoalhando o céu na cor sangue; as chamas lhe queimando por

62  A lenda do homem douradodentro. Nada o prenderia mais ali àquelas onças, jaguatiricase raposas. (Preferia a convivência dos felinos da selva!). Nopeito, o ardor da indignação. Oh! Maria Rita! No seu corpo operfume dela, o gosto daquele cio. Não olhou para trás, comose não mais pertencesse àquele mundo e novamente se meteuselva adentro, de onde nunca deveria ter saído. Obviamente, demorou a encontrar os vestígios da trilhapor onde retornara à cidade naquele dia, naquele estado demiserabilidade, pelo qual pensara não mais passar. Mas odestino o estava levando de volta para os confins daquela selva,desta feita sem o seu cão guia! Naquele instante, só a companhiade Deus. (Se é que Deus ainda o julgasse merecedor.) Dias enoites depois encontrou as pepitas escondidas; junto a elas,a espingarda. Carregou a arma e continuou a trilha. Maisalgumas horas de sacrifício e se viu novamente diante da cruzque cunhara no carvalho, local onde rogara perdão a Deus,depois de haver assassinado o rival e naquele dia quandovoltava de lá, do paraíso que encontrara. Nos seus olhos um riode lágrimas, o fio d’água correndo a sua frente. Tinha dúvidasda paciência de Deus para consigo? (Nem sabia se Deus operdoara daquela vez primeira e já estava ali, ajoelhado, defrente para a cruz novamente!), pensando nos pecados quecometeria; tudo em nome da honra! Oh! Maria Rita! Nãoqueria lembrar dela, mas o seu coração lembrava... Não queriaorar por ela, mas o seu coração orava... Aquela puta desvairada.Uma única cama de solteira, para os seus deleites, onde dormiae “dava”. Alguns utensílios, roupas espetaculosas e nada mais. A“moça” correndo de zona em zona, passando de mão em mão...Agora, também, ladra! Roubara antes o seu coração, depois oseu tesouro maior, o seu cão. Sabe-se lá quanto ganhara parapraticar aquele delito. A “moça” precisava mesmo de orações.O pároco avisara! Mas, quem era o pároco para recriminá-la e falar de “moral”? (A sociedade acoberta a imoralidade!).

Jairo Ferreira Machado  63Hipócritas! Falam em Deus, mas não agem dentro dos Seusprincípios. Enquanto estava ali, olhando o sinal da cruz,imaginava a falação lá na cidade. Ele ali, as cinzas de umaalma estraçalhada, as entranhas corroídas, o peito dilacerado...Lá na cidade, o banqueiro enfartando – perdera um negócioda China! O prefeito perdera a eleição. O ourives... O queimportava tudo aquilo? Não iria mudar as pessoas mesmo!Só gostaria de saber quem fora o autor daquela idéia. Quemcontratara Maria Rita? Maria Rita não se meteria naquelescafundós do Judas em busca de riqueza. Seu negócio era outro– “Dar”! Por certo, metera a mão na bolada e já voltara para azona, para o seu lugar, para continuar “dando”! E daria até umdia suas tetas caírem e engordar de não caber mais no velhovestido amarelo e ninguém mais querer. E por fim, morrer depobreza – era a sina dela! Tivera a “moça” tudo nas mãos paramudar de vida, por duas vezes, e não aproveitara. Oh! MariaRita! O riacho correndo nos seus olhos. Deus ali, ouvindomais uma vez suas preces. Ouvindo? Ouvindo, sim! Se Deusperdoaria ou não, isso era com Ele! O dedo sempre alerta, nogatilho da arma... O uivo melodioso do cão, como notas musicais, vibrando nos seus tímpanos uma cantiga de alerta. Cansado, adormeceu! O uivo melodioso do cão, comonotas musicais vibrando os seus tímpanos, uma cantiga dealerta. (Não estava sozinho!). Se não podia ver o cão, podia aomenos sentir a presença dele, aquela aura suprema embalandoo seu sono. Algo se aproximando... Ou era aquele ruído africção dos seus implicados neurônios? Quem sabe a sua mentejá bastante conturbada? Talvez as carícias da mão de Deus lhe

