por Agnaldo Silveira “Sombrio em sua totalidade, o instante crucial, unido à uma Força Espiritual, vista em sua raridade, refletida em pedras físicas, encon- trava-se Romero deitado, desolado e, fugitivo dos mais tenebroso seres escuros a lhe capturar. Perambulando por entre sombras físicas, em espírito, misturadas ao roxo avermelhado da escuridão a lhe envolver, seus olhos espirituais pro- curavam o que lhe ia ao arrependimento por seus atos passados. A tris- teza espiritual ao conscientizar-se, após séculos, de sua atual condição, trazia em seu espírito insignificante Luz Astral, quase que imperceptí- vel, o que no Mundo Maior, permitiu a abertura de um portal energéti- co, dando a visão aos dois Missionários Iluminados de onde se encontra- va, numa espécie de mapa a conduzi-los ao seu resgate, encontrando sua energia dentro daquela caverna do submundo do campo físico. O temor sentido em seu íntimo a lhe dominar os pensamentos, tra- zendo-o um terrível desespero em seu espírito, como a pedir socorro após quase um milênio inserido em companhias aos seus perseguidores. Antes do seu absolvimento à Luz Maior, cercado por diversos dos seus discípulos, como a cobrar-lhe satisfações e até mesmo resgatá-lo, a levar-lhe ao mais sombrio do astral inferior, a condená-lo e aprisioná-lo pelo seu abandono àqueles que lhe serviram por séculos e séculos, era rodeado, naquela imensa caverna, num canto repleto de lama astral, onde juraram-lhe uma perseguição eterna. 101
“...e a missão continua” Acoado e temente ao Mundo Maior, desafiou-os em seus preceitos, pedindo para que cada um seguisse seus caminhos. Naquela escuridão cavernosa que fortalecia seus frustrados discípu- los, ele encontrava forças para se desvencilhar de todo seu passado de perdição. Subitamente, acima do seu apavorado espírito, abriu-se um Portal Iluminado. Ao percebê-lo, aliviou-se vergonhosamente, e seus persegui- dores espantaram-se com tamanha força da Espiritualidade Iluminada, a dispersarem-se temerosamente, deixando juras de uma vingança ao longo do tempo. Do imenso clarão, descendo pioneiramente em sustentação, o Grande Mestre do Mundo Maior conduzia a busca pelo penitente espírito. Em seguida, conduzida pelo seu merecimento espiritual, a esperar por aquele instante há séculos, sua metade em espírito, Serena, surge toda de branco, resplandecendo, logo atrás. Em compaixão por todo sofrimento que car- regou desde suas separações, ela estica suas mãos a encontrarem-se com o pobre espírito, ainda descrente de sua visão. Levantou-se, num novo estado sonolento, deixando-se levar inconsciente pelo Amor Universal.” 102
por Agnaldo Silveira Um resgate Espiritual magnífico e intransponível a estas linhas. Aquela Caverna, gigante em seu físico, fora petrificada pela espiri- tualidade, existindo até os dias atuais, sem alguma energia ou cone- xão com a espiritualidade. Serena, ao abrir seus olhos, sentiu-se transportada no tempo, na história, na sua própria Verdade que carregava entre suas vidas. Re- cordações passadas lhe tremiam o espírito. Sua garganta sentiu-se com um nó a faltar-lhe o ar. Irmãos Iluminados cercaram-na en- volvendo-a em uma Luz Violeta. Sua respiração foi diminuindo a encontrar forças, em suas trêmulas pernas, retirando-se da mesquita. Jade contava as histórias do seu pai, do lado externo. Ao Serena se aproximar, iniciaram seus retornos à carruagem. Ao meio do ca- minho, trocaram as moedas de Jade por alimentos, e, assim, descan- saram após o término de um dia, que, aos sentimentos de Serena, haviam sido duas vidas mescladas em sua consciência. Suas permanências em Toledo prolongaram-se. Mesmo já segu- ros a encaminharem-se à Córdoba, a facilidade que tinham na troca das moedas e dos ouros de Jade era tanta, que muitos passaram a procurá-los, confundindo-os aos ciganos, a desejarem ler seus futu- ros. Em comum acordo, decidiram permanecer naquele retirado lo- cal. Declaravam não ler futuros, porém ajudar a quem procurava-os com conselhos para suas vidas atuais. E, assim, recebiam ofertas de moedas, a lhes proporcionar a construção de uma nova carruagem. O que facilitaria suas breves caminhadas ao seus objetivos. Não eram bem-vistos pela maioria, porém, os fiéis cresciam a formrs filas à espera de novos conselhos. O Mundo Espiritual uniu-se a eles, e muitos foram curados emo- cionalmente em suas buscas. Alba, a que menos se envolvia, tor- nou-se a responsável pela busca dos alimentos, do necessário que Romero necessitava à sua nova edificação. Foram aceitos por muitos, mas grande maioria não os desejava. Eles, em proteção Divina, permaneceram o suficiente a partir. 103
“...e a missão continua” Duros anos haviam corrido no tempo, ao decidirem partir para seu destino final, Córdoba, como prometido a Jade e a Alba. “Quero lhe falar, que não desejamos mais partir para o Tibete. Era um sonho de infância, e seja o que tivesse lá para nós, nada será mais valioso por tudo o que vivemos até hoje com vocês.” - disse Jade numa linda noite estrelada de Toledo. “Vamos conosco. Nosso casebre é simples, mas podemos cons- truir outro e lá viveremos para sempre” - disse Serena. Alba e Jade se entreolharam e confirmaram com um sincero sor- riso, ao que todos se abraçaram. Naquela noite, beberam vinhos, co- meram, cantaram, até as primeiras estrelas noturnas seguirem seus rumos pelo universo. “Mas, queremos, de qualquer forma, ir para Córdoba” - disse Alba “Sim, já estamos aqui, e fica no meio do caminho.” - disse Ro- mero. “Ainda mais que, por onde passamos, nunca mais vamos passar, as surpresas sempre surgem” - disse Serena a ser seguida por suas risadas por Jade. Por mais dez dias permaneceram em Toledo aos preparativos de suas despedidas daquele Santo lugar, considerado por eles. 104
por Agnaldo Silveira E spíritos afins cruzam seus destinos despretensiosos dos an- seios que o mundo carnal proporciona. A soberania imersa num sentimento, mesmo que físico, independe da necessi- dade de aflorar explicações. Irmãos Iluminados flutuam por este Universo. Outrora corporal ou espiritual, regozijam-se ocultamente fluídos pelos seus sentimen- tos certezas inexplicáveis. Nasce o amor, a confiança, uma impres- cindível convicção, inexpressiva em palavras humanas, naquilo que seu coração permite o destino lhe comandar. Quatro espíritos haviam trilhado seus rumos, a possibilitarem seus encontros, desconhecidos em seus objetivos, agraciados por um Plano Maior a observá-los e conduzi-los às suas Verdades. Jade compreendera o que, em seus pensamentos, o destino lhe almejava mostrar. Serena aceitou, imperceptivelmente, apenas por sua intuição evolutiva a permanência de ambas, ao se conhecerem. Incompreendidos, até mesmo entre eles, num “por que nossas vidas tomaram esse rumo?”, levava-os às concretizações espirituais em promessas, até mesmo em missão, naquilo que cada espírito re- presentava um ao outro. E, não um significado proporcionado pelo mundo carnal, e, sim, por suas trajetórias, como irmãos espirituais que eram. 105
“...e a missão continua” A benevolência irrigada com as lutas pelas jornadas que eles mes- mos, cada um em seus motivos, lhes permitiram, concluiu-se a paz em Irmãos do Mundo Maior. Aqueles eram seus exatos caminhos em evolução. O fortaleci- mento de seus espíritos enlaçados num corpo terreno, unidos, con- duzir-lhes-iam à excelência em suas vidas. A jornada à Córdoba iniciara-se despretensiosamente. Possuido- res da mais pura felicidade. Cada dia era um dia a mais, e não um a menos a retornarem aos seus lares. Serena revigorava seu espírito ao lado de sua metade desde sem- pre. Romero, desprendido do seu passado tenebroso, tornara-se grande em humildade, a passos em regresso de sua origem. Jade, sábia em sua espirituosidade, vencera o desvencilhar cármico de nascença, cumprindo, em merecimento conquistado, o encontro com meus dois filhos amados, como prometido antes de seus encarnes. Aprendizados surgiriam ao longo do trajeto ao novo objetivo. Mas, o mundo dos vivos, impiedoso, não se compadeceu deles. Ao partirem, aproximando-se dos Montes de Toledo, foram en- contrados por cruel tempestade, abaixo de um atroz vendaval, onde seus cavalos desprenderam-se aos relinchos e, apavorados, torna- ram-se invisíveis ao meio do furacão. Imediatamente, Romero, em extremo apavoro, firma sua mão às de Serena, e expressando para que todas o ouvissem, ao som dos brilhantes raios no infinito, a se- guirem rapidamente a um abandoado casebre, às suas vistas. Como a ser colocado ali, pelo Mundo Maior, para suas salvações, esconderam-se deixando todos seus pertences à vontade do aguaceiro. Jade, desesperadamente, faz o caminho de volta à carruagem, abaixo do temporal, a recuperar sua maleta com suas moedas. O que eles jamais perceberam, nesse ato dela, foram espíritos Ilu- minados, interferindo para que ela não perdesse sua vida. Foi uma ação espontânea, de extremo perigo, como aqueles ditos que “as mãos de Deus te salvaram” Em seu retorno, não mais após que um minuto, foi abraçada por 106
