Important Announcement
PubHTML5 Scheduled Server Maintenance on (GMT) Sunday, June 26th, 2:00 am - 8:00 am.
PubHTML5 site will be inoperative during the times indicated!

Home Explore Museu Major José Levy Sobrinho: história e cultura material

Museu Major José Levy Sobrinho: história e cultura material

Published by Traço Design, 2020-08-05 13:53:24

Description: Esta publicação apresenta ao público parcelas do acervo do Museu “Major José Sobrinho” a partir de textos temáticos, buscando explorar o potencial dos itens museológicos para a construção e reescrita de diversos aspectos da história local, regional e nacional.

Keywords: Catálogos,Museu,História,Limeira,Acervo

Search

Read the Text Version

MuseuMajor José Levy Sobrinho história e cultura material



Museu Major José Levy Sobrinho história e cultura material

Organização Adriana Pessatte Azzolino João Paulo Berto Revisão e tratamento da informação Autores Tratamento da informação João Paulo Berto Fotografia Adriana Pessatte Azzolino Legendas Letícia França Machado Oliveira Lopes Sandra Maria Durante Bosco Tratamento de Imagem Bruno Vinícius Dias Carvalho Rhayane Andiara de Lima Santos Flávia Fábio Capa, Projeto Gráfico e Diagramação Traço Publicação e Design – Fabiana Grassano e Flávia Fábio Créditos Copyright © 2020 de Museu Major José Levy Sobrinho Este catálogo é um dos produtos do projeto “Reestruturação da Área de Guarda e Setores Técnicos do Museu Major José Levy Sobrinho”, contemplado pelo Programa de Ação Cultural (PROAC) da Unidade de Fomento à Cultura da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo (Edital nº 13/2019 – Modernização de Acervos de Museus e Arquivos) FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECÁRIA ADRIANA FERNANDES – CRB 6332 Museu Major José Levy Sobrinho: história e cultura material / Adriana Pessatte Azzolino; João Paulo Berto (Organizadores). – Campinas, SP: Traço Publicações e Design, 2020. 160p. ISBN 978-65-87146-00-3 (Impresso) ISBN 978-65-87146-01-0 (digital) 1. Catálogos. 2. Museu. 3. História. 4. Limeira-SP. I. Azzolino, Adriana Pessatte. II. Berto, João Paulo. III. Título.

Museu Major José Levy Sobrinho história e cultura material Adriana Pessatte Azzolino Adriana Pessatte Azzolino Ana Cláudia Cermaria Berto e João Paulo Berto André Luiz Paulilo (Organizadores) Eduardo Alberto Manfredini João Paulo Berto Letícia França Machado O. Lopes Limeira 2020



SUMÁRIO 6 APRESENTAÇÃO 9 NOSSO MUSEU 11 UMA HISTÓRICA ENTREGA 13 UM ACERVO DE MEMÓRIAS 17 LEMBRAR-SE DO PASSADO, COMPARTILHAR O FUTURO 20 PREFÁCIO 22 MUSEUS, MEMÓRIA E IDENTIDADE: ESPAÇOS VIVIDOS EM TEMPOS CRIADOS Adriana Pessatte Azzolino 28 TEXTOS 30 O MUSEU HISTÓRICO E PEDAGÓGICO “MAJOR JOSÉ LEVY SOBRINHO” E A FORMAÇÃO DE SEU ACERVO Letícia França Machado O. Lopes 40 A DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA NO ACERVO DO MUSEU \"MAJOR JOSÉ LEVY SOBRINHO\" Ana Cláudia Cermaria Berto 54 TRADIÇÃO E MODERNIDADE NA PINACOTECA DO MUSEU DE LIMEIRA João Paulo Berto 70 VESTÍGIOS DA APRENDIZAGEM André Luiz Paulilo 92 A FERROVIA EM LIMEIRA NO SÉCULO XIX E AS INTERVENÇÕES NO PANORAMA URBANO Eduardo Alberto Manfredini 108 LIMEIRA E O MOVIMENTO CONSTITUCIONALISTA DE 1932 João Paulo Berto 124 AS ARTES DE CURAR E AS PRÁTICAS MÉDICAS E ASSISTENCIAIS EM LIMEIRA João Paulo Berto 140 DESTAQUES DO ACERVO

Estandarte do Corpo Dramático Limeirense (detalhe) Limeira, SP? - Séc XIX? Tecido e metal

APRESENTAÇÃO

Fachada do Centro Cultural Coronel Flamínio Ferreira de Camargo Limeira, SP – 2020 Fotografia digital

NOSSO MUSEU Desde a sua fundação, a cidade passa por enormes transforma- ções. Seus fundadores, seus desbravadores, seus responsáveis pela formação do nosso povo, onde estão suas histórias? E se não tivéssemos como olhar para esse passado, compreendê-lo, usá- -lo como ferramenta para trabalhar nosso presente e construir nos- so futuro? Seria danoso demais, como se num clique alguém tivesse apagado um arquivo único e de vital importância. Para isso existem os museus, para que não se perca a história, para que a memória seja preservada e protegida, para que possamos mergulhar no passado e dedicarmos nosso tempo presente, nosso empenho, nosso compro- misso de permitir, com todos os nossos esforços, para que a população seja protagonista dessa história. Esses são alguns de nossos propósitos para essa fundamental iniciativa. Instituído em 1964 por um Decreto do Governo do Estado de São Paulo, e aberto oficialmente em 1973, o Museu “Major José Levy Sobrinho”, finalmente criado pela Lei Municipal nº 6240, de 5 de julho de 2019, nunca teve um catálogo, o que se consolida agora, no limiar do ano de 2020. É um momento extremamente especial para a Cultura de Limeira: nosso acervo, que contabiliza mais de 30 mil itens, entre documentos tridimensionais, iconográficos, textuais (manuscritos e impressos), bibliográficos e audiovisuais, mereceu um estudo minucioso e criterioso que culmina na edição do catálogo im- presso, ao mesmo tempo em que é lançada a plataforma de difusão online de todo o acervo (Plataforma Tainacan). Um grande trabalho tem sido realizado pela Prefeitura, através da Secretaria de Cultura, Apresentação | 9

para que a preservação de nossa história e nossa memória tenham a atenção que merecem. Além do Catálogo, o espaço expositivo do Museu ganha novos ares para permitir, cada vez mais, a interação do cidadão com a história da cidade, possibilitando que tenha a sensação de “pertencimento” a essa história. Coincidem esses nossos dias com a implantação de uma nova e moderna reserva técnica, já instalada, e com a transferência do acervo, até agora pertencente ao Estado, para posse definitiva do Município. Agradeço ao trabalho incansável da equipe da Secretaria de Cultura, comandada pelo secretário José Farid Zaine, e especial- mente ao grupo que está à frente dessa brilhante conquista: à dire- tora de Memória e Centro de Ciências, Profª. Dra. Adriana Pessatte Azzolino, aos historiadores limeirenses Profº. Dr. João Paulo Berto e Ana Cláudia Cermaria Berto, ao Centro de Memória-Unicamp e seu diretor Prof. Dr. André Luiz Paulilo, à museóloga Letícia França Machado Oliveira Lopes, a todos os funcionários do Museu “Major José Levy Sobrinho” e aos inúmeros e abnegados colaboradores espa- lhados por toda a cidade. Que venha o futuro. Com essa inédita entrega que agora con- cretizamos na área cultural, novas gerações verão que nossos cidadãos souberam preservar e proteger, para elas, cada capítulo da fascinante história de Limeira. Mário Celso Botion Prefeito Municipal de Limeira Recibo da Farmácia Kehl Limeira, SP – 31 de dezembro de 1912 Papel 10 | Apresentação

