Capítulo 28 Lendas e Boatos - No início, era um boato - introduziu o Grande Livro das Lendas de Rubicântigo. - Não precisa começar tão do início, pode saltar direto pra parte em que a civilização já está razoavelmente estabelecida - direcionou a Coruja. - Ah, claro, saltemos alguns anos a frente então! - respondeu o Grande Livro, fazendo suas páginas se folhearem ultrapassando mais de três quartos de seu já não tão modesto tamanho livresco e continuando: - Eras inteiras passaram desde o início do cosmos, traduzindo a vontade do universo em uma incalculável quantidade de criaturas que, aos poucos, foram povoando esse mundo e descobrindo seu lugar nele. Ou criando seu lugar nele, se preferirem. - O conceito de “início” entra em conflito com alguns entendimentos posteriores da relação entre tempo e espaço e o termo “vontade” do universo conflita com a ideia de que não há uma consciência universal regendo o cosmos e sim apenas o acaso e o caos - interviu Kyrily. - Mas acho que vou ficar anotando esses comentários aqui pra não ficar interrompendo toda vez. - Eu sei que é difícil, amor - complementou Hermessim -, mas aguenta aí que eu aguento aqui e no fim a gente organiza as ideias com todo mundo. E depois de três quartos do livro mudaram a equipe de editoração e - 153 -
curadoria de informações e então tudo começou a ter muito mais respaldo científico de fato. O Grande Livro suspirou fundo olhando pra elas e continuou: - Realmente, no início tudo era muito aprendido e anotado através de tentativa e erro, além das análises terem um caráter muito mais empírico e anedótico. Mas com o tempo e a evolução das ciências, minhas páginas melhoram muito, pode ter certeza! Infelizmente eu sou um Grande Livro que guarda as histórias e as memórias inclusive dos erros, sendo que tudo segue em mim para consultas posteriores. Então eu acumulo o conhecimento mítico inicial, seguido do senso comum empírico, passando pelo filosófico e o científico. Mas irei direto ao ponto para que possamos estar em uníssono! Mais uma rodada de chá, bolachas e bolinhos foi providenciada enquanto o Grande Livro retomava sua narrativa: - Um dia qualquer, depois de muito e muitos milhões de anos, alguém decidiu que era uma criatura superior as outras e inventou inúmeros motivos descabidos para isso. Esta criatura foi seguida por infindáveis outras que, em diferentes lugares deste arquipélago, tiveram a mesmíssima ideia estapafúrdia. Desta forma, diversos reinos foram criados e dinastias se iniciaram. Com o passar do tempo, o poder desses pioneiros foi se cimentando através de guerras e conflitos diversos, principalmente quando havia algum grupo que tentava se articular para modificar esse sistema de manutenção de poder e trazer - 154 -
mais igualdade entre todos os habitantes de cada local. Mas era muito mais complicado criar novas organizações visto que o poder acumulado por aqueles cujas famílias iniciaram esse processo era muito maior que aquele que seria possível desenvolver sob as vistas dessas próprias famílias. A solução foi um êxodo parcial dessas populações, que aos poucos fugiram desses regimes autoritários e iniciaram novas comunidades onde uma nova filosofia de vida e de relações fosse possível. - Mas aqueles reinos já estabelecidos não gostaram muito dessa ideia, porque estavam imbuídos de uma sede de poder e superioridade que lhes corrompeu completamente - complementou a Coruja. - Exatamente o que eu iria dizer - prosseguiu o Grande Livro. - E, nesse momento, a Rebelião teve início. Ao serem atacados sistematicamente, essas comunidades começaram a revidar e a ficar mais fortes, se tornando uma pedra no sapato dos reinos iniciais. - Nós somos uma dessas comunidades - apontou a Coruja. - E estávamos em conflito direto com o reino da Ilha de Pedra, de onde vocês vieram. - A Ilha de Pedra.. - iniciou Lundra, sem concluir a frase. - É um reino que mantém seu poder se aproveitando da crença de seus habitantes em profecias míticas de salvadores resgatadas de sítios arqueológicos de eras passadas - disse Hermessim. Um silêncio reflexivo se instaurou no ambiente. Lundra serviu mais um chá para si e sua amiga Menphis, - 155 -
que pegou mais um pedaço de bolo e misturou com algumas castanhas que haviam sido colocadas há pouco na mesa. - Nós somos muito tontas, não somos? - perguntou Menphis. - Não são, não - respondeu Kyrily. - Vocês são incríveis, valentes, corajosas, simpáticas, poderosas, fofinhas e muito agradáveis. Lundra e Menphis sorriram ao ouvir essa sequência de elogios. - Somos mesmo - disseram juntas, baixinho. Um pensamento em comum veio a todas naquela sala ao perceberem que esse momento de confraternização estava prestes a terminar: precisamos resgatar nossos amigos e aliados. - E como faremos isso? Aliás, onde eles estão? - perguntou Lundra. - Foram todos levados para a Prisão Pendular - respondeu Kyrily. - E a gente vai ter que se desdobrar em mil pra conseguirmos resgatar eles. - Quando você diz “se desdobrar em mil”, seria num sentido literal ou figurativo? - Acho que vocês não vão gostar muito da resposta pra essa pergunta.. - Eu já imaginava, não sei nem porque me presto a perguntar ainda. E todas riram juntas. De nervosismo mesmo. Enquanto isso, o Grande Livro de Lendas de Rubicântigo se fechava e voltava a dormir em sua estante particular. - 156 -
Parte IV | A Filosofia dos Múltiplos Resgates - 157 -
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Capítulo 29 A Prisão Pendular Imaginem vocês a situação deste gato, que estava jogando ping-pong tranquilamente (okay, nada tranquilamente na verdade) até a exaustão física completa e o eventual desmaio, ao despertar dentro de uma cela sem aviso prévio após acontecimentos dos quais ele não participou conscientemente. Não deve ser nada fácil, convenhamos. Mas acostumado como ele sempre esteve em se meter em confusões as quais não previu, manteve sua habitual calma e começou a gritar: - Onde eu toooo!?! Tem alguém aqui!?! Ouvindo uma resposta um pouco distante de alguém que ele não soube identificar a voz que dizia: - Aguarde um momento e logo mais entraremos em contato com você! Na verdade você entrará em contato conosco! Na verdade a sua cela entrará em contato conosco! Daqui a pouco eu te explico sem gritar quando as celas pendularem! “Quando as celas pendularem?”, pensou Narai, não entendendo o que aquilo significava ao certo, mas imaginando que logo mais saberia, visto ter sido informado de que a informação viria assim que a cela entrasse em contato com o outro ser que estava gritando com ele. O que aconteceu minutos depois. Narai estava olhando em volta, tentando entender onde estava, e se percebeu numa espécie de gaiola, parecida - 159 -