por Agnaldo Silveira todos, em alívio. Ao longe, assistiam o destroçar da carruagem através de uma pequena janela. Calados, um ao lado do outro, Serena abraçada a Romero, ainda disse... “Toledo não quer nos deixar ir” Horas mais tarde, a partida em definitivo das águas celestes, dan- do-lhes o real conhecimento do ocorrido, ao retornarem próximo ao que lhes restou. Salvaram algumas roupas e utensílios, além de suas vidas, ao que deram suas mãos e agradeceram à Deus suas sobrevivências. Nada mais poderiam fazer, a permanecerem naquela abando- nada cabana. Ao redor, o que lhes sobrou foram marcas naturais deixadas por um bárbaro fenômeno que, avassalador, tiraram suas possibilidades de partir, em seus anseios, à nova cidade. A certa distância de onde estavam antes de suas partidas, Jade e Alba, retornaram a trocar suas moedas por alimentos, deixando Romero e Serena reconstruir um novo lar, onde permaneceriam. Serena, hábil no plantio, conduziu suas duas irmãs de coração ao aprendizado, enquanto Romero, tomando a frente aos comerciantes próximos, negociava as ervas a serem reproduzidas em chá, em tro- ca de suas subsistências. O casebre fora totalmente reformulado, e ali, refizeram suas vidas. Não poderiam seguir, à mercê de não sobreviverem, caminhando. Unidos, repensariam suas partidas gradualmente. E, assim, lon- gos anos se passaram após a tempestade que mudou seus destinos, interromperam seus sonhos, tendo-os que refazê-los, forçadamente. Serena, imensa em sua sabedoria, afirmava que eram as mãos de Alá a lhes conduzir no que seria de melhor para todos. Romero escutava-a, em respeito, aceitando as palavras de sua amada. Jade, imersa em sua calmaria, acolhendo dentro de si toda modificação em seus destinos, divertia-se às frases inconformadas de Alba, e sempre lhe afirmara. “Pra nós está tudo bem, somos livres” 107
“...e a missão continua” “Serena caminhava ao redor da magnífica lagoa, esverdeada, no Mundo da Verdade. Trajada com brancas vestes, em seu peito, exalava o brilho cristalino do colar que havia recebido de Jasmim. Não propriamente o colar brilhava, mas, sim, sua energia como plas- ma espiritual, representativo na Luz que possuía em seu corpo etéreo. Ao seu redor, um aura resplandecente, envolvendo-a numa cor violeta esbranquiçada. Uma evolução perfeita, a compreender e se entregar aos seus objetivos cósmicos desde que seu espírito chegara à esta Orbe. Em sua direção, aproximava-se um rapaz cabisbaixo, como a refle- tir um término de uma vida carnal. Ao vê-lo, notou ser Rúbio. Ele, avistando-a, esboçou leve sorriso, trazendo uma oculta melan- colia em seu olhar. “Graças te dou, minha querida irmã em espírito” - disse ele, calmamente. “Rúbio...” - disse ela, surpresa - “... que fazes do lado de cá?” “Desperdicei minha vida corpórea em outras oportunidades. Recu- pero-me a voltar em minha realidade de espírito, igualmente ao nascer como um menino com deficiências auditivas.” Serena, imóvel em seus pensamentos, observava as palavras do en- tristecido rapaz. “Pedi para que tu vieste até aqui, em meu merecimento de consciência, para que eu pudesse te contar e mostrar-te toda a verdade desta tua vida.” Ela, repousando sua brandura em espírito num aconchegante banco, à frente da lagoa, permitindo-o fazer o mesmo, escutou suas nobres palavras. “Precisava eu, da tua presença, para que soubesse da Verdade deste lado, em sabedoria necessária a ser conscientemente programada à uma nova reencarnação” 108
por Agnaldo Silveira Incompreensível aos seus conhecimentos, pois uma mistura de vida terrena e espiritual confundiam a realidade de Serena. “Tua presença, me fará retornar ao que era antes do meu encarne em veículo denso nesta vida que ainda faz parte.” Uma sublime energia descendo dos céus, como ao merecer pelas mãos do Criador, lentamente, transformou a imagem de Rúbio em uma linda menininha. Cabelos loiros encaracolados, olhos de cor azul, declarou-se em seu amor por Serena. “Encarnei, a recuperar meu último resgate no mundo dos mortais, a audição. Seria eu cuidada por ti e meu amado irmão. Porém, suas partidas me levaram à profunda tristeza. Consegui concretizar minha missão, mesmo meu coração ardendo em saudades por vocês. Fui olhado, por duas mulheres que se declararam enviadas por vós. Mas, minha fraca saúde, como já programada numa Espiritualidade Superior, per- mitiu que meu corpo desenlaçasse da matéria. Dormi em espírito por longos anos, e hoje, me permitiram vir ao teu encontro, que tanto pedi, para mostrar-me em nossa realidade. Meu encarne como menino, foi para estar ao lado de vós. Caso fosse uma menina, nossos pais não me deixariam permanecer por aquelas terras. Porém, hoje, em Graça Maior, retomo minha aparência. Só pos- so lhe dizer estas palavras. Temos muito em nossas histórias nos ciclos reencarnatórios. Ao quanto até agora, felicito-me com tua presença. Es- pero-vos, aqui, a ser-nos dada nova oportunidade em vivenciarmos uma vida terrena juntos. Seguirei à vós, como vossa filha, em minha Verda- deira essência. Porém, retiro-me aliviada em meu estado verdadeiro de quem realmente sou. Assim, sigo em paz.” Uma certa sonolência dominou os sentidos de Serena, que, ao reto- má-los, sentiu despertando-se em corpo físico ao lado de Romero.” 109
“...e a missão continua” O rapaz, vendo o suor correndo pelo rosto de sua amada, pas- sou-lhe as mãos à face, vendo-a despertar de um misterioso sonho. Ela, nada disse. No cômodo ao lado, Jade despertava em conversa com Alba. Ao decorrer de mais uma dia, Serena pronunciou a todos que de- veriam repensar suas retiradas rumo a Córdoba, regressando à Cádiz. Em consenso unânime, preparam-se para o adeus definitivo a Toledo. Romero já havia terminado nova carruagem, e conquistado o amor de Abeja, um cavalo negociado com um cigano, doado na expectativa de não mais possuir saúde. Abeja fora tratado com amor, e, em alguns anos, após sua inicial con- vivência com todos, demonstrava-se forte e fiel aos seus novos donos. Assim, deparar-se-iam com nova estrada pela frente, seguindo a Córdoba. Precavidos, contornaram os Montes de Toledo, seguindo a Ex- tremadura. Cruzavam a zona rural, avistando a cultura agrícola que caracte- rizava a região. Adentrando a pré-histórica Cárceres, tendo como padroeiro São Jorge desde seus primórdios, a cidade nascida em transformações pelas singelas mesquitas a abençoados palácios cristãos, tornara-se anfitriã dos meus filhos num exuberante final de tarde. Dias depois, aos seus olhos, cruzavam a vila de Guadalupe, pa- droeira de Extremadura, presenteada pelo Mundo Maior e seus fiéis, em coroação canônica como Rainha, a Nossa Senhora de Guadalu- pe, ganhando devotos ao longo de outros países. Fora uma passagem de poucos minutos, dando-lhes uma sintonia amorosa em seus corações, como a perdoarem qualquer ato de hos- tilização já recebida em suas vidas. Estranha compreensão, em compaixão, sentiu Jade por seus fa- miliares, conscientizando-a de que qualquer espírito encarnado no mundo terreno tem seu nível de consciência em sabedoria, refletin- do em suas atitudes. 110
por Agnaldo Silveira Em palavras trocadas com Serena, neste momento, seu coração deu-lhe o perdão, calado, por seus genitores, em todas as vezes que lhe foi submetida aos sentimentos prisionais. “Tudo é grau de evolução do espírito neste plano. E, suas açõe, refletem suas sabedorias” - disse-lhe Serena. Suas passagens por Extremadura representavam o perdão senti- do em sua necessidade pessoal, em continuidade de suas jornadas, a não lhes trazer o remorso em tempos vindouros por sua fuga. A sustentação espiritual que Jade proporcionava a Serena fora recebida em troca, em todos aqueles anos em aceitação de convi- vência. Até o imperioso dia, como aquele, em perdão efetivo e de coração, aos seus erros pessoais. Inconsciente, Serena lhe proporcionou aquele alívio, que trans- bordou como a um bálsamo no coração de Jade. Suas ligações extra- físicas provinha, às suas atuais mentes carnais, de um infinito inicial, como a não se recordarem, entre elas, o sentido da vida antes dos seus encontros carnais naquela oportunidade. O tempo corria despercebido aos seus sentimentos. Realizavam paradas despretensiosas, como a um descompromissado rumo, so- mente seguido pela correta direção. Desta forma, apresentaram-se à Córdoba, numa estrelada ma- drugada, como a serem os mais novos habitantes de um lugar tão sonhado em se chegar. 111
“...e a missão continua” C órdoba, centro do mundo ocidental islã. Aparente califa- do em sua arquitetura, desvia a mente do homem carnal ao tradicional mundo religioso atual. Seja conquistada por reis católicos ou pelos mouros, sua energia perpetuará às suas belezas ocultas impressas nas misturas de culturas mulçumanas, jamais se- rem esquecidas pela humanidade. Seres encarnados, provindos da Luz ou das trevas, meramente coadjuvantes de um palco apossado pelos romanos, pelos bárbaros ou pelos visigóticos. Seja ela retomada pelo califado, aos poderes de Omíadas ou ao comando do Rei Fernando III, seja qual século for, seu brilho resplandece num apaixonante encanto exalando suas sin- tonias mescladas pelas maiores tradições existentes nesta Era. Seus palácios, planificados ao bem-estar de fiéis islâmicos, entre- gues às suas origens plenas num incondicional amor, cegos em suas devoções, orgulhando-se, sejam qual plano for, de pertencerem à imutável história em satisfação ao tempo eterno. Conquistada pelos cristãos, ao longo dos seus dias, as mesqui- 112
