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Revista Mnemocine

Published by David Alves, 2018-06-06 08:57:49

Description: Revista Mnemocine

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um maio 2018 EDITORES André Piero Gatti, Flávio Brito e Humberto Pereira da Silva REVISÃO Flávio Brito e Humberto Pereira da SilvaPROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Ana Key Kapaz ILUSTRAÇÕES INTERNAS E DA CAPA André ToralCONSELHO EDITORIAL Arthur Autran Universidade Federal do São Carlos Carlos Alberto Mattos blog Rastros de Carmattos Universidade Federal de Uberlândia Carla Miucci Universidade Estadual de Campinas Filipe Salles Universidade Federal de Pelotas Ivonete Pinto Universidade Federal de São Carlos João Massarolo Cinemateca BrasileiraJosé Inacio Melo Souza Universidade de São Paulo Marília da Silva Franco Universidade Anhembi Morumbi Sheila SchvarzmanCOLABORADORES Analu Favretto, André Azenha, Diomédio DESTA EDIÇÃO Piskator, Humberto Pereira Silva, Humberto Schumacher, José Inacio Melo Souza, Matheus Strelow, Maurício Vassali, Pérsio Burkinski e Sabrina Tozatti GreveRevista disponível para download gratuito www.mnemocine.com.br nos formatos EPUB e PDFISSN 1980 6590

índiceEDITORIALNúmero umENTREVISTA Máximo BarroNOTA HISTÓRICA José Inacio Melo Souza PRESERVAÇÃOMemórias do cinema paulista Diomédio Piskator POLÍTICAS AUDIOVISUAISO futuro do cinema nacional em risco? André Azenha CINEMA E... Sabrina Tozatti Greve O ATOR O ator no Cinema: As ideias deKuleshov, Eisenstein e Pudovkin ANÁLISE FÍLMICA Pérsio BurkinskiFilme-ensaio ou Notas para uma Oréstia africana

3Matheus Strelow NOVOS OLHARES Dois homens com uma câmera: procedimentos do real em Vermelho russoAnalu Favretto O amor conquistado no filme Como Nossos Pais: uma análise sobre a construção do mito da maternidadeHumberto Schumacher A contemporaneidade na profanação do dispositivo: Netflix em Cannes e a parcela de cinema de cada um Do gênero à espiritualidade do tempo:Maurício Vassali notas sobre A ghost storyHumberto Pereira da Silva RESENHA Filmes de Glauber no exterior exigem reavaliação SUBMISSÃO DE ARTIGOS PARA A EDIÇÃO DOIS

editorial número umApós a edição ZERO da Em seguida a coluna Nota Histórica Revista Mnemocine em de José Inácio Melo Souza, agosto do ano passado, comenta de forma bem humorada trazemos aqui o número e provocativa o texto laudatórioUM dando continuidade a nossa sobre Limite, escrito pelo próprioproposta de reflexão sobre temas Mario Peixoto mas atribuído arelacionados ao cinema e ao Eisenstein.audiovisual em sentido amplo.Em tempos sombrios, manter a A seção dedicada a Preservaçãocoerência e a continuidade dos abre espaço para a a memóriaprojetos é também um convite do cinema paulista, com textopara novas iniciativas. de Diomédio Piskator e Políticas Audiovisuais trata do futuroAbrimos esta edição trazendo do cinema nacional, com textoa entrevista com Máximo Barro. de André Azenha. No primeiroRecém-completos 88 anos em artigo, destaque para a produçãoplena atividade, todas as manhãs cinematográfica realizada na Bocapodemos encontrá-lo na biblioteca do Lixo. No segundo, a ênfaseda FAAP atendendo alunos, sobre a gangorra das bilheterias.pesquisando e escrevendo ospróximos livros... Na seção Cinema e... temos uma minuciosa reflexão de

5Sabrina Tozzati Greve sobre a aproveitamos para convidar novosespecificidade da atuação no artistas para as próximas edições.cinema a partir do confrontoentre as concepções de Kuleshov, Assim como o numero ZERO,Eisenstein e Pudovkin. E na seção esta edição foi realizada apenasdedicada a Análise Fílmica, com o apoio voluntário de nossostrazemos texto de Pérsio Burkinski colaboradores. Continuamossobre Notas para uma Oréstia buscando apoios e parcerias paraAfricana de Pasolini. as próximas edições e contamos com seu apoio!Por fim, na seção Novos Olhares,agradecemos a curadoria deIvonete Pinto, que trouxe textos dequatro estudantes da UniversidadeFederal de Pelotas. E fechandoesse número, trazemos a resenhado livro “O cinema tricontinental deGlauber Rocha - política, estética erevolução” de Mauricio Cardoso.Agradecemos especialmenteAndré Toral pelas ilustrações e

entrevista Máximo BarroMáximo Barro é pesquisador, professor de cinema, montador e escritor.Entrevistadores André Piero Gatti, Flávio Brito e Humberto Pereira da SilvaTranscrição Natália Marques e Elissa Sanitá SilvaEdição e revisão André Piero GattiImagem e som Equipe de RTV da FAAPFoto Filipe SallesAgradecimentos Rubens Fernandes Jr. e Wagner Matrone

7Máximo Barro, personalidade única surgem minhas duas principaisda História do Cinema Brasileiro, paixões, o cinema e o futebol.há muito merece uma maioratenção de setores da academia e Meu pai era tipógrafo, meuda inteligentsia nacional. Esta longa tio sapateiro. Estudei sempreentrevista, que publicamos apenas em escola pública. No gruposua primeira parte, pretende ajudar escolar Marechal Deodoro eua preencher tal lacuna. Entretanto, me lembro de ter presenciadonão bastasse a sua obra fecunda, algumas projeções. No pátioMáximo encerra longa trajetória na tinha uma grande parede branca,atividade cinematográfica. Afinal, onde aconteciam exibições,são mais de 50 anos atuando como normalmente à noite, quando asmontador, roteirista e professor de pessoas contribuíam com moedascinema, sendo também fundador de um tostão. Filmes mudos eramdo curso de cinema da FAAP. o repertório apresentado. Não posso afirmar mais nada do que... isso, além do fato que eram filmes cômicos. Isto por volta de 1938,Flavio de Souza Brito (FSB): 1940.Abrindo esta entrevista para aRevista Mnemocine, pensamos em (FSB) E a Boca do Lixo, você estavauma proposta mais cronológica, muito próximo dela, o que vocêcomeçando por onde você nasceu, tem a dizer sobre isso?como foi a sua infância, buscandotambém lembrar o momento (MB) Certa feita tomei um ônibus,em que o cinema lhe despertou que me levaria ao Cine Ipiranga;atenção ou um filme que o ao passar pela Boca do Lixo, namarcou? época não tinha nada disso, na Rua do Triumpho, eu vejo na calçada,Máximo Barro (MB): Nasci no um senhor com um grande tuboBom Retiro, na época um bairro e um filme enrolado nele, e aquilototalmente italiano, em 13 de abril ia girando com toda velocidade.de 1930. Meu pai é de 1900, ele Depois, alguém me disse quechegou a assistir aos primeiros em São Paulo havia pessoas quejogos do Corinthians em 1910. depois do filme sair dos banhosNesta região ficava localizado o cinematográficos no laboratório,Cine Luz, onde fiz parte da minha tinha que secar e havia unseducação cinematográfica. Aí técnicos que secavam na calçada,

o que coincidia com aquilo que se fazia longa-metragem. Depois eu tinha visto. Muito tempo mais que o Vittorio Capellaro fez O tarde, eu consegui levar a pessoa caçador de diamantes não houve ao Museu de Imagem e do Som mais cinema em São Paulo. (MIS). (FSB) Ai você já estava com uns 17 (FSB) Quem era essa pessoa? anos? (MB) Era o Campos Filho. Então, (MB) Sim, mais ou menos isso. Eu ele contava que o filme tinha que estou me preparando, atento a estrear às 14h, no Cine Marrocos. tudo que possa ser relacionado Tinham filmado as corridas do a cinema. Quando a minha idade Jockey Club até às 5 ou 6 horas deu o direito de frequentar o da tarde. Eles tinham passado primeiro andar da biblioteca Mario a madrugada inteira fazendo o de Andrade, onde estavam os negativo, não tinha copião, eles livros de cinema, eu li todos os faziam as cópias e às vezes não livros sobre o assunto. Não tanto daria tempo, com os equipamentos por eu ser um voraz leitor, mas que eles tinham, para secar o filme. porque haviam poucos livros sobre Então, ele pegava toda aquela o assunto. Era uma insignificância tranqueira e levava para a calçada. de obras de cinema que poderiam Isto porque tinha sol, aquela ser encontradas lá. E, ainda hoje, quando eu vou fazer uma pesquisaQuando a minha idade assim, eu vejo o livro do Pasinettideu o direito de frequentar no mesmo lugar de quando euo primeiro andar da peguei o livro dele pela primeirabiblioteca Mario de vez na mão. Storia del cinema,Andrade, onde estavam os Francesco Pasinetti (1939), élivros de cinema, eu li todos extraordinária; ela acaba em 1937os livros sobre o assunto ou 1938. Trata-se do melhor livro de história do cinema que havia poeirada do ônibus passando, que sido publicada naquele momento. ajudava a secar. Isto era a única coisa que tinha em São Paulo. Não (FSB) Você se lembra de outros títulos? Desses poucos livros. (MB) Até 1950, quando as coisas mudam bastante, já tem

