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Pela Voz de um Gato Pardo

Published by Estudio Fulber, 2022-07-13 21:26:44

Description: Livro escrito por Maurício Fülber e ilustrado por Vergílio Lopes.

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ingenuidade daquele grupo e o quão fácil foi pra que fossem enganados por aquela encenação festiva toda.. Não, nada ali era o que parecia. - 103 -

Capítulo 18 A Vontade Heroica Quando atravessamos a porta e entramos no longo corredor que nos levaria até a sala do trono, percebi diversos quadros com os antigos regentes do que descobri depois ser a Ilha de Pedra. Curiosamente, esses quadros tinham feições extremamente arrogantes que me passaram uma estranha percepção de que a linhagem de regentes deste local talvez não fosse muito acessível. Na verdade, eram faces assustadoras pra mim. Eu poderia descrevê-las para vocês, mas não faria diferença alguma pois, como pude descobrir mais tarde durante uma conversa que o grupo teve de forma reclusa, o rosto e corpo dessa linhagem se modificava de acordo com quem a estivesse olhando. A magia da confiança, da trapaça, da enganação em que todos caímos quando buscamos algo que nosso âmago deseja em infinita intensidade mas que nos parece impossível de alcançar ou realizar. A ilusão da realidade sem percepção de conjunto e contexto, a mais perigosa de todas. De toda forma, pra mim, a Rainha Annamelia era uma borboleta como eu. Não tão pequena quanto eu, enorme em relação a como as borboletas de Palasita eram. Ela era uma gigante mas, pelo que pude perceber desse lugar, o tamanho de todos eram compatíveis com a escala local. Então, na verdade, eu que era minúscula. E isso me - 104 -

deu todo o espaço que eu precisava pra conseguir entender o que estava acontecendo e poder agir. Achei estranho a pouca conversa que aconteceu entre o tão importante \"gato da profecia\" e a Rainha que o convocou. Ficou me parecendo que tudo estava acontecendo tão depressa e que não havia muito cuidado ou mesmo preocupação na assertividade das informações. Já ouviram aquele termo \"bode expiatório\"? Pois então, queria eu que fosse apenas um bode muito curioso no sentido de espiar, mas no momento aquele \"x\" da palavra me pareceu o mais acertadamente correto. Mal chegaram e já foram levados para uma sala onde poderiam se conectar com pedras mágicas que lhes dariam super poderes. Basicamente estavam sendo armados pro combate. Sem treinamento, sem consciência da situação política real do local, sem tempo de perceber as contradições de tudo que estava sendo dito e mostrado ali naquele momento. Eles estavam indo pra guerra enfeitiçados como os grandes salvadores do local, apesar de todas as inconsistências da história. Ao adentrar o altar das pedras mágicas, Lazul permaneceu na porta e eu me escorreguei de seu ombro realizando um pequeno voo até o topo da parede, tentando passar despercebida para analisar esses fragmentos de rocha mística. Interessantemente, uma delas estava rachada, sua cor acinzentada parecia não refletir luz alguma, como se fosse uma pedra de pó. Me aproximei dela e notei que a rachadura era, na verdade, a forma dela mesmo, que variava de acordo como fosse manuseada. - 105 -

Não era uma pedra, era uma nuvem. Quando me aproximei voando e minhas asas sopraram em direção a ela, sua forma se tornou condizente com a pressão do ar que eu mesma havia exercido, o centro da esfera se afundou e suas laterais se expandiram, vindo em minha direção e me cobrindo totalmente. Ninguém percebeu, pois ninguém estava ciente da minha presença ali e estavam ocupados demais com os gatos que estavam descobrindo seus chamados mágicos. O pó de nuvem me envolveu completamente. Achei que ficaria sem ar, mas não foi isso que aconteceu. Pareceu que, pela primeira vez, eu estava respirando de forma plena sem tanta necessidade de reciclar metade do meu ar através de compressão traqueal. Aquela nuvem era oxigênio e agora ela morava em mim. Eu era o ar. Eu era tufão e tempestade. Eu era o bater de asas do destino. Eu era o caos. - 106 -

Capítulo 19 O Resultado do Duelo Voemos com a retrospectiva dessa história pelo meu ponto de vista, pois não hei de recontar cada detalhe até o ponto daquele duplo desmaio que concluiu o capítulo 16, mas vou me atentar um pouco aos detalhes desse embate épico que, de fato, não teve um real vencedor. Duelos, disputas, competição, batalhas, ser o melhor, o mais rápido, o mais forte, o mais valente, o maior guerreiro, o maior líder, aquele escolhido para grandes feitos pelo destino em enfrentamentos que poderiam salvar o mundo! Sabe como salvar o mundo de uma borboleta? Plantem flores. Nos proporcionem espaços para nos pendurar e metamorfosear de lagartas para nossa forma seguinte. E então nos permitam encontrar as flores para nos alimentar e polinizar o mundo. Salvar o nosso mundo não é destruir, é criar. Enquanto subiam pelos andares da Torre de Turquoise, tudo que eu pude ver foi destruição, não heroísmo. A intenção heroica sim, eu senti a vontade e a crença no que se fazia, mas não vi a reflexão sobre isso na maior parte do tempo. Ou ela era aceita como parte da contradição, como Lazul apontou, ou ela surgia da identificação emocional, como Narai sentiu ao ver a Mariposa cair. Mas a reflexão, o parar e raciocinar sobre, - 107 -

faltou nesse momento. O talvez gato da profecia, no embalo de lutar contra o mal, contagiando todos e desligando seus cérebros da necessidade de pertencimento. Nesse momento, o entendimento coletivo do mal era o elo que conectava a visão e vontade dos animais dali, direcionada a um último inimigo, o pássaro Elo. Ao chegarem no último andar, a conversa inicial entre eles me deixou esperançosa. Havia dúvida, estranhamento, um pouco de bom humor (que me falta nesse momento reflexivo) e possibilidades. Não durou muito e logo estavam novamente competindo. Sempre assim, levando-se ao limite em troca da vitória que ambos imaginavam ser sua por direito profético ou contestador. Eu havia me cansado disso. Quando chegaram numa velocidade absurda onde ninguém mais os conseguia ver eu decidi agir. Me esgueirei despercebida novamente próxima da rede daquela quadra de ping-pong e, por mais que eu não fosse veloz como eles, eu tinha a Pedra Pó e o poder da Matemática do Caos. Me posicionei acima da rede em meio a pequena quadra. Fechei meus olhos e pude analisar infinitas possibilidades de resultados e diversas cores surgiram em minha mente, definindo os variantes resultados do que eu poderia fazer. Fiz minha escolha. Voei no meio da quadra e me concentrei. No momento em que a bolinha, que mais parecia um projétil mortal, me atravessaria, me tornei pó e a envolvi quando ela vinha do Gato em direção ao Pássaro. Modifiquei sua - 108 -