UMA HISTÓRICA ENTREGA Reveste-se da maior importância para a Cultura do municí- pio a edição do presente catálogo, o primeiro desde a criação do Museu “Major José Levy Sobrinho”. Um rico histórico de cuidados com a preservação de nossa memória em todos os seus as- pectos, está traduzido num acervo maravilhoso, que conta em seus papéis, fotos e objetos a trajetória de Limeira, suas conquistas, seus pioneirismos, os costumes de sua gente corajosa e empreendedora. A edição do catálogo e a disponibilização de seu conteúdo na internet, possibilitando a todos a chance de visitar e estudar o acervo completo do museu online, já são grandes avanços. O período também marca a mudança de nossa reserva técnica para um lugar adequado e seguro, já com um relevante projeto aprovado que prevê verba estadual para sua revitalização e transformação em referência na área. O momento é de muita comemoração, inclusive pelo fato de que, a partir de 2020, o acervo integral do Museu passou finalmente a per- tencer ao Município. Agradeço ao Prefeito Mario Botion por seu apoio incondicional ao trabalho da Secretaria de Cultura, permitindo à equipe do Museu alavancar suas pesquisas e chegar a um resultado tão maravi- lhoso. Agradeço também aos inúmeros parceiros, tanto aos que assinam textos neste catálogo, quanto aos numerosos anônimos que colabora- ram, dando sua cota de cidadania para a valorização de nossa histó- ria. Em nome da Diretora de Memória e Centro de Ciências, Adriana Pessatte Azzolino, do historiador João Paulo Berto e da museóloga Letícia França, estendo minha gratidão à equipe do Museu “Major José Levy Sobrinho”, órgão da Secretaria de Cultura de Limeira, ao Centro Apresentação | 11

de Memória-Unicamp e seus técnicos e pesquisadores e a todos os que atendem aos chamados do Poder Público para a importância de um tra- balho dessa natureza e de tal envergadura. A história continua viva. E continuam vivos, mais do que nunca, nossos propósitos de manter o respeito permanente a cada uma de suas vibrantes páginas, todas escritas pelo amor, dedicação e solida- riedade de nossa gente. José Farid Zaine Secretário de Cultura de Limeira Marquesa Entre 1910 e 1940 Madeira, palha e tecido 12 | Apresentação

UM ACERVO DE MEMÓRIAS OMuseu Histórico e Pedagógico \"Major José Levy Sobrinho\" foi fundado em 26 de janeiro de 1964 pelo Decreto nº 42.987, de autoria do governador Adhemar Pereira de Barros. Composto por acervo da e sobre a cidade, coletado e doado por limeirenses ao longo da história da entidade, estabeleceu grande afinidade com a história local e regional. Dentro desta lógica, desde sua criação, a instituição manteve uma administração mista, sendo o acervo de propriedade do estado e a gestão administrativa e custos de manutenção realizados por parte da Prefeitura Municipal de Limeira, por meio da Secretaria de Cultura. Em 2019, contudo, amparado pela Lei Estadual nº 13.209, de 29 de setembro de 2008, o museu de Limeira iniciou o processo de transferência legal do acervo museológico do Estado para o municí- pio. Isto significou criar oficialmente um museu para a cidade, ato realizado pela Lei Municipal nº 6.240, de 5 de julho de 2019. Nascia, assim, oficialmente, o agora Museu “Major José Levy Sobrinho”. O trabalho passou a ser maior, afinal, esta ação resultou no au- mento significativo de seu acervo, uma vez que, além dos itens pré existentes legados pelo “antigo” museu, o novo museu passou a in- corporar os acervos pertencentes a outras instituições museológicas municipais (Museu de Arte de Limeira, Museu da Laranja e Museu da Imagem e do Som de Limeira), agora desativadas. Além delas, o espaço de memória integrou oficialmente o material documental do Centro Municipal de Memória Histórica de Limeira, com mais de 30 Apresentação | 13

mil itens documentais de variados gêneros (audiovisual, iconográfico, sonoro, textual e tridimensional). O Museu “Major José Levy Sobrinho” inaugura uma nova etapa em sua trajetória e este catálogo tem a intenção de mostrar para a comunidade uma pequena porção da riqueza histórica e do potencial de pesquisa que seu acervo proporciona para os diferentes públicos que o conhece e que o frequenta. Uma parcela, pois hoje o acervo contempla quase 30 mil itens organizados em cerca de 20 coleções tipológicas, temáticas e por procedência. Atualmente, além das visitas às exposições de curta e longa dura- ções, totalizando mais de 10 mil visitantes anuais, recebemos dezenas de pesquisadores interessados na história da cidade e região. São es- tudantes de todos os níveis, do ensino fundamental ao superior, tanto da rede pública quanto da privada. Somam-se a eles pesquisadores de todos os níveis acadêmicos, nacionais ou internacionais, o que de- monstra a importância de Limeira para a re(construção) de diversas temáticas. Frequentemente nosso espaço e nosso acervo documental são também demandados por inúmeros cidadãos, originando publi- cações de qualidade que colaboram em dar visibilidade ao material que salvaguardamos. Câmera Fotográfica Agfa Standard Berlim, Alemanha - Entre 1926 e 1933 Metal, couro e vidro DANILO FALASCINA Secador Horizontal para Café e Cereais Limeira, SP – 1965 Metal, madeira e borracha Miniatura produzida pela Indústria Máquina D’Andrea e exibida na I Feira Agro-Científica, Comercial e Industrial de Limeira (FACIL) 14 | Apresentação

O movimento continua e, determinados a garantir o acesso pleno Autorização para atividade de cocheiro e irrestrito dos cidadãos ao nosso acervo, estamos digitalizando e infor- Limeira, SP – 9 de outubro de 1912 matizando nossas coleções. Para isso, contamos, desde 2019, com a pro- Papel fícua colaboração e orientação da equipe a frente do Projeto Tainacan, iniciativa que constitui uma nova etapa do Programa Acervo em Rede, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Em linhas gerais, o Tainacan delineia-se como um poderoso instrumento digital que torna possí- vel experimentar os efeitos da publicação de acervos museológicos em rede (integrados). Configurado como uma Plataforma de Catalogação e Difusão de Acervo Museológico, a ferramenta está em implementação pelo Ibram em seus museus, tendo sido desenvolvida, em seu início, em uma parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e, na se- quência, migrando para a Universidade de Brasília (UnB). Apesar deste recorte, após diversas tratativas, tivemos a possibilidade de implementar a ferramenta no Museu “Major José Levy Sobrinho”, tornando-nos um projeto piloto capaz de ser replicado para outros museus desta categoria existentes em todo território nacional. Uma vez que pudemos contar com esta parceria, ainda em 2019, buscamos a expertise do Centro de Memória-Unicamp (CMU), órgão que integra a Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), vinculado à Coordenadoria Geral da Universidade Estadual de Campinas. Neste contexto, foi estabelecida uma parceria en- tre as partes cuja finalidade é a construção e a implantação de protocolos e rotinas de processamento técnico, conservação, digitalização e difusão dos acervos do Museu “Major José Levy Sobrinho”, disponibilizando seus servidores técnicos-administrativos para assessorar nesse trabalho, por tempo determinado. Portanto, apoio da mais alta capacidade técni- ca em prol da profissionalização de nossos procedimentos em torno da preservação e da difusão da memória histórica de Limeira. Como uma das atividades deste momento de intensa celebração para a instituição, propusemos a realização de um catálogo temático do acervo, para o qual convidamos pesquisadores de reconhecido ca- pital intelectual. Na forma de sete artigos, os autores fundamentaram Apresentação | 15

