(DELEUZE, 1976, p. 32-33) A partir da análise das forças ativas4 e reativas que configuram um corpo, Gilles Deleuze (1976) aponta que: “O verdadeiro problema é a descoberta das forças ativas, sem as quais as próprias reações não seriam forças. 4 (DELEUZE, 1976, p. 34-35)
A atividade das forças, necessariamente inconsciente, é o que faz do corpo algo superior a todas as reações, em particular a esta do eu que é chamada de consciência” (DELEUZE, 1976, p. 34). Esta parece uma preciosa contribuição à pesquisa acadêmica. Seria necessário, então, ir além das perguntas conscientemente formuladas na ciência, que tem como base o que é reativo, para se chegar a uma verdadeira pergunta – a qual queremos fazer, mas sequer sabemos como: uma questão. (DELEUZE, 1976, p. 34) E o que seria uma força ativa, autônoma, que a todo tempo escapa à consciência? Nisso, o pesquisador tem muito o que aprender com a literatura e as artes. Talvez porque lhe seja caro o instinto próprio a (VALÉRY, 2011, p.141)
“Estou em pé na soleira da porta a ponto de entrar no meu quarto. É uma empresa complicada. Primeiro tenho de lutar contra a atmosfera que pressiona cada centímetro quadrado do meu corpo com uma força de 1 quilograma. Além disso preciso tentar desembarcar numa tábua que voa em torno do sol a uma velocidade de 30 quilômetros por segundo; um atraso só de uma fração de segundo e a tábua já está a milhas de distância. E essa proeza tem de ser realizada enquanto pendo de um planeta esférico com a cabeça voltada para fora, mergulhada no espaço, e um vento de éter sopra por todos os poros do meu corpo sabe Deus com que velocidade. Também a tábua não tem substância firme. Pisar em cima dela significa pisar em cima de um enxame de moscas. Será que não vou cair pelo meio? Não, pois quando ouso e piso nela uma das moscas me aceita e me golpeia para o alto; caio de novo e sou
ToArtfaererjautcrGhíehndcuheooirrdosdEdahdadaoepdcme“1ianlIr9atgmS3atfc8oaíhds)ng.ieoce(laWme1”m8,a8lddt2(eooP-r1acmB9rii4eesunn,4nj)t1a,idm2setoxaid-ne atirado para cima por outra mosca e assim vai em frente. Posso, portanto, esperar que o resultado geral será que eu permaneço continuamente mais ou menos na mesma altura. Mas se apesar disso, por infelicidade, eu caísse pelo meio do assoalho ou fosse lançado para o alto com tal violência que voasse até o teto, esse acidente não seria uma violação das leis da natureza, mas só uma coincidência extraordinariamente improvável de acasos... Em verdade é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um físico ultrapassar a soleira de uma porta. Trate-se do portão de entrada de um celeiro ou da torre de uma igreja, talvez fosse mais sábio que ele se resignasse em ser apenas um homem comum e simplesmente entrasse, ao invés de esperar que tenham se resolvido todas as dificuldades ligadas a uma entrada cientificamente irrepreensível”
(UNO, 2012, p. 42-43; 59; 66)
Uma pesquisa deve ser mobilizadora de marcas5, dá-lhes escuta, imagem, corpo. Inscrevê-las. Dizer daquela vontade, desde um lugar irrepetível. Pesquisar, portanto, requer 6 5 “Se a marca coloca uma exigência de trabalho que consiste na criação de um corpo que a existencialize, o pensamento é para mim uma das práticas onde se dá esta corporificação. O pensamento é uma espécie de cartografia conceitual cuja matéria-prima são as marcas e que funciona como universo de referência dos modos de existência que vamos criando, figuras de um devir.” (ROLNIK, 1993) 6 “Pensar assim concebido e praticado se faz por um misto de acaso, necessidade e improvisação: acaso dos encontros, onde se produzem as diferenças; necessidade de criar um devir-outro que as corporifique; improvisação das figuras deste devir. Assim, neste tipo de trabalho com o pensamento o que vem primeiro é a capacidade de se deixar violentar pelas marcas, o que nada tem a ver com subjetivo ou individual, pois ao contrário, as marcas são os estados vividos em nosso corpo no encontro com outros corpos, a diferença que nos arranca de nós mesmos e nos torna outro.” (ROLNIK, 1993, grifo nosso).