9Cinemateca, tem gente que Canadá, dando aula de como elecomeça a reunir documentos. fazia aqueles filmes. Essa questãoEu li um livro sobre montagem, do reconhecimento sempre foiescrito pelo Renato Mai, que era assim. Se você pegar a primeiramuito bom. A definição que ele vez que se fez um levantamentofaz sobre A carga da brigada dos 10 maiores filmes da historialigeira (Michael Curtiz, 1936), cuja do cinema - isso foi feito durantemontagem é extraordinária. Este um festival na Inglaterra, na décadafoi o primeiro livro de montagemque caiu na minha mão. Os livros Diziam que a gente iaeram todos em francês, o que era ter aula com um grandeuma vantagem, porque eu lia mal diretor brasileiro, a gentee porcamente em francês, mas não achava que era o Adhemarsabia nada de inglês. Gonzaga, ai o professor falou que era o Cavalcanti(FSB) Naquela época havia aspolêmicas entre Chaplin x Buster de 60, misturando historiadores,Keaton? críticos, pesquisadores - você percebe que Cidadão Kane (Orson(MB) Não tinha. Buster Keaton era Welles, 1941) nem é citado.um desconhecido. Ele só começou Depois, em alguns anos, elea ser levado a sério nos anos 1960. aparece em sétimo ou oitavo lugar,Ele era um dos atores cômicos e aí ele fica lá em cima.que se consideravam ao redor doteatro. O Pasinetti dizia claramente (FSB) Neste momento, queno livro dele que o Chaplin era um começa a ter cinema em São Paulo,repetidor. em São Bernardo, com a criação da Vera Cruz, a chegada do Alberto(FSB) Vamos fazer um parêntese, Cavalcanti, o Seminário de Cinemapara você defender o Buster do MASP, etc.Keaton. (MB) O Seminário começou(MB) O Buster Keaton começoua ser levado a sério quase que namorte dele. Ele estava endividado,por causa do imposto de renda,e começou a fazer filmes emoutros países, principalmente no

em 1948, diziam que a gente ia Ortiz dava aula, ele era critico deter aula com um grande diretor cinema, mas nunca tinha vistobrasileiro, a gente achava que era cinema. Alguém me falou, pode sero Adhemar Gonzaga, ai o professor mentira. Pode ser maldade...falou que era o Cavalcanti, e láno inicio de 1949 o Cavalcanti (FSB) Fale um pouco mais sobre asaparece no meio de uma aula. Ele aulas do Seminário.que era gago, quando tinha algumproblema usava a palavra vero. (MB) Eles fizeram um estúdio. AsA gente era obrigado a assistir aulas continuaram depois dissoLadrões de bicicleta (Vitorio De tudo. Aí tinha um professor italianoSica, 1948) não com um lenço, mas de cenografia que ao fim do cursocom um lençol. Alguns dizem que fez um exame escrito e oral. Então,o Cavalcanti tinha voltado ao Brasil, ele disse que os cinco primeirosporque tinha morrido a mãe dele colocados, caso se interessassem,e estava havendo um problema poderiam fazer um estágio naentre ele e os irmãos, quanto à Multifilmes. Dessa maneira que odivisão do espólio. Outros dizem cinema caiu no meu colo. Nunca,que já começava o descredito do nunca iria imaginar. Fui muitocinema inglês, no pós-guerra, o sortudo, o cinema veio até mim, euque é verdade. O neorrealismo, o não fui ate o cinema.cinema inglês e o grande cinemarenovador das coisas, os filmes que (FSB) Este foi o seu o primeiroeles fizeram eram extraordinários, emprego, na Multifilmes? Em qualmas nem mesmo os ingleses função?levam a sério. Foi ai que eu soubeque tínhamos um diretor famoso (MB) Sim, em 6 de janeiro de 1953,brasileiro lá fora. meu primeiro dia no cinema. Eu era assistente de produção do(FSB) Você participou das 11 primeiro filme colorido brasileiroconferencias? Foi a primeira Destino em apuros (Ernestoexperiência de aula de cinema, a Remani, 1953). Infelizmente o filmeprincipio? se encontra perdido.(MB) Assisti todas as 11. Sim, (FSB) Não existe cópia do filme?porque até então você tinhapessoas abnegadas. O Carlos (MB) Ninguém sabe onde ficou o negativo. Porque você não faz ideia do que era mandar um negativo

11para revelar. A gente não tinha Cinema Brasileiro (CNCB),laboratório para coisa nenhuma, você já está atuando, digamos,mormente, que o filme era um profissionalmente?nada. Era um sistema meio alemão,ou franco-alemão, ou algo assim. (MB) Um dos professores deEle era revelado em Houston cinema era o Tito Batini. Eu não(EUA). O negativo ia dentro de gostava de nada do que estavauma caixa com gelo seco, tinha fazendo na Multifilmes, pois paraque ir num determinado lugar o Mario Civelli, cinema era umdentro do avião, pois, os aviões sacerdócio, você não tinha quenaquela época não tinham sistema pensar na família, não tinha quede refrigeração . Era calor, era pensar nem em você mesmo,calor, era frio, era frio. E, o material nem nada. O negócio era o filme.tinha que chegar em um estado E aquilo não me agradava emsatisfatório. Além do mais, o filme nada, porque eu queria ter aestava sendo feito com negativo minha vida social. Então, eu fizvencido. O que tinha de luz em o segundo filme, O homem doscima era uma grandeza, para papagaios (Armando Couto, 1953)poder imprimir. e fiz a preparação da produção do terceiro filme, já tinha dito(FSB) Quando você começa na que ia sair no primeiro dia deMultifilmes, e, logo em seguida, a filmagem. Então, fui trabalhar comVera Cruz faliu? o Tito Batini, que tinha um estúdio enorme, me instalar numa sala(MB) Sim, a Vera Cruz faliu no ano mais ou menos do tamanho dessa,de 1953. Não só a Vera Cruz estava com duas maquinas de escrever efalida, já estava falida a Maristela um telefone. Era a Musa Filmes, otambém. A Multifilmes fez oito ou nome da produtora.nove filmes e também para em1953. Em 1953, quando a gente (FSB) O que vocês estavamfaz a segunda assembleia, isto fazendo?ao final do ano, já está tudo umamassa falida. No Rio de Janeiro (MB) Ele estava tentando fazeras coisas até andam por causa da um filme sobre futebol quechanchada. acabou não dando certo. Então ele começou a trabalhar com(FSB) E, em 1953, durante propaganda a cores, e eu comeceio II Congresso Nacional de lá fazendo filmes para televisão.



13A gente também filmava as obras (FSB) Era moviola horizontal?do Ibirapuera, que estavam emandamento naquele momento. (MB) Sim, era uma moviola horizontal de quatro pratos,(FSB) Eram filmagens para o IV alemã. Ruim de trabalhar, masCentenário? eu me apaixonei por aquele monstrengo que estava na minha(MB) Eu e o Juan Carlo Landini frente. Comecei a trabalhar nela,(fotógrafo) filmamos o Ibirapuera o Landini me ajudava muito. Istoquando era um charco ainda. A porque ele sabia das coisas, elegente filmou todo o processo trouxe o Espanhol, que tambémde construção de todas as era montador, e que me deu maisedificações, momento em que explicações.o Landini foi fazer filmes no Riode Janeiro. Então, eu com mais (FSB) Então, ai você começou aoutros, que estavam paralisados carreira de montador?na Vera Cruz, filmamos o anointeiro todas as festividades dentro (MB) Não exatamente, pois quemdo evento. Quando acabou o IV iria montar o filme era outroCentenário, o Batini pede licença montador. Ele assistiu os copiõesse ele podia ficar com todo o e acabou desistindo do trabalho.negativo? Ele ficou com o material, Entretanto, um dia o Batini entrouentão, bolou fazer um filme meio lá e viu que eu estava montandodocumental, meio ficcional sobre uma coisa. Ele me perguntou,o IV Centenário. Então eu comecei foi você que montou? Eu dissefilmando e, pela primeira vez, eu que sim. Então você vai montarvou montar. um longa-metragem. Portanto, foi assim de repente. Eu que nãoEu nunca tinha visto uma moviola sabia nada de montagem, a nãoe o Batini comprou uma para ser teoricamente, eu fazia as coisas,finalizar o filme. A minha vantagem aprendi com as minhas assistentes.é que durante 10 anos eu fui Eu ensinava teoria para elas emecânico, pois, como ela estava, elas me ensinavam a prática. Elasnão podia subir inteira ao décimo sabiam como fazer um longa-andar pelo elevador; aí eu a metragem. Eu nem sabia que tinhadesmontei e a remontei dentro do que dividir em rolos de 10 minutos.escritório do Batini. Eu não sabia nada de cozinha de montagem.

(FSB) Então, você começou de homem, mas havia áreas emmontando na Musa Filmes? que trabalhavam juntos. Assistência e tudo mais tinha mulher.Aqui no Brasil tivemos algumas Normalmente, elasmontadoras. Na França mulher cumpriam tarefas fora domontava. Nos EUA, às vezes; naMetro quem tomava conta de set de filmagem, a não sertodas as montagens foi mulher, o caso de script-girl, osem certo momento. demais eram ocupados por homens. De repente, eu acabei num filme que estava sendo preparado em São Paulo, onde até a fotografia seria feita por(MB) Sim, na Musa Filmes, onde eu mulheres. Foi um sustojá tinha montado documentários para mim, mas o filme não foi realizado. A mulher não opinava.e tudo mais, mas tudo de 10 Era um universo essencialmente masculino.minutos.(FSB) Uma coisa me chamou a (FSB) Como era esse processo deatenção na sua fala, as assistentes montagem?eram mulheres? (MB) Nesse momento, ainda estava(MB) Sim, eram duas mulheres, montando com negativo de som,uma delas era alemã e a cunhada negativo de imagem. O magnéticodela. A alemã me contava sobre só vai aparecer na década de 1960.os bombardeios em Berlim e a Portanto, os meus primeiros trêsoutra era casada com um grande longas montei negativo de som eeletricista de cinema. Havia esta imagem.tradição na montagem, assistentesde montagem femininas. Aqui (FSB) Das suas primeirasno Brasil tivemos algumas experiências com longasmontadoras, a Lupe (Maria metragens de ficção?Guadelupe). Na França mulhermontava. Nos EUA, às vezes; na (MB) O primeiro ficcional foi E se aMetro quem tomava conta de cidade contasse (Tito Batini, 1958),todas as montagens foi mulher, em do IV Centenário. O titulo eracerto momento. Isso era assunto bastante representativo. Depois,

