Francisco Brito 51 – E o que ele disse? – Disse que eu me contentasse com o homem que ele era. Ele tinha me visto primeiro, eu era dele, ele não ia permitir que outro saboreasse o mel de minha vagina. – Disse ela – Ele completou dizendo que gostava muito de você e de mim para ter que matar nós dois. – E o que você respondeu? – Eu disse que eu era dona do meu corpo e eu dava para quem eu quisesse. Mas que ele se despreocupasse porque eu era uma mulher fiel e ainda estava com ele. Quando eu resolvesse dar para outro homem, eu o deixaria. – Disse ela. – Você é louca. Imagina se uma mulher disser isso para mim, ela nunca mais irá ter sequer a minha amizade, disse Júlio. – Eu nunca irei dizer isso para você, porque você é o único homem que eu sempre quis. Quando o Lucas morreu, o meu primeiro pensamento foi em você. E disse a mim mesma: eu agora sou livre e desimpedida para ter o homem que o meu coração escolheu, disse Clarissa. – Jura! E porque você nunca me deu um sinal? – Indagou ele. – Mais? O que você acha que eu vinha fazer aqui? Uma mulher só se aproxima de um homem e se faz amigo dele quando ela tem interesse nele, disse ela. – Eu realmente sou um homem de sorte. Imagina! A mulher com quem sonhei e desejei por dois anos, ela me dizer tudo isso. Aquele cara lá de cima deve gostar muito de mim, por me dar essa oportunidade de ter o seu amor, disse Júlio. Já estava próximo de meio dia. – Você vai poder almoçar comigo, quis saber Júlio.
52 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres – Não. Eu só passei aqui para dizer que eu te amo e que eu sou louca por você. Mas no começo da noite eu virei para cá, disse ela. – Eu ganhei o dia. Eu estou me sentindo nas nuvens, disse ele. – Obrigado por me dizer isso. Você não imagina o alívio que você está me dando. Como nesses dois anos que nos conhecemos eu nunca vi você com nenhuma mulher, eu morria de medo que você fosse gay. Seria uma perdição, um homem lindo como você ser gay. – Disse ela. – Sério? Eu tenho jeito de gay? – Disse ele. – E precisa ter jeito para ser gay? – Disse ela. – Este Rio de Janeiro tem mais gay do que homens. Parece que houve uma disseminação de vírus na orla de Copacabana ao Leblon e contaminou uma grande parcela dos homens do Rio de Janeiro. – Você está exagerando. Acontece que Copacabana é um local onde todas as tribos se encontrarem. Muitos gays e lésbicas que se aglomeram em Copacabana e Ipanema vêm de outros Estados. E aqui soltam a franga. – Disse Júlio. Joaquim fez que sim do outro lado do balcão. – Eu estou aliviada que você é valete e gosta de mulher. Melhor, gosta de mim. – Disse ela. – Eu vou precisar ter a prova dos nove. Aguarde. – Linda como você é, eu jamais negarei fogo! Pode vir quente que eu estarei fervendo. – Disse ele, beijando-a, calorosamente. – Agora eu vou. O dever me chama, disse Clarissa, levantando-se para ir embora. – Lá pelas 20 horas estarei chegando, disse ela, beijando-o.
Francisco Brito 53 Júlio acompanhou Clarissa até o estacionamento onde estava o carro dela, um Porshe amarelo. Ela se despediu de Júlio com um beijo com sabor de pecado e a promessa divina de um amor eterno. E saiu lentamente no seu possante Porsh amarelo. O Júlio voltou para o Bistrô, sentindo aquela sensação permanente do beijo em sua boca. – Joaquim! – Abra a melhor champanhe que nós temos no Bistrô. Comemora comigo essa felicidade que eu estou sentindo. Imagina! Eu estou namorando a mulher mais sensacional que eu já conheci em minha vida, disse Júlio. – Só você não via que ela era louca e apaixonada por você. Quando ela olha para você é como se visse as estrelas mais lindas, o arco-íris mais colorido, as flores mais lindas. – Disse o Joaquim. – Se eu casar com ela, você será o meu padrinho de casamento, disse Júlio que não cabia em si de tanta felicidade. Valeu a pena ter me negado a sair com outras mulheres para esperar aquela mulher por dois anos. Obrigado meu Deus por esse presente maravilhoso! – Disse Júlio. Na semana seguinte o Júlio viajou com a Clarissa para Paris. Não foi uma viagem de lua de mel a Paris, foi quase. Especialmente que a cidade é propícia para iniciar um romance. As opções oferecidas pela cidade são inúmeras. Júlio e Clarissa tiraram belas fotos nos principais lugares que são verdadeiros cartões-postais: em frente à Torre Eiffel durante o dia. Andaram no Bateaux Mouches – embarcações de passeio no Sena. Eles ficaram no hotel Four Seasons George V. Fizeram compras e se divertiram, andando na Galerie Lafayette e na Au Printemps. Visitaram o Museu do Louvre, o Museu d´Orsay e
54 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres outros museus da cidade. E se amaram muito. Por ele, os dois ficariam mais uma semana em Paris. Mas o dever os chamavam. Clarissa tinha compromissos inadiáveis na semana seguinte. Júlio sabia que o trabalho é uma das mais vigorosas manisfestações de grande interesse para Clarissa, uma mulher que prima pelo dever e responsabilidade. Ela se mantinha sempre motivada com tudo a seu redor, como se captasse energia do sol ou até mesmo das luzes de Paris, Afetiva e delicada, ela demonstrava que era responsável pelo seu sucesso ou fracasso, não se descuidava de telefonar para saber como estavam as as coisas em suas empresas. Era como se ela tivesse o dever de ser melhor sempre. Ele tinha muito o que aprender com ela. Clarissa honrava os seus limites. Tinha tudo detalhado sobre a sua vida profissional e pessoal Talvez fosse isso que a fazia ser uma mulher talentosa nos negócios. O Júlio estava encantado com Clarissa. Ele nunca poderia imaginar que aquela mulher de 26 anos de idade pudesse ter tanta perspicácia e noção de espaço organizacional. Naquela viagem ele aprendeu muito com Clarissa como gerir o seu negócio no Bistrô. E uma das coisas que ele achou fantástico foi ser-lhe dito que ele deveria ter cuidado com soluções alternativas. Clarissa era o tipo de empreendedora que sabia obter o máximo das pessoas que trabalhavam com ela, fazendo poucas exigências.
CAPÍTULO 6 APRENDENDO A AMAR Clarissa foi uma das líderes do movimento feminista “Primavera das Mulheres” para reivindicar igualdade no mercado de trabalho, direito ao próprio corpo, combater o conservadorismo, ter direito à liberdade sexual e não se sentir inibida quando usar determinada roupa que mostre as pernas devido os assédios, tudo porque os homens veem a mulher como disponível pelo fato de ela estar usando uma roupa curta. É descabido que um tipo de roupa possa provocar cantadas grosseiras e fiu-fius indesejados. É para indignar qualquer mulher que ainda haja atitudes racistas e as pessoas banalizarem uma pessoa pela cor da pele. Outro absurdo é ver as pessoas questionando as cotas para negros terem acesso à universidade ou ao emprego no Serviço Público. É não reconhecer a situação do ensino público. Não dá para comparar o desenvolvimento intelectual de uma criança que estuda numa escola particular com uma criança que estudo na escola pública. É claro que quando chega à idade de entrar na universidade, a
56 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres criança que sempre estudou numa escola particular terá acesso com mais facilidade à Universidade. A culpa é do sistema de ensino que não privilegia o ensino público. O pobre não tem culpa de ser pobre e não poder ter acesso ao ensino com qualidade. Enquanto o rico estuda na universidade federal durante o dia, o pobre terá que fazer uma faculdade à noite, depois de um dia de trabalho – desabafou Clarissa. A mulher terá que lutar mais e mais. Queira ou não queira a situação da mulher ainda é precária. Ela que enfrentar o homem machista que a vê como um objeto de desejo. Ela é assediada no ambiente de trabalho, na universidade, e em todos os lugares que a mulher estiver presente onde tenha homens machistas. É um absurdo que em pleno Século XXI, a mulher tenha que passar por situações vexatórias de assédios grosseiros. É como se fossem os mesmos homens estivessem fazendo complô contra as mulheres, de forma organizada. É devido a cultura enraizada no cerne do homem. Desde pequeno o homem aprende a diferenciar a amizade da mulher com a do homem. Aprende que menino deve brincar com meninos, não com meninas. Crescem com aquele sentido de que mulher é um ser diferente do homem. Ela é somente uma mulher. Homem deve ser amigo de outro homem e se ajudarem mutuamente, deve ficar longa de meninas mulheres. Da mesma forma são as mulheres. Menina brinca com bonecas com outras meninas. Meninos brincam de futebol com outros meninos. Quando crescem o mundo de cada um está dividido. Quando vem a fase de namoro, o rapaz não consegue entender a moça com quem está namorando. Pudera! Foram criados em mundos diferentes, onde homem é homem e mulher é mulher, não se misturam, são inimigos para sempre.