rota e fiz com que o único ponto desse duelo fosse definido. Não me surpreendi quando ambos desmaiaram de cansaço, aquilo era simplesmente absurdo. Todos ali estavam completamente exaustos pra além de qualquer noção de cansaço possível. Nesse momento, ouvimos passos rápidos vindo dos andares inferiores. Era um exército que carregava o emblema da Ilha de Pedra e que não parecia nada amigável. O Guaxinim vinha na frente, comandando aqueles que adentravam o espaço. Arcos e flechas foram erguidos em direção a todos que estavam naquele salão final. - Disparem! - gritou o Guaxinim. - Não! Parem! Eles já foram derrotados! - interviu Lazul, que ouviu o zunido das flechas sobrevoando a si e uma delas encontrando diretamente seu peito. - Nós sabemos e agradecemos muito o auxílio no processo. Mas é hora de seguirmos com a profecia, ou melhor, com uma forma de fazer com que ela não aconteça exatamente como foi escrita. Nossa Rainha gostaria de mudar alguns detalhes dela e a segunda profecia pode nos ajudar a conseguir isso. Levem todos daqui. As flechas que sobrevoaram Lazul atingiram todos que estavam no local. Pude perceber os olhares de confusão e descrença que lhes abateu. E percebo que o Caos que eu posso produzir não é a única realidade que pode acontecer. Há outros poderes movimentando as cordas do destino. E duas profecias… - 109 -

Percebo agora que preciso reencontrar no tempo e espaço quem criou as profecias. Descobrir onde isso começou. Abraçar o Caos e bater minhas asas entre as eras. Me aproximei de Lazul em seus últimos instantes de consciência para lhe agradecer a carona e dizer que, em breve, voltaria para ajudar. Ele me olhou sem entender e sorriu, como se acreditasse. Me tornei pó e desapareci no espaço-tempo. - 110 -

Capítulo 20 Flechas!!! \"Toda grande história - disse a narradora - tem uma grande reviravolta. E é chegado o momento desse tornado de eventos culminar neste grupo de felinos enfrentando seu primeiro choque de realidade (apesar de estarem em um mundo mágico de fantasia, mas vocês entenderam, afinal, desde nunca algo aqui tem sentido, então sigam essa diretriz de entendimento incompreensível e estaremos em sintonia ;) As visões e sentimentos da 1ª Flecha: \"Eu estava muito bem acomodada na aljava com minhas outras companheiras flechas quando senti um solavanco. Nosso dormitório havia sido removido de sua atual localização e estava em um trote constante de caminhada, em direção ao desconhecido, visto que lá de dentro não sabíamos nosso destino. Me comuniquei rapidamente com as outras flechas e pude perceber a excitação pela volta à ação depois de várias semanas em repouso. Eu, por outro lado, sempre gostei de um pouco de calmaria. Isso de atravessar a carne de outras criaturas e possivelmente lhes tirar a vida nunca me pareceu algo deveras agradável. Mas esse era um pensamento pouco recorrente entre nós, então sempre fui considerada um pouco diferentona. - 111 -

O trote aumentou por um tempo de forma constante e depois se acalmou. Era o momento em que nossos arqueiros se aproximavam do alvo, eu já sabia reconhecer. Estavam mantendo um passo silencioso e constante, tenso, mas tentando passar tranquilidade. Senti os dedos tocarem minha extremidade com a pena e me preparei para o momento do combate. Fui retirada da aljava, alocada na corda do arco e pude ver meu alvo enquanto a força contra a corda era exercida, preparando o meu disparo. E então ouvimos: Disparem! O vento nas minhas penas enquanto eu cortava o ar em direção ao alvo sempre me deu a sensação de liberdade. De sair da escuridão da aljava e ver, por alguns instantes, o mundo. Interessante que, toda vez que eu era disparada, o mundo poderia ser tanto o costumeiro campo de treinamento quanto um desconhecido campo de batalha. E como gostavam de batalhas! Confesso que, de vez em quando, eu gostaria de uma folga. De toda forma, devido a minha aerodinâmica bem calibrada, fui a primeira a chegar no alvo: o ombro de uma das gatas que se assustou com o impacto. Uma gata de pelo completamente negro que girou com a pressão que exerci e se estatelou no chão. Eu fiquei ali, com minha ponta dentro dela e pude ver que em suas veias não corria sangue, corria Sombra.\" - 112 -

As visões e sentimentos das outras 11 flechas daquela aljava: \"Auiiiiiiiii! Uhuuuuuulll!! Vush! Vush! Vush!!\" - 113 -

Capítulo 21 Divisão Quando a primeira flecha atingiu Menphis no ombro e a fez rodopiar com a pressão, o som do baque de seu corpo no chão não existiu. Não que alguém tenha percebido isto, visto que haviam inúmeros outros sons zunindo por aquela sala num acúmulo de estímulos sensoriais que deixariam qualquer um em estado catatônico tentando entender o que se passava. Mas não era tão difícil assim entender. E nem era necessário. Menphis não precisou nem pensar. Quando a flecha a atingiu e a jogou contra o chão, sua consciência se dissipou, desligando todos os seus sentidos e fazendo sua corrente sombrínea, que agora substituía sua contraparte sanguínea, entrar em ebulição. Aos poucos todas as moléculas de seu corpo começaram a vibrar e a destituir sua figura de forma. Uma fumaça escura saindo de seus poros começou a flutuar a alguns metros do chão, se acumulando no centro do espaço, iniciando um movimento circular que foi ganhando velocidade até dissolver completamente o corpo de Menphis e o transformando em um ciclone de escuridão que começou a criar pressão em seu centro, puxando em sua direção todos que ali estavam. Enquanto a velocidade do ciclone aumentava todos em volta tentaram se segurar onde fosse possível, mas logo o movimento cessou e uma nuvem de escuridão pôde ser vista no centro da sala. Pequenos relâmpagos vermelhos - 114 -

aconteciam no centro dessa nuvem em pequenos espaços de tempo. O Guaxinim gritou novamente: - Atirem!!!!! - Mas é uma nuvem, senhor! - apontou um dos guardas, que tinha algum conhecimento de eventos climatológicos e imaginou que disparar em volta de uma nuvem no máximo atingiria seus próprios companheiros. - ATIREM!!! - gritou novamente o Guaxinim, ignorando o bom senso. Nesse momento, a nuvem começou a se mover pelo espaço, atravessando os corpos de vários guardas e deixando alguns deles inconscientes quando um de seus raios vermelhos os atingiam. Quando foi atravessar o guarda que havia apontado que ela era uma nuvem e que disparar contra ela seria pouco inteligente, ele ouviu, na passagem, uma voz de dentro dela sussurrando: - Isso não faz sentido, nenhum sentido. - Eu concordo - ele respondeu, com toda calma do mundo, e percebeu que o raio vermelho, que iria o atingir, se desviou, poupando seus pelos. A nuvem de escuridão se movimentou mais um pouco pelo espaço até encontrar e encobrir Lundra, que também havia sido atingida, mas que ainda mantinha um fio de consciência. Nesse instante, Lundra, entendendo por instinto a situação, ativou sua pedra azul, criando um círculo de proteção em torno de si e da nuvem, que aproveitou a armadura de energia para se jogar contra a lateral da sala, destruindo a parede e se lançando para fora da torre, mergulhando no ar e despencando todos os - 115 -

andares que haviam subido, fugindo da situação pouco favorável em que se encontravam. Ao atingir o solo, próximo ao recife de pedras do início daquela pequena ilha, rolaram para o oceano e por ele foram levadas. A proteção de Lundra aguentou mais alguns minutos antes de se desfazer, do mesmo modo que a forma de Menphis, que agora voltara a ser uma gata como era quando havia chegado nesse mundo. Entretanto, antes que pudessem se afogar em meio a tempestade que parecia se formar nessa noite nebulosa, um pequeno e muito ágil barco movido por um engenhoso motor passou ao lado delas, as resgatando e disparando para longe da Ilha de Turquoise. - 116 -