... Encontro o corpo utópico7: um texto tão essencial quanto intimamente implicado. É quase impossível reconhecer Foucault nessas linhas... (Ainda que diante de seu autorretrato!) Aquelas poucas páginas reuniam as questões que ainda se esboçavam nesta pesquisa. Lá, juntas, precisas: a irrefutabilidade de ser um corpo físico, suas presentificações e ausências. O corpo e sua imagem: a morte, o espelho, o gozo. Corpo do outro. Corpo outro. Corpo sempre outro. Era, de uma só vez, incisivo e tangente: falava do corpo heterotópico, mas sem nomeá-lo. Aliás: a princípio, chamava-o até por uma palavra que dizia justamente o contrário... Foucault tinha sido mesmo (FOUCAULT, 1970, p. 5) 7 Conferência radiofônica “Le Corps utopique” [“O Corpo utópico”], proferida por Michel Foucault, em 1966.
Por longos dias, meditei sobre o belo jogo de ideias. “ Não cansava de me deslumbrar com cada nova descoberta – e o pequeno texto não parava de se abrir... Quanta força havia nele. Foi como se esta pesquisa se tornasse desnecessária. Aquele por um triz que a sustentava parecia, já, um equívoco. Não tardou, porém, em se mostrar um presente: “ !
... Outra palpitação – a demora merecida: (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 7)
Mas o que é isso que não fiz toda a minha vida! Pensar o pensamento. O projeto de pesquisa mais uma vez dispensável? (Pois, se esta deveria ser a tarefa última de um filósofo, para que este trabalho – filósofa que não era, que não sou!) ... Como é do encontro-colisão ser contra e a favor, estes, afirmaram o algo que havia a ser dito, mesmo e somente, deste ponto de partida minúsculo, o menor de todos: o único do qual posso falar. ...
O que quer este trabalho é a tatilidade que há na interseção entre a pesquisa e o pensamento – alçar um corpo de pensamento. Mas seria esta uma questão a ser pesquisada? Possível? Seria mesmo esta uma questão? A imersão, sufocante e igualmente sedutora, ainda parece válida: que há algo a ser dito. Algo a ser escutado. (NIETZSCHE apud DELEUZE, 1976, p. 65) Escutar com a intensidade da ausculta: “dar ouvidos” a movimentos imperceptíveis, que, no entanto, são indispensáveis. No exame médico, por exemplo, ausculta-se um coração, um feto. Na pesquisa, há que se escutar sua vontade genética. Aquela, amalgamada na pergunta e no perguntador. Como se a enunciação levantada por uma pesquisa fosse potencialmente reveladora de seu motor, muito mais que de respostas – uma provocação ao interrogador.
Gravar é cunhar intimidade, encontro de matéria e sensação8. Supondo que uma substância metálica a ser gravada seja a linguagem: a vontade é o talhe nessa superfície, fazendo dela uma pergunta. Que esta matriz resistente seja prensada contra a maciez da outra superfície, um papel. Nesse processo, do metal sairá algo que não é ele – é a sua marca, a imagem que ele, como objeto metálico, foi capaz de gerar sob dadas condições. Ousaríamos uma fórmula? Uma pergunta comprimida com aquela força de 1 quilograma que empurrava cada centímetro quadrado do corpo de Eddington, ao longo de xis metros quadrados de superfície moldável, resultará numa gravura-pesquisa – nela, está impressa a bela imagem de sua vontade. A marca de sua marca. Imprimir é a ausculta que faz o artista. Ele olha os mesmos objetos que todos, mas cria os seus, vê neles sua marca. Extrai linhas e relações im/possíveis das coisas; antevê formas que a matéria guarda, inventa-as. Mais que revelar, a operação poética9 cria o ainda não visto, nem sentido.
8 (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p.196-197) 9 (VALÉRY, 2011, p. 213)
Na investigação artística, auscultam-se mundos, vidas – aqueles movimentos imperceptíveis, que, no entanto, são indispensáveis. Seu trabalho não começa aqui ou ali, ele não para; sua pesquisa acontece a cada abrir os olhos, dormindo até – basta-o a condição de estar vivo. Pesquisa da vida toda, que não tem tamanho10. Entre o dormir e acordar, e o acordar e dormir, vivem- se vultos cotidianos: entres que conjugam intensidades: nem relógio, nem nada suficiente para conter. A situação criativa é ultrajante, sinuosa – infiltra-se.