Francisco Brito 57 Homem e mulher se casam por convenção da sociedade. Mas eles continuam sendo inimigos. O amor entre o homem e a mulher é motivado pelo sexo. Mas estão sempre com os dois olhos abertos, com medo um do outro. Mas, como é convenção de que a mulher casada deve dormir com o marido, os dois dormem juntos, mas eles estarão sempre com um pé atrás com o outro, com medo um do outro, por terem sido sempre inimigos. Na primeira oportunidade cada um põe a fera raivosa para fora e o embate é inevitável. O ódio aflora. Como o homem é mais forte fisicamente que a mulher, ele a espanca. Ela revida a agressão e o homem acaba matando a mulher com quem ele vive um relacionamento sexual. A mulher vê o homem como provedor do lar, já que é convencional que quando a mulher completa 18 anos deve se casar para criar a sua própria família. Então ela é obrigada a escolher um entre os seus inimigos para se casar e ter filhos com ele. O sexo os aproximam. O sexo os enleva e os aproximam. Muitos casais não conseguem conviver um com o outro nem seis meses, as brigas os tornam inimigos. Cada um espera o momento certo de matar o outro. Mas adiam o assassinato do parceiro por saber que irá ser preso e perder a liberdade se fizer o que o seu instinto ordena: matar o inimigo. Inúmeros casos de assassinatos, tanto por mulheres, como por homens, antes de completar seis meses de casados. A inimizade entre o homem e a mulher é cultural. Não há como mudar essa situação sem mudar os costumes das famílias. Enquanto perdurar a convenção de que menina não deve brincar com menina nem menino brincar com menina, as inimizades entre os dois sexos continuarão por muitos séculos e haverá mortes por violência doméstica. Por mais que se diga que não é
58 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres admissível que em pleno Século XXI os dois sexos continuarem inimigos um do outro, quando os dois seres alcançaram elevadas culturas e saberes. Esse fato é constrangedor, não para a sociedade que é conhecedora da inimizade dos dois gêneros. Este século irá chegar ao fim, existindo, ainda, mortes de mulheres por seus maridos ou mortes de homens por suas esposas porque os dois serão inimigos mortais enquanto houver humanidade proliferando no planeta. Muitos instrumentos de combate à violência doméstica foram criados e outros serão postos em prática, mesmo assim continuará existindo a violência doméstica. Não é uma Lei que irá combater as mortes de mulheres por seus maridos nem impedir que mulheres matem seus companheiros, namorados ou esposos, porque mulheres e homens nunca deixarão de ser inimigos mortais. A violência doméstica sempre existirá, mesmo com a aplicabilidade de novos instrumentos e esforço das delegacias da mulher para combater a violência doméstica. Para um relacionamento conjugal dar certo é preciso que os pares renovem as amizades um com o outro eleito de seus corações e terem desejos de se tornarem unidos e cúmplices. Por mais contraditório que possa parecer, dois inimigos, como o homem e a mulher, eles podem se tornar amigos e se amarem enquanto existir a volúpia do sexo (ou interesses monetários e sociais). E a partir de aí verem mais segurança juntos, construir mais amor próprio e viver mais intensamente casados. A mulher tem o senso de procriação, então, toda mulher é do lar e tem a sua visão romântica sobre a continuidade do relacionamento.
CAPÍTULO 7 PRIMAVERA DAS MULHERES Aquela semana de novembro de 2015 foi de muita participação de mulheres nas ruas e nas redes sociais, reivindicando da sociedade maior empenho no combate à violência doméstica, igualdade no trabalho, direito ao corpo, direito ao aborto, direito à vida. Clarissa acabava de chegar da passeada das mulheres, um movimento que agitou o país inteiro, o qual ficou intitulado por “A primavera das mulheres”. Clarissa não perdia nenhum protesto feminino. Ela se intitula feminista ativista e faz questão de estar à frente da mobilização feminista, seja para arregimentar mulheres para construir as bases do novo feminismo, arregimentar novas adesões disposta a participarem do movimento feminista para combater a violência doméstica e conquistar os direitos das mulheres. O Júlio estava impaciente com a demora de Clarissa. – A guerra das mulheres foi declarada?
60 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres Indagou o Júlio, referindo-se à passeata das mulheres pelas ruas do Rio de Janeiro, intitulada de “A primavera das Mulheres”. – O que se viu foi uma geração de mulheres novas, levantando a bandeira de feminismo ativista. Foi lindo. Só as mulheres entendem a dimensão de uma cantada indesejada em locais públicos, fiu-fius, ser chamada de gostosa. Oprime qualquer mulher. – Disse Clarisse. – É preciso ser dado um basta na violência do homem contra a mulher. Não justifica um homem assassinar a namorada porque ela não quis mais ficar com ele, como aconteceu em São Paulo, onde foi assassinada uma bailarina. – Um sujeito desse deveria amarrado num tronco em praça pública e ser apedrejado até morrer. Porque cadeia para um indivíduo desse é pouco, disse Júlio. – São milhares de casos de violência sexual contra a mulher que acontecem todos os dias. Quantos casos ficam sem ser denunciados pelas mulheres agredidas? São muitos. Basta. As mulheres de todas as idades não irão mais contemporizar esses abusos. É mais que justo que as mulheres saiam de seus ambientes opressores e se juntem a outras mulheres para organizar um levante feminino para protestar por medidas severas contra os homens opressores. – Disse Clarissa. – Foi lindo ver as mulheres se organizando e arregimentando milhares de outras mulheres pelas redes sociais, nas escolas, nas universidades, nos locais de trabalho, para combater a crueldade dos homens com suas mulheres e namoradas. – Disse Júlio. – A tendência são as mulheres começarem a se armar para combater os assédios violentos nas ruas, nos ônibus e nos metrôs das grandes metrópoles. Não se espante se as mulheres começarem a matar homens nas ruas e seus companheiros
Francisco Brito 61 dentro de seus lares. – Disse Clarissa, mostrando-se preocupada com os rumos que as violências nos lares estão tomando. – O que ficou patente é que as mulheres mudaram o foco das reivindicações. O foco agora é a violência sexual nas ruas, nos meios de transportes públicos e o assédio sexual no trabalho, as ofensas de homens que se acham no direito de tocar nas mulheres na rua, estupra-las, ofendê-las.... Eu sou a favor que a mulher se arme de canivete, estilete escolar, tesoura para espetar o meliante agressor que atacá-la. – Disse Júlio. – É preciso que a mulher crie condições de defesa para combater agressões advindas de homens machistas opressores e estupradores. – Violência gera mais violência. Não será se armando que a mulher irá combater a violência doméstica e os assédios sexuais. O que a mulher tem que fazer é se unir a outras mulheres, tornando-se fortes para protestar, reivindicar ações do Estado para combater a violência doméstica... Mulheres unidas poderão combater o mundo dos homens machistas. Os primeiros passos foram dados. Temos a nosso favor a internet e suas redes sociais para ampliar as nossas comunicações e arregimentações para a guerra contra os homens agressores. – As academias de lutas marciais são cada vez mais procuradas por mulheres para aprenderem defesas pessoais. Na academia que eu ensino Muay Thai tem mulheres que são capazes de levar a nocaute qualquer homem que leve um soco delas. E quem olha para elas não imagina do que elas são capazes de fazer com as mãos, com os pés, com os joelhos, com os cotovelos... São verdadeiras guerreiras ambulantes. Eu digo a elas que não tenham dó de usar suas forças contra agressores que queiram violentá-las nem deixar de defender outra mulher que esteja sendo vítima de
62 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres abuso sexual por um homem agressor. – Disse Júlio. – Treinamos muitos golpes para essa finalidade. – Nas nossas reuniões eu costumo dizer às mulheres que se organizem, andem em grupo, defendam umas às outras de assédios nos transportes públicos. Se for preciso usem suas unhas e o que tiver na bolsa, mas não se omitam em se defender dos abusos praticados por homens inescrupulosos. – Disse Clarissa, indignada com as notícias nos Jornais de abusos e violência doméstica neste ou naquele bairro do Rio de Janeiro. Clarissa fez uma pausa. Olhou as pessoas andando no calçadão de Copacabana. Por fim ela disse: – Olhe! Quantos desses homens de corpos bonitos que estão fazendo caminhada no calçadão de Copacabana já agrediram suas companheiras, namoradas ou esposas? Quem vê cara não vê a violência que cada um traz dentro de si. Olhe! Quantas dessas mulheres que passeiam no calçadão já apanharam de seus namorados ou de seus maridos? Você não imagina como é grande o número de mulheres que apanham de seus maridos e companheiros. – Eu li na internet que a cada ano aumenta os números de assassinatos de mulheres com requinte de crueldade por seus companheiros, ex-namorados ou maridos. Mulheres são mortas por seus namorados, companheiros ou maridos mais do que em uma guerra. O Brasil é um dos países que mais são assassinados mulheres, disse Júlio. No ranking mundial, o Brasil o ocupa o 12° lugar, disse Júlio. – A mulher é um ser vulnerável diante de seu agressor. Pasme! Uma em cada três mulheres em idade de procriação sofre de violência doméstica, é torturada e assassinada nas ruas por estupradores, nos lares por seus maridos, os chamados crimes
Francisco Brito 63 domésticos. A situação chega a nível de genocídio de mulheres. E o que a sociedade está fazendo para combater a violência doméstica? Ações paliativas, disse Clarissa. – E a Lei Maria da Penha não trouxe uma redução na violência doméstica, não? – Quis saber Júlio. – O número de mortes de mulheres vítimas de violência doméstica tem sido muito modesto. Os mecanismos de combate à violência contra a mulher são precários, as agressões contra mulher são quase sempre feitas por familiares da vítima. – Disse Clarissa. – É cultural a violência contra a mulher pelo machismo. As violências contra a mulher acontecem no silêncio dos lares por seus maridos ou ex-maridos, namorados ou ex-namorados ciumentos. Cada vez aumenta mais os assassinatos de mulheres e meninas por companheiros ou por ex-namorados inconformados por elas terem rompidos com o namoro. São os crimes vinculados ao poder do corpo feminino cometidos por homens que diziam que amavam desesperadamente aquelas mulheres assassinadas. – Disse Júlio. – Pior que os assassinatos de mulheres é a impunidade que vigora na sociedade machista. E quando são presos esses homens, a pena é atenuante, por ser alegado o crime motivado pela emoção, já que o homem “amava demais a mulher”, perdurando a cultura machista de que o homem é dono de sua companheira ou esposa, por se achar no direito de matar quando a mulher se cansou de ser vítima do amor. – Disse Clarissa. – A guerra contra o machismo está declarada, então! – A violência contra a mulher e todo tipo de discriminação contra a mulher tem que ter um fim, disse Clarissa.
