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e a missão continua

Published by fabio, 2022-07-12 21:05:26

Description: e a missão continua

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por Agnaldo Silveira Porém, certa noite, eu estava ajoelhada ao pé da minha cama, com minhas mãos unidas em prece, pedindo para que me deixassem retornar para a igrejinha, quando uma Imensa Luz se abriu na minha frente. Jamais esquecerei a paz que me foi dada naquele momento. Do centro da Luz, caminhava um homem todo de branco, tra- zendo pelas mãos a Virgem, Nossa Senhora. Ela, aproximando-se, colocou suas mãos sobre minha cabeça, e me disse que uma igreja maior deveria ser construída no povoado. Eu apenas ouvia. Essa igreja seria reconstituída igualmente a uma exis- tente no Mundo Espiritual. Eu não entendia nada que ela dizia, pois tinha somente sete anos de idade. Mesmo assim, eu prestava atenção nas palavras dela, que continuou falando: Ainda voltarei mais um vez em sua vida, porém, chegará uma força energética merecedora e mis- sionária, que encarnará a este mundo para deixar uma Luz neste lu- gar, e sintonizar-se àqueles que necessitam desta força, para que esta igreja seja materializada. Será uma força de uma encarnação perfeita, onde passarei a me chamar Nossa Senhora da Encarnação. Tempos depois, meus pais deixaram esse mundo, e foi onde eu, abandonando tudo na vida, passei a trabalhar na igreja. Com meus vinte e três anos de idade, fui chamada para ser freira, mas, apesar de não seguir a tradição religiosa da minha família, não aceitei. Eu já estava dedicada à minha fé, não precisava chatear meus pais seja lá onde eles estives- sem no céu. Até hoje, nas horas vagas, fico sentada onde vocês me encontraram. Ali, é a porta de entrada da cidadezinha. Muitos vão e vem, mas hoje pela manhã, eu sabia que vocês eram essa força ener- gética que Nossa Senhora havia me falado.” As palavras se cessaram. Serena, emocionada, calada, enquanto Romero, sentado mais atrás, não tirava os olhos da senhora Samira. Neste instante, ela se levanta, lembrando-se das batatas que esta- vam a cozinhar. Retornando à sua cadeira, com dificuldade no falar e no andar, prosseguiu: “Vamos nos alimentar que já é passada a hora. Após, vamos caminhar” 51

“...e a missão continua” A mesa posta com o mais profundo amor, como a recebê-los em anos de espera, em farta alimentação que, há tempos, não tinham. A simplicidade de coração de Dona Samira emergia do seu nobre espírito. Serena observa o resplendor que emanava de seu aura. Ig- norada por muitos de Santa Fé, certamente encarnara naquela opor- tunidade em sustentação para o nascimento da Igreja da Santa. Sofrera por toda uma vida uma angústia, por onde diversas vezes lhe falhara a fé, em sua espera. Piedosa e complacente consigo mes- ma, ultrapassou profundas dificuldades que, hoje, sentia ela, terem valido a pena. “Olho aos dois, e o que vejo é apenas uma força de Luz. Não sei explicar-vos meu sentimento. Sinto uma missão realizada dentro de mim” - disse ela, enxaguando o último prato após a refeição. Servindo um aromático chá digestivo, numa simples canequinha de barro, prosseguiu: “Vamos a um lugar. O Santo lugar que habita em mim” Dali, retiraram-se. Romero, sonolento após robusta panela de carne com batata, esforçou-se para se levantar da cadeira. Enquanto Serena, ainda trocando palavras com Dona Samira, pediu para en- cher seu cantil com fresca água. Caminhavam pela pequena cidadezinha de Santa Fé. A Senhora ia-lhes contando que dali partira Colombo para as Américas. Ambos apenas ouviam as profecias da imaculada. Ao contornarem a última rua, muito próximo da pequena casi- nha em que saciaram suas fomes, avistaram largo vazio de terras, uma planície a ser carpida. Em seu centro, foram interrompidos em seus passos pelas palavras da anfitriã. “Queridos filhos, eis aqui o santuário que brilha no Mundo Maior a ser reedificado no mundo dos mortais” Romero olhou ao redor e, somente, viu o vazio. “Cerrem seus olhares, e agradeçam por ser permitido colocarem vossos pés neste solo” 52

por Agnaldo Silveira Assim o fizeram, enquanto a crente proferia palavras de fé. Dize- res num dialeto que os confundiam o entendimento. “Sentem-se” Livrando-se das terras que se moviam pelo vento do campo aberto, descansaram seus corpos pesados pela saborosa refeição. Ao redor, o nada. O silêncio de uma cidadezinha que parecia adormecida há séculos. O vento entoava sua canção como a lhes dar a sensação de que nada, absolutamente nada poderia acontecer ali. Nem mesmo ao longe avistavam qualquer pessoa por perto. Imersos naquele desabitado lugar empoeirado, permaneceram por horas. Romero, não contrariando qualquer ato de fé, ajeitou-se com um pequeno alforje que carregava suas águas, repousou sua cabeça e, profundamente, desligou-se da matéria numa confortante “siesta”, dormindo. Serena, sonolenta, como a quase fechar seus olhos, nota a senho- ra com seu olhar ao céu, a esperar algo. Numa mistura de realidade e sonho, mesclados incompreensi- velmente, ela percebe a senhora se levantando e, num ato de fé, abrindo seus braços ao infinito firmamento. Dele, como a escurecer em seu todo, uma intensa Luz desce às suas frentes. Serena, atônita, depara-se com uma paz jamais sentida em sua vida. A senhora, ao seu lado, enquanto Romero imerso em profundo sono, ajoelha-se e, curvando sua cabeça, diz: “Misericórdia... misericórdia por sermos pecadores deste mundo”. A garota, no mesmo ato, ajoelha-se igualmente a Dona Samira, em respeito ao que poderia ser tudo aquilo. Sua fé, indigna daquela visão, entrega-se à inesperada cena do universo. “Sabia que esse dia chegaria. Faça de nós os teus servos, e nos mostre tua verdade” - disse a senhora. 53

“...e a missão continua” A Luz Celeste, mais nítida em cada segundo que transcorria, dá-lhes a visão da Santa. Vestida de um cintilante traje, resplandecia sua Luz a envolvê-los. Serena, sem que notasse, vestia-se igualmente a brilhar seu sem- blante. Enredada àquela situação por inteira, sentiu a senhora im- possibilitada de dizer qualquer palavra mais, no que, dos lábios da Compadecida, seguiram os dizeres: “Filha... porque somente assim posso te chamar. Tu és minha amada filha imersa num veículo físico, a dispor da sua sabedoria es- piritual, em ajuda a este Planeta. Tua chegada a estas terras, progra- mada há décadas, trar-me-ia ao teu encontro, para que nessa união energética, deixássemos uma calorosa frequência Espiritual, onde será reerguida, assim como reflexo do Mundo da Verdade, minha casa física que salvará a muitos necessitados deste plano. Tu és minha filha, sem pecado, olho por ti todo os teus dias desta tua vida. Esta vida que tens em méritos próprios em te fazer uma perfeita encarnação, em apreço aos seus dons espirituais que levas desde milênios em tua decisão de auxílio aos desvalidos. Saberás, em tua conveniência, da tua Verdade...” Os olhos de Serena permitiam que emotivas lágrimas escorres- sem incontrolavelmente. Ao que seguia a Majestosa. “... esta tua passagem pelo físico será de perfeitas condições, em teu merecimento, a livra-se, desta vez, daquilo que o Cordeiro lhe tem como resgate. Ainda, voltarás a superar tuas faltas. Porém, esta, ao dedicar-se séculos entre o Mundo Perfeito e o carnal, em mise- ricórdia à tua metade ao teu lado, viverás isenta, assim como ele, de quaisquer transgressões cármicas. Mas, saibas que ninguém se isenta de se redimir dos seus atos, e, à frente, enfrentarão as dificuldades de um espírito à mercê das atribuições reencarnatórias. Terás alguns que buscarão tua condenação, ao ter livrado tua metade de espírito do mundo escuro. Isso causou algumas adversidades em tua peregri- nação. Tens a proteção Divina, e na mesma potência de poderio, o mundo escuro exercerá sua vingança. Terás que ser forte o bastante, e em seu mérito, esta passagem atual fortalecerá ambos a enfrenta- 54

por Agnaldo Silveira rem futuramente aqueles que almejarão vê-los em separação.” Ela, imersa em sua mudez, desejava dispensar palavras. No que a Poderosa, lendo-lhe a mente, prosseguiu: “Bem o sabes que teu amado dispensou séculos de suas passa- gens carnais em benefício ao mundo escuro. Tu, em teu incondi- cional amor, dedicaste maior parte de tua estadia nesta Orbe, em recuperação desta perdição em que ele mesmo se colocou. Em de- terminada época das entregas reencarnatórias, teu amado liderou um grupo, por séculos, em que adeptos às suas atrocidades tornaram- -se fiéis discípulos a ele. Muitos não conheciam com exatidão suas personalidades, dando a ele suas entregas em vivências, materiais ou espirituais. Onde tu chegaste em benefício salvador, colocando- -o novamente em seu trajeto de espírito Iluminado, como em sua origem. Aqueles seguidores chegaram ao caos interno, em perda de orientação pela falta com que se depararam em suas jornadas, avis- taram a ti como a causadora desta perda. Nisso, uns orientaram-se, conscientizando-se da Verdade Universal, caminhando aos Mundos Iluminados em suas salvações. Poucos permaneceram naquele mun- do, trazendo em suas verdades o desejo de vossas não felicidades, seja no físico ou na matéria. Tu, em determinada passagem carnal, foste aprisionada por um destes fiéis seguidores do teu amado que, já no caminho Iluminado graças a ti, recuperava-se no Mundo Maior, enquanto tu encarnavas a seguir sua trajetória, aguardando-o à uma próxima vida. Nesta prisão, tu apaixonara-se pelo teu dominado. Ele, em seu desejo possessivo, inconsciente da espiritualidade, por estar en- carnado, prometeu-lhe em íntimo que jamais deixaria tu partir do cárcere. Fostes judiada emocionalmente, torturada com palavras e, jurada que em nenhuma vida permitiria tua felicidade, se não fosse ao lado dele. O tempo passou, e após seus desencarnes, tu te encontraste com tua Verdade. Esse espírito jamais quis evoluir em sua salvação. Po- rém, tu, sentindo-se culpada, prometeu-lhe que encarnariam juntos a colocar-lhe no caminho da Luz. Ele, isento desse desejo, certifi- 55

