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Pela Voz de um Gato Pardo

Published by Estudio Fulber, 2022-07-13 21:26:44

Description: Livro escrito por Maurício Fülber e ilustrado por Vergílio Lopes.

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Secretaria Municipal da Cultura de Novo Hamburgo, apresenta: -3-

ID do Direito Autoral (CBL): DA-2022-022929 -4-

Guia de Capítulos Parte I | Eventos Caóticos na Cidade de Palasita Cap. 01 | O Tratado dos Peixes Cap. 02 | Histórias de Ovelhas Cap. 03 | Gatos e Colares Cap. 04 | Encontro Auspicioso Cap. 05 | Projétil Cap. 06 | Vejamos, Gato.. Cap. 07 | Rechegar Cap. 08 | Salão de Jogos Cap. 09 | Quedas D’água, Frio e nos Perdemos Parte II | Os Rebeldes da Ilha de Turquoise Cap. 10 | O Palácio e Algumas Explicações Cap. 11 | Galos, Folgas e Ovelhas Revoltosas Cap. 12 | Um Canto Perturbador Cap. 13 | Alergia, Rinite e Clima Temperado Cap. 14 | A Biblioteca da Multileitora Cap. 15 | O Grande Torneio de Um Embate Só Cap. 16 | Elo -5-

Parte III | O Laboratório de Rubicântigo Cap. 17 | A Borboleta Acidental Cap. 18 | A Vontade Heroica Cap. 19 | O Resultado do Duelo Cap. 20 | Flechas!!! Cap. 21 | Divisão Cap. 22 | Mas que #&@*%! Cap. 23 | Um Par de Vasos Cap. 24 | Hermessim & Kyrily Cap. 25 | Desvios de um Resgate Cap. 26 | A Profecia Interpretativa Cap. 27 | Novas Alianças Cap. 28 | Lendas e Boatos Parte IV | A Filosofia dos Múltiplos Resgates Cap. 29 | A Prisão Pendular Cap. 30 | O Diário do Gatinho Cap. 31 | Segunda Chance Cap. 32 | Arsenal Subaquático Cap. 33 | Parcelamento de Si Cap. 34 | Invasão Descoordenada Cap. 35 | O Chá das Onze -6-

Parte I | Eventos Caóticos na Cidade de Palasita -7-

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Capítulo 1 O Tratado dos Peixes \"Toda história começa com um herói – disse o narrador – mas nem sempre esse herói sabe de sua real importância. Narai era um gato de rua, falante, como todos os animais dessa história, e pardo, como poucos outros serão, que vivia entre os becos, eventualmente roubando uma comida aqui e outra ali, quando não conseguia algo de alguém. Nunca teve um dono, nasceu na rua junto com outros dois irmãos que ele não faz a menor ideia de onde estejam, mas que ele espera sinceramente que tenham encontrado um lar. Nesse momento Narai está fugindo de um cachorro que costuma persegui-lo com certa frequência, pois pertence ao dono da loja da esquina, a Peixaria Bonfin, da qual Narai costuma surrupiar um peixe ou outro de vez em quando. Não que o cachorro se importe, mas é aquela velha história, sempre bom mostrar serviço para o seu dono, no caso, o Sr. Mário Bonfin, dono da peixaria que ele herdou de seu pai, Ricardo Bonfin, que por sua vez herdou de seu avô Teófilo Bonfin, que por sua vez não herdou nada de ninguém e começou esse negócio sozinho. Teófilo sim era um homem bom e sempre alimentava os animais abandonados, traço esse que não foi herdado por Mário Bonfin que, por sua vez, é o responsável pela perseguição que ocorre em frente a sua loja nesse momento pois gritou -9-

“Pega!” para seu cão quando viu que o gato havia lhe tomado um peixe. - Você não aprende mesmo! - disse o cachorro enquanto desviava de um hidrante, fazendo uma curva fechadíssima à esquerda que surpreendeu Narai, enquanto este saltava por sobre uma caixa de maçãs para pegar impulso. - Afrendar asrera quaisjo? – disse Narai com certa dificuldade por causa do peixe em sua boca. - O quê? Tira esse peixe da boca pra falar! Tenha um mínimo de educação! Nesse momento Narai parou, tirou o peixe da boca e ficou esperando o cachorro se aproximar. - Meu querido Arabás – disse ele (aliás, Arabás é o nome do cachorro) – sejamos práticos hoje. Você me deixa levar esse peixe e eu te economizo uma corrida. Arabás parou bruscamente para ouvir o gato falar com toda a tranquilidade do mundo. Pegou dois pequenos caixotes e os posicionou, oferecendo assento para Narai. - Se quiser se sentar - disse o cão. - Ah, claro, vai ter chá também? - Chá não, mas podemos conversar um pouco sobre algumas coisas. - Sou todo ouvidos. - De fato estou cansado de te perseguir. - Até porque você nunca me alcança. Fico me perguntando o que o seu dono acha disso. - 10 -

- Ele valoriza o meu esforço, eu acho, mas acredito que com o tempo ele vá querer me trocar por um cão um pouco mais violento.. Nesse momento o coração de Narai disparou. Fugir do Arabás era fácil, agora fugir de outro cão, e ainda por cima um mais violento, talvez fosse mais complicado. Arabás continuou: - Se nós pudéssemos criar algum tipo de esquema de auxílio mútuo. - Esquema de Auxílio Mútuo? – perguntou, mais para mostrar que estava acompanhando o raciocínio do que para perguntar alguma coisa mesmo. - Sabe, o famoso “eu te ajudo e você me ajuda”. É de vasto conhecimento de qualquer ser que deseja alguma coisa que uma linha reta é o meio mais fácil para se ir de um ponto a outro. Esse pensamento passou pela cabeça de Arabás quando ouviu o gato dizer sua última frase. Não que ele fosse um cachorro corrupto, era só preguiçoso mesmo, sendo que se ele pudesse não ir de qualquer lugar para nenhum outro, fosse em linha reta, curva, triangular ou elipsoidal, ele preferiria. - O que você tem em mente? – perguntou o gato, soprando uma mosca que havia pousado no peixe. - Veja pelo meu lado; eu preciso mostrar que sou útil ao meu dono impedindo que você ou qualquer outro gato, animal ou mesmo ladrão roube os peixes, eu sou uma espécie de segurança canino como você já percebeu. Pra isso eu preciso fazer com que meu dono perceba que estou realizando um bom trabalho e, logicamente, eu preciso de - 11 -

algumas “provas”. Claro que essas “provas” não precisam ser, necessariamente, reais. Consegue entender onde eu quero chegar? - Acho que sim. Você quer fazer um teatrinho comigo, isso? - Basicamente. Hoje, por exemplo, seria ótimo se eu pudesse levar esse peixe de volta. - Mas e eu? Fico sem o peixe? O que eu ganho com isso? - Claro que não. Pensa comigo: eu volto com o peixe, meu dono fica feliz, joga o peixe no lixo, eu pego ele do lixo e te levo nos fundos da loja um pouco mais pela noite. - Pode funcionar.. - O que você acha? Negócio fechado? - Negócio fechado! Narai entrega calmamente o peixe para Arabás, que o pega e começa a se afastar enquanto diz: - Dez horas, não se atrase! - Estarei lá! “Vez por outra, nessa vida, as coisas realmente se resolvem de maneira civilizada” – Narai pensou enquanto via Arabás se afastando. De fato, nessa vida, muito pouco se discorre pela lógica ou pelo menos com uma conversa honesta. Bondade e compaixão são qualidades tão raras que antes de acreditar nisso preferimos assumir de antemão que ninguém possui esses atributos. Pensar o contrário disso trouxe um sorriso ao rosto do gato que agora ia em direção à casa de uma - 12 -