64 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres Duas lágrimas inundaram os olhos azuis de Clarissa. – Até quando as mulheres serão vítimas do machismo de nossa sociedade? – O que estamos presenciando é uma decadência do homem diante da perda de seu papel na vida doméstica e profissional, enquanto a mulher assume uma nova posição na sociedade moderna. Isto causa inveja no homem que sempre foi o senhor do lar. Ele se olha no espelho e não se vê atrativo diante da exuberância do corpo de sua mulher e dos avanços na carreira profissional dela, disse Júlio. – Guerra, guerra contra os homens machistas e suas cantadas grosseiras! Guerra, guerra contra a violência doméstica que acontecem todos os dias no silêncio dos lares. Guerra, guerra contra os homens que batem em suas esposas e as tratam como se elas fossem seres incapazes, disse Clarissa. – Eu não consigo imaginar um homem bater em sua esposa, disse Júlio. – São muitos homens que ainda não se deram conta de que os tempos são outros. Não tem espaço mais para esses homens opressores de suas esposas. Deus me livre de me casar e meu futuro marido me bater. Ele só irá me bater uma vez, porque ele ficará sem o saco. Isto se ele não ficar sem os olhos e sem o pescoço. – Disse Clarissa. – Treino Muar Thai há dois anos e nunca vou parar de treinar. A defesa pessoal me dá condições para manter a minha autoestima em alta. Não saio encarando esses machistas que me chamam de gostosa quando passo, mas ai daquele que se atrever me apalpar. Eu já dei um cotovelada no nariz de um sujeito no shopping da Barra porque ele soprou no meu cangote e disse que gostaria de me chupar toda. Ele ficou
Francisco Brito 65 com o nariz quebrado estendido no chão e eu continuei andando, como se nada tivesse acontecido, esperando que ele me atacasse por trás, disse Clarissa. Júlio não disse nada. Limitou-se em ficar olhando a Clarissa. – O que foi? Por que você está me olhando assim? – Admirando a sua beleza. Os seus olhos são lindos, disse ele. – Nossa! Duas horas já se passaram e nós conversando sem parar, disse ela, pegando a bolsa para ir embora. – Hoje você não escapa. Ficará para almoçar comigo. O Joaquim disse que está preparando um camarão ao molho. O camarão que ele faz é muito saboroso, disse Júlio. – Eu já conheço os dons culinários do Joaquim. Está bem, eu fico para almoçar com você. Mas, lembre-se que eu tenho que sair em seguida feito cachorro magro, disse ela.
CAPÍTULO 8 GUERRA DOS SEXOS Estar em boa forma e corpo saudável é se superar, é se renovar e ter gosto pela vida, disse Clarissa exalando simpatia e sexualidade por todos os poros. Clarissa aprendera Muay-thai desde que o noivo fora assassinado ao ser assaltado. Há mais de dois anos que ela frequenta a academia de Muay–Thai. Nunca mais ela deixou de praticar aquela luta. Se houvesse faixa de graduação em faixa preta. E o que era melhor, a sua autoestima estava sempre nas alturas, já que ela se sentia mais segura e confiante, deixando-lhe em condições excelentes para enfrentar os desafios da vida diária. Ela aprendera autodefesa para encarar a violência urbana e doméstica. Ela sabia se cuidar sem se expor ao ridículo nem em confusão. A academia tinha suas serventias para ela, dedes o condicionamento físico, alongamentos, flexões de braços e abdominais e obter aperfeiçoamento nos chutes, socos, cotoveladas, joelhadas e o domínio de um possível adversário e músculos mais definidos em harmonia com o seu corpo.
68 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres Naquela tarde, ela fora ao Shopping da Barra, quando um sujeito se achando o rei da cocada preta puxou o cabeço dela e disse no seu ouvido que ele gostaria de chupá-la toda. Ele não esperava a reação dela. Nem se deu conta quando ela lhe deu uma cotovelada no nariz, deixando-o no chão com o nariz quebrado. Clarissa continuou andando como se nada tivesse acontecido, esperando que ele a atacasse por trás. Como ele não reagiu, ela continuou caminhando por entre as pessoas que transitavam no shopping. Ela não teve curiosidade em saber como tinha ficado o nariz do sujeito. Ela sabia que não tem nada mais vexatório que um homem ser agredido por uma mulher. Especialmente se este homem leva um solavanco a ponto de ficar com o nariz quebrado. Na mesma hora juntou uma roda de curioso para saber o que tinha acontecido. Um gaiato gritou de lá: – Ele apanhou de uma garota porque o atrevido pegou no cabelo da moça e disse uma pilhéria no ouvido dela. Eu vi, sou testemunha do descaramento desse sujeito, disse um senhor calvo. – Eu também vi quando este salafrário puxou o cabelo da moça e disse alguma coisa no ouvido dela que ela não gostou, disse uma senhora ao guarda. – Deve ter dito alguma grosseira para a moça, não foi rapaz? Ele tem jeito de cafajeste, machista chauvinista, deve achar que toda mulher está acessível a cantadas grosseiras em público. Vamos dar uma lição neste cafajeste, disse a senhora, incitando que as mulheres linchassem o homem dentro do shopping.