Capítulo 22 Mas que #&@*%! Menphis e Lundra passaram três dias inteiros inconscientes e, ainda assim, muita coisa aconteceu entre elas nesse período. Comecemos por apontar que o mundo dos sonhos é um local de acessibilidade controversa que demanda alguns questionamentos: Podemos controlar nossos sonhos? Eles de fato dizem alguma coisa importante sobre nós em alguma de suas mensagens crípticas e enigmáticas? Estamos vivendo quando sonhamos ou somos apenas descargas elétricas em ebulição construindo imagens confusas? Quando a gente dorme de barriga cheia o corpo fica tão indignado por ter de trabalhar no horário de folga que, por retribuição, nos inunda de pesadelos ainda mais incompreensíveis por estar fazendo hora extra não remunerada? Sonhar é a desfragmentação de disco do nosso HD cerebral que tem que aturar um longo dia sendo atribulado de informações cada vez em maior quantidade em um menor espaço de tempo? Se o sonho fosse uma segunda vida, porque não podemos nos visitar durante eles? Essas diferentes perguntas, extremamente válidas e interessantes de se fazer, foram amplamente pesquisadas por um par de cientistas que se debruçaram sobre a possibilidade de uma vida dentro da vida, caso conseguíssemos controlar nossos sonhos. - 117 -

A inigualável Doutora Hermessim R. Salipop e sua igualmente inigualável companheira, a Doutora Kyrily S. Rindowhrist, ambas salamandras de fogo amplamente reconhecidas no meio científico-acadêmico, desenvolveram uma extensa pesquisa com mais de cinco mil voluntários entre os diversos animais da Ilha de Rubicântigo, utilizando-se de uma abordagem lógica seguindo o método científico em testagem duplo-cega de diversos medicamentos psicoativos para induzir diferentes estados de consciência e chegaram a intrigantes resultados e a frustrantes conclusões. Neste arquipélago, muito da ciência acontece permeada pela inconsistência das leis da magia. Diferentemente das leis da física e química em geral, a magia se apresenta como um mistério incompreensível por se tratar de algo que não existe e, por não existir, não pode ser analisado. Entretanto, pode ser estudado via observação, porém cada observação é um exemplo único de acontecimento que nunca mais se repetirá, visto que, ao se observar um evento, ele existe para quem observa, servindo como experiência anedótica, mas não como comprovação de recorrência. E é neste ponto em que retornamos para Menphis e Lundra, que despertaram ao mesmo tempo, mas não no mesmo mundo em que antes estavam. A psicodelia-surrealista que é possível encontrar no mundo onírico tomou uma nova proporção para as duas gatas, cujas mentes ainda lutavam contra o choque dos acontecimentos anteriores, além do desgaste de terem - 118 -

utilizado poderes muito além de seu entendimento e de sua capacidade física e mágica recém adquirida. Elas despertaram num sonho interconectado, cuja paisagem parecia um deserto de areia cinza, durante uma noite azul escura com estrelas que alternavam num espectro cromático que variava de amarelo palha até vermelho rubi. Junto delas, três luas adornavam o céu, cada uma delas em uma fase diferente, cheia, minguante e crescente. Os olhos de Menphis ainda estavam doloridos, demorando a se acostumar com a leve escuridão, necessitando de um certo esforço para se abrirem. Nessa meia visão, depois de coçar os olhos, ela apoiou uma das patas na areia, mexendo nela e a fazendo trespassar por entre seus dedos e garras, sentindo uma boa sensação de aconchego na temperatura morna da areia. - Uffs.. - suspirou Menphis. - Você poderia me dizer o que fazer? - perguntou para a areia e se deitou de costas pro chão, olhando pras luas. Nesse momento, os olhos de Menphis se abriram completamente, agora sem dor, e começaram a passear entre os astros visíveis, passando de uma estrela a outra, olhando e absorvendo a imagem de cada uma delas. A mente de Menphis começou a criar constelações, juntando os pontos das estrelas e, aos poucos, foi construindo seu próprio universo de constelações. - Você eu vou chamar de.. Dúvida. A Constelação da Dúvida. Te parece um bom nome? E você do lado, que tal algo que combine? Você eu posso chamar de.. Escuridão. E você.. você é a Constelação da Chinchila. E - 119 -

do lado a do Macaquinho! E do lado vai ser a constelação de Poste! Hahahah! As luas eu vou chamar de Zip, Bling e Ternurinha! Menphis começou a rir sem parar, mas continuou dando nomes pras constelações que criou, de forma bastante aleatória e sem um padrão coerente. Até que mudou de direção nas nomenclaturas: - E vocês! Vocês vão me chamar de..? Podem dizer, como vocês querem me chamar? Resposta nenhuma veio. - Se eu não quiser mais ser eu? Se eu nem sei quem eu fui pra saber quem eu vou ser ou quem eu posso ser? Me deem um nome, me facilitem isso não só com um nome. Me deem algo mais, palavras pra eu seguir que eu não precise escolher. Só me digam o que fazer, só me digam pra onde ir.. - os olhos dela começaram marejar. - E se eu puder ficar aqui? Nessa cama morna de areia, olhando pro céu e dando nomes pro universo? A maré em seus olhos agora enchia e transbordava, escorrendo lágrimas pelo seu rosto. - Como eu faço essa escolha, droga!? Eu quase morri! A gente quase morreu! Mas que #&@*% tá acontecendo nesse mundo? Lundra! Onde você tá?.. Onde eu to?.. Quem sou eu no meio disso tudo? A distância, Menphis ouviu uma resposta que não era pra sua pergunta, visto que também não era uma resposta e sim uma outra pergunta, mas que ela aceitou da mesma forma como se fosse uma conversa distante: - Que #&@*% aconteceu, onde eu to!?!?!!? - 120 -

