Desde o começo da exposição materna Isabel sentia o coração pulsar com violência, batendo nas têmporas, e o sangue af luir ao rosto num jato. Lembrou-se da recomendação do tio franciscano e procurou conter-se, num esforço ingente, diligenciando esconder a agonia que lhe ia n’alma. Nesta altura, porém, não conseguiu repri- mir a emoção. — Mamãe... — Espere um momento minha filha, deixe continuar minha exposição. Como disse, está tudo preparado para o pedido oficial. Você está na idade de mudar de vida, essa é a maior preocupação de teus pais, que um dia se irão deste mundo, mas satisfeitos ao ve- rem as filhas bem amparados, seguindo caminho normal. Tua mãe tem grande experiência e sabe que jamais encontrarias um marido mais perfeito e melhor que Marcelo, moço educado, rico, saudável, estimado por todos, apto a proporcionar-te existência feliz e o que é mais importante, de uma família conceituada. Logo virão os filhos e então agradecerás do fundo do coração a clarividência da mãezinha. Sua entonação era untuosa e a própria irmã ouvia enlevada a maneira perspicaz com que ela procurava exaltar aqueles conceitos. Isabel conservava a cabeça baixa, dominada agora por uma lassidão profunda, como se toda a dissertação não lhe dissesse respeito. ❧ Como continuasse silenciosa, a mãe perguntou: — Então, que dizes? Assim compelida, respondeu: — Eu tinha pedido um prazo para resolver... .249.
— Resolver o quê? Não esqueça que me prometeu uma defini- ção até o dia de nossas bodas de prata e o teu silêncio representou uma aquiescência. Nada resolve estar adiando uma decisão a ser tomada, mais dia, menos dia. Estamos preparando tudo para ama- nhã à noite. Clarinha e o Comendador Gustavo estarão em nossa casa para formalizar o pedido. Naturalmente diremos que vamos te consultar, depois iremos à casa deles para levar o “sim” e come- morarmos. Enquanto não chega o momento é bom ir preparando o espírito. Malgrado o grande esforço para se controlar, Isabel sentiu ter chegado o momento de uma definição. Apelou para todas as suas forças a fim de mostrar-se humilde e respondeu: — Mamãe, não quero casar... Viu o estupor estampado na face materna, ao replicar: — Hein? Que está dizendo? Ifigênia cravou as unhas nas palmas das mãos e tratou de con- ciliar, tentando convencê-la: — Minha filha, o que está combinado não pode mudar. Ama- nhã à noite o pedido será feito e não pode ser recusado. Isto não é um jogo de palavras, nem uma brincadeira! Não se joga durante tanto tempo com coisas por demais sérias para renunciar capricho- samente, depois! Você não é nenhuma irresponsável nem mente- capta para animar o rapaz por mais de dois anos e depois criar sub- terfúgios insensatos! Terá de decidir! Falava agora em tom severo e áspero. Isabel pressentia a tor- menta avizinhar-se a galope e respondeu ainda calma, porém p eremptória: — A decisão está tomada, mamãe, não me casarei. .250.
Ifigênia tornou-se lívida, cor de cera, encarando a filha, assom- brada. Também ela sabia ser difícil dobrar aquele cerne voluntario- so, como o pai e ela mesma. Tinha, contudo, esgotado todos os re- cursos e enveredou por outro caminho, procurando ainda trazê-la a seus argumentos. — Não vai dizer que anda inf luenciada por algum adventício espertinho, alguém que procura entrar em teu caminho. Andei fa- zendo por minha conta uma sindicância particular e já descobri o causador de toda essa embrulhada, mas te afirmo categoricamente que isso não vai continuar não, não pode continuar. Alteou mais a voz, pronunciando com energia: — Não vai continuar, não! Esse mancebo jamais fará parte de nossa família, nem porá os pés em nossa casa. Era só o que faltava! Imaginou, um filho ilegítimo de um casal espúrio, ou seja, filho de um concubinato entrando em nossa família! Em uma família com tradição como a nossa, casando com a filha de um homem limpo como teu pai e de uma mãe pertencente a uma das mais respei- táveis famílias do tempo do império! Isso não acontecerá nunca! Nunca! Isabel não pôde sopitar a reação: — Que é isto, mãe? A senhora está sendo injusta! — Injusta coisa nenhuma! Além do mais, filho de uma mulher que foi nossa empregada! Bem fiz eu, despedindo sumariamente do asilo esse sacripanta e tomando outro médico mais competente que o matador da paralítica! Isabel sentiu a cabeça rodar, percebendo só então o motivo do afastamento de Cesar. Foi soluçando que respondeu: — Fez isso, mãe? .251.