Francisco Brito 69 Todas as mulheres se voltaram contra o rapaz. Enfurecidas começaram a bater nele. A salvação dele foi ter chegado reforço de guardas e seguranças do shopping que as impediram de o rapaz ter sido linchado por aquelas mulheres enraivecidas. O fato é que as mulheres andam com tolerância zero com os homens que se acham no direito de abusar do sexo feminino. Pudera! A violência contra a mulher é cada vez maior. No Brasil, a violência contra a mulher cresce a cada ano, sendo assassinadas mais de cinco mil mulheres a cada ano – uma morte a cada hora. Os crimes são cometidos por homens, na maioria dos casos cometidos por companheiros ou maridos no silêncio dos lares. Nem mesmo o advento da Lei Maria da Penha inibiu a agressão física e assassinatos de mulheres por seus parceiros, maridos, ex- maridos, namorados ou ex-namorados, estupradores, motivando às mulheres se movimentarem para pedirem leis mais severas contra agressores e maior proteção. Entidades feministas incentivam que as mulheres denunciarem seus maridos se elas sofrem violência domésticas e a pedir proteção, mesmo sabendo que não serão as denúncias nem as leis que irão impedir homens ciumentos de continuarem assassinando mulheres. Todos os dias jornais trazem em suas manchetes assassinatos de mulheres por seus maridos por motivos torpes, seja por negativas de a mulher não querer fazer sexo com ele, ou por discussões domésticas, ciúmes, traição, ou por término da relação e ela querer ir embora de casa. A mulher é agredida na rua, em casa e em toda parte. Em muitos casos testemunhas diz estar disposto ir à delegacia depor a favor dela e contra o agressor. Mas poucas são aquelas que prestam queixas por saber que irá ser pior, depois ele irá bater nela de novo. E mesmo que exista testemunha e fotos do agressor
70 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres batendo na mulher, se ela não se dispor dar queixa e fazer um boletim de ocorrência, fica por isso mesmo, porque o que gera ocorrência de espancamento é a denúncia. Mas se a vítima não quer denunciar, a polícia não pode fazer nada. Primeiro a vítima precisa querer ser ajudada para a polícia tomar as medidas cabíveis. Na semana seguinte ao movimento “Primavera das Mulheres”, a Daisy Verneck, escritora, jornalista e Feminista encontrou-se com Clarissa no Bistrô do Júlio César. E logo chegaram a Luana Sant’Anna, atriz e feminista, Meyre Haddad, empresária e feminista. Minutos depois chegou a Elisangela Meireles, a Deputada Federal e feminista, Lúcia Helena, médica, negra e feminista e a Ítala Martins, Jornalista, Cientista político e feminista, as quais estiveram à frente do movimento das mulheres “Primavera das Mulheres”. O Júlio César ficou de fora da conversa das mulheres por ele ser homem. O fato de ele ser namorado de Clarissa não era o bastante para o ter como um aliado. A Luana foi a primeira a falar. Ela deixou claro que fazer protesto feminino não é arriscar tudo numa só passeata. A vitória não se consegue na primeira batalha. Especialmente que o inimigo – o homem – sempre esteve unido contra a mulher. O desejo do homem é manter a mulher “pilotando um fogão” de sua casa. E se ela não pôr os pés na rua é para ele o ideal. Porque uma mulher isolada é uma mulher fraca e propensa a ser dominada pelo homem. Aí, ele se sente dono dela e com o direito de castigá-la, agredi-la e escravizá-la. O homem de hoje é o mesmo que fora os seus pais e seus avós, machista e dominador da mulher. O homem não baixa a guarda para a mulher. A sagacidade do homem não deve ser ignorada pela mulher. Serve-se da mulher para saciar
Francisco Brito 71 os seus desejos de macho, como um animal no pasto se serve da fêmea, mas não quer que ela tenha voz ativa. Ele está sempre encorajando a sua própria arrogância de macho e dominador da fêmea. Se ele vê que está perdendo espaço para a mulher, ele age com violência para continuar dominando a mulher. E, assim, manter o controle da situação. E quando a mulher age para manter o seu direito de mulher, ele atiça a sua raiva e usa a força para mostrar que ele é o homem e ela é somente uma mulher. Então, a mulher por ser o sexo frágil de força física, ela deve evitar medir forças com o homem. Em vez de provocar mantenha-se distância de sua ira. Mas, não deve se isolar, deve buscar alianças com outras mulheres para se fortalecer e não se calar, deve denunciar maus tratos e agressão que tenha sofrido. Não se acovarde nem tenha dó do homem que a maltrata. Denuncie e não retire a queixa. Ponha-o na cadeia e deixe-o lá para meditar sobre o que ele fez. E quando ele for solto, não abra a guarda, se ele fizer ameaça e vá imediatamente à delegacia da mulher e reative a queixa. Saiba que o homem que bate na mulher a primeira vez, ele vai bater outra e outras vezes. E não irá demorar ele a matará – concluiu Luana Sant’Anna. Meyre Haddad, empresária de sucesso e feminista, ela fez entender às mulheres presentes que as mulheres podem compor um exército de 100 milhões de mulheres, já que 51% da população brasileira são mulheres. São 5,8 milhões de mulheres a mais que os homens. É hora de as mulheres se arregimentar entre si para dominar o mundo dos homens. Regiões como o Sudeste, as mulheres são em grande maioria que os homens – 42 milhões de mulheres para 39 milhões de homens. Somos maioria e ocupamos maior espaço no mercado de trabalho. Somos cabeças dos lares e responsáveis pelo sustento de 37% das famílias brasileiras.
72 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres Somos maioria com diplomas de nível superior em relação aos homens. Somos maioria votantes nas urnas eleitorais, ou seja, quase 78 milhões de mulheres eleitoras enquanto os homens são 68 milhões votantes. Podemos ser presidente do Brasil, podemos ser governadoras de cada um dos Estados da Federação, podemos ser deputadas e senadoras, podemos ocupar os principais cargos públicos, podemos ser o que quisermos. Basta termos disciplina e nos tornamos organizadas. Somos maioria que tem diploma universitário. Apesar de sermos a maioria da população brasileira, ainda recebemos 63% do rendimento dos homens. Uma coisa se tem que fazer para diminuir essa discrepância que existe no mercado de trabalho. Elisangela Meireles, a Deputada Federal e feminista, ela ressaltou que já que as mulheres são maioria na população brasileira – mais de 5 milhões de mulheres superior à população de homens, as mulheres poderão se tornar maioria no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas, nas câmeras municipais, na prefeituras como prefeitas e na Presidência da República, elegendo uma segunda mulher para presidente do Brasil e ter mulheres ministras e ocupar os principais cargos da Administração Pública. Afinal de conta representamos mais de 51% da população brasileira. Dispomos de contingente populacional para formar exército de 100 milhões de mulheres. Então podemos declarar guerra aos homens e dominá-los. Não devemos adiar o combate. Chegou a hora de atacar o mundo dos homens machistas antes que nossas forças e entusiasmos enferrujem e sermos obrigadas a recuar por nos sentirmos velhas para combater o inimigo. Devemos concentrar forças e rever estratégias de movimentos anteriores e passarmos a utilizar os princípios da arte da guerra para alcançarmos os objetivos da mulher. Devemos angariar
Francisco Brito 73 fundos junto a mulheres ricas para a nossa guerra contra os homens machistas. Lúcia Helena ressaltou que são muitos que não sabem o que significa a palavra “feminismo”. Outros se arrepiam só de ouvir a palavra “feminismo”. Outros acham que se trata de mulheres que tiram a roupa para protestar, tanta é a ignorância das pessoas. Poucas pessoas sabem que as décadas de 1960 e 1970 foram decisivas para a mulher ter chegado ao estágio de liberdade que elas desfrutam hoje. Se ainda está ruim, pior era antes. Cada vez mais é preciso que mulheres assumam que são feministas e que estão dispostas em assumir a luta por um estado de direito capaz de combater injustiças cometidas por homens machistas que se acham no direito de agredir suas próprias esposas, namoradas, por motivos torpes. É preciso que mulheres assumam o feminismo que existe dentro dela e vá à luta por igualdade salariais para trabalhos iguais. É preciso repetir o feito daquelas mulheres dos anos de 1960 e 1970, com novas atitudes para conquistar novos estados de direito da mulher e vencer as barreiras deste mundo dos homens. Conquistando, portanto, a liberdade econômica equivalente com os homens para deixar de ser o segundo sexo, autonomia e integridade de seu corpo, direito ao aborto, direito ao acesso à contracepção e os cuidados pré-natais com qualidade, direito à proteção da mulher contra a violência doméstica, o assédio sexual e o estupro, direitos trabalhistas atualizados, licença-maternidade com mais tempo para cuidar do bebê até dez meses. Ainda é muito comum que nas fábricas e no comércio as mulheres ganharem menos que os homens para fazer as mesmas tarefas. Ítala Martins falou com propriedade ao dizer que as mulheres devem ser organizadas e disciplinadas para arregimentar
