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Ecossistemas Comunicacionais: Mídias na Contemporaneidade

Published by Sérgio Freire, 2017-11-07 22:25:38

Description: Artigos que tratam dos ecossistemas comunicacionais como área de estudo na Comunicação. Organizado pelo PPGCCOM/UFAM.

Keywords: Ecossistemas Comunicacionais,Comunicação

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Rádio: Um Sistema Autopoiético da Contemporaneidade ta desse mundo e do próprio agente, aperfeiçoan- do suas inseparáveis naturezas e dando forma aos seus desenvolvimentos da melhor maneira possível (SANTAELLA, 2010, p. 285). Qualquer interagente acaba por ser capaz de criar uma web rádio, masdeve-se valer os princípios de cada um. Ainda que existam leis e ética a se-rem seguidas, ainda existem posturas e códigos singulares que condicionama nossa atuação social, considerando que “não há padrão universal, a nãoser regras que norteiam, desnorteiam (quando existem) cada um forma suaprópria educação, sua cultura e seus costumes” (COSTA, 2009, p. 239). Odesafio, portanto, da ética é enfrentar a rapidez das informações que surgemassimétricas, que surgem de vários lugares, de diferentes maneiras de inú-meras fontes, como também não ser sugada em meio de várias imposiçõessuperiores das diversas mídias existentes.Considerações finais O rádio como um sistema autopoiético vem se transformando continu-amente para sobreviver aos novos tempos. Essa mudança é vista como re-sultado da autopoiese que permitiu com que o rádio se autorrefenciasse eauto-gerasse como parte de sua evolução complexa dado ao ambiente maiscomplexo ainda. Esse processo de autorreferência só foi possível dados aosacoplamentos estruturais que fez com outros sistemas também disponíveisna internet. O rádio gerou a web rádio, assim como o podcast como forma desobrevivência ao meio. Sendo assim, ao se entender o rádio no ambiente da internet como umsistema autopoiético da contemporaneidade, quer dizer que o mesmo é umsistema fechado em sua própria organização, e com seus próprios elementosse auto-organizou dentro do contexto on-line. Isso porque o ambiente pro-vocou irritações para o sistema radiofônico que selecionou alguns de seuselementos para que pudesse ficar mais complexo e manter-se vivo a essesestímulos. Acoplou-se primeiramente com a web que resultou na web rádioe depois com os demais sistemas sociais para se manter funcionando. 151

Rádio: Um Sistema Autopoiético da Contemporaneidade O rádio on-line, principalmente, enquanto web rádio e também o podcastsão exemplos das mudanças e também da capacidade do meio radiofônicode sobreviver em um novo ambiente. O rádio continua com a sua força eimportância para as pessoas, e também enquanto elemento da comunica-ção, mas é importante reconhecer que ele não está da mesma maneira quesempre conhecemos, e sim de forma mais nova e atual. O rádio está acom-panhando as novas tendências contemporâneas, ele não morreu nem estámorrendo, apenas está se transformando e evoluindo a partir das suas auto-poieses e acoplagens estruturais.ReferênciasALMEIDA, Ana Carolina; Magnoni, Antônio Francisco. Rádio e Internet:recursos proporcionados pela web, ao radiojornalismo. 2009. Disponível em:<http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2009/resumos/R4-2735-1.pdf> Acesso em: 28 janeiro 2014.BUFARAH JUNIOR, Álvaro. O rádio diante das novas tecnologias de co-municação: uma nova forma de gestão. In: FERRARETTO, Luiz Artur;Klöckner, Luciano (Org.) E o rádio?: novos horizontes midiáticos. PortoAlegre : Edipucrs, 2010.______, Álvaro. O impacto das tecnologias no rádio e a necessidade dosetor se reinventar. 2015. Disponível em:< http://portalintercom.org.br/anais/ nacional2015/resumos/R10-1406-1.pdf > Acesso em: 30 set 2015.CASTELLS, Manuel. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, osnegócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.COSTA. Caio Túlio. Ética, jornalismo e nova mídia: uma moral provisória.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.152

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Um Olhar Ecossistêmico Sobre a ComunicaçãoOrganizacional1 Manuella Dantas Corrêa LIMA2 Maria Emilia de Oliveira Pereira ABBUD3 Universidade de Federal do Amazonas, Manaus, AMResumo O presente artigo objetiva refletir sobre a Comuni-cação Organizacional a partir de uma perspectiva Ecos-sistêmica da Comunicação. O referencial teórico temcomo base as dimensões da Comunicação Organiza-cional. O paradigma da complexidade de Edgar Morinconstitui o método norteador deste trabalho, uma vezque este permite observar a relação dialógica, recursivae hologramática entre os sujeitos, a comunicação e asorganizações. Considera-se que tal proposta amplia odiálogo em torno do tema, pois enfatiza a necessidadede abordagens que levem em consideração os Ecossiste-1 Artigo a partir de Dissertação defendida no Programa de Pós-Graduaçãoem Ciências da Comunicação (PPGCCOM) no ano 2015.2 Relações Públicas, Mestre em Ciências da Comunicação da UniversidadeFederal do Amazonas PPGCCOM – Ufam. Membro do Grupo de PesquisaComunicação Social: Estudos Interdisciplinares.3 Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologiada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto daUniversidade de São Paulo, Professora Adjunta do Departamentode Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas,Vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências daComunicação - PPGCCOM e do Comitê de Ética em Pesquisa da Ufam,Membro do Comitê de Ciências Sociais Aplicadas (PIBIC - Ufam) e Líder doGrupo de Pesquisa Comunicação Social: Estudos Interdisciplinares. 155



mas Comunicacionais além de distanciar-se da ideia deque a comunicação nas organizações é linear e possívelde ser controlada.Palavras-chave: Comunicação organiza-cional; Ecossistemas Comunicacionais;Paradigma da Complexidade. 157



Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacionalComunicação organizacional: caminhos trilhados A trajetória da comunicação organizacional pode ser representada a par-tir de três dimensões, denominadas por Kunsch (2006, 2010, 2012, 2013)como: instrumentais, estratégica e humana. Enquanto a dimensão instru-mental e estratégica parte de uma visão funcionalista e linear da comunica-ção, a dimensão humana está voltada para as relações que são construídas ereconstruídas no dia a dia das organizações. Ao abordar tais dimensões a autora chama atenção para a evolução dasorganizações em um contexto contemporâneo. A percepção estratégica dacomunicação amplia as práticas comunicacionais na organização, à medidaque passa a considerar os públicos como agentes ativos da organização enão somente como mero contêiner onde as informações são transmitidas,muitas vezes, de forma aleatória. A noção de estratégia, quando vinculadaao contexto da comunicação organizacional, refere-se, principalmente, àsquestões de planejamento que objetivam minimizar as incertezas no univer-so das organizações. Sobre a dimensão da comunicação humana na comunicação organiza-cional, Kunsch (2010, p. 48) assinala que, “embora sendo a mais importante,pode ser considerada a mais esquecida, tanto na literatura sobre comunica-ção organizacional quanto nas práticas cotidianas nas e das organizações”. Após pesquisa realizada no projeto intitulado “As dimensões humana,instrumental e estratégica da comunicação organizacional: um estudo teóri-co e aplicado”, vinculado à Escola de Comunicação e Artes da Universidadede São Paulo (ECA-USP) e ao CNPq, em que se aplicou um questionáriojunto a 36 empresas atuantes no território brasileiro, Kunsch (2012) apontaque a dimensão humana é a menos presente nas organizações, uma vez quea dimensão instrumental sempre prevaleceu. Ressalta ainda a necessidadede abertura de canais dialógicos que, de fato, valorizem as pessoas no con-texto organizacional (KUNSCH, 2012). 159

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacional Vasconcelos e Bastos (2009) também destacam: Em relação à dimensão humana, pode-se dizer que ela se caracteriza por ser a menos presente no co- tidiano das organizações, sendo que a própria li- teratura dedicada à Comunicação Organizacional não possui grande volume de livros/periódicos/ artigos etc que tratem desta dimensão da comuni- cação. Consequentemente, esta falta de abordagem da dimensão humana deixa de lado a possibilida- de de contribuir para que a mesma participe dos processos de administração da organização, o que contribuiria para o processo de alcance do sucesso comunicacional e dos negócios (VASCONCELOS; BASTOS, 2009, p. 3). Não se pode negar que a visão instrumental da comunicação organiza-cional ainda é uma realidade. Muitos modelos de gestão são criados cotidia-namente, numa busca constante do controle, da produção e da eficácia dosindivíduos nas organizações. Neste sentido, Scrofernecker et. al. (2014) expõem a importância de reveros estudos e as práticas da comunicação organizacional sob olhares que sedistanciam cada vez mais da visão funcionalista reforçada pelas pesquisasna área durante décadas. As autoras destacam que, apesar de termos “avan-çado significativamente com relação aos aportes tecnológicos, aos meios, àsmídias, as necessidades fundamentais do homem permanecem, a busca pe-los laços afetivos e sociais, a realização de trocas, a necessidade de estar emrelação” (SCROFERNECKER et. al., 2014, p. 529). Palavras como comuni-cação, afeto e valorização do outro passam a ser utilizadas para (re)pensar acomunicação organizacional, baseada em sentimentos como afeto, respeitoàs diferenças, constituição de vínculos e importância do outro no processoda comunicação e também nas relações construídas nos ambientes organi-zacionais. Assim, com suporte em Wolton (2006), as autoras enfatizam que“comunicar é reconhecer a importância e a dependência em relação ao outro160