outra gata, chamada Lundra, com quem havia combinado de se encontrar. Lundra era uma gata atípica, possuía o pelo cinza brilhante como se uma estrela houvesse borrifado nela e a deixado assim. Seus olhos também não eram comuns, sendo cada um de uma cor diferente, um azul e outro verde, cor de vento e cor de mar. Sua dona era uma menina de oito anos chamada Mirella, filha de um casal muito rico que trabalhava com consultoria imobiliária. Por vezes Narai se sentia hipnotizado olhando para ela, imaginando como seria ter um olho de cada cor, se isso traria algum benefício além de, a cada vez que ela piscava, ele não saber qual olho abriria azul e qual olho abriria verde. Por um tempo ele pensou que esse efeito fosse por conta da luz, ou porque sua memória de fato estava ficando um pouco ruim, e como não conhecia ninguém além dele mesmo que conhecesse aquela gata, a dúvida ficava no ar: os olhos mudavam mesmo de cor ou seria apenas um aviso para que ele fosse ao veterinário? Se fosse mesmo um aviso não faria a menor diferença, afinal, ele não conhecia nenhum veterinário. Pelo menos nenhum que não quisesse levá-lo para uma casa de adoção. Apesar da dificuldade de viver nas ruas, Narai gostava de sua liberdade. Ao mesmo tempo em que não gostava de ver Lundra presa. - 13 -

Capítulo 2 Histórias de Ovelhas A Mansão dos Schopenfraulein, tal qual o livro do filósofo de mesmo nome, não apenas parecia ser de origem alemã como também parecia ter sido construída por alemães, em uma cidade alemã, e posteriormente trazida por um navio alemão para a cidade - essa sim nem um pouco alemã - onde se encontra nesse momento: Palasita. Esse pode parecer um nome estranho para uma cidade tão cheia de animais falantes mas, se formos pensar um pouco, qualquer cidade que possua mais do que trinta e sete animais falantes pode ter o nome que bem quiser visto que, no momento em que trinta e sete animais adquirem tamanha consciência da vida, o nome da cidade pouco importa. Em compensação, as pessoas que vivem em Palasita se preocupam muito com o nome da cidade, talvez por não se importarem tanto assim com o sentido da vida e o motivo para sua existência, o que deixava alguns dos animais um tanto quanto tristes. Palasita foi construída numa época que não se sabe quando, por pessoas que não se sabem quem, por motivos desconhecidos. Esse excesso de falta de informação deixou a cidade com um aspecto um tanto quanto exótico, atraindo muitos turistas que vinham em busca de coisas divertidas e acabavam voltando para casa com iguarias culinárias e um monte de histórias inventadas pelos moradores. - 14 -

Uma das mais interessantes delas remete ao início da construção do moinho da cidade e conta como Emmanuel, com apenas um martelo, oito caixas de pregos, um serrote e um machado, construiu, sozinho, em apenas uma noite, a estrutura inteira do moinho e ainda fez um canteiro de Lírios ao redor da construção. Muitos dizem que ele teve ajuda de um rebanho de ovelhas que passavam por ali naquela madrugada, mas Emmanuel garante que o mais próximo que ele ficou de uma ovelha naquela noite foi ao contar carneirinhos enquanto tentava dormir. Muitas outras histórias se escondem por detrás da criatividade dos moradores de Palasita que, até hoje, continuam enriquecendo o enredo de seu famoso “Grande Livro das Lendas Históricas de Palasita”, que recebe várias críticas por, a cada nova edição, acrescentar um capítulo para frente e dois para trás, o que deixa muitas pessoas ressabiadas em relação a veracidade dos fatos apresentados. A Mansão dos Schopenfraulein era habitada por três humanos e quatro gatos, além de um grande número de funcionários que executavam diversas tarefas diariamente numa precisão milimétrica, iniciando invariavelmente às 8h43min da manhã e concluindo às 10h37min da mesma manhã, dando lugar aos preparativos do almoço que era servido às 12h pontualmente. Lundra ficava impressionada com a quantidade de pessoas que eram necessárias para servir sua ração, ao mesmo tempo em que imaginava como seria sair daquela rotina e viajar. Por um lado era bom, pois ela sabia que exatamente no mesmo momento de cada dia ela seria - 15 -

alimentada, banhada, escovada, passaria determinado tempo brincando com os filhos de seus donos, sendo acarinhada e mimada por eles, até o momento em que seria alimentada de novo e enfim dormiria ao som de música clássica. Mas faltava algo. De vez em quando ela conseguia escapar dos olhares atentos de seus criadores e escalava o muro da mansão, indo por dentro de uma fresta que criava uma pequena escada que a permitia subir sem grandes esforços até o topo, de onde conseguia ver o pôr-do-sol, e ficava imaginando como seria andar por uma grama que ela ainda não havia andado. O sonho de se libertar de uma monotonia que ela sabia ser o desejo de uma infinidade de gatos que não tinham metade do que ela tinha. Mas, ainda assim, ela queria ver o sol se pôr em outros lugares. - Chega a ser engraçado te ver aí tão alto! – disse Menphis, a gata negra de olhos azuis que morava na mesma mansão que Lundra. – Não sei se torço pra que você caia do lado de cá ou do lado de lá! - Você sentiria a minha falta, eu sei. - É bem provável que sim, mas te ver olhando por sobre o muro sempre me dá uma certa tristeza por ti. - É bonito aqui, você devia subir algum dia – disse Lundra, dando um pequeno sorriso para Menphis. - Acho que eu tenho medo da altura. Ou talvez medo de me encantar pelo sol como você. - Prometo que pro lado de lá eu não te deixo cair. Menphis olhou em volta, averiguando se alguém estava por perto enquanto, em seu coração, algo lhe dizia - 16 -

que aquele seria um bom momento para ver o sol se pôr. Uma vontade grande de saber o que existiria além do muro se apossou dela: - Talvez em outra oportunidade – e sua pata se fechou com força, como se as palavras não fossem aquelas, mas estivessem ali mesmo assim. Lundra desceu por dentro do muro e foi para junto de sua companheira. As duas seguiram de volta para dentro da casa, pois já era quase hora de se alimentarem e não seria bom preocupar seus cuidadores com sua ausência. - Ele vem hoje? – perguntou Menphis. - Ele vem sempre. Mesmo quando não vem - respondeu Lundra, olhando para a lua que já começava a aparecer. - 17 -