por Agnaldo Silveira tas e sinagogas permanecem imortais ao respeito nascido desde seu início. Milenar em sua essência, as terras sagradas de Andaluzia rece- biam meus amados filhos, desprovidos de quaisquer sabedoria de seus rumos. Estacionaram a carruagem, momentos antes, onde seu desgaste a condenava. Ela, imóvel, tornou-se seus lares por algumas noites ante a orientar-se em seus feitos. Jade, tomando o comando por Albeja, logo ao clarear do dia, e, deixando seus companheiros, fora em busca do tão desejado sonho que a levara até ali. Lentamente, ela cavalgava na segurança de que seu amigo a levas- se, em sua intuição, onde o destino lhe permitisse chegar. O sol já raiava abundantemente, quando ela se conduzia por es- treitas ruas, a não se lembrar como retornar ao caminho de volta. O embriagado calor sugou as forças de Albeja que, imóvel, en- tregava-se à fraqueza corporal, deixando sua montadora rejeitá-lo e prosseguir em caminhada. Ao notar, antes mesmo dos primeiros passos, à direita, uma es- pécie de casa. Olhou ao redor e percebeu que a entrada se asse- melhava a um arco, de contornos dourados, e uma grade fechada, ultrapassando sua cabeça, uma senhora abria uma pequena porta, aparentando ser uma freira, alimentava seus vasos com as mais di- versas plantas. Jade, tomando a palavra. “Bom dia, minha senhora, preciso de água para mim e meu cava- lo” - disse ela, humildemente. A religiosa compadecendo-se do pedido escutado, pediu para que Jade entrasse. Saciada, recebeu um tipo de balde repleto de água para Albeja, ao ser questionada de onde viera. Ao contar sua história e todas as dificuldades que a levaram até ali, a madre pediu-lhe para que fosse buscar seus amigos. “Vás e traga-os aqui. Moramos em três, e há espaço para vós”. 113
“...e a missão continua” Jade saiu em disparada, satisfez as forças de Albeja e retornou, sem mesmo saber como, ao caminho que a conduziu a todos. Ao longe, ao avistá-los, ela, ao gritos, dizia palavras alegres de que estavam salvos. Ao lado da carruagem, sem entendimento algum, todos aguarda- ram até que ela se aproximou. Contando-lhes o que houvera, abandonaram a carroça, e cami- nharam até a salvadora imaculada. Vagarosos em suas caminhadas abaixo de um escaldante sol, ho- ras depois, encontraram o local que Jade havia dito. Batendo palmas, a mesma senhora, com dificuldades em seu andar, abre-lhes as gra- des e permite suas entradas. Enquanto Romero prendia Albeja por uma corda na grade ao lado de fora, todos entravam e seguiam os dizeres da religiosa. “Subam essas escadas. Há um dormitório de cada lado. Banhem- -se e voltem para alimentarem-se” Serena, ao subir a larga escadaria, reativou sua intuição, imper- ceptivelmente, como a recordar-se, ocultamente, daquele lugar. Tempos depois, todos desceram em retorno à parte de baixo, onde foram recebidos pela mesma senhora e outras duas asseme- lhando-se a ela. Às suas frentes, enorme mesa posta com variadas comidas lhes aguardava. “Somos apenas nós três. Sentem-se, e alimentem-se” - disse a madre. Após terem se nutrido, enquanto as três freiras lhes observavam, Serena tomou a palavra. “Agradecemos a recepção que as senhoras nos deram, mas logo teremos de partir para nossa casa” “Acalme-se, minha filha. Descansem. Eu me chamo Lucia, esaá é a Isabel...» - e colocando as mãos sob os ombros da terceira santa ao seu outro lado - «... e esta é a Inês.» Todos se apresentaram e começaram a narrar suas histórias até 114
por Agnaldo Silveira suas chegadas em Córdoba. Ora um falava, ora outro. As três ma- dres observavam-nos com atenção, como há tempos não ouviam palavras exceto de suas preces. Devotas fiéis ao Deus que lhe concedeu suas vidas, exerciam suas funções em pequena igreja, ao que lhes convidaram a participarem da missa em comunhão de todos os Santos do próximo dia. Três espíritos encarnados do Mundo da Verdade colocados em veículo físico, a sustentarem aquelas ruas, que circundavam enorme Catedral. No dia seguinte, seguindo as três imaculadas, Alba inquieta em suas histórias, onde Jade pedia para que ela controlasse seu tom de voz, Serena e Romero caminhavam ao lado, aos risos, observando todo o trajeto. O sol igualmente ao dia anterior, não lhes dava forças à caminha- da. Ao que, repentinamente, depararam-se com imensa fortaleza as suas frentes. O coração de Romero pulou rapidamente ao notar a Catedral. Apertou a mão de Serena, que indagou a uma das freiras. “Essa é a Catedral?” “Sim, minha filha. Mas, nossa igrejinha é na outra ruazinha” Portas de madeira mais altas do que o convencional, contornada por pedras, a levá-los ao interior da casa de Deus. Em seu âmago, ela refletia a cor dourada em toda sua extensão, aos olhos de Serena que, absorvendo a paz que emergia em seu co- ração, aconchegou-se seguida por Romero e ambas as amigas. As freiras, deixando-os à vontade, seguiram aos seus postos, a retornar apenas ao fim do culto religioso. Aproximando-se a eles. “Passamos o dia aqui. O portão do convento está apenas com a tranca. Conheçam a cidade, e quando quiserem, podem ir se alimen- tar. Vejo-os pela noite.” Com Alba no comando de suas saídas, tagarelante, retiraram-se, entregues ao fervente calor, à parte de fora. 115
“...e a missão continua” Serena, ouvida por Romero que desejava ir à Catedral, percebera algo ao íntimo do seu amado. “Vou contigo” - disse ela. “Chega de igreja” - Alba dizia “Vou tentar procurar algo que sempre me falaram, onde desper- tou meu sonho de ir ao Tibete” - disse Jade. Assim, as duas partes espirituais, de mãos dadas, seguiram seus passos à Grande Catedral. Ultrapassaram a gigantesca porta que os levou ao seu interior. Romero, ao entrarem, sentiu-se mal, sendo segurado por Serena, que o acomodou em um dos lindos pilares. Ela levou suas mãos à testa dele, seguida por iluminação esver- deada em seu estômago. Mesmo que inconsciente da sua ação, reti- rou o mal-estar e o iluminou em proteção a seguirem. Serena, como a escutar o inimaginável e nunca ocorrido em sua vida, assustou-se ao agarrar sua mão às mãos de Romero e orar o Pai Nosso. “Ele se encontrará com alguns que ele mesmo abandonou” - dis- se a oculta voz. Caminharam adentro, e sentaram-se num banco a recuperarem-se. Ele fechou seus olhos, retomando seu fôlego, e ela, consentindo ao mesmo, porém em poucos segundos, permaneceu a escutar a mesma voz. 116
por Agnaldo Silveira “Dominamos este lugar há séculos. Nossas cores e escrituras perma- necem impressas em todos os cantos deste templo. Trazemos aqui, nossos irmãos escuros, a disfarçarem-se à serviço da Luz. Sabíamos que vós vi- ríeis, em suas inconsciências. E tu ainda há de ser perseguida e separada de tua metade, por ter tirado de nós nosso mestre, que nos conduzia às nossas tarefas. Hoje, tens a proteção do Lado Iluminado, mas aqui, é nosso lar refletido do nosso astral. Ele não estará bem até suas partidas do nosso solo, e tu amargará, em teu futuro reencarnatório, a perda de tua contraparte, pois assim tu mesmo nos obrigaste a fazer” 117
“...e a missão continua” Romero, envolto naquele escuro astral, fraquejava em suas per- nas, e em seu coração disparado, tomou forças a prosseguirem. Ela, em misturas sentimentais do que ouvira e a curiosidade física em descobrir o que havia ali dentro, seguiu com sua mão apertada às dele. Conforme caminhavam, uma densa energia os circulava em dese- jo de suas expulsões. Ela, em sua fortaleza moral, conversava men- talmente com aquela voz. “Façam o que quiserem, ainda haverá o tempo em que aqui re- tornaremos, e vós se calarão perante nossas vidas” Ao longe, ela ouvia risadas às suas palavras. Procurou ignorá-los, mas não se cientificava da energia negra que os circulava. Novo cansaço dominou o corpo de Romero, como a sugar suas energias. Ela sentou-o em outro banco, mais ao meio da Fortaleza. Abra- çou-o, e ele, recostando sua cabeça em seu ombro, aprofundou-se num incontrolável sono. Ela, permanecia olhando ao redor. E, num estado de vigília, entre o espiritual e o físico, sua mente abriu-se. Sentia ter usado muito de suas forças, ao longo de sua trajetória espiritual, ao resgate de Romero. Teve grande merecimento em en- carnar ao lado de sua metade em espírito, como uma trégua de uma consciência ampla desgastada diante da imensa luta pelas entranhas de um mundo astral escuro. Consciência aberta em conhecimento permitido por sua própria evolução e sabedoria, recordava-se que ele deveria retornar ao que era em sua essência, e, em suas uniões, ela também encontraria com esse regresso fundamental a seus espíritos. Serena, espírito brando, possuidora de uma delicadeza a refletir em físico, pela própria leveza evolucional nata de seu espírito, em toda batalha em busca de sua metade, sentia todo o egoísmo que ele, quando residia ao mundo es- curo, lhe oferecia. O espírito de Serena carregava isso com ele, e ela, ciente dessa Verdade, em sua elevação espiritual, não permitiu que isso lhe acarretasse carma físico, perdoou-lhe em sua luta espiritual. 118
por Agnaldo Silveira Mesmo assim, levava em seu perispírito um sentimento de que am- bos haviam perdido seus tempos por séculos, naquela busca. Ele, no físico, não se conscientizava de todo caminho errado. Queria o do- mínio absoluto. Ela aceitava-o em sabedoria de suas iguais origens. Sentada, naquele estado de visão mental, permitia que seu espí- rito conversasse com ela mesma. Despertou, acordando Romero. “Venha, vamos sair deste lugar” – disse, pegando-o pela mão. Já do lado externo, imenso jardim seguido por uma torre em seu canto passou despercebido aos seus olhos. Retiraram-se e logo retornaram ao convento. Jade e Alba, ansiosas em suas esperas... “Tudo o que me falaram que existia aqui do Tibete, não deve existir. Não há monges aqui. Perguntamos, perguntamos e pergun- tamos. Alguns nem nos responderam” - contou Jade sua frustração. Serena, lhes dizendo algumas palavras, subiu a escadaria e repou- sou Romero que, ainda sem forças, dormiu profundamente. Alguns dias se passaram, e seus retornos à Cádiz trazia-lhe certa preocupação. Seu sonho com Rúbio, e todo povoado, a quem eram esperados, davam-na pensamentos estranhos. “A Verdade é muito além do que esperam de nós” Na última noite, as três imaculadas prepararam comidas de todos os tipos. Meus quatro filhos amados partiriam assim que o sol acor- dasse por aquelas terras. Ao término, todos recolhiam-se aos seus aposentos, quando Isa- bel, uma das madres, convida Serena a um último chá antes de re- pousar. Caminharam até um pequeno cômodo, cercado por plantas. Uma mesinha central com algumas cadeiras de ferro, pintadas de branco, onde se aconchegaram. Logo, Lucia as fez companhia. “Isabel tem visões, e sempre nos disse que um grupo chegaria de longe. Assim que sua amiga me pediu água no portão de entrada, dizendo que havia outros com ela, veio-me à memória as palavras de Isabel...” 119