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacionale exige que (re) pensemos o próprio outro, as concepções e os lugares queconferimos a ele nos processos comunicativos e, por que não, nas própriasorganizações” (SCROFERNECKER et. al., 2014, p. 530). Para Filho (2011), pensar a comunicação organizacional a partir da suadimensão humana é compreender que as organizações são formadas por pes-soas que convivem em um ambiente de diversidade e transações complexas,comunicando-se por meio de processos interativos e que viabilizam as dinâ-micas voltadas para a sobrevivência e conquista dos objetivos organizacionais.Pensamento ecossistêmico Ao enfatizar a dimensão humana da comunicação e sua complexidade,Kunsch (2010) aponta para a necessidade de novos olhares e aportes teóri-cos que possam contribuir para reflexões sobre a área. Neste aspecto, pensara comunicação organizacional sob a perspectiva ecossistêmica, possibilitacompreender os fenômenos comunicacionais nas organizações, a partir denovos lugares e contextos, uma vez que o pensamento cartesiano tem sidoa forma predominante nos estudos da comunicação ao longo das últimasdécadas. A divisão entre as ciências naturais e sociais, o isolamento dos ob-jetos de estudos e a disciplina do saber são características que marcam oparadigma cartesiano e, qualquer outra forma de pensar o objeto, que não seenquadre em tais proposições, pode ser percebida com certo ‘estranhamen-to’ pela comunidade científica. A palavra ecossistema vem da ecologia e quer dizer “Conjunto das rela-ções de interdependência, reguladas por condições físicas, químicas e bioló-gicas, que os seres vivos estabelecem entre si e também com o meio ambien-te em que habitam” (MICHAELIS, 1998, p. 761). Na percepção de Capra (2006, p. 23), os estudos a respeito dos problemasde nossa época, nos levam a perceber que eles não podem ser entendidosde forma isolada. “São problemas sistêmicos que estão interligados e são in-terdependentes”. Ao referir-se à interdependência fundamental de todos osfenômenos, o autor apresenta o conceito de ecologia profunda como formade pensar a realidade emergente. 161

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacional A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e interde- pendentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como fio particular na teia da vida. (CAPRA, 2006, p. 26) A ecologia é a ciência que trata das relações entre seus ambientes físicos e bio-lógicos, objetivando compreender, primordialmente, as trocas que os seres vivosestabelecem entre si e com os componentes dos seus habitats (PEREIRA, 2004). Conforme Morin (2012b), a noção de ecossistema caracteriza-se pelo con-junto de interações entre populações vivas e constitui uma unidade complexade caráter organizador. A ideia de integração entre o homem e o meio e deque esta relação permite um aprendizado constante é apresentada tambémna obra de Maturana e Varela (2001), em que os autores destacam que a vidaé um processo contínuo de conhecimento. “Vivemos com outros seres vivos,portanto compartilhamos com eles o processo vital. Construímos o mundoem que vivemos durante as nossas vidas. Por sua vez, ele também nos constróiao longo dessa viagem comum” (MATURANA; VARELA, 2001, p. 10). Tal entendimento nos afasta da ideia de que o saber científico se constróide maneira objetiva e linear, na qual o sujeito (pesquisador) separa-se doobjeto pesquisado como se estivessem em universos distintos. Nos dizeresde Maturana e Varela (2001, p. 12), “se a vida é um processo de conhecimen-to, os seres vivos constroem esse conhecimento, não a partir de uma atitudepassiva, e sim pela interação. Essa posição é estranha a quase tudo que noschega por meio da educação formal”. A complexidade de Morin (2011a, 2012a, 2012b) permite pensar o co-nhecimento em sua totalidade. Para o autor, o conhecimento científico “foidurante muito tempo e com frequência ainda continua sendo concebidocomo tendo por missão dissipar a aparente complexidade dos fenômenos, afim de revelar a ordem simples a que eles obedecem” (MORIN, 2011a, p.5).162

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacional A constatação também pode ser observada do ponto de vista dos fenômenoscomunicacionais, uma vez que estes devem ser pesquisados a partir dos seus am-bientes (ou de seus ecossistemas) e não somente de elementos individuais ou dasoma de suas partes, o que limitaria a compreensão de tais fenômenos. Assim, Pereira (2011) define: Investigar os processos comunicativos na perspecti- va dos ecossistemas comunicacionais compreende, antes de tudo, entender que a comunicação não é um fenômeno isolado; ela envolve um ambiente cultural que ao mesmo tempo interfere e possibilita a cons- trução, a circulação e a significação das mensagens. Significa que o ambiente que a envolve é constituído por uma rede de interação entre sistemas diferentes e que estes, embora diversos, dependem um do ou- tro para coexistir. Significa ainda que modificações nos sistemas implicam transformações no próprio ecossistema comunicativo, uma vez que este tende a se adaptar às condições do ambiente, e, no limite, na própria cultura. (PEREIRA, 2011, p. 51) As considerações de Pereira (2011) remetem-nos à diversidade de cená-rios que encontramos nas organizações, ao estudar as relações destas comseus funcionários, clientes, fornecedores e comunidades com as quais se re-laciona, bem como suas estratégias mercadológicas, campo de atuação, ouseja, toda a rede complexa de relações que a compõem. Conforme já explici-tado neste trabalho, a comunicação organizacional, em sua trajetória teóricae empírica, teve em seus primórdios uma abordagem pautada na utilizaçãode práticas mecanicistas, objetivando muito mais a organização da comuni-cação nas organizações e não a comunicação organizacional. É preciso destacar que estudar a comunicação sob a perspectiva ecossis-têmica não significa abandonar ou ignorar o que foi pesquisado na área soboutros aspectos. Monteiro e Colferai (2011) acreditam que 163

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacional A pretensão de ser criativo não implica renegar os ca- minhos já abertos, mas, antes, compreender o campo que é o ponto de partida. É, antes, ir além de seus limites conceituais e lançar mão das contribuições de outros campos e pensadores que podem ser elenca- dos entre aqueles que extrapolam por área de conhe- cimento (MONTEIRO; COLFERAI, 2011, p. 33). As mudanças de um paradigma mecanicista para o ecológico, conformeCapra (2006), têm ocorrido em diferentes formas e velocidades nos várioscampos científicos e isso não significa uma mudança uniforme, pois “envol-ve revoluções científicas, retrocessos bruscos e balanços pendulares” (CA-PRA, 2006, p. 33). Deste modo, “A tensão básica é a tensão entre as partes eo todo. A ênfase nas partes tem sido chamada mecanicista, reducionista ouatomística. A ênfase no todo de holística, organísmica ou ecológica” (CA-PRA, 2006, p. 33). Ao (re) visitar a trajetória sobre as perspectivas contemporâneas da co-municação organizacional, Scroferneker (2011) ressalta a necessidade deromper com a visão reducionista/linear/prescritiva da comunicação. Essesnovos olhares são denominados pela autora como “contratendências para-digmáticas” e, no mesmo sentido de Monteiro e Colferai (2011), afirma que“As contratendências não negam as tendências ou as excluem, pois são seupredomínio e certo esgotamento que estimulam e provocam outros olhares”(SCROFERNEKER, 2011, p. 3). Diante das novas perspectivas em torno da comunicação organizacional,Scroeferneker (2008, 2011, 2014) e Baldissera (2008, 2009, 2010) aproxi-mam a temática do Paradigma da complexidade proposto por Morin. De acordo com Morin (2011a): A um primeiro olhar, a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido junto) de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas: ela colo- ca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num segundo momento, a complexidade é efetivamente o tecido164

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacional de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o mundo fe- nomênico. Mas então a complexidade se apresenta com traços inquietantes do emaranhado, do inex- tricável, da desordem, da ambiguidade, da incerteza (MORIN, 2011a, p. 13). Salienta o autor que, para compreender o problema da complexidade, énecessário entender que há um paradigma simplificador e este põe ordemno universo e expulsa a desordem, separando o que está ligado (disjunção),ou unificando o que é diverso (redução). Neste contexto, a missão do conhe-cimento científico era mostrar a simplicidade escondida por trás da multi-plicidade e da aparente desordem dos fenômenos (MORIN, 2011a). Para ajudar a pensar a complexidade, Morin (2011a, 2012a, 2012b) pro-põe sete princípios que são complementares e interdependentes. São eles: 1)princípio sistêmico ou organizacional; 2) princípio hologrâmico ou holo-gramático; 3) princípio do anel/circuito retroativo; 4) princípio do anel/cir-cuito recursivo; 5) princípio de autoeco-organização; 6) princípio dialógico;7) princípio da reintrodução do conhecimento em todo conhecimento. O primeiro princípio, denominado sistêmico ou organizacional, é aqueleque estabelece a ligação entre o conhecimento das partes ao conhecimentodo todo. O autor contempla que “A ideia sistêmica, oposta à ideia reducio-nista, é que o todo é mais do que a soma das partes” (MORIN, 2012a, p. 94).A noção de organização desenvolvida por Morin (2011a) parte da Teoriados Sistemas Gerais de Ludwig von Bertalanffy. Bertalanffy concebeu a Teo-ria dos Sistemas Gerais (TSG) no começo da década de 20. A TSG constituiuma ampla abordagem multidisciplinar do conhecimento, baseada no con-ceito de sistema. Um sistema configura-se como um conjunto de objetos ouentidades que se inter-relacionam mutuamente para formar um todo único(LITTLEJOHN, 1988). O segundo princípio, hologrâmico ou hologramático, enfatiza o parado-xo existente nas organizações complexas. Pressupõe uma ideia que vai alémdo reducionismo, que só vê as partes. “A ideia, pois, do holograma, vai alémdo reducionismo, que só vê as partes, e do holismo, que só vê o todo. Apro- 165