“...e a missão continua” cou-se em seu interior apenas dominar-lhe os sentidos. Para isso, tu encarnarias com aquele desejo por ele que sentias naquela vida apri- sionada. E teria de superar no físico, tua consciência que te levava à essa missão. E isso acontecerá à frente de sua história, em séculos. Porém, isso irá chocar-se com tua metade.” Serena ouvia as revelações da Santa sem mesmo piscar seus olhos, enquanto ela prosseguia. “Confundirás o amor com desejo físico. Esse desejo é sua supe- ração daquela vida que tu mesmo pediste em salvação daquele que te encarcerava. Teu amor é tua metade, porque ele é tu mesmo em outro espírito. Porém, nesta futura encarnação, o planeta viverá a necessidade da última oportunidade de evolução à Nova Era. E tu terás a difícil escolha entre o desejo carnal, onde confundirás com o amor, e o teu amor verdadeiro, que é tua metade.” Serena suspirou como a enxergar o desafio que vivenciaria. Mes- mo consciente de ser numa vida vindoura, aquelas palavras toca- ram-lhe a alma. “Revelo-te a ti, porque esse será teu maior desafio reencarnatório. E, teu merecimento, por ser quem é, permite-me dizer-te sua história.” A Santa, em projeção astral, olha ao lado e, notando Romero, ainda em sono profundo, conclui carinhosamente: “Filha... será muito mais fácil escolher tua vida pelo físico. É o que te vai à visão. Tua escolha pelo amor espiritual te serás mais difí- cil, pois tu não o sentirás no físico como te sentes na espiritualidade, mas esse é teu Verdadeiro Caminho. O desejo físico, nada mais será que uma ajuda espiritual que tu mesmo te propuseste a realizar, mas não será teu caminho. Teu amor Verdadeiro é este ao teu lado aqui, a tua metade. Não te confundas em teu futuro. Enquanto aqui, firmo a Luz de minha Casa, a nossa casa. Aqui, terás a energia necessária com tua Verdadeira Metade. Neste Lar que serás formado desde agora. Não te esqueças. Amo-te, incondicionalmente. Assim, sempre esperarei por ti e tua metade, seja qual século estiverem vivendo. Aqui se renovarão, porque aqui é a vossa Verdadeira Casa física.” 56

por Agnaldo Silveira O azul celeste já se escondia no horizonte, enquanto a brisa so- lar mostrava sua face. Serena parecia flutuar entre uma dimensão e outra. A Santificada Luz retirou-se aos poucos, e tudo voltava à sua normalidade. Olhou ao seu lado, Romero despertava aos poucos, ao passo que a senhora Samira, imóvel, despedia-se mentalmente da sua fiel escudeira. Despercebido de tudo, Romero retira seu cantil do alforje e, in- genuamente, mata sua sede. Serena, imóvel em suas palavras, passa suas mãos pelos suados cabelos do rapaz - “sempre serás meu amor” - reflete em seus pensamentos. Dona Samira, levantando-se lentamente, dirige seus passos à sua casinha. Ambos passam a segui-la, calados. Para ele, apenas adormecera. Para Serena, parecia-lhe que o im- provável havia acontecido. Ao chegarem nos aposentos da Senhora, ela olha ao fundo dos olhos da garota: “Obrigado pela sua existência” Serena, ainda sem palavras, recebe provisões da beata. Despede- -se, como a um filme terminado, retirando-se, recolhem-se na aban- donada carroça, seu eterno abrigo daquele dia que se assemelhava ao interminável incrédulo cenário de um milagre incontável à qual- quer ser encarnado. “Coisas que a história não conta”. A demora em dormirem fez com que Serena narra-se minuto a minuto a Romero que, imóvel em seus dizeres, acreditava somente por ser sua amada lhe dizendo. Muitas das palavras ditas pela Santa, com os dias decorridos, iam-se apagando da memória da garota. Porém, o sentimento do imponderável lhe fortalecia a fé no invisível humano. Dias longos brotaram-lhe certo silêncio mental. Estarem lado a lado lhes sustentava a existência. 57

“...e a missão continua” Seguiam seus rumo conforme prometido ao povoado de suas origens. O cansaço lhes tomou conta, após imenso solo íngreme, ao apro- ximarem-se da aldeia de Trevélez. Poucos, desconfiados, tratavam-os como ciganos buscando moradia, afinal, o lugarejo transparecia ina- bitado. No oposto a isso, eram nômades temporários. As últimas provi- sões chegariam ao seu término, brevemente. Cismados olhares lhes submetiam a prosseguir na subida, a en- contrarem o ideal repouso para seus animais. O frio cortante crescia à medida que caminhavam, estacando-se abaixo de uma árvore incapaz de ampará-los do gélido ar. Romero animou-se em dar vida à uma pequena fogueira, que lhe serviu de suporte ao assar batatas e aquecê-los, enquanto Serena preparava um chá de suas especiarias. Permaneceram nas mais altas montanhas do povoado. Os dias decorriam, impossibilitados de seguir adiante. O frio e a intensa né- voa dominavam a região. Banhavam-se no rio ao lado, e suas pro- visões, controladas por Serena, davam a sobrevivência necessária naqueles dias. Certa manhã, seus olhos ainda fechados pelo profundo sono que o gelado exterior lhes proporcionava, despertaram com sonidos de uma carruagem aproximando-se. Ouviram chamados: “Bom dia, podem nos ajudar?” Romero, remetendo-se ao exterior do seu aconchego, avistou duas moças, a serem comparadas a ciganas e um menino, de tenra idade, a requerer-lhes auxílio: “A roda de nossa carroça está defeituosa, precisamos de ferra- mentas.” O rapaz das colinas, pronto em atendê-las, apresenta sua amada que chegou ao lado, cobrindo-se do frio. No que seguiu a novata a lhes dizer. 58

por Agnaldo Silveira “Sou Paloma. Estes são meus irmãos, Luna e Benjamim. Somos de Córdoba. Nossos pais deixaram esse mundo, e nós resolvemos não ficar mais por lá. Vamos aonde Deus manda. Mas, a roda da nossa carruagem não está colaborando muito” A confiança de não serem saqueadores logo dominou Romero que, observando o defeito, pediu para que eles se abrigassem em seus aposentos. Serena preparou um caloroso chá a aquecê-los. O forte e úmido vento não permitiu que o rapaz concluísse o conserto. Abrigaram-se, encolhidos em sua carruagem, ao que Serena lhe servia aromática especiaria. “Pra onde vão?” - arriscou servindo-lhes. “Não pudemos mais ficar onde morávamos, após nossos pais partirem. Fomos despejados e tínhamos apenas esses cavalos a nos guiar.” - disse Paloma. Sendo observada por Serena, nasceu-lhe o sentimento de conhe- cê-la, recebido, ocultamente por Paloma. Seus irmãos, calados, aqueciam-se. Eram pessoas sem rumo, guiados por Paloma. Linda menina de longos cabelos, pele clara. Falava rápido e seu sorriso, demonstrava a nobreza espiritual que ela, mesmo inconsciente, mostrava à Serena. “Estamos há dias caminhando, e temos provisões para o ne- cessário.” Ao olhar pela fresta a fora, Romero notou que possuíam duas carroças, puxadas por dois cavalos. A nevoa não permitia visualizar a natureza exterior. O frio cor- tante e úmido interrompia o calor que as lenhas poderiam lhes pro- porcionar. Lonas cerradas davam-lhes o aquecimento corporal, no interno da carroça, a proteção necessária. “Tomamos Benjamin como irmão. Ele é de pouco falar, mas nos conquistou. Luna é mais contida. Minha missão é levá-los a algum 59

“...e a missão continua” lugar em que possamos retomar nossas vidas.” Todos observavam as palavras de Paloma, que muitas vezes, per- mitia uma verdadeira lágrima encostar-se ao canto do seu olhar. “E vocês, para onde vão?” “Estamos indo às terras que espelham o mar. Procuramos uma igreja, uma oração e uma Cruz para levarmos para nosso povoado, que foi invadido pelas águas” - disse Serena. “Ficamos sabendo, ao longo do nosso caminho, de águas que destruíram um povoado” - completou Paloma. “Sim, foi o nosso. Foi a tristeza de Deus para nosso povo. Temos que encontrar a oração e uma cruz que nos foi pedida, a salvar-nos definitivamente.” Romero observava Benjamin, quieto. Lembrou-se de Rúbio, como deveria estar vivendo. Ao que lhes disse: “Não tens aonde ir?” - arriscou Romero. “Lugar nenhum” - disse Paloma. “Nosso povoado está ao Oeste. Posso consertar suas carroças para que cheguem até lá. Procurem por Rúbio, nas mais altas coli- nas, diga que nós os mandamos. Siga ao ocidente, à aldeia que fora destruída pelas águas” Paloma, concordando com a cabeça, sentiu novas esperanças em suas vidas. Serena, observando-a em seus gestos, intuiu certa irmandade es- piritual naquela moça. “Serei imensamente grata por tudo isso” - disse Paloma. “Lá, terão moradia até retornarmos” - concluiu Romero. A melhora do tempo permitiu que ele consertasse a carruagem dos três, alguns dias após seu encontro. Viveram dias agradáveis, onde Serena e Paloma aperfeiçoaram suas simpatias, tornando-se sinceras amigas. Como sentia Serena, “apenas se reencontraram.” Luna, mais calada e ponderada, trans- 60

por Agnaldo Silveira mitia-lhe a mesma sensação. Benjamim, pequeno garoto, ajudou Ro- mero na reconstrução de suas carroças. Souberam que ele cruzara com elas suas jornadas, sendo tratado como irmão mais novo, po- rém, desconheciam sua história. Certa manhã, o céu permitia nova caminhada. Separaram as pro- visões necessária para que os três chegassem ao seu povoado. Dessa forma, todos teriam alimentos para suas jornadas. Imensa despedida a um novo breve reencontro, separam-lhes o destino em partida. Um reencontro, porque esse momento da narrativa fora um reencontro de vidas entre Serena, Luna e Paloma. “Breve estaremos juntas” - disse Serena. Assim, minutos depois, avistavam-lhes a caminhada na íngreme descida das montanhas de Trevélez. Ambos rumaram ao Leste, continuando suas jornadas. 61