com aquela que os humanos de Palasita usavam para aprisionar pássaros, e ficou imaginando se precisaria aprender a cantar para se manter naquele lugar, tentando antecipar eventuais situações vindouras. Notou também que essa gaiola estava pendurada ao teto por quatro cabos de aço que a impediam de balançar e que, em volta, era uma grande caverna sem entrada ou saída, com a gaiola erguida acima de uma espécie de poço d'água. Essa era sua situação, preso em uma gaiola, numa caverna sem entradas, acima de um aglomerado de água. Sem escapatória, sem saída e sem companhia. Pelo menos ao que parecia, pois alguém havia gritado de volta pra ele. Seria talvez um eco consciente que ao invés de repetir respondia? Não podia ser. Ou seria? Esses pensamentos ocuparam sua mente por alguns minutos até que percebeu as grades começando a vibrar e a girar, fazendo com que a visão do exterior ficasse borrada a ponto de se tornar visualmente indefinível. Depois de girarem em alta velocidade por alguns segundos, as grades pararam abruptamente, desvelando a nova localização da gaiola, agora com uma ponte para uma saída e um morcego que o aguardava. - Isso que significa “pendular”? - perguntou o gato, agora sem sentir a necessidade de gritar. - Exatamente - respondeu o morcego. - Depois de um tempo você se acostuma. Já era hora de você acordar depois de tantas horas se recuperando. - Quantas horas? - Umas cinquenta, eu acho. - 160 -
- Isso dá mais de dois dias! - Eu poderia ter dito dessa forma também, é preferível? - Eu acho que sim, pelo menos dá uma noção mais realista. Quando você disse “horas” eu pensei: tá tudo bem, não passou tanto tempo. Mas agora sabendo que foram dias eu fiquei preocupado. - Com o que? - Minha turma, claro! - Ah, mas não precisa se preocupar. - Uffa, que bom. Pode me dizer onde estão? - Claro que sim! - Então diga, por favor. - Parte deles está presa em outras celas pendulares, como essa sua, e a outra parte está desaparecida e nós não temos a mais pulha ideia de onde estejam. Narai levou um segundo para reagir pois teve que desconstruir o sorriso de alívio que havia incorporado a sua face ao ouvir que não precisava se preocupar ao perceber que provavelmente deveria se preocupar e muito. - Isso não foi nada tranquilizador - disse, finalmente. - Desculpe, acho que estou um pouco destreinado em traquejo social depois de tanto tempo aqui. - Você é um prisioneiro também? - Não, não. Eu sou o guarda da sua seção. - Você é bastante simpático. - Eu tento, não é porque você está preso aqui que precisa ficar mal alojado ou ser mal tratado. Eu não sei o - 161 -
que você fez pra ser encarcerado, mas será bem tratado de toda forma. - Pois então.. eu não sei como eu vim parar aqui. - Você não teve um julgamento? - Não. - Humm - o morcego se afastou um pouco e buscou a ficha do gato em uma escrivaninha um pouco mais distante. - Realmente sua ficha é bastante confusa. - Será que você pode me ajudar? - Vou ver o que posso fazer. Até mais tarde! - Até mais tarde? E a cela pendulou novamente, levando Narai para um outro ponto da Prisão Pendular, muito parecido com o primeiro, mas com diferentes formatos de rocha e de tamanho ao seu redor. - 162 -
Capítulo 30 O Diário do Gatinho Durante sua estadia na Prisão Pendular, Narai teve muito tempo para pensar e refletir sobre diversos assuntos que sua agitada vida não o havia permitido previamente. Por conta das tantas ideias que lhe ocorreram, decidiu começar a escrever um diário para manter registro desses pensamentos: Prisão Pendular, Dia 1 depois dos dois que eu dormi: Querido Diário, Que lugar estranho. Pelo menos fiz um novo amigo: um morcego que eu não descobri o nome porque eu pendulei antes de conseguir perguntar. Prisão Pendular, Dia 2, eu acho, entra pouca luz aqui: Queridíssimo Diário, Até agora não entendi muita coisa do funcionamento desse lugar, apenas que, de tempos em tempos, a gaiola faz um remelexo e se pirulita pra um lugar diferente. Toda vez eu aproveito e danço junto dela pra me exercitar um pouco e acho que estamos começando a estabelecer uma conexão. - 163 -
Prisão Pendular, Dia 3, provavelmente: Inigualável Diário, Descobri o nome do Morcego que cuida da minha seção, mas esqueci, amanhã eu pergunto de novo e lembrarei de anotar no mesmo momento. Quando a gaiola pendulou comigo dançando acho que ela entendeu que eu queria conversar com ele e me levou pra lá. Vou tentar de novo logo mais, mas acho que só posso ficar um tempo do dia em cada parte dessa intrincada caverna. Prisão Pendular, Dia 4, com certeza: Sintético Diário, Meu amigo morcego chamado Spiralisfurolagiro (aposto que agora não estão mais me julgando por ter esquecido o nome dele ontem, não é?) começou a conversar mais tempo comigo. Parece que a gaiola percebeu que eu fico mais feliz com a companhia dele e tem me deixado mais tempo por aqui. - 164 -
Prisão Pendular, Dia 5: Lacrimoso Diário.. Tenho pensado sobre muitas coisas durante esse período em que estou aqui sem muito contato com outras criaturas. Escrever é algo estranho, sabe. Nesse momento escrevo pra mim mesmo sem saber se um dia isso será lido ou mesmo se eu vou sobreviver ao que quer que seja esse lugar estranho. Ter feito um amigo que é, ao mesmo tempo, quem me mantém aqui, me deixa um pouco triste. Nossa amizade se desenvolveu através desses poucos dias e, hoje, ele me contou sua história e confesso que, apesar de ter grandes tristezas na vida, ainda assim encontrei refúgio nas aventuras e naqueles que estavam sempre comigo, diferente dele que, pra sobreviver, precisou suprimir muitos pensamentos diferentes daqueles que constantemente cobram dele. Preciso dar um jeito de fugir e de levar ele comigo. Prisão Pendular, Dia 6: Meu primeiro Diário.. Perguntei ao meu amigo se ele gostaria de fugir comigo. Ele disse que sim, mas que seria impossível pois a mágica pendular que existe nessa prisão impede qualquer movimento coordenado de escapatória. Começo a me sentir entediado com os longos períodos de solidão.. - 165 -