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacionalxima-se da ideia formulada por Pascal: ‘Não posso conceber o todo sem aspartes e não posso conceber as partes sem o todo’ ” (MORIN, 2011a, p. 74). O terceiro princípio é o do anel/circuito retroativo. Introduzido por Nor-bert Wiener, esse princípio refere-se aos processos autorreguladores, poisrompe com a ideia de causalidade linear, remetendo a uma noção de circu-laridade em que a causa age sobre o efeito e o efeito age sobre a causa (MO-RIN, 2011a, 2012a, 2012b). Assim o sistema deve considerar os mecanismosde respostas, promovendo a autorregulação, buscando a manutenção e oequilíbrio de seu funcionamento (RIBEIRO, 2010). O princípio recursivo é o quarto princípio proposto por Morin (2011a,2012a, 2012b). Consiste no processo em que os produtos e os efeitos são, aomesmo tempo, causa e produtores daquilo que os produziu. Nesse sentido,rompe-se a ideia de linearidade de causa/efeito, produto/produtor, estrutu-ra/superestrutura, criando um ciclo autoconstitutivo, auto-organizador e au-toprodutor. Conforme o estudioso, a sociedade é produzida pelas interaçõesentre os indivíduos e que, uma vez produzida, retroage sobre eles e os produz.“Ou seja, os indivíduos produzem a sociedade que produz os indivíduos. So-mos ao mesmo tempo produtos e produtores” (MORIN, 2011a, p. 74). Assim, (...) a complexidade não é só um fenômeno empíri- co (acaso, eventualidades, desordens, complicações, mistura dos fenômenos); a complexidade é, tam- bém, um problema conceitual e lógico que confun- de as demarcações e as fronteiras bem nítidas dos conceitos como ‘produtor’ e ‘produto’, ‘causa’ e ‘efei- to’, ‘um’ e ‘múltiplo’ (MORIN, 2005, p. 183). O princípio da autoeco-organização está relacionado com a autonomiae dependência que os seres vivos mantêm em interação com o meio. Morin(2011a, 2012a, 2012b) observa que “os seres vivos são seres auto-organiza-dores, que não param de se autoproduzir e, por isso mesmo, despendemenergia para manter a própria autonomia” (MORIN, 2012a, p. 95) e que talautonomia é inseparável dessa dependência. “O principio da autoeco-orga-nização vale, especificamente, é óbvio, para os seres humanos – que desen-166

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacionalvolvem sua autonomia na dependência de sua cultura – e para as socieda-des que se desenvolvem na dependência de seu meio geológico”. (MORIN,2012a, p. 95) O princípio dialógico permite manter a dualidade no seio da unidade,associando, ao mesmo tempo, movimentos complementares e antagônicoscomo, por exemplo, a ordem e a desordem. “A ordem e a desordem são doisinimigos: um suprime o outro, mas ao mesmo tempo em certos casos, elescolaboram e produzem organização e complexidade” (MORIN, 2011a, p. 74). O princípio da reintrodução do conhecimento em todo conhecimentoenfatiza a restauração do sujeito, reintegrando-o no pensamento científico.Parte do pressuposto que o sujeito (pesquisador) é compreendido como co-laborador, no processo de construção do conhecimento. O sujeito (pesqui-sador) é parte integrada desse processo, uma vez que, ao mesmo tempo, in-fluência e é influenciado pelo meio. Conforme Morin (2000) “da percepçãoà teoria científica, todo o conhecimento é uma reconstrução/tradução porum espírito/cérebro numa certa cultura e num determinado tempo” (MO-RIN, 2000, p. 34).A (des)ordem da comunicação organizacional Tais reflexões remetem-nos à necessidade de observar os fenômenos co-municacionais sob uma percepção da totalidade, contrapondo-se à visãoreducionista que, ao longo de várias décadas, tem marcado os estudos co-municacionais. A noção de comunicação não pode ser vista separada da or-ganização e esta, por sua vez, deve ser compreendida a partir da diversidadeque a constitui e das relações (dialógicas, recursivas e hologramáticas) comos ambientes nos quais está inserida. Não se trata de desfazer, criticar oucontradizer outros métodos, propõe-se apenas outra forma de compreendertais fenômenos. Neste aspecto, o autor destaca que a palavra ‘método’ nãosignifica metodologia, pois as metodologias são guias que programam aspesquisas, enquanto o método será uma ajuda à estratégia. “O objetivo dométodo, aqui, é ajudar por si mesmo para responder ao desafio da comple-xidade dos problemas” (MORIN, 2012b, p. 36). 167

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacional O autor ressalta ainda que não se deve, portanto, acreditar que a questãoda complexidade se refere unicamente aos novos progressos científicos, masbuscá-la também na vida cotidiana, pois, na vida cotidiana, seja em casa,no trabalho, com amigos ou desconhecidos, desempenhamos vários papéissociais. “Vê-se aí que cada ser tem uma multiplicidade de identidades, umamultiplicidade de personalidades em si mesmo, um mundo de fantasias e desonhos que acompanham a sua vida” (MORIN, 2011a, p. 57). Se, de fato, representamos vários papéis e somos donos de uma multipli-cidade de identidades, que carregamos conosco um mundo de sonhos e fan-tasias; levando em conta que passamos parte da nossa vida nas organizações,não podemos então pensar a noção de comunicação organizacional comouma comunicação organizada e que obedece ao controle da organização eocorre dentro dos limites físicos dos seus ambientes, capaz de ser medida epensada de maneira uniforme. Nessa perspectiva, Baldissera (2008) afirmaque a noção de comunicação organizacional deve ser ampliada para além doque ele denomina “fala autorizada”, pois, esta também se dá [...] nas fissuras, nas resistências, nas zonas de escu- ridão, na transversalidade, nos lugares de interdição e das fugas. Contempla a dispersão, as transações, os ruídos, as contradições, o diálogo, a diversidade, a rebeldia. Constitui-se de imprevisibilidade, do im- pensado, do não planejado, do acaso, da incerteza (BALDISSERA, 2008, p. 47). Destacam-se duas questões importantes nos pensamentos de Morin(1977, 1996, 2005, 2011a), que podem ajudar a compreender a complexi-dade que envolve a comunicação organizacional. São elas: a aceitação dascontradições, uma vez que não podemos escamoteá-las e a compreensão dadesordem como um fenômeno necessário para a produção da ordem. Conforme Morin (2005, p. 207-233), a definição de ordem e desordemcomporta diversos níveis. Sobre a ordem, o primeiro nível, seria o dos fenô-menos físicos, biológicos e sociais que aparecem na natureza, manifestando--se em forma de constância, estabilidade, regularidade e repetição. O segun-168

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacionaldo nível refere-se à natureza da ordem que faz os fenômenos obedecerem àsleis que os governam. O terceiro nível significa coerência, coerência lógica,possibilidade de deduzir, ou de induzir, portanto prever. No terceiro nível,a ordem é compreendida como racionalidade concebida como harmoniaentre a “ordem da mente e ordem do mundo”. Podemos dizer, de algum modo, que há um pentá- gono de racionalidade no qual a ordem é um ele- mento-chave. O pentágono de racionalidade é cons- tituído por cinco noções: ordem, determinismo, objetividade, causalidade e, finalmente, controle. (MORIN, 2005, p. 208). Quanto à noção de desordem, seu primeiro nível é descrito por Morin(2005) como um “conceito-mala”, uma vez que comporta as irregularidades,inconstâncias, estabilidades, agitações, dispersões, colisões, acidentes. A desordem também contém desvios que podem perturbar as regulaçõesorganizacionais e, mais amplamente, ela diz respeito a qualquer fenômenoque acarrete ou constitua a desintegração, a morte (MORIN, 2005). “Enfim,onde há atividade de informação e de comunicação, a desordem é o barulhoque parasita a mensagem, é o erro”. (MORIN, 2005, p. 209-210). O segundonível da desordem caracteriza-se pela eventualidade e pelo acaso. A noção desordem preocupa porque Efetivamente, o acaso insulta a coerência e a causali- dade; desafia o pentágono que acabei de definir. Ele aparece como irracionalidade, incoerência, demên- cia, portador de destruição, portador da morte. E, já que a ordem é aquilo que permite a previsão, isto é, o domínio, a desordem é aquilo que traz a angústia e a incerteza diante do incontrolável, do imprevisível, do indeterminável (MORIN, 2005, p. 210). 169