“...e a missão continua” “Desdobro-me ao ano de 1539, onde Serena, em seu nome original físico, ao que me reportei em história inicial à esta vez, originou-se como Amália. Pequena princesa, descendente de linhagens oriundas de Reis Ingleses e Franceses, pertencia aos quatro filhos do Rei. Amália possui duas irmãs, onde trago Luna e Paloma, com outros nomes naquele sécu- lo. Exerciam tarefas domésticas impostas pelo seu pai, o Rei. Soberbo por natureza espiritual, permanecia controlador de sua sub- missa esposa e suas filhas. Enquanto o único homem da linhagem fora educado a ser um futuro Duque. Arrogantes comuns, impunham como mandatários das moças. Paloma era a mais bela, e chegou a ser escolhida por renomado pintor a esculpir sua beleza em telas que perdurariam ao sempre, intencionalmente, políticos, por ser a mais velha. Anos após, Amália fora forçada a se casar unindo duas dinastias atuais. A oponente família possuía dois filhos. O escolhido, por ter uma vida desregrada, fora impedido de casar-se com ela. Porém, o interesse do rapaz era obsessivo, levando-o ao desejo pela moça até seu desencarne. A convivência amorosa e harmoniosa entre as três irmãs dava uma certa proteção a Amália, que não compreendia tanta fissura do rejeitado. 62

por Agnaldo Silveira Voltando-se ao Mundo da Verdade, em sua revelação posterior àque- la vida, Amália, em espírito, lutara para resgatar sua metade, Romero, do Mundo Negro. Aquele que ela rejeitou, ao encarnar, certificava-se de persegui-la, dando-lhe, caso concluíssem o matrimonio, uma vida infeliz, em vingança a ela por ter tirado o comando, na espiritualidade, do seu chefe escuro, Romero. Ele, estava na Luz graças a Amália, em espírito, e deixara discí- pulos perdidos que ele comandava. Este, especialmente, jamais superou, prometendo encarnar em todas as suas vidas a tirar Amália de qualquer possibilidade de união à Romero, mesmo que inconsciente aos seus atos. Palavras já deixadas pela Nossa Senhora em Santa Fé à Serena. O mesmo espírito paterno encarnaria como Sayd nas montanhas de Andaluzia, e assim.... as histórias reencarnatórias iam se ligando em seus resgates. Em declaração espiritual, o discípulo das trevas jamais desejou se redimir, prometendo encarnar sempre, utilizando-se da sensualidade, a não permitir, em qualquer passagem carnal, a união de Romero e Serena.” 63

“...e a missão continua” A mbos seguiam suas jornadas à terra prometida ao seu po- voado. Dirigiram-se ao litoral, pois provinham de maior facilidade nas pescas, ao que suas provisões terminariam em breve, após dias de caminhada. Os dias seguintes lhes trouxeram silenciosamente o sentimento, jamais percebido, à falta de Luna e Paloma. Introspectiva, Serena, imersa em seus pensamentos, certificava-se do seu vínculo passado com as duas viajantes. Romero, atento aos cavalos e o sobreviver de sua carroça, des- gastada, parecia conversar com ´Búho’ e ‘Colibri’, seus cavalos. Serena sorria e muitas vezes gargalhava a cada palavra que ele pronunciava aos seus animais. Chegaram à Costa Tropical de Andaluzia, no povoado de Adra. A descida pelas rochas causou-lhes transtorno ao danificaram suas carroças. Decidiram deixá-la ao alto daquelas terras e, abandonan- 64

por Agnaldo Silveira do-a ao dedicarem-se à pesca diária em suas alimentações, retornan- do, ao final do dia, para seus repousos, permaneceram nas colinas, ao sertão da região, próximos a gigantes muros que protegiam anti- ga civilização dos ataques de piratas. Assim, depararam-se com imensa Igreja. Uma Paróquia, que mais assemelhava-se à uma fortaleza. Ali, foram acolhidos pelo cle- ro, dando-lhes alimentos em troca da limpeza da abadia. Ali permaneceram longo tempo, mesmo que estivessem próxi- mos ao seu destino, seus corpos almejava um descanso profundo, assim como seus cavalos. Foram receptados na benevolência do padre Ferdinando, grandioso espírito encarnado que, mesmo sem saber, recolhera-os em suas proteções. ********* O Mundo Espiritual, dispensado às suas orientações e necessida- des daquela passagem, permitia uma encarnação perfeita, apenas na salvação à fé de um povoado. Apesar de indecisões pessoais num rumo a ser seguido, guiados pela intuição de Serena, seguiam com exatidão em seus lugares. Aquela busca remetia-se ao significado conectivo entre suas vidas. Quaisquer conclusões alcançadas, fortaleciam-se no objetivo meri- tório de uma encarnação simples, em reforço do amor oriundo de suas origens, a enfrentarem vidas seguintes a isentarem seus espíritos desde que expostos aos ciclos reencarnatórios. Essa excelência, lhes concedida pelo Mundo da Verdade, da natureza espiritual de Serena, era reflexiva da inabalável luta pelo rendição de sua metade espiritual. Entretanto, essa ousadia baseada num amor incondicional carre- gou em suas histórias, obsessivo espírito já narrado. Naquela oportunidade, narrada acima, Serena encarnara junto a outros adeptos de Romero, enquanto comandava um lado negro espiritual destrutivo. A ela, em amor e compaixão a estes perdidos, objetivava dispensá-los ao perdão, aproximando-lhes do amor e do 65

“...e a missão continua” perdão. Porém, não compreendida em consciência adquirida pelos seus, enquanto vivera como Amália pioneiramente, interpôs em sua bagagem espiritual novos carmas a serem superados vindouramente. Resgates, esses, a aproximarem-se em nova oportunidade ade- quada. Desta forma, fundamentalizava-se atual passagem narrada à harmonia imprescindível em sua contraparte original. Paloma e Luna, personagens de grandes passagens terrenas ao seu lado, incluíam-se neste fortalecimento, inconsciente às suas ra- zões físicas. O mundo carnal caminhava para o término de uma Era dentre os ciclos necessários para o aproximar de uma separação espiritual entre os obedientes e os não obedientes, se assim posso dizer, das Leis Universais. Caracterizando Paloma, no acolhimento a Benjamin, em seu tra- jeto na busca de uma melhor vida, uma Mãe de Luz pertencente ao Reino Espiritual. Luna sustentava-lhe o caminho, a ser parâmetro inconsciente de força e coragem a agregar-se em sua jornada. Ambas, irmãs de um âmbito espiritual conjuntas com Serena, participavam de vidas físicas permanentemente lado a lado. Dispensadas à colina, adequar-se-iam às necessidades de Rúbio que, a esse momento, sofria a falta dos meus dois amados filhos. Assim, Paloma, em sua energia Iluminada de suas origens maternas, suprir-lhe-ia a carência afetiva deixada por eles. ********* Novo momento em partida, a colocarem-se em seus rumos. A despedida ao padre, deu-lhes determinada fé a prosseguirem em seus objetivos. Os dias assemelhavam-se em mais longos, pausados somente a descansos noturnos, avistaram pequena placa, entre ar- bustos de oliveiras, com os dizeres “guardas veijos’. Logo, aproximaram-se de uma fortaleza, deparando-se com uma 66

por Agnaldo Silveira preocupante tempestade a isolá-los em seguir à frente. Ao Sul, o mediterrâneo não perdoava em descarregar suas águas. O cinza nebuloso do Atlântico Oriental, carregado em suas nuvens como a formar um único cenário aterrorizante, estimulando forte vendaval, amedrontou seus animais em agitarem-se, como a espíri- tos lhes acovardando de suas coragens. Em meio àquela força da natureza, Romero tranquilizou-os, ao abrigarem-se nas gigantes muralhas do alcácer. O céu limpou-se por toda a noite. Pelo amanhecer, a natureza celeste retornava com seu brilho matutino, dando-lhes, finalmente, o alívio. A relva molhada, o silêncio que lhes permitia participar do cantarolar de pássaros que, como a estarem libertos das tempestivas águas, sobrevoavam a região. Ao que Romero conversava com seus cavalos, aproximaram-se duas garotas mulçumanas, esbaforidas. “Ajuda-nos...” Ele, surpreso com o pedido, concordou com a cabeça, oferecen- do auxílio, enquanto passava suas mãos a limpar seus animais. “Permites nos esconder... “ - disse uma delas, Jade. “Acalmem-se... sigam-me” - disse o rapaz, sem ciência do ocorrido. Levando-as a esconderem-se, nem mesmo compreendendo, cha- mou por Serena que, olhando-as, recordou-se de Paloma e Luna. “O que houve?” - arriscou-se. Ambas recém-chegadas, como a recuperarem seus fôlegos, rou- pas molhadas e certo olhar como a camuflarem-se entre a carroça e o castelo, diziam desconfiadas. “Eu sou Jade. Essa é minha prima, Alba. Nos aproveitamos da tempestade e fugimos do nosso lar.” O temor de Romero, ao olhar a redondeza, significava-se em ambas serem mulçumanas ao usarem o “hijab”. Temia ao perigo, recordando-se dos familiares de Serena. Ao que disse: “Entrem na carroça, e lá falaremos” 67

“...e a missão continua” As moças, apressadamente, subiram a aliviarem-se de suas fugas. “São ciganos?” - perguntou uma delas. “Não, estamos indo para o Leste” - disse, desconfiada, Serena. “Nossos familiares querem nos impor suas crenças. Não acredi- tamos na tradição deles. Ficamos sabendo de um grupo que vai para o Tibete, eles estão em Córdoba. Queremos ir para lá e viver nos mosteiros. Eles nos castigaram por isso. Planejamos nossa fuga. E, quando a tempestade se iniciou, partimos.” No receio da procura de seus familiares, o coração do casal so- bressaltou-se, ao que se defendeu Serena. “Estamos indo para as terras que espelham o mar. Córdoba é oposto ao nosso destino” “Levem-nos até lá. São a única forma que temos de seguir nosso desejo. Se voltarmos, ou nos pegarem, vamos sofrer por uma tra- dição que não aceitamos” - arriscou, com lágrimas no olhar, Alba. Serena recordou-se da sua contrariedade no que lhe impuseram seu pai e seu irmão, desde pequena. Lutou pelo seu sonho em unir- -se ao seu amor, opondo-se a eles. Olhando para Romero, que entregava panos para que as moças enxugassem seus cabelos, enquanto elas livravam-se de seus “hijab”, Serena acomodou-se: “Se meu esposo aceitar, vocês podem ir conosco em nossa mis- são, e só depois iremos à Córdoba. Porém... “ - disse ela diminuindo suas palavras - “... não temos alimentos para todos. Muitas vezes, comemos uma vez ao dia”. Timidamente, as duas fugitivas mostram-lhes uma pequena bolsa com moedas de prata, e algumas peças em ouro. “Roubamos da nossa família” - disse uma delas, envergonhada. “Mas...” - disse Romero com os olhos arregalados - “... se nos pegarem, podemos ser confundidos com saqueadores”. “Ficamos com elas escondidas, e, assim, podemos vender no ca- minho e nos alimentar” Certa confusão reinou na cabeça do casal. Seriam cúmplices de 68

por Agnaldo Silveira algo que não teriam feito. Ao que, Serena chamou-o para fora da carruagem. Afastando-se ao lado, lhe disse: “Independentemente desses valores que elas têm, sinto que temos que ajudá-las. Eu não tive ajuda para me separar da minha família, apenas Deus. Sei que é errado o que elas fizeram, mas é o sonho delas. E, caso elas sejam pegas pelos familiares, irão sofrer retaliações.» Assim, decidiram apoiá-las. Retornando ao interior da carroça, Romero lhes disse: “Vamos ajudá-las. Porém, de forma alguma vocês devem sair da- qui de dentro. Precisamos fazer outro caminho até nosso destino.” Elas, sorridentes e aliviadas: “Conhecemos a região. Contornaremos o povoado por Aguadul- ce, e subiremos para Almeria, e daqui não sairemos.” “Ao estarmos distantes dos seus lares, vocês se encarregam de vender o que pegaram” - completou o rapaz. Assim, Romero aprontou seus cavalos, e partiram seguindo nova direção aos seus caminhos. ********* Extensas noites e dias os permitiam cruzar a aldeia, pela Costa. Ao verem-se longe do povoado, ambas trocaram algumas de suas moedas por alimentos e água suficiente para longos dias. Muitas noites, estacionavam-se sob o luar, refletido no mediter- râneo, a repousarem. Vínculos de carinho e compreensão brotavam-lhes à convivên- cia, ao lhes contar suas histórias de aprisionamento que sofriam. Jade, espirituosa, arrependia-se em seu íntimo de sua fuga, pelo seu amor materno. Porém, sem desistências do seu destino sonhado. Pele escura, típica mulçumana, assemelhava-se à Alba, mais falante e orgulhosa de sua escapada, isenta de qualquer penitência pessoal às suas escolhas. 69