10 A cena a seguir encarna a pesquisa infinita (Trecho extraído do livro Papel- máquina, de Jacques Derrida, 2004, p. 246):
(VALÉRY, 2009, p. 9. Trecho da letra A do Alfabeto de Paul Valéry) 12 VALÉRY, 2009, p. 13 O que distingue esses dois intervalos – o sonho e a vigília – é o tipo de vontade que sobre eles opera. O primeiro, zona indeterminada,éregidoporvontadesinvoluntárias–nosonho11reina a impotência de uma terra que se reconhece, mas somente como expropriação. Este 12 atribui ao sonho uma qualidade criativa, insubmissa a qualquer tipo de exigência ou correspondência. 11 (GUATTARI, 2011, p. 14)
(VALÉRY, 2011, p. 95)
(VALÉRY, 2009, p. 11-13. Trechos das letras A e B do Alfabeto de Paul Valéry)
No outro lado, está a vigília, quando se desenrola a pragmática diária. Ela é a zona na qual se pretende determinações; está sob a égide da vontade consciente. Esta, por sua vez, sendo de cunho reativo, embarga a criação. Porém, no estado vigilante, há ainda outro tipo de vontade – que não é a onírica, nem a ordinária. É desta vontade, pois, que usufruem artistas, pesquisadores, pensadores. Dela dependem suas atuações. (VALÉRY, 2009, p.13)
“É com um corpo que nós encontramos no estudo: um corpo traz encarnada em conceitos uma série de marcas que ao nos afetarem podem provocar em nós o aparecimento de uma ou de várias marcas inusitadas ou também reavivar alguma marca que já estava ali a nos desassossegar, sem que pudéssemos ouvi-la e/ou responder à sua exigência. Quando uma marca é assim criada ou reatualizada no estudo, somos atraídos por sua reverberação e lançados a uma exigência de inventar um corpo conceitual [e/ou poético] que a encarne”. (ROLNIK, 1993)
É com um corpo que nós encontramos.
UM CORPO AO PENSAMENTO
Um corpo ao pensamento Corpo e espaço: onde é o onde do corpo? Heterotopologia. As heterotopias: espaços outros. Conferências radiofônicas de Michel Foucault acerca da utopia. Contextos de publicação. Corpos outros: das utopias às heterotopias do corpo As utopias e seus corpos. Corpo-livro. Mákina, palavra-corpo da lei. Corpo e acontecimento Corpo dilatado. Efetuação e contra-efetuação. Fissura, operador de acontecimentos. Incisão em superfície, espessura, profundidade. Corpo fissurado: da fissura aos corpos do pensamento Alargamento e vibração da fissura. Plano de composição e corpos poéticos: os corpos do pensamento. Pensar por sensações. Composto de sensação. Dimensão monumental da obra de arte. Encarnação do acontecimento. Condição limítrofe: o risco do corpo fissurado. Queda-livre versus enfrentamento do caos.
O dançar do corpo de escrita Além da quebradura de cada corpo. Um dançarino da escrita. Palavra poética versus linguagem utilitária. O pêndulo poético. Autopoiése e autoposição da criação. Pré-individualidade do corpo do pensamento. Um corpo ao pensamento ou Fabricação de corpos poéticos Corpos fabricados na operação poética. Móbiles no caos. Atribuir um corpo ao pensamento. Corpar: ser e não ser encarnável. O corpo do pensamento como acontecimento. Força motriz dos corpos poéticos. O vir a ser do pensamento. O livro de areia: tornar-se infinitamente. Dermoteca: escrever, apagar, inventar a pele Corpo no amor. Espaços outros, corpos outros: corpo heterotópico. As heterotopias. Acontecimento: duplicidade do corpo heterotópico. Autoimagem na utopia e na heterotopia: o cadáver, o espelho e o amor. Tocar o corpoimagem. Pele apagada pela utopia, pele inventada pela heterotopia.
