onde bandejas com frutas eram levadas de um lado ao outro por todos os tipos de animais possíveis. Narai e Lundra se olharam, um segurando a pata do outro. Finalmente haviam chegado. - 53 -
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Parte II | Os Rebeldes da Ilha de Turquoise - 55 -
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Capítulo 10 O Palácio e Algumas Explicações O Palácio da Rainha Annamelia era o ponto central da Ilha de Pedra, local onde o curioso caminho da cascata havia trazido Lazul, Narai, Lundra, Menphis e uma borboleta amarelo-madeira chamada Pupah que, apesar do susto, até que gostou do lugar onde foi parar. Ela acabou pousando no ombro de Lazul e encontrando um cantinho onde se esconder nele. O palácio recebia uma grande comemoração onde diversos animais perambulavam com uma infinidade de frutas, distribuindo uns para os outros todas as variedades possíveis. - Não falei que a festa das frutas seria muito bonita? – disse Lazul, olhando para Narai. – Peguem algo pra comer no caminho, vou levar vocês pra encontrarem nossa Rainha. Enquanto seguiam o ser mágico pelas escadas circulares que levariam aos andares superiores, foram pegando todos os tipos de frutas que puderam para recuperar suas energias. Muitas delas nunca haviam visto na vida e, por vezes, ficaram em dúvida se aquilo era realmente uma fruta. Uma das mais estranhas foi a que chamavam de “Lasco da Pétala”, que tinha um formato de coroa e uma crosta de espinhos não muito agradável, apesar de um gosto adocicado muito saboroso. - 57 -
Lazul explicou que a fruta produzia um efeito interessante naqueles que a viam pela primeira vez. De longe, visualmente, ela parecia uma fruta muito bonita, verde-amarelada e um pouco brilhante. Chamava atenção aos olhos e instigava seus observadores a comê-la. Ao se aproximarem os espinhos da fruta causavam estranhamento, fazendo com que grande parte daqueles que haviam se interessado por ela não a quisessem mais, negando-se a conhecer seu sabor por não terem gostado de seu formato. E por fim, para aqueles que se dispusessem a morder a fruta com todo cuidado necessário, ela os presenteava com uma das melhores experiências gustativas que se pode ter no mundo. Muitas relações entre beleza, futilidade, companheirismo em momentos difíceis, aceitação, oportunidade e o quanto cada um pode esconder algo maravilhoso dentro de si, foram levantadas como uma metáfora a essa fruta. Mas foram logo deixadas de lado pois haviam muitas outras frutas no mundo que não necessitavam de tanta reflexão para se comer. Mas que não eram tão saudáveis e, normalmente, bastante tóxicas. Chegando ao sexto andar do castelo, onde um guarda em frente a uma porta dupla muito grande e exageradamente ornamentada aguardava, Lazul os informou que aqueles eram os aposentos de sua Rainha. - Esses são os aposentos de minha Rainha – disse, repetindo o que o narrador disse que ele disse. - 58 -
- Você está atrasado – interrompeu o Guarda, que era uma espécie de Guaxinim um pouco maior do que o normal. - Houveram alguns imprevistos. - Você trouxe mais gatos do que nós imaginávamos. - Eles que causaram os imprevistos.. - E percebo que seu cajado precisou ser utilizado. - Nem tanto quanto parece – respondeu Lazul se sentindo um pouco constrangido. – Será que nós poderíamos entrar? - Só um instante – respondeu o Guaxinim, virando-se para falar no que parecia ser um interfone ao lado da porta. – Lazul está aqui e trouxe todos os gatos que ele encontrou no caminho pra ver se algum serve. - Não foi isso que aconteceu! – se exaltou Lazul. - Ah, me desculpe, quero dizer, Lazul solicita um encontro com a Rainha para assuntos profético-felinos. Lazul olhou para o Guaxinim com uma leve irritação no olhar. Narai percebeu que ele estava se esforçando para se controlar e deu uma leve patada nas costas dele. “Podem entrar”, ouviram do interfone. O guarda abriu passagem para eles deixando espaço para que passassem pela porta que estava abrindo. - Boa sorte – disse, malicioso, o Guaxinim. - O mesmo pra você – respondeu Lazul, sem nem olhar para ele. Eles adentraram um longo corredor todo decorado com quadros dos antigos reis e rainhas da Ilha de Pedra, além de abajures brilhantes que se sucediam no teto. - 59 -
Apesar de toda a beleza do corredor, Lundra não resistiu em perguntar: - Quem era aquele porteiro? Ele foi muito grosseiro contigo. - É uma longa história, mas pra resumir, nós disputamos o direito de buscar o gato da profecia e eu venci, mas ele não se conformou com isso. Nós somos como rivais há muito tempo. - Você tem muitos rivais, não tem? - Mais do que eu gostaria. - E menos do que você precisa – disse Annamelia, que estava sentada em seu trono no meio do salão no qual o corredor terminava. – Que bom que você conseguiu retornar são e salvo e com três vezes mais gatos do que eu havia solicitado pelo que posso perceber! - Houveram alguns contratempos - respondeu Lazul, se ajoelhando em reverência a Annamelia -, mas acredito que tudo correu como o esperado, minha Rainha. Os gatos acompanharam os movimentos de Lazul e se ajoelharam também. - Então você é o gato pardo do qual fala a profecia? - Eu tenho lá minhas dúvidas, senhora, mas como quase tudo indicava que sim, eu acreditei. - Confesso que não era exatamente essa a resposta que eu esperava. Mas também não tenho certeza de que resposta eu gostaria de ouvir nesse momento. Talvez essa seja perfeita no fim das contas. - 60 -
Narai levantou a cabeça, saindo da postura de reverência e percebeu que Annamelia não estava mais sentada no trono. - Aqui – disse ela, soprando no ouvido do gato por detrás dele, fazendo sua espinha gelar. – Apesar das tuas dúvidas, posso ver um grande potencial em você. Menphis também estava um pouco assustada com aquela criatura. A Rainha Annamelia era como Lazul, constituída de madeira, mas com longos galhos que saíam do topo de sua cabeça e chegavam quase a arrastar no chão. Ela possuía uma aura misteriosa e sábia, quase profética, de quem parece poder ler a vida toda de alguém só pelo olhar. - Não precisa ficar com medo – disse Annamelia diretamente para Menphis. – Mesmo você, que pensa não ter força alguma, ainda pode ser de grande utilidade nessa história toda. Venham comigo. Eles a acompanharam por uma passagem que ficava ao lado de seu trono e que levava a uma sala onde inúmeras pedras de várias cores estavam dispostas em pequenos altares. - Cada uma dessas pedras responde a um diferente portador. Cada um de vocês é merecedor de uma dessas pedras, a grande questão é: qual delas pertence a cada um de vocês? As pedras tinham aproximadamente o tamanho de um punho fechado e brilhavam como se houvesse uma gota de luz dentro delas. - Mas são tantas! Provavelmente tem mais de mil pedras aqui! – disse Narai. - 61 -