15eu tive a sorte de ficar trabalhando Esta entrevista foi gravada em 19dois anos com uma equipe e 20 de dezembro de 2017, nositaliana, e aprendi muito com eles. estúdios do Curso de Rádio e TVIsto tanto na filmagem, quando eu da Faculdade de Comunicaçãoera assistente de direção, como e Marketing da Fundaçãodepois eu montava juntamente Armando Alvares Penteadocom uma diretora de montagem, (FAAP). Gostaríamos de registrarque tinha trabalhado em um nosso agradecimentos a Rubensgrande estúdio italiano não estatal. Fernandes Jr. e Wagner Matrone,Inclusive, eu tinha assistido muitos além dos profissionais do curso defilmes que ela tinha originalmente RTV.montado ou feito a supervisão dosmesmos. Ela se chamava Maria Equipe técnica RTV-FAAPBasaglia. Arilson Amorim (direção de imagem)(FSB) Como se chamavam estes Fábio Azeredo (tec. de vídeo)filmes? Fábio Marques de Paula (tec. de vídeo)(MB) Macumba na alta (Maria Kleber Fabiano (sonoplasta)Basaglia, 1958) e o Pão que o Leandro Francisco (cinegrafista)diabo amassou (Maria Basaglia, Reinaldo Fagundes (supervisor1958). O primeiro era uma técnico)comédia, o segundo um drama. Renato Maia (supervisor deEstes filmes foram produzidos operações)pela Paullistania Filmes. Era uma Telvio Natal (mídia manager)empresa italiana que estava Valdemar Leite (iluminador)fazendo filmes aqui.(continua...)

nota histórica Mário é Eisenstein. Mas Eisenstein é Mário? José Inácio de Melo SouzaJosé Inacio de Melo Souza é ensaísta com diversos livros publicados entre os quais Salasde cinema e história urbana de São Paulo (1895-1930) pela Editora Senac (2016). Seu livroA carga da brigada ligeira: intelectuais e crítica cinematográfica, 1941-1945 é publicadopela Editora Mnemocine. Um filme da América circunscrito meio e, outras, apenas um do Sul anônimo em inexpressivas multidões. De algum jeito e em Visualizo e denomino esse despontar, princípio esse rapaz tal a nota predominante queformou-se com um cérebro-câmera; repentinamente se sobressai de umaseu registro é um globo ocular – sua sinfonia, como o motivo-chave – ondaestrutura de trabalho, instintivamente transportando-vos no seu próprioritmo. É por isso, certamente, e por mundo íntimo, fazendo-vos estremecerparelhas circunstâncias, que afinal nessa vanguarda, repentinamentese vem ao mundo, algumas vezes encontrando-vos a raciocinar de umcomo singular predecessor no seu panorama mais alto que nem se situa,

17impedido de vizinhanças, e que imagens demorada importância,brusco vos atira, assim abalados, e antes inconcebida [sic], a portascara a cara com a aguda atmosfera fechadas tanto como as janelas,que se acaba de penetrar. aos seus caixilhos envidraçados, aos carcomidos muros usados emEu poderei fornir nomenclaturas composição nos planos de fundo.a esse filme seguindo as três Os fios elétricos se entrecruzamtendências que se bifurcam fugindo de um canto do campo deemanadas dos seus ingredientes imagem, e em primeiro plano, paracaudalosos (onde de primeira vista distâncias que se perdem até o fimlampeja algo de músico e algo visual de estradas arenosas.de pintor; ou rítmica e estáticadiretamente): Existe toda uma plasticidade de longitudes, aparentemente1) a solidão do homem e seu desdobrando-se e intransponíveis,clamor; subjugadoras, versus os seus heróis que caminham permanentemente.2) seu constante desejo de evasão, Distingue-se, abaixo, nessa mesmaou comunhão; estrada, a mulher que caminha com a cabeça curvada. A câmera3) o mimetismo no mundo dos acaba de fazer a volta completahomens com seus espinhos e em torno dela enquanto estaárvores retorcidas; os seus ventos, interrompeu sua estrada parasuas praias de esperança, seus fazer uso da carteira, enxugando avoos de pensamento adulto fronte com o lenço e refazendo atornados imagens precisas numa maquiagem.espécie de aurora e desalinho. A mulher retorna a andar. A câmeraPoder-se-ia mesmo acrescentar continua a segui-la ao longo da– o inconstante pelo constante senda. Em seguida a mulher sai– através da pequena fonte do pela esquerda desaparecendovilarejo que se repete no reajuste do campo da objetiva. A câmerae reafirmação de primeiros planos não interrompe seu percursoumas quatro ou cinco vezes. virando, agora, e prosseguindo em panorama [panorâmica]Esse rapaz (pois me informam lateral à estrada durante o qualque acaba de completar 16 vê-se uma roçada onde passamanos) ou esse filme (o estilo éele) empresta, ou aufere, às suas

árvores recentemente derrubadas, roda de uma locomotiva que parte.mostrando ainda os tocos erguidos Eu não arriscaria, jamais, de contare queimados. O todo é desolador de ponta a ponta a curvatura –e sem esperança. Tudo isso é visto ciclo da sua obra e demonstração.através de uma cerca de alguns Seria o mesmo que pretenderfios de arame farpado que corre atribuir palavras (dialética, enfim)todo o tempo contra a estrada ao que não possui congenitamentee o campo. Repentinamente a – não nasceu nem incorporou-câmera faz alto. Ela refaz de volta o se com isso – sendo unicamentemesmo caminho e reveem-se (sic) construído para ser sentido (ouos mesmos campos de passagem. descoberto) primeiro, e em halo,E agora ela mergulha à esquerda pelos olhos como portais dejusto no encalço e no exato lugar penetração, antes mesmo de umaonde a mulher desaparecera. participação mais densa. Trata-seA câmera prossegue, e o visor de um extremamente belo filmedescortina quase até o solo. ao qual a gente se deve subjugar desde os primeiros momentosPor fim, ela levanta o panorama como aos angustiantes acordesdescobrindo uma porteira de uma sintética e pura linguagemaproveitada dos troncos secos das de cinema. Uma das mais puras éárvores e que os tem como três preciso acrescentar. É um longa-travessas removíveis dando acesso metragem minuciosamentepara os campos. A mulher ali se construído com tomadas maioresencontra, fatigada, sentada sobre rodeadas de outras menores,um dos troncos corrediços dessa como sistemas planetáriosporteira, o rosto baixo voltado para intermediários segundo tempo eo chão, passando um braço na intrínseca importância regente. Etravessa de cima para se suster. esse todo, para se ter de pé, para gerar a atmosfera que se quisEsta evasão poética calcada sobre e dirigida, emancipando a suaum vigoroso plano de adaptação linguagem visual, encadeia-se,ao real nos descortina a seguir completa-se de um a outro, com aas duas grandes aproximações lúcida e minuciosa precisão de umdas rodas que se encadeiam meticuloso poeta ou mecânico dasem justaposição numa fusão de inconcebíveis rodinhas denteadasimagens: a roda de uma máquina da relojoaria, que se propagamde costura em movimento com a conjugadas.

19O filme persiste sempre um a seguir descobre-se possível –grande grito. Ele não ousa (ou algumas vezes mesmo universaisnão quer) analisar. Ele assim fica; como fora desejado – ou forçado –,ele nisso permanece. Ele mostra, outras, como que até gritados, umdescortina, caminhando sempre pouco exageradamente, sobre vós.de par com os homens. E nisso Como: as árvores – os humanostambém se firma. Se tanto, ele (as posturas das primeiras; eestabelece correlações no espaço atitudes nos segundos; estáticas ee ainda algumas vezes (o que se comportamentos). O vento sobre otorna bastante mais difícil para os capim (seus efeitos) – as passadasespectadores menos acostumados) dos humanos (suas variações);muito distanciadamente no tempo. os cabelos dos humanos batidosEle se firma como um diapasão, e ondulados pelo vento – outroscomo se sempre tivesse existido cabelos lisos, colados sobre anos seres e nas coisas, ou destes se cabeça dos humanos contra osdesprendendo tacitamente. quais o vento nada pode etc. etc...É um estado, não uma análise. Uma Uma orelha, em aproximação, quesituação que implica o lugar de se percebe fazendo parte do rostocolocados, antes, versus um mundo pensativo do homem, no boteque vemos, e não uma pesquisa salva-vidas – o grande plano dade laboratório. Como seus heróis cabeça de um peixe recém-retiradosobre o mar, no bote salva-vidas, do mar, sobre a praia, próximo àsaos quais não se viu um princípio, vagas que algumas vezes o tocam,surgindo de não se sabe onde mas que forçosamente irá morrerno filme, e não terão certamente fora do seu elemento, etc. etc...uma razão – um fim, ou solução,se assim o quisermos. Eles apenas As duas lâminas de uma tesourailustram esse estado de coisas, que a mulher que cose retém umcomo numa passagem sem retorno momento abertas, experimentandoe sem mira. O “limite” exposto o corte com a mão, passando umpermanece como um impacto não dedo ao longo do fio (o dedosomente abrindo – mas como que desliza e tomba ao fim da lâmina)destravando molas de contato – e a justaposição da imagem queque uma vez diante dos vossos se segue (lap – dissolve): as duasolhos, e aumentado, fixando-se folhas de um jornal que a mesmapelo tempo de projeção, logo mulher lê, vistas exatamente