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacional Morin (2005) assinala que a desordem e o acaso são conceitos que, por mui-to tempo, foram ignorados no processo de construção do conhecimento, quetinha suas bases fundamentadas na coerência e na lógica. Conforme o estudio-so, tal característica pode ser descrita como o paradigma da simplificação. A comunicação organizacional, durante muito tempo, foi percebidacomo uma comunicação oriunda do alto escalão de uma empresa, focadanas mensagens organizadas, visando à influência e ao controle dos membrosda organização. A comunicação informal, aquela que partia do que, grossomodo, poder-se-ia chamar de “chão de fábrica”, era ignorada e pouco esti-mulada, uma vez que esta podia não estar “alinhada” com os objetivos pro-postos pela organização. Tal fato demonstra a “contradição”, vista aqui comoa comunicação que pulsava nos corredores das empresas, nos boatos e nosencontros informais que ocorriam fora dos limites físicos e que não estavamsob o controle dos seus dirigentes. Neste sentido, “A aceitação da complexi-dade é a aceitação de uma contradição, e a ideia de que não se pode escamo-tear as contradições numa visão eufórica de mundo” (MORIN, 2011a, p. 65). Antes do fenômeno da internet e das mídias sociais, por exemplo, o quese sabia das organizações era aquilo que ela divulgava sobre si mesma, ou,caso se envolvesse em algum escândalo de repercussão nacional, poderiaver suas fraquezas expostas em matérias divulgadas no rádio, jornal ou TV.Atualmente, o que se vê é uma diversidade de pessoas emitindo simultane-amente informações sobre produtos e condutas das mais diversas organiza-ções e que influenciam, direta ou indiretamente, ações individuais e coleti-vas que podem atingir a organização, quer seja para o bem ou para o mal.Do ponto de vista da comunicação organizacional, isso poderia ser vistocomo uma desordem, tendo em vista a impossibilidade de controle do queé dito e percebido a respeito da organização. No entanto, conforme ressaltaMorin (2011a, p. 63), “Os fenômenos desordenados são necessários em cer-tas condições, em certos casos, para a produção de fenômenos organizados,os quais contribuem para o crescimento da ordem”. Nesse sentido, pode-se entender que a desordem estimula as organi-zações a terem maior comprometimento para com a sociedade em geral,considerando que suas ações podem ser alvo das críticas, ou, em uma lin-guagem mais atual, das curtidas e dos compartilhamentos desenfreados per-170

Um olhar ecossistêmico sobre a comunicação organizacionalmitidos pela interação on-line proporcionada pelas diversas mídias sociais,contribuindo assim para o crescimento da ordem, entendida aqui como a“harmonia” entre uma determinada organização e seus diversos atores.(Des)considerações Refletir sobre a comunicação organizacional sob o prisma da complexi-dade, permite não só ampliar o entendimento sobre a relação comunicação/organização em novos lugares e contextos, como também distanciar-se daideia de que a comunicação nas organizações é linear e possível de ser con-trolada. A necessidade de abordagens que levem em consideração os ecos-sistemas comunicacionais torna-se evidente, tendo em vista que propõemanálises que visam observar os fenômenos comunicacionais em ambientesnos quais a comunicação se efetiva. Ao considerar a relação dialógica e hologramática entre sujeito/comuni-cação/organização, é possível questionar o controle da gestão comunicacio-nal nas organizações e propor novos olhares a respeito dos públicos. Nessecontexto, os laços afetivos e sociais, a efetiva relação de trocas entre organi-zação e sujeitos, a constituição e a valorização do outro são elementos queinfluenciam as práticas comunicacionais nas organizações e fazem parte dacomplexa realidade cotidiana das organizações. Tal proposta desacomoda efaz com que se caminhe por outras estradas, em busca não do controle dacomunicação nas organizações, mas da compreensão da comunicação e dosujeito como parte integrante da organização e não como uma ferramenta aser usada e manipulada. Destaca-se que tal percepção (para nós) só parece viável, a partir do mo-mento em que se dispõe a perceber os fenômenos comunicacionais fora da“zona de conforto”. Essa percepção não é tão simples como parece, pois exigede profissionais e pesquisadores encarar novos desafios, pensar fora daquiloque estava consolidado como referência para os estudos teóricos e empíricosda comunicação nas organizações. 171

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A reangulação amazônida do conceito deEcossistema Comunicacional1 Sandro COLFERAI2 Universidade Federal de Rondônia, Vilhena, ROResumo O artigo realiza a recuperação do processo de institu-cionalização do conceito de Ecossistema Comunicacionalna pesquisa acadêmica brasileira e apropriado no Campoda Comunicação na Amazônia sob chaves interpretativaspróprias. Aborda as perspectivas de Jesús MartínBarberoe Ismar Soares para o Ecossistema Comunicativo/Comu-nicacional, ambas presentes nas primeiras menções aoconceito como elemento teórico para abordar realidadesamazônidas, assim como a abordagem semiótica aciona-da em outra chave interpretativa dos mesmos fenôme-nos. Também volta-se para os esforços de reangulaçãopresentes entre pesquisadores amazônidas e aponta parauma trilha possível de ser seguida, tendo como base umaabordagem ecossistêmica para o conceito.Palavras-chaveEcossistema comunicacional; Conceito;Amazônia.1 Este paper é uma síntese do capítulo Institucionalização eultrapassagens: a reangulação amazônida do conceito de EcossistemaComunicacional, parte de minha tese de doutoramento (COLFERAI,2014). 2 Doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia (UFAM). E-mail:[email protected]. 177



Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalIntrodução Novas ideias são devedoras de outras já existentes, de maneira que as gêne-ses das novidades podem estar tão distantes quanto for larga a disposição parabuscá-las. Ao nos debruçarmos sobre o conceito Ecossistema Comunicacional(EC) presente na pesquisa em Comunicação na Amazônia não é necessariamen-te uma novidade o que se apresenta, mas aproximações entre ideias e proposi-ções de maneira a alcançar uma abordagem original. O que pode ser visto, emretrospectiva, é o processo que consolida o conceito como área de concentraçãodo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, PPGCCOM, daUniversidade Federal do Amazonas (Ufam) o primeiro da área na Região Norte. Neste processo há a constância da busca por abordagens que, ao mesmotempo, consideram os ambientes mundializados pela tecnologia e as prá-ticas e modos de populações amazônidas estarem no mundo, tornando-seclaro que não se trata do conceito já presente em outras abordagens. Mas,por outro lado, não é possível apontar para consensos sobre o conceito nes-tas novas abordagens, o que leva a formulações distintas e que fomentamdiscussões o cenário amazônida de pesquisa em Comunicação. E é pelas peculiaridades em torno do conceito que torna-se etapa fun-damental a recuperação dos movimentos de apropriação, passando pelosautores que embasaram as abordagens do EC na Amazônia e fazem alcançarreleituras por parte de pesquisadores amazônidas. Neste paper a atençãose concentra nas reflexões de dois pensadores latinoamericanos fundamen-tais para o processo que faz o conceito de EC chegar até os estudos de pós-graduação na Amazônia: Jesús Martín-Barbero e Ismar Soares2. O primeiro2 As expressões Ecossistema Comunicacional e Ecossistema Comunicativo são utilizadas por Martín-Barbero (1998, 2003) e Soares (2000) como sinônimos, ainda que Ecossistema Comunicativo sejamais frequente. 4 Utilizo a expressão tecnologias da comunicação e informação ao invés de adotar aforma mais comum tecnologias da informação e comunicação, ou simplesmente TICs, por consideraresta por demais ligada a práticas próprias da indústria e do mercado financeiro. Ao me referir àstecnologias da comunicação e informação penso em softwares e hardwares e nas telecomunicaçõesde maneira geral, sem particularizar estes aparatos como respostas a demandas próprias de umcomplexo político-financeiro internacional. 179

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalapresenta uma definição preocupada com os ambientes culturais que me-deiam as leituras dos meios e com o papel das tecnologias da comunica-ção e informação4 na cultura, mas principalmente há a preocupação com asaproximações entre Educação e Comunicação (MARTÍN-BARBERO, 2000,2004). No segundo o EC, em variação muito próxima às ideias apresentadaspor Martín-Barbero, é fundamental para a definição do conceito de Edu-comunicação, considerado uma área de estudos que coloca em intersecçãoo campo da Comunicação e da Educação (SOARES, 2011). Mesmo haven-do similaridades entre as abordagens não se tratam das mesmas definições,apesar de estarem ambos os pesquisadores preocupados com os ambientesem que se dão os processos de cognição para o aprendizado, principalmenteconsiderando as novas tecnologias da comunicação e da informação. A reangulação do conceito, em evidente alargamento da proposta cons-truída para a Educomunicação, ou para a implicação da comunicação naeducação a partir da cultura, leva à necessidade de tornar claro de qualconjunto de ideias se parte para se referir ao EC, este um conceito centralpara abordar questões comunicacionais na Amazônia. Entre os esforços dedefinição que têm sido realizados estão os textos levados à luz por MirnaFeitoza Pereira (2005, 2011), que aciona o arcabouço teórico-metodológicodos estudos semióticos para apresentar uma proposta conceitual, enquantooutra linha para a conceituação de EC encontra convergência na aborda-gem sustentada por Gilson Vieira Monteiro e colaboradores (MONTEIRO,COLFERAI, 2011; MONTEIRO, DANTAS, 2011), e se efetiva a partir deuma perspectiva ecossistêmica.Novos modos de sentir e conhecer Como apresentado por Martín-Barbero o Ecossistema Comunicativo serefere à relação, visível principalmente entre os jovens, de “[...] empatia cog-nitiva e expressiva com as tecnologias e com os novos modos de percebero espaço e o tempo, a velocidade e a lentidão, e o próximo e o distante”(MARTÍN-BARBERO, 2000, p. 54). A manifestação e a materialização dasnovas relações a partir das novas percepções constituem o Ecossistema Co-municativo que, na proposição de Martín-Barbero, precisa ser abordado emarticulação com dinâmicas da cultura e da educação, uma vez que os novos180