Capítulo 3 Gatos e Colares Narai escorregava pelas telhas do alto das casas que faziam o caminho para a mansão dos Schopenfraulein, deslizando sem medo e saltando de uma casa para outra com grande precisão. Em alguns momentos parecia até voar e, nesses momentos, ele realmente sentia, por um par de segundos, que seu corpo era mais leve que o ar, que a gravidade não fazia parte de suas leis e se sentia flutuando, voando no espaço. Por vezes ele fechava os olhos e fingia não ser nada além de uma brisa naqueles poucos segundos em que suas patas e o chão se afastavam, dando-lhe tempo de imaginar o que quisesse, se sentindo livre do mundo e de todos os muros que o impediam de voar. Minutos depois, ele saltou pelos telhados das últimas casas antes da mansão onde Lundra estava. Ela, por sua vez, havia acabado de descer do muro que cercava a mansão depois de uma conversa com sua amiga Menphis, a qual não tinha lá muita certeza sobre o que gostaria realmente de fazer da vida. Por vezes Lundra tentava levá-la para alguma aventura, mas ela sempre inventava alguma desculpa para não acompanhar a amiga. Ainda assim, era uma gata muito inteligente e boa de se conversar. Se gatos usassem óculos provavelmente Menphis usaria óculos, mesmo que não precisasse, mas para demonstrar um ar de inteligência comum que possuem as pessoas que usam óculos. - 18 -

Narai, como de costume, deu um leve chiado previamente combinado com Lundra, um chiado que originalmente era para parecer ser o canto de uma coruja, mas a falta de habilidade de Narai em reproduzir esse som o transformou num chiado de gato tentando imitar o canto de uma coruja. Menphis sempre ria quando ouvia esse som e, como ela havia apostado que adivinharia que som era aquele, arriscou um palpite: - Estática de televisão? - Não, bem longe disso! - respondeu Lundra, vendo uma leve expressão de decepção no rosto de sua amiga. Narai chiou novamente de cima do muro, aguardando uma resposta, que logo veio: - Só um segundo! – sussurrou Lundra, alto o suficiente para que ele ouvisse. – Preciso pegar uma coisa pra você. - Eu espero aqui, em cima do muro mesmo? - Sim, já subo aí com você – disse ela, entrando dentro de sua casinha, onde havia escondido um pequeno presente que terminara de confeccionar naquela tarde. Era uma espécie de colar feito de sementes que ela mesma havia colhido no quintal. Ela colocou em volta de seu próprio pescoço e saiu de sua casinha, indo em direção ao muro, subindo rapidamente pela fresta dele, em sua pequena escada improvisada, alcançando o ponto onde Narai estava. Chegando lá ela não o viu, pois enquanto subia pela fresta do muro ela não conseguia enxergá-lo, e chegando no topo não o encontrou, se sentindo sozinha por um segundo, até sentir o abraço vindo do lado - 19 -

contrário para o qual ela estava olhando, sendo surpreendida por ele. Os dois ficaram ali, abraçados por alguns segundos antes de se soltarem e dizerem as primeiras palavras daquela noite: - Você está adiantado! – disse Lundra – Eu estava indo agora receber a ração dos criadores, você precisa ir antes que eles cheguem e te vejam aqui. - Sem problemas, eu logo me vou, só precisava aproveitar essa oportunidade pra vir te dar um abraço. - Ou você é muito romântico ou é muito malandro. - Ou talvez um pouco dos dois, o que não diminui a minha alegria em estar aqui contigo – e um sorrisinho brotou no canto da boca de Narai, seguido de uma risada quase imperceptível de Lundra. - Você precisa ir logo – disse ela. - Eu sei, inclusive, me vou agora nesse instante! E, se virando num salto, pulou para o galho de uma árvore que ficava próxima ao muro. - Espera! – disse Lundra, que ainda não havia entregue seu presente. – Eu fiz isso pra você. Narai saltou de volta para junto de Lundra, que colocou o colar em seu pescoço, dizendo: - Pra te proteger quando eu não estiver por perto, afinal, eu sou bem mais forte que você. - Não é não, mas eu vou fingir que é pra poder levar o colar comigo – brincou ele. - Agora vai, antes que alguém te veja e eu de fato precise te proteger. - 20 -

- Até logo então – disse ele, saltando novamente para o galho e sumindo por entre os prédios. Lundra ainda ficou alguns segundos olhando enquanto ele se afastava, pensando que logo mais chegaria a hora de ir junto com ele, quando pudesse realmente confiar naquele gato. - Você ainda tem dúvidas, não é? – perguntou Menphis quando Lundra desceu do muro pela mesma fresta que sempre usava. - Algumas, mas eu sinto que não precisava delas. Ainda me parece que um grande evento está prestes a acontecer e depois dele tudo vai mudar. Por isso ainda não é o momento de ir, mas sinto que em breve. E é melhor você decidir logo se vai comigo ou não. O coração de Menphis acelerou por um segundo. - Eu não sei – respondeu. - Na hora você vai saber – disse Lundra, passando a pata pela cabeça da amiga, indo com ela pro ponto onde sempre esperaram a ração. - 21 -

Capítulo 4 Encontro Auspicioso “Quase na hora”, pensou Narai, deslizando novamente pelas calhas dos telhados. Pensamento curioso. Analisemos. Ele não tem relógio. Fim da análise. Arabás já estava esperando pelo gato no local combinado: a parte de trás da Peixaria Bonfin cujo slogan era o criativo: “Filho de peixe, Bonfin vende”. Nunca funcionou. Nunca mudaram o slogan. Que continua não funcionando até hoje. Mas como ponto de encontro para animais falantes funcionava. Narai escorregou pela lateral de uma parede, dando um salto final até o meio do lugar, a uns dois metros de distância de Arabás. - Você está atrasado – disse o cão. - Eu não tenho relógio – respondeu o gato. - Nem eu – retrucou o cão. - Então como você sabe que eu estou atrasado? – perguntou o gato. - Pela posição da lua – mentiu o cão. - Lorota! – percebeu o gato. - Verdade – admitiu o cão. - Meu peixe? – solicitou o gato. - Aqui – concluiu o cão, jogando uma espinha de peixe roída aos pés de Narai, que se espantou ao perceber que aquele encontro não estava indo muito bem. - 22 -

Um outro cão, preto e um pouco menor que Arabás, surgiu por entre as sombras, seus olhos um pouco vermelhos, piscando excessivamente. - Seu peixe não vem sendo bem alimentado ultimamente, acredito que seja desleixo seu ou quem sabe nem seja o mesmo peixe. Na verdade não é o mesmo peixe porque o Arabás devolveu pro dono dele o peixe que você tinha roubado e o sem vergonha vendeu ele mesmo assim. Na verdade essa espinha o Arabás encontrou no lixo, ele ficou revirando o lixo até agora há pouco, desesperado que não ia encontrar uma espinha pra fazer aquela cena linda em que ele joga ela perto de ti e te dá um baita de um susto! Não deu um minuto que ele achou isso e você chegou! Bem na hora! E ele ainda teve a pachorra de dizer que você estava atrasado.. – disse o novo cão enquanto Arabás olhava pra ele e balançava a cabeça negativamente pensando em como esganá-lo. - Quieto! – disse, enfim. – Não interessa de onde veio a espinha! - O importante é o efeito cênico, não é? – respondeu o cão preto. - Que efeito cênico o que? O importante é pegar esse gato e encher ele de pancada! - Então melhor não deixar ele fugir.. - Ele não vai fugir! - Ele já fugiu.. Arabás se virou novamente para onde o gato estava e percebeu, estarrecido, que Narai tinha se mandado mesmo. - 23 -