Um corpo ao pensamento Corpo e espaço: onde é o onde do corpo? Em 1966, Michel Foucault propõe uma nova ciência para estudar o espaço – a heterotopologia1, cujo objeto é a heterotopia. Em seguida, atravessando a perspectiva heterotópica do espaço, o autor realiza um estudo do corpo utópico. Com este compõe um agudo espectro das relações entre corpo e espaço, do qual desponta a questão: onde é o onde do corpo? 1 A heterotopologia seria uma especialidade da topologia, que, por sua vez, pode ser definida como “ciência que pensa as formas geométricas como fenômenos que, tendo um desenvolvimento no tempo, definem o devir, não mais o ser do espaço.” (ARGAN, 1992 apud SPERLING, 2003, p. 33). Nesse sentido, Foucault (1967) aponta como elemento diferenciador dos diversos tipos de heterotopia a relação que eles apresentam com o tempo (as heterocronias). No tópico Dermoteca: escrever, apagar, inventar a pele, as heterotopias são apresentadas em detalhe e discutidas.
Tais colocações integraram as conferências radiofônicas “Les Utopies réelles: lieux et autres lieux” (“As Utopias reais: lugares e outros lugares”) e “Le Corps utopique” (“O Corpo utópico”), pronunciadas por Foucault em 7 e 21 de dezembro de 1966, como segunda e quarta emissões da série “L’utopie et la littérature. Littérature sur l’utopie”, da France-Culture. O áudio dessas conferências foi editado e publicado, sob o título Utopies et hétérotopies [Utopias e heterotopias], pelo Centre Michel Foucault/ Institut Mémoires de l’édition contemporaine (IMEC-Caen), e reeditado pelo Institut National Audiovisuel (INA), em 2004, como CD da série Mémoires vives. A publicação impressa dos dois textos originais foi realizada apenas 43 anos depois, no livro Le corps utopique, les hétérotopies (Paris: Lignes, 2009), com apresentação de Daniel Defert. No Brasil, o material permanece inédito. A versão em português aqui utilizada foi a tradução feita pelo Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat/ Instituto Humanitas/ Unisinos) e disponibilizada no respectivo site em novembro de 2010. Uma versão castellana do mesmo texto foi publicada na revista Fractal (n. 48, p. 125, jan-mar. 2008), com tradução de Rodrígo García;
ela encontra-se também na edição argentina El cuerpo utopico, las heterotopias (Buenos Aires: Ed. Nueva Vision, 2010). A noção de heterotopia é retomada por Foucault na conferência “Des espaces autres” (“De outros espaços”), proferida no Cercle d’études architecturales de Tunis, em 14 de março de 1967. Sua primeira aparição completa como texto escrito acontece em 1984, na exposição “Ideia, Processo, Resultados”, na Martin Gropius Bau (Berlin). De acordo com Daniel Defert (2009), Esta exposição foi a principal das dezessete manifestações com as quais a International Bauausstellung (IBA) apresentou ao mundo o balanço de suas atividades de reconstrução e renovação de Berlim. Ela imaginou a reunificação da cidade-capital, que parecia estranhamente ilustrar os ‘espaços outros’ do texto de Foucault de 1967. Ao autorizar sua publicação, pouco antes de sua morte, ocorrida em 25 de junho de 1984, o filósofo o tinha feito entrar in extremis no corpus de seus escritos autorizados.2 2 “Cette exposition était la principale des dix-sept manifestations par quoi l’International Bauausstellung (IBA) présentait au monde le bilan de ses activités de reconstruction et de rénovation de Berlin. Elle imaginait la reúnification de
Em seguida, “Des espaces autres” foi publicado também na revista Architecture, mouvement, continuité (n. 5, out. 1984, p. 46-49) e recolhido em Dits et écrits (IV, Paris: Gallimard, 1984). Este e os outros trabalhos de Foucault anteriormente mencionados estão referidos, neste livro, pelo ano de realização das conferências, considerando-as como publicação primeira de tais produções. la ville-capitale, laquelle semblait illustrer étrangement les ‘espaces autres’ du texte de Foucault de 1967. En autorisant as publication, peu avant sa mort, survenue le 25 juin 1984, le philosophe l’avait fait entrer in extremis dans le corpus de ses écrits autorisés.” (DEFERT, 2009 in FOUCAULT, 2009, p. 38, tradução nossa)
Corpos outros: das utopias às heterotopias do corpo O encontro com “O Corpo utópico” (FOUCAULT, 1966) faz variar os sentidos do significante corpo, entre o físico, o utópico e o heterotópico. Tal alternância conduz a uma digressão nas discussões sobre o corpo do pensamento, senão para voltar a ele e aprofundá-lo. Assim sendo, a seguir estão apresentadas perspectivas que contribuem para a compreensão de diferentes tipos de experiência corporal. Ao contrastar a irrefutável presença física do corpo com suas diversas transmutações, Foucault (1966) destaca a susceptibilidade à utopia como fator balizador dessas variações. Nelas, a “utopia profunda e soberana” propriamente corporal estaria em graus de esvanecimento ou acentuação. O autor define a utopia como “lugar fora de todos os lugares”, “lugar sem-lugar”, estando, portanto, além de qualquer demarcação geográfica.