“...e a missão continua” Serena, sentada entre elas, atenciosa às palavras da freira, provava o chá, que era uma de suas paixões. “... quando Jade foi lhes buscar, corri ao encontro de Isabel e lhe contei o que ocorrera. Ela consentiu que vós ficásseis aqui. Nesses dias, a certeza em seu coração nos passou a veracidade da profecia que ela sempre nos disse. Vocês chegaram.” O coração de Serena lhe fez entender o sentimento que teve ao subir as escadas na noite da chegada. Isabel, cerrando seu olhar, curvando sua cabeça, pegou nas mãos de Serena, como a permitir que alguém do extrafísico falasse através dela. 120
por Agnaldo Silveira “Quanto tempo senhorita. Viemos juntas ao lado dessas terras onde estavas. Fomos abençoadas dos astros, em respeito ao Senhor de tudo. Eras bela e formosa. Eu lhe guiava em espírito e tu me guiavas a visão, pois eu não enxergava muito bem. Caminhávamos pelas lajotas azul e branca e só fui lhe ver quando acordei no mundo espiritual. Sabia de longe, e de longe mesmo que um dia eu poderia tocar-te com outra aparência, meus olhos a enxergar-te e meu coração a sentir-se. Não irás se lembrar de mim, sou Petrolina. Mas, lhe induzi a estar aqui, pois o plano espiritual dessas terras trabalha em comunhão e em minha memória tem aqueles que conviveram comigo, e partiram para outros lugares. E, tu me guiavas a visão... tu me guiavas a visão. Formosa, tu eras uma doçura em pessoa, não havia ninguém igual dentro daqueles pátios, daquelas paredes altas em que vivemos por uns bons anos. No dia de minha retirada do corpo físico, após fugir, tuas abençoadas mãos, me disseste: “Petrolina, irás ver agora, descanse em paz.” E, eu lhe vi. Naquele exato momento... momentos após, eu lhe vi, minha querida Letícia, eras tu. Me abençoastes com tuas mãos e lhe vi, após uma vida de cegueira e resgate que eu mesma contraí e tu sem ter o porquê, me aju- daste, e eu lhe acompanhei em toda a sua trajetória. Sempre busquei a todos da nossa época, que tu mesmo não lembrarás, mas tu és uma delas. E, conforme cada um de vós que tomaram conta de mim, outras existem também... vão evoluindo, e vou conseguindo me conectar. Te trazem a mim, porque minha irmã Letícia, sou muito evoluída. Venci um resgate simples de visão, porém de provas onde tu passaste ao meu lado, pela tua bondade, amor, doçura e atenção às pessoas. Eras assim minha filha. Tratava todos ao redor sempre com respeito. Faz tempo. Acompanho-te 121
“...e a missão continua” esporadicamente, outros também. Porém até hoje tu e Giorgina, não te lembrarás... consegui trazer até aqui, em espírito. Trabalho lá, trabalho cá. Uma pena que o mundo mudou e as pessoas não são mais como em nosso pátio. Volte filha, e leve contigo quem puder ser como eram no passado, menos o filho, ensine a doçura que és, perfeita filha. Conversa- remos no teu adormecer essa noite, pois uma noite basta para recordar- mos, e eu te levarei a um passado merecedor de teu coração. Aqui estarei, para levar-te com permissão dos que estão contigo. Da mesma forma que disseste “Petrolina voltarás ver”, eu, de agora em diante, mostrarei a ti conhecimentos e evoluções, porque tu mereces. A irmã mais doce, mais amável que vivia naquela oportunidade. Tu foste o meu guia, seus olhos físicos eram meus olhos, e lhe direi que nasceste naquele lugar para buscar Luz, pois havia uma vida anterior em que estavas exausta atrás do filho onde perdeste muita Luz e foste sugada pelas energias escuras dessas terras próximas. Encarnaste para orar, orar e orar e iluminar-te, a reforçar-te em busca do teu amado. E vencestes. Desencarnamos mo- ças, filha, era uma outra época, alimentação, saúde fraca. Irmã, tinhas anemia. Éramos muito mal alimentadas. Mas, era no físico, iluminaste teu espírito, doçura minha, que era o que precisavas. Meu amor por ti é por toda a eternidade, lembrarás de mim, irmã Letícia. Sou Petrolina a quem tu guiavas. Lembra-te? Lembrarás aos poucos. A irmã mais doce que me dava palavras singelas e caridosas como nunca tive. Meu tempo acabou, mas venho buscar-te porque, hoje, filha, tu és forte para andar pela espiritualidade desse lado, onde acompanhavas o irmão de longe. Naquela época era uma escuridão só, amo-te. Irmã Letícia, sou Petrolina quem tu guiaste, falaste e verás a partir de agora. Busquei-te.” 122
por Agnaldo Silveira As palavras cessaram, e aquele espírito que havia dominado o corpo de Isabel retirou-se grato. Serena transbordava lágrimas por sua face, a receber um lenço de Lucia. Isabel, retornando à sua consciência atual, aliviou-se. “Vivemos juntas, todas nós. E, essa irmã que proferiu estas pala- vras, sempre permaneceu ao meu lado, pois sabias que tu passarias por aqui um dia” “Não sei o que lhe dizer...” - disse Serena contendo-se em suas emoções - “... lhe agradeço, que Deus Ilumine todas vocês, por tudo. Por terem nos acolhido, sem precisar. Por terem nos alimentado...” - suas lágrimas ainda escorriam pelo seu belo rosto, ao que, desta vez, Isabel retoma as palavras. “Filha, sabemos que as religiões são apenas para nos orientar em nossas condutas. A Verdade é uma só dividida entre elas, onde o homem terreno as muda conforme seus entendimentos. Conquista seus discípulos e, assim, elas dominam o mundo. Mas, não mudam a única Verdade, o Mundo Maior em Espírito que Deus nos con- cede. Desde minha infância, não aceitava que teríamos apenas uma vida, a morrer e ir para o céu ou para o inferno. Sempre soube que o nosso corpo acabaria um dia, mas nosso espírito permaneceria no caminho evolutivo se aprimorando. E, hoje, tudo isso é a prova dos meus sentimentos de décadas passadas.” Até mesmo Lucia impressionou-se com as palavras de Isabel. Serena segurava-lhe as mãos como a um porto seguro, atenta às suas falas. “Esta tua vida...” - prosseguiu Isabel - “... recuperarás tua ener- gia com teu amado, por merecimento teu. Porém, terás outras pela frente que terás de resolver muitas coisas ao lado dele. Deixo-te o conselho em espírito, para que nunca te desvies da tua própria outra parte, porque serás incompleta. Te digo no físico, porque a matéria te induzirás aos devaneios mentirosos que ela possui. Mas, nela, es- tejas firme ao lado de tua metade, pois refletirá imediatamente em tua vida em continuidade no Mundo Espiritual.” 123
“...e a missão continua” “Eu jamais o deixarei. Eu sinto que tirei ele de um lugar muito ruim. E, estou certa de que ele é minha metade em espírito” - disse Serena, recuperada das emoções que lhe dominaram naquela singela e aconchegante sala de chá. “Leves este lenço para ti, assim jamais esquecerás de nós” - disse Lucia, aos sorrisos entre elas. Serena despediu-se e, ao deitar-se, olhou o símbolo do convento bordado naquele lenço. Olhou ao lado, e Romero, desprovido de qualquer segurança, dormia como uma criança. Ela sentiu-se protetora daquele rapaz, que entregaria sua vida, se preciso fosse, por ela. Recordou-se das últimas frases da madre Isabel, sobre próximas vidas. Desejou que aquela vida fosse eterna. Colocando suas mãos sobre seu amor, dormiu profundamente. O despertar do dia seguinte trouxe a Serena imensa ansiedade no regresso ao seu lar. Romero, como a esquecer dos últimos aconte- cimentos, recordava-se ainda no interior da Catedral. Compreendeu as explicações de sua amada, e num intenso abraço, agradeceu a presença dela em sua vida. Desta vez, dispensados de carruagens, teriam a companhia de Albeja carregando seus pertences, e caminhariam a pé. Levariam média de dez dias, às suas aparições em Cádiz. As três imaculadas, entregues às disfarçadas lágrimas, preparam provisões para suas partidas. Retornariam, isentos de pertences ma- teriais, onde refariam suas vidas. Ao chegar-se em despedidas, longos abraços em agradecimento, compreendidos apenas por Serena. “Deus te permaneça em tua fé, em tua evolução e sabedoria. Talvez, um dia, nos reencontraremos, seja por estas terras, ou no Plano Maior. Te deixo meu coração por concretizar minha profecia, e saber que, alguém como tu, existe neste mundo” - disse Isabel, em longo contato corporal a ela. 124
por Agnaldo Silveira “Chegou a hora, vamos...” - disse Jade - “... já o sol brilhará mais forte.” “Um dia eu voltarei” - disse Serena, despedindo-se. Serena, unindo seus braços aos de Jade, iniciaram os primeiros passos em retirada. Romero segurava a corda que, presa ao cabresto de Albeja, carregava, uma em cada lado, grandes sacolas com os itens preparados pelas santas. Alba segurava a outra mão de Serena, e assim, partiram de volta para casa. “Até hoje, nunca olhamos para trás em nossas partidas. Não olhes, minha amiga. Fique apenas com o desejo em um dia poder retornar por onde passamos. Chegamos até aqui, e sempre fomos fortes em todas as tribulações que nos achegaram. Principalmente nas despedidas” - disse-lhe Jade. Refizeram o caminho contrário, atravessando toda a cidade. Logo, os montes de Andaluzia iniciaram seus particulares espetácu- los. Seu exuberante verde, único em todo planeta, dava-os as dire- ções a seguirem. Uma caminhada silenciosa, imersa numa expectativa do reencon- tro com seus lares, com Rúbio, com um povoado que havia lhes dado sua fé. Eles representavam a esperança de cada habitante. E, sete anos depois, regressavam às suas origens daquela vida, ao seus costumes, às suas ovelhas, aos seus sonhos, muitos já deixados ao destino. Retornavam ao que eram em suas essências. Ao longe, no cume da montanha, eles avistavam seu povoado. O dourado escurecido celeste misturava-se com o luminar refletido pela torre da Igreja, já reconstruída à esta altura. Minúsculas luzi- nhas brancas davam o contorno das subidas e descidas entre as rua- zinhas. Entre elas, a ponte que cruzava o rio também ganhara seus reflexos, amarelados, a espelhar-se nas águas abaixo do rio. O coração dos meus dois filhos saltava em emoção do maior 125