Roca suas reflexões com base exclusiva no acervo existente no Museu “Major Século XIX/XX José Levy Sobrinho”, o que permite demonstrar a riqueza e o inedi- Madeira e metal tismo da maior parte dos itens museológicos. Entre os temas defini- dos pela proposta curatorial estão: as coleções fundadoras; a coleção fotográfica; o acervo de artes visuais; a educação em Limeira; a cida- de e o patrimônio arquitetônico; os aspectos políticos marcados pelo Movimento Constitucionalista de 1932 e o assistencialismo. Tenho, assim, a grata satisfação de apresentar esta obra histórica para a cidade de Limeira. Esta é a primeira vez que um catálogo sobre o acervo é produzido, o que nos enche de orgulho. Ainda mais quan- do levamos em conta que este espaço de memória reflete o trabalho de várias gerações, sendo um local onde as identidades, as memórias e as lembranças plurais se tornam visíveis e, esperamos, jamais esquecidas. Profª. Dra. Adriana Pessatte Azzolino Diretora de Memória e Centro de Ciências Secretaria de Cultura de Limeira COMPANHIA MC HARDY Sino Campinas, SP – 1917 Bronze Pertenceu à Fazenda São Jerônimo 16 | Apresentação

LEMBRAR-SE DO PASSADO, COMPARTILHAR O FUTURO A importância da iniciativa da Prefeitura Municipal de Limeira, por meio de sua Secretaria de Cultura, de viabilizar a publi- cação de um catálogo do acervo do Museu “Major José Levy Sobrinho” diz respeito ao acesso que proporciona aos diferentes as- pectos da história da cidade. Trata-se de disponibilizar aos cidadãos documentos que expressam a trajetória histórica do município e, as- sim, dar acesso à memória do lugar onde habitam, vivem e sonham o futuro. Este catálogo, abrangente e de síntese, não só enfrenta o desafio de apresentar o acervo do Museu “Major José Levy Sobrinho” como, também, abre as portas para outras publicações dedicadas ao patri- mônio histórico do munícipio. Resulta de um trabalho engenhoso e capaz de organizar a diversidade da tipologia documental a partir de um quadro de arranjo sensível às inúmeras dimensões da vida na ci- dade. A iniciativa de fazê-lo trouxe a oportunidade para o Centro de Memória-Unicamp se associar ao esforço da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de Limeira para promover não apenas uma reorganização institucional do museu da cidade, mas um importante movimento de adequação de sua reserva técnica e rearranjo dos seus conjuntos documentais. A aproximação entre o Museu “Major José Levy Sobrinho” e o Centro de Memória-Unicamp foi uma aposta na soma de esforços Apresentação | 17

Diário de Classe da Escola Estadual “Coronel Flamínio para viabilizar um plano de trabalho voltado para a memória da cida- Ferreira de Camargo” – Disciplina de Estudos Sociais de de Limeira. A cooperação que resultou dessa aproximação promo- Limeira, SP – 1978 veu ações de cunho museológico e arquivístico para o tratamento das Papel informações documentais, a preservação física e a difusão do acervo do Museu “Major José Levy Sobrinho”. Tais ações incidiram sobre conjuntos de documentos dos mais variados gêneros. Desde a docu- mentação textual até o material audiovisual, iconográfico, sonoro e tridimensional, o acervo que o museu reúne foi pesquisado e estuda- do com vistas à qualificação da informação sobre as diferentes mani- festações culturais, políticas, sociais e econômicas da cidade. Para o Centro de Memória-Unicamp a cooperação com o Museu “Major José Levy Sobrinho” significou compartilhar uma metodolo- gia de tratamento técnico e uma perspectiva museológica e arquivís- tica de organização institucional. Nessa direção, tanto proporcionou apoio e assessoria quanto se somou aos esforços do munícipio para construir e implantar os protocolos e rotinas de processamento técni- co do acervo. Noutro sentido, o Centro de Memória-Unicamp teve o privilégio de acompanhar a reformulação administrativa por que pas- sou o Museu “Major José Levy Sobrinho” para consolidar seu acervo e modernizar suas estratégias de interação com a sociedade e com outras instituições de documentação e guarda de patrimônio histórico. Assim, a cooperação entre o Centro de Memória-Unicamp e o Museu “Major José Levy Sobrinho” foi tão profícua em termos da organização arquivística e museológica quanto do ponto de vista da gestão do patrimônio cultural. O presente catálogo é um dos frutos dessa pareceria e, também, uma forma de conferir registro aos re- sultados da cooperação. Sobretudo expressa aquilo que a comunhão de esforços pode fazer para a preservação da memória local e contra as alienações provocadas pelo silenciamento ou expropriação da pró- pria história. De muitos modos, o que aqui se pode ver publicado 18 | Apresentação

premia as iniciativas da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de Limeira quanto à preservação do patrimônio histórico da cidade, atesta a relevância cultural do Museu “Major José Levy Sobrinho” e gratifica todos aqueles que, como o Centro de Memória-Unicamp, quiseram contribuir para o tão necessário empreendimento de tornar acervos históricos acessíveis aos cidadãos e parte do constante exercí- cio da cidadania. Prof. Dr. André Luiz Paulilo Centro de Memória-Unicamp Faculdade de Educação-Unicamp Teatro da Paz Limeira, SP – Entre 1930 e 1938 Fotografia Apresentação | 19



PREFÁCIO

OSWALDO FAVORETTO Zé Sessenta Limeira, SP – Entre 1940 e 1970 Óleo sobre tela

MUSEUS, MEMÓRIA E IDENTIDADE: ESPAÇOS VIVIDOS EM TEMPOS CRIADOS Adriana Pessatte Azzolino* * Doutora em Comunicação, Escola “Na realidade, não há percepção que não esteja impregnada de de Comunicação e Artes-USP; Mestre em Educação, Faculdade lembranças” (BERGSON, 1959, p 183 apud BOSI, 1994, p 8) Educação- Unicamp; Pós Doutorado, DMM-Unicamp; Diretora do Museu Os museus, nos últimos tempos, juntamente com os arquivos, \"Major José Levy Sobrinho\". centros de documentação e bibliotecas vêm sendo chamados de “espaços de memórias”, afinal, são locais que preservam, documentam e compartilham com a comunidade lembranças do pas- sado. Entretanto, ademais os outros espaços, as instituições museais tem destaque neste debate e se colocam como espaços não apenas para salvaguardar ou valorizar essas memórias em constante disputa, mas repensar sobre os modos como as comunidades e as pessoas que as constituem, em determinadas circunstâncias, configuram o passado, o presente e o futuro diante delas. Neste sentido, os museus não são espaços neutros, mas enquanto discurso são também construtores de sentidos sobre o passado que privilegiam grupos em detrimento dos outros. É sempre importante refletir, portanto, sobre as novas e as antigas tradições, suas múltiplas dimensões e, em específico, a tradução delas em um espaço onde as memórias são musealizadas por meio dos objetos. Essas memórias, ressalta-se, são construídas pela contribuição de indivíduos que Adriana Pessatte Azzolino | 23