como se fossem elas também (e terá que se acalmar depois, sobredando essa impressão ótica) duas areias espalmadas ao pleno sollâminas abertas, na expectativa, ou ensombradas sob o desfilecom as mesmas possibilidades: opressivo de baixas nuvens.trazer, atrair, pois; ocasionar, (Refiro-me aqui às emanações, aometamorfoseando qualquer que se desprende do poético; nãocoisa ao estagnado estigma de às fórmulas concisas, não à origeminvólucros, padrões dos seus hermética, ao oriundo aindaheróis. A câmera detalha no verso virgem do pensamento, inerenteda página e onde a mulher ainda estado e todo).não leu (presume-se) a notíciapolicial da sua fuga. Esta notícia, Como todas as três narrativaspelo modo, é propositalmente (ou os três percursos, digamossíntese e alegoria. A mulher assim) dos padronizados humanosvira a página do jornal – ela irá do pequeno barco perdido, osfatalmente descobri-la agora etc. quais, durante uns instantes,etc... e pelo virtuosismo dos seus cérebros, desdobram no tempoA câmera desce para as pernas da suas elásticas essências e aomulher detalhando, de passagem, barco salva-vidas retornam, ondeem primeiro plano, o fio (ou a eles sem apelo são prisioneiros,malha) de uma de suas meias, que aqui, por destino, mas por umcorreu de cima a baixo etc. etc... método metafísico, mais além, por condição quase algébrica, mesmoTudo sínteses, mas dentro de que adidos ao pleno uniforme decomparações cinematográficas. um universo. Toda transposiçãoCategóricas comparações, aliás. poética encontrará desesperoInesperadas, em puro estilo que e impossibilidade: portanto oé: o “limite” mais uma vez. Tudo é “limite” na sua maior unidade. A“limite” em suas filiadas, em suas desagregação pela morte nemconsanguíneas imagens, até aos contará – permanecendo suatons poéticos. barreira vestida de mistério (o insondável) a liturgia, sua pergunta,Como as asas planadoras dos de passagem, nunca respondida.pássaros que voam e deverão (Ver cena plástica do cemitério:retornar à terra. a mão e a flor; o dedo e o anel; a piteira e o cigarro.)Como o mar que se encrespa e

21Na estrada do vilarejo e onde a percorrendo da curvatura dos céusmulher do pianista de cinema até a sua mão no outro extremo –crê caminhar antecipando- uma das suas mãos, que ali está,se à frente da sua evasão (ou com os dedos alongando-se, comomelhor, da sua condição a um se já a meio, compondo um tododos sistemas, como já se falou), com a areia úmida, de onde emanaela irá verdadeiramente ao por espessura e infiltramentoencontro de uma criança (no caso (como valores numa contextura) ojovem menina) que brinca com sentido inexorável.um cachorro (os tenros anos,o cachorrinho...) próxima de É toda uma dor luminosa, que seuma insignificante flor anônima desdobra em ritmo, coordenada(detalhada a seguir pela câmera a imagem de rara precisão eaté o grande plano) meio sufocada engenho. Eu a senti e aquilatei,pela altura sugestiva de uma cerca creio, não sem alguma facilidade,rústica, construída de varas secas devido a certa afinidade deretorcidas, ao pé da qual ela viçou tendências, se assim ousoseu efêmero ciclo. A brisa, durante declarar, que me aproxima, aindaum segundo, já oscila a flor meio acorrentado, por nascimento, àsarruinada. ancestrais raízes das estepes do meu país. E é isso, mesmo, quePara o homem, desorientando- se torna o surpreendente. Sim.se de suas caminhadas e de seus A América do Sul, de princípioapelos, já agora gritados, o mundo desconhecida e estranha aos– o que é externo, o visual, torna-se meus conhecimentos, me estendeevasivo com janelas sem respostas ela também, esta noite, e através(ver cena da praia, o travelling – da contrição das imagens, a tãopanorama visto do interior para o perturbadora armadilha de umaexterior através dessas janelas, a linguagem universal.queda, subsequente, do homem,que advém como se morto E para que o artista tenhafora de uma não-significação e conseguido transmitir isso queinutilidade). A câmera, enquanto acabo de ver (ou expor) é precisoo homem jaz no solo, ligará seus que tenha saído do acontecimentopés (num extralento panorama e se colocado de fora, comovertical que poderia fornecer a próprio espectador numachave mística de toda essa obra), ambivalência de posições, em que

é ao mesmo tempo diretor e ator. cinema estrutural, como agora emEsses transes só são possíveis em que o acabo de assistir; poéticoestado de solidão. Ninguém para e amargo a um só tempo – mas jácooperar. Sua marca penetrará no ceifado de raízes –, desoladamentefilme que rege à medida que ele nascido adulto, como o que não foifor capaz de superá-las e assim dotado de uma infância.chegar a impregnar e tocar esseobjetivo. MELLO, Saulo Pereira de. MárioO pensamento existe pela Peixoto: escritos sobre cinema. Rioconsciência do estado. E então é de Janeiro, Aeroplano/Arquivodescoberto no objeto a beleza ou Mário Peixoto, 2000, p.83-93.a força que não reside somenteem um plano equiparado – ou seja, ...a camada do próprio ser humano.Denominações filiam-se sempre Ao contrário do biógrafo de Márioa necessidades de ordem nos Peixoto, integrante do coro dosraciocínios que flutuam. Em cada contentes, quase tudo sobre o quereconhecimento do artista de que vai ser dito nas linhas seguintesas coisas podem ter – ou chegam já havia sido enunciado, coma ter – uma existência própria certa maldade, notada pelo velhoou real, fora do pensamento – cabotino, por Leão Serva na Folhaaqui neste caso numa imagem, de São Paulo em 1991.aumentada e imposta de supetão,está a iniciar-se o processo desta O artigo de Mário Peixotolinguagem particularíssima. Por transcrito na coletânea organizadaseleção ele se apodera de um por Saulo Pereira de Mello, salvoângulo do universo – isola-o pequenos detalhes (alteraçõespela objetiva, jogando dentro em um início de frase, de palavras,desse restrito espaço algo de abertura de parágrafos parasi mesmo. Pois em todas as oxigenação da leitura), foraépocas (ontem como hoje) são as encaminhado para publicaçãoposições conscientes que sulcam na revista Arquitetura do Institutoo indelével no maciço dos séculos. dos Arquitetos do Brasil-seção daCom isto o filme traz sua marca. E antiga Guanabara, em agosto dedaqui a vinte anos, eu estou certo, 1965, pelo arquiteto e fotógrafoele pulsará tão novo, tão cheio de

23Alex Nicolaeff, ganhando uma O acontecimento, pois tudo quepequena introdução de Carlos gira em torno de Mário era umDiegues. Artigo e fotos foram acontecimento, ou pelo menosreproduzidos e depois devolvidos deveria ser, encontrava-se nasao autor. Cotejando-se o texto de gestões do círculo próximo (o1965 e o editado 35 anos depois, entusiasta mais antigo, o professorpercebemos que o corte mais de física Plinio Sussekind Rochasignificativo tinha sido na titulação: e o novo adepto, o professor deonde “Um filme da América do física Saulo Pereira de Mello) nasul (De sua significação mundial)” recuperação fotoquímica de Limitetinha sido eliminado, sendo iniciada no final dos anos 1960substituído por um mais curto e posto que, como todo filme emdireto “Eisenstein sobre Limite”, película de nitrato, principiavaexplicitando o cerne do assunto. o seu destino em direção àApesar de aparecer numa revista autodestruição.especializada em arquitetura, apublicação tinha suas razões: o Filmado em 1929-30, somente emcorpo da redação era eclético, 17/5/1931 foi exibido em sessãocompondo-se de escritores, especial no Capitólio, no horáriopoetas e críticos do porte de um livre da manhã, para um públicoFerreira Gullar, José Guilherme arregimentado pelo ChaplinMerquior ou Leandro Tocantins, Club, entidade que tinha comoafora o editor, Álvaro Pacheco, objetivo maior a defesa do cinemaque publicaria um livro sobre o mudo contra a invasão do sonoro,Cinema Novo no ano seguinte. na época já dominado pelosA circulação também não era talkies produzidos pelo cinemapequena, já que se anunciava industrial norte-americano emcomo uma revista que chegava, diversas técnicas. A imprensa nãopelo menos, a cerca de seis mil poupou esforços na divulgaçãopessoas e estabelecimentos dos do evento. O resultado foi pífio,ramos da arquitetura, decoração porque o período do mudo tinhae escritórios especializados. O passado. Além do mais, Limitelugar era propício e a recepção era uma película de vanguarda.assegurada. Mas como tudo em O fosso entre a assistência eque Mário punha a mão, somente o diretor era suficientementealguns anos depois foi que se amplo para que o divórcio seouviu algum eco dela. estabelecesse de imediato e nem

o esforço de algumas vozes pela Nos dez anos seguintes Limite imprensa conseguiu fornecer sumiu da vida cultural. Foi uma sobrevida ao exemplar lembrado por Vinicius de Moraes nacional de “cinema puro” quando iniciou, em maio de 1942, pelas páginas do jornalNos dez anos seguintes da ditadura estadonovista ALimite sumiu da vida Manhã, a polêmica em torno dascultural. Foi lembrado por qualidades do cinema mudo frenteVinicius de Moraes em ao sonoro. Antes que Orson Wellesde 1942, pelas páginas viajasse para a Argentina, Viniciusdo jornal da ditadura conseguiu a programação do filmeestadonovista A Manhã na sala do Serviço de Informação da Prefeitura do Distrito Federal (provavelmente Adhemar Gonzaga em 28/7/1942. Segundo Vinicius, a queimou a língua ao anunciar, impressão de Welles foi a “melhor”, antes da primeira exibição e ficamos por aqui. No ano pública, que se encarregaria, seguinte, a 9/7/1943, durante uma doravante, da “apresentação”, palestra sobre a história do cinema ou seja, distribuição, de todas as brasileiro, Vinicius teria novamente produções de Mário). programado o filme no mesmo local, contudo faltam detalhes. A segunda exibição, também não comercial, ocorreu em 9/1/1932, Muito se escreveu sobre as no Eldorado. Desta vez a sessão cópias existentes de Limite. Em de cinema visava engalanar uma 1937 falou-se que o ator John festa de elite, patrocinada pela Carradine teria levado uma para revista Bazar, da qual Mário e Londres e, em 1946, de outra Brutus Pedreira, que tinha sido ator comprada por um “Museu de em Limite, participavam. Perante Arte Cinematográfica” de Nelson um público de elite, um filme para Rockfeller. Mas a impressão que se uma plateia “culta”, ou que assim tem é que o filme tinha uma cópia se pretendia. única, a que estava nas mãos de Plínio Sussekind Rocha. Plínio tornou-se, nos anos 1940, o guardião de Limite. Quando estudante, ele fora colega de