— Sim, já devia ter dispensado esse moço muito antes, assim não teríamos chegado a esta situação humilhante, devida a tua fal- ta de juízo. Não percebe que quer afundar o conceito de uma famí- lia de tradições? Por que não segue o exemplo de Márcia, essa sim, digna representante da nossa estirpe, que sabe elevar bem alto a reputação dos Braga! “Uma digna representante da estirpe dos Braga”, essa estirpe que era o maior orgulho de sua mãe! Isabel não ignorava a predile- ção materna pela irmã, entretanto aquela afirmação produziu-lhe incontida náusea e um gosto amargo na boca. Teve a impressão de que os olhos da mãe despediam chispas de ódio. Camila, que assistia estarrecida àquela cena, sem ânimo para uma intervenção conciliatória, julgou chegado o momento para di- zer algumas palavras, pronunciando timidamente: — Tenha paciência, Figê, tenha calma. Toda a raiva concentrada de Ifigênia despejou-se para o lado da irmã. Foi com extrema violência que apostrofou: — Você ainda pede calma e paciência numa situação desta! Não pensa no ridículo a que estamos expostas, depois de tudo ajustado e combinado! Além de tudo, você é a maior culpada do que está acontecendo, culpada sim, porque confiei na sua lealdade e me traiu, acolitando esse namoro estúpido, quando sua obriga- ção era evitar e prevenir-me. De que adiantou minha recomen- dação para vigiar essa tonta? Em lugar de me atender, andou fa- cilitando os encontros furtivos dos dois, pensa que não sei? Sim, você é a maior responsável ao permitir que as coisas chegassem a este ponto! .252.
Camila levantou-se pálida, porém se conteve. Não tinha forças para reagir à violenta objurgatória, pois não passava de uma depen- dente passiva da irmã. Isabel condoeu-se dela, ao ver pela primeira vez duas lágrimas brotarem naqueles olhos secos de solteirona e caminhou em sua di- reção, enlaçando-a carinhosamente pela cintura. — Titia, eu sei que a senhora não tem nenhuma culpa... Ifigênia tinha os olhos injetados e chamejantes, dando a im- pressão de loucura, ao exclamar, no paroxismo de incontido ódio: — Filha ingrata e desnaturada! Saia da minha frente e suba para o seu quarto! Não quero ver-te! — Que é isso, mãe? — Já disse, saia da minha presença! Saia... saia... saia... Isabel encaminhou-se para os lados da escada, com a alma mor- tificada. Subiu o primeiro degrau, ia subir o segundo... ninguém soube explicar se ela pisou em falso ou se desmaiou, o que seria mais compreensível. Desabou pesadamente de costas e ouviu-se o baque surdo de sua cabeça, de encontro ao chão... .253.