“...e a missão continua” reencontro de suas vidas, as suas terras amadas e abençoadas em seus corações. Todo adeus, que lhes deram há anos, fluía desse amor, colocado na fé de um povoado carente, a lhes depositar uma expectativa de perdão de um Deus que ardia em devoção todos os dias de suas vidas. Caminhavam exaustos, não apenas em seus corpos físicos, mas também por toda uma jornada que, diversas vezes, não a entendiam. Sentiram fome, frio, divertiram-se em gargalhadas, temeram em fuga, acreditaram um no outro, como se fossem irmãos nascidos no mesmo lar. Um sentimento extrafísico, incondicional, a não encontrar palavras a traduzir o ensejo fundamental de um amor jamais inigua- lado por onde passaram. “O lugar mais lindo da Espanha” - disse Jade. “Mas tu nem chegou ainda” - disse Alba. “É só olhar daqui. Nunca vimos essas luzes todas, unidas desse jeito” Serena e Romero riram, ansiosos pelo encontro com Rúbio. Assim que chegaram na ponte, a cruzar o rio, o céu já recebia o escuro da noite. As pequenas luzes já se dissipavam e aumentavam seus tamanhos. As pequenas casinhas já começavam a desfilar suas belezas. Após uma acanhada viela, seus passos os conduziam à uma maior, onde algumas pessoas, ao reparar quatro pessoas caminhando len- tamente, e um cavalo lhes servindo de bagagem, com os primeiros dizeres, atraíram a atenção de outras pessoas que estavam próximas. “Eles voltaram” - disse um senhor apontando-lhes o dedo. Muitos começaram a repetir as palavras daquele senhor, e, logo depois, uma roda formou-se ao redor deles. Crianças, sem mesmo saber o que se passava, corriam de um lado a outro, e o número foi crescendo. Todos faziam perguntas, contavam o que reconstruíram, davam- -lhes água, pegavam em seus braços... Serena, levantando suas mãos, pediu a todos que se acalmassem. 126
por Agnaldo Silveira “Meu povo, retornamos. Nunca nos esquecemos de vocês e de nossa vila. Estamos caminhando há mais de dez dias, e, precisamos subir a colina. Vamos conversar em dois dias, no domingo pela ma- nhã, em nossa igreja que já vi que reconstruíram.” Alguns, ao mesmo tempo, queriam contar como fora a recons- trução. Mas, eles, iniciando seus passos, subiram a colina, para, final- mente, chegar em seus lares. ********* “Como vocês sabem aonde estão indo?” - indagou Jade ao de- cifrar seus passos pelo escuro caminho que os conduzia ao topo da montanha. Todos riram, dominados pelo cansaço que imperava em seus corpos. Uma comovida emoção domava Romero em rever Rúbio, após todos aqueles anos distantes. Seu olhar não se movia do término do sacrificante íngreme que os separavam do final de suas jornadas. Ao avistarem pequena luz que clareava suas conhecidas moradas, como a ouvir, mesmo silenciosamente, o cântico de suas ovelhas a sentirem o regresso de suas presenças, notaram que uma moça, ao vê-los, como a esperá-los, erguia seus braços caminhando apressa- damente em suas direções. “Eles voltaram” - disse a moça dando-lhes lágrimas comoventes aos olhos. Era Paloma, logo seguida de Luna. Ambas haviam cumprido suas promessas após suas despedidas em Trevélez. Apressaram seus passos e, num encontro memorável, uniram-se, todos, em saudosos abraços. Mesmo Alba e Jade entregaram-se à alegria que eles recebiam em seus espíritos. Ao que Romero lhes pergunta: “Onde está Rúbio? Quero vê-lo, meu irmão que tanto amo” 127
“...e a missão continua” Certa mudez entre eles interrompeu a euforia do reencontro. “Vamos entrar...” - disse Paloma, calmamente - “... afinal, a casa é de vocês” Dirigindo-se para o interior do humilde casebre, vazio, ao que o coração de Serena lhe transmitiu angustiosos sinais. Olhou para Romero, que, imóvel, sentou-se à costumeira poltrona. “Sentem-se...” - iniciou Paloma suas falas - “... Depois que nos despedimos, traçamos nosso rumo para cá, pois sentimos em nosso coração que esse era o correto caminho a seguir. Foram dias e dias de caminhada, até encontrarmos o povoado. Assim que chegamos, fomos perguntar num mercadinho onde que ficava a colina. Conta- mos que havíamos nos encontrado com vocês, onde muitas pessoas nos rodearam, nos dizendo que pensavam que vocês não haviam sobrevivido à longa caminhada. Vi no olhar de cada um uma es- perança sendo renovada quando eu lhes contei que vocês estavam bem, e em busca do que procuravam. Nos ensinaram como chegar aqui. Subimos a colina, e encontramos com Rúbio. Foi um pouco difícil de nos comunicarmos, e de ele entender que vocês dois ainda demorariam a chegar. O que o levou à um profundo choro. Desse dia em diante, ele não se comunicava mais, permanecia o dia todo ao meio das ovelhas, e sempre que falávamos com ele, ele disfarçava as lágrimas em seus olhos. Ele sentia uma saudade dolorida. Passamos a cuidá-lo como se fosse nosso filho. Ele estava entregue àquele so- frimento. Sentíamos que ele se sacrificava em sua dor. Tentávamos lhe explicar que em breve vocês estariam de volta. Mesmo assim, a tortura em saudades que ele sentia não cabia no mundo isolado que ele possuía dentro dele. Depois de uns dias, não mais levantou-se da cama. Não queria se alimentar, e foi enfraquecendo. Chamamos o médico da vila, que, de todas as formas, tentou-lhe retomar o ânimo. Mas, ele, cada vez mais se entregava à sua dor. Não sabíamos mais o que fazer. Certa manhã, Luna foi chamar o médico novamente, en- quanto eu fiquei com ele. Queríamos que alguém me acompanhasse no provável caminho que vocês fariam de volta, para encontrá-los. Falei para Rúbio que iríamos atrás de vocês” Serena olhou para Romero que, imóvel, escutava o que Paloma 128
por Agnaldo Silveira narrava, segurou-lhe a mão, apertando-a em segurança. Prosseguia Paloma... “Ele estava deitado e, fazendo sinais referindo-se a vocês dois, colocou suas mãos sobre seu coração. Aquele sofrimento não lhe cabia dentro do peito. Era muita dor...” - lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Paloma - “... Ele, olhando para cima, como a olhar o céu, apontou com a mão ao alto, como dizendo que es- peraria vocês em algum lugar. Foi baixando sua mão lentamente, enquanto a outra permanecia em seu coração. Fechou seus olhos. Eu comecei a chacoalhá-lo, e, quando a mão que estava em cima do coração perdeu sua força e caiu ao lado da cama, percebi que ele não estava mais ali. Eu não sabia o que fazer, balançava o corpo dele, e ele não respondia... “ - segundos após breve silêncio - “... ele não aguentou” – Paloma, baixou sua cabeça dominada pelas lágrimas. Serena e Romero receberam a maior dor de suas vidas. Abraça- ram-se e choraram copiosamente. A alegria de instantes atrás transformou-se em insuportável dor. Todos abraçaram-se, novamente, envolvidos em tortuosa angústia a lhes dominar os sentidos. O choro de Serena e Romero misturava-se numa eterna saudade e culpa por o ter deixado e partido. Minutos depois, Luna, a pedido de Serena, preparou um chá calmante para todos, abrandando-os o coração. Madrugada adentro, permaneciam, hora no luto, hora no desa- creditado rumo que Rúbio recebera do destino. Um sentimento de irresponsabilidade dominou Romero e Serena que, por diversas vezes, entregavam-se ao choro, e eram conforta- dos por Jade. “Onde ele está?” - perguntou Romero, já ao clarear do dia. “Colocamos ele próximo daqui” - disse Paloma. “Me levem até ele” - pediu Romero. Abraçados, ele e Serena, acompanhado de todas as outras, ultra- passaram o abrigo das ovelhas, que, soltas por Paloma, seguiam suas rotinas. 129
“...e a missão continua” Eles chegaram próximo a uma árvore. Os olhos de Romero se encheram de lágrimas, ao ver uma cruz de madeira fincada no solo. “Todo final de tarde, ele ficava sentado embaixo dessa árvore. Decidimos dar a ele seu repouso eterno aqui.” “Ele ficava sempre aqui mesmo.” - disse Serena. Romero, caminhando lentamente até a cruz, ajoelhou-se à sua frente. “Perdão, meu irmão... perdão... “ - dizia entregue à dor e ao choro de Serena, ao seu lado - “... sempre estarei com você e você comigo. Te amarei pelo resto de minha vida.” Os olhos de Serena transbordavam penosas lágrimas em amor à Rúbio. Ela sentia em seu coração que ele era como um filho aos dois, desde suas uniões. Seu amor a ele era materno, incompreensível aos seus sentimentos. Ela apenas vivia essa certeza. Não questionara nunca o que a vida o havia dado. Sentia-se como a perder um filho. Romero, ainda curvado, dominado pelo remorso em tê-lo aban- donado, ainda dizia. “... te amarei sempre, meu irmão querido... meu irmãozinho... tu és um pedaço de mim... sempre será” Dolorida comoção invadiu os corações de todos. Do outro lado da vida, Rúbio ouvia todas as lamentações que lhe eram oferecidas. Ao que, imperceptivelmente, Serena olha ao alto, e o vê, porém, em fisionomia daquela pequenina menina que recebera em seu so- nho. Ela sorria-lhes, como a lhe dizer - “Não chores, estou bem. Va- mos voltar e ser felizes.” - retirando-se ao lado de dois espíritos trajados de branco, ao infinito. Serena, aliviando o coração do rapaz, retirou-o dali, retornando, todos, ao casebre. Repousaram seus corpos, pedindo a Luna que fosse à vila, avi- sar o povoado que no dia seguinte, pelo final da tarde, estariam na Igreja. 130