74 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres mulheres para participarem desses movimentos feminismos. Ressaltou que os movimentos devem ter à frente uma líder feminista que conduza os protestos. E os movimentos devem ser arregimentados por etnia do gênero sexual e origens sociais. Devendo ter projetos bem detalhados para conduzir os protestos. Não basta ir para as redes sociais e para as ruas protestar, faz- se necessário que os protestos estejam fundamentados em boas estratégias e metas a serem alcançadas para a líder feminista conduza suas lideradas sob um único objetivo para fortalecer as alianças com as mulheres de diversas classes sociais. Assim, todas as classes sociais serão representadas nos protestos feministas. Formar grupos sociais nas redes sociais para atrair mulheres descontentes com seus homens para arregimentar mulheres para os protestos. É importante ressaltar que o inimigo é poderoso, mas o número de mulheres no Brasil é muito maior que o número de homens. Mas deve-se evitar conflitos generalizados. Clarissa foi convidada a dar a opinião dela. Ela ressaltou que se a feminista Simone de Beauvoir foi a líder de um movimento que trouxe solução marxista de uma época para uma visão existencialista sobre o feminismo na década de 1960, o feminismo ativista da atualidade deve eleger uma líder feminista para uma quarta onda do feminismo, que pode ser chamada de feminismo do corpo para combater o assédio sexual e a violência doméstica. Era hora de criar uma quarta ou quinta onda do feminismo para o combate decisivo contra a crueldade do homem que pratica violência doméstica, estupro e assédio sexual que muito constrange a mulher. Implica, portanto, unidade de pensamento e esforços conjuntos para ser conduzida com virtudes necessárias de cada mulher para tornar a luta numa espécie de força-tarefa. Não se vence uma guerra sem coragem, sem disciplina, sem
Francisco Brito 75 determinação, sem dignidade e sem a sagacidade de uma líder feminista que conduza a marcha dos protestos. A experiência das lutas dos sindicatos ao declarem greves e unificar a greve em todos os Estados pode ser muito útil à luta das mulheres e assegurar novas conquista. Faz-se necessário haver mais mulheres que assumam serem adeptas do feminismo ativista para conjugar suas ideias com outras mulheres que estejam dispostas assumirem o ativismo. Ser feminismo é ser determinado e ter disciplina e organizadamente arregimentar mulheres com a mesma ideologia onde elas estiverem para fortalecer os movimentos de protestos para pressionar aos governos para criarem leis mais severas para combater o assédio sexual no local de trabalho com base na sexualidade do gênero. Clarissa fez uma pausa e retomou a sua fala. A luta do novo feminismo traz um novo enfoque: combater estupros, o assédio sexual e a violência doméstica, conquistar poderes subjugados pelos homens, conquistar direito ao corpo e internalizar o significado sobre o que é ser mulher como seres humanos multidimensionais no mundo moderno. Infelizmente os jovens saem da adolescência e se depara com o novo: a sexualidade. A falta de discussão sobre sexualidade nas escolas e nas universidades ficam a desejar. O homem cresce sem ter educação sexual, e acham que ser sexy é pegar todas. Ultimamente tem sido grande o número de assassinatos de homens por suas esposas ou companheiras. As queixas dessas mulheres foram sempre a mesma coisa: traição do marido, foi agredida fisicamente por ciúme, esmurrada, empurrada entre outras tantas agressões. As denúncias na delegacia da mulher não resolveram. Então, como reação, elas decidiram agir e matar os homens. Elas sempre alegam que desespero as deixaram entre a cruz e a morte, então,
76 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres entre elas e eles, elas resolveram agir e matar os homens que as maltratam. São muitos os assassinatos de maridos por suas esposas. São muitas as mulheres que mataram seus maridos por não aguentarem mais serem surradas e maltratadas. Muitas apanhavam até durante a sua gravidez. Lúcia Helena fez que sim. Como negra, eu conheço de perto a violência doméstica e a violência e ataques racistas, xingamentos e agressões verbais entre outras discriminações por ser uma médica negra. Infelizmente ser negro no Brasil não é nada fácil. Milhares de mulheres negras são mortas todos os dias por racismo. É verdade que a mulher continua apanhando de seus namorados, companheiros, ex-companheiros, maridos e ex-maridos por motivos torpes e fúteis. Muitas mulheres são assassinadas por seus ex-namorados, ex-maridos, os quais não aceitam a separação nem que ela refaça a sua vida amorosa. Nenhum homem aceita que a mulher o deixe. Para se vingar por ela ter o deixado, ele costuma procura-la e agredi-la. Para se defender, as mulheres estão reagindo às agressões. São muitas as mulheres que matam maridos, ex-maridos, namorados, ex- companheiros ou ex-maridos, e depois alega que agiu em legítima defesa. As mortes são em muitos casos com facadas, dentro da casa do casal, ao revidar a agressão. Muitas das vezes as agressões e os assassinatos acontecem na frente dos filhos. Quem pensa que somente mulher pobre apanha está enganado. Mulher que mora em condomínios de luxo também apanha e também mata o marido. Outras pagam a peso de ouro para matarem o marido dela. As cadeias de mulheres são cheias de mulheres que mataram seus maridos. Poucas são as mulheres que se arrependem depois que mataram seus maridos. Só se tem a dimensão de mulheres que mataram seus namorados, maridos ou amantes, quando se
Francisco Brito 77 vai a um presídio de mulheres. Muitas são unânimes em dizer que não têm o menor remorso por ter matado o marido. É comum se ouvir uma detenta presa dizer: “matei meu marido para não apanhar mais”. Ítala Martins disse que conservar a vida e os seus direitos, se for imprescindível, ela também é capaz de matar o marido. No seu primeiro casamento, um mês de casada, o marido a empurrou e ela caiu e quebrou o dedo polegar. Ela o largou para não o matar, porque ela sabia ele ia bater nela outra vez. No dia seguinte ela comprara um revólver e esperou que ele viesse tomar satisfação e querer bater nela novamente. Ele voltou para se desculpar uma semana depois e ela o recebeu com o revólver apontado para ele. Quando o vi, eu tive que contar até dez para não atirar no peito dele. Mandei que ele fosse embora e nunca mais a procurasse se ele quisesse continuar vivo. Passei anos descrente dos homens, com o coração partido. A guerra dos sexos é uma realidade que não se pode fechar os olhos para não querer ver a mulher cometer as mesmas agressões que era típico do homem de nossa sociedade. Só que a mulher não se prepara para a guerra com o seu inimigo – o homem. Ela se precipita e abre a guarda para o inimigo, ela hesita na hora de revidar a agressão, ela se preocupa demais com o que os outros vão falar. Elisangela Meireles contou que tinha sido estuprada num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, ao sair da festa de aniversário de sua prima, quando ela tinha 16 anos de idade, por dois rapazes, que tiraram a sua virgindade. Ela não foi à delegacia dar queixa porque ficou envergonhada de ter que passar pelo vexame de ser examinada no IML e ter que se expor na delegacia. Dois anos depois, ela contratou três seguranças de uma boate para espancar os dois sujeitos que a estupraram. Ela fotografou os dois
78 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres e anotou a placa do carro de cada um, anotou o endereço de cada um, descobriu onde eles estudavam e passou para os seguranças para que fosse feita a sua vingança. A única coisa que eu pedi foi que eles não os matassem, no mais eles fizessem. Ela queria que eles pagassem pelo que me fizeram. Os contratados pegaram os dois. Um dos estupradores foi quebrado a espinha dorsal para ele passar a vida toda numa cadeira de roda. E do outro, foi cortado somente os testículos, deixando que ele continuasse com o pênis, mas capado. Quando completara 22 anos que a vingança tinha sido feita, eu fui à delegacia e comuniquei o que eu tinha feito com os dois estupradores. Eu sabia que se eu tivesse presa por ter contratado aqueles três homens para executar a minha vingança, seria considerado formação de quadrilha e ter praticado o crime de sequestro, então eu teria uma pena máxima de 5 anos, já que não houve um assassinato. Nesse caso, o prazo de prescrição era de 8 anos depois de ter cometido a vingança. Mas podia ser que um juiz entendesse que eu teria tirado a oportunidade de um dos estupradores (o Samuel Cortês) de ter filho, e ter tirado a liberdade do outro (Sergio Andrade) de se locomover com os seus próprios pés e por estar condenado a viver para sempre numa cadeira de roda. Então, nesse caso, quis me apresentar depois dos 20 anos, só me apresentei depois de 30 anos que havia cometido dois crimes contra os dois elementos que cometeram estupro e me defloraram, já que tinha sido prescrito a possível pena. Apesar de ter me vingado, aquelas dores de ser deflorada e estuprada sem dó, ainda me perturbam e me causam ódio e desejo de matar os dois. Nenhuma mulher é santa a ponto de perdoar agressões e a dor da perda da honra ao ser estuprada. Hoje sou uma mulher de 53 anos de idade, mas ainda ouço as risadas dos dois depois de me estuprarem e me deixarem no chão sangrando.