“...e a missão continua” A afeição entre eles crescia a cada minuto que caminhavam. Pres- tativas e gentis, despertavam em Serena sentimentos de reencontro. Assim como Paloma e Luna, as duas recentes companheiras lhe da- vam certezas de que, em outras épocas em vida terrena, fazia parte de suas histórias. Olhava-as, incompreensivelmente, num amor que sobrepunha quaisquer sentimentos terrenos. Mais um dia de caminhada terminaria, enquanto Alba preparava suas refeições, abrigados num rochedo que lutava contra as águas do mar, Jade aquecia a água numa pequena fogueira que tomara vida por Romero, Serena aproxima-se: “Sinto que conhecia vocês. Ao longo da caminhada, passei a ter sentimentos claros que, nada faria sentido se vocês não tivessem sur- gido.” “Sim...” - disse Jade, calmamente, misturando as especiarias à água fervente - “... é isso que procuramos, não aquilo em que nos criaram. Sei que existem muitas vidas, e nessa minha de hoje, sei que vou me reencontrar com pessoas nas montanhas do Tibete. Sinto que algo me espera lá.” “Pessoas que não conhece?” - questionou Serena lhe esticando uma caneca. “Não conheço aqui, nesta vida. Mas, de alguma forma, temos uma ligação de algum lugar da espiritualidade. É como se eu rece- besse um chamado, sabe? Oculto, no meu coração” Serena apenas ouvia. Jade pronunciava palavras que ela sempre quisera traduzir em seus sentimentos. “Não sei explicar. Não sinto que existimos apenas uma vez. Não faz sentido. Não consigo acreditar que Alà permitiria estarmos na vida só para fazer as vontades dele. Creio que tem algo maior. E, é isso que busco.” Continuavam, ao sentarem-se, no que Romero se aproximou ca- lado, enquanto Alba pegava no sono. “Sinto-me mal em roubar o que era da minha família. Sei que 70

por Agnaldo Silveira posso pagar por isso um dia. Talvez eles nem sintam falta, pois tem muito dessas moedas e ouro lá. Foi a forma que tive de escapar” “Você está indo atrás do seu sonho. Não somos ninguém para julgá-la se fez certo ou errado. Não podia permanecer numa vida comandada pelos seus familiares por uma tradição deles.” - disse Serena, compreendendo-a. “Mas, sabe, o ouro era de minha avó que havia me deixado quan- do deixou este mundo, e as moedas, de certa forma, seriam minhas um dia, bem mais do que peguei. E, não as peguei para guardá-las, como todos fazem, peguei-as para elas me levarem até meu sonho.” A sinceridade exalada nas palavras de Jade, seu tom de voz pa- cato e seguro, faziam os olhos de Serena brilhar certa de que eram velhas conhecidas. Apoiada em Romero, que as ouvia, olhou Alba, ao lado, entregue a um profundo sono. “E sua prima?” - perguntou Serena, enquanto Jade olhou-a ador- mecida. Retornando seu olhar: “Ela é mais aventureira. Não acredita muito nas coisas que falo. É apegada nas coisas que possui, e sua crença num algo Maior ainda é vaga. Mas, é minha companheira, minha amiga, como uma irmã de verdade. Ela que organizou toda nossa fuga.” - Os três riram. Alba, adormecida, nada ouvia. “O que busca no Tibete?” - arriscou Serena. “Quando eu era pequena...” - disse Jade servindo-lhes chá, ao que Alba desperta - “...fui com minha família à uma mesquita em Córdo- ba. Foram dias de viagem. Numa noite, enquanto todos faziam seus rituais, eu saí escondida, pois não gostava daquilo. Saí andando por entre pequenas ruas, até que me deparei com uma festa de um povo cigano. Fiquei-os observando de longe, atrás de um muro. Eles es- tavam entre árvores com suas carroças, e uma fogueira alegrava-os num cântico tão lindo, que nem me apercebi quando uma senhora se aproximou de mim. Ela me tratou com um sorriso no rosto, que eu nunca recebera de minha família, que sempre foi muito séria. Pe- diu para que eu me aproximasse, e eu, confiante naquele tranquilo semblante, estiquei minhas mãos às dela que se estendiam para mim. 71

“...e a missão continua” Ela se sentou ao chão de terra, me conduzindo a fazer o mesmo à sua frente. Tomou minhas mãos e disse-me: “Teu verdadeiro lugar não é aqui. Alguns te esperam em frias montanhas orientais, o teu povo. Lá, terás sua missão nessa vida a exercer a paciência, a humildade e a sabedoria. Tua hora será chega- da dentro do teu coração”. Ela olhou-me no sorriso mais amável que tive em toda minha vida. Soltando minhas mãos, disse “Vás”. Eu me levantei e voltei correndo para a mesquita, onde todos ainda permaneciam ajoelha- dos em seus rituais. Minha mãe me procurava, pois ela e outras mu- lheres permaneciam ao lado de fora à espera do fim do ritual, que era permitido somente para homens. Todas elas ficavam em silencio sem dizer nada. Minha mãe me puxou pelas mãos a sentar-me quieta ao seu lado. Foi aí, que percebi a diferença entre o carinho das mãos da cigana e a brutalidade de minha mãe. Com o passar do tempo, após retornarmos para casa, cada dia aumentava dentro de mim a vontade de seguir as palavras daquela cigana. Foi quando, às escon- didas contei tudo à Alba. E, aqui estamos.” Silenciosamente, Romero serviu-as mais chá, retirando as batatas que já estavam cozidas, ao meio da pequena fogueira. Prosseguiu ela... “... com o tempo, mesmo às escondidas, procurava pelos ciganos. Vez ou outra, alguns clãs permaneciam poucos dias em nossa aldeia. Sempre estavam de passagem. Cresci ouvindo que eram saqueado- res. E, muitas vezes, quando eles chegavam, meu pai trancava todas as janelas, e não nos deixava sair de casa até eles partirem. Mas, uma vez, eles estavam chegando, e eu corri até uma mulher e pedi para que ela conversasse escondida comigo. Foi ela, outra cigana, que tomando minhas mãos, disse a mesma coisa que a primeira havia me dito: ‘Vá ao Tibete, lá é tua missão’. Voltei correndo para casa, e, mesmo sendo controlada pelos meus pais, eu conversava com os ci- ganos quando eles chegavam. Fui aprendendo algumas coisas que me davam a certeza que um dia eu teria de ir. E, acho que chegou a hora. Não sei se iremos conseguir, mas, hoje, me sinto liberta de uma 72

por Agnaldo Silveira crença que não possuo.” Certo silêncio predominou ao redor. Ao que Alba... “À essa altura, todos estão feito loucos à nossa procura” - disse, tirando as cascas das batatas em suas mãos. “Sinto por todos, mas decidimos isso, e agora não tem volta” - disse Jade. “Não tem mesmo. Que Alá nos proteja” - disse Serena. ********* Dias incontáveis brotavam no silêncio natural o sonido da deste- mida carruagem que os abrigava. Mesclados entre o medo e a esperança do porvir, cruzaram o necessário a afastarem-se do eminente perigo de serem encontrados pelas famílias das desertoras. Meus dois filhos amados, dispersos em conhecimento da região que lhes nascia às vistas, desvendavam em seus íntimos seus rastros invisí- veis, jamais marcados pelo destino ou por qualquer outro ser encarna- do, almejando seu destino final na ‘terra que espelhava o sol”, Almeria. O dia chegava no seu curso final, ao avistarem semelhante car- roça, como a estar abandonada, formando um lindo cenário junto à uma robusta árvore. Ao se aproximarem, cautelosamente, foram recebidos, descon- fiados, por um temeroso cigano a descer do seu abrigo. Romero, fazendo o mesmo, deixando as moças seguras e escon- didas, aproximou-se do gajo: “Boa tarde, meu amigo. Há lugar para mais uma carroça aqui?” - perguntou um tanto distante. “Estamos presos aqui” - apontando com a cabeça ao seu lado direito. Ao que o rapaz das colinas de Andaluzia avista mais outras três carroças paradas, afastadas. “Estão juntos?” - arriscou ele. 73