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalambientes cognitivos se estabelecem nos entrelaçamentos entre as dinâmi-cas culturais e os meios de comunicação. Trata-se de um ambiente “[...] que está se transformando em alguma coisa tãovital como o ecossistema verde, ambiental” (MARTÍN-BARBERO, 2000, p. 54). A imersão no Ecossistema Comunicativo considera as mensagens postasem circulação e o consumo dos conteúdos ofertados, mas também os usos dedispositivos de comunicação móvel, a relação com o dinheiro – que cada vezmais se virtualiza –, e as maneiras de se comunicar pela internet, por exemplo.A oferta de conteúdo, cada vez maior, e as novas formas de relação surgidasa partir dos usos das tecnologias torna possível a apreensão da comunicaçãocomo ecossistema. A existência de suportes que fazem proliferar as mensagensoferece condições para a experimentação estética, o que multiplica as percep-ções das novas gerações frente àquilo que experienciaram os mais velhos. A passagem da noção de comunicação para a noção de um ecossistemacomunicativo faz alterar também a maneira como são percebidas as dinâmi-cas societais. Estas percepções tratam do processo contínuo de aceleração damodernidade perpetrado, na América Latina, pela crescente presença dasnovas tecnologias da comunicação. Entre a compulsiva necessidade de apa-ratos tecnológicos, por deslumbramento e fascinação, e os usos efetivos des-tas tecnologias haveria um processo esquizofrênico que coloca em absolu-to descompasso os contextos de produção e os contextos de consumo dosconteúdos postos em circulação pelos meios de comunicação. Trata-se deum “buraco semântico”, que “[...] as maiorias, nestes países [latinoamerica-nos], preenchem semantizando-as [as novas tecnologias] com a linguagemda magia e da televisão” (MARTÍN-BARBERO, 2003, p. 265). Os novos formatos do saber são essencialmente imagéticos e provocamprofundas transformações nas maneiras de conhecer, mas que nem por isso,ao considerar os cenários latino-americanos, deixam de lado as formas antesdeles existentes. Na América Latina a complexidade das relações faz comque ao lado de uma visualidade tecnológica estejam experiências culturaisprimárias, como a oralidade. Nas relações que se estabelecem entre as duasé possível afirmar a existência de uma oralidade secundária, novas formasde ver e de narrar. Martín-Barbero (2004, p. 48) vê aí uma des-territoriali-zação da cultura, que torna possível a “[...] emergência de uma experiênciacultural nova [...]”. As novas experiências se apresentam, por exemplo, na 181

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalvelocidade da informação e da comunicação – que se estendem para as ve-locidades e deslocamentos espaço-temporais das relações interpessoais – ounas sonoridades que “[...] para a maioria dos adultos, marcam a fronteiraentre a música e o ruído, [e] são, para os jovens, o começo de sua experiênciamusical” (MARTÍN-BARBERO, 2000, p. 54). Nós nos encontramos diante de sujeitos dotados de uma “plasticidade neuronal” e elasticidade cultural que, embora se assemelhe a uma falta de forma, é mais abertura e formas muito diversas, camaleônica adaptação aos mais diversos contextos e uma enor- me facilidade para os “idiomas” do vídeo e do com- putador, isto é, para entrar e se mover na complexi- dade das redes informáticas. (MARTÍN-BARBERO, REY, 2004, p. 48-49) Estas des-territorializações são para ele a face visível de um sensoriumnovo, numa recuperação de ideias apresentadas por Walter Benjamin(1987). O reconhecimento das mudanças no senso estético é o lugar departida para as abordagens dadas ao longo do século XX às sensibilidadesacionadas pelo conjunto de suportes tecnológicos que ampliam e modifi-cam formatos estéticos e narrativos. Para Martín-Barbero em nossa épocahá a substituição da experiência narrada por aquele que a viveu pelo sa-ber do cronista e do jornalista. Com o ocaso do narrador “[...] os relatossobrevivem crescentemente inscritos no ecossistema discursivo das mídias,colonizados pela racionalidade operacional do dispositivo e do saber tecno-lógicos” (MARTÍN-BARBERO, REY, 2004, p. 109-110). Ao passo em que sereduzem os elementos narrativos, há maior presença do ritmo de imagenscom lógicas internas e com personagens cada vez menos complexas, e maiorexperimentação tecnológica com menos espaços para o desenvolvimento dehistórias. Exemplar das relações de recepção e construção de narrativas ou-tras, fragmentadas, é a profusão de conteúdo audiovisual disponível atravésdos mais diferentes canais e dispositivos, em que o fluxo narrativo passa aser construído pelo indivíduo ao navegar por eles, em ato correlato ao zape-182

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalar, “[...] com o qual o telespectador, ao mesmo tempo em que multiplica afragmentação da narração, constitui com seus pedaços um relato outro, umduplo, puramente subjetivo, intransferível, uma experiência incomunicável”(MARTÍN-BARBERO, REY, 2004, p. 111). Pelas indicações de Martín-Barbero, na nossa época as percepções co-letivas estariam se alterando em função do aparato tecnológico que tornauma experiência coletiva aquilo que nos séculos anteriores se organizavacomo experiência particular, ou ao menos restrita. Suas preocupações sãocentradas nas alterações das relações sociais a partir dos modos de estarjunto proporcionados pela tecnologia e com as implicações disso na cultura.Se há experiências incomunicáveis, como tornar possível o reconhecimen-to das diferenças e fazer efetiva a intervenção social capaz de promover aigualdade nas relações? Esta parece ser a questão de fundo na abordagemfeita por Martín-Barbero ao problematizar as relações sociais e a comuni-cação no continente latino-americano. Ao voltar-se para os impactos que astecnologias e os novos ambientes de comunicação por elas produzidos têmna comunicação, volta-se para a crescente influência do que considera ser oEcossistema Comunicativo nas relações que se darão sob outras condiçõesque não as narrativas textuais e orais tradicionais.Ecossistemas construídos Na perspectiva de Ismar Soares o Ecossistema Comunicativo designa a“[...] teia de relações das pessoas que convivem nos espaços onde [...]” sãoimplementados conjuntos de ações em que estão conjugadas educação e co-municação (SOARES, 2011, p. 37). Este é um princípio básico da Educomu-nicação, campo de conhecimento em que as preocupações estão voltadaspara as condições ambientais e cognitivas de grupos humanos, envolve osmeios de comunicação e tem influência determinante para as práticas peda-gógicas. Na explicitação que realiza sobre o conceito Soares parte da recu-peração etimológica de ecossistema, o que faz a partir da discussão realizadapor Bonfiglioli (2008). Ecossistema tem dupla vinculação com as ideias deunidade e de sistema: o segundo termo pode se dar a diversas interpretações, 183

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalenquanto o primeiro se liga a ideia holística de totalidade, e tanto um comooutro, e principalmente sua aglutinação, designam as preocupações “[...]presentes na formação discursiva que produz significações sobre tudo o quese refere ao cuidado com o planeta” (SOARES, 2011, p. 41). Esta dupla vinculação se deve principalmente a outra proximidade, destavez entre ecossistema, termo cunhado apenas na década de 1930, e ecologia,este já em circulação desde a década de 1860. A palavra ecologia seria subs-tituta de biologia3 e conteria o princípio da diversidade natural em relaçãodireta com a ideia do todo, de totalidade, em que homem e natureza têmos mesmos direitos, e que estão postos sob as mesmas determinações, aomesmo tempo em que a natureza é posta sob controle (BONFIGLIOLI, 2008,p. 33). Quando o conceito de ecossistema surge em 1935 a ecologia já ha-via alicerçado a conservação/proteção do ambiente natural como discursopolítico. A ciência dos ecossistemas surge como viés científico a legitimar asposições político-econômicas preocupadas em “[...] garantir a permanênciade um conjunto de condições gerais físicas, químicas, biológicas, políticas,sociais e econômicas necessárias à sobrevivência humana” (BONFIGLIOLI,2008, p. 43). O conceito de ecossistema surge então em meio a construçõesdiscursivas estabelecidas nas primeiras décadas do século XX e dominadaspela “[...] escritura científica já estabelecida em torno das comunidades ve-getais e das investigações biogeográficas” (BONFIGLIOLI, 2008, p. 44). Outro conceito destacado por Soares é o de Ecologia Cognitiva, cunhadopor Pierre Lévy para “[...] defender a idéia de um coletivo pensante homens-coisas, coletivo dinâmico povoado por singularidades atuantes e subjetividadesmutantes, tão longe do sujeito exangue da epistemologia quanto das estrutu-ras formais dos belos dias do ‘pensamento 68’” (LÉVY, 1993, p. 11). Para Lévyos sujeitos do pensamento não são exclusivamente indivíduos, mas coletivosque envolvem indivíduos, instituições e técnicas, conformando ambientes decognição. A Ecologia Cognitiva diz então respeito às tecnologias que fazem3 Ernest Haeckel, na obra Generelle Morphologie der Organismen, considerava biologia um termorestritivo que deveria ser substituído por Ecologia, este designando uma nova ciência preocupadacom a economia, os modos de vida e as relações vitais externas dos organismos (BONFIGLIOLI,2008).184