XXIV Transcorria umbroso aquele mês de julho, com alternativas de lufadas frescas e intermitentes, seguidas de chuviscos. Não se po- dia sair de casa sem agasalhos de lã, para ter de retirá-los mais tar- de, depois de certa atividade. Foi o que aconteceu a Cesar Ungaretti ao terminar a reconstituição de tecidos de operário vitimado por explosão de caldeira onde trabalhava e internado no pavilhão de queimados. Não que a operação demandasse grandes esforços, en- tretanto não vencia certa repugnância pela carne dilacerada, como se revivesse as cenas escondidas nas dobras do tempo, já passado, quando estava em campanha na África. Foi exsudando que se afastou da sala dos queimados, entran- do no compartimento destinado ao descanso dos médicos. Aproxi- mou-se da vidraça da janela, em muda contemplação dos arbustos da rua, com os galhos despidos de folhagem e batidos pelo vento gelado, associando seu desconforto íntimo com as agruras da pai- sagem hibernal. Estirou-se de costas no canapé que estava a um canto, passando a mão em um jornal amarfanhado ali esquecido. Virou displicente- mente algumas páginas, dando com as fotografias das festividades do casal Peçanha. Na maior parte, os convidados eram seus conhe- .255.
cidos e sentiu uma sensação desagradável ao deparar Isabel sor- ridente pelo braço de Marcelo. Ia atirar o matutino longe, quando deu com as crônicas de Salomão Oliveiros. Experimentou certo asco pelos elogios turibulários do jornalis- ta, convertido ao final em profunda tristeza ao ler a notícia do pró- ximo noivado de Isabel. O jornal escapou-lhe das mãos, escorregando para o chão. Que- dou-se imóvel a olhar para o teto, a mente estática e perturbada, completamente alheio a tudo. Tinha rompido com a jovem, era cer- to, havia motivos para ela encaminhar-se para Marcelo, contudo sentia agora um terrível desconforto na alma. Precisamente nesse instante entravam na sala dois colegas en- fiados em seus aventais brancos, um deles em estrepitosa garga- lhada. Eram Barjona e Moretti. Este parou de rir, dizendo ao outro: — Conta essa para o Cesar, que vai gostar. É realmente uma grande piada e ainda desconhecida. Barjona não se fez rogar; sentou-se na beira do canapé, dirigin- do-se ao colega: — Esta é novinha em folha e vale a pena. E desfiou a anedota com a verve e os naturais gestos de que era dotado. Moretti rebentou em nova risada, entretanto Cesar continuou de olhos fixos no teto, como se nada tivesse ouvido. Barjona retirou- -se desapontado, na companhia do outro, murmurando: —Não adianta, o homem está completamente desligado e não presta a menor atenção. À noite Cesar foi sacudido por enorme agitação. A notícia veio célere até ele. A primeira a saber foi Lúcia, tinha procurado a amiga .256.
e foi quando se inteirou estar Isabel inconsciente pelo choque rece- bido na queda e impossibilitada de receber qualquer pessoa. Havia um corre-corre na casa, chegada apressada do pai na companhia do Professor Pedreira, prognóstico desconhecido, causando profunda inquietação nos familiares. A nova foi imediatamente parar nos ou- vidos de Aldrovando, deste a Roberto Linhares, que em seguida a transmitiu a Cesar. Foi preciso aguardar o dia seguinte para obter melhores escla- recimentos. Ao comparecer ao Hospital Santa Catarina, Cesar en- controu fortuitamente o Professor Pedreira, que o colocou ao par da situação. O caso era realmente grave: a jovem batera o crânio, a região occipital, contra o soalho, achava-se ainda inconsciente e os re- f lexos eram de certa forma desanimadores. Não se notava ainda qualquer reação benfazeja, apesar das medicações de urgência aconselhadas. O pulso apenas sensível, o corpo bastante frio. O que o mestre deixou de contar ao discípulo, que muito estimava, foi a informação confidencial colhida na família acerca do estado emocional de Isabel. Efetivamente, Ifigênia fizera uma honesta e severa autocrítica, contando ao marido todos os pormenores ocorridos anteriormente à queda e este julgou de bom alvitre transmiti-los ao facultativo, de onde Pedreira concluiu achar-se a jovem assaltada por duas formas de abalo: uma, por comoção cerebral decorrente de suas apreensões sensoriais, e outra, pela concussão propriamente dita. De qualquer maneira, era de se esperar uma recuperação bastante demorada, prenhe de recaídas e de surpresas. Visitas ao quarto proibidas, per- mitida a presença de apenas uma pessoa ao lado da enferma, vi- .257.