A alguns metros dali, o gato estava correndo com tanta pressa e vontade de escapar que, em vários momentos, arriscou manobras perigosíssimas que quase o fizeram bater nas latas de lixo, em algumas paredes, num paralelepípedo, num papagaio maltês, que proferiu algumas palavras irritadiças de tradução desnecessária em Japonês, e por uma poça de água. Narai escorregou na poça e foi lançado com uma velocidade ampliada em duas vezes pela propulsão do deslize, realizando um salto mortal de costas seguido de um giro completo no ar, pousando perfeitamente com as quatro patas, seguindo sua corrida em fuga e recebendo uma exclamação do papagaio oriental, que gritou algo que pareceu “Kawabanga!”, provavelmente uma alusão ao seriado de anfíbios ninjas que estava assistindo na televisão do apartamento em que residia. Não que essa informação seja importante pra essa história, mas pareceu digna de menção honrosa. Arabás e o outro cão, que por falar nisso se chama Júìto, seguiram no encalço de Narai, tentando a todo custo alcançá-lo antes que o perdessem de vista ou que ele atravessasse a fronteira para Nicarágua. O que acontecesse primeiro, que provavelmente seria perderem ele de vista mesmo. Para sorte dos cães perseguidores, o gato se embananou num beco sem saída, que originalmente tinha saída mas, que com a política de remodelação de ambiente urbano, havia sido bloqueada, deixando Narai sem muita opção a não ser se virar para onde veio e perceber que - 24 -

Arabás e Júìto estavam mais próximos do que ele imaginava. - Eu poderia até.. te perdoar por ter roubado aquele peixe antes.. mas eu não tenho mais idade.. pra essas corridas durante.. muito tempo.. – disse Arabás, ofegante. - Se eu soubesse disso eu nem teria fugido, custava ser um pouco mais claro? Na hora que você jogou aquela espinha pra cima de mim eu achei que era um sinal de que meus dias como gato gatuno haviam terminado – respondeu. - Não teria sido assim tão fácil escapar, claro que a gente ia te dar uma lição, mas precisava correr tanto!?! - Pelo visto eu precisava era ter corrido mais! Ainda não acredito que você vai realmente quebrar o nosso acordo de hoje de manhã, isso é tão antiético! Eu, com toda a boa vontade do mundo, fazendo um acordo extremamente vantajoso pra nós dois pra chegar aqui e ser ameaçado! Isso é um ultraje! Eu exijo meu advogado! - E desde quando gato de rua tem advogado? – perguntou Arabás. - Eu não lembro de bicho nenhum até hoje ter tido um advogado, viu – interrompeu Júìto. - Não interessa! Ninguém aqui tem advogado e isso vai ser resolvido do jeito que as coisas são resolvidas na rua! – esclareceu o cão. - Com um abraço? – arriscou o gato, sem muita esperança. – Tenho te sentido tão carente ultimamente, Arabás. Talvez seja a falta de amigos ou de uma - 25 -

companheira que te entenda e te coloque pra dormir no colo dela. Arabás imaginou a cena por um segundo, fechando os olhos e dando um suspiro. - Sabe que às vezes eu me sinto meio sozinho mesmo? – disse. – Eu preciso ficar mantendo essa pose de durão, fingindo que ainda dou conta de correr atrás de gatos, gambás, pássaros, lebres e toda uma infinidade de bichos que aparecem lá na Peixaria.. Eu também tenho sentimentos sabe, queria alguém que pudesse me dizer uma palavra de carinho, passar a pata na minha cabeça e me dizer que eu estou indo bem. - Você tá indo bem, sim – disse Júìto, passando a mão na cabeça do outro cão, que olhou pra ele com um grande estranhamento. – Eu também me sinto assim às vezes. Falta um abraço amigo, um pouco de compreensão, alguém que veja além dos meus defeitos e dos meus escudos, que perceba quem eu sou realmente, por trás de toda essa casca grossa de cão perseguidor. - Exatamente! – consentiu Arabás, abraçando o companheiro e caindo no choro junto dele. Enquanto isso, Narai olhava totalmente descrente daquilo que estava acontecendo na sua frente. Emocionado, foi se aproximando deles e os abraçou também, derramando uma lágrima enquanto falava: - Eu entendo tão bem isso tudo! Vocês até que são boas pessoas, apesar de não serem nem pessoas. - 26 -

Nesse momento Arabás largou Júìto e segurou o pescoço de Narai, empurrando sua cabeça contra o chão em uma chave de pata. - Não achei que seria tão fácil enganar você, gato – disse o cão. - Mas era mentira? – indagou Júìto, que ainda não havia se recuperado do momento altamente emocional do instante anterior. - Claro que era mentira! Só pra enganar esse gato de coração mole aqui. - Ah, claro, claro. Eu sabia – disse o outro cão, mas ninguém acreditou. - E agora, voltando aos nossos negócios, gato. Gostaria de saber quais são os meus planos pra você? - Na verdade, gostaria sim. Me parece tão promissora a situação atual, tantas possibilidades! – respondeu o gato, deixando Arabás confuso por um segundo. - Possibilidades? Não tem muitas possibilidades pra você, não. Confesso que eu não cheguei a planejar muito o que vem a seguir, mas sei que inclui te amaciar de pancada! - Não sei. Parece tão bárbaro isso, não podemos apenas conversar um pouco? Sermos animais civilizados pelo menos uma vez? - Isso não é uma opção. O único jeito de você sair dessa, gato, é com um milagre. - E qual seria a sua definição de milagre? – indagou Narai, obviamente tentando ganhar tempo para pensar. - 27 -

- Acredito que um evento não esperado que te tirasse dessa situação. Isso seria um milagre. - E se por acaso aparecesse um ser mágico e místico que brandisse um graveto e me tirasse daqui? - As chances disso acontecer estão contra você. - Só um segundo então – pediu o gato, que continuou a frase gritando para um ser mágico e místico que brandia um graveto e estava se preparando para tirar ele daquela situação. – Você pode me ajudar? - Vim aqui só pra isso – respondeu o ser mágico, para o desespero de Arabás, que o olhou de relance e só viu um pequeno raio vindo do graveto em sua direção e o lançando pra longe de Narai. - 28 -

Capítulo 5 Projétil Ao ser atingido pelo raio, Arabás pensou em algumas coisas. Entre elas o quão cansado estava por ter corrido tanto atrás daquele gato maldito. Pensou também numa cadela que ele tinha achado muito bonita no dia anterior. Lembrou que ela havia olhado para ele por um instante quando passou pela rua na frente da Peixaria Bonfin, sendo colocada ao lado de um poste, presa pela coleira, do lado de fora de uma loja de roupas femininas, pois sua dona havia entrado para fazer compras e a cadela havia ficado do lado de fora. Arabás ficou olhando para ela que, depois de algum tempo, percebeu e retribuiu seu olhar. Os dois deram um pequeno sorriso tímido. Naquele momento Arabás também estava preso pela coleira do lado da Peixaria, pois era cedo da manhã e ela ainda estava fechada, mas se esqueceu disso e tentou ir em direção a ela, sendo impedido pela coleira em seu pescoço, que o segurou tão forte que o fez escorregar no chão. A cadela deu uma risada e o cão ficou em dúvida se havia agradado ela com seu tropeço ou se ela o achara um bobo. Ele se sentiu um pouco envergonhado e permaneceu parado por alguns instantes. Ela tentou ir na direção dele e também foi segurada pela sua coleira, imitando a situação que ocorrera com cão, demonstrando que não havia sido nada muito constrangedor. - 29 -