- Eu não sei!!! - Menphis!?!?! - LUNDRA?!?!?! - SIMMMMMM!!!!! Menphis continuou deitada e começou a rir, secou as lágrimas rapidamente e se levantou, tentando identificar de onde vinha aquela voz. - Onde você tá? - gritou. - Eu não sei! Parece que a tua voz vem de todos os lugares, não consigo saber pra onde ir te encontrar! - Olha só, eu acho que a gente não precisa ficar gritando pra se ouvir, quer tentar?!?!?! - PODE SEEER! - TAAAAAAA! PAROU ENTÃO! - SIMMMM PAROUUUU! - ENTÃO PAAAAARA! - TÁ, PAREI!! - PAROU MESMO? - NÃOOO!! - A gente vai ficar nisso pra sempre - sussurrou Menphis, respirando fundo sem perceber. - NISSO O QUE?!?! - VOCÊ ME OUVIU?!?! - OUVI SIMMM! - ENTÃO PARA DE GRITAR! - TÁ, PAREI! - PAROU MESMO? - AINDA NÃO! - 121 -

- ENTÃO.. - e não conseguiu mais segurar o riso. - Só para.. hahahah.. eu to te ouvindo.. hahahah.. pode sussurrar.. hihihi.. hahaha.. ha.. ha.. haha.. - Tá bom.. pffss.. ha.. haha.. hahahah.. E o riso delas, uma mistura de alívio pela vida e nervoso pela situação, cobriu todo o deserto de cinzas e suas estrelas avermelhadas, novas constelações e luas, Zip, Bling e Ternurinha. - 122 -

Capítulo 23 Um Par de Vasos Menphis e Lundra começaram a andar sem rumo pelo deserto, conversando baixinho, mesmo distantes, e se ouvindo plenamente. - Sabe, Lundra, agora há pouco eu tava deitada, simplesmente olhando pro céu, e claro que não era o mesmo céu da Mansão dos Schopenfraulein, mas ainda assim era o céu. Outro mundo, outro céu, mas ainda céu. A gente veio pra outra terra e fiquei me perguntando: é o mesmo céu? E se não for, como pode não ser? - Podemos estar em outro planeta - apontou Lundra. - Isso faria muito sentido na verdade. - Ainda temos estrelas e ainda há uma lua. - Três luas. - Sim, três luas! - Em fases diferentes. Inclusive eu dei nome pra elas! - Você deu nome pras luas? Quais? - Zip, Bling e Ternurinha. - Bons nomes, gostei. Mais alguma coisa pra qual tu tenha dado nome recentemente? - Algumas constelações que criei, mas são muitas, passei um bom tempo inventando elas. - Pensando nisso, não tenho nem ideia de quanto tempo estamos aqui. Eu despertei há algumas horas só, - 123 -

mas fico pensando quanto tempo fiquei desacordada antes disso. - Eu sinto que passei muito tempo aqui já mas, ao mesmo tempo, não parece que foi tanto tempo. - Uma sensação de tempo encolhido mas com muitos acontecimentos, uma dilatação de conteúdo numa contração de tempo. - Em outro planeta. - Exatamente, somos alienígenas a partir de agora! - concluiu Lundra, dando uma risada. A sensação dessas palavras silenciou as duas por um instante. Estavam, de fato, longe de casa (ou daquilo que chamaram de casa por tanto tempo), mas ainda em busca de um lar. Perdidas num deserto de três luas e estrelas de cores quentes, distantes uma da outra e, ainda assim, se ouvindo plenamente. - Será que esse é um novo poder que temos agora: telefonia? - perguntou Lundra. - Eu descobri tantos poderes ultimamente que não me surpreenderia se fosse. - Eu fiquei com um pouco de medo da manifestação dos teus poderes, mas também fiquei orgulhosa por te ver tão potente e segura de si durante a subida da torre. Por alguns instantes não parecia você. - Talvez durante anos a maior parte de mim não parecesse eu. Você também, incrível como nos tornamos guerreiras superpoderosas tão rapidamente, não é? - Parece até que não éramos nós, apesar de sermos. - 124 -

- Será que essas pedras têm mais influência do que imaginamos? Me lembro das palavras de Elo antes deles começarem a jogar. Me deixaram em dúvida.. - E, logo depois, o Guaxinim.. E, nesse momento, pensaram em tudo que aconteceu depois que Narai e Elo desmaiaram. Das flechas, da nuvem, do oceano as engolindo. Novamente, calaram-se por um instante. - Você poderia ter salvo todo mundo? - perguntou Lundra. - Eu não sei nem se de fato salvei nós duas. Esse lugar não parece bem o resultado de um salvamento bem sucedido. - Será que só nós.. - Sobrevivemos? - Isso.. -… - Menphis? - Sim? - Eu to vendo um pato.. - Eu sempre gostei de patos. - ..voando.. num.. balão.. - Pelo que me lembro, os patos não voam muito bem por conta própria.. - ..seguido por um elefante num dirigível.. com um meteoro logo atrás.. e tem uma árvore dando cambalhota e saltos giratórios variados vindo na minha direção.. - Você comeu cogumelos, amiga? - ..alguns, sim. - 125 -

Menphis ficou sem resposta. Era muita informação. - Você o que, oi, hein? Ah, olha só, tem cogumelos aqui também - disse, colhendo um dos cogumelos e não vendo muito mais o que fazer a não ser comê-lo. No instante em que o cogumelo alcançou seu sistema digestivo, Menphis pôde ver uma carreata voadora de criaturas muito parecida com aquela descrita por Lundra, mas com suas próprias particularidades e, no mesmo instante em que ela agregou suas próprias associações surrealistas ao momento, Lundra passou a vê-las também. Não somente estavam num espaço que as conectava como também suas experiências alucinógenas compartilhavam a livre associação de ambas num mesmo cenário de imaginação ou realidade alternativa, como se poderia dizer, visto que a realidade é constituída pelos nossos sentidos e sensações dela, então a realidade pode ser relativa a nossa percepção, em determinadas escolas de pensamento. Dito isso, passemos ao que, de fato, Menphis adicionou aquilo que Lundra já estava observando e absorvendo: - A sua árvore é realmente muito acrobática e maravilhosa, mas você percebeu que o céu tem navios? - Navios? SIM! Eu vejo sim, navios no céu do mar! - E o tempo, se desfazendo nas árvores. - Mais elefantes! Agora com trompas no lugar das trombas! - 126 -