giando seus menores ref lexos, ministrando os remédios prescritos, sem dirigir-lhe a palavra, sob quaisquer pretextos. ❧ Muitos dias transcorreram sem a paciente apresentar melho- ras positivas. Abria os olhos de quando em quando, entretanto eles dançavam dentro das órbitas sem se fixarem. Uma tarde Ifigênia não conteve um nó na garganta, ouvindo-a chamar, talvez pressentindo sua presença: — Mamãe... Debruçou-se sobre ela, com a voz embargada. — É mamãe, minha filha... — Ah!... Passaram-se dias antes de se pronunciarem os primeiros sinais animadores. A enferma principiou a tomar conhecimento do am- biente, abrindo os olhos e fixando-o nos ref lexos dos metais e pen- dentes de cristal do lustre no alto, iluminados pela leve claridade filtrada através da cortina. Volveu-os depois lentamente, pousan- do-os na tia à sua cabeceira. Esta falou-lhe quase ao ouvido, baixinho: — Deve estar estranhando o quarto, certamente. Tivemos de trazer-te para cá, para evitar o ruído da rua. A doente pareceu não tomar conhecimento de suas palavras, tornando a cair em leve modorra. ❧ .258.
Os progressos da cura foram se evidenciando lentamente, a se- guir. Isabel se recordava, mais tarde, do vagaroso retorno à cons- ciência e de algumas raras passagens no transcurso do restabele- cimento, como emergindo de interminável escuridão. Como num sonho, recordava-se vagamente das pessoas à sua cabeceira: o pai, a mãe, o médico a observá-la demoradamente. E tia Camila, Márcia, prima Henriqueta vinda diversas vezes de Campinas. Outras mais que sua memória lembrava debilmente. Destacavam-se como mais assíduas Camila e Márcia. Não podia esquecer a manhã em que tinha os olhos ainda cerra- dos e sentiu a irmã debruçando-se no leito para beijá-la, inundando sua face com uma torrente de lágrimas, que procurava enxugar com extremos cuidados. E da mãe beijando-lhe a fronte inúmeras vezes. Quando mais restabelecida, podendo conversar com os familia- res, ao despertar certa tarde notou Márcia a seu lado fixando-a de- moradamente e de modo particular. Tinha o semblante apreensivo, parecendo travar uma luta no íntimo. Tomou-lhe ela a mão entre as suas, murmurando: — Isabel, como está se sentindo? — Bem — respondeu com voz débil. — Ainda acredita em mim? Assentiu com um movimento de cabeça e Márcia continuou: — Não imagina como foram terríveis todos estes dias! Eu pen- sava continuamente em sua saúde, com receio de que não pudesse sobreviver. Sabe que esteve muito doente? Isabel fez que sim. — Foi então que compreendi o quanto te estimo e quanto você representa para mim — tinha a voz emocionada. Graças a Deus o .259.
susto vai passando e você se restabelecendo. Eu não podia me con- formar sem você... sabe que até nossas briguinhas fazem parte da nossa vida? Elas foram sempre passageiras e nunca abalaram nossa amizade. Esboçou um sorriso, depois tornou-se novamente grave. — Agora que você está consciente, preciso fazer uma confissão solene... única maneira de aliviar o coração... quero dizer que não há nada entre mim e Alceu, nunca houve nada entre nós dois, a não ser uma amizade... vamos dizer platônica. Isso eu juro pela felici- dade do pequeno ente que carrego no ventre. Não quero com esta declaração diminuir minha culpa, recebendo-o na casinha amare- la, mas você apareceu na hora precisa. Não sei se teria resistido a ele, mas a verdade é que nada aconteceu. Os olhos de Isabel se embaciaram, ao responder: — Obrigada, Márcia, você não imagina como essas palavras me fazem bem! Parece ter tirado um fardo pesado de cima de mim, deixando-me mais aliviada. Nem pode calcular o quanto sofri! — Espero que você possa, em ocasião oportuna, contar a verda- de ao Nazário. Não é justo que ele conserve essa desagradável im- pressão a meu respeito, como a de uma doidivana. — Nazário é um perfeito cavalheiro e saberá compreender. Es- tou certa de que, em qualquer circunstância, o que aconteceu nunca iria transpirar de nós três. Posso falar-lhe um dia, mas pode ficar tranquila a esse respeito. Nem é possível conceber-se a ideia de que você pudesse ser infiel a Renato. Não é ele um marido paciente e exemplar? — Boníssimo! Perfeito até demais! Bem gostaria que não fosse tão gentil, demasiado tolerante para comigo. Ainda que isso pos- .260.