Carta de pedido de licença compartilham o mesmo meio, uma vez que “diferentes pontos de re- Limeira, SP – 5 de janeiro de 1899 ferência estruturam nossa memória” (HALBWACHS, 2006). Desta Papel forma, é impossível afirmar que existe uma única forma ou visão de cultura. Pelo contrário, são várias, e é do processo de encontro e con- fronto entre elas que surge o ponto fértil da criação e recriação cul- tural. Seria neste entrave que os museus deveriam se colocar, sempre como um instrumental para fazer aflorar e permitir a compreensão desses intricados processos (DALMONTE, 2002). As personagens históricas, as condutas e atitudes, o folclore e as músicas, as paisagens de uma localidade, o patrimônio arquitetônico, o vestuário e a música são alguns dos pontos de referência partilhados coletivamente, uma vez que é nesse meio que a memória se (re)ela- bora e se torna representação. Da vivência íntima, individual, expan- de-se para a dimensão comunitária, criando pontos de convergência que constroem as identidades plurais e coletivas. Preservar a memória de um grupo é preciso, porque se trata de uma história coletiva que se transforma em pertencimento e com- partilhamento. Contudo, por ser de todos, não basta o testemunho, mas é preciso que haja concordância. Para Nora (2009), o saber da História está atrelado à memória, afinal, nossas lembranças surgem das associações de ideias vividas pela experiência cotidiana aos nos relacionarmos com os outros. Assim, essas lembranças não são tão nossas, mas são reminiscências daquelas dos nossos pais, parentes e amigos, cada qual acrescentando ou eliminando uma parte que lhes cabe. Porém, “para que as lembranças sejam construídas sobre uma base comum é necessário, portanto, que hajam memórias concordan- tes, com pontos suficientes em contato” (POLLACK,1992). Um museu é, em essência, um locus de convergência cultural, re- pleto de signos e significados, onde convivem a memória e as identi- dades. Como um espaço dinâmico, ele acolhe um processo de cons- trução de espaços vividos em tempos criados e que tem lugar na cul- tura. O sentido da cultura não está na produção individual, mas no esforço que se torna totalidade, um conjunto de experiências que se 24 | Museus, memória e identidade: espaços vividos em tempos criados

universaliza e se torna patrimônio cultural de toda humanidade, uma vez que memórias partilhadas constroem identidades. As instituições museológicas e seus acervos, em essência, cons- tituem um sistema comunicativo de identidades coletivas, no sentido linguístico de produção de sentido. Fazem parte de um fenômeno his- tórico enquanto produtos da atividade humana, refletindo os interes- ses e os conflitos num determinado espaço de tempo. De natureza polifônica, os museus estabelecem uma relação dia- lógica com vozes em entrelinhas, composto de textos, discursos e ar- tefatos significantes, interações, situações e formas de vida estudados por meio de modelos que revelam diferenças gerais e específicas. Estes se constituem, basicamente, por elementos heterogêneos de discur- so, sejam de natureza arquitetônica e/ou urbanística, textual e icono- gráfica (CRIPPA, 2013, p.135), criando uma rede de elementos que ressignificam para as sociedades para as quais existem. Como aponta Crippa: (...) colocadas, assim, as bases para a polifonia de textos da semioe- sfera museu, podem ser observadas as modalidades através das quais comunidades/culturas (ou partes delas) pensam e tratam seus signos, costurando a relação entre signos e realidade. O museu, portanto, como lugar/espaço onde o sentido é produzido pela confluência e o entrelaçamento de linguagens distintas que colaboram em função de uma semiótica sincrética, produz expressões particulares moduladas para produzir efeitos de sentidos unitários e globais (CRIPPA, 2013, p 137) Assim é ou deve ser um museu, um espaço que leva em conta a Fogão de acampamento Optimus dinâmica social dos grupos que se movem entre signos e significados Estocolmo, Suécia – Entre 1900 e 1950 (GEERTZ, 1998), porque a identidade se traduz pelo sentimento de Metal coletividade com suas memórias. O museu, neste contexto, torna-se um agente mediador que permite expressar tais condições, procu- rando criar meios para entender a nossa sociedade e a nós mesmos. Ao mesmo tempo, consolida-se como um espaço que problematiza o cotidiano que nos cerca e nos leva à reflexão acerca de nossa posição Adriana Pessatte Azzolino | 25

como grupo social. Afinal, é um local que narra o resultado dos pro- cessos culturais que são construídos e se constroem ao mesmo tempo num regime dialógico aberto. Valorizar a memória do grupo é valo- rizar a própria identidade e reafirmar símbolos significativos de per- tencimento à comunidade. Nossa lógica social é construída pela iden- tidade e por nossa maneira de entender os símbolos culturais. São as situações de interação que possibilitam a leitura de nós mesmos. A identidade não é, pois, fruto do isolamento de sociedades ou grupos, mas, pelo contrário, de sua interação. Ela é crucial quando existem segmentos sociais que não se pensam como totalidades únicas (CARVALHO 1983, p 20 apud MENEZES, 1993, p 210). Nesta linha Menezes (1993) afirma que, “além disso, a identidade se fundamen- ta no presente, nas necessidades presentes, ainda que faça apelo ao passado, mas é um passado também ele construído e reconstruído no presente, para atender aos reclamos do presente (...) Deve-se ir aos museus para interrogar e se interrogar, não para buscar respostas já concluídas”. (HAINARD apud MENEZES, 1993, p 214). Com efeito, não só a identidade é um processo incessante de construção/reconstrução, como também ganha sentido e expressão nos momentos de tensão e ruptura, precisamente quando se aguça a percepção da diferença. Isso posto, há a premente necessidade de se continuar a pensar os museus, seus alcances e perspectivas. Acima de tudo, é importante que eles sejam espaços onde as identidades sejam recriadas e consolidadas por meio de múltiplas linguagens, conside- rando sempre a necessidade de explorar e ampliar sua capacidade de difusão de diferentes vozes. Quadro de Formandos da turma de Contabilidade do Colégio Santo Antônio (detalhe) Limeira, SP – 1931 Fotografia e Madeira 26 | Museus, memória e identidade: espaços vividos em tempos criados

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOSI, Alfredo (org.). A Cultura Brasileira. São Paulo: Ed. Ática, 1987. BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 15ª ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994. CRIPPA, Giulia. “Museus e linguagem: uma análise semiótica das interações entre museus e cidades”. Letras: Revista do PPGL da Universidade de Santa Maria, RS, v. 23, n.46, 133-152. GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis: Vozes, 1998. HALLBAWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006. MENEZES, Ulpiano T. Bezerra de. “A problemática da identidade cultural nos museus: de objetivo (de ação) a objeto (de conhecimento). Anais Do Museu Paulista: História E Cultura Material, 1 (1), 207-222. NORA, Pierre. “Memória: da liberdade à tirania”. Revista Musas. Brasília, IBRAM, 2009, n 04, 6-10. POLLAK, Michael. “Memória e Identidade Social”. Estudos Históricos, RJ, CPDOC/FGV, vol.5, n.10, 1992, 200-212. POLLAK, Michael. “Memória, Esquecimento e Silêncio”. Estudos Históricos, RJ, CPDOC/FGV, vol 2, n 3,1989, 3-160. SOUZA, Ana Maria Martins de; DEPRESBITERIS, Léa; MACHADO, Osny Telles Marcondes. A mediação como princípio educacional: bases teóricas das abordagens de Reuven Feuerstein. São Paulo: SENAC, 2004. Adriana Pessatte Azzolino | 27



TEXTOS

Etiqueta para caixas de laranjas de A. de Felice & Filhos Limeira, SP - entre 1925 e 1926 Papel Doado por Luiz Vendramini em 19 de agosto de 1973

O MUSEU HISTÓRICO E PEDAGÓGICO “MAJOR JOSÉ LEVY SOBRINHO” E A FORMAÇÃO DE SEU ACERVO Letícia França M. O. Lopes* * Bacharel em Museologia pela Ahistória da criação do então Museu Histórico e Pedagógico Universidade Federal do Estado do Rio “Major José Levy Sobrinho” liga-se a um período da história de Janeiro (UNIRIO), especialista em do Estado de São Paulo de expansão do que conhecemos por Gestão e Preservação do Patrimônio “Rede de Museus Históricos e Pedagógicos”. Sua origem deu-se por Cultural das Ciências e da Saúde pela meio do Decreto nº 42.987, de 26 de janeiro de 1964, no governo Casa de Oswaldo Cruz - Fiocruz e de Adhemar Pereira de Barros (1901-1969), por iniciativa de Vinicio graduanda em Gestão Pública pela Stein Campos (1908-1990) que na época coordenava o Serviço dos Unicesumar. Museóloga do Museu Museus Históricos (criado oficialmente em 1963). A decisão ocor- “Major José Levy Sobrinho”. reu em virtude das fortes reivindicações realizadas junto à adminis- tração estadual para que a cidade de Limeira pudesse ter um museu histórico, nos termos do decreto nº 33.980, de 19 de novembro de 1958, que tratava da complementação da rede de Museus Históricos e Pedagógicos do Estado de São Paulo, criada, por vez, em 1957. Letícia França M. O. Lopes | 31