As utopias são lugares sem lugar real. São lugares que têm uma relação analógica direta ou invertida com o espaço real da Sociedade. Apresentam a sociedade numa forma aperfeiçoada, ou totalmente virada ao contrário. Seja como for, as utopias são espaços fundamentalmente irreais. (FOUCAULT, 1967) Segundo Foucault (1966), o grau zero da relação corpo/utopia é a pura fisicalidade corporal, que estabelece uma vinculação tópica através da ocupação de determinado sítio – “um aqui irremediável”. No outro limite, está a saturação dessa relação: o corpo-imagem especular e o corpo-coisa cadavérico. Ambos são expoentes do corpo utópico e revelam, respectivamente, a utopia do espelho e a do cadáver. Apesar deles reivindicarem um espaço ao corpo, este é sempre “um invencível outro lugar”. Assim, tanto o espelho quanto o cadáver engendram espaços inacessíveis, que ratificam certa condição insituável do corpo. Na língua japonesa, existe uma expressão significativa: “não saber onde colocar o corpo”. É verdade que nós somos todos lançados neste mundo tendo só o corpo isolado. Este corpo é isolado do mundo e, ao mesmo tempo, vinculado ao mundo, invadido pelo mundo. Este corpo está entre
outras coisas e outros corpos, possuindo uma distância dos outros e medindo sem cessar essa distância. Mas a distância não cessa de variar no espaço que constitui o mundo com sua profundeza imperceptível. A forma, a grandeza, a qualidade, tudo que é mensurável sai somente desta profundeza. (UNO, 2012, p. 62) Entre os dois extremos apontados – o corpo físico e os corpos utópicos máximos –, espraiam-se outros tipos de utopia, aos quais correspondem corpos específicos. Alguns deles são residentes perpétuos de mundos utópicos: o corpo místico dos seres mágicos, decorrente da “utopia de um corpo incorpóreo”; o corpo- morto-vivo das múmias, advindo da “utopia do corpo negado e transfigurado”; e o corpo mítico da alma, que escapa às limitações impostas pela estrutura física corporal, sobressaltando-a. Há, ainda, as utopias nas quais o corpo é projetado ao universo da imaginação, do desejo ou do sagrado. Na busca pela conexão com tais instâncias, entram em cena “as utopias seladas no corpo”: lendas e operações ritualísticas, como o uso de máscaras, tatuagens e maquiagem. Segundo Foucault (1966), elas levam a crer que “o corpo humano é o ator principal de todas as utopias”.