64  A lenda do homem douradotocando a face, perdoando-o? Nenhuma coisa, nem outra,senão a respiração ofegante de uma onça gananciosa. Deus sejalouvado! Puxou o gatilho! O tombo do felino ali perto; o animalatingido mortalmente. (Bem que lhe avisar o cão!). Tremiados pés à cabeça enquanto a felina estrebuchava lá no chão;os olhos da onça expirando o brilho feito o dia indo embora.O estampido da arma ainda nos seus ouvidos. Sentia mais amorte da bruaca, aquela que já o tivera nas garras (a provacabal, a cicatriz do antigo entrevero) do que quando atirara nofinado, o mau-caráter lá na sua cama ”comendo” Maria Rita.Naquele momento, ou ele ou a bruaca – nenhum sentimentode raiva, ou de revolta! Uma questão de sobrevivência, quandomuito! Quanto ao sujeitinho?... Antes de dar continuidade à caminhada enterrou a onçalonge da trilha, distante do lugar onde a matara, tendo anteslhe retirado o couro. O faro do cão podia estragar seus planos;predicado tal que, se bem explorado, ao contrário, ajudaria –era só levar o couro da bruaca consigo. Conforme seus cálculos,sabia que estava na dianteira dos ambiciosos; atrás de si, todaaquela gentalha mal intencionada – os tais garimpeiros; na guiadeles, o seu cão. (O coitado não tinha culpa!). Dali em diante,cuidaria de não utilizar mais a arma de fogo, evitando assimdespertar a atenção dos que vinham atrás. Maria Rita, aindanaquela última noite de deleite, dissera que os aventureiroschegavam aos punhados à cidade, despertados pelo noticiáriodo ouro. Oh! Maria Rita! Não podia esquecê-la! Não só pelosseus dotes femininos, mas por aquela traição (aliás, pelasduas!). A primeira vez, quando fora levada pela devassidão dosseus genitais insatisfeitos e “dera” para outro. A segunda, pelocusto de alguns ínfimos gramos de ouro, nada mais que merassessões de orgia. (Não tinha a “puta” a mesma esperteza da“modelo” que acompanhava o banqueiro! Ou, talvez tivesse.)Quem sabe Maria Rita animara-se diante da possibilidadede ter sua zona própria? Alguém poderia ter-lhe metido essa

Jairo Ferreira Machado  65idéia na cabeça... Ela gerenciando as putas, de quem cobrariafabulosas somas, aproveitando das riquezas dos garimpeiros.Ficaria rica e ainda escolheria seus clientes – não precisaria irpara a cama com qualquer um. Animada, decidira ela mesmair até lá e roubar seu cão de estimação? Assim mesmo, não aodiava; aliás, tinha-lhe pena! Podia ela ganhar todo o dinheirodo mundo; ainda assim, não compraria a satisfação própria. Oamor próprio. Maria Rita, digna de pena! Ouvidos atentos. Sentia-se ainda sob o pavor do susto!Passados vários dias de andanças e noites mal-dormidasseguindo a trilha que daria naquele lago dourado, optou porcolocar em prática seus planos – em vez de manter-se natrilha, seguiria rumo diferente! Ninguém perceberia. Todos osambiciosos no sonho da mina o acompanhando, levados pelocão e este, de certeza, seguindo o faro da pintada – o couro quearrastava montanha acima. Como não tinham a referência dosol e das estrelas andariam a esmo atrás da fetidez de um couro;ou seja, atrás do nada. Para acentuar o despiste, ia deixandopara trás galhos quebrados, a prova inequívoca de que alguémjá passara por ali. O cão na guia deles; o faro do cão no couroda onça... Acreditava na perspicácia do animal. Mesmo estandoalguns dias na dianteira, o cão o acompanharia – um, a almado outro! A mina, para o norte; ele e o cão indo para o sul,longe daquele paraíso, daquele lago dourado, levando junto osonho dos garimpeiros e dos maus habitantes daquela cidade.Sabe-se lá quantos homens vinham naquela expedição? Nopensamento, a certeza: muitos teriam deixado mulher, filho,emprego, empresa, em busca do sonho dourado. (Os homensmorrem de seus sonhos impossíveis!). Já aprendera, naquelespoucos dias de sofrimento, que a felicidade era como a luzdo sol – não brilha todo dia! Nada é definitivo. Nem umapepita de ouro! Nem Maria Rita! Oh! Maria Rita! Sabe-se láonde ela andava, naquela hora? Quando muito, sabia o queestaria fazendo: provavelmente “dando”. Podia imaginar a