- E muitas, muitas borboletas, saindo das chamas das velas, se transformando das folhas das árvores que giram! - Cuidado com a chuva de âncoras!!!! Os navios começaram a disparar suas âncoras do céu-mar em direção ao solo e, a cada impacto, uma grande explosão de sementes de dentes-de-leão encobria toda visão possível no espaço em que o impacto acontecia. Menphis e lundra começaram a correr, cada uma seja lá onde estivesse em direção a lugar nenhum, com foco em não tomar uma ancorada direto na cabeça e tendo cada vez mais dificuldade pois os dentes-de-leão ocupavam cada vez com mais intensidade o espaço. Lundra, então, percebeu algo e gritou: - Menphis! Para de correr e olha! - Você tem certeza, amiga? - Simmmmmmmm - confirmou. Ambas pararam e, ao observar com mais cuidado, perceberam que os dentes-de-leão começaram a desenvolver novas cores à medida que se dispersavam pelo espaço. As âncoras ainda criavam um forte impacto e explodiam em novas sementes voadoras, adicionando outras cores a esses conglomerados de pequenos pontos flutuantes que agora cobriam todo o espaço como se fosse uma neblina profunda. Ao pararem para olhar em torno, perceberam esses inúmeros pontos coloridos e, quando respiraram mais forte perto deles, perceberam que se moldavam em formas - 127 -

impressionistas a cada movimento de ar que elas condicionavam nas sementes flutuantes. Quando Lundra soprou suavemente, elas se moldaram em um pássaro desfocado que saiu voando para longe dela e, instantes depois, foi avistado por Menphis, que soprou de volta, criando uma onda oceânica que cobriu o pássaro que, por sua vez, a atravessou e se dissipou em frente a ela. As explosões haviam parado, mas as sementes continuavam flutuando em torno delas. - Acho que agora eu posso te encontrar, é só seguir teus sinais impressionistas - disse Menphis. - Então siga, eu vou ficar aqui paradinha te esperando lançando novos sinais. E assim foi feito. Os sinais vinham em diferentes formas, movimentando os pontinhos coloridos que se tornaram os dentes-de-leão, trazendo as variadas imagens que Lundra construiu através de seus movimentos no aquário de sementes em que elas se encontravam, não apenas respirando, mas dançando e criando novas imagens gigantescas a partir de seus movimentos. Menphis não teve dificuldade em seguir o gigantesco dinossauro que surgiu em sua frente e que saltou por cima dela, nem para perceber a lontra bastante ágil que passou voando ao lado de sua cabeça, girando em volta dela e deslizando por sua cauda, desfazendo-se novamente em milhões de pequenos pontos coloridos após saltar. As imagens, por mais desfocadas que fossem devido a sua estrutura de pontinhos de sementes, ainda assim eram - 128 -

possíveis de se identificar. À medida que se aproximava, a quantidade de figuras aumentava, provavelmente porque, quando eram criadas, gastavam um pouco de tempo conversando entre si antes de se disparar em direção a ela, o que a fez perceber que logo mais encontraria a amiga. Mas é claro que, nesse espaço tão contra-lógico, algum detalhe se apresentaria. O sentimento de cuidado que sempre tiveram em sua residência de Palasita havia deixado marcas nelas que não poderiam ser facilmente esquecidas. Quando Menphis chegou ao ponto de origem das imagens que Lundra construía a partir de sua dança para guiar a amiga, percebeu que esse ponto de origem era nada mais, nada menos, que um vaso de flores vazio, de tonalidade verde-claro. Lundra também viu algo se aproximando, rolando em sua direção. Um vaso de flores azul-escuro, também vazio, que chegou bem próximo e se pôs em pé alguns metros à sua frente. - Onde você está? - perguntaram juntas. - Aqui, na frente do vaso de flores sem flores - responderam também juntas. Quando o par de vasos-gatas falavam, os dentes-de-leão, que ainda cobriam como neblina todo o local, se movimentavam e criavam ondas de cores, como se esses objetos falassem por suas aberturas, onde deveriam estar as flores. - Menphis.. eu acho que nós somos os vasos. - Pronto. Não falta mais nada agora. - 129 -

Nossa querida Lundra, apesar de ter vivido tudo que viveu, ainda não havia chegado ao nível de abstração de perceber que nunca há um limite pra o que pode acontecer nesse mundo mas, por hora, ela logo seria levada para outra situação e de volta a aventura por uma voz desconhecida que veio trazer algumas explicações. Mas não muitas. - Atenção aos habitantes temporários da Ilha de Enteronigma: é hora de voltarem para o mundo da consciência compartilhada. - 130 -

Capítulo 24 Hermessim & Kyrily A Ilha de Enteronigma foi construída de forma artificial como suporte surrealista de vida para casos de extrema necessidade ou falta de informações necessárias para o tratamento de diversos quadros clínicos que não fossem óbvios. Existem diversos quadros bastante fáceis de se perceber logo que chegam a um ambulatório e que não demandam grande complexidade de tratamento. Podemos trazer como exemplos para estes casos situações simples como levar uma bolada no olho jogando algum jogo com bola, uma raquetada na cabeça jogando um jogo de raquetes, uma cartada na orelha jogando um jogo de cartas, uma facada no fígado jogando um jogo de facas ou eventualmente uma livrada no esôfago jogando jogos de livros, normalmente enciclopédias inteiras na verdade. Impressionante como o ato de arremessar um livro nunca ocorre sem o subsequente arremesso de um segundo livro e este seguido por um terceiro e assim por diante. As enciclopédias são muito unidas, fato inegável definido pelo acúmulo de casos similares a este último relatado. Outros casos, entretanto, ao chegar já demonstram uma nítida necessidade de internação profunda. Outros ainda, como este que apresentaremos agora, mostram-se nitidamente incompreensíveis. Nesta situação, é comum recorrer ao grande invento das Doutoras Hermessim & - 131 -

Kyrily, perdedoras do Prêmio Ignóbel, pois eram inteligentes demais e nenhum dos homens da comissão de avaliação entendeu lhufas daquilo que elas estavam apresentando. Ou talvez nem tenham ouvido ou prestado atenção no geral, além, claro, de, ao final da apresentação, terem tentado explicar para elas o que elas próprias tinham acabado de explicar. Mesmo sem eles próprios terem entendido patavinas. Prêmios não são importantes, alguns podem vir a dizer. Mas o reconhecimento financeiro, advindo de um prêmio como este, poderia ter sido de muita utilidade e teria apressado a recuperação das duas gatas que agora se encontravam neste espaço artificial criado pelas doutoras. Ainda bem que elas estavam sendo cuidadas por mãos não apenas capazes, mas que de fato se importavam com a vida de suas pacientes. Hermessim e Kyrily iniciaram sua pesquisa ainda na faculdade da Ilha de Arsrelif, onde se conheceram e se apaixonaram, ainda no primeiro ano de estudos. A conexão entre as duas ainda traria ao mundo inúmeras invenções incríveis, que no decorrer desta história irão aparecendo em momentos de caos e eventual utilidade mas, no momento, o trabalho sem apoio, sem recursos e sem patrocínio da vida delas estava servindo como única maneira de manter Menphis e Lundra ainda vivas. - Quanto tempo ainda temos? - perguntou a Coruja. - Elas estão se aproximando do nível de surrealismo 12 com impressionismo 7, quando atingirem cubismo 4 acho que estaremos no limite! - respondeu Kyrily. - 132 -