Prisão Pendular, Dia 7, talvez..: Diário, Perdi novamente a contagem dos dias, acho que eles de fato não importam muito mais. Acho que vou apenas anotar as inserções que faço por aqui, esperando ter alguma ideia de passagem de tempo. Talvez seja até pior saber quantos dias se passaram, pois é vida se partindo. Mas não posso perder a alegria, pois ainda tenho muito o que descobrir e fazer. Perguntei ao meu amigo se ele poderia me trazer algumas informações e espero que sejam boas notícias. Aguardo ansiosamente e sigo dançando com a gaiola. Prisão Pendular, Dia 9?: Inebriante Diário! Hoje descobri que Lazul está em algum lugar daqui também! Além dos outros que encontramos na Ilha Turquoise, o que me faz pensar o motivo de estarmos todos presos juntos no mesmo lugar.. Tem algo muito estranho acontecendo por aqui. Mas agora estou mais animado, talvez consiga dar um jeito de me comunicar com os outros! Com certeza Spiralisfurolagiro vai me ajudar, isso pode dar certo! - 166 -
Prisão Pendular, Dia 12!: Diário dessa vida! Acabei não conseguindo escrever muito em você durante esses últimos dias pois fizemos um esquema super complexo de comunicação e agora poderemos iniciar nossos planos para, de alguma forma, nos libertarmos daqui, apesar de parecer uma tarefa extremamente difícil e que nos tomará muitos e muitos e muitos dias ou até meses, mas eu sei que será possível se unirmos nossas mentes e potencialidades de forma a superar esse impressionante obstáculo que se apresenta diante de nós! Não há nada que nos impeça de fugir daqui e retomarmos a nossa vida e continuarmos a nossa luta contra as forças do mal! Apesar que agora a gente tá um pouco em dúvida de quem sejam as forças do mal e parte dos nossos debates tem sido sobre essa área cinzenta entre o bem e mal e decidimos colocar uma régua um pouco diferente, algo como a dicotomia entre civilização e barbárie, mas esse conceito também puxou outros aspectos reflexivos. Dito isso decidimos montar um grupo de leituras filosóficas antes do nosso plano de fuga para termos mais consciência daquilo que estamos nos propondo a construir como sociedade. - 167 -
Prisão Pendular, Dia 17: Querido Diário filosófico, Nossos debates tem sido muito produtivos, Spiralisfurolagiro tem encontrado grandes pérolas na biblioteca local e temos estudado muitos aspectos do existencialismo, debatido profundamente os textos propostos e estamos percebendo as contradições de como várias das ilhas deste arquipélago são gerenciadas e estamos construindo um manifesto sócio-cultural para apresentar futuramente e iniciar um debate para mudanças estruturais no formato de gestão estabelecido. Prisão Pendular, Dia 21: Querido Diário, Depois de muito seguir conversando através de cartas entre as seções da Prisão Pendular, conseguimos juntar diversas criaturas pensadoras que se uniram à nossa causa e manifesto sócio-cultural, contribuindo com ideias e apontando contradições e possibilidades. Esse processo também juntou alguns guardas de outras seções que agora estão pensando conosco inclusive sobre o sistema prisional e como ele não faz muito sentido e não traz uma real mudança social do jeito que está sendo aplicado. - 168 -
Acabamos esquecendo um pouco de planejar uma forma de fuga e nos demos conta de que precisamos retomar esse pensamento ao mesmo tempo em que mantemos nossas leituras e debates avançando. Prisão Pendular, Dia 24: Esperançoso Diário, Descobrimos, utilizando a lógica das informações que temos que, para conseguirmos fugir, precisaríamos de uma ação coordenada extremamente elaborada que não temos capacidade de executar neste momento e com nossos atuais recursos. Vamos seguir atentos e desenvolvendo nossos aspectos intelectuais confiando naquelas que, agora supomos, conseguiram escapar da emboscada a que fomos vítimas. Lundra.. pensei em te escrever uma carta de despedida caso a gente não se visse mais e deixar ela nesse diário pra que talvez, um dia, pudesse te trazer essas minhas últimas palavras.. mas não, porque eu sei que mesmo sem ter ouvido você dizer que viria.. Você sempre vem.. Mesmo quando não vem. Prisão Pendular, Dia 43: Querido Diário, Estamos livres! - 169 -
Capítulo 31 Segunda Chance Depois de ter sido demitido de sua antiga empresa de viagens por ter se revoltado contra o roteiro que deveria apresentar e na qual realizava o trabalho de guia turístico durante os translados entre as ilhas do Arquipélago de Pedra, a gaivota chamada Zízar buscou refúgio em lugares que lhe permitiriam desenvolver e desabrochar seus dons artísticos. Iniciou sua busca em agências de talentos, mas logo percebeu que haviam outros aspectos mais importantes do que simplesmente sua aptidão artística, começando pela tendência de tratar seus integrantes mais como modelos que como atores e por ver que a quantidade de seguidores que se tinha em suas redes sociais e de influência eram mais valiosas do que a sagacidade, perspicácia, prontidão, brilhantismo, dedicação ao ofício e qualidade geral na criação e execução de obras. Em seguida, buscou grupos artísticos independentes e percebeu que, parte deles, tinha muita resistência em abrir oportunidades para novos integrantes e que se mantinham fixos em seus seletos artistas pioneiros. Com isso, seguiu seu caminho atento a outras possibilidades e começou a compor canções, escrever poemas, criar enredos para peças, desenhar e produzir seus próprios trabalhos. Iniciou com uma pequena apresentação mais intimista, mesclando contos que colheu e enfeitou - 170 -