Nesse momento a porta da loja de roupas femininas se abriu e a dona dela saiu de lá, desenrolando a coleira do poste e seguindo seu caminho levando a cadela junto, que ainda fez um pequeno esforço pra ir na direção de Arabás, mas fora puxada de volta por sua dona, que não entendeu o motivo daquela tentativa de mudar o caminho. Ele tentou novamente forçar a coleira e se soltar, mas acabou escorregando novamente, vendo a cadela sorrir mais uma vez por causa disso antes de dobrar a esquina e desaparecer. O raio que atingiu Arabás tinha essa propriedade, ele trazia memórias boas que poderiam trazer algum significado para aqueles que fossem atingidos por ele. Quando acordou, horas depois, sem saber direito o que havia acontecido, o cão simplesmente levantou e saiu em busca da cadela que a coleira o havia impedido de alcançar e, levasse o tempo que fosse, ele prometeu que a encontraria. - 30 -

Capítulo 6 Vejamos, Gato.. - Deixe-me olhar bem pra você – disse o ser mágico indo em direção a Narai e retirando uma listinha de sua bolsa. – Gato: Confere. Pardo: Confere. Local: Confere. Horário... Estamos uma hora adiantados, mas acredito que isso não queira dizer muita coisa. Ganhamos uma hora a mais para descansar no meio do caminho até o Arquipélago de Pedra, então. Começamos bem essa jornada! - Arquipélago de Pedra? Jornada? Do que você tá falando? - perguntou o gato, passando a pata pelo pescoço para aliviar a tensão. Narai estava extremamente aliviado por ter sido salvo mas, ainda assim, muito confuso com tudo que estava acontecendo. Ele nunca vira um ser daqueles e, apesar de ter percebido que aquela criatura não era deste mundo, manteve a calma e continuou conversando como se fosse tudo normal e que esse tipo de coisa acontecia constantemente com ele. Dali pra frente esse tipo de coisa realmente aconteceria com frequência em sua vida mas, naquele momento em específico, ele só estava fingindo. - Você não sabe? Pois deveria saber! Da profecia pelo menos você sabe? – disse o ser mágico, que até agora não foi descrito. - Deveria? Narai ficou ainda mais confuso e tentou escolher o melhor plano de ação para aquele momento: - 31 -

a) Fingir que sabia o que estava acontecendo e seguir o baile; b) Ser honesto e dizer ao ser mágico que ele não fazia a menor ideia do que estava acontecendo ali; c) Dar no pé o mais rápido possível antes que ele também fosse alvo daquele raio; d) Dançar uma valsa com um parceiro imaginário; e) Contar de 32 a 0 de trás pra frente dando pequenos saltinhos numa perna só; f) Realizar uma performance misturando todas as alternativas anteriores; E, entre todas estas opções fabulosas, ele escolheu a mais simples de todas: Perguntar se choveria. - Será que chove? - Acho difícil, meu joelho não tá coçando – respondeu o ser mágico. – Será que podemos ir agora? - Claro! – consentiu o gato que, a essa altura do campeonato, já estava no lucro e não via com bons olhos contrariar aquela criatura. E, por falar nisso, a criatura parecia um pequeno homenzinho arbóreo de madeira, do tamanho de um gato, com pequenos galhos saindo de seus cotovelos e outros ligamentos entre os membros. No lugar do cabelo, ramos de folhas verdes completavam seu visual que, apesar de se parecer com um pequeno homem-árvore que não precisaria de roupas, as usava mesmo assim. Além do cajado extremamente útil para situações de perigo, como pôde ser observado anteriormente. - 32 -

- Mas, primeiro - continuou Narai –, preciso saber direito o que está acontecendo aqui. Você veio me encontrar? - Sim, diz a profecia da nossa terra que eu encontraria nesse beco, desse mundo, aproximadamente nesse horário, um gato pardo que seria o salvador do Arquipélago de Pedra. - Entendo. E qual é o plano? - O plano é simples, te levar até a Ilha principal. - E depois? - Vão ter umas batalhas, uns enigmas, umas masmorras, talvez uma ou outra guerra. O de sempre dessas profecias. Mas, se eu fosse você, não me preocuparia, afinal, você tem o poder pra nos salvar! - Tem certeza? - Na verdade a profecia é um pouco passível de interpretações. Numa delas você tem o poder pra nos salvar, numa outra você só vai durar um par de dias e depois vai ser engolido por uma baleia gigante. Ah, tem uma interpretação que diz que você nem é um gato, mas um Periquito Pardo! Já imaginou? Um periquito! Não sei quem veio com essa, mas a criatura tem muita imaginação! - Não consigo nem discordar do excesso de imaginação de tudo que eu ouvi hoje. Mas preciso ser sincero, não acredito que eu seja o gato certo. - Na profecia diz que o gato certo não se sentiria digno da honra de ser o gato certo. E diz também que ele estaria segurando uma espinha de peixe. - 33 -

- Que precisa essa profecia – disse o gato, que acabara de perceber que ainda estava segurando a espinha de peixe que Arabás havia jogado aos seus pés. – Que seja então! É muito longe esse lugar pra onde vamos? - Na verdade não, conseguiremos chegar ao final do dia de amanhã se sairmos logo. - E como é esse lugar? - É lindo, estamos enfrentando alguns problemas políticos que nossa Rainha vai te explicar melhor, mas é um lugar mágico onde todos podem viver felizes, desde que cada um cuide da sua vida e não se meta na dos outros. Nesse momento Narai começou a pensar que talvez fosse uma boa ideia acompanhar aquele ser mágico até esse lugar mágico para ter uma aventura mágica e terminar levando uma vida mágica com Lundra. - Eu preciso levar alguém comigo. Tem uma gata que mora em uma mansão nos arredores daqui. Eu vou com você, mas preciso primeiro resgatar ela pra levá-la junto comigo. - Não dizia nada sobre isso na profecia. - Talvez seja só uma questão de reinterpretação – arriscou Narai. - Talvez seja. Vamos resgatar essa gata e chegando lá descobrimos os detalhes da profecia. Ela é muito grande, eu também não consegui decorar tudo. E se formos logo, com um pouco de sorte, chegaremos a tempo do festival de frutas de lá. Você vai adorar! - 34 -

Narai não pôde deixar de notar o quão atípico foi aquele dia. Mas tudo bem, estava salvo e com bons planos futuros. Talvez um pouco perigosos, mas promissores. No momento em que o ser mágico e o gato tomaram rumo em direção da residência de Lundra, um outro gato, também pardo, chegou no local, exatamente uma hora depois de Narai, e ficou lá, esperando algo acontecer. Júìto, que foi ignorado por todo mundo até agora, se aproximou do novo gato e sentou ao seu lado. - Meu, você não vai acreditar no que aconteceu aqui.. - 35 -