- Fechem os olhos – continuou Annamelia. – Se vocês se concentrarem poderão sentir aquela que pertence a cada um de vocês. Em parte é uma escolha, pois cada pedra lhes dará uma força diferente, mas apenas a pedra certa pode liberar o melhor de vocês. Nessa ilha, cada um deve encontrar sua alma de guerreiro e se preparar para enfrentar os desafios que virão. - Mas eu não quero enfrentar desafio nenhum! – interrompeu Menphis. – Vocês se escutam quando falam? Já se esqueceram do que aconteceu no telhado? Eles caíram de cima daquela casa no chão de concreto depois de serem atingidos pela pena de um corvo! Pela PENA de um corvo! - Menphis! – interrompeu Lundra. – Se acalma, ninguém está pedindo pra você se jogar de lugar nenhum. Não é? - É uma decisão pessoal – respondeu Annamelia. – Você não precisa escolher pedra alguma neste momento, não é obrigada a nada. Mas eu sinto no fundo do teu coração que há uma grande vontade por trás desse medo todo. Menphis respirou fundo, fechou os olhos por um segundo, esticou a pata e pegou uma pedra que estava próxima a ela, escondida no meio de um punhado de outras pedras. Mas ninguém conseguiu ver a cor dela. - Quanto aos outros, fiquem à vontade, fechem os olhos e escolham a pedra que mais lhes inspirar confiança. - Me desculpe - interviu Lundra -, mas desde que chegamos não tivemos muitas explicações sobre tudo que está acontecendo, sobre a situação daqui nem nada. - 62 -
Quando aceitei vir junto, por mais impulsiva que tenha sido, ainda assim eu esperava ter pelo menos algumas respostas quando chegasse aqui e gostaria de saber um pouco mais sobre o que está acontecendo neste lugar e porquê vocês estão atrás de um gato pardo como ele. - Você é uma guerreira, menina, que passou tempo demais presa entre portões, tendo uma boa vida e mesmo assim nunca conseguiu se acostumar a ela. Você realmente quer respostas? Antes de mais nada, tem certeza de que são essas as perguntas? Lundra parou por um instante, olhando para Annamelia, reconhecendo algo familiar nela. Nesse momento ela fechou os olhos enquanto pensava “Será que, de fato, eu já tenho as respostas?”, sentindo, no escuro de seus olhos fechados, uma pedra verde brilhar, juntamente com uma pedra azul. Ainda de olhos fechados ela foi em direção às duas pedras e as pegou, uma em cada pata. - E você, Narai, o que você precisa? - Nesse momento, daquela pedra vermelha ali. - Tem certeza? Ela te chamou? - Não, eu que a escolhi – disse, saltando para alcançar a pedra vermelha que estava no ponto mais alto da sala, subindo e escalando por vários apoios até pegá-la. – Pronto! Annamelia sorriu, achando um pouco de graça nas peripécias daquele gato. - Escolha interessante, Lazul. Espero não me arrepender de não contrariá-la. Agora podem ir, aproveitem - 63 -
a festa, alimentem-se bem e descansem o quanto puderem, pois amanhã será um longo dia. Lazul os guiou até a saída e de lá seguiram para o salão principal onde a festa ainda acontecia. Todos se divertiram o quanto puderam, mas as palavras de Annamelia ainda ressoavam neles, deixando uma pequena preocupação em suas mentes. Menos em Narai, porque ele não tinha entendido nada e só estava se deixando levar mesmo. Dançou por volta da mesa de frutas puxando Lundra para dançar com ele e jogando algumas uvas em Menphis, para ver se ela acordava. Lazul não ficou muito tempo e logo se recolheu aos seus aposentos, não sem antes orientar aos gatos sobre como chegar aos deles: - É muito simples, vocês sobem por esta escada circular, desviam na terceira volta, seguem reto por um corredor azul, viram à esquerda na segunda entrada e à direita na quarta seguinte. Se tiverem alguma dúvida ou caso se percam é só gritar “Romili romili romili li!” que alguém vai aparecer pra lhes guiar de volta ao caminho certo. - Acho que tá bem simples, sem problemas, a gente se encontra – disse Narai, apesar dos olhos arregalados de Lundra e Menphis. - Boa noite então – se despediu Lazul. Os gatos voltaram para a festa e ficaram por lá durante algum tempo ainda. Menphis aproveitou um momento de distração dos outros dois e entrou pelo corredor por onde Lazul havia seguido depois de se - 64 -
despedir. Andou um pouco e o encontrou escorado numa sacada, olhando as estrelas. - Não precisa se esconder – disse ele, sem tirar os olhos das estrelas. - Na verdade eu não estava me escondendo – respondeu. - Seu pelo é tão escuro que parece fazer parte das sombras, parece que está sempre se escondendo. Pelo menos os teus olhos são brilhantes como esses pontos no céu. Lazul apontou para uma constelação que conhecia. - Eu não sei bem o que eu estou fazendo aqui – disse a gata. - Aqui na Ilha de Pedra ou aqui comigo? - Acho que os dois. Você enfrentou aquele cão enorme.. ele era enorme! Lazul riu da constatação dela. Menphis se aproximou dele e ficou ao seu lado olhando as estrelas. - Ele não era tão grande assim – respondeu Lazul. – E eu senti que ele tinha um espírito bom, apesar de estarmos nos enfrentando. Às vezes nós precisamos abraçar os desafios pra podermos crescer, mesmo que a gente não saiba direito o porquê. Como você fez ao escolher a pedra num impulso. - Parecia que ela havia me escolhido, que gritava de dentro daquele monte de pedras, me chamando.. Você tem uma também? - Sim, todos os guerreiros dessa terra carregam uma daquelas pedras. O difícil é saber onde guardar ela. - 65 -
Menphis riu novamente e complementou: - De tão grandes e pesadas que elas são! - Não posso discordar, a minha fica na ponta do meu cajado. - Que cor é essa? - É a Pedra do Trovão, ela tem cor de relâmpago, pelo menos é assim que eu chamo essa cor. Um branco envolto em azul claro, meio difusa, não sei bem definir. - A minha pedra é escura como eu, deve ser uma Pedra da Sombra então. - É uma boa pedra, pode ter certeza, nem sempre a sombra tem que simbolizar algo ruim. - Espero que não, eu não quero ser sombra e nem me esconder sempre nela. - Os teus olhos vão te afastar das sombras, sempre, assim como os teus amigos e agora eu também. - Muito obrigada. Lazul fez uma reverência para ela. - Ao seu dispor. Menphis sorriu, desejou a ele uma boa noite e seguiu em direção ao seu quarto. Enquanto isso, na festa, Narai e Lundra brincavam de brigar. - Você tem que ser mais rápida! – disse o gato enquanto acertava uma uva na nuca dela. - Mais rápida? Então segura essa! Lundra arremessou uma manga na cabeça de Narai, que desviou por muito pouco, deixando que um pilar fosse atingido em seu lugar, mas ela não deu trégua e seguiu arremessando todas as frutas que encontrava em direção a - 66 -