durante suas viagens com canções que compôs também durante elas. Por falar em suas viagens, ao perceber a visível dificuldade de adentrar os espaços que almejava inicialmente, e também ao perceber a limitação que alguns deles o acarretaria, partiu em viagens por todo o Arquipélago para acumular referências e inspirações. Durante suas inúmeras viagens, aproveitava os momentos de trajeto entre as Ilhas, dentro dos navios onde anteriormente havia trabalhado, para colher histórias e conhecer criaturas diferentes, utilizando o seus recém desenvolvidos carisma e autoconfiança, visto que agora estava em uma busca a qual não apenas acreditava, mas que lhe fazia muito feliz, lhe trazendo essas novas habilidades. Entre uma dessas diversas viagens, encontrou um grupo com duas gatas que lhe atiçou uma parte da memória. Chegou perto delas, que estavam utilizando um capuz cada, nitidamente tentando manter a discrição, e falou baixinho: - Acho que tenho lembrança de já ter encontrado com vocês. As gatas trocaram olhares entre si e com as companheiras salamandras e a coruja, que começou a fazer um movimento como se fosse invocar um dos livros que carregava para acertar a gaivota que havia se aproximado, no que Lundra fez um sinal para que ela aguardasse um pouco mais. - 171 -
- Eu acho que também me lembro de você - ela disse. - Quando chegamos nesse mundo e fizemos o trajeto entre a Ilha de Pedra e Turquoise você era o nosso guia. - Exatamente - ele respondeu. - Achei que ninguém havia me notado naquela viagem. - Eu notei, percebi que você não estava muito contente com o roteiro que estava declamando. - Exatamente! Ele era muito ruim - falou rindo. - Demais - respondeu Lundra, rindo junto. - Mas eu percebi que você tinha pensado exatamente isso e que alguma fagulha efervesceu dentro de ti. - Que frase bonita, uma fagulha efervescendo. - Não sei se é possível uma fagulha efervescer. - A sonoridade é boa, acho que podemos apostar no elemento da licença poética e buscar algum elemento metafórico para que seja validada como arte da palavra. - Realmente podemos sim! Eu me interesso muito pelo mundo artístico na verdade, acho incrível. - E já pensou em participar de alguma obra artística e levar esse teu interesse pra um outro nível? - Pensar, assim, até pensei sim.. - Ela vivia criando cenas em frente ao reflexo dela na fonte que tínhamos - se intrometeu Menphis. - Que interessante! - retomou a gaivota. - Então não era apenas um pensamento, mas algo que já estava se manifestando em ti. - E eu me divertia muito admirando, um dom fabuloso para comédia, na minha humilde opinião. - 172 -
- Menphis! - clamou Lundra, um pouco envergonhada com as considerações da amiga. - Lundra! Não é você que sempre acreditou em buscar nossos sonhos pra além das estrelas e acreditar em possibilidades impossíveis? - Vejo que temos duas poetisas lado a lado - comentou Zízar. Ambas riram e se olharam com um ponto de interrogação no olhar e pensando que “talvez seria muito divertido viajar o mundo numa trupe artística”. - Agora, antes que eu esqueça de perguntar, vocês comentaram que no primeiro dia “quando chegaram nesse mundo”, se me recordo a frase corretamente. De que mundo vocês vieram? - Ah, nós viemos... - iniciou Lundra, sendo interrompida pelo sinal de Kyrily apontando o local da incursão que deveriam fazer. - Acho que vamos ter que deixar essa conversa pra outra hora. E saltaram todas no mar, iniciando o desvio de curso para chegar na Prisão Pendular e salvar seus amigos. Zízar não entendeu muito bem a situação mas achou muito curiosa tanto a conversa quanto o desfecho inesperado dela, torcendo para um dia encontrá-las de novo e descobrir o que de fato estava acontecendo. - 173 -
Capítulo 32 Arsenal Subaquático Quando saltaram no mar, muito certas e conscientes de suas funções na inserção que fariam na Prisão Pendular, não esperavam certos contratempos em seus planos. O frio da água não chegou a ser um grande problema, pois estavam protegidas por roupas subaquáticas térmicas que conseguiram segurar um pouco do frio que lhes assolaria. Cada uma delas tinha consigo, também, um respirador muito útil, visto que nenhuma delas respirava embaixo d'água, o que se tornou uma parte imprescindível desse primeiro momento do resgate. Seguiram nadando, em diferentes qualidade de movimento mas razoavelmente treinadas, até alcançar uma grade que seria a entrada inferior da prisão e sua única forma de acesso real. Protegendo a entrada, haviam dois peixes guardas que teriam, com certeza, muita agilidade nesse ambiente. Kyrily sacou sua espingarda de bolhas, um item que haviam desenvolvido especialmente para esse momento, e se escondeu atrás de um grande recife de corais, que estava mais abaixo da posição dos guardas, e se preparou para atirar. Lundra, Menphis e a Coruja aguardaram um pouco mais afastadas, escondidas em outra parte dos corais, aguardando o sinal dela. - Alvo avistado, amor - disse Kyrily no rádio para Hermessim, que acompanhava a inserção no laboratório - 174 -
em Rubicântigo juntamente do Grande Livro de Lendas através de câmeras acopladas aos respiradores que as quatro estavam usando. - Alou, alou, alou, minhas queridas invasoras! - respondeu o Grande Livro. - Não fique interrompendo nossa comunicação, Livro! Cada instante é muito importante nesse momento, não podemos nos distrair falando mais do que o necessário e sendo divertidinhas, precisamos de total objetividade e muito foco e concentração e não de palestrinhas aleatórias que eu sei que você costuma fazer, eu vou ficar de olho, veja bem, mas sim, pode ficar junto aqui vendo a invasão delas porque vai ser muito divertido e vamos por em teste os nossos novos equipamentos e eu estou muito empolgada! - apontou Hermessim, nitidamente divagando excessivamente após ter apontado a necessidade da objetividade do momento. - “Por em teste os equipamentos” você disse? - perguntou Menphis pelo rádio. - Detalhe, detalhe, tá tudo funcionando muito bem, na teoria tá tudo seguindo como o esperado - respondeu Hermessim. - Quando algo sair segundo o que não for esperado lembre de nos avisar com alguma antecedência então. - Claro, pode ter certeza, estou monitorando tudo aqui, desde o nível de oxigênio, presenças nos arredores, carga dos equipamentos, tudo sob controle! Kyrily aguardou pacientemente até que todas fizessem seus apontamentos e retomou: - 175 -