25escola de Octavio de Faria e comentários sobre Limite quandoMário Peixoto. Participara do da sua exibição na Grã-BretanhaChaplin Club, tornando-se um em 1931”, em que apareciamfervoroso adepto do cinema de frases de Bernard Shaw, Sergeivanguarda e silencioso. Formou- Eisenstein, Erich Pommer, Vsevolodse em engenharia pela Escola Pudovkin, Eduard Tisse, e, numaPolitécnica em 1933. Foi professor segunda folha, os comentáriosde Física do Instituto Nacional de brasileiros enunciados em 1931-Tecnologia, com especialização 32 por Octavio de Faria, Felipeem eletricidade, e no ensino d’Oliveira e Mário de Andrade.secundário. Em 1938, viajou para a As citações estrangeiras foramFrança com o objetivo de estudar tiradas de revistas como Film Arto ensino público médio e superior, Magazine, The Tatler, The Sphere,momento em que conheceu Paulo inglesas, e Vu, francesa (da capa deEmílio Salles Gomes, a quem Vu saiu a famosa cena das algemasdoutrinou na sua fé,tornando-se um “mestre” Entre nós a psicografia é umapara o neófito. Com a II forma de escrita consagrada, umGuerra Mundial, ambos gênero literário, se assim podemosvoltaram para o Brasil.Em 1941 era professor dizer, eufemismo para um filãocatedrático da Faculdade editorial, que conta com váriosNacional de Filosofia escritores de sucesso e milhares(FNF), situada na centralEsplanada do Castelo. Nos de leitores.anos 1950 foi membroe professor do InstitutoSuperior de Estudos Brasileiros- sobrepostas sobre a moça). TodasISEB. Na função de defensor e elas se baseavam em exibiçõespropagador das qualidades de feitas em Londres e Paris, onde naLimite, ele o programava para os primeira a fita ficara quatro mesesalunos do Clube de Cinema da em cartaz no Marble Arch Pavilion,FNF, dando-se a primeira sessão e, na segunda, dois meses na Sallesem 23/8/1946. Para essa quinta des Agriculteurs.sessão pública da fita foi rodado Mário Peixoto, menino rico, tinhaem mimeógrafo um material estudado na Inglaterra nos anosinformativo com “Trechos dos

1920. As revistas e os locais de Eisenstein em 1946, ou antes,exibição não lhe deviam ser não se sabe ao certo, comoestranhos, principalmente para não se sabe direito seu local dequem em 1932 tinha conseguido nascimento (Rio? Bruxelas?) ou apublicar três fotos e um pequeno origem da explosão de Limite (atexto sobre Limite na revista de foto da capa de Vu? A sessão dascinema Close up, no mesmo dez do cinema Palácio em 1929?),número que trazia reproduções estava praticando uma forma dede stills de Que viva México!, de escrita que, se ainda não estavaEisenstein. Algumas dessas revistas consagrada, teria um enormesão de difícil localização, mas para futuro pela frente. A citação deThe Tatler, nada foi encontrado 1946 embutia ideias que seriamsobre Eisenstein e Tisse, o que era desenvolvidas no artigo de 1965de se esperar porque o cineasta como a geografia (um filme darusso nunca vira o filme – claro, “América do Sul”, um termo deele nunca fora exibido na Europa extensão mais continental que oou nos Estados Unidos –, como simples brasileiro) e a teleologiaescreveu Saulo de Mello em (“daqui a vinte anos”). Esses doisoutubro de 1970, nas vésperas do pequenos exemplos só reforçamrelançamento da cópia restaurada a autoria e a circularidade dasde Limite, em 25/11/1971 para formulações. Mais tivesse dito, eos alunos de Paulo Emilio, mais pontos teríamos encontradopossivelmente se antecipando entre as décadas (Shaw: “o filmecontra a citação enganosa, mais é sempre a sua personalidadeuma vez, do artigo de “Eisenstein”, invulgar”, repetindo a primeira fraseposto que, pela imprensa, de Eisenstein: “esse rapaz formou-ele sempre fora o estandarte se com um cérebro câmara”; oubrandido com o maior entusiasmo Pudovkin: “mentalidade novapatrioteiro. porém já mestra”). Pois é. Apesar de Eisenstein liderar as citações eEntre nós a psicografia é uma merecer a redação e publicaçãoforma de escrita consagrada, um de um artigo inteiro, tínhamos nogênero literário, se assim podemos conjunto Bernard Shaw, Pudovkin,dizer, eufemismo para um filão Tisse, Pommer, e até Mário deeditorial, que conta com vários Andrade, pois Octavio de Fariaescritores de sucesso e milhares e Felipe d’Oliveira são nomesde leitores. Mário “recebendo” suspeitos por pertencerem à mesma comunhão de ideias. O

27que causa espanto é a participaçãode Plinio Sussekind Rocha,um físico, um professor deMecânica Celeste, como diziaPaulo Emilio, um cientista, nessaconstrução imaginária de vozesentusiastas que Mário “baixou”na sua mitomania narrativa. Ojogo inebriante de frases com anovidade sul-americana tinha asua razão de ser por espalharemem gotas de egotismo a mesmasugestão, que concentrada numsó nome pareceria insuficiente.Todos eles convergem paraEisenstein e Eisenstein é MárioPeixoto. Somente a cegueira deuma idolatria desmesurada, noentanto, faria com que Plinio nuncaquestionasse, pelo contrário,incentivasse o endeusamento dodiretor de vanguarda.Mário é Eisenstein. Mas Eisensteiné Mário?

preservação

29 Memórias do cinema paulista Diomédio PiskatorDiomédio Piskator é realizador e produtor autônomo. Preside a Associação Memorial doCinema Paulista. Dirigiu Urubuzão humano (1996), Caminhos do cineclubismo (2008), Papode boteco (2010), episódio Mil cinemas de Memórias da boca (2013), Meu filme não foi feitopra te agradar (2017), entre outros.Muito se escreve e se fala pois ainda se faz cinema ali. Algumas sobre o cinema produzido poucas produtoras permanecem na região da Luz/Boca resistentes, como a Cinearte (ex- de Cinema, no Centro da Cinedistri), que atualmente produz capital paulista, do período fértil de um documentário sobre o patrono produção, mas nunca antes ou depois, da companhia, Osvaldo Massaini. e, muitas vezes, depreciando o cinema Pensando no resgate da memória da localidade como fosse um treco do cinema da localidade, desde os qualquer de segunda categoria, na primórdios, por volta da década de visão de alguns imbecis. A situação 1900, com a escoação das latas de atual da Boca enquanto cinema filmes via estrada de ferro. Com o continua viva em minúscula escala, acúmulo de informações é que se teve

a iniciativa de fundar a Associação Gonzaga dos Santos (Anúncio deMemorial do Cinema Paulista, Jornal/1982), Rodrigo Montanapreocupada com o resgate da (Rodeio dos Bravos: Onde o Chãomemória do cinema desenvolvido é o Limite/1982), José Mojicana Boca. Para os incautos Marins (À Meia-Noite Levareidepreciadores, o quadrilátero Sua Alma/1964), Agenor Alvesfoi de onde saiu O Pagador de (Eu Matei o Rei da Boca/1987),Promessas (1962), fruto que Francisco Cavalcanti (A Hora doconquistou a única Palma de Ouro Medo/1986), Ozualdo Candeiasdo Festival de Cannes ao Brasil. (O Vigilante/1992), Claudio Cunha (Vítimas do Prazer/1977),Tudo começou pelo o início – como Tião Valadares (O Cangaceirodizia Carlão Reichenbach (1945- do Diabo/1980), Rubens Prado2012), quando questionado como (Sangue em Santa Maria/1970), Piovia um determinado filme: “vejo Zamuner (O Grande Xerife/1972),através da lente dos meus óculos”. Wilson Rodrigues (O Gato-de-A ideia nasce pela observação Botas Extraterrestre/1990), Fabriciodas conversas de pessoas em Cavalcanti (O Regenerado/1997),constante falação sobre a velha Rubens Eleutério (diretor deBoca de Cinema, mas faltava algo fotografia), Walter Wannyque mantivesse essa memória (montador), Tony Ciambra (diretorviva, agregar os profissionais de fotografia), Eliseu Fernandesremanescentes de cinema que (diretor de fotografia), Márioestavam dispersos. Foi a partir de Lima (diretor de produção), Ederencontros que Ozualdo Candeias Mazzini (montador), José Índio(1922-2007) insistia em promover. Lopes (ator e técnico de feitos),Nós nos reuníamos na Galeria Debora Munhyz (atriz), LucianneBoulevard, na Rua Dom José de Cunha (atriz), Celso Soares (fiscalBarros 301, Centro de São Paulo. de filmes do Mazzaropi), SatãÉramos frequentadores assíduos (ator), Wilson Sampson (ator),do lugar entre os quais: Mário Miro Reis (eletricista), JorgeVaz Filho (O Pistoleiro Chamado Santos (montador), CecílioPapaco/1986), Sebastião Pereira Gigliotti (maquiador), Alberto(Ladrão de Galinhas/1975), Gavinho (roteirista e diretor deDavid Cardoso (19 Mulheres e produção), Castor Guerra (ator),um Homem/1977), Clery Cunha Gilberto Sávio (ator), Wilson(Joelma 23° Andar/1979), Luiz Rocatti (ator), Zé da Ilha (ator),