Francisco Brito 79 Meyre Haddad disse não ter passado pelas agruras de um estupro, mas já foi esmurrada e empurrada na escada rolante do shopping Rio Sul, pelo namorado enciumado ao vê-la conversando um amigo dela. Ela não se machucou, mas o susto a fez querer matar o namorado. Não fez porque ele nunca mais a procurou. Ela chegou a ligar para ele ter a última noite de sexo, mas ele desconfiou de minhas pretensões e me dispensou pelo telefone. Se ele tivesse aceitado me levar ao motel naquela noite, eu o teria matado na hora do sexo. Ele não atendeu mais meus telefonemas e mudou o número do telefone dele, largou o emprego, tirou o perfil dele do Orkut e mudou de endereço. Eu o cacei por muito tempo nos lugares que ele costumava frequentar, um amigo dele me disse que ele tinha se mudado para Fortaleza. Quando quis saber o endereço dele, o amigo dele disse que não sabia, e mesmo se soubesse não me diria porque o amigo dele mudou-se do Rio de Janeiro para não ser morto por mim. Aí eu me senti vingada, pus fim à minha sede de vingança. Para vocês verem que uma mulher é capaz de tudo quando ela é ferida. A Ítala Martins interviu e disse que somente a necessidade de se defender pode arrastar uma mulher ao pecado mortal de matar o marido ou o namorado. Ela disse que não concorda com a parábola escrita na Bíblia de que Cristo tenha dito: Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferecer-lhe também a outra. Contudo com o que Jesus disse a seus discípulos, especialmente, a frase “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”. Em também não concordo com a parábola que está escrito na Bíblia: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem...”. Eu estou mais para aceitar “olho por olho, dente por
80 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres dente” e o que diz “Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo”. Contudo, sou a favor de só destruir o inimigo em caso de extrema necessidade, sendo preferível prender o inimigo que fulminá- lo. Devemos vencer nossos inimigos sem combates e violências. Somos mulheres e temos aflorado o nosso sexto sentido, conhecimentos e saberes, poderemos descobrir os artifícios dos homens e semearmos a discórdia entre aqueles partidários de violência contra a mulher, deixando-os mais vulneráveis e atacar suas estratégias para torná-los enfraquecidos diante de nossa luta. É um fato importante que possamos resolver a nossa problemática antes que se rompam todas as chances de estreitar boas alianças. Troféu é dado a quem mereceu ganhar. Para ganhar um troféu é preciso esforço na competição para alcançar os objetivos planejados, tendo a tenacidade dos gafanhotos que só atacam grandes roçados em bando, nunca sozinho. As nossas trincheiras devem ser edificadas com sabedoria e perspicácia para descobrir o melhor meio de conquistar nossos espaços perante os homens. Para isso é preciso que não nos esmoreçamos diante do inimigo e usarmos a nossa melhor estratégia para nos tornarmos vitoriosas. Para isso é preciso que os nossos esforços sejam reforçados e agirmos com prudência, porque um passo em falso poderá ser o fracasso de nossa luta por igualdade no trabalho, respeito e direito ao nosso corpo, direito ao aborto, direito de ir e vir sem ser importunado por agressores e estupradores que ficam à espreita para atacar uma mulher. O inimigo é covarde, ele só ataca se sentir que a sua vítima estiver sozinha em lugar ermo. Deve-se evitar andar por lugares ermos que não tenham outras mulheres andando nem fazer caminhadas longas no escuro, facilitando ao azar se tornar vítima de sua própria imperícia.
Francisco Brito 81 A Ítala Martins fez uma pausa e continuou dizendo que para a mulher entrar em guerra com os homens, ela deve conhecer os seus limites e suas possibilidades. Não deve agir sozinha, mas se aliar a outras mulheres que passam pela mesma situação de dores com a violência doméstica. Um erro pode ser o fim, porque nenhum morto é ressuscitado. Consertar uma casa que está em ruínas é por demais dispendioso e difícil de reconstruí-la. Assim é um relacionamento que chegou ao estado de palavras ofensivas, agressão física e maus-tratos. A guerra dos sexos é uma guerra antiga e nunca irá ter vencedora nem vencedor. Contendas sempre existirão entre a mulher e o homem, por motivos já relatados antes. Uma palavra dita sem pensar pode provocar uma guerra, e você ser pega de surpresa. Então, convém, antes de dar início à guerra deve avaliar o terreno onde será travada a batalha. Convém, como mulher, ser prudente para não deixar cair a sua reputação e sua dignidade. Quem quer a glória e o sucesso há que dar o melhor de si para se fazer respeitada – assim é no casamento, porque o menor deslize se constituirá em erro irreparável. Faz-se mister, portanto, não ignorar o inimigo nem ser presunçoso em achar que o inimigo poderá ser facilmente vencido. Vale dizer que se o seu homem for mais forte e tiver às mãos uma arma, não o enfrente que você será vencida. Recolha-se e espere o momento certo de atacar com a arma certa. Em guerra vale todo tipo de arma. A melhor arma de todas num relacionamento conjugal é a palavra amistosa. Meyre Haddad deu continuidade ao argumento da Ítala, dizendo que não se deve agir feito um cego no meio de um tiroteio nem agir confusa. Argumentou que todo movimento de protesto de mulheres deve ser feito sob a liderança de uma líder feminista, a qual será nomeada por um colegiado numa assembleia de
82 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres mulheres feministas. Cada líder deve ser nomeada pelo comitê. Não basta protestar, é preciso saber reivindicar. Porque para vencer o inimigo não basta combater, mas saber a hora de se retirar; saber lidar comas circunstâncias pontuais. Isto requer preparo da líder e das lideradas. Porque qualquer ingerência na luta por igualdade de oportunidades com os homens requer saber o momento certo para agir em consonância com as relações humanas com as demais lideranças dos protestos das mulheres. É sabido por quem faz protesto e greves que a vitória está nos argumentos e na demonstração de força, nunca se descuidar dos ataques dos homens desejosos de manter a mulher pilotando o fogão no interior do lar inferno lar. É um dever de cada mulher proteger a sua integridade física a todo custo. Jamais se deixar ser assassinada sem lutar. É por isso que toda mulher deve procurar conhecer os seus limites e suas possibilidade, identificando o que deve saber da arte da guerra antes de partir para os campos de batalha. Viver é melhor que morrer. Mas matar é pior que fugir. Portanto, toda feminista deve saber que encontrarão dificuldades no início e durante os protestos, já que são necessários criar condições adequadas para guerrear no mundo dos homens machistas. Uma mulher comum pode até não compreender o que vem depois de terminar os protestos nas ruas, mas ela sabe a vitória por instrumentos capazes de coibir a violência doméstica é resultado da luta da mulher. Então para se tornar uma feminista e entrar na guerra das mulheres é preciso ter consciência que a luta das mulheres não é revelada a heroína, o resultado virá com as conquistas alcançadas posterior aos protestos, com os novos instrumentos do governo implantados para beneficiar à mulher. Essa vitória só será alcançada se houver um trabalho semelhante ao trabalho das formigas: a união faz a força.
Francisco Brito 83 No entender daquelas mulheres toda mulher deve se tornar uma feminista ativista e ter coragem para atuar com rigor e disciplina. Não ignorar nenhuma outra mulher queixosa dos maus-tratos que tenha sofrido do namorado, ex-namorado, marido ou ex-marido, incentivá-la a fazer parte do movimento. Uma mulher sozinha é uma andorinha, é preciso se unir a outras andorinhas para fazer verão. Com disciplina, as mulheres devem se organizarem em grupos para fortalecer o movimento feminista. Nunca esquecer que a união faz a força. Juntas e organizadas as mulheres farão elevados sons de suas reivindicações e terão mais chances de serem ouvidas e de serem atendidas em suas reivindicações. Uma passeata com uma grande multidão nas ruas por uma causa terá mais chances de terem partes de suas reivindicações de serem atendidas.
CAPÍTULO 9 A FORÇA DA MULHER É impossível não reconhecer a importância da guerra das mulheres por igualdade aos homens e direito ao corpo para as gerações futuras. A minha geração cresceu com a guerra dos homens contra as mulheres. Era comum dizer que “lugar de mulher é na cozinha”; “o homem é o cabeça do casal”; “a mulher deve obediência ao marido porque ele é quem provê a família”. Em todas as manifestações da mulher ao longo da história foram vistas pelos homens como fogos de artifícios: muito barulho por uma causa sem glória. Por mais que fossem abafadas as reivindicações da mulher, as personagens da guerra das mulheres volta e meia ressurgem. Apesar da força dos homens e dos seus raciocínios cartesianos, as mulheres com seus argumentos nada cartesianos para explicar que elas querem direitos iguais aos homens e direito a usarem seus corpos como quiserem, sem, contudo, serem postas ao risco de assédios sexuais nem serem violentadas com estupros e agressões físicas, elas ganham espaço cada vez mais no mundo dos homens.