por Agnaldo Silveira P ortando vestes brancas, como a representar a Iluminação Espiritual que possuíam, inconscientes desta dádiva, todos desceram a colina e dirigiram-se à pequena igreja, recons- truída. Todos os habitantes do povoado, presentes, acomodaram-se à frente da paróquia, e, em silêncio, ouviam as palavras de Serena. “Agradeço a todos pela fé colocada em mim e em meu esposo.” - iniciou ela suas falas, ao olhar caloroso de muitos, na curiosidade de outros, acompanhada pelas quatro ‘novas irmãs’, como ela dizia. O reverendo da cidade, ao lado, a ouvia atentamente. - “... Estas são nossas novas habitantes do nosso povoado. Fizeram parte de nossas jornadas, e decidiram vir para cá, mudando suas vidas...” - outro bre- ve silêncio - “... quero deixar nosso amor por Rúbio, que foi morar ao lado de Deus.” Neste instante, ela tira o colar com o cristal ao meio da cruz, recebido da cigana Jasmim, na entrada de Almeria, e a levanta para que todos o vejam. “Esta é cruz que fomos procurar. Foi nos dada por uma amável cigana, em amor incondicional a esta humanidade...” - todos olha- vam atentos ao objeto erguido ao alto. - “... Nosso povo...” - disse segundos depois - “... não fora castigado por um Deus que queria se vingar de todos. Deus não possui esse sentimento por seus fi- lhos. Ele ama a cada um, igualmente, como nós o temos como o Pai Maior de tudo. O Único Criador de nossas vidas e de nosso povoado. As águas que destruíram nossa aldeia foram apenas um fenômeno da natureza, como pode acontecer em qualquer outro lugar. Ele jamais nos castigaria pelos nossos atos passados, nós so- mos os únicos responsáveis por nós mesmos. Ele apenas nos ama, e nos concede a livre escolha do caminho que decidimos seguir. Não há punição da forma que todos pensavam.” - mesmo sem perceber, refrescante alívio invadiu o coração de todos. “Não existe uma oração de salvação. A verdadeira prece é aquela que fazemos todos os nossos dias de nossas vidas, vindas do fundo do nosso coração. Todos os dias Ele nos ouve, em seu eterno amor 131
“...e a missão continua” por nós. Pois, um Pai jamais penalizará seus filhos, como todos acharam terem sido castigados pelas águas. Nosso povo é lindo, não tem maldade alguma no coração. Acor- dem em todos os seus dias, e agradeçam por suas existências, agra- deçam por seus familiares e por tudo aquilo que vocês têm. E, se não têm tudo o que desejam, não tem importância, porque temos um ao outro em nossa caminhada evolutiva nesta cidade. Somos daqui. Nossos espíritos pertencem a este lugar, e nosso coração está num Deus benevolente, caridoso, que nos ama todos os dias, não em um deus destruidor.” Serena interrompera suas palavras com algo que o reverendo lhe dissera. O povoado murmurava entre si, a aceitar todas as palavras da- quele espírito Iluminado, encarnado, a lhes transmitir fé, confiança, sabedoria, e, principalmente, vontade de viver suas vidas livres de qualquer sentimento de culpa. Uma das auxiliadoras da igreja, entrega uma vela para cada mo- rador. O céu já deixava seus primeiros sinais de que a noite se aproxi- mava. Vestidos de branco, Romero e Serena à frente, unidos a todos, logo atrás, em procissão, deram os primeiros passos a contornar todo o povoado. “Estas luzinhas vão abençoar nossas terras” Ao longe, no Mundo Maior, eram acompanhados por muitos Irmãos de Luz. Aquela pequena multidão, representada por cada claridade refletida de cada vela, misturada ao anoitecer, caminhando em silêncio, em respeito ao Criador, resplandecia uma encarnação abençoada, onde muitos dali perdoaram-se entre si, e, a si mesmos, por compreenderem que não havia um Deus que os tinha castigado. 132
por Agnaldo Silveira U m sentimento saudoso e culposo mesclava-se na vida dos meus dois filhos amados. Alguns anos tinham de- corrido, e uma nova casa, de madeira, Romero cons- truíra para suas eternas companheiras que conheceram ao longo daquela jornada. Tentou, ao longo daquele tempo, retornar ao habitual, ao que sempre sentia a presença de Rúbio. Suas harmoniosas convivências o fortaleceram à compreensão, não física, e, sim, Espiritual. Serena, ao clarear os dias de domingo, comandava uma roda en- tre eles. Sentados aos verdes gramados que rodeavam o casebre, suas quatro irmãs em consideração e mais sua metade em espírito ouviam as palavras que ela, induzida por um Irmão de Luz, lhes pronunciava em sabedoria e crescimento dos seus espíritos. O sol nascia nas montanhas de Andaluzia, e eles preparavam-se, unidos à busca de suas verdades. Serena, habitualmente, condizia-os às meditações iniciais a har- monizarem-se entre si, regados de uma natureza propicia à essa sin- tonia. Olhos fechados, em suas consciências esvaziadas, enquanto to- dos buscavam suas concentrações, em questões de segundos, Serena teve uma visão. 133
“...e a missão continua” “Ela caminhava entre as praças e os arvoredos de um plano astral magnífico em sua essência. Ao seu lado, passo a passo a lhe acompa- nhar, viu Jasmim, a mesma cigana que havia lhe presenteado o crucifixo em Almeria. Sentiu-a conhecer há tempos, num Mundo Maior repleto de missões e incondicional amor, gerados de uma verdade incomparável ao mundo carnal. Jasmim, grandiosa em condição avançada à esta humanidade, convi- dou-a a ouvir suas palavras. O canto dos pássaros confundia-a entre as colinas e sua visão. Po- rém, sintonizada com a natureza física, percebera que existia uma per- feita conexão entre elas, as duas naturezas “Vou te levar ao seu jardim, o mesmo que tu sempre te encontras com tua metade do lado de cá. Mas, desta vez, nós duas somente.” Acendendo com a cabeça, ambas se aconchegaram ao melhor lugar, envoltas por orquídeas, e, Violeta Luz emergida de um firmamento Cósmico. “Vós sois minhas meninas” - disse amavelmente, Jasmim. “Cruzaram seus caminhos e honraram suas promessas deixadas aqui neste plano, a permanecerem unidas num turbulento e ilusório mundo terreno. Suas ligações são remotas, e seus reencarnes sempre são regados de despedidas esperançosas aos seus reencontros em corpo físico. Paloma és tua alegria. Luna, tua força e segurança. Jade, sua eterna sustentação. E, Alba, o teu desafio, pois nunca se encontra em suas vidas. Todas elas são tua responsabilidade. Sempre estarão em missão, mesmo com um mundo carnal que possa lhes interromper a convivência. 134
por Agnaldo Silveira São os inevitáveis desafios que brotam da energia terrena, num plano físico sintonizado às conquistas materiais superando as honras espiri- tuais. E, vós sois minhas meninas. Porque daqui, encarnarei apenas em sacrifício a vós. Porém, após esta vida, suas conexões se firmaram, e vos olharei daqui. Porém, a ti e tua parte, meu cuidado sempre será mais intenso, devido suas origens, onde tu e ele tornam-se minha missão, a exemplificá-los nesta vida, uma união respeitosa e perfeita. Mas, minha menina, nem sempre será assim. Vós se fortificaram, porém, quando tu saíste do Mundo da Verdade e fostes encarnar a tentar oferecer o amor aos que o seguiam no mundo escuro, gerou carma entre ti e aqueles que foram teus familiares. Porque tu decidiste te arriscar àquela vida em amor à tua metade, para que ele deixasse de ser perseguido por aqueles que o desejavam de volta ao mundo negro. Teu amor a ele, em espírito, te levou carmas a serem superados de agora em diante pela matéria. Estiveram contigo nesta vida, mas alivia- dos pelo Mundo Maior, permitiram tuas uniões. Mas, não será sempre assim, porque o próprio mundo físico irá mudar em séculos. Transições planetárias perigosas, espirituais, a refletir no físico, aflorará a cada ser encarnado aquilo que lhe é de superação. Uns se perderão de vez, outros se salvarão eternamente. Teu espírito deves estar em constante evolução e aprendizado, para que tu e tua metade não cometam os mesmos desvios, seja de qual parte for, ao futuro que se aproxima.” Serena, atenta às palavras de Jasmim, alegrou-se por todo conhecimento que adquiriu, mesmo que rápido entre as diferenças entre os dois planos.” 135
“...e a missão continua” “Serena... Serena” - ouviu a voz de Jade vindo de longe - “Nossa, você entrou em transe” Todos riram. Ela, retomando sua consciência apenas física, dis- farçadamente, disse: “Vamos iniciar nossa meditação” 136
por Agnaldo Silveira O s anos foram mostrando as primeiras rugas em seus rostos. As ovelhas já não eram as mesmas. Muitas já haviam sido comercializadas, e outras nasciam para iniciar seus trajetos. Serena convivia com suas irmãs, declaradas por uma Verdade Es- piritual, a lhes continuar uma vida de felicitações. Sempre recordan- do do tempo que caminharam por toda Andaluzia. Romero, fiel às suas ovelhas, dava-lhes seu amor em troca de suas companhias silenciosas, exausto da angústia em saudades de Rúbio. O silêncio que imperava em seu espírito repetia, em sua cons- ciência, igual vazio vivido por seu irmão, em seus últimos dias em corpo terreno. A noite aconchegava-se às montanhas andaluzes, trazendo o ge- lado da névoa que se dissipava entre sua vegetação. Ele recolheu as ovelhas aos seus lares prematuramente, antecedendo sua volta ao casebre. Serena preparava sua sopa preferida, aos risos com suas com- panheiras. Ele, mudo em suas palavras, ouvia o tagarelar das tantas mulhe- res que moravam em sua colina. Antes das quatro seguirem para seus cômodos, em casebre ao lado, Serena notou certa estranheza à face do seu amor. “O que tens?” - indagou ela. “Me sinto estranho, mas leve” - respondeu cabisbaixo, dirigindo- -se ao seu quarto. Enfraquecido, ao meio dos seus passos, fora segurado por Sere- na, ao deitá-lo em seus aposentos. Ela o sentiu febril. “Sentes alguma dor?” - perguntou-lhe, preocupada, com todas ao seu lado. “Não sinto nada, apenas fraqueza” - respondeu-lhe ao deitar-se Jade apressou-se em tomar uma úmida toalha, a ser colocada, por Serena, em sua testa. 137