Capítulo 7 Rechegar Lundra não esperava uma segunda visita de Narai naquele mesmo dia, então estava brincando com um novelo de lã que conseguiu pegar sorrateiramente de uma das funcionárias dos Schopenfraulein. Como ela não tinha muitas preocupações, costumava criar pequenas aventuras, como roubar novelos de lã e os esconder para brincar com eles durante a noite, quando ninguém pudesse ver. Narai reproduziu o chiado previamente combinado com Lundra para que ela viesse o encontrar. O ser mágico achou estranho aquele barulho e não se conteve em perguntar: - Que raios de som é esse? - Como assim? É o som de uma coruja. - Isso é uma coruja? Não, não, nem de longe. Isso aqui é uma coruja – disse ele, reproduzindo um som perfeito de uma coruja. Alto o suficiente pra acordar quem não deveria. - É o som de uma coruja! – gritou Menphis em sua casinha ao lado da casinha de Lundra, que respondeu: - Sim! Acertou! Espera, mas ele nunca acerta o som, tem alguma coisa acontecendo. As duas saíram juntas e foram em direção ao muro. Ao chegarem lá viram Narai descer por dentro do muro e ir na direção delas no gramado. - 36 -

- Você tá sem noção? Não pode entrar aqui! – disse Lundra, preocupada. - Por quê? - e nesse momento ouviu o latido de meia dúzia de cães que vinham da parte da frente da mansão. – Ah, verdade, por isso. Melhor a gente correr! Narai segurou firme a pata de Lundra e a puxou em direção ao muro. Ela se segurou por um instante. - O que tá acontecendo aqui? – perguntou. - Eu sempre disse que te levaria daqui quando fosse o momento certo, eu não sei porquê mas eu sempre soube, de algum jeito, que algo incrível aconteceria algum dia e que eu perceberia que seria esse o momento de vir aqui te buscar. Você não vai acreditar em tudo que aconteceu desde o momento em que você me deu esse colar na minha última visita, e eu não tenho tempo suficiente pra explicar agora. Eu só preciso que você confie em mim. E naquele ser mágico que tá ali em cima do muro. Que aliás foi quem imitou a coruja. - Eu sabia que não tinha sido você! – disse Menphis, percebendo que aquele não foi o melhor momento pra dizer aquilo. - Quem é ele? – perguntou Lundra. - É um ser mágico que me salvou agora há pouco de um cachorro – e nesse momento a meia dúzia de cães guardiões da casa chegaram. - Acho que não temos tempo pra mais nada, não é? – disse Lundra com um sorriso. – Eu não sei se é o certo, mas é o que eu quero. Eu vou contigo. E com essa - 37 -

criaturinha estranha ali, mas eu vou querer várias explicações depois! - Combinado! Agora vamos! Os cães começaram a correr na direção deles, mas Lundra ainda tinha um último assunto a resolver, mesmo que não tivesse tempo para isso. Olhou para Menphis como se perguntasse se ela iria junto com eles. Nesse momento o ser mágico saltou do muro se colocando entre os cães e os gatos. - Melhor vocês se decidirem logo, porque um cão eu até consegui enfrentar, mas seis vai ser um pouco difícil. - Você conseguiu enfrentar um cachorro, pedacinho de madeira? – disse o líder dos cães, que parou para olhar aquela situação. – Olha o seu tamanho, com certeza foi um cachorrinho fracote, você não teria chance contra um de nós que fosse. - Quer tentar? Eu e você? - Isso é um desafio, madeirinha? - Eu não fui suficientemente claro? Você é grande porque lhe falta cérebro? - Acho que alguém vai se arrepender muito de saber falar hoje. O líder dos cães saltou para cima do ser mágico tentando encaixar uma mordida, mas ele desviou rolando para o lado, disparando um raio que passou muito perto do cão, mas errou. - A gente precisa ir antes que isso piore ainda mais – disse Narai. - 38 -

- Eu vou com vocês! – disse Menphis. – Eu vou e espero não me arrepender disso depois! - Há uma grande chance de que eu me arrependa de ter aceitado resgatar tantos gatos! – disse o ser mágico, ainda duelando contra o líder dos cães que ordenou que os outros cães atacassem os gatos ao ver que eles iriam tentar fugir. - Peguem eles! Rápido, segurem as gatas e me tragam aquele gato! Nesse momento o ser mágico ergueu seu pequeno cajado e uma luz ofuscante deixou todos ali tontos. - Terminamos isso em outra oportunidade – disse para o líder dos cães enquanto segurava as patas dos gatos, que também estavam um pouco tontos com a luz do cajado, guiando eles até o muro. - Subam, rápido! O Líder dos Cães se recuperou mais rápido que os outros e, mesmo sem enxergar direito ainda, foi em direção ao muro. Eles já estavam na metade do caminho e o buraco era pequeno demais pra um cachorro daquele tamanho. - Nós ainda temos contas a acertar, madeirinha! - Temos sim, eu não me esquecerei disso, mas no momento preciso levar eles pra longe daqui. Volto pra terminarmos nosso duelo. Palavra de honra. - Temos um acordo então – disse o Líder dos Cães, que finalmente havia encontrado um rival a altura e estava ansioso para enfrentá-lo mais uma vez. Eles terminaram de escalar o muro e saltaram todos para a árvore mais próxima, seguindo por cima dos telhados das casas até chegarem a um ponto onde já - 39 -

estavam distantes o suficiente para poderem conversar. Finalmente. - Alguém me explica alguma coisa agora? – disse Menphis, que foi de agregada mas agora já estava começando a repensar sua fuga. - É o seguinte – disse Narai – eu também não tenho lá muita certeza do que está de fato acontecendo aqui. - Você ainda não sabe porque está indo comigo pra Ilha principal do Arquipélago de Pedra? – perguntou, um pouco surpreso, o ser mágico. - Eu nunca fui muito apegado a detalhes – confessou o gato –, mas sei que eu sou o escolhido porque tem uma profecia e o lugar pra onde a gente vai é super legal. - De fato é um lugar muito legal sim, apesar da guerra, claro. - Guerra!?! – gritaram Lundra e Menphis juntas, se olhando e tendo um pequeno ataque de pânico. - Você me arrancou da minha casa pra me levar pro meio de uma guerra? – perguntou Lundra. - Basicamente, sim – respondeu o gato. - Por mim tudo bem – disse ela. Menphis ficou perplexa com a resposta de sua amiga. - Você não tá raciocinando direito, por acaso? A gente tinha tudo naquela casa e agora não temos mais nada! E além disso estamos indo junto com um gato de rua e uma criatura feita de madeira que dispara raios pro meio de uma guerra! - 40 -