- Alvo desavistado, amor. Mas avistei um novo, caso esse interesse um pouco mais a atenção de vocês. E oi, Livro! Que bom que você está nos acompanhando, lembre de escrever muito bem o que acontecer aqui pra termos essa história pra posteridade. - Sem dúvida nenhuma! Pode contar comigo, estou duzentos por cento atento, será uma obra magnífica, monumental, colossal, histórica e muito gostosa de se ler! Uma pena tinteira mágica surgiu de entre as páginas do Grande Livro de Lendas de Rubicântigo e começou a anotar de maneira flutuante tudo que acontecia, com alguns floreios e liberdades poéticas, diga-se de passagem, mas muito bem escritas. Com certeza, entre os diversos Grandes Livros, este era um dos que se permitia uma maior liberdade estilística em seus relatos, mas sem perder a veracidade dos fatos. - Pode disparar - autorizou, finalmente, Hermessim a Kyrily. A arma utilizada por ela era extremamente específica para utilização debaixo d'água pois disparava bolhas de ar condensadas, ou seja, em terra firme sua atividade principal seria, no máximo, servir como ventilador para dias de calor intenso que precisassem de uma corrente contínua de ar para diminuir a sensação térmica de se estar próxima a um vulcão. Porém, em uma situação como a que se apresentava no momento, ela era extremamente útil, com uma tecnologia surpreendente. - 176 -
Ao apertar o gatilho, a arma produziu uma bolha do tamanho de uma bola de basquete que disparou em direção a um dos peixes-guarda e o atingiu na cabeça, fazendo com que ele levitasse através do mar em direção a superfície. Importante apontar que as criaturas marítimas deste mundo também possuem a habilidade de respirar ar, podendo viver tanto na sociedade em terra quanto no mar, de forma que esse processo causou apenas um desconforto no guarda quando este pensou “lá se vai meu prêmio de funcionário do mês depois dessa, aiai”. - Boa, garota! Um excelente disparo! - bradou o Grande Livro efusivamente. - Nada menos do que o esperado de nossa grande Kyrily, que será eternamente lembrada como nosso ás da distância, a pontaria certeira, a grande mestra da arma de bolhas! Kyrily, a Embolhadora! - Eu espero que você tenha outras opções além de “a Embolhadora” - apontou Kyrily pelo rádio enquanto disparava contra outro peixe-guarda. - Posso pensar em outras opções, mas acredito que logo mais você vai começar a gostar desse título. - Talvez possa me acostumar - e disparou contra o terceiro peixe-guarda, encerrando as atividades de segurança externa do local em uma fração de segundo. Com a ameaça de serem descobertas anulada, avançaram em direção a grade de proteção que era a entrada e iniciaram um extremamente complicado sistema de desabilitação de trancas. O equipamento que seria prontamente utilizado era carregado pela Coruja, como uma mochila, pois era o mais pesado e suas asas - 177 -
conseguiam criar uma boa força de impulsão debaixo d’água, compensando o peso e mantendo a unidade de velocidade e furtividade da equipe. Ao ser conectado a grade, a mochila de metal cheia de engrenagens começou a se transformar e abrir diversos compartimentos por onde saíram pequenos braços mecânicos que iniciaram um processo paralelo de tentar destrancar os inúmeros cadeados, trancas e fechaduras, enquanto tentava encontrar a melhor forma de romper as grades com serras e lasers. O que acontecesse primeiro já estava valendo, sem muito critério, o importante era mesmo o tempo ganho, então podemos dizer que iniciou uma corrida entre a parte da mochila que tentava resolver a tranca e a parte dela que tentava cortar as grades e, claro, o Grande Livro não deixou essa oportunidade passar: - O embate do século começou! De um lado da mochila mecatrônica temos os Destrancadores e do outro os Cortadores! Quem sairá vitorioso desse embate? Façam suas apostas enquanto ainda há tempo! Ambas as funções estão gastando um bom momento analisando suas opções, calculando a melhor rota de inserção para começar seu embate! A Coruja parece um pouco incomodada com a minha narração então vou ficar em silêncio - conclui sabiamente. - Na verdade não é um embate, Livro, elas estão trabalhando em conjunto para definir o melhor plano de ação e não gastar tempo e recursos sem necessidade - apontou a Coruja. - 178 -
- Exatamente, por favor, não nos coloque como rivais, nós somos parceiras - respondeu a Mochila Mecatrônica, com uma mensagem coletiva de todas as suas inteligências artificiais internas. - Oh, claro, desculpem, vou refrasear, fui levado pela empolgação e tensão do momento, mas agora entendi o que está acontecendo - compreendeu o Livro. - Nós somos uma equipe, precisamos atuar como um organismo só nesse momento, lembre disso, querido amigo - concluiu a Coruja. O Grande Livro percebeu, nesse momento, que a história tem sido carregada sempre pelos conflitos, pela narrativa das guerras e dos grandes desbravadores e conquistadores. Por aqueles que lutam e são agraciados com a glória histórica por terem sido vencedores, normalmente de batalhas que sequer precisariam ter acontecido. Essa percepção fez o Grande Livro perceber que ele era grande apenas no nome, pois estava retratando a história da mesma forma que sempre se fizera antes, através do conflito, do drama, do ponto de vista que mostrasse a luta. Mas nem tudo é luta, percebeu. Muito se alcança pelo amor e pelo trabalho em conjunto, pela tentativa de se fazer algo pensando não na glória pessoal, mas no coletivo e na comunidade. Ele percebeu que deveria narrar não só os conflitos e dramas, mas também aquilo que era calmo, coerente, tranquilo e pacificador. Mostrar em suas páginas não só a tristeza e tragédia do mundo que cria heróis que foram monstros, mas também a sutileza daquilo que mudou o mundo em sua utopia e tranquilidade. - 179 -