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalampliar a memória e multiplicar as formas de percepção, mas não se refere àstecnologias apenas, pois deve “[...] levar em conta particularidades sensoriais eintelectuais da espécie humana, hábitos adquiridos com as antigas tecnologiasintelectuais, práticas que se cristalizaram há séculos em torno de agenciamen-tos semióticos diversos, dos quais o principal é a língua” (LÉVY, 1993, p. 53). O surgimento de novas tecnologias faz com que outras, anteriores, se-jam substituídas e acabem por desaparecer. Esta dinâmica faz com que sur-jam novas habilidades entre os seres humanos, o que acaba por modificaras maneiras de perceber e agir no mundo: há aí, para Lévy, uma mudançana Ecologia Cognitiva. A presença e o relevante papel das novas tecnologiasna sociedade contemporânea fazem aparecer interpretações que colocam deum lado a vertente humana e do outro a vertente informática, separandoelementos constituintes da Ecologia Cognitiva. As novas funções cogniti-vas tornam possível um conhecimento por simulação, totalmente imerso naEcologia Cognitiva que atravessa quase a totalidade dos espaços do planeta.Trata-se da predominância da simulação e não mais da experiência, ou deum novo modo de experienciar, mas que de qualquer maneira está postosob a profusão de mensagens – imagens e sons, predominantemente – quenão são mais interpretadas, mas exploradas. Como pensada por Lévy a Eco-logia Cognitiva se refere, então, às “[...] dimensões técnicas e coletivas dacognição” (LÉVY, 1993, p. 137), que alcançam a cultura ao considerar queesta é “[...] definida menos por uma certa distribuição de idéias, de enuncia-dos e de imagens em uma população humana do que pela forma de gestãosocial do conhecimento que gerou esta distribuição” (LÉVY, 1993, p. 139). Partindo da recuperação realizada por Bonfiglioli (2008) e das propo-sições de Lévy (1993), Soares (2011) retoma as ideias de Martín-Barberosobre “[...] o entorno que nos envolve, caracterizado por ser ‘difuso’ e ‘des-centrado’” (SOARES, 2011, p. 43). Mas, enquanto o espanhol-colombianoentende o Ecossistema Comunicativo como um ambiente em que as formasde percepção são alteradas pelas mais diferentes linguagens, formas de es-critura, representações e narrativas, Soares atribui “[...] um novo sentido aoconceito, estabelecendo-o como algo a ser construído, no horizonte do de-vir: um sistema complexo, dinâmico e aberto, conformado como um espaçode convivência e de ação comunicativa integrada” (SOARES, 2011, p. 44). 185

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacional O Ecossistema Comunicativo é, nesta perspectiva, mais próximo de umafigura de linguagem que indica os ambientes que devem ser criados a partirda ação educomunicativa, e se refere especificamente a “[...] um ideal derelações, construído coletivamente em dado espaço, em decorrência de umadecisão estratégica de favorecer o diálogo social, levando em conta, inclu-sive, as potencialidades dos meios de comunicação e de suas tecnologias”(SOARES, 2011, p. 44). A criação destes Ecossistemas Comunicativos, en-tendidos como espaços ideais para a educação que considere a imersão doeducando em espaços de múltiplas influências, entre elas as das tecnologiasda comunicação, é devedora de princípios vindos da Ecologia. Entre estesprincípios está o da existência de relações entre os mundos físico, biológicoe social, todos em constante mutação. Soares ainda aponta o que considerauma metáfora: a possibilidade de aproximações do meio social, onde “[...]existem sistemas áridos e fechados de interconexões, tanto quanto sistemasricos e intensos de expressão vital [...]”, com o meio geofísico-biológico (SO-ARES, 2011, p. 44). Por esta abordagem o EC seria um espaço de media-ções, espaço desterritorializado em que o referencial cognitivo baseia-se narealidade virtual para constituição de comunidades. Estas relações virtuaisencontram ancoragem no mundo material, mas com um tempo próprio, opresente, com relações que criam uma realidade imersa no “[...] universofluido do imaginário e das paixões humanas” (SOARES, 2000, p. 15).A leitura amazônida do Ecossistema Comunicacional A apropriação do conceito de EC na Amazônia é claramente devedo-ra das perspectivas apresentadas por Soares e Martín-Barbero, mas postasob um processo que o reangula e acrescenta abordagens. As gêneses destasabordagens estão presentes tanto no projeto do PPGCCOM-Ufam como nasteses de doutoramento de duas professoras – Cláudia Guerra Monteiro eMirna Feitoza Pereira – integrantes do primeiro grupo de professores doprograma. O conjunto destas ações é indicativo de como se deu o processode adoção do conceito de EC como área de concentração. Guerra Monteiro vale-se do arcabouço teórico-metodológico da Educo-municação para abordar a atuação de barcos-escola junto a comunidades186

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionallocalizadas em afluentes do rio Amazonas. Na tese utiliza o conceito de ECproposto por Ismar Soares e faz sua aproximação com o ecossistema dos riosda Amazônia. Por esta angulação EC é entendido como o espaço em que sedá o processo de ensino-aprendizagem acionado por práticas pedagógicasespecíficas. O conceito acionado diz respeito ao “[...] planejamento, a exe-cução e a realização dos processos e procedimentos que se relacionam noâmbito da comunicação/cultura/educação, criando Ecossistemas Comuni-cativos” (GUERRA MONTEIRO, 2002, p. 24). Trata-se da ideia de Ecossis-temas Comunicacionais criados e organizados a fim de oferecer condiçõesde aprendizagem, o que surge na “[...] relação entre os barcos-escola e as co-munidades ribeirinhas” (GUERRA MONTEIRO, 2002, p. 11). A realidadeambiental particular abordada é a da relação entre a população do interiordo Amazonas com os rios e os ciclos de cheias e vazantes, o que exemplificaa influência do ecossistema ambiental nas vivências cotidianas ribeirinhas.Guerra Monteiro destaca que conhecer os aspectos geográficos e sociais dasrealidades amazônicas é pouco, e aponta que mais do que isso seria precisocompartilhar realmente de sua vida, conhecer os gostos, os desejos e as sub-jetividades: “As enchentes e as vazantes são tão importantes para o homemda Amazônia, que chegam a determinar e talhar, além dos hábitos e costu-mes, até o vocabulário específico da região” (GUERRA MONTEIRO, 2002,p. 48-49). Na argumentação fica clara a necessidade de contemplar as vivên-cias que integram o amazônida ribeirinho e a natureza, ao mesmo tempo emque se torna explícita a distância que há entre o planejamento do Estado e asrealidades das comunidades no interior da Amazônia. Nas indicações dei-xadas por Guerra Monteiro (2002) esta distância seria ainda mais larga pelafalta de compreensão, por parte dos gestores de políticas públicas, das múlti-plas implicações e penetrações entre as sociedades e a natureza amazônidas. Já Pereira (2005) lança mão dos estudos semióticos para discutir as rela-ções entre sistemas biológicos, sistemas tecnológicos e sistemas de entrete-nimento. O Ecossistema Comunicacional – expressão utilizada apenas umavez ao longo da tese (PEREIRA, 2005, p. 58) – aparece como uma tramasemiótica que conforma uma ecologia foco de interesse, em que qualquerdelimitação de um “[...] objeto constituído por signos resulta em outros sig-nos” (PEREIRA, 2005, p. 58). A ecologia examinada é composta por crian- 187