- Mas o lugar é realmente lindo – tentou se justificar o ser mágico. - Ahhh que bom saber! Agora eu me sinto muito melhor! – disse Menphis, virando as costas para o grupo e se afastando. Lundra foi atrás de sua amiga, que havia se sentado na beirada do telhado, e fez um sinal para que ninguém a seguisse, sentando ao lado dela. - Achei que você estava feliz até agora há pouco, correndo e saltando conosco. - Você não se preocupa? – respondeu Menphis, ignorando a pergunta. – Nós sempre tivemos tudo que a maioria dos gatos sempre quis, boa vida, boa comida, um teto sobre nossas cabeças e agora tudo se foi. Isso não te preocupa? - Não, porque eu não perdi nada que eu tenha conquistado. Porque aquele não era o meu teto, não era a minha comida, não era a minha “boa” vida – disse, lembrando de seu passado. - Eu nasci numa loja de animais, durante muito tempo a gaiola foi a minha casa, ou melhor, meu meio de transporte e casa ao mesmo tempo. Era bonito ver as crianças me olhando pelos vidros e, no começo pelo menos, a minha maior vontade era apenas de ter um espaço um pouco maior pra poder correr. Mas quando eu saí de lá, quando a nossa pequena dona nos levou, por mais feliz que eu estivesse, sentia que não era exatamente aquilo que eu queria. Foi bom chegar lá e te conhecer, poder dividir tanta coisa com você, mas eu acho - 41 -

que, do mesmo jeito que eu, você também percebeu que com o tempo nós nos tornamos um “enfeite” daquela casa. - Ela não vinha mais nos ver e os nossos criadores nos alimentavam e nos banhavam por obrigação – concluiu Menphis, acompanhando o raciocínio de sua amiga. - E o mundo foi ficando cada vez menor e mais monótono. Até agora há pouco. Hoje nós demos o primeiro passo pra encontrarmos o nosso próprio caminho. E a coragem que você teve pra vir junto mostra que isso também é um desejo teu. - Mas você tem aquele gato pra te dar força. Desde que vocês se conheceram que você é ainda mais sonhadora do que era antes. - Acredite, não foi ele que colocou essas ideias na minha mente. Ele pode ter acendido a fagulha que faltava mas, ainda assim, se não fosse ele vir nos tirar daqui hoje, eu arranjaria outra forma, outro motivo, o que quer que fosse, pra poder seguir. - Achei que você não confiasse nele, pelo jeito que você falava. - Eu confio totalmente, mas eu também sinto medo, apesar de ter dito que não. Porque eu não tenho medo de perder o que eu já tinha, mas de não estar pronta, de não ser capaz de seguir o meu caminho e conquistar aquilo que eu quero. - Então somos duas. - Duas bobas – brincou Lundra –, duas bobas muito valentes. - 42 -

- Não sei quem acendeu a tua fagulha, mas a minha eu não conseguiria responsabilizar ninguém além de você por ela – disse Menphis, olhando para a outra gata com um sorriso. - Espero merecer essa confiança toda. - Sinceramente, eu espero não estar perdendo a noção. Não só por ter fugido de casa, mas por estarmos andando com um homenzinho de madeira que fala, luta e faz mágica. Será que só eu que achei isso estranho? - Confesso que na correria eu não raciocinei muito bem no meio de toda a confusão que se armou, mas ninguém até agora disse o nome dele! Ninguém nos apresentou! Isso não pode ficar assim! – disse Lundra, rindo junto com sua amiga. - Vamos lá resolver isso, então. Eu preciso pelo menos saber por quem gritar nos momentos de perigo. - Não seja por isso, na dúvida grita por mim! Mas por hora vamos resolver a questão das apresentações! Lundra e Menphis se viraram novamente para Narai e o ser mágico e perceberam que eles estavam jogando pedra, papel e tesoura como se aquilo valesse a vida deles. - Pedra, papel e tesoura!! – gritavam juntos. - Tesoura! Ganhei! – gritavam separados, de acordo com o resultado. O ser mágico estava com um pouco mais de sorte que Narai nesse jogo e já acumulava uma vantagem de cinco vitórias sobre o gato. - Com licença, companheiros de fuga - interviu Lundra, mas sem ser ouvida. - 43 -

- Pedra, papel e tesoura! – gritaram novamente. - Papel! Ganhei! – gritou Narai, que havia diminuído a vantagem de seu oponente para quatro vitórias. - Narai.. – tentou chamar novamente. - Acho que eles estão hipnotizados – sugeriu Menphis ao ouvir eles gritarem outra vez “Pedra, papel e tesoura! Pedra! Ganhei!”. - Quem sabe vir junto não tenha sido uma ideia tão boa assim – disse Lundra, olhando um pouco preocupada para sua amiga enquanto ouviam se repetir: - Pedra, papel e tesoura! Papel! Ganheeei!!! – urrou Narai, que agora estava um pouco mais próximo de empatar o jogo. Naquele momento, Lundra e Menphis se olharam e caíram na gargalhada, rindo da situação em que tinham se metido, mas felizes por estarem juntas. “Poderia ser pior”, pensaram ao mesmo tempo, apesar de uma não saber que a outra havia pensado exatamente a mesma coisa. A definição de “pior” é bem relativa. Aquela situação não estava tão ruim quanto ficaria segundos depois, quando um corvo cinzento, com um sinal branco na testa que lembrava a ponta de uma flecha, pousou em frente a eles, fazendo o ser mágico não concluir o jogo que estava tendo com Narai. - Lazul.. – disse o Corvo com uma voz cavernosa e grave. – Bem que Elo me disse que eu te encontraria aqui nesse mundinho medíocre e podre procurando o gato da profecia. Pelo visto você não o achou e pegou qualquer um que fosse parecido, não é? - 44 -

“Lazul”, pensou Menphis, feliz por finalmente descobrir o nome daquele ser e ignorando a ameaça do Corvo. Narai flexionou suas patas, preparando seu corpo para lutar ou correr. Aquilo não parecia nada bom. - Talvez seja mesmo o gato errado, Corvo, você não precisa se preocupar, eu só estou levando ele pra um passeio. Ouvi dizer que Elo não acredita na profecia – respondeu Lazul. - A profecia é uma piada! É uma história inventada por criaturas que já perderam a esperança e precisam de algo no que se apegar. - Então você vai nos deixar seguir? - Claro, fiquem tranquilos, porque eu os impediria? Vai ser profundamente divertido ver o momento em que tudo aquilo em que vocês acreditam cair por terra. - Então o que você veio fazer aqui? – perguntou Lazul, realmente sem entender o motivo. - Curiosidade, pra dizer o mínimo. Não vim aqui machucar você ou esse gato pardo em quem você tolamente acredita. Mas também não viria aqui a troco de nada, como você bem sabe. O Corvo bateu uma das asas de maneira rápida e forte, lançando uma de suas penas tão velozmente que ninguém percebeu o que havia acontecido até ouvirem o barulho de alguém caindo contra as telhas e rolando por elas. Narai deu um salto tentando alcançar Lundra, que havia sido atingida pela pena, e que agora já estava na beira do telhado, ainda rolando pela força do tiro do Corvo. Ele conseguiu segurar a pata dela com uma das suas mas não - 45 -

teve força para se agarrar numa das telhas. Os dois caíram de lá de cima direto na calçada de concreto, Narai ainda a abraçou e girou para diminuir o impacto da queda, caindo praticamente em três de suas quatro patas, absorvendo parte da força. Lazul não se moveu, ele sabia que não podia virar as costas para o Corvo, que fez uma reverência como se estivesse recebendo aplausos e disse: - Por hora é apenas isso. Tenham um bom caminho de volta e boa sorte. Elo manda lembranças – e saltou alçando voo e sumindo no horizonte. Lazul, ao ver que ele já estava longe o suficiente, correu até onde Narai e Lundra haviam caído, saltando de cima da casa até a calçada, ao lado dos gatos. - Não precisa se preocupar – disse Narai – nós tivemos sorte na queda, não era tão alto, mas acho que ela desmaiou. - Não, é o efeito da pena daquele Corvo, ela coloca em sono profundo qualquer um que seja atingido por ela – disse, retirando a pena que estava em Lundra, que acordou devagar. - Aconteceu alguma coisa? - Não, eu só queria ficar te olhando dormir um pouco. - Eu caí de lá de cima, não foi? - Caiu, mas eu consegui te segurar. - Eu deveria te agradecer? - Acho que sim – disse Narai, esperando receber um carinho e sendo atingido por uma patada de Lundra. - 46 -