66  A lenda do homem douradovoluptuosidade daquele corpo se esfregando a outro, numfrenesi incontido. Ele a “comera” muitas vezes, mas nuncasaciara de todo aqueles desejos; desconfiava mesmo queninguém conseguiria. Quanto isto lhe doía? Os mosquitos, osarranha-gatos, os espinhos cravados em seu corpo, nenhumaferida doía tanto quanto o seu íntimo – o preço da fraquezacarnal. Numa dimensão maior da necessidade da vida, quiserapara si simplesmente uma companheira; mesmo que fosse elauma puta! O que importava? Mas ganhara, em contrapartida,uma oponente. A leviandade! O pároco (em nome de Deus),tentara avisar. Mas, quem era o pároco para ter certeza dascoisas? Certeza mesmo, só aquela umidade infernal, aqueledescaminho escarpado, os pedregulhos, as pontas de pau,os felinos sempre de tocaia, os animais peçonhentos, o frio,o medo de dormir e não mais acordar... Também, o queimportava? Depois que fora traído pela consorte (duas vezes),botara fogo no rancho, não alimentava mais a esperança denada. Lá na cidade, abundavam felinos tantos quantos havianaquela floresta! Oh! Maria Rita! O que importava, se nãosabia aonde o caminho ia dar? Se não tinha para onde ir? Ou,se não veria mais a luz do sol? Sofreria sim, mas levaria consigouma alcatéia de ambiciosos; ambiciosos e covardes... No extremo da exaustão, municiava-se mais da energiaespiritual que da força física. O corpo aos frangalhos. Assim,postou-se num ponto estratégico do trajeto e esperou... Tinhaconsigo que os garimpeiros chegariam ali em dois ou trêsdias, no máximo. Isto, se fosse verdade que seu cão os guiavaconforme sua pretensão – pela trilha do nada. Ou seja, nosentido contrário do paraíso que os garimpeiros sonhavam.Imaginava aquela gentalha, os homens cheios de sonhos acusto de muito sofrimento (seu e de seu cão), desejando afortuna fácil, a ambição desmedida. De certeza, vinham elesrindo pelo caminho, fazendo chacotas dele – Aquele capiau,nos prestando um favor! Chifrudo! Burro! A puta tirou-lhe o

Jairo Ferreira Machado  67cão de debaixo do nariz! (E davam gargalhadas!). Na verdade,tinham eles uma ponta de razão: “Chifrudo”! Fora por demaisinocente achando que poderia constituir um lar com MariaRita – a pureza do sentimento o tornara um otário, um chifrudomerecedor! Quanto ao resto, que esperassem para ver... Sealguma coisa aprendera naqueles dias, era como se defenderdos riscos da selva; conhecia a maioria deles. Assim mesmo,fechasse os olhos e, num segundo, estaria morto. Salvara-o,muitas vezes, a intervenção Divina e, naturalmente, o seu cão;este, já não estava mais ali, não podia contar com ele. De todamaneira, ainda que fosse um pecador, alguma força soberanasempre vinha socorrê-lo – acreditava! Fora isso, contava coma percepção (um sexto sentido) e o manejo da arma. Nãoqueria matar, mas precisava! Não queria estar ali, mas estava!Não sonhara com nada daquilo, mas tivera a desventura damá escolha. Quem não erra uma só vez na vida? Oh! MariaRita! Os seus olhos lacrimejados. Na gota de lágrima quecorria, via Maria Rita nua, como lá no chuveiro quente daquelapensão, ele abraçado a ela, depois dentro dela, na ventura deum sentimento conciliador, o cheiro do sabonete, o gostodaquela boca graciosa. A “moça” levando-o para a cama, ondeadormecera feito um bebê de colo, reconciliando-se consigomesmo, com sua vida, com sua alma! Olhava além das copas das árvores a sinuosidade das montanhas no abrigo de um sublime manto verde. Ficou ali esperando. A sua frente uma réstia de luzfluindo por entre a folhagem no alumio de seus olhos. Lá longea impavidez da montanha e seu ventre dourado. Nenhum sinalde alguém vindo. Um ou outro susto de animais incautos que