86 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres A filosofia inventada pelos gregos continua primando a razão da história que sempre foi a mulher quem fez todas as guerras das civilizações, convencendo aos seus reis a hora de agir e quando declarar a paz. A sapiência da mulher a fez fazer a história da humanidade. Senão, vejamos a história de Cleópatra como sendo uma governante perspicaz do Egito, mas fez questão de dividir o poder com um homem ao seu lado – o seu pai e seu filho, os quais eram apenas titulares do poder, mas quem detinha a autoridade de fato era ela. A mulher sempre fora a estrategistas e a força de grandes homens que alcançaram ao poder. Tanto é verdade que até hoje prevalece o ditado que diz: “atrás de um grande homem tem uma grande mulher”. Disse certa vez um General do alto comando do Exército, nos idos tempos do regime militar que ele mandava no quartel e tinha todo poder que um homem almeja, mas em casa ele era aconselhado e mandado por sua mulher. Toda mulher é uma Cleópatra que foi rainha eterna dos Egípcios, é uma Margaret Thatcher, é uma Joana D´Arc, é Hillary Clinton que foi a força do ex-presidente Bill Clinton, é uma Ângela Merkel, é uma Janet Yellen (presidente da Reserva Federal norte-americana), é Mary Barra (presidente da General Motors), é uma Christine Lagarde (diretora-geral do FMI), é uma Sheryl Sandberg (diretora do Facebook), é uma Susan Wojcicki (presidente executiva do YouTube). Toda mulher é uma deusa. O poder sempre esteve com as mulheres. Homens sábios se aliam às suas mulheres para se tornarem grandes homens de poder. As mulheres criarão novos mitos e novos heróis. E se as mulheres estão em guerra é por uma boa causa: por seus direitos ao aborto, ao corpo, igualdade na vida profissional – não é admissível que taxa de desemprego entre 25 e 34 anos,
Francisco Brito 87 com educação superior, a mulher tenha as taxas mais altas de desemprego em relação ao homem. A desigualdade (entre a mulher o homem) tem se mostrado gritante, constituindo- se numa ameaça à igualde de oportunidade para as gerações presentes e futuras. É essa desigualdade entre os dois grupos de sexo (mulheres e homens) que acirra a insatisfação das mulheres e provoca sentimento de injustiça. Os exemplos daquelas mulheres devem ser vistos pelas feministas como um exemplo a seguir. Deve ser anotado os nomes das mulheres talentosas e enumerados os seus exemplos de talento e suas capacidades individuais. Assim, quando chegar a hora certa ou necessidades de ser aproveitadas em novas oportunidades serem as primeiras a serem chamadas para liderar movimentos de protestos em prol do gênero sexual. É preciso não fazer diferença entre trevas e luz, vitória e conquista, quando se luta por uma causa em prol do gênero sexual. Vence-se pelas beiradas da política, não pelo meio. Requer, pois, habilidades das mulheres e a determinação da líder das mulheres. A luz do dia nasce para todas, mas nem todas terão a sombra para descansar. As circunstâncias ditarão as regras do novo jogo. Então faz-se necessário que se tenha um plano B, C, D e tantos sejam preciso prever. É preciso fazer como faz o ornitólogo ao fazer o censo de aves numa floresta. Ele arma redes de diversos tamanhos para capturar os pássaros que caem nas redes. O biólogo coloca a anilha no pé do pássaro com paciência e cuidado, sem apertar. E para soltar o passarinho abre a mão e dá uma assoprada para a ave alçar voo. Ele faz o trabalho de anilhamento com prudência. Assim, deve ser o trabalho de feministas ativistas, potencializando forças sem se deixar abalar pelos acontecimentos que advirão na marca do protesto contra
88 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres a banalidade que é dada ao gênero sexual. Faz-se necessário que toda ação da mulher feminista seja regulada com a precisão do fiel da balança. Ela deve demonstrar autoridade ilimitada e manter disciplina para fazer surgir força de onde não tem, porque o inimigo não pode perceber seus medos e suas fraquezas. Isto significa dizer “tirar leite de pedras”, ou seja, demonstrar forças e autoridade perante o inimigo – o homem machista que se julga superior à mulher.
CAPÍTULO 10 A VISTA DO MAR DO ARPOADOR Clarissa acordou naquela manhã primaveril e foi até ao Arpoador ver o sol nascer por trás do mar, cruzando a linha da esfera do equador celeste. E logo nasceu o sol resplandecente. Como é lindo a beleza do amanhecer! – Exclamou ela, olhando o horizonte aberto, enquanto o sol nascia, presenteando- lhe a luz do dia. Ficou alguns minutos em silêncio, como se meditasse sobre toda aquela beleza natural do sol descortinando a manhã e abrindo o dia com a sua luz forte que pincelava o espelho da água do mar. Em respeito ao nascer do dia, o mar havia se acalmado. E o mar trazia a brisa leve da manhã como se o mar estivesse sob as ordens do sol para se manter calmo. – Que paz gostosa que o amanhecer nos traz, disse ela. Naquela hora chegou o Júlio César que tinha combinado de encontrá-la no Arpoador para ver juntos o sol nascer.
90 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres – Cheguei atrasado ao nosso encontro, disse ele. – Não. Eu que cheguei mais cedo. Você nunca se atrasa. É um verdadeiro cavaleiro, disse ela. – Você veio da praia do Lido até aqui correndo, quis saber Clarissa. – Eu me atrasei porque encontrei um amigo que interrompeu a minha corrida e eu perdi o pique. Tive que recomeçar, disse Júlio. – O nascer do sol é lindo. Mas é mais lindo, olhando daqui do alto das pedras do Arpoador, disse Clarissa. Os dois se abraçaram e ficaram abraçados, olhando o sol subir aos poucos, deixando um rastro de luz amarelada no mar. – A impressão que se tem é que estamos chegando no começo do mundo. E só existe eu de mulher e você de homem, como era o paraíso, disse Clarissa. – Eu não gostaria de ter vivido no paraíso, onde só existisse nós dois, disse Júlio. – Por quê? Você não gostaria de vivêssemos um para o outro num lugar calmo e sossegado, indagou ela. – Não. Quem tem uma mulher como você sente neces- sidade de exibi-la para as outras pessoas como o melhor troféu, disse ele. – Ah, sim, então eu sou o seu troféu para ser exibido? – É maravilhoso as pessoas ficarem olhando você ao meu lado. Eu me sinto o homem mais poderoso do mundo por ter você ao meu lado, como minha namorada, disse ele. – Você sabe como me pôr para cima e me fazer a mulher mais bonita do mundo, disse ela com os olhos brilhando de felicidade sem tirar os olhos dele.
Francisco Brito 91 – Você não imagina nem a terça parte do tanto que gosto de você, disse ele. Eu sou louco por você. Parece que eu sempre vivi com você e que sempre estivemos unidos pelo amor, disse ele. – Júlio, Júlio, você não me iluda mais do que eu já estou iludida. Eu já estou arriada de quatro por você, e você me diz essas coisas... Eu não tenho mais espaço para me apaixonar por você. Meu coração está transbordando de amor e meu corpo inteiro deseja você, disse ela. – Eu adoro o jeito que você me diz essas coisas de amor. Nenhuma mulher me fez tão feliz como você me faz, disse ele. Depois que começou a chegar gente e os surfistas entravam mar adentro em suas pranchas para esperar a onda boa, eles desceram os rochedos do Arpoador e foram correr no calçadão da praia de Ipanema até o Leblon. Na volta, eles pararam numa barraca para tomar água de coco. Ele acompanhou Clarissa até ao apartamento novo que Clarissa tinha acabado de comprar em Ipanema. Ele subiu com ela para o apartamento, onde tomaram banho e fizeram amor. Depois Clarissa levou o Júlio para o Bistrô e foi trabalhar.