ele. Narai pegou uma bandeja e começou a rebater as frutas, em sua maioria uvas, e Lundra aproveitava para saltar e abocanhar cada uma delas. Ela jogava, ele rebatia e ela abocanhava. Em pouco tempo a sincronia deles fez o salão inteiro parar para prestar atenção naquele jogo. Logo começaram a fazer apostas sobre qual dos dois iria errar primeiro, se o gato levaria uma uvada na cabeça, ou se a gata jogaria talvez uma melancia nele ou uma das frutas mais incomuns que estavam por lá. Metade do público torcia para que ele desmaiasse com uma jacada e já havia uma fila de animais entregando diversos tipos de frutas para Lundra arremessar. - Espera um pouco aí! Isso não vale, tá muito organizado! – reclamou Narai. - Estou otimizando os arremessos! – respondeu Lundra, rindo dele. Narai seguia firme, rebatendo todas as frutas com a bandeja, até que escorregou num kiwi e se espatifou no chão. Lundra saiu correndo para ver se ele estava bem enquanto os outros animais recolhiam o dinheiro das apostas e entregavam para quem havia apostado no kiwi. - Tudo bem contigo, amado? - Acho que eu quebrei uma costela. - Então porque você está segurando no ombro? - A costela não fica no ombro? - Sim, fica – disse Lundra para não ter que explicar anatomia naquele momento, mas guardando uma nota mental de que isso seria importante de se comentar posteriormente. - 67 -
Ela levantou ele, que estava bem, mas só se fingindo de machucado para ganhar um cuidado a mais dela, e seguiram até os aposentos que Lazul havia mencionado. Sim, eles lembraram o caminho, e ninguém se perdeu. Na verdade um suricate se perdeu intencionalmente naquela noite pois achou que seria divertido se perder. E de fato foi: ele encontrou um bambuzal num dos jardins do palácio e dormiu recostado neles. As vezes é bom se perder, para poder encontrar algo que não estava no caminho comum. - 68 -
Capítulo 11 Galos, Folgas e Ovelhas Revoltosas Um novo dia, exatamente similar ao dia anterior, a não ser pelas diferenças, começava. E com ele vinham os gritos das ovelhas que estavam substituindo o cantar dos galos depois da revolta de 1967, onde os galináceos ganharam o direito a uma folga semanal. O problema é que os outros animais não conseguiam mais acordar pois estavam muito acostumados a ouvir os galos para despertar. Então, como medida provisória (que se estendeu provisoriamente por um tempo superior a provisoriedade prevista), o Rei AnnoMello, atual gestor da Ilha de Pedra na época, decretou que seriam contratadas 370 ovelhas para realizarem o trabalho dos galos durante sua folga semanal. Fato esse que deflagrou a revolta seguinte, por melhores condições de trabalho, pois as ovelhas não conseguiam subir no topo dos celeiros onde os galos cantavam. Sendo assim, foi construído para cada grupo de ovelhas um andaime com roldanas, posteriormente conhecido como “elevador”, para que elas pudessem subir até o topo do celeiro. E assim, foi resolvido o problema da falta de feriado para os galos, criando um problema para as ovelhas, que depois de solucionado continuou sendo um problema para os habitantes das cidades, que consideravam os gritos das ovelhas muito estranhos. Lazul, Narai, Lundra e Menphis, após serem devidamente acordados pelas ovelhas, estavam diante dos - 69 -
portões da Ilha de Pedra, prontos para cruzar a ponte que levava ao cais onde um barco os aguardava para levá-los até a Ilha de Turquoise, onde Elo ocupava uma fortaleza. A Ilha de Pedra e a Ilha de Turquoise são pedaços do grande Arquipélago de Pedra, que consiste em diversas ilhas, cada uma com um clima e habitantes totalmente diferentes, sendo um Arquipélago extremamente variado e cheio de possibilidades de aventuras. Mas, no momento, o objetivo era bem específico, então ninguém prestou atenção enquanto o guia turístico que os acompanhou durante a viagem de barco contava toda a história daqueles belos lugares pelos quais eles estavam passando. O guia, uma gaivota bastante carismática, às vezes se sentia um pouco ignorado, mas ele sabia que o problema não era com ele, mas sim com o roteiro que a empresa de transportes tinha lhe entregado para decorar. Ele, na verdade, sempre quis fazer algo mais performático, mais animado, mais dinâmico! E resolveu fazer isso naquele momento! Seria, enfim, o seu desabrochar, onde ele usaria todo o seu talento para cativar aqueles animais que faziam aquela viagem. Ele iria brilhar! E então chegaram na Ilha de Turquoise, o barco parou e todos desceram. - 70 -
Capítulo 12 Um Canto Perturbador Lazul explicou, durante o caminho, que eles iriam, provavelmente, enfrentar os asseclas de Elo antes de encontrá-lo pessoalmente, sendo que cada um deles estaria em um dos andares da fortaleza, que tinha um formato espiralizado, composto por uma enorme escadaria circular que subia por todos os cinco andares de lá. - Um deles vocês já conheceram – disse Lazul quando estavam quase chegando no portão principal de entrada –, o Corvo que nos atacou no telhado daquela casa. Mas além dele existem ainda mais quatro guardiões dos andares: a Canária, o Quetzal, a Coruja e a Mariposa. - Suponho que não seremos bem recebidos em nenhum dos andares – constatou Narai. - Muito longe disso, provavelmente aquela bola de feno em chamas que está vindo do quarto andar em nossa direção, ampliada pela força da gravidade, seja um primeiro indício. E, só pra constar, cuidado!! A bola de feno em chamas se espatifou entre eles, que saltaram, cada um para um lado, na tentativa de evitar o impacto. Todos conseguiram, mas sentiram um frio na barriga e um calor nos pelos. - Entrem logo! – gritou Lazul. Ele e Narai empurraram o portão de entrada enquanto o fogo continuava a vir do quarto andar. Quando todos entraram, fecharam as portas com pressa, sentindo - 71 -
uma última labareda passar pela fresta final do fechamento do portão. Quando olharam em volta viram, no fundo da primeira enorme sala circular, um ser envolto em suas asas, em cima de um pequeno palco. Cantando uma linda melodia enquanto eles se localizavam no espaço. Ao perceber a chegada de companhia, ela parou de cantar por um instante para recebê-los: - Sejam bem-vindes! – disse a Canária, que como o nome já pressupõe, era uma canária com a penugem misturando as cores verde musgo e marrom. – Como vocês estavam demorando muito para entrar pedi que lhes mostrassem o caminho mais rapidamente, afinal, minha bela voz não pode ficar sem um público adequado e, pelo que posso ver, hoje serão quatro peludos espectadores! E mais um amadeirado espectador! Estou tão animada! Não é sempre que temos visitas, acredito que vocês ficarão impressionades com a nossa hospitalidade! E concluiu com um grito estridente que fez com que todos tapassem os ouvidos de tão alto. Nesse momento, uma das pedras de Lundra começou a brilhar, emanando uma luz azul que encobriu todos próximos a ela numa redoma de proteção, fazendo com que o som não fosse mais audível. A Canária parou de gritar no mesmo instante. - Vocês não me escutam mais? Que falta de educação, não gostaram da minha música? – debochou ela, que percebeu que Narai estava fazendo um sinal de que não estava conseguindo ouvir e ela percebeu que eles não a estavam ouvindo mesmo. - 72 -