-Você chama isso de salvamento? A gente caiu do alto de um telhado no concreto! - Nem sempre sai exatamente como o planejado! – tentou se justificar. – Eu planejei sair voando, mas não deu certo. - Eu estou brincando, seu bobo. Vem cá! – disse Lundra, se abraçando no gato. Enquanto isso, Menphis continuava no topo da casa, tremendo, tentando digerir tudo que havia acontecido, e pensando em quem seria essa criatura que o Corvo nomeara tantas vezes de Elo. - 47 -

Capítulo 8 Salão de Jogos Elo aguardava o retorno do Corvo no salão do trono de um alto castelo onde jogava ping-pong consigo mesmo, rebatendo a bola de um lado para o outro, saltando para continuar o jogo contra si numa velocidade inacreditável. Elo era uma ave mágica, cor azul-turquesa, com um porte austero e contemplativo. Pelo menos quando não estava jogando ping-pong, pois nesses momentos ele parecia mais um risco azul indo de uma extremidade a outra da mesa. - Com licença, trago notícias – disse o Corvo, adentrando pela janela e pousando a alguns metros dele –, encontrei Lazul e os gatos que o acompanham. - Gatos? – disse Elo, sem parar de jogar, aumentando a velocidade dos golpes. – No plural, mais de um gato? - Sim, gatos, no plural – respondeu, tentando acompanhar com os olhos os movimentos do pássaro, mas ficando tonto depois de alguns segundos. - Devo supor que seja o início de um pequeno exército? - Pode supor que são uns bichinhos meio esquisitos reunidos aleatoriamente mesmo. São duas gatas além do gato, não chamaria isso de “pequeno exército”. No máximo de “grupinho descolado”, pois não me parece que tenham grandes habilidades. Atingi uma delas com uma de minhas - 48 -

penas e, apesar de um ato heroico do gato se lançando pra salvá-la, não vi nada de mais neles. Pelo menos nada do que havia nos dizeres da profecia. - Alguma chance de Lazul ter se confundido? Ele sempre teve a cabeça nas nuvens. - Grandes chances dele ter se confundido, sim. Ou simplesmente não ter encontrado exatamente o que estava escrito e substituído por algo similar. - Muitas possibilidades de interpretações nessa profecia. Quem escreveu ela deveria ter pensado nisso, ou ter sido pelo menos um pouco mais específico. - Facilitaria muito o trabalho de quem foi atrás do herói dela e ao mesmo tempo facilitaria o meu trabalho, que é de ir atrás daquele que for atrás desse suposto herói. - Quer jogar? - Não quero interromper a atual partida. - Não seja por isso, é o último ponto – disse, dando um corte diagonal na mesa sem se deslocar para o outro lado para receber a bolinha. – Pronto, ganhei e perdi. O Corvo se aproximou da mesa e pegou a raquete que estava sobre ela. - O de sempre? – disse, se preparando para sacar. - Claro – respondeu Elo. E eles jogaram por um único ponto, como se fossem dois raios rebatendo as jogadas, uma faísca azul e um borrão escuro, disputando ping-pong. - 49 -

Capítulo 9 Quedas D'Água, Frio e nos Perdemos.. Lazul levou os gatos até uma cascata afastada da cidade, onde ele acreditava ser a entrada para o dispositivo que os levaria até a Ilha de Pedra. - Como assim você “acredita” que a entrada é por aqui? – perguntou Narai, desacreditando no que ouviu. – Não foi por aqui que você veio? - Na verdade a minha memória visual é um pouco ruim e eu não venho muito pros lados de Palasita – respondeu ele. - Mas o mínimo que você podia ter feito era trazer um mapa! - Na verdade eu trouxe um mapa. - E cadê? - Não sei se eu comentei que a minha memória não é muito boa, comentei? As duas gatas se olharam, achando graça daquilo, mas também um pouco preocupadas com a situação. Lundra interviu na discussão dos dois: - Como fazemos pra ter certeza de que essa é a cascata? - Ah, é bem fácil! A gente se joga de cabeça nela e se atravessarmos então é aqui! A resposta de Lazul foi seguida de um segundo de silêncio, enquanto todos tentavam refletir sobre o que ele disse. - 50 -

- Nota-se o nível de segurança praticamente nulo dessa ideia – recomeçou Narai. – Quem sabe a gente não sai por aí se jogando de cabeça em qualquer pedregulho que parece uma porta pra ver o que acontece? - Melhor não, pedregulhos não costumam ser usados como passagens, só cascatas mesmo. - Então estamos em um dilema – continuou –, que tal você ir na frente pra ver se é mesmo aqui? - Posso ir, sem problemas, só que no momento em que eu passar não consigo mais falar com vocês, então se for aqui vocês vão ter que me seguir sem saber se eu atravessei um portal por detrás das águas dessa cachoeira ou se eu bati a cabeça e fui levado pelo rio. - Tem dias que me dá a sensação de que eu não deveria nem ter levantado da cama.. – refletiu Narai. – Mas vamos lá! Saltamos todos juntos, Lundra, você puxa a Menphis logo depois que eu e ele saltarmos. - Combinado! - respondeu Lundra. - Combinado nada! – interviu Menphis, que ainda não estava muito segura em relação àquele plano. Lazul saltou, Narai o seguiu depois de dar uma piscada para Lundra, que segurou a pata de sua amiga e saltou logo em seguida. Menphis ainda teve tempo de gritar: - Eu não quero pul.. glub glub glub.. – durante o salto. Por conta disso acabou engolindo um pouco de água e provavelmente uma alga desgarrada. - 51 -

- Viram? Nem foi tão difícil – disse Lazul, virando para ver se todos estavam bem. E até estavam, mas todos ensopados. - Acho que lavei até minha alma nesse salto - disse Narai. - Acho que deixei a minha no caminho - continuou Menphis. - Acho que eu quero ir de novo! – concluiu Lundra, com um sorriso gigantesco no rosto. Todos olharam para ela e começaram a rir. Depois de terem passado por tantos momentos difíceis, fugindo de todo mundo, lutando pra poder seguir, finalmente puderam parar por um segundo para rir de um momento bobo. Afinal, enquanto for possível rir, o mundo estará a salvo. - Vejam – disse Lazul –, esse é o portal que faz a ligação entre Palasita e a Ilha principal do Arquipélago de Pedra. O portal era um círculo azul, cheio de linhas mágicas e símbolos antigos que não significavam nada, mas que eram muito bonitos. Eles se posicionaram dentro do círculo e Lazul cravou seu cajado no centro dele, proferindo as palavras mágicas de ativação do portal: “Játireiávela”. No mesmo instante eles foram sugados pelo círculo, que se abriu naquele momento, fazendo-os deslizar por um gigantesco escorregador, cuja velocidade foi aumentando insanamente até o fim dele, onde foram lançados no ar em direção a um outro círculo azul que parecia flutuar. Ao cruzá-lo, todos fecharam os olhos e, quando abriram, estavam no meio de um salão enorme, - 52 -


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