- Ainda temos chance, elas acabaram de se desviar para absurdismo 2, ambas se tornaram vasos de plantas agora - complementou Hermessim. - Precisamos estabilizar nesse ponto de fuga então, se elas ficarem no absurdismo teremos uma chance - concluiu Kyrily. Enquanto isso, a Coruja buscava em seus livros ainda mais informações que pudessem auxiliar no entendimento do mundo que as gatas estavam criando em seu inconsciente-semiconsciente e repassando para as cientistas interpretarem e possivelmente acharem um ponto de inserção. O Ponto de Inserção é o momento em que as criaturas no suporte artificial da Ilha de Enteronigma percebem que estão num limbo de consciência, existindo dentro de si em uma consciência da consciência, identificando a polimorfia uma na outra. No caso, terem se tornado vasos de plantas. No momento em que Lundra apontou este fato para Menphis ao dizer “eu acho que nós somos os vasos” e receber um “pronto, não falta mais nada agora” como resposta, o Ponto de Inserção apareceu nos gráficos de registro do equipamento que cercava as duas gatas desacordadas no laboratório, iniciando uma sinfonia de sons que culminaram em uma bela música com estética nostálgica de 8bits vinda dos computadores que faziam a transcrição dos estímulos mentais das gatas em sons e gráficos coloridos. - 133 -

- Elas alcançaram o ponto semiótico-simbolista, precisamos agir! - gritou Hermessim para Kyrily, que correu para o microfone extraplanar para iniciar a comunicação. - Atenção aos habitantes temporários da Ilha de Enteronigma: é hora de voltarem para o mundo da consciência compartilhada - informou Kyrily. Ao ouvirem isso, Menphis e Lundra se olharam, mesmo sem olhos, visto que no momento eram vasos de plantas monocolores, e não souberam exatamente como reagir. Entre os diversos pensamentos que lhes passaram pela cabeça, um deles teve destaque, aquele em que pensaram que seria melhor não achar mais que chegaram no limite do absurdo e que a partir de algum momento não haveria algo que pudesse superar o nível das situações em que elas já se encontravam. - Ahhh por favor! Pra tudo tem um limite! - disparou verbalmente Menphis. - A gente não pode simplesmente passar um tempinho que seja sendo um par de vasos não? Mal a gente respira e já acontece alguma coisa nova e diferente, não tem um minuto de sossego nem que seja pra reclamar um pouco, hein? Seria pedir demais? Kyrily sinceramente não esperava essa reação, então tentou ser compreensiva: - Olha, a gente não tem uma janela muito grande pra poder resgatar vocês mas, tudo bem, podem passar um minutinho reclamando sim, a gente aguarda. Lundra e Menphis ficaram surpresas com a resposta e com a calma na voz daquela que respondia. - 134 -

- Acho que não somos apenas nós que estamos no limite, vaso de plantas Menphis. - Acho que não, vaso de plantas Lundra. - Gostei da voz dela. - Eu também, passou confiança. - E um timbre bom, não é? - Sim, muito! Doce sem ser irritante. - Me deu até uma tranquilizada. - Simmm, parece que ela tá nos chamando pra um abraço aconchegante com um cafunezinho. - Pois não é? To querendo ir mesmo, tá pronta? - Se você estiver eu tô! - Então se tu tá eu tô! - Então se estamos então tá! - E se pá tu tá pra mim tamos! - Então vamos que vamos! - Vida que segue o baile! - Pode nos tirar daqui moça da voz bonita, fofa e cheirosa, chega de sermos um par de vasos! - Eu até que tava gostando mas, de fato, já deu disso. Kyrily estava num misto de envergonhada e contente pelos elogios em relação a sua voz e ficou um segundo sem conseguir responder, até porque também estava confusa com o rumo que a conversa entre as duas vasogatas havia tomado. Além de estar tentando entender como a voz dela poderia ser considerada “cheirosa”. Nesse momento ela teve certeza de que elas se comunicavam em - 135 -

outra frequência e que as palavras não tinham o mesmo significado e significante. Ainda assim deu um sorrisinho e ficou curiosa em conhecê-las pessoalmente. - Então, sem mais delongas, minhas queridíssimas hóspedes, preparem-se para uma viagem como nunca dantes tiveram. Kyrily fez um sinal para Hermessim ativar a alavanca de despejo infraconsciente e iniciaram o processo de ejeção das gatas da Ilha de Enteronigma. - Você está com medo de voltar? - perguntou Lundra. - Já tive mais medo - respondeu Menphis. - Mas, a essa altura, acho que já não temos mais muito o que temer. Se a gente desligar o nosso pensamento e simplesmente lutar, fazer sempre o que é preciso e se perdoar pelas decisões que não deram tão certo e aprender com elas, acredito que poderemos nos divertir no desespero. - Que perspectiva horrível. - De fato. - Mas sim, se alguma coisa mudar pra melhor por um pingo que seja de movimento nosso, vai ter valido a pena voltar. - E temos amigos pra resgatar. - Que precisam muito de resgate! - Muito mesmo! - Tenho certeza que logo depois vão se meter em mais alguma situação e aí teremos que resgatar eles de novo! - 136 -

- Essa história não vai acabar nunca - concluiu rindo. - Acho que nenhuma história termina de verdade, elas só param de ser contadas e ficam por isso mesmo, um recorte. Nesse momento, as duas perceberam que a vaso-gata a sua frente começara a rachar, como se algo estivesse soprando do chão e desfazendo o mundo ao redor aos poucos, tornando tudo em pó e alçando aos céus em fragmentos minúsculos. - Isso é assustador - comentou Menphis. - É sim - respondeu Lundra. E se abraçaram mentalmente. - 137 -

Capítulo 25 Desvios de um Resgate - Elas estão se desfazendo! - gritou Kyrily, apontando algo que na verdade era bom mas que, falando em voz alta, parecia horrível. - Preciso me conectar imediatamente pra que elas não se percam no caminho, me ajudem com isso - pediu Hermessim, apontando para vários itens que ela precisaria que as outras alcançassem para ela, que se sentou numa poltrona muito confortável para não ter dor nas costas futuramente. Enquanto isso, durante a fragmentação das gatas em Enteronigma, suas partículas flutuantes começaram a subir cada vez mais alto, deixando o deserto em que estavam cada vez mais distante abaixo delas. Por mais que agora fossem praticamente pó, completamente desfeitas de sua forma material, ambas percebiam que suas consciências habitavam todos os farelos daquilo que um dia foram e perceberam que, neste local, a materialidade era a própria consciência repartida em incontáveis partes. Enquanto iam cada vez mais e mais alto, perdendo o deserto de vista, alcançando as nuvens e atravessando por elas, ultrapassando estrelas e se distanciando delas, indo cada vez mais alto (ou pelo menos o que parecia ser mais alto), começaram a ver novos planetas, novas estrelas uma nova escuridão que foi se tornando claridade, em seguida - 138 -