Ele percebeu que poderia sim, escrever páginas onde ações não violentas inspirassem uma mudança de pensamento e não o ímpeto de conquista e glória. O Grande Livro, neste momento, retirou de si a alcunha de Grande, pois era prepotente se proclamar assim, e passou a ser apenas o Livro de Lendas de Rubicântigo, ainda refletindo sobre o conceito de Lendas, pois nele também percebeu que Lendas são criadas como algo fora da realidade. Enquanto o Livro se degladiava internamente em uma crise existencial e de identidade, a Mochila Mecatrônica havia concluído sua análise e decidiu que utilizaria seus mega processadores para simplesmente destrancar a grade, pois percebeu que apenas uma das trancas era real, enquanto as outras eram armadilhas que ativariam alarmes e possivelmente bombas. Ao descobrir a tranca real, iniciou um processo intrincado de entender o complexo sistema de segurança interna e código de acesso. Depois de um minuto de calculados movimentos com seus diversos bracinhos mecânicos, a entrada estava aberta, a mochila voltou para as costas da Coruja e elas seguiram adiante em sua missão de resgate. - 180 -
Capítulo 33 Parcelamento de Si Agora me encontro em um momento bastante complexo: como explicar a Prisão Pendular em palavras de forma que ela seja compreendida e possivelmente visualizada por quem lê? Já sei! Vamos voltar um pouco no tempo para acompanhar um diálogo muito específico onde Hermessim e Kyrily tentaram realizar essa proeza: - Bom, vamos lá - começou Hermessim. - Nossa missão consiste em uma incursão furtiva por uma das entradas subaquáticas da Prisão Pendular. - Na verdade só existem entradas subaquáticas - complementou Kyrily -, então não temos muita escolha nesse sentido, podemos apenas definir qual das entradas utilizaremos. - E como decidimos isso? - perguntou Menphis. - Aleatoriamente - respondeu a Coruja, com um suspiro de quem já sabia por onde essa conversa iria. - Exatamente - retomou Hermessim -, mas não pelo motivo que possa parecer. Vejam bem, a Prisão Pendular é uma ilha que na verdade é uma montanha que há tempos atrás foi um vulcão. - Isso não parece nada promissor - sussurrou Lundra. - E não é mesmo.. - sussurrou de volta a Coruja. - 181 -
- E dentro dessa montanha ex-vulcão - continuou Hermessim -, temos inúmeros túneis e cavernas interiores que levam as gaiolas onde os prisioneiros estão. A grande questão é que eles estão e não estão ao mesmo tempo nos lugares onde eles deveriam estar. O silêncio se instaurou por metade de um minuto, também conhecido como trinta segundos, enquanto as cientistas esperavam alguma pergunta. Mas as gatas decidiram, mutuamente, aguardar a conclusão da explicação para surtarem posteriormente de uma vez só e não ir parcelando mini infartos. Kyrily assumiu a explicação nesse ponto: - O que acontece é que, ao ser trancafiado em uma das gaiolas de lá, cada prisioneiro é fragmentado entre todas as gaiolas, de forma que se abrirmos apenas uma, o fragmento que estiver nela vai ser redividido entre as outras gaiolas da instalação. - E, só por curiosidade, de quantas gaiolas estamos falando? - perguntou Lundra. - Umas duzentas e trinta e oito, pelos nossos cálculos estimados. - Mas nós temos tudo isso de equipe disponível? - Na verdade não temos. - Então isso quer dizer que.. - Iremos apenas nós quatro, vocês duas, eu e a Coruja, numa missão furtiva de incursão. E como todos os prisioneiros estão fragmentados em todas as gaiolas suspensas, nós precisamos abrir todas elas ao mesmo tempo. - 182 -
- E como a gente vai fazer isso com apenas quatro de nós entrando lá? - interveio Menphis, já percebendo pra onde a conversa caminhava. - Não me diga que.. - Se você quiser que eu não diga eu não digo - respondeu Kyrily. E não disse. - Então a gente acabou de voltar de uma experiência de fragmentação e vocês querem que a gente se fragmente outra vez? - continuou Menphis. - Exatamente isso! Coisa simples, de boa - respondeu sorrindo efusivamente Kyrily. - Vai ser uma experiência incrível! Lundra fixou seus olhos nos de Menphis, tentando perceber sinais de seus pensamentos, e tiveram uma conversa mental através de olhares e expressões faciais que pode ser traduzida em palavras mais ou menos como: Leve levantamento de sobrancelhas de Lundra instigando a pergunta “O que você acha?”, recebendo como resposta uma compressão de lábios de Menphis que evocava um “Acho que não temos escolha”, que foi prontamente respondido com um leve baixar de cabeça e olhar para o chão que trazia a tona um reflexivo “Não temos mesmo” que inspirou um balançar de cabeça veemente trazendo um potente “Então vamos!” concluído por uma resposta similar de balançamento de cabeça, porém mais sutil, encerrando um “Vamos sim”. Nesse meio tempo interno delas, Hermessim, Kyrily e a Coruja seguiram comendo alguns biscoitos e tomando chá, despreocupadamente. Elas já sabiam a resposta. - 183 -
Capítulo 34 Invasão Descoordenada Quando finalmente adentraram no saguão principal da Prisão Pendular, saltando de dentro d’água para um espaço amplo de uma caverna subterrânea, perceberam que deveriam agir ainda mais rápido do que imaginaram pois, quase instantaneamente depois de sua entrada, o alarme foi acionado, levando por água abaixo (hahaha!) toda parte furtiva do plano de incursão. Mas não havia nada a fazer além de seguir com o planejado da forma mais prática e rápida possível, confiando nas habilidades de cada uma das integrantes deste curioso e muito bem preparado grupo. O local onde estavam agora tinha diversas aparentes poças de água, que na verdade eram túneis aquáticos que levariam para as diversas outras subcavernas onde as gaiolas suspensas se encontravam. No reflexo, ao perceber a aproximação de diversos guardas do local, Kyrily tomou posição e começou a disparar sua arma de bolhas, que agora, em um local com ar abundante, se transformara em uma espingarda de hiperpressão de vento, disparando lanças de ar que derrubavam aqueles que tentavam se aproximar delas. Ao mesmo tempo, a Coruja acionou uma segunda função de sua Mochila Mecatrônica, que se transformou em um casulo de ampliação de poder para que a Coruja pudesse executar sua parte no plano, que consistia em utilizar sua habilidade de desfragmentação de - 184 -