CAPÍTULO 11 CAFÉ DA MANHÃ O Bistrô Copacabana era o local para o encontro das feministas. Uma vez por semana elas se reuniam no Bistrô para o café da manhã. Naquela manhã o Bistrô ficou perfumado com a presença das feministas Clarissa Mostarga, Daisy Werneck, Luana Sant’Anna, Meyre Haddad, Elisangela Meireles, Lúcia Helena, Ítala Martins e outras três mulheres que era a primeira vez que elas compareciam à reunião no Bistrô. Entre elas havia uma nova feminista que nunca tinha aparecido no Bistrô Copacabana. Ela se chamava Faustina Levy, uma jornalista, blogueira e feminista, que mais parecia uma modelo da alta-costura francesa, tanto que era bonita. Aqueles seus cabelos ruivos davam o tom necessário à sua beleza feminina. E quando ela abriu a boca para falar, era como se estivéssemos ouvindo uma locução de rádio FM, tanto que ela tinha a voz empostada e audível. A sua voz era emitida com entonação que podia se ouvir cada letra da palavra que ela pronunciava, tanto que ela tinha a dicção perfeita. Dava gosto
94 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres ouvi-la falar. Ela começou a sua fala, dizendo que as mulheres devem aprender a lutar e a ter disciplina, não porque sejam fracas, mas por sua força e perspicácia. Ela era a favor que as campanhas feministas não se limitasse às redes sociais, mas haver o contato de corpo presente com outras mulheres para reivindicar os direitos da mulher e combate à violência contra as mulheres. O que amargura uma mulher não é Ela ressaltou que os rigores da luta da mulher devem ser fundamentados numa estratégia de guerra, oferecendo o melhor de si e empregando o aprendizado que cada uma tivera no colégio, na universidade e no saber aprendido com a experiência de vida. Ela disse que era preciso serem pontuados os pontos fortes e fracos da mulher, as oportunidades e ameaças, interiorizando o entendimento da necessidade de a mulher se igual ao homem no trabalho e em todos os segmentos da sociedade. Com isso, avançar na luta da mulher para conquistar o mundo dos homens machistas e dominá-los. Vencer a luta por igualdade é a única opção que a mulher tem para sair do cativeiro que a sociedade do mundo dos homens impôs à mulher. A Faustina fez entender que mulher pode até ter nascido e crescido como sexo frágil, mas o tempo a ensina a se tornar o sexo forte. Logo estará apta a combater o homem opressor que teima em se achar no direito de dominar a mulher pela força. A ruiva Faustina foi mais longe e disse que as mulheres devem compartilhar com outras mulheres suas dores, suas forças, suas disponibilidades, seus conhecimentos e experiências para combater o homem opressor. Deu a entender que a vitória não acontece sem luta. Faz-se necessário, portanto, que a mulher se revista de autoconfiança para sair do conforto de sua casa e ir ao campo de batalha junto com outras mulheres – de corpo presente
Francisco Brito 95 e se fazer ser ouvida. Argumentou que a mulher deverá ser capaz de mudar a sua maneira de ser e se tornar uma águia que alça seu voo mais alto para ver tudo do alto e se tornar competitiva com o homem para se sobrepor a ele no que faz e vencê-lo pelo saber e conhecimento. O ambiente que a mulher é obrigada a conviver no sua dia a dia não tem diferença de um campo de batalha. Então, ela não deve se achar frágil a ponto de considerar que a raiva, o ódio, a vingança, a guerra, conflitos e competitividade são coisas de homem, porque são também coisas da mulher moderna. Para conquistar novos benefícios de nossa sociedade, a mulher há de compartilhar com outras mulheres o seu espírito de equipe, a sua coragem, a sua intuição e a sua sensibilidade para juntas se fortalecerem para utilizar plenamente suas possibilidades diante dos pontos fortes e, assim, poder quebrar barreiras até então inabaláveis para conquistar novos benefícios e a independência da mulher perante a opressão vivida no mundos dos homens machistas. A mulher fazer o que acha que é capaz de fazer não é vantagem nenhuma para a luta da mulher. É preciso que a mulher vá além de sua capacidade física de fazer algo. Ela não deve deixar que a insegurança a impeça de encarar este ou aquele desafio. Jamais pensar que irá falhar, mas ter determinação de acreditar que é capaz de vencer qualquer desafio – era o lema da Faustina. Ela dizia que ter o espírito de luta a tornava corajosa e destemida. Ela se recusava admitir que a mulher fosse o sexo frágil e o homem fosse o sexo forte. No conceito dela, o homem era o sexo frágil, não a mulher. Porque a mulher quando revestida de coragem e determinação jamais será derrotada. E mesmo que o homem seja forte pela força muscular que possua, a mulher
96 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres tem a determinação de o vencer. E por essa razão, se a mulher se organizar e tiver disciplina, o homem perderá o seu mundo machista para as mulheres. Elas dominarão os homens e o mundo dos homens passará a ser das mulheres. A Faustina dizia que as mulheres deverão se conscientizar que os homens estão em desvantagens por ser inferior o número de homens em relação ao número de mulheres. Portanto, não justifica a mulher temer os homens. Porque temer é se deixar dominar diante da força muscular do homem. Mas, ela aconselhava que se a mulher se sentir em desvantagens deve fugir, e quando se sentir em condições de se defender e enfrentar o oponente, ela deve agir com a determinação de uma tigre ao atacar. Ser prudente é estudar a melhor estratégia para atacar o inimigo, empregando a sua força para vencer o oponente. Mas, jamais se deixar pensar em derrota, evitando permitir a si mesma perder o duelo, por mais difícil que seja enfrentar o oponente – disse a ruiva que tinha mais aparência de top modelo que de feminista. A ruiva Faustina tinha o dom da palavra. Ela dizia que a mulher precisa ser mais ousada para encarar os riscos. Deve, portanto, que as mulheres enfrentem os campos minados da política brasileira para a mulher, mas não deve esmorecer diante do oponente e se candidatar a Vereador, Prefeito, Deputado, Senador e Presidente da República. Contudo, ela era recomendava que fosse calculado os riscos de uma derrota para ter uma atuação mais precisa para entrar no campo da política, onde o inimigo está armado para vencer as eleições. Contudo, disse ela, a mulher deve usar a sua sensibilidade e intuição para estudar o oponente para anular o espírito do homem, fazendo com que ele decline diante do fortalecimento das mulheres.
Francisco Brito 97 A ruiva Faustina recomendava fossem identificados os riscos. E a partir daí fosse planejado e organizado os ataques com firmeza de propósito para conquistar a vitória. Ela recomendava que cada mulher usasse a sua energia de motivação com a inspiração necessária para se tornar excepcional, indomável, destemida, a fim de alcançar o cerne da razão da sua luta. Isto, porque a mulher deve ter em mente que a sua motivação seja alcançar a sua independência para se tornar valorizada e satisfeita com a sua nova posição na vida moderna. Ela era categórica em dizer que as mulheres devessem identificar aquilo que elas faziam de melhor. E que ela tivesse noção que salto mais longo elas poderiam dar para atravessar um abismo, que contribuição podia oferecer, como gostaria de contribuir, quais as coisas que elas consideram mais importantes, como gostavam de trabalhar, quais seus níveis de tolerâncias, que papel que cada uma gostaria de desempenhar. Concluiu, dizendo, que era fundamental ter amor pelo que fazia. Uma pessoa só tem sucesso num segmento profissional se ela for boa no que faz, assim, era na luta das mulheres por igualdade no trabalho e no combate à violência doméstica. Aproveitar as oportunidades significa vencer as circunstâncias para agarrar um benefício, vencendo o infortúnio dos preconceitos contra a mulher. Os desafios sempre existirão, mas as mulheres não devem temer os obstáculos, lutar com todos os meios para vencê-los com dignidade. Significa dizer que para cada obstáculo vencido houve um aprendizado que servirá de experiência para alcançar o ápice de seu potencial. Quem agir com disciplina e com a sabedoria do dar e receber triunfará sobre os obstáculos enfrentados pela mulher. A ruiva Faustina tinha um vocabulário extenso e podia falar por horas a fio e não se repetia. Ela tinha a postura de uma
98 Mulheres em guerra – revolução das Mulheres cátedra e de uma líder que estava buscando a vitória para os seus liderados. Ela era firme ao mostrar para aquelas mulheres que elas deveriam evitar dificuldades, mas encarar os conflitos e desafios, sem se deixar ser sucumbida no meio da luta. Para tanto, elas deveriam se aprimorar a cada passo para aprender a vencer, superando os obstáculos e temores, porque somente assim a mulher irá saber do que ela é capaz. Ela ressaltou que a primeira lição que a mulher deve aprender é cair, sacudir a poeira e levantar. A segunda lição é aprender a se defender. A terceira lição é aprender atacar com golpes para dominar o oponente. Depois da feminista Faustina, as outras duas novatas falaram um pouco cada uma. Mas quando chegou a vez de Priscila Sauer falar – uma senhora que aparentava seus 38 anos de idade – ela deu sequência ao que Faustina tinha falado. Ressaltou que saber cair era uma arte que toda mulher devia aprender, por ser a partir da queda que se aprende a levantar. Mas ao cair, a mulher deve se levantar rapidamente e pôr-se de pé, em posição de defesa para se defender. Porque não se perde uma luta por ter caído, mas porque não pôde se levantar antes de receber o segundo golpe que a levará ao desfecho final. Faz-se necessário que ao cair, a mulher tenha atitude de pôr-se de pé e golpear o seu oponente. Porque quem fica caído no chão é porque se deu por vencido. É preciso ter atitude para se levantar e não aceitar a derrota passivamente. Isto significa dizer que não se deve facilitar a vitória do inimigo. Em vez de se dar por vencida e fracassada, a mulher deve assumir uma posição de combate e lutar com todas as suas forças. Mesmo quando se sentir sem defesas nem condições físicas para lutar, não deve esmorecer nem perder as esperanças. Use o seu plano B que idealizou para situações emergenciais. Em último caso fuja e salve a sua vida.
Francisco Brito 99 A Priscila falou por mais uns 20 minutos, mas teve que encerrar a sua fala devido ao avançado da hora. Passava das dez horas da manhã, quando a reunião das feministas terminou. Cada uma dirigiu-se para o estacionamento, entraram em seus carros e foram embora. Clarissa ficou ainda um pouco, conversando com o Júlio César. Mas, logo foi embora.
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