Lundra saiu de dentro do círculo de proteção, entrando na área audível. - Quanta coragem para sair de sua casca, fico lisongeada. - Muita mesmo, você canta extremamente mal, se for possível eu preferiria ouvir um sapo – respondeu Lundra. - Você acha isso mesmo? Eu ensaiei tanto pra conseguir cantar assim, deu muito trabalho. - Me desculpa, isso foi bastante insensível da minha parte mesmo. Você canta muito bem, a sua voz é realmente incrível, aquela melodia que ouvi quando entramos era realmente maravilhosa. - Ah, agradeço o comentário, pareceu realmente sincero. - E foi, de verdade! Quando você for fazer um show ou algo do tipo me convida, por favor, eu sou apaixonada por arte! - Com certeza, convido sim! Depois dessa função toda de guerra e tretas políticas a gente combina alguma coisa, pode ser? - Sim! Com certeza, vamos mesmo! Enquanto a conversa se desenrolava, os demais animais dentro da redoma de Lundra emanavam um semblante de interrogação em suas faces, tentando entender aquele momento tão singelo entre as duas. - Ela é muito simpática - apontou Menphis. - Uma facilidade pra fazer amizade que assim, sei nem explicar - complementou Narai. - 73 -
- Desde que ela vença, ficaremos bem - torceu Lazul. Nesse momento, a Canária viu o debate que acontecia dentro da redoma e percebeu que precisava avançar com a história: - De toda forma, vejo que você será minha desafiante hoje. Eles ficarão neste teu círculo protegidos? - Sim, o seu assunto é comigo agora. Narai tentou sair da redoma azul como Lundra havia feito, mas, quando ele se aproximava de uma extremidade, as paredes da redoma ficavam duras feito concreto. Ele percebeu isso logo depois de gritar “Eu te ajudo!”, sair correndo em direção a ela e perceber, ao bater a cabeça, que não seria possível passar. Ele ainda tentou gritar mas ninguém o ouvia, como disse Lazul ao se virar para ele e dizer: - Nenhuma das duas está te ouvindo. Lundra percebeu que Narai estava preocupado e olhou para ele pelo canto do olho, piscando um deles com um sorriso, como se dissesse que estava tudo bem. - Espero que você seja uma gata habilidosa - continuou a Canária – pois eu tenho de fato um desafio para você. Do chão, um labirinto de areia começou a se erguer, ocupando o espaço que ainda restava entre ela e Lundra. - Sempre fui muito boa com labirintos – respondeu a gata. - Então será muito simples pra você, basta chegar até aqui no final do labirinto. Isso, claro, antes de desmaiar - 74 -
devido ao meu canto, pois imagino que este seu poder sirva apenas para criar uma redoma protetora, e por isso você os deixou lá protegidos. - Muito bem observado, mas acredito que, mesmo assim, eu conseguirei chegar ao final. - Veremos – concluiu a Canária, iniciando novamente seu grito ensurdecedor. Lundra nem se preocupou em tapar os ouvidos nesse momento, se lançando para dentro do labirinto de areia. Seguiu reto por duas curvas, depois dobrou para a direita, depois para a esquerda e continuou seguindo, entrando pelo caminho que sua intuição lhe dizia. A Canária, ao perceber que ela estava se dirigindo pelo caminho certo, aumentou a potência de seu grito, fazendo com que Lundra finalmente tapasse os ouvidos. Ainda assim ela seguiu, dobrando a cada instante para um lado diferente. Narai tentava sair da redoma que os cercava para ajudá-la, mas era forte demais para ele conseguir passar. Enquanto isso Lundra continuava correndo para chegar ao final do labirinto, com as patas tapando seus ouvidos o melhor que podia, até chegar aproximadamente na metade dele. Nesse momento, a Canária aumentou ainda mais o tom de seu grito, fazendo até mesmo parte da estrutura de areia das paredes começar a se soltar. Lundra ergueu uma das patas fazendo com que sua pedra azul, que estava produzindo a redoma que protegia seus amigos, desfizesse a proteção e voasse em sua direção para que ela a pegasse e lançasse, milésimos após sua chegada, em direção a Canária, fazendo com que a redoma de proteção cobrisse - 75 -
sua rival, interceptando o som que ela estava produzindo, deixando-a presa com seu grito no eco interno da redoma. Nesse momento, o labirinto de areia se desfez ao mesmo tempo em que Lundra caiu, também, desmaiada. Todos correram em direção a ela, Lazul empunhou seu cajado enquanto Narai a pegava no colo do chão. - O que a gente faz? – perguntou Menphis, se ajoelhando ao lado da amiga. - Eu não sei – respondeu Narai, preocupado. – Lazul, e agora? - Provavelmente o corpo dela está totalmente exaurido, não sei se ela vai aguentar. Ao dizer isso, Lazul percebeu que uma luz, agora verde, emanava da outra pedra que Lundra havia pego no salão de Annamelia. A pedra verde flutuou no ar a alguns centímetros do peito de Lundra, emanando uma luz suave que parecia cobrir ela inteira. Aos poucos eles perceberam que aquela luz estava curando a gata, aliviando suas tensões e relaxando seu corpo, até que ela, lentamente, abriu os olhos. - Você me segurou no ar mais uma vez? – perguntou olhando para Narai, que ainda a segurava. - Dessa vez não, dessa vez foi você quem me segurou durante a queda. - Mas você não estava caindo. - Mesmo assim, eu te senti me proteger – disse o gato, acariciando com a pata a cabeça de Lundra. - Já consegue levantar? – os apressou Lazul. - 76 -
- Consigo sim, só um segundo – respondeu ela, levantando. - Preciso que você libere a Canária quando eu der o sinal. Lundra levantou e se preparou para obedecer o comando dele. - Agora! – gritou. Ao sinal de Lazul a gata ergueu a pata e convocou a pedra azul, que estava acima da redoma que cobria a Canária, de volta. No instante em que ela foi liberada todos começaram a ouvir o eco de seu grito, mas Lazul lançou um raio com seu cajado e fez com que ela entrasse num estado de sono, como havia feito com o cachorro no começo da história que, a essa hora em Palasita, estava em busca de sua futura companheira, aquela com quem ele trocou olhares um dia. Eles seguiram pela escadaria em espiral, se dirigindo ao segundo andar onde, provavelmente, encontrariam mais um desafio. Ou dois. - 77 -
Capítulo 13 Alergia, Rinite e Clima Temperado Chegando ao segundo andar, depararam-se com uma enorme floresta. O lugar era totalmente verde, repleto de árvores e plantas numa sala muito alta, a mais alta de todas, com quase 20 metros do piso até o teto. Ao olhar em volta, não viram nada imediatamente assustador, a não ser a chuva de pólen que caía suavemente. Olharam para cima e perceberam uma Mariposa no ponto mais alto daquele andar, sobrevoando em círculos, liberando de suas asas aquela nuvem que ficava cada vez mais espessa e os cercava por todos os lados. Tão logo perceberam isso, Lundra e Menphis começaram a se sentir cada vez mais cansadas, cada vez mais sonolentas, até que se deitaram no chão e pegaram no sono. Nesse momento Narai pensou que Lundra, apesar de ser uma gata muito valente, desmaiava e dormia com muita facilidade. - O que é que está acontecendo? – perguntou o gato. - Não se preocupe, é apenas o pó das asas da Mariposa, não representa perigo, mas poderia nos fazer dormir a todos – respondeu Lazul, olhando para cima e para os lados, procurando mais alguém. - E então porque vocês não facilitam meu trabalho e simplesmente pegam no sono? - disse a voz que se ouviu - 78 -