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalças (sistemas biológicos humanos), mídias (sistemas tecnológicos), gamese desenhos animados (sistemas de signos culturais). “Trata-se, portanto, deuma trama de continuidades semióticas que compõe um organismo semióti-co único entre crianças, mídias e linguagens. Neste sentido, o modelo teóricoproposto também dialoga com a ecossemiótica” (PEREIRA, 2005, p. 59). A ecossemiótica é entendida como a investigação “[...] das mediações síg-nicas naturais entre organismo e seu ambiente” (PEREIRA, 2005, p. 59), mastambém dos signos arbitrários e artificiais presentes nos processos sígnicos.Partindo da conceituação Winfried Nöth, Pereira esclarece que a proposta éde que a “[...] ecossemiótica desenvolva uma abordagem da semiose funda-da na suposição de um ‘limiar semiótico’ muito baixo entre signos e não-sig-nos, se este limiar não for completamente rejeitado” (PEREIRA, 2005, p. 59),em um movimento em que semiose nomeia “[...] a ação inteligente inter-pretadora na qual um signo, ao relacionar-se com seu objeto, gera um novosigno” (PEREIRA, 2005, p. 48). Neste sentido toda interpretação leva a umanova interpretação, ao ponto de poder ser considerada uma ação encadeadaad infinitum. Assim a semiose fundaria o ecossistema de comunicação, ou osistema de ecologia em exame, como considerado por Pereira. Uma vez que a ecossemiótica4 se preocupa com as relações entre o ho-mem e seu ecossistema, a autora assume que se trata de uma semiótica dacultura, por se relacionar com a etnologia, sociologia, psicologia e antropo-logia, quando estas disciplinas voltam-se para o ambiente. Nesta perspec-tiva as mediações do sistema de signos culturais seriam operados por um“aparato sensório-motor-cognitivo” humano, o que coloca a semiose da cul-tura “[...] completamente entranhada na natureza biológica humana, como aparato sensório-motorcognitivo da criança agindo como mecanismo detradução dos textos culturais” (PEREIRA, 2005, p. 63). Pereira enfatiza quenão há nesta perspectiva uma oposição entre natureza e cultura, pois “[...] ocorpo biológico humano está completamente imerso nos sistemas e signosculturais, deles dependendo para viver” (PEREIRA, 2005, p. 91).4 “A biossemiótica trata da investigação da semiose na vida, assumindo o limiar semiótico comopróximo daquele de onde a vida começou, não estando limitada, de modo algum, ao estudo da vidahumana” (PEREIRA, 2005, p. 60-61).188

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacional A proposta do PPGCCOM5 para a adoção de um conceito de EcossistemasComunicacionais em sua área de concentração contempla uma perspectiva quese aproxima daquela presente na tese de Guerra Monteiro (2002). Na descriçãoda área de concentração apresentada no projeto do PPGCCOM, em 2007, estápresente a abordagem feita por MartínBarbero (1998), em que são explicitadasas preocupações com as novas tecnologias da comunicação e com o sensoriumnovo que “[...] criaram uma energia que perpassa os mecanismos de apreensãodo mundo pela mediação de conectar-se ou desconectar-se dos aparelhos, [...]que pode ser percebida nas empatias cognitivas e expressivas, desenvolvidas,principalmente, pelos jovens” (PROPOSTA, 2007, p. 7). Esta leitura dos Ecossistemas Comunicacionais é, no projeto do programa depósgraduação, aproximada da perspectiva ecossistêmica. Na sequência do tre-cho acima destacado há o acréscimo da natureza como elemento a ser neces-sariamente considerado não mais em relação com o ser humano, mas no reco-nhecimento de que se trata de uma unidade. Assim como se fixa no campo dacomunicação, voltado para as múltiplas realidades amazônicas, com equipamen-tos eletrônicos presentes em aldeias indígenas; com o parque industrial da ZonaFranca de Manaus reconhecido como um dos mais modernos do planeta, aomesmo tempo em que comunidades ribeirinhas convivem com a falta de energiaelétrica; e celulares e antenas parabólicas são parte da paisagem junto com árvo-res, rios e estradas, o ecossistema comunicativo tangencia o conceito de ecologia profunda (CAPRA, 2006, p. 26) que “não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ele vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconec- tados e são interdependentes” [CAPRA, 2006, p. 26]. (PROPOSTA, 2007, p. 7).5 A proposta para instalação do PPGCCOM-UFAM, o primeiro da Região Norte, foi formulada peloprofessor Gilson Vieira Monteiro, que se tornou seu primeiro coordenador, e apresentada em 2007para apreciação pela Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior. 189

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacional A proposta de Capra (2006) de centrar a atenção em uma ecologia pro-funda não trata de uma relação dialética ou compartimentadora, mas deuma abordagem que compreende o mundo como um todo integrado6.“Pode também ser denominado visão ecológica, se o termo ‘ecológica’ forempregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual”,(CAPRA, 2006, p. 25). Nesta formulação a visão holística de um todo comounidade não é o horizonte vislumbrado, o que torna o termo ecológico maisadequado do que holístico. A visão ecológica admite a compreensão de umtodo funcional e as interdependências entre as partes, tal como acontece navisão holística, mas acrescenta os encaixes com o ambiente social e natural,assim como leva em conta a origem da matéria que constitui cada coisa ecomo sua existência e usos afetam o meio ambiente e a comunidade em queestá inserida. Nesta articulação o conceito de EC, como área de concentração do PP-GCCOMUfam caminha em direção a uma compreensão profunda da eco-logia que alcança não apenas a natureza, nela implicados os seres humanos,mas também e de maneira inseparável as relações sociais entre seres huma-nos que fazem significar estas mesmas relações. A presença inconteste dasnovas tecnologias da comunicação e informação nas vivências humanas tor-na os aparatos tecnológicos elemento imprescindível na abordagem do EC.A busca por uma abertura do conceito As abordagens do conceito de EC como apreendido nos estudos emComunicação na Amazônia encontram, até o momento, desdobramentosnum conjunto restrito de textos. A maior parte das pesquisas que acionamo conceito é de dissertações defendidas no PPGCCOM-Ufam. No conjunto6 Capra parte das formulações Arne Naess (1986), que apresenta uma abordagem preocupada coma natureza não apartada do homem, mas constituinte do homem e por ele constituída. Uma ecologiarasa tem forte sentido antropocêntrico, e coloca o homem fora ou acima da natureza, agindo sobreela e atribuindo-lhe valor e dandolhe usos. Em sentido diverso a ecologia profunda não separaseres humanos, e nem admite a separação de qualquer outra coisa, do meio ambiente natural. Aecologia profunda “[...] reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os sereshumanos apenas como um fio particular na teia da vida” (CAPRA, 2006, p. 26).190

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalas dissertações valem-se das perspectivas ecossistêmica ou semiótica, reper-cutindo as propostas colocadas em circulação pelos textos acima elencadose artigos dos professores Mirna Feitoza Pereira e Gilson Vieira Monteiro– este em coautoria com orientandos de pós-graduação –, que procuramavançar na discussão acerca de uma nova abordagem do conceito de EC. Pereira (2011) retoma a discussão iniciada na tese defendida em 2005,explicitando este percurso de maneira a reforçar as posições anteriormenteassumidas. Um acréscimo é o do pensamento de Capra (2006) na discus-são das abordagens ecológica e ecossistêmica do conceito de EC. A autorachama de sistemas a constituição de redes por comunidades de organismos,“[...] para garantir a visão sistêmica imprescindível para a superação do an-tropocentrismo ainda vigente na comunicação” (PEREIRA, 2011a, p. 56).Pereira destaca que os Ecossistemas Comunicacionais são comunidades or-ganizadas independentemente do espaço geográfico e com o suporte dosmeios eletrônicos, vinculando o conceito às práticas culturais, necessaria-mente humanas, e às condições oferecidas pelas novas tecnologias da comu-nicação e informação. Ao assumir tal posição a abordagem dos Ecossistemas Comunicacionaissegue coerente com a ideia de imersão na semiosfera, ao mesmo tempo emque a proliferação e intensificação da comunicação seriam diferenciais paraa constituição de comunidades. Um diferencial que só mesmo a cultura, e não mais a natura, é capaz de gerar, afinal, o que garante a so- brevivência de tais comunidades formadas por or- ganismos distribuídos em diferentes habitats do pla- neta não é o ambiente natural, mas a comunicação, a linguagem ou ainda as linguagens nas quais estão imersos sistemas culturais, sistemas tecnológicos e sistemas biológicos humanos. (PEREIRA, 2011a, p. 60). Assim a preocupação volta-se para as relações culturais modificadas eintensificadas pela cultura, enquanto busca a manutenção da abordagem 191

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalcentrada no elemento humano. Ainda que haja a busca por um deslocamen-to rumo à ecologia, tal como proposto por Capra (2006), esta abordagemse apresenta “[...] como estratégia didático-pedagógica para desenvolver oraciocínio acerca do objeto delineado [...]” (PEREIRA, 2011a, p. 60). Nesteprocesso há a necessidade de olhar no entorno – e este entorno é a Amazô-nia – para responder as questões da cultura na região, não somente aquelasligadas às tecnologias, mas principalmente ao espaço das relações em que acomunicação está inserida. A questão proposta por Pereira é entender a comunicação como elemen-to que quebra o isolamento, e aí devem ser incluídos os povos da floresta queseriam constantemente deixados de fora em análises dos circuitos da comu-nicação. Os Ecossistemas Comunicacionais, pensados por Pereira desde oarcabouço teórico-metodológico da semiótica, devem tomar a comunicaçãocomo quebra do isolamento cultural daqueles que habitam os locais aindaprimitivos do planeta, e aí estão elencados “[...] o pescador e a canoa, o ri-beirinho e a palafita, a índia alimentando a capivara com o leite do própriopeito” (PEREIRA, 2011a, p. 61). Já os desdobramentos que encontram em Gilson Vieira Monteiro conver-gência apresentam outra perspectiva de EC. Sociedade, natureza e as tecno-logias da comunicação e informação seriam elementos componentes do ECao se pensar a vida cotidiana amazônida. As vivências na região ultrapassa-riam as relações entre homem e natureza para alcançar uma inseparabilida-de em que não se pode fazer exclusões na rede estabelecida. Cada elementoé não somente unidade, uma vez que contribui para a sustentabilidade dotodo, mas composto por e componente de outros elementos. “Neste ambien-te, relações se formam e desvanecem ininterruptamente, com o todo sempresendo o ponto de interesse, e não as partes, ou mesmo a soma das partes”(MONTEIRO, COLFERAI, 2011, p. 43). Pistas para esta perspectiva de EC são apresentadas a partir de uma co-munidade de pescadores no interior do Amazonas, lugar em que as expe-riências e as vivências na natureza e os usos e desdobramentos da presençados meios de comunicação e suportes tecnológicos na comunidade fazemcom que se formem “[...] sistemas ecológicos, interdependentes, vivos e emconstante aprendizagem, que integram o ‘mundo da vida’ destes pescadores”192