31Benê Silva (ator), Homero Barreto do esquecimento uma parte(ator e dublador), Virgílo Roveda importante da história do cinema(diretor de fotografia), Flecha paulista, marcada por filmes queXavier (fotógrafo de cena), Ednor levaram milhões de espectadoresMessias (ator), Everaldo Ferraz aos cinemas, acumularam prêmios(produtor) Carlos Sabugo (técnico em festivais no Brasil e no exterior,de efeitos especiais mecânicos e levaram a cultura brasileira aodublê), Dalete Thimoteu Cunha mundo. Resgatar a importância(montadora), Eduardo Zá (ator da produção do Cinema Paulistae dramaturgo), Madalena Silva e preservar essa memória,(roteirista), F. E. Kokocht (ator, hoje deturpada, é vocação dodiretor de arte e figurinista), Memorial do Cinema Paulista, que,Nabor Rodrigues (ator e diretor de nesses anos de atividade, vemprodução), Adilson Gutierrez(ator), fora aqueles que minha Inicialmente formado pormemória, no momento, não cineastas, pesquisadores,processa.Parte dessas pessoas fundou críticos, jornalistas, cineclubistas, cinéfilos e estudantes dea Associação Memorial do cinema, o Memorial visaCinema Paulista em 2011, atender à necessidade de umcom o intuito de manter levantamento sistemático daa memória da produção filmografia ali produzidacinematográfica paulista, emespecial a produção realizadano Centro da cidade deSão Paulo, em torno daestação ferroviária da Luz. promovendo exibição de filmes,Inicialmente era formado por paralelamente à realização decineastas, pesquisadores, críticos, documentários como Memóriasjornalistas, cineclubistas, cinéfilos e da Boca. Dentro de suas metas seestudantes de cinema. O Memorial destacam a instalação da Calçadavisa atender à necessidade de de Estrelas da Memória do Cinemaum levantamento sistemático da Paulista, continuidade do projetofilmografia ali produzida, e da Memória Fílmica SP e o Laboratóriodisponibilização de tais dados de Estudos e Pesquisa.para o público, recuperando



33Geograficamente, a Boca de que objetiva preservar a memóriaCinema se situa em São Paulo cultural e artística da cidade dena região da Luz, junto ao bairro São Paulo e manter viva a históriade Santa Ifigênia. É um território da cinematografia produzidaque abrange cerca de vinte na região da Luz. Consiste naquadras, entre as Avenidas Rio padronização das calçadas daBranco, Duque de Caxias, Cásper Rua do Triunfo e adjacentes.Líbero e Ipiranga. A área ganhou Inicialmente, compreenderá asnotoriedade, no início do século calçadas de ambos os lados da Rua20, por concentrar distribuidoras do Triunfo, entre as Ruas Vitória ede filmes devido à proximidade Gusmões, e da Rua Vitória, entredas estações ferroviárias da Luz a Rua dos Andradas e Rua dose da Sorocabana. Na década Protestantes, para que nelas sejamde 1960 começou o boom de implantadas estrelas metálicasprodutoras cinematográficas, homenageando os profissionaistrazendo diretores, elencos de cinema – diretores, roteiristas,e técnicos ao quadrilátero, fotógrafos, atores e técnicos em geral, na perspectiva deconcentrando-se na Rua do transformar a rua em um boulevardTriunfo, que reuniu a maioriadas empresas paulistanas, O Memorial tem um projetoresponsáveis por parte de realização da Calçada designificativa da criaçãonacional de filmes até o Estrelas da Memória do Cinemafinal da década de 1980. O Paulista, que objetiva preservarPrimeiro filme realizado na a memória cultural e artísticalocalidade de que se temregistro foi Ação Comunitária da cidade de São Paulo(1935), cinejornal dirigidopor Francisco Campos paraa produtora Campos Filmes, turístico, mudando a paisageminstalada na Rua do Triunfo. urbana, hoje degradada, para umaO Memorial tem um projeto de valorização urbanística e social querealização da Calçada de Estrelas muito acrescentará à cidade. Emda Memória do Cinema Paulista, andamento, encontra-se Memória Fílmica SP, projeto de realização de

documentários sobre expressivos com um subordinado, nesse caso odiretores, técnicos e atores da representante da Spcine, que nosBoca, iniciado com Memórias da ouviu atentamente por um ouvidoBoca (2013). O segundo filme do e tudo escapuliu pelo outro. Porprojeto, Amigos Filmam Amigos sua vez, nos encaminhou a seu(2017), aborda as trajetórias dos subordinado, um reles burocrata e,“fílmicos” de José Miziara Virgílio antes que esse nos encaminhasseRoveda, Tony Ciambra, Satã e José ao porteiro, encerramos o lenga-Índio Lopes, dirigidos por Gabriel lenga. Seria perda de tempo, poisCarneiro, Ricardo Alexandre este com certeza nos diria queCorsetti, Valdir Baptista, Alê ali está tão somente para abrirRodrigues e Diomédio Piskator, e fechar portas. E a ladainha iriarespectivamente. O filme estreia longe. Uma pessoa, por ser dona Festa do Cinema 2017. Já a campo fílmico, vir da experiênciaFesta do Cinema é uma tradicional de cineclubismo, haveria peloconfraternização de final de ano menos ouvir o que tem o Memorialdos amigos do cinema, organizada a expor. Mas, como a memóriainicialmente na década de 1970 cultural de São Paulo está niveladae posteriormente na década de ao estrume e pisoteada por patas2000 por Ozualdo Candeias. insolentes, os administradores daTradição retomada pelo Memorial municipalidade estão preocupadosdo Cinema Paulista, onde pessoas em atender seus asseclas seme instituições são homenageadas conteúdo, um bando de parasitascom o Título de Honra ao Mérito da cultura e os mais descolados naArtístico Grande Momento de procura de uma boquinha sob oCinema. manto de corjas partidárias.No primeiro semestre de 2017, Outrora o cineasta Rodrigoo Memorial do Cinema Paulista Montana (1940-2012) procurousolicitou audiência com o as autoridades municipaissecretário municipal de cultura da gestão de Marta Suplicypara apresentar o objetivo, (2001/2005), ficaram na promessaenquanto instituição, que se e nada resolvido. O Memorial foipreocupa em preservar a memória contatado na gestão Fernandodo cinema paulistano e paulista. Haddad (2013/2017) e atéFoi negada. Muito tempo depois, protocolaram a intenção. Mais umanos encaminharam para audiência vez ficamos a ver navios no asfalto. Continuaremos lutando, porque

35é o que nos move e nos deixasóbrios para resistir aos donosdo poder público, vaidosos comos cargos e irresponsáveis como patrimônio cultural da cidade.Quero deixar registrado quenunca fomos esmolar um centavosequer do município, somentebuscávamos um espaço parainstalação do museu do cinema e,sobretudo reconhecimento desseárduo trabalho de preservaçãoda memória do Cinema da Boca,sem os olhares preconceituosos.Ainda nesta gestão, solicitamosa sala de cinema do CentroCultural Municipal Olido para arealização de nosso evento anual,mas foi negada a pretexto daburocracia pertinente. Na gestãoanterior, já a haviam negado paraexibição do filme Memórias daBoca, documentário realizadopelo Memorial, em seguidaouvimos um não para a exibiçãode SP Zero 15 (2015), filme sobreSão Paulo realizado por quinzecineastas de gerações variadas.Resumindo a ópera: A políticacultural de São Paulo é acéfala. Aimpressão que fica torturando cános miolos é que estão querendoapagar nossa memória.

políticasaudiovisuais

37 O futuro do cinema nacional em risco? André AzenhaAndré Azenha, crítico de cinema, editor do site CineZen Cultural, colabora semanalmentecom o jornal diário Expresso Popular e a rádio Santos FM. Organizador do Santos Film Fest.Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi MorumbiIntrodução agora, o recorde era mantido por Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 (R$Assim foi noticiado na versão online 11 milhões em seu primeiro dia).do jornal O Globo às 16h48 de 16 denovembro de 2017: Êxito de público no Brasil, a produção da Warner Bros. Pictures baseada nosO aguardado Liga da Justiça estreou super-heróis da editora de histórias emnesta quarta-feira no Brasil quebrando quadrinhos DC Comics é consideradarecordes. Segundo a Warner, o longa fracasso nas bilheterias mundiais,de Zack Snyder arrecadou R$ 13,1 principalmente pelo pouco arrecadadomilhões em seu primeiro dia em no mercado doméstico (EUA/Canadá).cartaz, tornando-se a maior abertura Segundo noticiado por sites doda história do cinema brasileiro. Até

Brasil e do exterior, o prejuízo da Record, cujos donos são ligadosWarner Bros.com o filme deve ser à Igreja Universal, e Vai que Cola,entre US$ 100 milhões e US$ 150 longa-metragem baseado namilhões. série televisiva do canal a cabo Multishow, ligado ao grupo GloboStar Wars: Os Últimos Jedi chegou (FILME B, 2017).ao país em 14 de dezembro de2017 ocupando 1.300 das 3.160 De lá para cá muito tem sesalas de cinema no país (segundo discutido sobre como “proteger”dados da ANCINE em 2016). a produção cinematográficaMais de 1/3 do mercado exibidor brasileira: tanto dos blockbustersnacional. hollywoodianos, como das novas e recentes plataformas de exibiçãoA primeira e única vez que mais (streaming, VOD, etc). Aliás, ada metade das salas de cinema palavra cinema neste texto tem pordo mercado exibidor nacional foi significado a produção audiovisualocupada por produções brasileiras exibida e distribuída no mercadofoi em 2010. Na ocasião, estavam exibidor.em cartaz os filmes Tropa de Elite2 – O Inimigo Agora é Outro, Nosso É importante que o Brasil tenhaLar e Chico Xavier. uma produção cinematográfica constante, relevante e diversificada.O primeiro, um filme sobre a Trata-se de um “país continente”,situação política do país partindo repleto de “realidades”. O diretorda jornada do Capitão Nascimento francês Eric Rohmer, da Nouvelle(Wagner Moura). Lançado pouco Vague, dizia que cada filme édepois das eleições. Os outros um documento de sua época.dois são filmes que lidam com a No Brasil, acabamos sabendo efé. Os três filmes são envolvidos conhecendo mais (ao menos node alguma forma com a Globo que nos é mostrado nas telas deFilmes, marca que detém dezoito cinema, televisão e mídias digitais)das maiores bilheterias de filmes sobre a Casa Branca do que sobrebrasileiros desde 2000. As duas o Palácio do Planalto, mais sobre asmaiores bilheterias que não estão Guerras do Vietnã e Iraque do queligadas à Globo Filmes são Os Dez sobre o período de Ditadura noMandamentos, também sobre fé Brasil.e produzido pela Record Filmes,braço cinematográfico da Rede