por dentro do mato verde que cobria a sala. – Não teria sido muito mais simples pra todos nós? - Dificilmente eu concordaria com algo assim, Quetzal. O pólen dela não surte efeito em mim, meus raios se utilizam do mesmo princípio de indução ao sono que as asas dela, posso dizer que eu sou imune a isso. - Você, tudo bem.. mas e esse gato aí? - Eu? – disse Narai ao perceber que falavam com ele. – Se você morasse nas ruas de Palasita também aprenderia a enfrentar o sono sem problema nenhum! Preciso dormir com um olho aberto e outro fechado pra me escapar durante a madrugada de qualquer imprevisto. É uma cidade perigosa, inclusive mais perigosa que essa fortaleza aqui. Quetzal ficou um pouco surpreso com a resistência do gato e se perguntou, inconscientemente, se ele seria realmente o gato certo de que falava a profecia. O Quetzal era um pássaro verde, com parte de sua plumagem vermelha, possuindo uma grande habilidade de se esconder por entre as árvores e se manter estático, parado, aguardando os movimentos de seus inimigos. Habilidade essa que seria utilizada no momento seguinte. - Independente da tua coragem – continuou o pássaro –, e no que depender de mim, daqui vocês não irão passar, lamento muito. Entretanto eu proponho um desafio: uma disputa de esconde-esconde! Narai e Lazul se olharam desconfiados, mas se fosse pedra-papel-tesoura eles teriam aceitado na hora, sem nem pensar. - 79 -
- O que me dizem? - Aceitamos! - confirmou o gato. Lazul o olhou desaprovando a atitude insensata de aceitar o desafio de Quetzal, mas tentando acreditar no julgamento do gato da profecia, isso se ele fosse realmente o gato da profecia.. - Se te encontrarmos poderemos passar? – perguntou Lazul. - Com certeza, dou minha palavra – disse o pássaro, quase que fazendo uma reverência. – Vou me esconder então, contem até três! - Um! – contaram juntos fechando os olhos para que ele pudesse se esconder. – Dois! Três! Quando abriram os olhos não o viram mais em lugar nenhum. Parecia que suas visões estavam turvas e tudo parecia uma coisa só. Todas as árvores pareciam um grande painel impressionista verdejante. - Eu não consigo enxergar direito – reclamou Narai. - Nem eu, tem algo errado aqui. Lazul pensou por um instante e percebeu que a Mariposa que sobrevoava eles poderia ter relação com a visão turva que eles começaram a sentir desde que chegaram ao segundo andar. Ao perceber isso, ele lançou um de seus raios em direção a Mariposa, que foi atingida e caiu daquela grande altura. - Não!!! – gritou Quetzal, saltando detrás de uma das árvores para aparar a queda da Mariposa no ar, voando rápido para pegá-la no meio do caminho, amortecendo o pouso no chão. - 80 -
Nesse momento, Lazul se aproximou dele pelas costas e tocou em seu ombro enquanto ele a segurava no colo. - Já te achei - disse com o pequeno sorriso de quem acabou de vencer uma disputa. - Podemos ir agora? Quetzal respondeu sem nem olhar para ele. - Vão logo, aqui todos somos criaturas de palavra, podem ir. Lundra e Menphis começaram a acordar, Narai foi até elas para ver como estavam e para contar o que havia acontecido ali alguns minutos atrás. Seguiram todos em direção a escadaria para o terceiro andar. Quando Lazul estava quase chegando na escada ainda ouviu Quetzal dizer: - Muito perspicaz em perceber que a visão de vocês estava comprometida por causa da Mariposa. - Não foi por isso. - Foi pelo que então? - Eu estava ficando tonto com ela dando tantas voltas, só isso. Mas não se preocupe, ela vai despertar daqui a algumas horas, provavelmente com alguma boa intenção ou ideia nova. Nós, por outro lado, vamos aproveitar a oportunidade de seguir ao terceiro andar. Com licença! O Quetzal ficou ali, abraçando a Mariposa, esperando que ela acordasse, enquanto via os outros gatos e Lazul pegarem a escadaria que levaria ao terceiro andar. Ao olhar de relance enquanto se dirigia aos degraus, Narai não pôde deixar de notar como aquela cena lembrava o momento em que ele próprio havia salvado Lundra, jogando-se de cima do telhado da casa em Palasita, e - 81 -
percebeu que, talvez, apesar de estarem se enfrentando, aqueles pássaros não fossem totalmente maus, talvez apenas pensassem diferente. - Não achei muito justo o que você fez. Atirando nela ao invés de procurarmos ele decentemente - disse o gato. - Também não foi muito justo aquele pólen em nós, dificultando a visão - respondeu Lazul. - Se nós tivéssemos vencido numa situação adversa como essa, seria mais honrado. - Isso é uma guerra. - Ainda assim não justifica sermos igualmente desleais. O que nos faz mais fortes é exatamente saber que o caminho mais fácil está corrompido, e que precisamos do dobro do esforço pra vencer. - Infelizmente em algum momento você vai perceber que todos os caminhos estão corrompidos. - Esse vai ser um momento muito triste. - Sempre é.. - concluiu Lazul, como se uma memória triste lhe percorresse o pensamento. Lundra e Menphis se olharam, imaginando o que aconteceu enquanto estavam adormecidas mas, de certa forma, entendendo aquela conversa tão bem como se estivessem. - 82 -
Capítulo 14 A Biblioteca da Multileitora O terceiro andar era uma biblioteca imensa. Cada parede do salão era sustentada por uma estante com inúmeros livros, além daqueles que estavam jogados por sobre as diversas mesas, acumulando montes e montes de exemplares, inclusive no chão, com diversos deles abertos em páginas dos mais variados assuntos, desde viagem no tempo até culinária oriental. Bem no meio do salão, uma Coruja estava, em pé, lendo um livro que era quase do seu tamanho, anotando algumas coisas num caderno que tinha ao seu lado, sem perceber que visitantes haviam chegado. Ela corria de uma mesa a outra como se estivesse tentando fazer entender a ligação entre vários livros que ela parecia ler ao mesmo tempo, se deslocando no espaço sem parar e sem prestar atenção em mais nada. - Nós poderíamos simplesmente passar pelo cantinho? – sussurrou Narai para Lazul. - Acho que não custa tentar – respondeu ele, fazendo sinal para que todos o acompanhassem. Eles se agacharam atrás de uma das mesas e foram se deslocando de um monte de livros a outro, percorrendo parte do caminho, em total silêncio, sem serem percebidos pela Coruja. Quando chegaram até uma pilha um pouco maior de livros, Narai acabou se descuidando ao ver um volume - 83 -