68  A lenda do homem douradopassavam por perto dali, mas nada que parecesse a humanos– os bichos, ingênuos até. O tempo passando... Uma ave derapina! De uma grandiosa rocha camuflada entre folhagens,os olhos longe para ver quem longe vinha. Estava já no limitedas forças, as vísceras padecendo a fome, a esperança pouca.Tempos depois, algo minúsculo se movimentando lá distantena falsa trilha, e depois, mais outro – eram os garimpeiros. Osdevastadores da natureza. Uma massa de homens ambiciososque davam a vida pelo vil metal, não importando se paraisso derrubassem, matassem, destruíssem, roubassem... Umdesastre ecológico – era isso o que representavam! O apertono coração. A montanha, aquela selva magna era parte dele; asua vida. O verde abundando nas tonalidades, árvores das maisdistintas envergaduras, como aquele carvalho onde cunharano tronco uma cruz; apenas uma cruz, como instrumentodas suas crenças religiosas. Assim mesmo, desculpara-sedaquele feito arteiro contra a árvore para pedir clemência aDeus! Naquele longo período de penitência travara amizadecom flores de todas os matizes e os frutos que lhe aplacavama fome quando mais necessitava; com animais de todo porte ebeleza e as pedras de dimensão e adornos nunca imaginados.Já imaginava-se, de longe, um silvícola. Só não sabia sesuportaria a convivência úmida da selva como eles, por muitotempo; não era lugar para ele, embora se sentisse protegido e seidentificasse com toda aquela harmonia. Mergulhasse os olhospor entre a copa das árvores e veria lá longe a sinuosidade dasmontanhas no abrigo de um sublime manto verde. (Não podiaconceber toda aquela beleza devastada!). Os olhos admiradosnaquela harmonia; lá no fundo, o infinito, o azul celestial; o céude que tanto precisava – o Deus que aprendera a ver e respeitardesde as primeiras lições de catecismo. O seu Deus do céu. Osambiciosos vindo... Difícil acreditar que toda aquela imensidãode terra desapareceria em pouco tempo, a terra ficaria nua; no

Jairo Ferreira Machado  69chão, as entranhas revolvidas, tudo por conta da ambição doshomens, por culpa sua. Sentia-se aliviado. Deus seja louvado!Dos confins do pensamento, a audácia de imaginar que Deuslhe confiava uma missão. (Por isso o favorecia com intervençõesas mais divinas, nas horas mais difíceis). E uma vez que tiveraa desventura de arrancar do ventre daquele santuário naturaluma pepita de ouro, via-se na obrigação de redimir-se do seumaior pecado – a cobiça. A cobiça de Maria Rita! Os homensvindo ali na sua cola, ávidos pela fortuna. O ouro era danatureza e era lá que haveria de permanecer. Os garimpeirosnão queriam saber disso: a cobiça; o cão, no faro do couro – nocaminho do nada! Oh Maria Rita! Tudo por culpa da “moça”.(Por que não culpa sua, a fome de amor?). Haveria de redimir-se daqueles pecados. Ou Deus não o perdoaria? O plano dava certo. Deu prosseguimento à caminhada,levando junto aquele povaréu. (O cão, o seu faro e sua alma!).Tinha um compromisso com Deus; em particular, com suaconsciência. Oh! Maria Rita! Ela deslumbrava-se à sua frente,aquele esplendor de mulher. A pele morena, as cadeirasritmando um incomum rebolado, as madames morrendode inveja; os homens, de tesão. Os seios belos, os olhos deuma tigreza, a tez macia exalando um cio irresistível. Burro!Sonhara demais... Não fora o único que quisera tirá-la daquelemeretrício, mas fora o mais convincente. Sabe-se lá por quê...(Não se achava merecedor.) Estava escrito nas estrelas. Aemoção daquele instante em que lhe propusera casamentosuperava tudo o que havia de lógico e racional; não se deraconta de que aquele sentimento pessoal, e quiçá passageiro,fosse apenas uma das artimanhas da paixão. Esperasse umasemana ou alguns dias e talvez não terminasse assim. O temposuficiente para entender que Maria Rita não era mulher parase esposar. O pároco bem que tentara avisar!... O amigo que olevara à zona, naquela primeira vez, ficara abismado. Mas o que