Bengala Apesar de oficializado em 1964, sua instalação efetiva ocorreu Ca. 1870 apenas no dia 8 de setembro de 1973. Conforme ata de instalação, en- Madeira e metal tre os presentes estavam os então governador do Estado de São Paulo, Doado por Manoel Simão de Barros Levy e Levy Laudo Natel, o prefeito da cidade de Limeira, Palmyro Paulo Veronesi José de Barros Levy em 8 de setembro de 1973. d’Andréa, o presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Teria pertencido à Dom Pedro II que a doou ao Paulo, José Salvador Julianelli, e Vinicio Stein Campos, entre outras Senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro personalidades e políticos locais. Antes mesmo da instalação, foi ini- ciado um amplo trabalho de reunião de obras para o novo museu, so- bretudo por meio da doação de membros da comunidade de Limeira e região. Em linhas gerais, tais obras foram incorporadas segundo princípios que buscavam relacionar o caráter histórico e geográfico locais. Contudo, outros embates pela preservação da memória esti- veram presentes na constituição das primeiras coleções, mostrando a diversidade e a especificidade dos museus de história. A REDE DE MUSEUS HISTÓRICOS E PEDAGÓGICOS Os Museus Histórico-Pedagógicos foram organizados nos anos 1950 por Sólon Borges dos Reis (1917-2006), na época diretor ge- ral do Departamento de Educação da Secretaria dos Negócios da Educação do Estado de São Paulo, tendo como preponderância a forte função educativa voltada à população. Com a proposta de po- tencializar a importância dos paulistas no cenário da República, fo- ram inicialmente criados museus dedicados a uma espécie de culto da memória dos quatro presidentes republicanos oriundos do estado, implantados nas cidades estes onde nasceram ou morreram: Prudente de Moraes (Piracicaba), Campos Salles (Campinas), Rodrigues Alves (Guaratinguetá) e Washington Luís (Batatais). Em 1957, um ano após a criação dos primeiros quatro museus, Borges Reis se afastou da Secretaria de Educação, convidando Vinicio Stein Campos. Este assumiu o cargo e redigiu o regulamento dos museus (1957), dando com o tempo um viés híbrido às instituições, 32 | O museu histórico e pedagógico  “Major José Levy Sobrinho” e a formação de seu acervo

unindo a pesquisa história ao apelo educacional. Como aponta Ávila, Maraca confeccionado pelos índios Karajás “tanto Sólon Borges quanto Vinício Stein compartilhavam dos con- Pena, cabaça, madeira e plumária ceitos da Escola Nova. A criação dos MHPs foi concomitante com a Entre 1900 e 1970 Reforma do Ensino Primário, que propunha a difusão do método in- Doado por Taba do Brasil em 10 de outubro tuitivo no ensino” (ÁVILA, 2014, p 49). Ainda neste mesmo ano, de 1973 já com o novo formato de Campos, a rede de museus histórico-pe- dagógicos foi ampliada com mais cinco instituições nas cidades de Capivari, Santos, Pindamonhangaba, Sorocaba e Porto Feliz. O ano de 1958 pode ser considerado como áureo na consolida- ção desta tipologia de museus. Além da fundação de duas instituições por decretos isolados em Casa Branca (Visconde de Taunay e Afonso de Taunay) e em Franca (Imperador D. Pedro II), pelo Decreto n. 33.980, de 19 de novembro, foram gestadas outras, todas organizadas a partir de grandes períodos históricos: A classificação implantada por Stein aos MHPs consistiu na subdi- visão deles em três períodos históricos: Colonial, Monárquico e Republicano. Esta organização mais uma vez apresentava caracte- rísticas comuns às do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), dentre eles a de “visão integrada da história”, por intermé- dio da formação de um enorme acervo histórico e produção docu- mental que englobasse a totalidade da história do País e, em especial, com a participação de São Paulo (ÁVILA, 2014, p 35) Juntamente a estes, outros dois, o Museu de Tietê (Cornélio Pires) e o Museu de Taubaté (Monteiro Lobato), conforme o arti- go 5º do Decreto n. 33.980, “destinam-se à evacuação histórica dos respectivos municípios e ao estudo, preservação e difusão do folclore regional e nacional, na forma prevista no decreto que os instituiu”. Assim, entre 1956 e 1973 foram criados 79 museus, compondo a Rede de Museus Histórico e Pedagógicos1, com o intuito de garan- tir a preservação da memória por meio de testemunhos materiais e da participação dos paulistas em diversos momentos políticos e his- tóricos nacionais. Desta forma, os municípios e os seus respectivos patronos eram escolhidos dentro de certos requisitos como, por Letícia França M. O. Lopes | 33

São José de Botas exemplo, a relevância a nível municipal, estadual ou nacional, sen- Século XVIII do que poderiam ou não ter nascido no município no qual seriam patronos das instituições museais. É interessante observar a colabo- Madeira policromada ração do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP) no Doado por José Dias do Prado em roteiro das cidades que receberiam os museus, auxiliando com textos e estudos históricos produzidos por sócios. Outro aspecto importante 30 de setembro de 1973 diz respeito à localização para a implantação das instituições museais, relacionada com a pré-existência da malha ferroviária. COLECIONISMO E A POLÍTICA DE FORMAÇÃO DO ACERVO DO MUSEU HISTÓRICO E PEDAGÓGICO “MAJOR JOSÉ LEVY SOBRINHO” O ato de colecionar pode ser observado ao longo da existência humana e em todas as camadas sociais, caracterizado pela simples ação de guardar para a posteridade objetos que evocam uma determinada ideia de passado. Nesta linha, os museus são espaços de memória e en- tidades colecionadoras, formados pela reunião de itens eleitos capa- zes de dialogar com diferentes temporalidades, sejam remotas ou re- centes, e permitir continuamente estudá-las, proporcionando novos sentidos. Costumeiramente, esses itens remetem a acontecimentos relevantes para a sociedade, contribuindo para a memória coletiva. Cabe aos museus, portanto, salvaguardar esse patrimônio cultural, a partir de ações que permitam sua existência no futuro, a relação deste com a sociedade a quem referencia e a preservação das identidades. Schmidt e Mahfoud (1993, p. 292), a partir do estudo de algu- mas das ideias fundamentais do sociólogo francês Maurice Halbwachs sobre o trabalho da memória, argumentam que ele permite a recons- trução do passado: “[...] na memória coletiva o passado é permanen- temente reconstruído e vivido enquanto é ressignificado. Neste sen- tido, a memória coletiva pode ser entendida como uma forma de his- tória vivente”. Tendo isso em mente, os objetos nos remetem a uma 34 | O museu histórico e pedagógico  “Major José Levy Sobrinho” e a formação de seu acervo