sobre peixes grelhados e acabou, acidentalmente, acertando com seu rabo um dos montes, que caiu em cima de outro monte, que espalhou muita poeira. A poeira por sua vez teve força suficiente para virar e derrubar uma mesa inteira, fazendo um barulho extremamente alto. Nesse momento a Coruja se virou para o lado e foi em direção a um outro livro. - Ufa! – suspirou Narai, e a Coruja ouviu o suspiro dele. - Visitas! – disse ela. – Não acredito que não iriam nem mesmo me cumprimentar, que falta de educação para com uma criatura tão culta quanto eu! - Não queríamos atrapalhar o teu estudo, você parecia tão compenetrada – tentou se justificar Lundra. - Não se preocupem, eu estava mesmo esperando vocês. Livros! Por favor, prendam eles! Diversos livros começaram a voar de um lado para o outro em círculos, criando uma formação altamente organizada e seguindo em direção a eles, cercando-os, criando uma pequena prisão bibliotecária em torno de cada um. Narai tentou cortar os livros, Lazul tentou escapar também, mas sem sucesso. - Meus livros são muito resistentes e posso afirmar que métodos violentos não serão de utilidade alguma e nem mesmo eu gostaria de que eles fossem utilizados. Prefiro um desafio mais intelectual e, pelo que pude perceber, meus livros já decidiram qual de vocês é a criatura mais inteligente para me opor - explicou a Coruja. - 84 -
Os livros em volta de Menphis começaram a tremer, caindo ao mesmo tempo no chão, desfazendo o cubo-prisão em torno dela. - Imaginei que em algum momento chegaria a minha vez. Na verdade eu já sabia disso, estava mesmo esperando pra te encontrar, Coruja. - Melhor ainda, temos um jogo para realizar então. - Xadrez. - Como você sabia? - Intuição. - Interessante. Podemos sentar? - O quanto antes. Lundra ficou impressionada com a frieza de sua amiga, ela normalmente estaria mais preocupada numa situação dessas, mas Menphis parecia ter tudo sob controle, o que a deixava feliz e preocupada ao mesmo tempo, pois parecia que algo estranho havia acontecido com sua amiga. Menphis se dirigiu até a mesa onde o tabuleiro estava. Eram peças grandes feitas de madeira, uma gama mais clara e uma mais escura, como em todo jogo de xadrez. A Coruja pegou os dois reis e escondeu cada um em uma de suas asas, esticando ambas em frente da gata para que ela escolhesse. - Eu quero o rei das pretas, que está na sua asa direita. A Coruja abriu as penas que escondiam a peça preta ao mesmo tempo em que seu rosto se enchia de surpresa. - Realmente muito boa a sua intuição – constatou, ainda surpresa. - 85 -
- As vezes ela funciona muito bem mesmo. Podemos jogar? - Claro, mas antes algumas regras adicionais: se você vencer, vocês podem seguir para o próximo andar tranquilamente. Por outro lado, quando você perder, todo o conhecimento de cada um de vocês se transformará em um livro da minha biblioteca. - Sem problema algum - disse Menphis enquanto os outros, em suas pequenas prisões de livros, começavam a ficar preocupados com aquela conversa. - Lazul.. – chamou Narai, com uma voz preocupada. - Não se preocupe, o máximo que vai acontecer é ela perder o jogo. - Isso não foi nada tranquilizante! - Ah, desculpe, que tal: Não se preocupe, ela tem uma chance em trinta mil de ganhar esse jogo! Melhor? - NÃO! PIOR! - É muito difícil agradar você, gato! - Os dois podem parar de bobagem? – interferiu Lundra. – A Coruja moveu a primeira peça. Menphis percebeu a preocupação de todos mas se manteve focada no jogo, realizando seu primeiro movimento. - Esperto.. – sussurrou a Coruja, surpresa com a jogada da gata. - É mais que esperto, em três jogadas eu vou derrubar o seu cavalo. A Coruja deu uma pequena risada ao ouvir a constatação de sua rival. - 86 -
- Você parece muito inteligente mas não tanto assim pra poder prever meus movimentos. - Primeira jogada – disse, desafiando a Coruja a fazer seu movimento. - Aqui – disse, movimentando um dos peões, seguida rapidamente pela jogada de Menphis. - Segunda jogada, à vontade. A Coruja, ainda estranhando um pouco, realizou seu segundo movimento, desconfiada. A gata fez sua jogada quase que instantaneamente depois. - E, finalmente, sua terceira – disse, em tom calmo mas desafiador. - Que seja então, xeque! Nesse momento Menphis aguardou para fazer sua jogada, como se estivesse pensando. - Não funcionou tão bem a sua previsão pelo visto – disse a Coruja. - Muito pelo contrário, eu só queria ver se você perceberia sem que eu precisasse te dar mais nenhuma pista. E então a gata fez sua jogada, derrubando o cavalo de sua adversária. - Xeque – disse Menphis. – Você tem mais doze jogadas antes do seu Rei cair. A Coruja ficou perplexa, já era a terceira vez que as palavras da gata se concretizavam. E então ela percebeu. - Me mostre a sua pedra.. - Claro – disse ela enquanto colocava a pedra negra que havia pego na Ilha de Pedra. - 87 -
- Entendo – disse, derrubando seu próprio Rei. Os livros em volta dos outros caíram pelo chão, jogados como se tivessem perdido instantaneamente suas propriedades de movimento, libertando-os. - Vou voltar aos meus estudos então. Eu poderia dizer que isso foi trapaça, mas você é assim, seria perda de tempo. Só te digo pra tomar cuidado com essa habilidade, porque apesar de ser fantástica, ela pode ser uma grande maldição. Ainda assim, agradeço pelo jogo. A Coruja voltou a correr pelas mesas de um lado ao outro, anotando e analisando trechos de livros. - O que aconteceu? – perguntou Lundra. - Da mesma forma que você conseguiu uma habilidade com a sua pedra eu também consegui uma com a minha, só que diferente. Eu consigo prever pequenas coisas, percebi isso durante a noite, depois de conversar com Lazul. Ainda são previsões simples, mas acredito que elas cresçam com o tempo, pelo que posso sentir e pude perceber. - Nós cuidaremos pra que isso não cresça demais e te consuma – disse Lazul. – Mas, por hora, bom trabalho. - Obrigada – respondeu Menphis, com um sorriso sutil. - Vamos então! – convocou ele. E todos se dirigiram ao penúltimo lance de escadas, onde Lazul sabia que encontraria o Corvo para um duelo. - 88 -
Capítulo 15 O Grande Torneio de um Embate Só O salão do quarto andar era simplesmente uma arena de combate. Nada muito diferente do que Lazul esperava: tochas iluminavam o ambiente, que era muito escuro em volta, apesar da arena em si ser muito bem iluminada. - Eu tinha esperanças de que vocês chegassem pelo menos até aqui para que pudéssemos nos enfrentar num duelo justo. Narai se colocou na frente de Lundra, em parte esquecendo que ela possuía a pedra azul que poderia protegê-la, mas lembrando que ela estava bastante exaurida pelo labirinto. De toda forma, foi fofo da parte dele se preocupar e ela achou isso bonitinho. Lazul fez um sinal para que ela criasse a barreira de proteção como no primeiro andar. - Imagino que seu adversário serei eu, não é? – disse, enquanto a barreira era erguida. - Imaginei que o gato gostaria de tentar a sorte primeiro, devido ao “acidente” no telhado naquela noite. - Você tem razão.. Narai! Você quer.. - Não, não, tá de boa, vai lá Lazul! Acaba com ele! – disse o gato, protegido dentro da redoma azul. - Tem certeza de que ele é o gato da profecia? – perguntou o Corvo. - 89 -