39Quando teremos uma indústria novo ciclo de funcionamento,propriamente dita no setor? marcado pelo desmantelamentoQuando os realizadores terão, dos antigos controlesno Brasil, um mercado que regulamentares que limitavamnão dependa somente das o mercado concorrencial. OsLeis de incentivo ou de editais entraves protecionistas e ospúblicos? Um sonho longe de ser enquadramentos administrativosalcançado? Quando poderemos foram eliminados uns apósnos ver nas telonas, com toda os outros. A fim de obtera diversidade e os sotaques empréstimos do FMI e do Bancobrasileiros? Mundial, os países do Sul se empenharam em políticas deEste artigo busca refletir o ajuste estrutural destinadas amomento e as perspectivas promover a livre-troca, a reduçãoda produção cinematográfica das barreiras tarifárias e nãonacional, mesclando referências tarifárias, a livre transferência dosbibliográficas e os dados capitais. Vastas zonas de livre-trocado mercado (foram levados foram instauradas na Europa e naem consideração dados e América do Norte entre o Canadá, os Estados Unidos e o Méxicoinformações de sites de referência (LIPOVETSKY, SERROY, 2008,como Filme B ou da própria p.33).ANCINE - alguns dessesdados foram atualizados pelaúltima vez em 2016, em outros É importante que o Brasilcasos já temos os números tenha uma produçãode 2017). Vez ou outra surge cinematográfica constante,algum sucesso, ou o quepode ser considerado sucesso relevante e diversificada. Trata-dentro dos parâmetros do se de um “país continente”,país. Mas até quando esses repleto de “realidades”.sucessos acontecerão?Um mercado em ascensão... O trecho acima diz muito sobrepara os blockbusters estrangeiros as transformações econômicas e sociais do mundo. E, se levarmosDesde os anos 1980, ocapitalismo entrou em um

em consideração o mercado globalizado: o hipercapitalismo.cinematográfico internacional, [...] Agora, as transferênciasnão é diferente. Cada vez mais, os de capitais são efetuadas emestúdios de Hollywood necessitam tempo real, constituindo umdos mercados de outros países mercado próprio em que apara pagar os custos de produção especulação, praticada na tela doe alcançar lucro para seus grandes computador em rede com todos oslançamentos. Tanto que, se computadores do mundo, quasevoltarmos a um tempo não tão perde contato com a realidadedistante, raramente as principais das próprias empresas e torna-estrelas dos grandes lançamentos se uma espécie de jogo virtual,viajavam para países do hemisfério portador de todos os riscos eSul ou da Ásia para divulgar seus todos os desvios. (...) A nova eraprojetos. Hoje não. Recentemente global das finanças inaugurouvimos, na Comic Con Experiente uma época de desequilíbrios,(CCXP), os atores Will Smith, de imprevisibilidade e de caosque veio divulgar o filme Bright, crescentes. (LIPOVETSKY, SERROY,produzido pelo Netflix e AliciaVilkander, vencedora do Oscar 2008,p. 34).e estrela do novo Tomb Raider.Ou, quando não chegam ao país Em matéria veiculada online peloem carne e osso, gravam vídeosespeciais, como pôde ser visto na El País, em 5 de agosto de 2014,campanha de divulgação de Ligada Justiça, com os atores Jason Rocío Ayuso descreve que:Momoa, Gal Gadot, Ray Fisher, BenAffleck e Ezra Miller “brincando” A indústria do cinema mudou decom o editor do site Omelete, imagem. Tome-se como exemploErico Borgo. a estreia de Transformers 4: A Era da Extinção. Em vez de[...] Ontem, os famosos “dragões” hambúrgueres, os protagonistas– Coreia do Sul, Taiwan; hoje comem pato chinês. O parqueos “BRIC” – Brasil, Rússia, de Wulong Karst virou a atraçãoÍndia, China – desenham o natural, no lugar dos antigosnovo horizonte capitalista das cenários de faroestes. E, ondedécadas por vir. Por toda parte, reinavam os refrigerantesafora algumas exceções, reina o americanos, o leite Yili Shuhuasistema integrado do capitalismo — desconhecido para o público ocidental — se tornou a bebida oficial. É a nova cara de Hollywood, que se adapta ao mercado chinês. Como exemplo, Transformers 4 rendeu mais de US$ 1 bilhão, dos

41quais quase US$ 300 milhões destes possuem salas de cinema,vieram da China (acima dos US$ o que corresponde a 6,86% do240 milhões arrecadados nos total (DATABASE, 2016). Muitopróprios Estados Unidos). pouco. Obviamente, os donos dos cinemas precisam lucrar. ManterHollywood descobriu o filão uma sala de exibição é caro, aindaestrangeiro. E o Brasil está entre mais com as novas tecnologias,os cinco principais mercados que telas aluminizadas, projeçõessão alvos dos estúdios “majors”. em 4K e itens que se renovamNão à toa, Liga da Justiça fez ininterruptamente.sucesso aqui, ainda que tenhadecepcionado no mercado É preciso corresponder àsinterno norte-americano. E Star exigências de uma população cadaWars – Os Últimos Jedi estreou vez mais acostumada à tecnologia,em mais de um terço do parque às novidades eletrônicas queexibidor brasileiro. tem na palma da mão, nos smartphones, uma imensidão deStar Wars: Os Últimos Jedi chega alternativas de entretenimento.aos cinemas como uma Estrela Portanto, os exibidores tendemda Morte, ocupando 1,3 mil salas a priorizar o que rende mais, nosem dar chances à concorrência. caso, os blockbusters. O dono dePara as demais estreias desta uma pequena rede de cinema, emquinta (14/12), sobra apenas Santos (litoral de São Paulo), poro circuito limitado. A maioria exemplo, passadas as 24 horassão documentários brasileiros do dia, tem em mãos o quantode personalidades, quase uma arrecadou e lucrou naqueleprogramação de TV educativa. período e o quanto faturou umaMas um dos lançamentos mais rede como a Cinemark, queesperados do ano acabou também detém um multiplex nosacrificado, com uma distribuição mesmo município. A tendência éridícula em apenas 10 telas. - que, semana a semana, ocupem(PLASSE, 2017). mais sessões os filmes que dão maior retorno financeiro, no caso,Os números são preocupantes, as produções de Hollywood.se pensarmos na produção Mesmo que o proprietário docinematográfica brasileira. Com cinema aprecie o cinema nacionaluma população de 205.873.492 e busque exibi-lo da melhorhabitantes distribuídos em maneira possível. Até por que,5.570 municípios, apenas 382



43as pequenas redes encontram Os Dez Mandamentos, a maiormais dificuldades em relação às bilheteria da história do cinemaempresas de cartões de crédito, nacional – se ignorarmos asde seguro, entre outras. notícias de que diversas salasNeste cenário, os filmes com ingressos esgotados estavambrasileiros enfrentam maiores vazias -, foi produzido pela Record.dificuldadespara serem É preciso corresponder àsexibidos. As Leisde incentivo exigências de uma população cadafiscais, os editais, vez mais acostumada à tecnologia,propiciam a às novidades eletrônicas queprodução, a tem na palma da mão, nosrealização da smartphones, uma imensidão deobra. Mas não adistribuição. Oresultado, ao fim alternativas de entretenimentodo ano, pode serconstatado natabela na próxima Dezoito produções estão listadaspágina, veiculada pelo site da no site da Globo Filmes (2017):Agência Nacional de Cinema - Tropa de Elite 2, Minha Mãe é umaANCINE (2017). Peça 2, Se eu Fosse Você 2, DoisÉ gigantesca a diferença Filhos de Francisco, De Pernas Prode arrecadação de filmes Ar 2, Carandiru, Minha Mãe é umaestrangeiros (em sua maioria Peça – O Filme, Nosso Lar, Até queos blockbusters) e os longas- a Sorte nos Separe 2, Se eu Fossemetragens nacionais. O Você, Loucas Pra Casar, De Pernaspanorama preocupa ainda mais Pro Ar, Até que a Sorte nos Separe,se levarmos em conta as maiores Chico Xavier, Cidade de Deus, Atébilheterias do cinema brasileiro. que a Sorte nos Separe 3, LisbelaDos vinte filmes nacionais que e o Prisioneiro, Meu Passado memais arrecadaram e tiveram maior Condena.público no país desde 2000,todos estão ligados, direta ou E Vai que Cola adapta para asindiretamente, às duas maiores telonas um programa televisivoredes de televisão do país.