nuvem, em seguida céu, em seguida, novamente, um deserto. No embalo do salto do primeiro deserto, os fragmentos delas, agora já misturados durante a travessia, se chocaram a uma altíssima velocidade com esse teto de deserto, misturando seus fragmentos com a areia e adentrando ao que seria o centro de um outro planeta mas, ao contrário, ao cruzarem essa areia toda, como se fosse um portão de sal, chegaram em uma cúpula gigantesca que parecia infinita, sem nada além de um grande globo de cristal no centro comigo olhando pra ele, narrando esse trajeto todo e agora me virando para os fragmentos de Lundra e Menphis para falar com elas. Olá, gatas, digo olhando pros fragmentos adentrando o local. Espero que não fiquem muito assustadas, não sei como chegaram aqui, mas ainda não é o momento de nos conhecermos, digo sem elas entenderem absolutamente nada do que está acontecendo, mas já acostumadas com essa sensação. - Onde nós estamos? Pergunta a nuvem Lundra achando estranho o jeito que eu falo ao falar que ela está perguntando. Apenas digo que elas estão no entremeio de quem vive e de quem lê. Em seguida ela me pergunta o que isso significa e eu decido dar um empurrãozinho pra que elas saiam logo daqui antes que eu explique coisas demais. Só que elas acabaram de me escutar dizendo isso então agora elas estão tentando fugir, só que não tem pra onde gatinhas, fiquem calmas, vocês logo serão resgatadas. Aiai, tá bom, corram aleatoriamente - 139 -

pela minha cúpula-casa, tudo bem, mas não derrubem as minhas plantas! Ahhh inferno, aqui não tem nada, é um infinito primordial e vocês conseguiram derrubar minhas plantas e que areia toda é essa aqui? Pergunto já sabendo a resposta pois eu mesma narrei isso momentos atrás.. ou não narrei? Não.. ou sim.. eu estou me tornando.. eu sou a Narradora.. eu não posso me tornar.. uma personagem..” - concluiu, inconclusivamente, a Narradora. Nesse instante, Hermessim conseguiu estabelecer uma conexão com a Ilha Suporte de Enteronigma, abrindo um vão na Cúpula do Infinito Primordial, cujo vácuo começou a puxar os fragmentos de Lundra e Menphis novamente para o exterior do local, reconectando suas consciências a seus corpos e, novamente, trazendo-as à vida. Ao despertar, ambas levaram alguns momentos para recuperar o foco da visão, deparando-se com Kyrily as observando e perguntando se elas estavam bem. - Como vocês estão se sentindo? É a primeira vez que conseguimos recuperar alguém depois de tanto tempo na Ilha Suporte de Enteronigma, estávamos preocupadas. - Quem.. são vocês? - perguntou Menphis. - Eu sou Kyrily e aquela na poltrona muito confortável é Hermessim, nós somos as responsáveis pelo sistema que manteve vocês sobrevivendo até agora, quando conseguimos trazer vocês de volta. - E quem é aquela no canto? - 140 -

- Bom, acho que precisamos conversar com calma a partir de agora. Por favor, não se assustem, mantenham a calma e eu prometo que tudo vai fazer sentido. A Coruja, ao ouvir isso, se aproximou e se mostrou pras gatas. Num reflexo, Menphis explodiu novamente em uma nuvem escura com trovões vermelhos, mas Lundra expandiu sua aura protetiva e encapsulou ela consigo, protegendo a Coruja e as Salamandras dos raios de Menphis. - Amiga - disse Lundra calmamente -, nós já passamos desse ponto do conflito, você ainda não percebeu? - Percebi sim - respondeu Menphis, retornando a sua forma de gata. - Foi apenas reflexo, desculpe. - Tudo bem, pelo menos consegui reagir em tempo - respondeu, recolhendo a aura. - De fato, foi incrível, muito rápida. - To ficando mesmo, essa pedra mágica realmente veio bem a calhar. - Vocês não estão mais com as pedras - apontou Kyrily. Os olhos de Menphis se arregalaram por um instante. Se não era a Pedra da Sombra a responsável por isso que ela pode se tornar, então isso seria de fato ela? Ao perceber o pensamento da amiga, Lundra se dirigiu a Coruja, pedindo explicações: - Acho que nós precisamos de algumas explicações. A Coruja se aproximou calmamente, movimentando as asas de forma suave e convocando um enorme livro que - 141 -

estava exposto num belo altar no fundo da sala, que veio voando tranquilamente assobiando uma melodia que evocava um tom épico e disse: - Olá! Eu sou o Grande Livro das Lendas Históricas de Rubicântigo e estou muito feliz em poder contar pra vocês sobre a Profecia. - 142 -

Capítulo 26 A Profecia Interpretativa - No início dos tempos - introduziu o Grande Livro das Lendas -, não havia ninguém que pudesse apontar para nada visto que nada existia. - Quer dizer - interrompeu Kyrily -, não é possível que nada exista, visto que o nada seria absolutamente a ausência de qualquer coisa. Mas no caso o conceito de nada é algo tangível, visto que na nossa limitação intelectiva o entendimento do nada como absoluto não é viável pois somos criaturas temporais e entendemos a existência de uma forma não abstrata pois sentimos ela apesar de não termos como identificar a consciência individual. - Bom esclarecimento - apontou Hermessim, enquanto Lundra e Menphis se olhavam com pontos de interrogação no olhar. O Grande Livro continuou: - Como eu dizia.. No início dos tempos.. - O conceito de início também é um tanto quanto relativo a nossa percepção desconexa de tempo e espaço, de forma que essas duas grandezas, juntamente de velocidade e aceleração.. - retomou Kyrily antes de ter seu interrompimento interrompido. - Olha só - disse o Grande Livro interrompendo o interrompimento -, posso lançar a poesia profética e depois a gente elabora acerca dela e de suas infindáveis ramificações? Pode ser? - 143 -

- Eu apoio! - disseram Lundra e Menphis em uníssono. - Tá bom, pode ser.. - aceitou Kyrily, que era uma salamandra muito empolgada e, como já apontado anteriormente, de uma voz muito bonita, quase hipnótica. - Então que seja - retomou o Grande Livro. - De acordo com a poesia profética que diz, literalmente: No início houve um trovão Sem alguém para lhe ouvir Tão sem graça era a visão Do mundo prostrado ali Por falta de opção Ou por tédio de quem falava Era hora de brincar Com os desejos de quem cantava Era vácuo, vazio e nada Caos criando a criação A primeira estrela, um vulcão Uma montanha de lava Que não expelia calor Fogo, terror ou magma Era parte relâmpago, raio Fulgor de luz azul Pois ouvidos não haviam Perto ao norte, longe ao sul - 144 -

Três vozes então disseram Mesmo sem poder se ouvir Que era hora de um mundo Estranhamente surgir E que se fosse um bom momento Pra nova vida pretensa Acabaria a solidão Tão dolorosa e intensa E assim aconteceu Água, terra, céu, magia Quatro firmamentos que Desafiavam o dia Criando tensão entre si Num pretenso equilíbrio Tão fácil de destruir Na ignorância do indivíduo Que logo mais nasceria Achando ser dono de tudo Indisposto a conviver Num entendimento mais profundo Mas não se esperava a priori Que uma mente tão brilhante Ao ver esse lindo lugar Tão cheio de vida e encanto O decidiria tomar Para si e semelhantes - 145 -