- Absoluta! – respondeu Lazul com uma leve incerteza pensando “Nenhuma!” e subindo na arena do quarto andar. Eles se encararam por um minuto até que começou uma música pesada, cheia de solos e firulas virtuosas de guitarra. Lazul olhou em volta sem entender muito bem de onde vinha aquilo. - É pra dar mais emoção – disse o Corvo. - Ahhhh, que legal, tem um clima todo cinematográfico então! - Tem sim, ó, além da música tem uma câmera ali, e outra ali, e tem uma grua pendurada no teto pra fazer umas imagens aéreas também. Peter Pruu, acende as luzes um minuto, faz favor! Peter Pruu era o diretor de filmagens do Corvo, um Pombo Verde da Guatemala, com sotaque gaúcho, que havia estudado muito e adorava artes marciais. Ele estava em outra sala coordenando a distância todas as câmeras. - Tamos aí, patrão velho! – disse ele no microfone. - Grava bem que essa vai ser boa de ter de recordação! - Issaê! Boa luta, gurizada! - Obrigado! – respondeu Lazul, um tanto quanto empolgado com a ideia de ter a luta filmada. - Solta umas fumaças e faz aquelas luzes coloridas também, Peter Pruu! – pediu o Corvo. - É pra já, patrão! O ambiente foi inundado de fumaça cênica. Luzes mirabolantes acompanhavam uma música muito forte e - 90 -
cheia de malabarismos instrumentais. Lazul e o Corvo deram um grito de empolgação e correram um em direção ao outro, iniciando o combate. Enquanto isso, Narai, Lundra e Menphis estavam de olhos arregalados, desacreditando aquela situação toda, mas resolveram aproveitar o espetáculo e começaram a torcer por Lazul. - Lazul, campeão, não tem pro Corvo não! Lazul, campeão, não tem pro Corvo não! A torcida de seus amigos o deixou ainda mais empolgado e a luta começou a ficar cada vez mais rápida, acompanhando a velocidade da música e das luzes. Lazul disparava seus raios no Corvo que respondia com suas penas-flecha contra ele. Algumas até alcançaram a redoma azul, mas ela aguentava firme, sem maiores problemas, a não ser um susto inicial nas primeiras vezes. Lazul e o Corvo desviavam rapidamente dos projéteis um do outro, ambos demonstrando grande habilidade e animando a plateia. De repente, uma narração começou a ser ouvida juntamente com a música pelas caixas de som. - Bem vindos amigos espectadores da TV Corvo! Hoje em combate teremos Lazul, o ser mágico e místico da Ilha de Pedra, desafiando nosso ainda invicto Corvo da Ilha Turquoise! A batalha começa a toda a velocidade, muitos golpes são desferidos e defendidos pelos participantes, o Corvo parece ter um controle maior da situação, realizando pequenos voos rasantes para se aproximar ainda mais rápido de Lazul, que continua investindo com os raios de - 91 -
seu cajado! Uma batalha épica e emocionante, meus amigos! Totalmente ÉEEPICAAA!!!! E agora nossos patrocinadores: Batata Palha Rincão Gaúcho, pra você que tem saudade da fazenda! E voltamos com a E-MO-CIO-NAAAANTE disputa pelo título de campeão do quarto andar desse lugar aqui! Está tudo acontecendo tão rápido que é até difícil de acompanhar, mas posso perceber que o Corvo mudou de tática e agora está tentando um mergulho do alto após um voo curto para surpreender Lazul, mas ele desvia rolando para o lado esquerdo disparando seu raio e finalmente atingindo o Corvo! Minha gente, primeiro impacto do combate! O Corvo cambaleia meio tonto mas resiste ao efeito do raio de Lazul e a batalha CONTINUUUAAA! Parece que o Corvo está sentindo o cansaço de ter sido atingido e agora dispara dezenas de penas ao mesmo tempo, tentando finalizar o combate antes de desmaiar, mas Lazul está conseguindo segurar TODAS as penas com seu cajado, girando ele numa velocidade IMPRESSIONANTE, meus amigos! Aos poucos a velocidade do Corvo está diminuindo, Lazul aproveita essa abertura e dispara mais um raio, finalizando o confronto! E temos um novo campeão! LAZUUUULLLLL! Narai, Lundra e Menphis aplaudiram entusiasticamente a vitória de Lazul, que erguia os braços em sinal de vitória, soltando um grito de emoção. - É muita emoção, muita emoção, meus amigos! – concluiu o narrador. – E agora voltaremos com a nossa programação normal, depois do replay! - 92 -
Enquanto o replay passava no telão, eles aproveitaram para sair de fininho e pegar as escadas para o último andar, deixando o Corvo no meio da arena, desacordado, tendo bons pensamentos sobre a vida. - 93 -
Capítulo 16 Elo Finalmente eles chegaram ao último andar onde Elo, o pássaro mágico, os aguardava em sua mesa de ping-pong, jogando sozinho contra si mesmo numa velocidade tão intensa que fez Narai perguntar: - Mas que borrão azul é aquele ali dando voltas naquela mesa? - Aquele é o Elo – respondeu Lazul. - Caramba! – exclamou Narai, lembrando que ele próprio deveria enfrentá-lo visto que era dito como o gato da profecia e esse pensamento lhe percorreu a espinha num calafrio gélido que pareceu uma cócega. Ele começou a rir compulsivamente. - Hahahahahahaahsuhausha – seguia rindo o gato. Lundra começou a estranhar esse comportamento de seu parceiro, principalmente no momento em que ele pôs a pata no ombro dela para se segurar enquanto continuava rindo. Lundra não resistiu e começou a rir também. Dali a alguns segundos Menphis não resistiu e começou a gargalhar também. Lazul continuava sem entender nada e resolveu cruzar as pernas e sentar no chão em postura de meditação. Nesse momento uma bolinha de ping-pong cruzou do lado da orelha do gato com uma força e velocidade imensas. Narai desviou e continuou rindo. A bolinha - 94 -
impactou na parede performando uma pequena cratera abstratamente simétrica e esteticamente muito agradável. - Do que você está rindo, gato? – perguntou Elo, que havia rebatido a bolinha na direção deles. - Você é um monstro, provavelmente é impossível que eu te derrote – respondeu o gato. - Mas é muito bonito, só pra constar, todas essas penas coloridas azuis e verdes, chegam a ser hipnotizantes – elogiou Menphis. Lazul, ainda sentado, continuava sem entender o que estava acontecendo ao certo durante essa sequência tão confortável de elogios. - Já estão desistindo antes de me enfrentar? – desdenhou o pássaro, aproximando-se deles como um raio, se colocando a menos de meio metro de distância do gato, que deu um salto para trás assustado com a aproximação repentina. - Uou! Quer me matar do coração?!? Isso não se faz, ora! – reclamou o gato. Lazul se levantou rapidamente, preparado para o combate caso fosse necessário. - Me desculpe, não achei que o gato da profecia fosse tão facilmente assustável - riu-se Elo. - Como não? Nós somos todos gatos que vieram de um lugar completamente diferente deste aqui, onde as coisas são muito menos mágicas e ilógicas. Claro que tudo aqui nos apavora, ainda mais alguém como você que não parece ser um pássaro mau, todo cheio das plumagens - 95 -