do Multishow, canal a cabo o Decreto nº 8944/2016, que tratapertencente ao Grupo Globo. da Cota de Tela para 2017, queEntre as vinte, três lidam com a fé(Os Dez Mandamentos, Nosso Lar obriga os exibidores a reservareme Chico Xavier). Os filmes Cidadede Deus e Carandiru são baseados determinado número de sessõesem livros, Dois Filhos de Franciscoé cinebiografia de uma das mais às produções nacionais.populares duplas sertanejas dopaís (Zezé di Camargo e Luciano) Para o ano de 2017 constatou-see todas as demais se enquadram a necessidade de manutençãodentro do gênero comédia. do número mínimo de dias obrigatórios para cumprimentoNão há filmes de terror, animações da Cota de Tela. A quantidade(como a indicada ao Oscar, O de dias de exibição de filmesMenino e o Mundo, de Alê Abreu brasileiros permanece a mesmaou Uma História de Amor em Fúria, de 2016, bem como os númerosas duas premiadas no Festival de mínimos de títulos nacionaisAnnecy, na França, o “Cannes” da diferentes que devem ser exibidosanimação), ou dramas premiados ao longo do ano. [...] Atualmente,internacionalmente como com o parque exibidor brasileiroCentral do Brasil (indicado a duas com 773 complexos e 3.143categorias no Oscar) e Aquarius. salas, o mecanismo de Cota de Tela possibilitará um mínimo deFilmes nacionais de ficção 166.669 dias de exibição de filmescientífica, fantasia, documentários brasileiros no ano de 2017, umae animações encontram mais média de 53 dias/ano para cadadificuldade ainda para serem sala de cinema. Isso equivaleexibidos no circuito. 14,5% de espaço para exibição de filmes nacionais para o ano deMesmo em 2016 tendo batido 2017. [...] Também está mantido oo recorde de número de Compromisso Público, firmado porlançamentos nacionais (143), exibidores e distribuidores compoucos conseguem “vingar” a ANCINE, de estabelecer umano mercado exibidor. E os que quantidade máxima de salas deconseguem não escapam do um complexo exibindo o mesmopanorama acima. Mesmo existindo título. (ANCINE, 2017) Tal Decreto, no entanto, não traz resultado efetivo quando analisamos o panorama geral visto nas tabelas e números acima.

45Em 2016 houve um recorde nos o trabalho é remunerado comlançamentos brasileiros, sim. o menor custo. (LIPOVETSKY,Houve aumento no número de SERROY, 2008, p.36)ingressos vendidos. Ao analisar o contexto daNo entanto, a ocupação das salas produção cinematográficacomerciais se mantém muito nacional, as relações entrebaixa, com taxa média da ordem produtores, distribuidores ede 20% – 12% considerando mercado exibidor consideram-seapenas filmes brasileiros. preocupantes os próximos anosTambém são pouquíssimas para a rede produtiva audiovisualas cidades que contam com do país. Há a tecnologia, ascinemas no País: menos de 11%, facilidades, que aproximam naçõesde acordo com o IBGE. Ou seja, e pessoas, ao mesmo tempo emainda temos um gargalo enorme que mãos-de-obra locais sãoem termos de distribuição desvalorizadas.(ALMENDARY; PITA, 2017). Não há tantaNão há tanta diversidade na diversidade na produçãoprodução cinematográfica cinematográfica nacionalnacional que chegue ao que chegue ao grandegrande público. A relação entre públicodistribuidores e exibidoresnacionais acaba sofrendo um Se atualmente, por um lado,desgaste e gera iniciativas como estúdios de cinema dos EUAo Projeta Brasil da rede Cinemark, preferem levar suas filmagens paraque define um dia no ano para outras nações cujos custos saemexibir apenas filmes brasileiros mais baratos, por outro esse tipoem “valor promocional”. de “intercâmbio” não atende à toda rede produtiva. O númeroConclusão de cineastas, diretores, roteiristas, atores, atrizes, fotógrafos,As estratégias empresariais montadores, iluminadores, etc,que servem à base do é maior do que as demandas dehipercapitalismo foram muitasvezes descritas e analisadas.As grandes empresas seinternacionalizam, transferindo aprodução para regiões em que

filmes que tiveram cenas rodadas de retorno são desfavoráveis.no Brasil como Os Mercenários Muitos acabam realizando seus(2010), A Saga Crepúsculo: projetos sabendo que nãoAmanhecer – Parte 1 (2011), conseguirão quitar os custos deVelozes e Furiosos 5 (2011). produção.Ao trazerem seus astros e estrelas Por enquanto, o maiore equipes de filmagens para o lançamento nacional previsto parapaís, os estúdios estão menos 2018 é Nada a Perder, primeiropreocupados em gerar empregos de dois filmes que contarão alocais e muito mais interessados história do bispo Edir Macedo. Aem “vender” suas franquias em direção é de Alexandre Avancinisolo brasileiro. e a produção é da Record, ambos os mesmos responsáveis porJá os produtores brasileiros ainda Os Dez Mandamentos - O Filmeencontram basicamente nas Leis (2016).de fomento e editais públicosas maiores chances de verem Com a base de espectadoresseus projetos saírem do papel. A da emissora e de fiéis da Igrejamaioria não consegue distribuição Universal, o longa-metrageme vê suas obras irem direto para tende a dar lucro num anoplataformas online ou o Canal com blockbusters todos osBrasil. Para os realizadores de meses: Jumanji – Bem-Vindo àfilmes que fogem à comédia, às Selva e Maze Runner: A Curaadaptações de tevê, e tentam do Mal (janeiro); o remakeinvestir em gêneros como terror, Desejo de Matar, Cinquentaaventura, fantasia, o cenário é Tons de Liberdade, Panteraainda mais restrito: dependem Negra (fevereiro); Deadpool 2,de crowdfunding, financiamento Operação Rede Sparrow, Tombprivado direto, ou investem do Rider – A Origem, Círculo depróprio bolso. Conseguem exibir Fogo – A Revolta (março), X-Men:seus projetos em festivais de nicho, Os Novos Mutantes, Vingadoresmuitos destes no exterior, e depois – Guerra Infinita (abril); Jurassicdisponibilizam as obras online, até World 2 – Reino Ameaçado eno YouTube ou no que existe de Os Incríveis 2 (junho); Missãomovimento cineclubista no Brasil. Impossível 6 (julho); Halloween – O Retorno (outubro); X-Men –Neste momento de crise política e Fênix Negra, Animais Fantásticos:econômica do país as expectativas

47Os Crimes de Grindelwald e como Law & Order: Special VictimsDetona Ralph 2: Ralph Quebra a Unit e House nos Estados Unidos,Internet (novembro); e Aquaman e adaptou essa experiência à(dezembro) (IMDB, 2017). realidade de seu país, realizando O Segredo dos Seus Olhos (2009),Projetos nacionais de potencial vencedor do Oscar de Filme emnas bilheterias deverão enfrentar Língua Estrangeira e que alcançouproduções estrangeiras que boa repercussão internacional semtendem a ocupar grande número deixar de contar uma realidade dede salas. Nada a Perder está sua terra-natal. O brasileiro Joséagendado para a mesma data Padilha reside em Los Angelesque Deadpool 2 e Operação Rede atualmente, onde produz seriadosSparrow, 1º de março. Laços, para o Netflix – viagem feita maisfilme live-action sobre a Turma da em virtude das ameaças queMônica disputará o público com sofreu no Rio de Janeiro, quandoOs Incríveis 2 em 28 de junho. realizou Tropa de Elite 2, do queE a comédia Os Normais 3 tem propriamente pelo intercâmbiolançamento previsto para 1º de em si. E nem todo cineasta ounovembro, junto a X-Men: Fênix profissional de cinema brasileiroNegra. possui condições financeiras para realizar viagem parecida. QuantoSaindo das salas de exibição ao público, não nos livramose levando em consideração completamente do Complexo deo streaming, especialmente Vira-Lata dito pelo dramaturgoo Netflix, as perspectivas são Nelson Rodrigues. Muitas vezesmenos desfavoráveis: a empresa o brasileiro só reconhece algopromete para 2018 6 séries conterrâneo depois que esteproduzidas no Brasil. Ainda alcança êxito no exterior.assim, trata-se de uma empresamultinacional investindo na mão- É urgente e necessário que todosde-obra local. os setores da cadeia audiovisual brasileira revejam conceitos,Aos realizadores que pretendem analisem o panorama e encontremver seus filmes exibidos nos um denominador comum para quecinemas, talvez seja preciso o cinema brasileiro não preciseadquirir um background como seguir respirando com a ajuda defez o diretor argentino Juan José aparelhos.Campanella, que passou anosdirigindo episódios de séries

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS O GLOBO, Liga da Justiça: arrecadação na estreia é a maior do Brasil, 2017.ANCINE, Mercado Audiovisual do Brasil. Disponível em: https://oglobo.globo.2017. Disponível em: https://oca.ancine. com/cultura/filmes/liga-da-justica-gov.br/mercado-audiovisual-brasileiro arrecadacao-na-estreia-a-maior-do- brasil-22076403AYUSO, R. China, Made in Hollywood”, ElPais, 2014. Disponível em: PLASSE, M., Star Wars: Os Últimos Jedihttps://brasil.elpais. monopoliza os cinemas com sua fora,com/brasil/2014/08/05/ Pipoca Moderna, 2017. Disponívelcultura/1407254786_100074.html em: http://pipocamoderna.com. br/2017/12/star-wars-os-ultimos-jedi-FILME B, Evolução do mercado. Filme B. monopoliza-cinemas-com-sua-forca/Disponível em: http://www.filmeb.com.br/estatisticas/evolucao-do-mercado SERROY, J; LIPOVETSKY, G., A cultura- mundo: resposta a uma sociedadeINTERVOZES, O Brasil que não se vê na desorientada, São Paulo: Companhiaatual política de distribuição audiovisual, das Letras, 2008.2017. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/o- VIRGILIO, P., Filmes brasileiros batembrasil-que-nao-se-ve-na-atual-politica-de- recordes de lançamentos em 2016distribuicao-audiovisual e impulsiona mercado, Agência Brasil, 2017. Disponível em: http://JOVEM PAN, José Padilha diz a revista agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/que mudou para o exterior após ser noticia/2017-01/filmes-brasileiros-ameaçado de morte, 2015. Disponível batem-recorde-de-lancamentos-em-em: http://jovempan.uol.com.br/ 2016-e-mercado-cresceentretenimento/jose-padilha-diz-revista-que-mudou-para-o-exterior-apos-ser-ameacado-de-morte.html

cinema e... o ator


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