“...e a missão continua” Ele, olhando com amor, à Serena, pegou em suas mãos, olhando todas ao redor. “Eu serei sempre você, onde eu estiver” Serena lhe sentia desprovido da força que sempre possuíra. Apertando suas mãos, aproximando seus rostos. “Eu serei sempre você, em qualquer lugar do Universo” - disse ela. Afastando-se, viu-o de olhos fechados. Chamou-o, sem obter al- guma resposta. Desesperada, chamava-o, e ele não mais respondia. Jade coloca suas mãos sobre o coração do rapaz, e, imediatamen- te, torna seu olhar, assustada, para Serena, às lágrimas. Romero havia cumprido toda sua jornada naquela existência carnal. Ele, em espírito, levantou-se e, olhando ao lado, notou seu veícu- lo carnal, como a dormir eternamente. Olhou Serena debruçada so- bre seu corpo, em aflito desespero, repleta de lágrimas a despencar por sua face. Ele percebe que dois Espíritos Iluminados lhe espera- vam com as suas mãos estendidas. Segurou-as confortavelmente, e, em último olhar a Serena, disse - “Te espero em nossa casa. Te amo” - assim, volitaram em direção à resplandecente Luz que os esperava. Serena, acudida por todas, perdera a consciência, ao soltar seu corpo ao chão. Minutos depois, retomando seus sentidos, abraçou-o pela última vez. Jade, mesmo àquela altura da noite, após algumas horas, dirigiu- -se à arvore em que Rúbio descansava em sua eternidade física, e prepararam, ao lado dele, o repouso eterno de Romero. Pela manhã, grande multidão do povoado subiu às colinas, em despedida àquele que, junto à Serena, renovaram em todos suas crenças, dando-lhe uma nova vida de alegria e satisfação em habita- rem o vilarejo. Os dias tornaram-se massacrantes para Serena, não suportando sua falta. Sentia-se incompleta em seu corpo físico. A todo momen- to, percebia seu amor ao seu lado, e, ao olhar, era apenas o mesmo vazio de sempre. 138
por Agnaldo Silveira Todas as manhãs, ela e Jade caminhavam até a arvore, onde Ro- mero descansava em sua eternidade, e conversava com ele. “Meu amor, sempre seremos o mesmo espírito. Sei que um dia estaremos unidos, pois nada nos separa. Somos um só. Sinto que deixei de fazer muitas coisas para nós dois. Prometo estar ao seu lado todos os tempos de minhas existências.” Jade, a abraçando, retornaram ao casebre. 139
“...e a missão continua” R omero despertou, tempos depois, numa Iluminada sala, ro- deado de pessoas trajadas de branco. Sorrisos lhe olhavam, como a lhe esperar o despertar. Sentiu-se seguro, e, recebendo amorosa Luz, retornou ao seu profundo sono. Alguns dias se passaram, e novo despertar a consciência o levou às primeiras palavras. “Obrigado pelo amor que me permitiram vivenciar em meu de- senlace” Ao seu lado, estranhamente, percebeu que Jasmim, a cigana de Almeria, olhava-o com imenso amor. Minutos depois, enxergou-a, levemente, mudando sua fisionomia para Alice. Ele, em Iluminado sorriso, recebeu-a em seu amor. Suas lem- branças carnais ainda se fechavam às suas Verdades. Lentamente, foi sendo permitido que memórias carnais afloras- sem em seus pensamentos. No exato instante, ao recordar-se de Serena, leve desespero ameaçou-lhe os sentidos. Alice, acalmando-o, lhe disse. “Meu filhinho querido, acalma-te. Aguardamos tua sabedoria à Verdade, para que tu, em poucos dias carnais, nos acompanhes à busca do teu amor de sempre para teu lado, aqui em nossa casa” Ele, aliviando-se, ansiou pelo encontro em espírito com sua me- tade, certificando-se de todo amor que existia entre eles. O Sol ainda ensaiava sua aparição nos montes de Andaluzia. Al- guns anos terrenos transcorreram normalmente, enquanto Serena, em seu sofrimento diário, entregava-se à espera por seu amor. Romero e Alice, unidos a outros cinco Espíritos Iluminados, flu- tuavam em direção ao casebre, enquanto Serena dormia profunda- mente. Ele, em suas chegadas, sentiu a saudade de suas ovelhas. Olhou o casebre de suas irmãs de coração, deixando leve sorriso brotar em sua face. 140
por Agnaldo Silveira Logo, aproximou-se de Serena, de olhos fechados, porém aber- tos em espírito. Ela, ao vê-lo, como em um sonho, logo tornado em realidade, levantou-se e, abraçando-o, disse - “Não me deixes longe de ti” - Ele, recuperando suas forças, que há muito não possuía pela distância entre eles, lhe disse. “Olhes, já não mais pertence a este corpo. Vim lhe buscar para vivermos em nossa eterna morada” Aliviados, como um bálsamo à suas consciências, voaram pelo astral Iluminado a continuarem suas vidas juntos. ********* As colinas permaneceram. Andaluzia continuou sua jornada por este planeta. Jade cuidou, em seu amor e dedicação aos dois, das ovelhas, dos plantios de Serena. Amou aquele lugar, inexplicavel- mente. Até certo dia, sendo ela a última a ser buscada por ambos, retor- nando aos seus lados ao Mundo Maior. 141
“...e a missão continua” A mália encarnou com o nome de Zaya, pela sua tradição mulçumana, e chamada de Serena por Romero. Serena recuperou sua ampla consciência rapidamen- te, devido a sua evolução, em sua retomada ao Mundo Maior. Seus espíritos, inseparáveis, dali à frente, entraram num amor espiritual, cientes de que as vidas carnais lhes pertenciam. Com o tempo espi- ritual decorrendo, relembraram suas origens, e reprogramaram seus retornos ao mundo carnal. Ao seu tempo, a memória lhes trouxe Rúbio. Em seus pedidos merecidos por suas evoluções, lhes fora concedido o encontro a ele. Foram levados à uma dimensão Superior. Ela, ciente da retomada da imagem de Rúbio em sua passagem anterior, em seu sonho, onde ele decidiu reencarnar e resgatar seus sentidos, ao nascer com perdas de fala e audição, encontrou-o em superação concluída, por seu elevado estado de consciência. Rúbio, recebendo-os em seu Lar Espiritual, aproximou-se de ambos, mostrou-se em sua verdade aparente, onde imediatamente a consciência dos meus dois filhos amados o reconheceram, reto- mando suas memórias de vidas anteriores. Romero abraçou-o, em pedido de perdão e incontrolável saudade. Serena, colocando sua mão sobre a de sua metade, e outra no coração de Rúbio, recebem a Verdade do Mundo Maior, ao sua aparência tornar-se na pequena menininha, já revelado à Serena. A consciência de Romero retornou à um distante passado, com- preendendo toda situação entre vidas. Perdoaram-se, e numa memorável consciência de seus erros, am- bos pediram aos Mestres Espirituais um retorno, aceito pela crian- ça, à serem seus pais, o que não concluíram ao ela encarnar como Rúbio. Em seus merecimentos, foi-lhes concedida nova oportunidade. Porém, ao novo encarne, não seria mais de fortalecimento. Ingressa- riam num mundo de carmas e regastes, porém unidos no amor que reforçaram pelas terras de Andaluzia, conforme lhes fora permitido. 142
por Agnaldo Silveira S eus espíritos abriram seus olhos carnais na região de Ronda, Málaga. Energeticamente ligada à espiritualidade, sintonizava Rome- ro aos seus antigos desvios a ser restabelecida nova oportunidade carnal em se desvencilhar daqueles a quem os seguia enquanto en- tregue ao mundo negro. Uma passagem terrena perigosa ao afloramento de suas necessi- dades transformadoras que carregava em seu espírito. Serena, encarnando como Amália pela segunda vez, onde perma- necerei com o nome de Serena, viviam num povoado imerso num submundo astral, em meio ao reduto dos famosos bandidos An- daluzes, os ‘bandoleros’. Atraído pelo seu próprio passado, Romero missionava em recuperar-se, em perdão, aos que se julgavam traídos por ele ao deixar o mundo negro. Logo, envolveu-se aos foliões das touradas espanholas. Nas Leis Universais, ele destinou-se a Serena, que, em sua traje- tória, pouco se conectava àqueles seres negros encarnados ao lado de sua metade em espírito. O retorno à um passado cármico, porém, fortalecidos no amor conquistado na vida anterior. Ela apaixonou-se às touradas, onde ele desafiava os mais revolto- sos animais a lhes dominar as provocações. O reencontro deu-se induzidos pelo Mundo Maior, aos desafios cruéis que ele impunha aos animais, conectando-o às suas supera- ções de poderio. Aos olhos carnais, uma personalidade oposta à sua última passa- gem, porém necessária para seus resgates definitivos. Em sua elegância física, ofereceu a Serena uma imediata paixão, logo recíproca, em declarada união física, a conectarem-se material- mente. O amor renasceu e, rapidamente, uniram-se em matrimônio, em região montanhosa. Desprovidos de sustentação energética, como anteriormente, a 143