determinada visualidade do passado, muitas vezes condicionada aos Tacho discursos apresentados pelas narrativas curatoriais nos museus. Século XIX Metal O Museu Histórico e Pedagógico “Major José Levy Sobrinho”, Doado por Miguel Batista Quitério em 14 de outubro deste a sua criação, estava em conformidade com o decreto nº 33.980 de 1973 de 1958, que tinha como objetivo tratar do ensino de história do Brasil Teria pertencido à Fazenda Tatu por meio da cultura material, com formação social e cívica, promo- vendo a história da cidade e do seu respectivo patrono. Pelo decreto de criação previa-se como patrono do novo museu a figura do Major José Levy Sobrinho (1884- 1957), justificado no dispositivo legal por ser “figura das mais ilustres não apenas da História de Limeira, mas do próprio quadro histórico do Estado”. Conforme Berto apresenta, o Major Levy era (...) natural da própria cidade de Limeira. Filho de Simão e Ana Quintus Levy, imigrantes alemães que chegaram à Fazenda Ibicaba em 1857 e que, em 1889, tornaram-se proprietários das terras, José Levy Sobrinho teve grande importância no cenário do município e do Estado. Ocupou diversos cargos políticos em Limeira, seja como vereador, vice-prefeito e prefeito, além de dirigir e criar várias ins- tituições nas áreas da saúde, esporte, cultura e lazer. Foi presiden- te do Diretório Municipal do partido Republicano Paulista, Juiz de Paz e suplente de Delegado, tendo também comandado o batalhão limeirense no Movimento Constitucionalista de 1932. Foi pioneiro na citricultura paulista, tendo iniciado a exportação de laranjas para a Europa no ano de 1926, além de ter contribuído no desenvolvi- mento da sericicultura – tal fator proporcionou com que assumisse a presidência da Comissão de Produção Agrícola do Estado, durante o governo do interventor Pedro Manuel de Toledo (1860-1935), e, em 1939, da Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo. (BERTO, 2016, p 2) Assim, pode-se apontar que uma das linhas do acervo que iria compor o novo museu faria referência ao seu patrono. A implantação efetiva da instituição, contudo, teve que esperar por conta de questões de ordem política, ocorrendo treze anos depois, apesar de já haver um indicativo de formação da coleção inicial que, conforme Vinício Campos, seria doada por um munícipe que ao longo da vida teria Letícia França M. O. Lopes | 35

Moedor de café manual reunido um conjunto de natureza história extremamente importante Século XX (ÁVILA, 2014, p 64). O projeto foi comprometido por ataques de Madeira e metal Mário Neme (1912-1973) na imprensa, na época diretor do Museu Doado por João Evangelista Ferraz Paulista (1960-1973), que afirmava que o governo do estado não tinha em 18 de setembro de 1973 condições de manter as instituições museológicas da rede dos MHP de forma satisfatória (ÁVILA, 2014, p 62). Infelizmente, o doador desta que seria a coleção inicial do acervo do museu veio a falecer, tendo sido os itens alienados por seus herdeiros2. Tendo esse cenário, para a efetiva abertura era necessário ter um acervo. Por esse motivo, foi convidado o limeirense Reynaldo Kuntz Busch (1898-1974), membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que passou a contribuir realizando pesquisas e encontrando obje- tos que fossem de encontro com os objetivos da instituição e das legisla- ções estaduais. A partir da análise das primeiras doações, verifica-se que os objetos coletados apresentavam uma grande segmentação, referindo- -se não apenas à cidade de Limeira, mas a outros estados, existindo um grande número sem quaisquer dados de origem e datação. Em termos documentais, nota-se que a primeira peça foi doada ao museu em 30 de julho de 1973, e que no seu primeiro ano de efetivo funcionamento, o museu recebeu cerca de 140 itens de 35 doadores. Porém, apesar de ter uma linha curatorial definida por meio da missão dos Museus Históricos e Pedagógicos, caracterizada por “preservar a história do patrono e da cidade” (Regulamento dos Museus Históricos e Pedagógicos, 1957), a mesma não foi respeitada, percebendo-se a recepção/coleta de diversos objetos que não esta- vam diretamente relacionados com os aspectos históricos (materiais e imateriais) da cidade. Sobre esta questão existem diversas leituras. Uma possível interpre- tação refere-se a uma ideia corrente de museu como uma instituição cujo objetivo era reunir apenas objetos antigos ou diferentes. Assim, os itens da e sobre a cidade dialogavam materialmente com objetos etnográficos oriundos do estado do Mato Grosso, sobretudo dos povos Carajás; ta- chos, pilões e outros instrumentos domésticos, além de algumas imagens 36 | O museu histórico e pedagógico  “Major José Levy Sobrinho” e a formação de seu acervo

sacras. Juntamente, estão peças que revelam seu valor quando associa- Arco confeccionado pelos índios Karajás das a grandes personagens, como a bengala que teria pertencido à Dom Madeira, fibra e plumária Pedro II e doada ao Senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, ou Entre 1900 e 1970 mesmo indumentárias do Major José Levy Sobrinho. Doado por Irene Pommer Guzella e Helio Guzella em 21 de dezembro de 1973 Outra possível explicação para o não uso de critérios para a in- corporação de acervo seria, talvez, uma falta de entendimento da linha Flecha feita pelos índios Karajás curatorial proposta no ato da criação dos museus da rede, alinhado Entre 1900 e 1970 com a perspectiva de doações de pessoas influentes e/ou que tivessem objetos que tivesse algum valor histórico. Assim, seria embaraçoso ne- Madeira e fibras vegetais gar qualquer doação, especialmente das famílias mais tradicionais da Doado por Irene Pommer Guzella cidade, mesmo que o(s) item(ns) não colaborasse(m) com a preser- e Helio Guzella em 21 de dezembro vação da história local, especialmente ao pensar que a negativa levaria ao fechamento das portas para possíveis recepções futuras. Há ainda de 1973 uma terceira interpretação acerca desses objetos que não dialogam to- talmente com a linha curatorial. Esta viria pelo viés antropológico, Letícia França M. O. Lopes | 37 uma vez que apesar desses itens não fazerem parte da história da cida- de seus doadores o fariam. Tais indivíduos seriam representantes do comportamento cultural da elite da época, que viajava pelo território nacional ou internacional e trazia souvenirs, doando-os posteriormente ao museu por entenderem que tal objeto (ou conjunto de objetos) era indicado para entrar na instituição por seu grau de excentricidade ou exotismo. Por ser o museu um lugar de memória, os doadores acaba- riam também por não ser esquecidos. Ao fazer uma análise do primeiro ano de funcionamento do museu e, por conseguinte, da entrada das peças, observa-se também que foi doada grande quantidade de itens de natureza arquivística, como jor- nais, fotografias e documentos textuais; objetos de numismática; itens ligados ao movimento constitucionalista de 1932; além de objetos que faziam referência a seu patrono, entre outros. Lastima-se que o acervo pertencente ao patrono recebido neste primeiro ano seja fragmentado e pequeno, frente a sua atuação na cidade e estado. O acervo fundador do museu foi alocado na sede da instituição, um imóvel situado na Avenida Ana Carolina de Barros Levy, dividindo