Olhos fechados não podem ler Coçar para ler Arranhar para entender Uma mão não pode se escrever A busca nunca é completa O LIVRO DOS SEGREDOS CORPO-LIVRO Frames do filme The Pillow Book
Seriam desta ordem, pois, as intervenções feitas pela escritora- personagem Nagiko Kiohara, para a realização do novo Livro de cabeceira? No aniversário de mil anos da primeira versão publicada do livro-diário Makura no sōshi (996-1021), da escritora japonesa Sei Shōnagon, Peter Greenaway cria o filme The Pillow Book (1996), cujo enredo inventa um modo peculiar de fazer livro: o corpo-livro. O livro de Shōnagon não somente motivou a elaboração do roteiro cinematográfico de Greenaway; ele está inserido como elemento narrativo da ficção fílmica. Traduzido para o português como Livro de cabeceira, o título japonês aproxima-se de ‘Notas do travesseiro’ (sōshi, caderno em branco; makura, travesseiro). “Essa denominação provém do tradicional travesseiro oco usado no Japão, feito de madeira, em cujo interior se guardavam apontamentos ou diários.” (RAFFAELLI, 2010, p. 330). Do ponto de vista da criação literária, a obra de Shōnagon destaca-se por contribuições singulares: “Escrevendo em hiragana, o silabário japonês próximo da palavra falada, Shōnagon abriu caminho para uma nova literatura, na qual as mulheres foram as expoentes. Shōnagon também criou uma forma literária própria, a zuihitsu, literalmente ‘pela linha do pincel’ (MASON, 2005, p. 111), mas que poderia ser traduzida como ‘escritos casuais’ ou ‘notas ao acaso’.” (RAFFAELLI, 2010, p. 338) [Fonte complementar: The Japanese Literature Home Page <http://www. jlit.net/authors_works/premodern/makura_no_soshi.html>]
Um livro não tem objeto nem sujeito; é feito de matérias diferentemente formadas, de datas e velocidades muito diferentes. Desde que se atribui um livro a um sujeito, negligencia-se este trabalho das matérias e a exterioridade de suas correlações. Fabrica-se um bom Deus para movimentos geológicos. Num livro, como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação. (DELEUZE; GUATTARI, 2012a, p. 18)
No ritual de entrega da pele à escrita, a tinta toca o papel-película, que assume a condição passageira de página, a ser apagada pelo banho. As palavras assim cunhadas convergem os atributos de máscara, tatuagem e maquiagem, invocando simultaneamente o lendário, o sensual e o sagrado – “uma mistura de sensualidade e religião, sem a qual a carne, talvez, não ficaria de pé sozinha” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 211). Ela diz toque-me, mas já não mais está inteiramente lá. Desse modo, o corpo-livro estaria elevado a uma dimensão utópica. No entanto, ele é constituído por uma presença física que não é casual, nem gratuita; que torna sua escritura tão mais contundente porque nele está esposada. “Olhos fechados não podem ler”, são as pálpebras do corpo-livro que se fecham para dar a ver a frase. Assim, a exploração de suas páginas desdobra relações entre o extensivo e o intensivo, impelindo encontros insólitos.
MÁKINA, palavra-corpo da lei Mecanismo semelhante ao ritual do corpo-livro constitui a máquina inventada por Franz Kafka, em Na colônia penal, escrito de 1914 publicado em 1919. Com o notório diferencial da violência exercida por um sistema judiciário bárbaro, essa mákina grava, literalmente, a lei infringida pelo condenado em seu corpo, até levá-lo à morte. A execução da sentença (realização) equivale à execução do infrator (morte), numa engenhosidade tal que leva ao limite as relações palavra/ação, pena/punição, fazendo- as corresponder através da carne. A lei assim consumada finca sua força no corpo – através de um, alcança todos. A palavra que desaparece na superfície ensanguentada está, então, dita da maneira mais audível e vista da forma mais visível, tanto para quem assiste a cerimônia de tortura, quanto para aquele que a encarna – “estes suspiros que agem com uma voz colectiva” (GIL, 1997, p. 106). A soberania dessa Justiça impregna, de modo incalculavelmente eficaz, a metamorfose do corpo punido; seus
artigos são lembrados e reafirmados, letra a letra, pelo castigo da gravação: “o interior da dor é reabsorvido, transformado em transparência para todos que a veem” (GIL, 1997, p. 123). Alcança-se, com isto, a correspondência entre escrita e sentido, através do corpo transfigurado; a mákina realiza uma “produção da presença do sentido” (GIL, 1997, p. 118). A lei, propriamente escrita, é a pena de morte. (GIL, 1997, p. 116)
(KAFKA apud GIL, 1997, p. 104-105)