“...e a missão continua” “Sim...” - ainda desconfiado o novo homem - “... tenho mulher e filhos, e alguns outros do meu clã” “Também tenho mulher, estamos só de passagem e queríamos um lugar para passar a noite. Pela manhã, vamos para Almeria” “Estou aqui de sentinela...” - continuou o novato - “... não per- mitem a entrada no povoado, pois os moradores estão se protegen- do dos piratas do mediterrâneo” Romero, arregalando seu olhar, questionou-o. “Piratas?” “Sim. Parece-me que recentemente invadiram o povoado, mas foram expulsos. Deixaram uma epidemia, e se foram.” Romero calou-se. Notando a falta de perigo, o cigano prosseguiu. “Se quiserem, podem estar conosco” Romero percebe que, de uma das carroças, uma cigana e duas crianças descem e caminham em suas direções. “Minha família. O clã dorme nas outras” Sentindo-se seguro, apresentaram-se. Serena e as duas moças também se aproximam. “Temos comida e podemos dividir” - disse Serena ao chegar-se. “Não precisamos. Temos o suficiente para dias. Estamos nos protegendo da epidemia. Se quiserem, podem ficar aqui. A aldeia dos moradores ainda está distante. Ninguém vem até nós.” A confiança exalou em ambos os lados. A união entre eles iniciou-se por entre as pinhas e os carvalhos da região. O temor da epidemia e de ataques de piratas, comum àquela região, deixou-os isolados a se protegerem entre os arvoredos. Romero alternava com Ramon, o cigano, a guarda. Enquanto Se- rena e as duas moças participavam dos cuidados diários com o clã. Ambos encostados à carroça onde protegiam a todos... “Como vive seu povo?” - perguntou Romero. 74

por Agnaldo Silveira “Vivemos por estas terras. Do Norte ao Sul, do Ocidente ao Oriente” - respondeu o cigano. “E vocês?” - Romero passou-lhe a narrar suas histórias. A harmoniosa comunhão entre eles, e seu povo, transmitia à Ra- mon imenso carinho, ao que, habitualmente, apenas encontravam desconfianças em suas caminhadas. Subitamente, pequena criança surge às pressas. “Estão chamando vocês” Ambos novos amigos, saíram em disparada onde se encontra- vam todos. Ao chegarem, foram recepcionados com alegria. Imensa fogueira, ao som de um violão flamenco, ditava a boa aventurança que dominava a todos. Serena, tomando as mãos de Romero, convida-o à uma dança. Ele, desajeitado, entrega-se ao sarau. Circulando a fogueira, uniam-se ao mais delicioso vinho em ga- lões, servido pelas ciganas. O céu recebia fagulhas iluminadas pelo amor do fogo ao clã. Pela primeira vez, Romero sentiu uma despreocupada felicidade aos braços de Serena, que o conduzia à folia. O coro musical, comandado por Miro, irmão mais novo de Ramón, seguido por todos, ecoava em todos os corações um amor desconhecido, mas verdadeiro entre eles. Após muito bailarem, o casal da colina sentou-se ao solo, satis- feito. Aos poucos, o dispersar aos seus lugares de descanso, perma- neceram ali, aos seus lados, Ramón, Alba, Jade e Jasmim, esposa de Ramón. O estalar da fogueira, menos intensa, substituíra as cordas do violão de Miro, que adormecera ali mesmo, com seu velho amigo ao seu colo. Em perfeita comunhão, inimaginável, emanou do coração de Se- rena habitual intuição de um memorável reencontro. Jasmim, dispensando suas palavras ao meio de todos... 75

“...e a missão continua” “Quanta alegria vós trouxestes ao nosso povo. Estávamos amar- gurados, inseguros. Por mais que amanhã permaneceremos incertos em nossos caminhos, a alegria de hoje carregarei em meu coração. Jamais me esquecerei de vós.” “Nós também, há muito tempo não nos alegrávamos desta ma- neira.” - disse Serena. Comentários feitos sobre toda aquela alegria que imperava na- quela noite foram interrompidos pelas palavras de Ramón. “Amanhã, sentiremos saudades de hoje. Muitas vezes vivemos num feliz passado, esquecendo-nos que podemos trazê-lo de volta ao presente.” “Para onde vão?” - perguntou Jasmim. Serena, demonstrando o significado do seu nome em sua fala, contou-lhes, desde o início, suas histórias. O calar da noite, preenchido pelo estalar das lenhas e a voz de Se- rena, que emanavam no Mundo Maior uma Luz Altamente Evoluída. Irmãos de Luz aproximavam-se em sintonia sublime à energia que a garota proporcionava a todos. Romero sentiu arder em seu peito grande amor por sua amada. Jasmim, apoiando-se em Ramón, escu- tava respeitosamente as palavras ditas. Ela, Jasmim, igualmente, ema- nava elevada espiritualidade, conectando-se, amavelmente, à Serena. 76

por Agnaldo Silveira “Ambas pertenciam ao reinado do Império Otomano, meados do século 16. Seus auxílios na propagação do islamismo as colocavam como mulçumanas dedicadas. Em objetivos espirituais opostos às suas rea- lidades, encarnaram como irmãs sanguíneas objetivando a paz entre povos lutadores por ideais desrespeitosos entre si. Imersas nesse mundo, apaziguadoras natas, conferiam missões como Conselheiras Iluminadas à serviço do Mundo Maior, rodeadas por espíritos encarnados causado- res da desordem, em função de suas crenças. Impunham certa tolerância, a convencer o Governante com seus dog- mas. Ele as tinha como apoio em seu comando. O soberano Otomano conquistou acordo de paz com as inúmeras províncias da época, tor- nando-se, o reinado, ponto alvo fundamental de compreensão dos povos, entre o Oriente e o Ocidente. Imediata conquista, retornaram ao Mundo Espiritual”. 77

“...e a missão continua” E, ali, sob o Luar de Andaluzia, quase dois séculos seguintes, seus espíritos encarnados em suas verdades, missionárias, encontravam- -se isentas de quaisquer lembranças onde haviam encarnado apenas como pacificadoras, por suas características Espirituais. Aquele antigo povo seguiu seu rumo, a nunca se libertar de um ciclo reencarnatório, onde, aprisionados ao mesmo solo em suas idas e vindas a este plano, desperdiçam suas oportunidades evoluti- vas, inserindo-se, por suas próprias sintonias alcançadas, no mundo negro da espiritualidade. Ambas deixaram suas contribuições que duraram por séculos. Muitos evoluíram e caminharam, em suas consciências espirituais, ao Plano Iluminado. Porém, grande maioria ainda permanece perdida a caminhar, espiritualmente, para seus res- pectivos mundos proporcionais às suas consciências. Ao terminar suas palavras, ainda no calar da madrugada acom- panhada das últimas brasas que haviam alegrado aquela noite, rece- biam a Luz lunar como seus resplendores. Jasmim, retira um colar do seu pescoço e entrega a Serena, que curva sua cabeça e permite que as mãos da cigana, passando por traz de sua nuca, o afivele. Ao tomá-lo nas palmas de suas mãos, um crucifixo de ouro com uma “pedrinha de cristal” em seu centro, faz arrepiar-lhe o coração. “Use sempre. Será meu amor entregue a ti.” - disse Jasmim, ama- velmente. “Usarei em todas minhas vidas” - ambas se abraçaram e permiti- ram que lágrimas de saudades escorressem face abaixo. Serena, afastando-se, e tomando-a pelas mãos, frente a frente... “Ao mesmo tempo que não sei como explicar, consigo te dizer que nos conhecemos. Pode ser que nesta vida nunca mais nossos caminhos se encontrem. Mas, levarei esse amor incondicional que sinto, todos os meus dias.” Jasmim refletia a consciência ampla do Mundo Maior. 78

por Agnaldo Silveira “Sempre estivemos e sempre estaremos lado a lado” Ao dizer estas palavras, a cigana, levantando-se e caminhando até Romero, tomou suas mãos como fez a Serena, e lhe diz. “Meu irmão. Se te chamo assim, é porque és meu Irmão Espiri- tual. Sempre estivemos e sempre vamos estar juntos, seja no Mundo Maior ou aqui no físico...” - tomando as mãos de Serena, e jun- tando-as com as de Romero, prossegue - “... vossas vidas sempre pertencerão um ao outro. Muitas vezes não será fácil a vida aqui na terra. Suas forças virão de um Mundo Iluminado. Não se entreguem a essas dificuldades que surgirão, elas servirão apenas para separar vossas missões. Vós sois e sereis mais que este físico, sempre...” - apoiando o crucifixo do pescoço de Serena em suas mãos, continua - “... o cristal é a elevação espiritual que possuis, te conectando ao Superior em tua evolução. Te dará energia em tua proteção, todos os dias. O ouro, é tua perfeita Iluminação que carregarás em teu espí- rito. Ele te fará brilhar, assim como o nosso Sol brilha todos os dias no firmamento. A Cruz, é o símbolo do Cristo que te acompanhará todos os teus dias.” Jasmim, dando dois passos atrás, senta-se ao lado de Ramon que, pedindo autorização a realizar uma prece, pede para que todos cur- vem suas cabeças. “Senhor, proteja meu povo. Perdoe-nos sempre nossas condutas incompatíveis aos teus mandamentos. Somos meros carnais e mui- tas vezes nos permitimos influenciar pelas ilusões deste plano. Não nos castigue pela nossa falta de compreensão de quem és Tu. Guie nossos passos, e dê-nos o que necessitamos para honrarmos com Tuas Leis” O mais magnífico silêncio imperou em todas as mentes dos pre- sentes. Alba e Jade, observadoras ao todo tempo, também permiti- ram que algumas lágrimas soltassem de seus olhos. Memorável noite, imersa na estrelada madrugada dos céus de Andaluzia. Rastros cadentes a circular o universo, cruzavam aque- les destinos como a estarem marcados, tempos anteriores, Espi- ritualmente. 79

“...e a missão continua” Irmãos Iluminados do Astral Superior curvavam-se ao Supremo, no agradecimento conclusivo de algo misterioso que deveria ser. Aquele encontro, singelo e adorável, complementava um calen- dário Espiritual, implantando divina energia física que perduraria através dos séculos. O nascer da maior estrela entrava em cena, a dar-lhes a esperança confiável em suas necessidades de seguir aquela jornada. Após o pouco descanso, o adeus final entre todos não trouxe a amargura da separação. Mas, sim, a sábia consciência da gratidão eterna em terem cruzado seus caminhos. Horas depois, o sonido metálico de suas carroças deixava a sau- dosa despedida rumo à Córdoba. 80

por Agnaldo Silveira O s atribulados passos no mundo carnal mostram-se, por di- versas oportunidades, contrários àqueles intencionados an- teriormente. No Plano da Verdade, apóstolos do Criador, incansavelmente, dispensam-se em suas trajetórias, perfeições, mes- mo que doloridas ao ser encarnado, dando melhores condições às concretizações missionárias ou, até mesmo, superações cármicas em inevitáveis existências físicas decididas, mesmo em suas inconsciên- cias, ao menos dolorido rumo a vivenciar. Adeptos cristãos, imersos em magnitude do respeito, sem con- trariedades ou sugestões pessoais, em suas aceitações ao porvir, numa demonstração evolucional de que o Criador sempre se utiliza dos seus Filhos Iluminados a lhes dirigir na melhor direção em suas cegueiras físicas, permite a ascensão em Luz ao desconhecido cami- nho que o homem carnal incompreende ao seu futuro. Estes, entregues à certeza da fé, ignorando a incerteza dos passos carnais, aperfeiçoam-se em suas experiências passageiras, fixando-se à crença, muitas vezes nata em cada um, de que o sumo caminho 81