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacional(MONTEIRO, DANTAS, 2011, p. 217). Novas contribuições para a concei-tuação do EC são apresentadas a partir do conceito de autopoiese (MATU-RANA, VARELA, 1995), que propõe uma abordagem particular dos seresvivos e da natureza cognoscitiva do ser humano. A autopoiese concebe apercepção como capaz de operar somente a partir do sistema nervoso, esteuma rede fechada de correlações internas. A indicação que fazem Monteiro e colaboradores é de que a comunicaçãoseria o ponto de abordagem preferencial para alcançar a totalidade entre na-tureza, sociedade e as tecnologias da comunicação e da informação, em quea autopoiese deve ser uma das chaves para a compreensão, uma vez que aíestá posta a inseparabilidade entre o humano e a natureza. Torna-se explíci-to que as questões apresentadas envolvem os processos comunicacionais le-vados a efeito na Amazônia, posição a que se alinha Pereira (2011) ainda quenuma abordagem diversa, que considera uma instância físico-biológica paraa cognição. A proposta é buscar a conceituação a partir de questionamen-tos direcionados aos procedimentos de pesquisa acionados para abordar aAmazônia “[...] de maneira a compreender as condições sob as quais ela[a pesquisa] se dá e quais são os resultados deste processo” (MONTEIRO,COLFERAI, 2011, p. 45). Posta sob esta perspectiva a pesquisa deve levar em consideração umanoção ampla de rede e de suas dinâmicas. “Os elos da rede podem mudar deposição e, independente da força de cada um, todos os elos são importantes,porque desempenham uma função que garante a sustentabilidade da rede”(MONTEIRO, DANTAS, 2011, p. 220). Da mesma maneira esta propostapensa a questão com “[...] afetividade, amorosidade – elementos intrínsecosdos seres – [para] assim chegar mais perto de alcançar os ecossistemas vivosem que se constituem os ambientes de comunicação” (MONTEIRO, COL-FERAI, 2011, p. 45).Caminho a trilhar A partir do que pode ser apontada como a perspectiva ecossistêmica paraa abordagem do EC, uma proposta de leitura do conceito foi apresentada emminha tese de doutoramento. Ali é explicitada a preocupação de aprofun- 193

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionaldamento nas conexões e nas implicações complexas que, por continuidade,fazem ampliar a sensorialidade natural humana pelas tecnologias da comu-nicação e informação, o que também amplia os espaços e formas de intera-ção social humana (COLFERAI, 2014). Ali articulo o conjunto de princípiosreconhecido como Biologia do Conhecimento, trazidos à luz pelos biólogoschilenos Humberto Maturana e Francisco Varela; as formulações postas soba denominação de Escola de Toronto, que tem em Marshall McLuhan a fi-gura proeminente; e a ideia de Perspectivismo Ameríndio desenvolvida porEduardo Viveiros de Castro – além de considerável conjunto de estudos so-bre Comunicação na Amazônia – para apresentar Amazônia como metáforado EC. Os distanciamentos entre a leitura que proponho e as abordagens deSoares (2000, 2011) e Pereira (2005, 2011), principalmente, se evidenciamao lançar o olhar para as vivências amazônidas, em que o ser humano e anatureza são inseparáveis mesmo nas particularizações implicadas na regio-nalização a que é submetida a Amazônia. Esta particularização é, em largamedida, contraditória, mas também capaz de tornar visíveis as complexida-des implicadas no conceito. Estas complexidades admitem a recursividadeentre posições díspares e não são estranhas às populações tradicionais ama-zônidas, que as explicitam em suas cosmologias e cotidianos. Nas vivênciasamazônicas o contraditório/complementar é uma constante, uma relaçãorecursiva que surge também no conceito de EC. Evidentemente não se trata de reduzir o EC à Amazônia, já que não háuma demarcação espacial para o conceito, e nem mesmo ao pensamento eaos objetos particulares, o que o colocaria ao largo da necessária universa-lidade do trabalho intelectual. Ao contrário, trata-se da conjugação entrelocal e global, considerando implicações sociais e científicas, uma perspec-tiva múltipla que admite uma maneira particular de conhecer e de estar nomundo. O EC, por esta perspectiva, não busca por totalizações, mas pelasmultiplicidades que se cruzam ininterruptamente em todas as direções. Éuma postura que implica um conhecimento complexo, instável, intersubjeti-vo, interdisciplinar e imetódico, e que ao mesmo tempo não renega a simpli-cidade, a estabilidade e a objetividade, assim como não deixa de reconheceros conhecimentos alcançados através do método e divisão disciplinares, massupera seus pressupostos – que não raramente ganham força dogmática.194

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacional Em suma, esta trilha aponta para o EC como índice da inseparabilidadeentre o ser humano, em suas instâncias biológica e social, o ambiente, tantocomo presença física como por construção narrativa, e as tecnologias da co-municação e informação pela presença material e pelas extensões que pro-porcionam ao homem. Trata-se antes de tudo de um caminho que consideroprodutivo para prosseguir na discussão sobre o conceito de EC, especial-mente por compreendê-lo como profícuo para a pesquisa em Comunicaçãoem particular, e para abordar maneiras de estar no mundo diversas daquelasconsagradas pelo pensamento ocidental. Esta é a trilha por onde sigo, tendo a clareza do quão fundamental é com-preender a gênese da abordagem do conceito de EC realizada a partir doPPGCCOM-Ufam. É a trilha principiada ali que faz chegar ao atual estágioa discussão, e a torna campo fértil para proposições fazendo crescer a per-cepção do quão fundamental para prosseguir quanto são tanto a sede porconhecer quanto o compromisso de compartilhamento.Referências bibliográficasBENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.In: __________. Obras escolhidas, v. I – Magia e técnica, arte e política:ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad.: Sérgio Paulo Rounat. SãoPaulo-SP: Brasiliense, 1987. p. 165-196.BONFIGLIOLI, Cristina Pontes. Discurso ecológico: a palavra e a fotogra-fia no Protocolo de Kyoto. Tese (Doutorado em Jornalismo e Editoração).São Paulo-SP: Universidade de São Paulo, 2008.CAPRA, Fritjof. A teia da vida. Trad.: Newton Roberval Eichemberg. SãoPaulo-SP: Editora Cultrix, 2006.COLFERAI, Sandro Adalberto. Um jeito amazônida de ser mundo – AAmazônia como metáfora do Ecossistema Comunicacional: uma leitura doconceito a partir da região. Tese (Doutorado em Sociedade e Cultura naAmazônia). Manaus-AM: Universidade Federal do Amazonas, 2014. 195

Reangulação amazonida do conceito de Ecossistema comunicacionalGUERRA MONTEIRO, Cláudia. Barco-escola: uma experiência de educo-municação às margens dos rios da Amazônia. Tese (Doutorado em Ciênciasda Comunicação). São Paulo-SP: Universidade de São Paulo, 2002.LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento naera da informática. Trad.: Carlos Irineu da Costa. São Paulo-SP: Editora 34,1993.MARTÍN-BARBERO, Jesús. Cidade virtual: novos cenários da comunica-ção. Comunicação e Educação, São Paulo-SP, n. 11, jan./abr., p. 53-67, 1998.__________________. Desafios culturais da comunicação à educação. Co-municação & Educação, São Paulo-SP, n. 18, maio-ago, p. 51-61, 2000.__________________. Dos meios às mediações: comunicação, cultura ehegemonia. Trad.: Ronald Polito e Sérgio Alcides. 2. ed. Rio de Janeiro-RJ:Editora UFRJ, 2003.__________________. Ofício de cartógrafo – Travessias latino-americanasda comunicação na cultura. Trad.: Fidelina González. São Paulo-SP: EdiçõesLoyola, 2004.MARTÍN-BARBERO, Jesús; REY, Gérman. Os exercícios do ver – Hegemo-nia audiovisual e ficção televisiva. Trad.: Jacob Gorender. 2. ed. São Paulo-SP: Editora Senac São Paulo, 2004.MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. A árvore do conhecimen-to: as bases biológicas do entendimento humano. São Paulo-SP: EditorialPsy II, 1995.MONTEIRO, Gilson Vieira; COLFERAI, Sandro Adalberto. Por uma pes-quisa amazônida em comunicação: provocações para novos olhares. In:MALCHER, Maria Ataíde; SEIXAS, Netília Silva dos Anjos; LIMA, Regina196

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Este livro foi impresso na cidade de Manaus/AM, em 2017. A família tipográfica utilizada na composição do texto foi “Minion Pro e Aller”.


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