De ganância ao coração E arrogância tão ardente O plano destruição Do presente em seu colo Como monstros insolentes Destruindo mar e solo Então a magia se fez Como forma de correção Permitindo que o horror Mudasse de direção E se um dia preciso fosse Encontrar novos caminhos As Ilhas seriam apenas Reinos em guerra vizinhos Esperando a chegada altiva De algum grande salvador Encontrado em outro mundo Num pequeno corredor Enfrentando inimigos Num horário ao fim do dia Num regular desespero Disfarçado de alegria Ao concluir o poema, o Grande Livro aguardou um instante por aplausos que não vieram e resolveu anunciar que a profecia fora completamente declamada: - A poesia foi completamente declamada. - 146 -

- É só isso? - perguntou Lundra. - Sim, é só isso. - Você pode me esclarecer uma coisinha? - É claro! - Basicamente nós fomos trazidas pra esse mundo por conta de uma dúzia de versos escritos sabe-se lá quando, por criaturas que não se sabem quem, por motivos desconhecidos, falando sobre uma era anterior a existência? - Exatamente! - Bom, eu acabei de passar por uma experiência de fragmentação do meu próprio eu, então acho que não estou numa posição de manter um alto grau de ceticismo. - Pois então - comentou Hermessim -, é nesse ponto em que nós entramos pra não deixar qualquer coisa ser válida apenas pela experiência anedótica. Existem muitos aspectos macabros cerceando essa profecia e acho que é um bom momento pra vocês entenderem onde a Ilha de Pedra entra nisso tudo. - 147 -

Capítulo 27 Novas Alianças - Vocês ainda precisam de mim? - perguntou o Grande Livro de Lendas de Rubicântigo, esperando uma oportunidade de continuar trazendo informações relevantes de forma dramática. - Sim, por favor, fique conosco mais um pouco - respondeu a Coruja, de forma alegre e simpática. - Eu tenho muitas perguntas ainda - interveio Lundra, de forma curiosa e sutil. - Eu também preciso de algumas explicações mais detalhadas - complementou Menphis, de forma contemplativa e suspirante. - Ansiosa pra conversar mais com vocês - disse sorrindo Kyrily, de forma fofa e interessada. - Então vamos começar de uma vez? - tentou organizar Hermessim. - Vamos! - concordaram todas ao mesmo tempo, percebendo sua já estabelecida conexão pessoal. Após um milésimo de segundo se olhando, sincronicamente cada uma delas iniciou uma tarefa diferente para preparar o momento que se seguiria de uma forma agradável. Foram produzidos biscoitos achocolatados, chás, café, um bolo de frutas, a iluminação foi melhorada e um som ambiente acalmantemente musical foi iniciado a partir de um aparelho que as salamandras haviam desenvolvido no período de estudos no ano em que - 148 -

se conheceram. A música que tocava agora havia sido composta, executada e gravada pela dupla musical formada por Hermessim e Kyrily, que ainda não havia oficializado um nome, visto que não haviam lançado seu primeiro álbum, algo que pretendiam assim que conseguissem ter um pouco menos de censura vindo dos órgãos de regulação musical. Mas esta história deixaremos para um outro momento. Quando os preparativos estavam encerrados e elas já haviam iniciado uma conversa descontraída sobre assuntos aleatórios, a Coruja chegou trazendo um novo tipo de doce, uma mistura de waffle com limão que agradou a todas, fazendo-as seguir mais um tempo nesse ambiente agradável, de música agradável, com alimentos agradáveis e um bate-papo agradável onde havia muita escuta ativa e respostas educadas. - Eu percebi que vocês não tinham uma tendência maligna quando adentraram minha biblioteca - disse a Coruja. - Eu fiquei me perguntando isso durante um bom tempo também - respondeu Menphis. - Em poucos momentos me pareceu que vocês eram criaturas malignas como nos foi induzido a acreditar quando chegamos aqui. - Bom, teve um momento bastante vilanesco do qual eu me lembro no telhado de uma casa ainda em Palasita - rememorou Lundra. - Verdade - concordou Menphis. - Eu levei um tempo pra me recuperar daquele impacto. - 149 -

- Eu mais ainda, visto que tive um impacto literal ao despencar do telhado propriamente dito - complementou Lundra. - Aiai, o Corvo e sua teatralidade dramática - comentou a Coruja. - Ele tem essa coisa com as artes cênicas, com o espetáculo, com criar esse clima e essas ilusões todas, mas é tudo fingimento. - Fingimento? - indagou Lundra. - Sim, preciso dar a ele créditos por manter tão bem a personagem, mas fora disso ele é um queridão - continuou a Coruja. - E, pra além da encenação, há um motivo prático pra ele tentar esse caminho vilanesco, visto que, se ele conseguir retirar dos oponentes a vontade de lutar, menos gente se machucaria. É até engraçado dizer isso, mas ele odeia a violência. Se ele pudesse evitar todos os conflitos, ele evitaria. Se ele pudesse lutar todas as lutas pra que nós não precisássemos lutar, ele lutaria. Ele é realmente muito forte, ele treina muito e tem muita disciplina (e ensaia muito também essa cara de mau dele), mas ele prefere aterrorizar o inimigo até que ele desista de lutar pra que nem mesmo o oponente se machuque. Percebem como ele tem uma arena com toda uma produção audiovisual? É pra transmitir suas vitórias e inibir a vontade de outrens de lutar contra ele. Vencer sem lutar é a melhor vitória. Só não é melhor que não haver, em nenhum lado, a vontade de lutar. Se uma guerra começou, todos já estão derrotados. - Então é isso, nós já estamos derrotadas? Não há mais nada a se fazer nesse ponto de vista? - seguiu Lundra - 150 -

em seus questionamentos, buscando conhecer um pouco mais daquelas que ali se encontravam. - Na verdade - interveio Kyrily -, partindo desse pressuposto ético e moral de que iniciar um conflito é sempre uma derrota coletiva, podemos manter nossa vontade de seguir lutando para encerrar o conflito e dar as próximas gerações a possibilidade de não iniciar um novo. - O que, historicamente - retomou a Coruja -, não é o que acontece, mas a gente segue tentando. Eu realmente espero que, em algum momento da história do mundo, possamos simplesmente pensar coletivamente na manutenção da existência de uma forma altruísta, pensando no planeta e nas gerações futuras e não egoisticamente na obtenção e manutenção de poder político e social. - E pra isso precisamos destituir o pensamento absolutista baseado na hereditariedade e na conquista de território através de poder bélico - acrescentou Hermessim. - Parece razoável, mas confesso que isso ainda está bastante confuso - disse Lundra. - Vocês precisam lembrar que nós viemos de outra terra e que a história deste lugar é bastante nova pra nós. - Na verdade, ela tem inúmeros paralelos com a história da terra de onde vocês vieram, mas acredito que um resumo possa ser bastante útil de toda forma - apontou Hermessim. Ao ouvir isso, o Grande Livro de Lendas, que estava descansando num dos sofás do local, deu um salto e retomou a personalidade energética narrativista: - Chegou minha hora de brilhar novamente? - 151 -

- Por favor, meu querido - disse a Coruja, apontando para o centro da sala. - Nos rememore um pouco sobre a história do Arquipélago de Pedra. - 152 -


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