consciência para que pudessem liberar todas as gaiolas ao mesmo tempo na maior velocidade possível. O poder da Coruja, como vocês podem até imaginar, sempre lhe foi muito útil para acumular conhecimento, lhe permitindo particionar sua consciência e ler diversos livros ao mesmo tempo sem perder a capacidade de absorver suas informações. Apesar de ser uma habilidade que utilizou apenas para si, depois de muita pesquisa e estudo com Hermessim e Kyrily, descobriram como ampliar sua capacidade para outrens além dela mesma. E esse era o plano. Utilizar a Mochila Mecatrônica como amplificadora para que a Coruja pudesse desfragmentar Lundra e Menphis de forma que elas pudessem encontrar todas as subcavernas e destravar todas as gaiolas. Como Lundra e Menphis haviam sobrevivido ao suporte surrealista da Ilha Artificial de Enteronigma, elas duas eram as únicas capazes de manter essa conexão ancoradas com a Coruja sem se perder no absurdismo das múltiplas consciências. Quando a Mochila Mecatrônica concluiu sua mudança de forma para servir de amplificador, a Coruja fechou os olhos desejando “Boa sorte!” para as agora amigas e deflagrou a desfragmentação de corpo e consciência de Lundra e Menphis, que se multiplicaram em dezenas de versões paralelas delas mesmas, tornando-se espectros semi corpóreos flutuantes que se lançaram em todos os canais de água que as levariam até as gaiolas suspensas onde poderiam encontrar seus amigos e antigos inimigos. Essa partição fez as duas gatas terem apenas um - 185 -
objetivo semiconsciente guiado pela Coruja, o de libertar quem encontrassem atrás das grades, e assim o fizeram. Cada um dos espectros alcançou uma das gaiolas, depois de atravessar os túneis aquáticos que levavam até elas, e as abriram, retornando imediatamente para onde estava a Coruja, que era sua âncora na realidade objetiva. Cada gaiola que era aberta, causava um pendulamento entre todas as outras, modificando a localização de seus habitantes temporários. Ao perceber o que estava acontecendo, em função do alarme disparado e de seu entendimento do funcionamento do local, o Morcego, que estava naquele momento com Narai, o alertou: - Vocês estão prestes a ser libertados, se preparem pra nadar através desse túnel d’água e, logo mais, acredito que estarão de volta ao lugar que deveriam estar. - Venha conosco - pediu o Gato. - Não - respondeu o Morcego -, é melhor que eu fique pois depois disso seremos todos realocados em diferentes frentes de combate e eu posso agir como um espião pra vocês, enviando informações que possam ser úteis pra que alguma coisa mude nesse mundo. - Você tem certeza disso? Imagina o perigo! - Como se vocês não fossem ser caçados loucamente por toda Ilha de Pedra. Se pensar bem, é possível que eu esteja mais seguro que vocês. - Agora vendo por esse lado, é uma possibilidade.. - Então aceita e vai, chegou a hora. E um dos espectros semi corpóreos de Lundra surgiu do túnel de água, abrindo a gaiola onde estava Narai, - 186 -
que teve apenas um vislumbre das feições de Lundra antes dela retornar, de pronto, para o túnel d’água. Narai acenou um último adeus para o amigo que havia feito ali e saltou. Quando todas as gaiolas foram abertas, a Prisão Pendular simplesmente desligou, dando por encerradas suas atividades e aguardando o reinício de seus sistemas. Alguns instantes depois desse acontecimento, os agora libertos prisioneiros chegaram ao saguão principal da caverna subterrânea onde a Coruja e Kyrily estavam mantendo a posição. - Nós não temos tempo de explicar agora - gritou Kyrily -, só dancem conosco! Depois de tanto tempo presos e trocando cartas filosóficas e pensando sobre o mundo e suas atribuições éticas e morais, não houve dúvida nenhuma em ninguém sobre como agir. Lazul, Elo, o Corvo, a Mariposa e o Quetzal cercaram a Coruja e começaram a ajudar Kyrily a impedir o avanço dos guardas do local. Cada um lutando com suas habilidades enquanto Lundra e Menphis iniciavam o processo de desfragmentação, retomando suas formas físicas completas. Quando Narai finalmente chegou viu o final desse processo, as dezenas de Lundras se reunindo em apenas uma e despertando novamente, vendo ele chegar. A Mochila Mecatrônica, ao perceber que ambas as gatas já estavam novamente inteiras, desfez sua forma de casulo que cobria a Coruja e voltou a se alocar nas costas dela, que olhou rapidamente para Kyrily e sorriu, vitoriosa, antes de desmaiar. A Mochila lançou para cada um que ali - 187 -
estava um pequeno respirador e fez com que quatro patas mecânicas saíssem de si, o que a permitiu carregar a Coruja, ainda desacordada, e se lançar na passagem subaquática novamente, iniciando a fuga. Enquanto cada um dali mergulhava na passagem, Kyrily e o Corvo mantiveram a posição, protegendo os demais, até o último momento possível, mantendo os guardas, que ainda surgiam, afastados com seus disparos de pressão de ar e penas de sono. - Chegou a nossa vez - apontou Kyrily. - Quando quiser - respondeu o Corvo. - Agora! - gritou Kyrily, esperando o Corvo saltar primeiro para poder lançar uma bomba de argamassa antes dela mesma saltar, que explodiu, expandiu e selou a saída para que não pudesse ser seguida. Guiados pela Mochila Mecatrônica que carregava a Coruja desacordada, subiram até a superfície onde um outro barco, da mesma companhia que as havia levado até ali, passava. - Opa! Precisam de carona? - perguntou o piloto. - Adoraríamos! - respondeu Kyrily. - Pra onde vão? - Pra longe daqui, em direção a Rubicântigo! - Então podem subir, passaremos por lá logo mais. - Agradeço infinitamente! - Não por isso! Mas ainda assim eu vou cobrar a passagem. Afinal, esse é um navio turístico e logo mais um showzinho de jazz instrumental vai começar e está imperdível! - 188 -
- Nada mais justo, só nos tire daqui, por favor - concluiu Kyrily, finalmente se permitindo respirar com algum pingo de alívio, mas não muito, pois a Coruja parecia estar pior do que elas imaginaram que ficaria depois de todo o estresse de ser a âncora de consciência das duas gatas. Ainda não era o momento de comemorar. - 189 -