“...e a missão continua” reflete-se em sua impetuosidade mansamente. Essa mansidão espiritual, confiada ao Mundo da Verdade, am- plia-se em conexão com a espiritualidade, assentindo a dualidade entre os dois planos. Assim, o íntimo verdadeiro de Serena jamais falhara em qualquer decisão das veredas de sua carruagem. Metade espiritual, diferenciando-se de sua contraparte em segu- rança dos seus destinos, ela fortificava a cada momento à Romero, mesmo que inconsciente. Essa necessidade entre eles, proporcional a passagens anteriores por esta Orbe, programara-se bem antes na condição de espíritos que eram. Uma força mútua, arriscando-se num plano físico tendencioso a seus próprios desvios de conduta, satisfaziam um Mundo Iluminado às suas superações harmônicas que concediam entre si. Somados a eles, em permissão Divina, encontrava-se Jade, pro- positalmente inserida em seus dias como presente Celeste, a lhes alimentar a encarnação em amor e colaboração, pelo conhecimento possuído, a ambos. Jade tornara-se um amuleto, já a ser olhada por Serena como a um anjo enviado pelo Criador por sua companhia. Por diversas encruzilhadas em seus caminhos, ela, aflorada por seus sentimentos, dirigida por uma espiritualidade presente, aconse- lhava-os ao caminho a ser trilhado. Em corpo físico, o quarteto subia, por dias, as Serras de Almeria, aos seus rumos desejados. O frio, aquecido por seus peculiares respeitos entre si, se mos- traaso numa tela, suas imagens igualar-se-iam entre si, encontrando- -se um ao outro. Orientados por Jade, conhecedora da região, encontravam-se ao sudoeste de Almeria, nas geladas montanhas de Sierra Nevada. Di- rigindo-se ao norte montanhês, em batalha com o temeroso frio a lhes submeter, aderiam acesso aos rios, em suas nascentes e seus 82

por Agnaldo Silveira afluentes, a não lhes faltar água. Sobreviveram às perpétuas belezas paisagísticas de uma natureza abençoada. Uma serra isolada, dando- -lhes segurança, exceto pelo clima, de qualquer situação indesejada. Lagoas, algumas delas congeladas, lhes doavam seus alimentos. Romero, em grande esforço diário ao encontro das secas pinhas, provia de sua experiência como montanhês, a não permitir que lhes faltassem sustento. Abrigavam-se ao fim de cada dia, nos Vales protetores a lhes aquecer, em meio ao outono Andaluz. Jade contava-lhes as diversas histórias que ouvia desde sua in- fância. “Dizem que aqui tem um lago que foi formado pelas lágrimas de uma princesa” “Coitada... por que?” - perguntou Serena no balançar da carrua- gem. “Não me lembro muito bem, mas acho que porque ela traia seu príncipe, escondidos num jardim, que virou o lago com lágrimas dela. Mas, o príncipe descobriu e cortou a cabeça do amante dela.” “Que horror” - disse Serena aos risos. “E dizem que ele virou uma pedra “ Todos entregaram-se às risadas, seguidos por Romero que con- duzia a carroça. “E, depois, ela também virou uma pedra” Os risos altos de Serena inspiraram Alba a lhes contar outros enredos. Unida a Jade, que completava suas lendas, vez ou outra contrariavam-se em seus esquecimentos finais. Misturadas aos risos, davam seus próprios finais aos contos. Romero, participando, dava- -lhes o saber das lendas que conhecia de seu povoado. Elas, envolvidas em seus desfechos, criavam mais finais irreais, a entregarem-se às longas gargalhadas que ecoavam nas frias monta- nhas de Nevada. 83

“...e a missão continua” “Olhares fixados ao horizonte do magnífico Jardim Espiritual, per- mitiam-lhes saborear o perfumado aroma emanado pela relva, recheada de singelas orquídeas e brancas rosas, a representar-lhes a brandura de um Plano Superior impresso em seus espíritos. Ambas, Serena e Jade, despertavam suas consciências ao Mundo da Verdade, após desenlaça- rem-se dos seus veículos físicos em vida passada. Há séculos daquela tra- vessia pelas frias montanhas espanholas, cuidadoras, por seus próprios desejos, em recuperação à Romero, que se reabilitava, em séculos de suas atrocidades conferidas em trajetos físicos, aguardavam, ansiosamente, sua presença, no que seria conduzido, em espírito, a elas, em merecida consciência conquistada. Em todas as batalhas que Serena dispensou ao regresso de sua meta- de em espírito ao Caminho da Luz Maior, Jade serviu-lhe de mentora, ora no Mundo da Verdade, ora no plano terreno. Em meados dos anos 1450, a consciência espiritual de Serena ini- ciou a preparação onde a levou àquela encarnação como Amália, em sua primeira oportunidade. Jade fora sua sustentação em espírito, e sua missão, era a de trans- formar o pai de Serena, que, espiritualmente, foi um dos discípulos de Romero, enquanto mestre negro. Por seus desvios passados, almejava conduzi-los ao perdão, a abandonarem seus impulsos em inspiração pre- judicial ao caminho decido pelo seu antigo mestre. Serena, de volta ao Reino Maior, pelo insucesso de suas tentativas frustradas levou consigo carmas criados, ao invés da conquista de seus objetivos. Desavenças com sua mãe física, e o poderio em dominação pelo lado paterno, a serem colocados em prova num futuro terreno. Ante a isso, devido a sua intensa luta por sua própria recuperação, em sua metade de espírito, fora merecedora de retorno unitário em sua essência. Encarnações breves se ligaram em resgates a serem vencidos. Onde, anteriormente, Serena, isenta dos desafios carnais por sua própria evo- lução permanente, ia e vinha ao corpo físico em missões humanitárias. 84

por Agnaldo Silveira Muitas dessas, acompanhada por Jade, por sintonia e origem igualitária. Porém, naquele século, envolvida na energia desses carmas que nasce- ram em seu destino físico, seu espírito apegou-se ao materialismo. Essa junção em ambas as metades espirituais, meus dois filhos amados, criou circunstâncias para que em suas vitórias no plano físico, fossem desper- tados todos os sentimentos a serem vencidos. Isentos, a reativarem suas uniões de suas origens, por merecimento de um e de outro, pelo próprio magnífico local de suas criações iniciais, for- taleciam-se, unidos a Jade, encarnada dessa vez a lhes sustentar, mesmo que inconsciente, a não se perderem em suas excelências. Assim, por entre as perfumadas orquídeas, imensa Luz, emanada de três Seres Espirituais, conduziam o espírito de Romero, ainda que refletisse o opaco em sua recuperação, porém consciente de sua verdade, até suas presenças. Uma missão inicial, longínqua, pura, quebrada por um mundo car- nal, e recuperada pela difícil consciência adquirida em ambos, Irmãos Espirituais estimulavam seus espíritos a Iluminarem-se, objetivando seus retornos, unidos, às suas Verdades. Aos olhos espirituais, encontravam-se, por entre os aromas do gra- mado, envolvidos por Sábia Luz Violeta do infinito acima. Ao lado, confortável banco acomodou a todos, ao que notaram, vindo do astral azul celeste, um Ser Espiritual de cor prateada. Seguido por outro igualmente a ele, volitaram em suas direções à parar-lhes à frente. Profundo sentimento lhes dominaram os sentidos, como algo distante no tempo a ser recordado, a um deles iniciar suas palavras: ‘Completo-vos, espiritualmente. Ao longo de toda jornada que cada um de vós participou no mundo dos mortais, olho-vos no meu amor...’ - olhando para Romero, prosseguiu - “... a ti, minha parte de origem, acompanhei-o em todos teus desafios terrenos até recuperar-te em tua consciência. Tua imersão desastrosa atraía-me ao longe, a interromper, por diversas oportunidades, minha caminhada...” - lentamente, com as 85

“...e a missão continua” mãos unidas em seu peito, olhou para Serena - “... a ti, minha parte em origem, vislumbrei-me com tua consciência em espírito, e inconsciência em mente terrena, na luta por nós mesmos. Trago a gratidão a ti, nessa nossa reunificação em espírito, que concede à cada um de nós o prosseguir de nossas missões, em evolução por este planeta. Terão séculos a frente, a permanecerem em suas amplas consciências, ainda que fechadas no plano físico, a honrarem com nossas missões. Sofrerão os desafios físicos, imersos em suas lutas reencarnatórias, a po- derem ainda se perder, pois nossa missão é grandiosa. O mundo carnal evoluirá, em sua maior parte dominado pelos desviados do Supremo e, vós, estarão imersos nele, propiciando-lhes perdições. A isso, não se iludam a esta possibilidade, onde os devaneios carnais, auxiliado por aqueles que a vós não os desejam a união, até mesmo pelas suas próprias energias que exalam em corpo físico, lhes convencerão em mente carnal a não conexão de vossas vidas físicas. Este perigo pode fixar-se em vossos pensamentos carnais, lhes gerando carmas entre si. E isso refletirá em mim, por nossa essência. Não possuirão facilidades, as vidas carnais. Eu, pelas Leis Cósmi- cas, não poderei estar ao lado de vós naquele mundo de perdição. Inter- virei em última instância pelo que o mundo passará...” A imensa Luz Violeta misturava-se à sua energia prateada, quan- do virou seu olhar à Jade. “... do Mundo Astral, eles terão sustentação em orientação de al- guns Irmãos Espirituais, assim como tu já o fizeste. Porém, de hoje em diante, tu encarnarás, em tua benevolência e aceitação, a sustentá-los no mundo carnal...” - Jade consentiu-lhe com sua cabeça em aceitação - “... deixo este ao meu lado em união a vós...» - Ao seu lado, recuado, o ou- tro Ser consentiu-lhe o comando - “... Retiro-me concedendo-lhes minha energia em força e em iguais sabedorias’ Aquele ser cor de prata retirou-se, juntamente o outro, a flutuar aos céus” 86

por Agnaldo Silveira Direcionavam a carruagem às encostas de imensa rocha. O in- verno aproximava-se, inevitavelmente, às congeladas corredeiras que serpenteavam as brancas montanhas de Nevada. Jade olhava acima, os céus, como a ser o dicionário de Deus, a decifrar as linguagens das estrelas. Rastros celestes delineavam seus contornos a iluminar os arvoredos, sombreando a natureza a des- pertar sua paixão pela essência planetária. Levemente afastado, Romero lutava contra a umidade das pi- nhas, numa tentativa de aquecê-los. Serena, ao seu auxílio, enquanto Alba despia as cascas das últimas batatas, pernoitariam pela última vez, antes da chegada à província de Granada. Longa caminhada, através da gelada cordilheira, findar-se-ia a poucas horas do novo povoado. Enquanto o rapaz dava vida às primeiras brasas, Serena chega-se à Jade, deslumbrada com o universo às suas vistas. “Vivo a melhor parte de minha vida.” - disse Jade. Serena, em irreversível afetividade a ela, cientificava-se de que os dias de suas convivências se encurtavam. Deveriam, ainda, atravessar algumas aldeias. Cada dia que se en- cerrava era um a menos em suas histórias. “Sinto-me como tua irmã” - disse Serena, ao cruzar seus braços protegendo-se do frio. “E somos” - Jade ainda olhava os céus. “O que espera do Tibete?” - perguntou-lhe Serena “Meu desejo era me encontrar por lá. Sempre tive a sensação de que algo me espera. Mas, hoje, ao lado de vocês, encontro-me.” “Existem certas coisas que não tem explicação. Sei que as pes- soas se cruzam em seus caminhos, mas a maioria permanece a es- perar algo. Nós estamos vivendo esse algo. Sei que cada dia é um aprendizado.” - disse Serena. “Estou aprendendo a viver o hoje. Para onde vamos, vamos de qualquer forma. E, se um dia tudo isso acabar, pode ser que termine junto o sentido da busca.” - completava Jade. 87