Pilão espaço com a Guarda Municipal, no ano de 1973. No ano de 1984, o Madeira museu foi transferido para o prédio onde funcionava o Grupo Escolar Entre 1865 e 1899 Coronel Flamínio Ferreira de Camargo, que foi desativado no mesmo Doado por Taba do Brasil ano. É importante ressaltar que muitos museus históricos e pedagó- em 10 de outubro de 1973 gicos foram instalados em prédios escolares históricos após a desati- vação das atividades educacionais. De acordo com Berto (2016, p. 3), tal ação “(...) auxiliaria na manutenção de um espírito educacional e cívico dos espaços”. A cada ano, o museu recebeu mais e mais objetos, infelizmente sem um acompanhamento que refletisse a missão da instituição e sua política curatorial. De todo modo, ele compõe hoje a mais importan- te coleção pública sobre Limeira e região, com quase 30 mil itens de diferentes gêneros. Caracteriza seu acervo, de modo geral, (...) coleções de discos, fitas cassete e de vídeo; documentação tex- tual, iconográfica e cartográfica; animais taxidermizados, objetos de numismática, de caráter doméstico e etnográfico; mobiliário de es- paços públicos e privados de Limeira e região, destacando-se os pro- venientes do Grupo Escolar Coronel Flamínio Ferreira de Camargo; equipamentos hospitalares da Santa Casa de Misericórdia de Limeira, objetos alusivos ao Movimento Constitucionalista de 1932. No acervo de artes plásticas, destacam-se obras de artistas locais, nacionais e in- ternacionais, em especial o quadro Los Gatos, de Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo (1897-1976), e os prêmios de to- das as edições do Salão Limeirense de Belas Artes (SBAL) e do Salão Limeirense de Arte Contemporânea (SLAC), de grande representa- tividade nacional. (BERTO, 2016, p. 6) Desde 2020, fruto da reformatação da instituição, o Museu passou a ter sua política de acervo melhor definida, com diversas linhas que norteiam a captação dos itens. O que cabe à instituição a partir de agora é seguir os critérios para novas aquisições de acordo com o objetivo do museu e continuamente realizar pesquisas que preencham as lacunas sobre seu contexto e uso, colocando-as a disposição da população. Dessa maneira, o museu desempenhará seu papel fundamental como institui- ção histórica e pública, que é estar a serviço da sociedade. 38 | O museu histórico e pedagógico  “Major José Levy Sobrinho” e a formação de seu acervo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Chapéu colonial Limeira, SP – Entre 1930 e 1957 ÁVILA, Ana Carolina Xavier. Museus Históricos e Pedagógicos no século XXI: processo de municipalização e novas perspectivas. Dissertação de mestrado Fibra têxtil apresentada à Universidade de São Paulo. São Paulo, 2014. Doado por José Chiavone em 14 de BERTO, João Paulo. “Um museu de história, um acervo em disputa: a reabertura outubro de 1973 do Museu Histórico e Pedagógico \"Major José Levy Sobrinho\" (Limeira-SP)”. Teria pertencido ao Major José Levy XXIII Encontro Regional de História da ANPUH-SP, 2016, Assis-SP. Anais do XXIII Encontro Regional de História da ANPUH-SP, 2016. V. l. p. 1-12. Sobrinho CAMPOS, Vinicio Stein. Elementos da Museologia. São Paulo: Secretaria da Letícia França M. O. Lopes | 39 Cultura, Esporte e Turismo, 1972. MISAN, Simona. “Os Museus Históricos e Pedagógicos do Estado de São Paulo”. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 16, p. 175-204, 2008. SÃO PAULO (ESTADO). Decreto nº 30.324, de 10 de dezembro de 1957. Dispõe sobre a instalação de Museus Históricos e Pedagógicos do Estado. Diário Oficial do Estado de São Paulo. São paulo, SP, 11 dez. 1957. SÃO PAULO (ESTADO). Decreto nº 33.980, de 19 de novembro de 1958. Dispõe sobre a complementação da Rede de Museus Históricos e Pedagógicos do Estado e dá outras providências. Diário Oficial do Estado de São Paulo. São paulo, SP, 20 nov. 1958. SÃO PAULO (ESTADO). Decreto nº 42.987, de 26 de janeiro de 1964. Autoriza a instalação do Museu Histórico e Pedagógico \"Major José Levy Sobrinho\", em Limeira. Diário Oficial do Estado de São Paulo. São Paulo, SP, 27 jan. 1964. SCHMIDT, Maria Luisa Sandoval; MAHFOUD, Miguel. “Halbwachs: memória coletiva e experiência”. Psicologia USP, v. 4, n. 1-2, p. 285-298, jan. 1993. SUANO, Marlene. O que é Museus. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986. (Col. Primeiros Passos). 1 Conforme Ana Carolina Xavier Ávila, muitas instituições pertenciam a esfera muni- cipal e passaram a compor a Rede de Museus Históricos e Pedagógicos, por solicitação dos gestores locais. Para mais, XAVIER, 2014. 2 Infelizmente, as pesquisas não dão conta de indicar o nome deste doador.

Casamento de Yolanda e Samuel Gonçalves de Melo Limeira, SP? - Entre 1900 e 1930 Papel

A DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA NO ACERVO DO MUSEU \"MAJOR JOSÉ LEVY SOBRINHO\" Ana Cláudia Cermaria Berto* * Bacharel e licenciada em História pela As fotografias são pensadas, na maioria das vezes, enquanto um Universidade Estadual de Campinas objeto de memória, capaz de evocar lembranças de momentos com ênfase em Patrimônio Histórico- e de pessoas. Além dessa função, e mais do que imagens mera- Cultural. Profissional de Organização mente ilustrativas, as fotografias constituem-se como documentos de de Arquivos no Centro de Memória grande valia para a produção do conhecimento histórico. Consistem - Unicamp. em instrumentos de reconstrução de um mundo que muitas vezes não existe mais, uma vez que imprimem vestígios do homem no tempo. Essas imagens carregam uma série de elementos que as determinam enquanto tal: a memória, o assunto retratado, as questões técnicas, as características próprias do fotógrafo, e uma demanda sociocultural que estabelece padrões e olhares para produzi-la. Apesar da resistência em considerar as fotografias enquanto ob- jetos de prova e testemunho, tais como os documentos escritos sem- pre foram ao longo da História, nos últimos anos esse reconhecimen- to tem aumentado, indicando sua importância não somente para o Ana Cláudia Cermaria Berto | 41

L. SAMPAIO PHOT. estudo da história da fotografia em si, mas também Retrato de membro da Guarda para o estudo da história por meio da fotografia. Por essa razão, a relevância dos acervos iconográficos Nacional (tanto públicos quanto privados) tem aumentado, Limeira, SP – Entre 1890 e 1910 assim como o número de usuários dos mesmos, seja formado por pesquisadores acadêmicos ou pelo pú- Papel blico em geral. Ao longo de sua história, o Museu “Major José Levy Sobrinho” acumulou em seu acervo um signifi- cativo número de itens fotográficos, capaz de abran- ger grande diversidade temática relativa à cidade de Limeira e sua região, tais como fotografias de famí- lia, de grupos escolares, de pessoas célebres, de locais específicos e monumentos, de autoria tanto de fo- tógrafos profissionais como de amadores. Esse arti- go busca, portanto, explorar, de forma sucinta, este acervo, destacando sua relevância enquanto fonte para a pesquisa histórica tanto local quanto regional. Em linhas gerais, o processo fotográfico foi divul- gado pela primeira vez em 1839, descoberto dois anos antes pelo francês Louis-Jacques-Mandé Daguerre (1787-1851). No Brasil, por sua vez, a fotografia che- gou no ano de 1840, trazida pelo abade Louis Compte, capelão de um navio-escola francês que aportou de passagem pelo Rio de Janeiro. A divulgação da foto- grafia no Brasil ficou inicialmente restrita a poucos profissionais, sobretudo estrangeiros, sendo que so- mente a partir da segunda metade do século XIX que imigrantes europeus trouxeram novas tecnologias ao país, surgindo, então, novas oficinas que tiravam e vendiam retratos. Com a popularização da técnica, so- bretudo no final do século XIX, a produção fotográfica tornou-se mais acessível e se intensificou. 42 | A documentação fotográfica no acervo do museu \"Major José Levy Sobrinho\"