sa parecer um contrassenso... acho que nossos maridos deviam contrariar-nos em muitas ocasiões. Fazendo valer o peso de sua autoridade. Isabel conservou-se absorta, ref letindo nas considerações da irmã. Elas faziam lembrar um conceito lido algures, de que o muji- que russo ou o felá egípcio somente respeitam a mão que empunha o látego. Isso poderia talvez explicar o motivo porque deixara de amar Marcelo, dotado de excelentes qualidades, afável, sempre de- licado e atencioso para com ela. ❧ O restabelecimento da enferma foi se acentuando paulatina- mente, propiciado por seu vigoroso organismo. Pedreira recomen- dou uma permanência prolongada, onde fosse possível encontrar absoluta serenidade, afastada de todo o contato social e do bulício da cidade, a fim de evitar qualquer contrariedade, bastante preju- dicial a seu comportamento psíquico. Conhecedor do abalo moral sofrido por ela, a menor emoção no presente estágio poderia pro- vocar uma recidiva. Recomendou Campos do Jordão ou outro sítio onde pudesse confinar-se na paz e no ar puro. Isabel preferiu a Fa- zenda Paraíso, que o médico aprovou. Ifigênia acompanhou-a, levando Catarina e Joana, tendo Rogé- rio aproveitado para permanecer duas semanas no gozo de mereci- do descanso, o que não lhe era dado fazer desde sua última viagem aos Estados Unidos. Ifigênia não pôde demorar-se ali muito tempo, por não ser per- mitida longa ausência da Associação Feminina de Assistência. Ca- .261.
mila veio substituí-la. Márcia compareceu diversas vezes, na com- panhia do marido. Lúcia Salviani não deixou igualmente de com- parecer para transmitir a notícia de seu noivado com Aldrovando Marques. — Estou tão contente — disse ela. Papai ofereceu-nos uma lon- ga estadia na Europa. Como sabe, ele possui uma vivenda no Norte da Itália e pensamos passar lá a nossa lua de mel. A presença da amiga veio reavivar na mente de Isabel sua curio- sidade acerca da atitude de Marcelo. Por sua ligação com Patrícia, Lúcia estava em condições de informar o que se passou com ele, de- pois do almoço campestre. Chegando a convencer-se do inevitável resfriamento da jovem, Marcelo abalou-se para a Europa, deixando o campo livre para ela. Mas ninguém tocou no nome de Cesar Ungaretti. Camila sentiu-se inesperadamente indisposta e necessitou re- gressar a São Paulo. Henriqueta prontificou-se a tomar seu lugar, permanecendo junto de Isabel enquanto durasse sua ausência, o que foi alegremente aceito pela jovem. .262.
XXV Quando o Dr. Enzo adquiriu a casa onde viveu o resto de sua vida, Olinda pediu para mandar fazer uma ampliação na parte dos fundos, acrescentando uma espaçosa varanda coberta, dando para o quintal onde ela cultivava toda sorte de plantas ornamentais. Viam-se ali guaimbés de várias espécies, gigantescas samam- baias rabo-de-galo, cujas ramas pendiam em profusão até o solo; antúrios magníficos, exibindo pistilos rubros como carmesim, tre- padeiras se enroscando pelos ferros de sustentação, avencas e ainda um sem número de folhagens menores, oferecendo à vista uma sen- sação de refrigério e grande encantamento. Apreciava regá-las, diariamente, dando brilho às folhas dos antúrios ou compondo os vasos, segundo sua predileção. Daque- le alpendre se descortinava o pomar meio escondido atrás da sebe divisória do quintal — ornada de azáleas de diversos tons — onde se viam árvores frutíferas, tendo ao centro enorme caquizeiro. Em torno de seu tronco, tosca mesinha e bancos de madeira resistiam galhardamente às intempéries. Debaixo desse caquizeiro Cesar passava horas esquecidas, na sua mocidade, estudando as lições do colégio ou lendo os livros prediletos. .263.