“...e a missão continua” Romero com as primeiras batatas prontas, enquanto Alba prepa- ra os chás para aquecê-los, aproxima-se participando da conversa. “As coisas mudam. Não pudemos entrar em Almeria a conseguir nosso objetivo. Mas, mesmo assim, conseguimos.” “Muitas vezes o que procuramos, pensamos estar em determi- nado local, e encontramos em outro...” - disse Jade - “... sinto algo mudando em meu íntimo. Não quero retornar à vida que tinha. Mas, sinto-me diferente.” A noite caminhava para seu mais profundo negrume. Trazia con- sigo forte vento a gelar seus corpos. Minutos depois, despediram-se das noites montanhesas num agradecido olhar por todas as estrelas que lhes guiaram por dias durante aquele trajeto. Acomodaram-se, e, imersos ao cansaço corporal, protegidos pe- las resistentes lonas da carruagem, entregaram-se ao veemente sono, sob o luar de Sierra Nevada. ********* A névoa dissipava-se por entre os brilhantes arbustos que re- fletiam a luz solar. O dia acordara no cantarolar dos pássaros, ao que Romero, evolvido num estranho notório silêncio, ao reparar que Búho, deitado ao frio solo, e Colibri, em pé ao seu lado como um anjo da guarda, não se movia. Lentamente, o rapaz, ao esticar cuidadosamente suas mãos ao corpo do animal, sentiu-o sem vida. Seu coração palpitou dentro do peito, imediatamente chamando em alta voz por Serena, deixou uma lágrima correr por sua face. Búho não havia sobrevivido às baixas temperaturas e longa ca- minhada. Olhou tristemente para Colibri, como a conversar mental- mente com seu destemido amigo, ouviu do seu olhar o adeus ao seu eterno companheiro daquela longa jornada. Serena, seguida por Jade e Alba, chegaram-se apressadamente, de- parando-se com Romero abraçado ao animal imóvel em sua respiração. 88

por Agnaldo Silveira Jade, numa desperdiçada tentativa, amorosa, em reanimá-lo, con- firmou com seu olhar a Romero, a partida do ameno defensor de longas caminhadas ao reino espiritual dos animais. A amargura tomou conta de todos que, imóveis, temporariamen- te, sentaram-se ao lado de Búho, olhados por Colibri, em inesperada e eterna despedida. Desconsolados, ali mesmo, inseriram seu corpo imóvel e gelado abaixo das gélidas neves que tomavam o solo. Calados, num último adeus, olharam para Colibri, que, perdendo suas forças, deitara-se ao lado do seu companheiro submerso na neve. Entreolharam-se por alguns segundos, cientes de que Colibri, fraco como seu velho companheiro que partira, não conseguiria forças para prosseguir. Ao passar do dia, ali permaneciam lhe acariciando o rosto, cons- cientes que seguiria o mesmo rumo de Búho. Seus alimentos terminariam naquela manhã. Sem as forças dos dois animais, não concluiriam a descida à província de Granada até o final do dia. Jade, como de costume, tomou a palavra pioneiramente naquele melancólico dia. “Escutem-me... não há o que se fazer. Colibri não terá mais forças. Vai esperar seu espírito sair do seu corpo a ir ao encontro do Búho. Nós, se ficarmos aqui olhando, sofreremos, pois nossas provisões irão acabar. Vamos pedir que seus espíritos encontrem seus caminhos, e vamos descer à província, antes que nós mesmos padeçamos.” Imerso em seu silêncio, consentindo com a cabeça, Romero abraça Colibri que, com seus olhos marejados, diz ao rapaz para partir. Um agradecimento mental entre os dois, despencou Romero ao abraço eterno ao animal. Logo em seguida, a despedida um a um. Aquele dia terminou com o fechar dos olhos de Colibri, partindo ao reino animal da espiritualidade, unindo-se a Búho Sem alimentarem-se, possuíam apenas um galão de água, e outro 89

“...e a missão continua” pela metade. Mal dormiram, e partiram, abaixo do frio, para a desci- da, levando o necessário que pudessem. Romero ainda improvisou, retirando uma madeira da carruagem, uma espécie de trenó a colocarem o suficiente. Por três dias, a lona da carruagem lhes serviu de proteção notur- na da neve que esbranquiçava a natureza ao redor. Seguindo às margens do rio que os levariam até o início da pro- víncia, alimentavam-se uma vez por dia pela difícil e ínfima pesca, que todos esforçavam-se em conseguir. Cansados, fracos, porém unidos, afastaram-se da Serra, olhan- do-a por baixo. Ali, o frio já era menos intenso. Dormiram, unidos, olhando minutos antes ao lado externo o cume da montanha onde viveriam pela eternidade os corpos de Colibri e Búho. 90

por Agnaldo Silveira Oreinado da dinastia nasrida transferiu-se de Albacín para Granada. O califado, dividindo-se em Córdoba, dirigiu-se à Alhambra, na província de Granada, a construir imenso cas- telo, a ampliar-se em palácios, séculos depois. Gigantescas muralhas rodeadas pelos verdejantes arvoredos, tor- res que lhes davam a guarda em suas proteções, magnífica arquitetu- ra cercada de belos jardins jamais vistos, surgiu, ao longo dos anos, edificando a maior fortaleza em proteção ao reino mulçumano. Dominado, séculos após sua construção, pelos reis católicos, so- breviveu a um desfeito abandono, no século 18. Meus quatro filhos amados, salvando suas vidas, avistaram o imen- so Alcázar, ganhando novas esperanças de permaneceram vivos. Grandioso portal, de madeira maciça, abriu-lhes, após muitas tentativas de chamado por auxílio por eles, abaixo da torrencial chu- va que descia dos céus. A imagem de um singelo frade, a lhes recepcionar, seguido por dois componentes da guarda, negou-lhes ajuda em imediato. 91

“...e a missão continua” Serena, tomando a palavra, lhe narrou suas jornadas, o que con- venceu o homem de Deus a permitir-lhes a entrada concedendo- -lhes ajuda. “Convertem-se à nossa dinastia, e terão moradia.” Nada mais poderia ser realizado, a não ser aceitarem as condições impostas. Porém, em seus corações, pediam perdão ao Criador, pe- las suas falsas promessas dadas aos que coordenavam o desabrigado Castelo. Tornaram-se fiéis serviçais em troca de suas moradas. Dois des- comunais quartos foram-lhes oferecido aos seus repousos diários. Jamais pronunciavam suas origens islâmicas. Poderiam sofrer re- presálias e serem expulsos do que lhes era dado. Discípulos disfar- çados do catolicismo imperado ao local, compuseram-se, junto a outros três criados, a concretizar todos os gostos dos poucos repre- sentantes religiosos que dominavam seus novos lares. As mesquitas deixadas, desde a época de sua construção, adequa- vam seus hábitos, onde realizavam a manutenção da limpeza diária de todas as gravuras, as escritas nas paredes e nos tetos, de toda a beleza que nascera naquela Fortaleza. Cientificavam-se, sempre, de que deveriam partir após recupera- rem suas saúdes, o que trouxe grande preocupação a Romero. Eram olhados por alguns sentinelas postos em despreocupação de qualquer invasão mulçumana na retomada do Gigante construído há séculos. “Temos que levar comida para outra longa caminhada” - disse Romero à Serena, em seus repousos diários. “Elas já sabem o que fazer...” - afirmou ela referindo a Alba e Jade - “... e, no domingo, na missa onde todos estarão presentes, Jade já acertou com Pablo, um dos sentinelas, que cai de amores por ela, a destravar um dos portais que levam ao lado de fora. Ele, talvez, irá junto” Ele deu gargalhadas. “E sairemos correndo?” - disse - “... nos pegarão logo depois que cruzarmos a muralha.” 92

por Agnaldo Silveira Os tratos pelos líderes religiosos que comandavam o Alcázar, os incomodavam. Mesmo sabendo que partiriam rumo à Córdoba, Romero pediu uma conversa com Pablo. Ambos, Jade e o sentinela, apaixonaram-se, e, em comum acor- do, às escondidas, numa ala afastada e não frequentada pelo clero, iniciaram a construção de duas carruagens. O sentinela transpor- taria cavalos usados pelos frades, no momento crucial da fuga, às suas carroças. Não fossem seus desejos de partirem, habitariam aquele imen- so e magnífico lugar eternamente. Ao longo de quatro longos meses, permaneceram submissos ao reinado religioso. Por duas vezes, tentaram a fuga, sem sucesso. Prorrogavam a não gerar desconfiança dos outros dois sentinelas. ********* O sol se punha, após posicionarem os cavalos às carruagens longe dos olhos dos seus superiores, Pablo, dirigindo-se a Romero, na parte leste do Alcázar, informou-lhe que se preparassem. Em uma das principais alas da fortaleza, o clero festejava o término daquele ano. Bebidas, comidas, despretensiosos à segu- rança confiada a eles, proporcionavam o perfeito momento de suas fugas. Instante crucial que definiria seus destinos, em profundo si- lêncio, tomando provisões suficientes em uma das carroças, em programação perfeita entre eles, caminhavam por entre os belos jardins, a ouvir a cantoria que provinha dos comandantes do rei- nado, desceram por uma vala, à beira da saída. Puseram-se, temerosamente, ao interior da primeira carruagem. Pois, caso pegos em fuga, seriam levados a condenações perpétuas. Calados, deram os primeiros sinais para que os animais inicias- sem seus esforços físicos a colocá-los, novamente, numa almejada partida. 93