No caso específico de Limeira as pesquisas não conseguiram le- vantar muitas informações consistentes sobre a existência documental de algum fotógrafo ou estúdio fotográfico no século XIX na cidade. Uma imagem produzida em Limeira e assinada por L. Sampaio Phot, contudo, revela a presença de uma atividade fotográfica no municí- pio, possivelmente entre fins do oitocentos e início dos anos 1900. Nela, vê-se um homem de pé, possivelmente um membro da guarda nacional, posicionado em estúdio que ajuda a configurar certo ar de teatralidade do retratado diante da câmera. Além deste retrato, há diversas outras imagens, ainda do século XIX, em formatos como carte-de-visite e carte-cabinet no acervo do Museu. O formato carte-de-visite foi patenteado por André Adolphe-Eugène Disdéri (1819-1889) em 27 de novembro de 1854, tornando-se uma das principais formas de popularização e produção em massa da foto- grafia, uma vez que a câmera permitia a realização de oito retratos em uma mesma chapa de vidro. Tais imagens tinham em torno de 9,5 x 6 cm, estando montadas sobre um cartão rígido de cerca de 10 x 6,5 cm. Como aponta Boris Kossoy, percebe-se um desenvolvimento da atividade fotográfica “a partir da década de 1860 em virtude, por um lado, da introdução de novos processos e de técnicas fotográficas ba- seadas no princípio do negativo-positivo, que, barateando os custos de produção do retrato fotográfico, o tornaria acessível a um público maior” (KOSSOY, 2002, p 12). Justamente pela possibilidade do certo barateamento e difusão, estes “cartões de visita” criaram um modismo na segunda metade do século XIX e fortaleceram um discurso de modernidade, sendo co- mum serem trocados entre familiares, amigos, partidários, entre ou- tros. Muitas vezes datados ou portadores de dedicatórias, formaram a base para a criação dos álbuns fotográficos. Os cartões possuíam, ainda, os dados do fotógrafo ou do estúdio, ajudando na divulgação do ato fotográfico. A partir de 1870, por sua vez, inicia-se o processo de declínio do formato carte-de-visite, substituído pelo formato carte-ca- binet, surgido na Inglaterra por volta de 1866. A diferença de ambos Ana Cláudia Cermaria Berto | 43

F. PÉREZ & COMP. os tipos era o formato, geralmente com imagens em torno de 9,5 x Álbum de retratos 14 cm, apresentadas também sobre cartões rígidos, mas maiores, me- dindo cerca de 11 x 16,5 cm. Em ambos os formatos, geralmente, as São Carlos-SP – [Entre 1890 e 1910] imagens eram realizadas em papel emulsionado com uma camada de Papel albúmen (obtido da clara de ovo), contendo cloreto de sódio e sensi- bilizado com nitrato de prata. Conhecida como albumina, a técnica foi disseminada a partir da década de 1850. Na coleção de fotografias do museu de Limeira, consta um ál- bum formado por cerca de 13 retratos fotográficos no formato car- te-de-visite. Nele, verifica-se inicialmente a fatura do próprio álbum, realizado em couro trabalhado no exterior com motivos ornamentais. No interior constam páginas em formato de gavetas com molduras nas quais as imagens são encaixadas. Na sua maioria as fotografias são de autoria de F. Pérez & Comp, da cidade paulista de São Carlos. O fotógrafo Felemon Perez atuou com estúdio do final do século XIX a meados iniciais do século XX em São Carlos, com sucursal na cidade de Araraquara, onde deixou grande quantidade de imagens sobre a cidade e seu desenvolvimento. Há nas coleções do museu fotografias de autoria de outros estú- dios e fotógrafos, como um retrato de autoria de José Vollsack, fotó- grafo austríaco que chegou ao Brasil por volta de 1875. Inicialmente, Vollsack atuou como gerente da Photographia Allemã de Alberto Henschel (1827-1882) em São Paulo. Com a morte de Henschel, em 1887 a viúva, Esther Henschel, transferiu o estúdio a Vollsack que mudou o nome comercial para Henschel & C. em 1891, dirigindo-o até 1912. A imagem do acervo, datada de 10 de fevereiro de 1901, é um retrato de Aurora de Barros Monteiro, casada com o limeirense Luciano Esteves dos Santos Júnior (1875-1922), advogado e promo- tor público nas cidades de Sorocaba e Ribeirão Preto, tendo também atuado como juiz de direito nas cidades de Avaré e Descalvado. Além deste exemplo, cita-se o retrato do próprio Dr. Luciano Esteves, de autoria de Freitas & Castillo de Buenos Aires, Argentina, estúdio aberto em 1892 e de grande prestígio na cidade. 44 | A documentação fotográfica no acervo do museu \"Major José Levy Sobrinho\"

FREITAS & CASTILLO J. VOLLSACK Retrato de Luciano Esteves dos Santos Júnior Retrato de Aurora de Barros Monteiro Buenos Aires, Argentina - entre 1890 e 1910 São Paulo, SP – 10 de fevereiro de 1901 Papel Papel Ana Cláudia Cermaria Berto | 45

Em Limeira, o primeiro nome que se tem notícia e docu- mentação é do italiano Tommaso Ceneviva, que se instalou na ci- dade no ano de 1907. Já em 1908, conforme edição do Il Patriotta de 21 de dezembro 1908, Ceneviva é citado como correspondente do periódico no estado de São Paulo. Na cidade, registrou eventos e produziu retratos. Entre os filhos de Tommaso, destaca-se Antônio Ceneviva, que trabalhava com ci- nema e fotografia, sendo caixeiro viajante e também correspondente do jornal italiano Fanfulla. A ativi- dade fotográfica ainda continuou nas gerações subsequentes, sendo que Antônio e sua família muda- ram-se para São Carlos em 1933, cidade onde a família já tinha parentes, instalando um estúdio onde atuou o filho Thomaz, per- manecendo ativo até os dias atuais. TOMMASO CENEVIVA Residência do Dr. Luciano Esteves dos Santos Júnior Limeira, SP – Entre 1907 e 1920 Papel 46 | A documentação fotográfica no acervo do museu \"Major José Levy Sobrinho\"

Sabe-se, em informação de 1926, que o estúdio fotográfico da ESTÚDIO CENEVIVA família Ceneviva estava localizado na Rua Carlos Gomes. O estúdio Álbum da Terceira Festa da Laranja permaneceu com os familiares, sendo fundado a Photo Ceneviva, sob Limeira, SP – Entre 9 e 17 de maio de 1953 a liderança do neto, Thomaz Ceneviva. Além das atividades voltadas à fotografia, a família também atuava no ramo industrial com a empresa Papel e madeira Ceneviva & Filhos, importadores e industriais. Além dos já aponta- dos, havia ainda outros fotógrafos e estúdios em Limeira, como Noé Pelegrini, Foto Sthalberg, Foto Leoncini, bem como centenas de fo- tógrafos amadores que ainda carecem de identificação. A. STELLA Retrato do Major José Levy Sobrinho Limeira, SP – 1940 Papel ESTÚDIO CENEVIVA Grupo de Marianos Limeira, SP – Entre 1920 e 1940 Papel Ana Cláudia Cermaria Berto | 47

As fotografias devem ser interpretadas não apenas pelo que re- presentam visualmente, mas devem ser analisadas dentro de seu con- texto de produção (econômico, político, social e cultural), o que in- clui seu produtor (fotógrafo ou estúdio), o local e período da fatura, a técnica utilizada, sua finalidade e quem a encomendou. Não devem, portanto, ser usadas como expressão livre da realidade. Ademais aos temas, as imagens permitem a investigação de diversas questões que vão da história das práticas de sociabilidades e do cotidiano, à história da moda, dos ofícios, da arte e da arquitetura, entre outros. A foto- grafia ajuda a narrar como as formas de visualidade são construídas ao Família do Desembargador Gastão de Souza Mesquita Limeira, SP? - Entre 1900 e 1929 Papel 48 | A documentação fotográfica no acervo do museu \"Major José Levy Sobrinho\"


Like this book? You can publish your book online for free in a few minutes!
Create your own flipbook