Capítulo 35 O Chá das Onze Longe de toda turbulência que haviam passado durante o resgate e da viagem de barco até Rubicântigo, que contou com uma belíssima apresentação de jazz de fato, muitos pontos ficaram abertos para serem esclarecidos, apesar de ainda ser de noite. Quando saltaram em Rubicântigo, despedindo-se da banda e do capitão da embarcação, uma Morsa muito simpática com longos e belíssimos dentes caninos, perceberam o desgaste físico e mental de todos e o quanto esses quase cinquenta dias haviam sido penosos para cada um daqueles que ali estavam. Os olhares, apesar de trazerem a alegria de estarem livres e de terem seus amigos resgatados, ainda assim traziam muitas preocupações. Durante toda a viagem de barco, o Corvo não saiu um instante sequer de perto da Coruja, mantendo controle de seus sinais vitais e a mantendo aquecida, tanto quanto possível. Quando entraram, finalmente, na residência de Hermessim e Kyrily, pararam por um instante e suspiraram de alívio, soltando todo ar de tensão que haviam guardado até o momento por todo esse tempo. - Sejam bem vindos de volta, vamos preparar um chá com biscoitos logo mais - cumprimentou Hermessim. - Onde eu coloco ela? - perguntou o Corvo com a Coruja nos braços. - 190 -
- Por aqui - apontou Kyrily, guiando o Corvo até o mesmo quarto onde Lundra e Menphis haviam permanecido enquanto estavam em Enteronigma. O resto dos recém-chegados se dispersou pelo espaço, buscando um lugar confortável para sentar e descansar depois de toda ação que haviam enfrentado. O Livro de Lendas, agora não mais Grande, começou a preparar a lareira e a tentar acender o fogo, sendo prontamente impedido por Hermessim que percebeu que, apesar da boa vontade do Livro, uma criatura feita de papel não deveria tentar acender lareira nenhuma visto o perigo iminente para suas páginas altamente inflamáveis. - Deixe que eu faça isso, Livro - interrompeu -, por favor tome nota dos relatos que ouvir aqui. - Com certeza! Pode contar comigo! E se abriu novamente em seu pedestal, fazendo a caneta tinteira flutuar pelo ar, preparando-se para escrever em sua sublime caligrafia o que viria a seguir: “Antes de tudo, o silêncio. Enquanto o Corvo deita a Coruja na cama onde ela vai repousar não ouço outro som além daqueles de Hermesim separando os talheres e louças do preparo do chá que faremos com bolos de cenoura, doces e sucos que já tínhamos preparado antes do resgate. Narai e Lundra estão abraçados desde que chegaram, da mesma forma que a Mariposa e o Quetzal. O Corvo e Kyrily acabam de retornar do quarto e estão ajudando Hermessim a preparar a mesa para o chá. Enquanto isso, Elo parece estar fazendo uma bebida - 191 -
diferente, misturando diversos ingredientes curiosos e os aquecendo no fogo, também sem ter dito palavra alguma desde que chegou. Agora, com a mesa totalmente posta, todos se aproximaram e se sentaram em torno dela, aguardando Elo terminar de preparar seja lá o que esteja preparando, mas se juntando ao resto, pouco depois, colocando um frasco com a bebida que fez no centro da mesa, sendo a primeira criatura a falar algo:” - Por favor, coloquem duas gotas dessa poção no chá de vocês. Isso fará com que se aqueçam mais rápido e com que o corpo de vocês se regenere melhor de qualquer possível hipotermia. - Vou aumentar a potência do aquecedor então, quem sabe ajude um pouco também - prontificou-se Kyrily. Enquanto isso, o chá foi sendo servido, pequenos pratos com bolo e doces foram montados, com cada criatura pegando o que queria na mesa posta. À medida que foram enchendo seus pratinhos, os olhares consternados foram dando lugar a uma mistura de determinação, calma e foco. Quando adicionaram a poção de Elo em suas bebidas, puderam perceber que a respiração de todos tomou outro ritmo, aos poucos fazendo com que se sentissem entre amigos. Começaram a trocar olhares e sorrisos enquanto comiam e bebiam, sentindo-se seguros nesse momento e, ao mesmo tempo, sabendo que ele logo mais terminaria, pois conversas sérias deveriam iniciar. Mas não agora. Agora era o momento de ter a certeza que toda resiliência e a crença uns nos outros era - 192 -
realmente poderosa. Dali em diante, muito mais haveria de acontecer, pois durante todo o tempo em que estiveram presos puderam descobrir muito sobre esse mundo e o quanto ele precisa de ajuda pra se tornar um lugar justo e feliz de se viver. Mas não agora. Só mais um pouco de sorrisos, por favor, um pouco mais desse sentimento de entre partes, de fim de capítulo que traz a resolução de algo. Um pouco mais de felizes para sempre antes que outro fim de mundo comece. Ao contar essa história, sinto muito mais do que essas personagens sentem do que aquilo que tenho espaço para contar. E dói em mim como dói nelas porque há em mim o poder de interferir, mas não o direito de fazer isso. Então eu peço, não sei a quem ou a o que, que lhes dê um capítulo de folga pra que recolham seus pedaços e recomponham as partes de seus eus porque ali há heróis e heroínas que eu sei que não vão fugir de lutar. Um capítulo de folga, acho justo e merecido. Mas só um. Porque depois.. o que vem depois não poderia ser nada menos que revolução. - 193 -
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MAURÍCIO FÜLBER - AUTOR Escritor, músico, professor de filosofia e diretor de teatro e cinema, começou sua carreira oficialmente em 2014 com a peça teatral “As Cinco Pontas de uma Estrela Torta”, assinando texto e direção, com a qual realizou 60 apresentações para um total de 11 mil espectadores, além de participar de 15 festivais, conquistando mais de 20 prêmios entre as quase 70 indicações que a peça acumulou. “Pela Voz de um Gato Pardo”, lançado em 2022, é seu romance de estreia, onde mistura diversas influências para construir uma aventura divertida e reflexiva para falar sobre o mundo real através da fantasia. Redes Sociais: @mauriciofulber @estudiofulber Outros Links: http://linktr.ee/estudiofulber Contato: [email protected] VERGÍLIO LOPES - CAPA E ILUSTRAÇÕES Artista plástico, ilustrador, músico, poeta e diretor de arte, iniciou seus trabalhos artísticos em 2014 dentro do ramo da publicidade em paralelo com projetos autorais, passando a trabalhar principalmente com artes para espetáculos e livros. Redes Sociais: @vergiliolopes @xicaradetinta Site: www.vergiliolopes.com - 195 -
Este livro foi lançado no ano de 2022, produzido a partir do financiamento do Funcultura NH, programa de fomento à cultura do município de Novo Hamburgo, tendo seu registro de direito autoral sido efetuado no mesmo ano. - 196 -
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