“...e a missão continua” Ao passar dos minutos, à frente comandados por Romero, Pablo interrompe os animais. “Fico por aqui e deixo-vos, como combinamos. Sigam o rumo conforme falamos. Não se aproximem de Córdoba nos próximos meses. Serão procurados. Vão a Toledo. Lá, jamais serão persegui- dos. Voltarei à festa a despistá-los ao notarem suas fugas. Serei o responsável pela busca a vós. Irei a Córdoba, e voltarei dando-lhes notícias que vós não estavam por lá. Eles abandonarão as procuras, pois confiam em mim, e eu chegarei à Cordoba em poucos dias.” Jade, deixando rolar uma compreensiva lágrima pela decisão do seu amor... “Compreendo-te. Proteja-se. Temos que seguir. Te encontrarei um dia. Seja nesta ou em outra vida” Fora uma despedida sem palavras entre Pablo e todos eles. Assim, horas depois, já distantes, seguros, não mais avistavam a imensa fortaleza. O reinado do Alcázar desconfiaria que eles seriam intrusos ao comando do clero de Córdoba, indispostos a eles. Seguros, mudando suas rotas ao comando deixado por Pablo, deveriam seguir à província de Jaén, passando por ela, e seguindo a Toledo. Seus destinos tornaram-se sacrificantes, porém, imersos na pro- messa deixada aos sonhos de Jade, chegariam à Córdoba, a qualquer desafio. Dias mais tarde, encontravam-se às oliveiras de Jaén. Estaciona- ram suas carroças em local afastado, e descansaram por alguns dias. ********* Muitos os confundiam com ciganos. Merecida tranquilidade lhes invadiu o coração. Superada as frias montanhas e uma possível es- cravidão no reinado de Alhambra, dispensados em seus sonhos a se concretizarem, mesmo que interrompidos pelo necessário desvio 94

por Agnaldo Silveira de suas rotas, aliviavam-se em alegre noite, saboreando garrafas de vinho postas por Pablo, completando um ano após suas partidas da Serra de Cádiz. Um mundo novo às suas frentes, as descobertas da existência da- queles que cruzavam seus caminhos, a compaixão por um povoado que permanecia por sua espera, numa crença regada de devaneios a pedir perdão ao Deus Supremo que lhes enviara sua vingança, mostrava-se no amor entre meus dois filhos amados, unidos à Jade e Alba. Ambas não recordavam mais de suas famílias com sofrimento. Acreditavam em seus sonhos que, mudados pelo destino, vislumbra- vam viver uma liberdade jamais permitida em suas culturas. O correr do tempo, imperceptível a eles, tornou-se uma maneira de vida. Cientes dos seus regressos ao casebre da colina, vez ou ou- tra, Romero preocupava-se com Rúbio, seu irmão. Serena o tranquilizava, lembrando-se que, apesar de sua dificul- dade de comunicação, ele saberia conviver com a espera por eles. Ao término festivo daquela noite coberta pela claridade da lua, adormeceram, como uma criança dorme ao colo de sua mãe. 95

“...e a missão continua” N ascia mais um dia em suas vidas. Seus destinos, ao norte, os levariam direto a Toledo. O tempo passara, e, provavel- mente, Pablo já teria os dado como perdidos. Seguindo o conselho do nobre sentinela do Alcázar, permaneciam fiéis às suas caminhadas programadas. Semanas decorreram, cruzando a Sierra Morena, fronteira com Castilla-La Mancha, em Ciudad Real. Nova pausa aos seus descan- sos. Já desprovidos dos alimentos e tomados pelos desgastes das carroças, Romero, as transformou em uma, apenas. Desfez-se de um dos cavalos, em troca de alimentos com um comerciante, a se- guirem seus rumos. Dias mais tarde, adentraram na cidade de Toledo. O coração do rapaz dava-lhe sinais de saudades. Levava em si algo que ele não compreendia ao admirar a região. Colocaram-se protegidos numa segura distância, a não serem olhados como ciganos. A saudade no íntimo do rapaz crescia incontrolavelmente, ao que Jade sugere a todos a buscar por uma mesquita, onde seu pai, desde sua infância, narrava belas histórias. 96

por Agnaldo Silveira Toledo emerge de sua própria Luz. Ao longo dos séculos, a Es- piritualidade proporcionou às suas terras o encarne de espíritos de Luz a tentar transformar a humanidade. Ali, devido ao centro ener- gético espiritual condizente ao seu solo, alguns desses espíritos fra- cassaram em suas evoluções a prenderem-se eternamente em fixas energias, participando dos ciclos reencarnatórios até os dias de hoje. Essa energia cármica que os faz permanecer nesta condição é tra- tada como orgulho ao retornarem ao Mundo da Verdade. Envoltos num aglomerado de vibrações, mantiveram-se na fé e na magnífica história. Na espiritualidade, criou-se um egrégora iluminada, per- manente, mesmo estagnados em suas evoluções. Simplesmente ao amor, ou talvez, apego à cidade. Estes encarnam e desencarnam neste solo. Não é um Mundo Espiritual habitual ao tradicional, de missões, resgates, evoluções ou transformações pessoais. É uma es- piritualidade estagnada, pertencente a ele mesmo, não evoluíram. Porém, o amor permanece raramente como a nenhum outro lu- gar deste Planeta. O apego concretiza-se a tudo. Preferem a não evolução a encarnarem em outras terras, a evoluírem. Serena cientificava-se de sua vida passada naquelas terras, con- forme lhe fora permitido em sonho. Ao caminhar, em busca pela mesquita que Jade sugeriu, visões de um passado remoto, somadas ao seu sonho, despertavam dentro de minha querida filha. Ela havia encarnado naquele chão, a iniciar o resgate pelo espí- rito de Romero, quando dirigente daquele Reinado, naquele século passado, onde, ele permaneceria perdido em consciência carnal das suas atrocidades. Até que, por permissão Divina e ajuda de Irmãos de Luz, despertou seu amor, novamente, após séculos, por ela. Muitos da escuridão haviam encarnado ali, atraindo o espírito de Romero a prosseguir em suas maledicências. Muitos entregues ao militarismo, às altas hierarquias governamentais, despertavam suas consciências físicas ao deixar o mundo negro, naquelas terras. E, ele fora um deles, a conquistar o poder máximo de um governante. Os armamentos dando-lhe o poder da destruição e da vaidade moral. 97

“...e a missão continua” Ao amor sentido na espiritualidade, ela encarnara ali a aproxi- mar-se da mesquita, onde cruzaram seus caminhos. Mesmo não permitida a frequência de uma mulher, ela cuidava para que todos os adeptos de Alá tivessem condições de sobrevivência interna em suas comodidades. Tornou-se uma princesa oculta à sociedade, e dona do coração do Rei, como já fora narrado em seu sonho. No Mundo Maior, a expectativa dos Irmãos Iluminados seria de que o amor sentido por ela a ele, naquela passagem, despertasse a transformação do que ele havia se tornado unido à escuridão, levan- do-o de volta à Luz. Mas não. Naquele desencarne de ambos, aquele amor físico do meu filho não fora o suficiente para sua transforma- ção. O amor dela cresceu unido à confusão mental do espírito dele. E, o arrependimento iniciou seu desordenado ciclo na mente de Ro- mero. Mas, o crescimento definitivo entre eles seria concretizado no físico, pelos seus próprios desejos. O merecimento, de ambos, era digno de estarem de volta àquelas terras, conectando suas energias passadas à atual narrada. Por séculos, ali vivenciaram todas as suas dificuldades, suas aflições, principalmente as de Serena na luta pelo regresso de sua metade ao Caminho Maior do Astral. Após seus amores aflorarem, tempos depois, ela fora em busca do resgate final dele, unido ao Mestre pertencente à Espiritualidade Maior, que faz parte até hoje dos ciclos reencarnatórios dos meus dois filhos. Po- rém, ante a isso, ela prometeu que jamais pisaria nos ermos negros da espiritualidade em busca dele, o que o adiantou em remorso por todas suas vidas de desvios. Ela deixou o pedido “Vás à Luz, e nos amaremos para sempre”. Seus perdões estariam naquelas terras, a jamais separarem-se en- quanto inseridos no mundo dos mortais. O que não houve. Naquele espiritual negro, submerso ao escuro de uma caverna, o amor de Serena por Romero venceu. Venceu a todos da escuri- dão, mesmo que muitos deles prometessem eternas perseguições. O amor vitorioso dela permaneceria sem fim, fosse em espírito ou matéria, assim como desejava no Mundo Maior. 98

por Agnaldo Silveira Seus pensamentos clareavam suas verdades, num imperceptível andar por entre todos. Serena notara que Jade parecia ter encontra- do a mesquita. Seu coração deu sinais de uma passado real a tudo que pensara naqueles últimos instantes. Depararam-se, em uma estreita rua virando à direita, com uma pequena porta, a esconder-se em sua simplicidade. Serena seguia Romero, que olhava as outras seguirem apressada- mente à sua frente. Ele sentiu a mesma saudade desde quando havia pisado naquelas terras, no passado, inconsciente. ********* Um gelado físico dominou a ambos, mesmo que calados em seus sentimentos. Ele apenas avistava os pilares que sustentavam o teto, espalhados sincronizadamente pelo interior da mesquita. Ela, assim que pisou ao solo, relembrou-se de mulçumanos, há séculos, cur- vados ao chão, sobre tapetes individuais, orando em rituais a Alá. Serena sentiu, neste instante, que eles acreditavam em suas purifica- ções, a esconderem-se ali após fuga de seus países natais, buscando uma vida melhor, isenta das obrigações tradicionais que lhes eram impostas. Aquele santo lugar, edificado por um grupo fugitivo pioneiro, recebia outros em igual situação às deles, a se purificarem em perdão à Alá, dando suas vidas às terras da Espanha. Construída por esse grupo, acreditavam que, ao chegarem em terras espanholas, a purificação por suas fugas era realizada ali. E, nessa penitência, diariamente curvavam seus corpos físicos entre- gues ao seus perdões. Ela, sem mesmo perceber, ultrapassou todos os pilares sustenta- dores do teto, com escrituras que ela não conseguia decifrar, porém, ciente de que em sua vida passada sabia dos seus significados e, sain- 99

“...e a missão continua” do ao ar livre, na parte externa, aos fundos, avistou uma fonte. Ela sabia que aquelas águas, que circulavam ali em seu passado, eram consideradas santas, a lhes fluidificar o coração. Isentavam-se de seus pecados, completando o ritual interno. Consideravam-se batizados à uma nova realidade, desvencilhados de um passado sofrido. E, mui- tos deles passaram por ali. Todos se ajoelhavam num lindo gramado que contornava a fonte. Algumas plantas, aparentando sofrer destra- tos atuais, deram a Serena o desejo de ajoelhar-se, seguida por Jade. Seu coração levou-a, mais uma vez, ao seu passado, permitindo-lhe sentir a mesma saudade calada que sua metade sentia ali dentro. Um momento introspectivo, onde respeitaram-se em cada ins- tante, desobrigando em se retirarem dali. Serena sentou-se ao lado da fonte e fechou seus olhos, como a exalar dentro de si um amor incondicional por aquela mesquita em comunhão ao seu amor por Romero. Eles, momentos depois se retiraram ao lado de fora, e Serena, pedindo para ficar mais um tempo, encontrou-se minutos depois sozinha, à frente da seca fonte. 100


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