“...e a missão continua” lhes proteger de espíritos escuros como na vida passada, teriam de enfrentá-los, inconscientes dessa verdade, em seus propósitos espi- rituais. Romero cercava-se de malfeitores espirituais, encarnados, em convivências regadas pelos devaneios carnais, a lhe colocar à pro- vas seu vulnerável espírito carente daquela superação conquistada anteriormente. Serena, inconsciente à toda Verdade, incluindo seus carmas con- quistados em primeira passagem como Amália, na tentativa de dar amor e perdão àqueles seguidores de sua metade, permanecia amo- rosa em sua singela luta por sua felicidade, empenhando seu espírito a vencer sentimentos aprisionais que adquiriu no passado. O perdão às indiferenças maternas e compreensões aos sentimentos de posses de seu pai. Porém, em decisão carnal, igual última passagem, separou-se, em sua livre escolha, adiando momentaneamente em sua trajetória reen- carnatória suas superações familiares, entregando-se ao livramento desejado, pela primeira em físico, do seu amado. Desta forma, receberam o espírito de Rúbio, em sua real apa- rência espiritual já dita, em uma linda menina a quem chamaram de Sheila. Ela nascera a dar-lhes a oportunidade em transformação defini- tiva, trazendo um amor incondicional em seu coração. Esse amor seria refletido aos dois, a vencerem todas as suas tribulações con- quistadas no físico Assim, uniram-se em suas essências originais, entregues ao amor carnal. O lado negro do astral, visionário de toda verdade que acredita- vam em suas doutrinas, comandava todos os “bandoleros”, ao dese- jo de conquistas materiais. Cientificavam-se que Romero caminhava seu espírito pelos Mundos Iluminados, não pertencendo, como an- tes às suas leis. 144
por Agnaldo Silveira Desta maneira, dispuseram Igor, o mesmo espírito que prometeu vingança em destruição de ambos, ao carregar em sua mente espi- ritual negra, refletida na mente carnal, que Serena havia tirado-lhes seu líder, a perderem-se em suas instruções. Sustentado por um mundo trevoso invisível e inconsciente a ele, Igor conquistou sincera amizade de Romero. Em objetivos negros do astral, como o agiria em todas as vidas dos meus dois filhos amados, Igor dava-se à destruição de ambos, e assim, separados, retirar-se-ia seguindo sua jornada. O Plano Maior, ciente de toda Verdade, possibilitava Romero vencer seu desafio carnal. As touradas uniam-os sinceramente, em comunhão com outros adeptos ao mundo escuro. Romero retornava à uma sintonia conquistada no mundo terre- no, e este deveria ser o palco de sua superação. Porém, magnífica bondade possuía em seu coração, entregue ao amor de Serena e Sheila. ********* Igor trazia, em sua conexão fiel ao mundo escuro, uma ilusó- ria simplicidade, em característica espiritual, a transmitir confiança. Elegante em sua exuberante vaidade, seguia induzido por seus supe- riores, buscando sua afirmação pessoal em Romero inconsciente de seus passados espirituais. Romero, o tinha em confiança suas pala- vras. E, os devaneios de Igor passaram influenciá-lo, em conquistas materiais inexistentes nas vilas de Ronda. Serena doava-se por inteira ao seu amor e a Sheila. Dedicada ao seu lar, certo dia, recebeu à porta Igor à procura de Romero, que ainda não havia chegado. Aproveitando-se da situação, induzido pelos espíritos negros, forçou uma aproximação à Serena que, empurrando-o com suas 145
“...e a missão continua” mãos, o colocou para fora de sua casa. Ele, ao virar as costas, disse-lhe. “Se não fores minha aqui, serás em outra oportunidade. Com ele tu não ficarás” Ela, horrorizada com a atitude do rapaz, amigo do seu esposo, optou pelo silêncio, em sua sabedoria impressa em seu espírito, a não causar certa discórdia entre eles, pois ciente de sua personalida- de aos ‘bandoleros’, temeu por suas vidas. Em seu silêncio, ela pedia em suas preces o afastamento do seu amor de todo mal que pudesse lhes intervir na união de sua família. As amizades do seu esposo, cada vez mais influenciado pelos espíritos negros encarnados, eram manipulados como a cercá-lo em sua destruição pessoal. Antigo passado aflorara aos sentimentos de Romero. Inspirações negras aos olhos espirituais e prazerosas ao olhar carnal. Era o mundo escuro do astral fazendo sua parte. Igor convenceu-o irem a Portugal, onde teriam oportunidades de participarem das principais touradas do país. Aos seus retornos, Serena mostrava-se triste com as atitudes do seu amado, ao pedir em suas preces consciência em sua contraparte. Ele a amava e dedicava-se à Sheila em tudo que podia. Porém, não se atentava às suas ações permitindo as influências negras atra- vés de Igor. Este último entregou-se ao seu antigo sentimento, e, manipu- lando seu amigo, em tentativa de convencê-lo a partir para Portugal definitivamente, onde poderiam ter uma vida melhor, induzia-o à passada conexão espiritual negra. Por diversas vezes, Romero dizia à Serena o desejo de partir, pois ali no vilarejo suas vidas seriam as mesmas eternamente. Serena mergulhou em profunda angústia, enquanto Sheila dava os primeiros passos em sua vida física. 146
por Agnaldo Silveira Naquela noite, Serena servia o jantar, amavelmente, à sua família. Sentimentos agonizantes cresciam em seu íntimo, sentindo-se longe do amor que Romero dizia sentir por ela. No silêncio daquele ins- tante, ele se pronunciou. “Amanhã me vou. Não aguento mais essa vida miserável...” - dizia ele induzido pelos espíritos escuros - “... se quiseres vem comigo” Serena, ao ver Sheila, inocentemente, tomando sua sopa, lhe dis- se tomada por lágrimas aos olhos. “Mas, e nossa filha? Ela é pequena e de nada sabe. Não podemos sair por aí sem saber onde vamos. Somos uma família, e esse é nosso lar, nossa proteção e nosso amor” “Recado dado, amanhã me vou. Você decide o que fará” Permaneceram calados, enquanto Serena o vê levantar e deitar- -se. Seu coração partido, não lhe permitindo quaisquer palavras sair de sua boca. Ao recolher-se ao seu lado, ela chorou amargamente. Ao clarear do dia, Romero pegou suas coisas e partiu. Serena permaneceu em silêncio, segurando Sheila, que ainda dormia em seu colo. Encontrou-se com Igor, e partiram para Portugal. Os dias se tornaram insuportáveis para Serena. Ela cuidava de Sheila, que nada entendia. Ao entardecer, ela permanecia na varanda a esperar possível regresso de seu amor. Sua mente, mesmo fechada à vida anterior, lhe transbordava o amor, unido ao insustentável vazio deixado por Romero. O decorrer do tempo trouxe enganosa paz ao seu coração, ini- ciando um vagaroso sentimento vingativo pela crueldade causada pelo abandono sofrido. Em seus pensamentos, após chegar do seu trabalho como costu- reira a sustentar Sheila, entregava-se ao aconchego da sua varanda à frente de sua casa, enquanto sua pequena filha brincava à sua frente, observando o caminho que ele havia partido, almejando seu retorno. Os anos se passaram, e, ela, envolvida ao maior sentimento de injustiça que sofrera, permitia que sua dor aumentasse seu ódio, que 147
“...e a missão continua” substituía seu amor por ele. Sheila, já crescida, viu sua mãe deixar seu corpo físico, numa fria tarde no vilarejo de Ronda. Ela havia fechado seus olhos, como a delirar, dizendo: “Te amei minha vida toda, e tu usastes de tanta crueldade com nosso amor. Te amo... e te odeio” Sheila permaneceu solitária, com poucas lembranças de seu pai. Sua vida tornou-se vazia após a partida de Serena, continuando as costuras que sua mãe lhe havia ensinado. Por diversas noites, sentava-se onde Serena a via brincar quando pequena, e onde, já crescida, viam a noite correr em inúmeras con- versas entre elas. Sheila sentia o vazio e a dor de sua perda. Porém, em sua evo- lução espiritual, jamais sentiu aquele ódio declarado por Serena em relação ao seu pai. 148
por Agnaldo Silveira J ade, unida a outros Irmãos de Luz, aproximou-se de Serena, deitada, adormecida, sobre uma maca no Mundo Maior. Passando suas mãos sob seus cabelos, pensou - “Que Deus tenha compaixão de ti, não deu certo dessa vez” Ela chegava, entregue à um profundo carma em sua história espi- ritual. Todo um passado de luta perdia-se ao desvio de Romero. Ele permanecia na ilusão carnal, induzido pelo mundo negro, seguindo seu livre arbítrio. Jade, curvando sua cabeça sob o peito de Serena, orou ao Cria- dor: “Sei da tua benevolência aos teus filhos, meu Pai. Peço-te Luz para minha irmã em espírito, que vivenciará épocas turbulentas em sua história. Não a abandone, Senhor” Foi interrompida pelas lágrimas que rolavam por sua face. Imen- sa tristeza dominou a todos. No mundo carnal, com o decorrer do anos, Romero retornou, derrotado, ao seu lar. Recebido por Sheila, como já descrito em pri- meira narração. Guiado pelo mundo escuro, após o desencarne de Serena, foi dada a ordem para que Igor o traísse, anos depois de sua partida. A perfeita engrenagem escura do astral se satisfazia - “E, assim, faremos em todas as suas vidas” - Mesmo ambos tendo suas prote- ções, ao encarnar, suas ‘livre escolha’ eram respeitadas. O despertar de Serena ocorreu no momento em que Romero se despedia em vida de Sheila, regressando ao Plano Espiritual. Ao ser acolhido e levado à mesma ala que Serena, ela decidiu re- tirar-se e isolar-se. Energeticamente, ela fora puxada para um ermo lugar da cidade astral, confortando-se igualmente na sala feita de pe- dra e areia, por onde permaneceu longos anos, em tempos carnais. Daqui em diante, meu caro leitor, encontra-se a narração da pri- meira parte desta obra. E, assim foi... 149
“...e a missão continua” “Um reencontro espiritual, após quase três anos físicos... por um longo tempo. Uma certeza: um amor que transcende vidas... e que ficará para a próxima. Seguirão em paz, espiritualmente. Seguirão um para cada lado, mas juntos dentro de um só coração...” ********* “... ela, foi habitar isoladamente próxima ao grande lago da Colônia Espiritual. Meu querido filho, foi levado ao outro lado, numa região montanhosa, no caminho de volta à uma nova capelinha que havia sido formada.” 150
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