coloridas e brilhantes, e no fim é quem mais se desviou de um bom caminho – respondeu o gato. - Quem lhe disse que eu me desviei do bom caminho? Ele é apenas diferente do seu, ou pelo menos daqueles que vocês tentam erroneamente proteger de mim. Não acham estranho vocês terem sido trazidos pra cá sem grandes explicações e logo depois já estarem enfrentando tudo que veem pela frente só porque lhes disseram que assim deveria ser? Os gatos se olharam com desconfiança. O que o pássaro dissera fazia sentido, eles não tiveram muito tempo pra decidir alguma coisa e agora percebiam que haviam sido carregados para o meio daquilo tudo através do caos que se instaurou durante a viagem. - Você pode até tentar, pássaro – interviu Lazul. - Mas esses gatos são mais fortes do que você pensa. O coração deles está no lugar certo, a intuição, o discernimento em meio ao caos. Eles podem ver o caminho, mesmo tendo medo dele, como eles tiveram agora há pouco ao lhe ver pela primeira vez. - Foi tenso, você parece um raio! – interrompeu Narai. – E pelos meus cálculos é a minha vez de duelar. - Então que assim seja, paremos com as divagações. Como vocês podem ver, eu sou um grande apreciador de ping-pong e o nosso duelo não precisa ser tão violento quanto o de nossos companheiros de agora há pouco, acredito que podemos resolver nossas diferenças com uma disputa, o que você acha? - Por mim tudo bem! - 96 -
- Cuidado, Narai, ele é um pássaro muito esperto e ardiloso – avisou Lazul. - Eu sei, pude perceber só pelo jeito dele falar. Mas eu sou um gato malandro e muito bom em ping-pong, vou dar trabalho pra ele! E se eu não for o gato da profecia, o verdadeiro gato vai aparecer em algum momento. Nós viemos até aqui, sabemos que é possível, que juntos nós conseguimos. Se eu for o gato errado pelo menos já sabemos que o gato certo estará bem amparado por nós! – respondeu Narai, com uma sabedoria que surpreendeu a todos. - Boa sorte – disse Lundra enquanto o gato se afastava em direção a mesa de ping-pong. Chegando lá, pegou a raquete e se posicionou, passando a mão pela pedra vermelha que havia pego com Annamelia. - Apenas um único ponto para vencer, concorda? – perguntou o pássaro. - De acordo – respondeu o gato. E começaram a jogar. Elo sacou e ficou surpreso com a velocidade com que o gato reagiu ao seu saque, pois não esperava que ele conseguisse rebater, imaginando vencer logo no primeiro movimento. O jogo continuou assim, a bolinha sendo lançada de um lado para o outro numa velocidade incrível. Narai continuava concentrado, tentando manter os olhos firmes no adversário, que a cada momento aumentava a velocidade das rebatidas. A tensão aumentava a cada minuto até o momento em que a pedra de Narai explodiu em uma aura vermelha - 97 -
aumentando a sua velocidade absurdamente. Elo, que ainda estava se segurando um pouco, finalmente utilizou seu poder ao máximo, ampliando sua velocidade até o limite. Lazul não acreditou no que estava vendo, pois nem mesmo os rastros dos dois ele conseguia mais ver. A cada jogada a bolinha ia mais longe e eles estavam nesse ponto jogando pelo salão inteiro, como se todo o espaço fosse a mesa mas, ainda assim, acertando sempre no pequeno campo de jogo que se encontrava no centro. A bolinha parecia estar pegando fogo com a velocidade. Todos estavam boquiabertos com o que estavam vendo. Parecia um jogo que nunca iria acabar. Eles já estavam jogando há dezenas de minutos quando, finalmente, Narai conseguiu rebater um golpe de Elo de uma forma que a bolinha desviou quando ele iria acertá-la, quase mágicamente, como se um vento houvesse mudado a rota da bolinha de ping-pong. Os dois sentaram no chão, exaustos, ainda com os nervos em velocidade acelerada e, novamente, como é comum nesta história, desmaiaram. - 98 -
Parte III | O Laboratório de Rubicântigo - 99 -
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Capítulo 17 A Borboleta Acidental Curioso como a história contada e a história ocorrida tem seus mistérios tão bem guardados e atos de heroísmo por vezes não registrados. No capítulo 10 aconteceu algo que não recebeu muito alarde, pode talvez até ter passado completamente despercebido por grande parte de quem lê, visto ter sido apenas uma frase (e uma frases muitas vezes podem ser grandes frases!)! Voltemos no tempo narrativo para dar a ele a importância merecida e fazer-lhe jus em seu reflexo no desenrolar do capítulo 16, neste momento em que me retiro como narrador para dar lugar ao formato em primeira pessoa de uma pequenina borboleta amarelo-madeira que tem muito a dizer e ainda mais a contar - concluiu o narrador.\" Olá, meu nome é Pupah, e estou acompanhando a jornada desse bando de gatos desde o capítulo 9 na verdade, quando, acidentalmente, resolvi pousar e me aninhar em uma pequena árvore que estava por debaixo da cachoeira onde eu havia me alocado. Entretanto, não havia percebido que aquilo não se tratava de uma arvorezinha, e sim de uma criatura arbórea que movia, andava, falava e saltava em portais cósmicos de transporte em direção a outros mundos muito diferentes do nosso aqui. - 101 -
A chegada foi um pouco conturbada, me senti um tanto tonta com a quantidade de balanço que o portal proporcionou, mas consegui me segurar com toda força das minhas patinhas naquele ser que agora me dava uma carona não solicitada para esse novo lugar. - Ahhhhhhhhhh! - foram minha primeiras palavras durante o trajeto, inaudíveis ainda por qualquer um a volta, visto a frequência sonora da fala dos artrópodes, mas acredito que meu \"Ahhhhhhhhhh!\" não tenha feito falta como discurso a nenhum dos presentes. Ainda assim meu susto foi bastante real. Chegando ao local, percebi que a festa de boas vindas não era a troco de nada. Eu estava na presença de heróis e heroínas de outra terra! Não havia notado que, além do ser que me carregava no momento, havia um bando de felinos muito importantes para aqueles animais ali. Apenas animais! Livres! Nenhum humano! Era inacreditável! Parecia um sonho do qual não se gostaria de acordar. Logo após a chegada, antes de aproveitar um pouco a festa, fomos levados até o sexto andar para encontrar a Rainha. A porta de entrada era protegida por um Guaxinim muito grosseiro e irritante. Nesse momento comecei a achar um pouco estranhas algumas atitudes das criaturas dali. Ouvi também algo sobre uma profecia felina e cada vez mais me parecia que algum grande perigo se aproximava daquela terra. Então conhecemos a Rainha Annamelia e tudo começou a fazer um pouco menos de sentido. Percebi a - 102 -
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