70  A lenda do homem douradofazer? Burro! Inconseqüente!... O ar rarefeito da altitude, o riscoiminente, a quase certeza de nunca mais sair daquela selva. Oque importava? Voltasse, e estaria morto mesmo! Como mortojá estava, por dentro. As entranhas roncando por um prato-feito; o corpo pedindo uma cama macia; a umidade das vestesevocando a luz do sol; a alma querendo um aconchego – ascarícias de Maria Rita. Na boca, o gosto erótico daquela paixão.Nos olhos, a ostentação da sensualidade de Maria Rita, elagingando as cadeiras com a mestria de uma puta, quando vieraao seu encontro naquele primeiro dia que estivera lá na zona;depois arrastando-o para o quarto, para a cama; ela, esfomeadade tesão. Esquecera de uma vez por todas, sua mula. Malditaaquela hora! De certeza, Deus não estava com ele, naquelemomento. (Por que haveria de estar?). Como não estava dolado daquela gentinha que seguia o seu cão. A desmedidacobiça do ouro. Ninguém se limitaria a pegar apenas algumaspepitas; iriam querer muito mais. Tantas que revirariam aquelamontanha do avesso. (Admirava o quanto Deus permitiaque as pessoas tomassem, elas mesmas, as suas decisões, nãointerferindo nas suas vidas!). O fato é que o ser humano agealeatoriamente, sem muito consultar a própria consciência, nãose dando tempo de refletir sobre as ações. (Quando se consultaa consciência, consulta-se a Deus!). Naquele dia, lá na zona, ofogo da paixão não o deixara sentir outra coisa senão o fogo deMaria Rita. Queimara-se por dentro. Por isso estava ali, longede tudo; distante dela; os aventureiros no seu encalço... Seguia movido mais pela vontade da vingança que deoutro sentimento qualquer. Ou não era aquilo vingança, erafuga? Fuga de si mesmo. Fuga de Maria Rita. Fora isso, só avontade de Deus. A força da alma no alento do seu corpo, nodesejo de cumprir seus desígnios. Em sã consciência, tinha apujança da natureza a seu favor – todo tipo de iniqüidade longedo seu caminho. Deus à frente interferindo favoravelmente nas

Jairo Ferreira Machado  71suas ações. O mais impressionante: Deus bem podia fazer tudoaquilo sozinho – sem nenhuma ajuda. Em vez disso, guiavaseus passos pelos caminhos mais escarpados. Deus querendo...(Dava-se a ousadia de assim imaginar!). A exaustão já nolimite. O entendimento das coisas, a associação de idéias, todapercepção assim, abalada. A precipitação e os desencontros.Mas, Deus queria! Trôpego, a mente confusa, o juízo abalado,mal vendo onde pisava, continuava a escalar o penhasco comose quisesse chegar ao céu, tocar as nuvens, a lua as estrelas, osol. Ganhar o perdão. A responsabilidade de resguardar o meioambiente não era somente sua; toda a grandeza da naturezacompartilhava – mesmo a selva mais inóspita. Oh! Maria Rita!O semblante dela embaralhando seu raciocínio. Aqueles dias dedesventura e de luxúria pecaminosa. (Bem que era merecida,aquela agonia!). Num descuido, o chão lhe faltou sob os pés; um artifícioque a montanha lhe preparara, a dádiva de Deus mais umavez vindo amenizar-lhe os sofrimentos. De cambalhota emcambalhota, rolou montanha abaixo, despencando-se dasalturas feito um fruto maduro. A dor consumindo o seuraciocínio, a lucidez se esvaindo, feito a noite engolindo o dia;o dia se deixando ir, pois entende que é chegada a hora! Aescuridão. Oh! Maria Rita! A malícia daquele sorriso, aqueleslábios carnudos e o olhar de cio; Maria Rita lhe estendendo amão na intenção de resgatá-lo (como se pudesse!). Não podia...Tarde demais. Oh! Maria Rita! Aquela nudez dourada, aquelesseios hirtos onde mergulhava seus olhos enquanto a possuía.(Mergulhava mesmo era no vazio do penhasco!). Maria Ritaquerendo acudi-lo. Os dois: um só corpo, uma só alma! Aágua cálida do chuveiro, a fragrância do sabonete, o perfumede Maria Rita e aquele cio desenfreado... Como esquecertudo aquilo? Sem muito querer, esquecia. A lembrança deMaria Rita indo longe no vazio do penhasco. O último beijo

72  A lenda do homem douradonaqueles lábios de mel. Maria Rita lhe sorrindo enquanto seucorpo era atraído para os braços da terra! Não era de todoruim... (Quem dera fosse aquilo um sonho!). Mas não era.Maldito aquele dia, aquela transa, aquele casamento, aquelabala certeira!... A certeza do nada e a saudade daqueles bonitosmomentos indo junto. O cão trigueiro, os olhos amargurados,olhando lá do cume do penhasco. Lá distante, em algum lugardaquela majestosa natureza, o brilho áureo de um santuárioonde sua mente, inebriada de sonhos, muitas vezes estivera,pretendendo encontrar o perdão, a paz e, quiçá, Maria Rita!O amor de Maria Rita. Mas era tarde demais. Muito tarde. –Adeus, Maria Rita!... g



Este livro foi editorado com as fontes Minion pro e Birsh std. Publicado on-line.




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