Sobre a mákina, por José Gil: “o modo de revelação de presença não é, em definitivo, individual, mas colectivo (...). A sua experiência é assim transmissível – porque a sua incomunicabilidade constitui o laço essencial da nova comunidade dos fiéis (do comandante, inventor da máquina, novo Messias). Sabemos de um saber esotérico: não o poder dizer (não saber dizer ou o que dizer), e fazer neste silêncio, falar o corpo (...). A nova superfície de inscrição, o novo corpo colectivo mantém-se nesta distância e este jogo de retorno e de espelhos, (...) neste movimento que faz de um corpo singular o descanso de um outro corpo – na repetição das execuções, dos gestos do ritual público (...). A máquina põe a escrita em relação com o corpo de tal modo que o sentido (da sentença) se revela num êxtase corporal, e não numa leitura mental: ao rasgar a pele e as carnes para nelas inscrever a fórmula, a grade desencadeará a revelação do sentido à maneira extática, através de uma presença absoluta, incarnada neste mesmo corpo que sofria. (...) só ela [a máquina] sabe traduzir este sentido (da grafia das palavras) numa nova escrita e num novo sentido que o condenado poderá finalmente ler com o seu corpo. (...) A palavra constituía simultaneamente uma coisa, um signo e um sentido, isto é, um acto e um símbolo intimamente ligados. (...) não se escreve a lei impunemente: fará unir, graças à sua máquina, as duas faces do signo escrito. Quando faz coincidir a escrita e a representação, o significante e o sentido, volta a dar aos movimentos desta articulação a dignidade de actos [acontecimentos]” (GIL, 1997, p. 105-106; 108; 117-118)
Corpo e acontecimento (...) em alguns casos, em seu ponto limite, é o próprio corpo que volta contra si seu poder utópico e faz entrar todo o espaço do religioso e do sagrado, todo o espaço do outro mundo, todo o espaço do contra-mundo, no interior mesmo do espaço que lhe está reservado. Então, o corpo, em sua materialidade, em sua carne, seria como o produto de suas próprias fantasias. Depois de tudo, acaso o corpo de um dançarino não é justamente um corpo dilatado segundo todo um espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo? (FOUCAULT, 1966) Uma grande contribuição para o entendimento desse corpo dilatado encontra-se no acontecimento. De acordo com Gilles Deleuze (2011), há que se diferenciar aquilo que acontece (o acidente) do puro expresso no que acontece (o acontecimento puro)3. Assim, ao acontecimento correspondem duas faces: a 3 “Dos dois pensadores que mais penetraram no acontecimento, Péguy e Blanchot, um diz que é preciso distinguir, por um lado, o estado de coisas, realizado ou em potência de realização, em relação pelo menos potencial com meu corpo, comigo mesmo e, por outro lado, o acontecimento, que sua realidade mesma não pode realizar, o interminável que não acaba nem começa,
efetuação (encarnação, fato, ato, estado de coisa); e a contra- efetuação (o incorpóreo, fração irrealizável do acontecimento, liberação do estado de coisa). A efetuação é a inscrição do acontecimento na carne; a contra-efetuação, sua duplicação, que a limita, representa e transfigura. Certamente o acontecimento não é nem substância nem acidente, nem qualidade, nem processo; o acontecimento não é da ordem dos corpos4. Entretanto, ele não é imaterial; é sempre no âmbito da materialidade que ele se efetiva, que é efeito; ele possui seu lugar e consiste na relação, coexistência, dispersão, recorte, acumulação, seleção de elementos materiais; não é o ato nem a propriedade de um que não termina nem acontece, que permanece em relação comigo, como meu corpo com ele, o movimento infinito – e o outro diz, por um lado, o estado de coisas ao longo do qual passamos, nós mesmos e nosso corpo e, por outro lado, o acontecimento no qual mergulhamos ou ascendemos, o que recomeça sem jamais ter começado nem acabado, o interno imanente.”* (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 186) [*Nota dos autores: Charles Péguy, Clio, Paris, Gallimard, 1932, pp. 230 e 265. Maurice Blanchot, L’Espace littéraire, Paris, Gallimard, 1955, pp. 104, 155 e 160.] 4 Nesta passagem, a “ordem dos corpos” referida por Foucault (1970) corresponde à fisicalidade do mundo.
corpo; produz-se como efeito de e em uma dispersão material. Digamos que a filosofia do acontecimento deveria avançar na direção paradoxal, à primeira vista, de um materialismo do incorporal. (FOUCAULT, 1970, p. 57-58) Nas imagens oferecidas por Deleuze: a familiaridade da porcelana e a escala cósmica de um vulcão – uma relação de implicação, e não de oposição. A proporção vulcânica que sugere o autor indica a força tamanha da contra-efetuação; ela extrai o infinitivo dos acontecimentos (o morrer que há no fato da morte, por exemplo). A contra-efetuação é impessoal, acontecimento puro: “singular e por isso coletivo e privado ao mesmo tempo, particular e geral, nem individual nem universal” (DELEUZE, 2011, p. 155). De sua impessoalidade, advém a equivalência “morre é como chove”. Nesse contexto, Deleuze (2011) propõe a fissura como potente operador de acontecimentos: “Nunca pensamos a não ser por ela e sobre suas bordas” (DELEUZE, 2011, p. 164). A fissura é uma estância à espreita, presente de forma imperceptível na superfície, mas capaz de adentrar tanto na profundidade quanto na espessura do corpo.
(...) A verdadeira diferença não é entre interior e exterior. A fissura não é nem interior nem exterior, ela se acha na fronteira, insensível, incorporal, ideal. Assim, ela tem com o que acontece no exterior e no interior relações complexas de interferência e de cruzamento, junção saltitante, um passo para um, um passo para o outro, em dois ritmos diferentes (...). Até o momento em que os dois (...) se esposam estreitamente, continuamente, no desmantelamento e na explosão do fim que significam agora que todo o jogo da fissura se encarnou na profundidade do corpo, ao mesmo tempo em que o trabalho do interior e do exterior lhe distendeu as bordas. (DELEUZE, 2011, p. 158) A fissura, portanto, finca-se também no corpo físico – senão a partir dele. “Sim, sempre, os dois aspectos”, diz Deleuze, buscando alçar os âmbitos corpóreo e incorpóreo do acontecimento. Neste sentido, o autor vislumbra a íntima dependência na relação efetuação/contra-efetuação e, ao impasse que coloca, responde: Será possível manter a insistência da fissura incorporal, evitando, ao mesmo tempo, fazê-la existir, encarná-la na profundidade do corpo? Mais precisamente, será possível
ater-se à contra-efetuação de um acontecimento, (...) evitando ao mesmo tempo a plena efetuação que caracteriza a vítima ou o verdadeiro paciente? Todas essas questões acusam o ridículo do pensador: sim, sempre, os dois aspectos, os dois processos diferem em natureza. (DELEUZE, 2011, p. 160)
Corpo fissurado: da fissura aos corpos do pensamento “A fissura continua sendo apenas uma palavra enquanto o corpo não estiver comprometido” (DELEUZE, 2011, p. 164) Ela quer ter um filho, uma reencarnação minha, pois tem medo que eu morra cedo. Acha que sou louco – ela tem essa ideia porque pensa muito. Eu penso pouco e portanto entendo tudo o que sinto. Estou sentindo através da carne e não do intelecto. Eu sou a carne. Eu sou o sentimento. Eu sou Deus em carne e sentimento. Sou um homem e não Deus. Eu sou simples. Preciso não pensar. Devo me fazer sentir e entender através dos sentimentos. Os cientistas pensam sobre mim e quebram suas cabeças, mas seus pensamentos não trarão resultado algum. Eles são burros. Falo simplesmente, sem truque algum. (...) Sou feliz porque sou o amor. Amo Deus e por isso sorrio para mim mesmo. As pessoas pensam que ficarei louco e perderei a razão. Nietzsche perdeu a razão porque pensava muito. Eu não penso e portanto não posso ficar louco. (...) Posso escrever e pensar em outra coisa ao mesmo tempo. Sou Deus no homem. Sinto o que Cristo sentiu. Sou como Buda. Sou o Deus budista e toda espécie
de Deus. Conheço cada um deles. Encontrei-os todos. Finjo estar louco de propósito, para meus próprios objetivos. Sei que se todos pensarem que sou louco inofensivo, não terão medo de mim. Não gosto das pessoas que pensam que sou um perigoso lunático. Sou um louco que ama a humanidade. Minha loucura é o meu amor pela humanidade. (NIJINSKY, 1985, p. 21-22; 27) Os escritos do dançarino Vaslav Nijinsky, em seu diário dos anos de 1918-1919, testemunham uma passagem que pode ser dita como a constatação da fissura simultaneamente a seu alargamento. Assim, a eclosão que a condição secreta da fissura guardava ascende no cálamo. Nijinsky se pergunta constantemente se ele se tornou verdadeiramente louco, ele aposta. O sujeito que se pergunta se é louco não pode ser classificado nem na loucura, nem na razão. Uma escrita deste tipo está numa topologia do espírito5 que não se pode doravante localizar. Desde logo, como a escrita é a própria intensidade, medir a intensidade do espírito é designar o espírito que não pode ser agarrado, a não ser 5 O que Kuniichi Uno (2012) aqui designa como “espírito”, no contexto deste livro, é entendido como pensamento.
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