Olinda se integrou de tal forma a esse estilo de vida, que não se animou a aceitar convite do filho para se instalarem na Capital. Amava demasiado a sua companhia, entretanto não conseguia des- pregar-se da velha casa onde desfrutou a melhor parte de sua exis- tência e onde tencionava terminar o restante de seus dias. ❧ Achava-se uma tarde ocupada com suas plantas, quando Cesar chegou, trazendo o semblante sombrio, bem diferente do ar despre- ocupado e alegre com que costumava dirigir-se a ela. Percebeu seus passos em direção do pequeno escritório para ali deixar uma pasta com papéis. Somente então a procurou no alpendre. — Alô, mãe, cuidando de suas plantas? — Também elas precisam viver. Sem trato podem murchar, e elas encantam a nossa vida. — E como estão bonitas! — É uma ocupação para me distrair. Vi quando chegou e ainda não foi ver Genoveva, como costuma. Ela vai estranhar. — É verdade... Viu a empregada se aproximando e enlaçou-a. — Como vai, minha velha? — Perrengue, as pernas já estão bambeando, nhô Cesar, precisa trazer mais remédio daquele que me deu. — Vou trazer. — Nhô Cesar está com cara triste! — Muito trabalho, Genoveva. .264.
A empregada retirou-se depois de receber instruções para o jan- tar e Olinda depositou em um canto o pequeno regador que empu- nhava, dizendo: — Até Genoveva está reparando... — Pois é, estava com saudade sua, saudade desta casa sossega- da, saudade até do nosso pomar. — Pois então vamos lá, descansar e ouvir as novidades. — Bem lembrado, vamos até lá. Desceram, sentando-se à sombra do caquizeiro. Cesar não con- seguia dissimular a inquietação que o dominava e a mãe acompa- nhou seus gestos excitados, vendo-o sentar-se e levantar em segui- da. Acendeu um cigarro que atirou distante, mal aspirou a primeira baforada, dizendo: — Quantas recordações amenas deste recanto e que dias mara- vilhosos desfrutei aqui! — E agora, não está feliz? — Bem, para dizer a verdade, ando enfrentando sérios contra- tempos que me deixam apreensivo. Já contei o caso da pequena pa- ralítica do asilo e até agora não consigo conformar-me com a sua morte. Não posso acreditar no que sucedeu, eu não merecia esse resultado! — Mas não é o que mais te af lige neste momento. — Por que supõe? — As mães tem uma antena sensível que tudo recebe. Você tem o coração magoado, é inútil querer encobrir. Cesar levantou-se ainda uma vez, caminhando alguns passos, ref letindo e voltando a estacionar defronte da progenitora. .265.
— Refere-se a Isabel, não? Não sei bem se estou magoado ou com complexo de culpa, de qualquer maneira é bom que saiba que rompi definitivamente com ela. — Aí é que está o motivo da sua mágoa. — Fiquei ressentido com a mãe dela e achei melhor acabar com tudo. — Por que se sente culpado? — É que a tratei com muita rispidez, quando entendi de me desligar. Sabendo que agora está em perigo de vida, receio que te- nha uma parcela de culpa no que está acontecendo. — Isso não é uma razão convincente. Já disse que tem o coração magoado, ama essa moça e teme por sua vida; seja franco. Cesar encarou-a, demoradamente. — É possível, mãe, que aconselha? Olinda não deixou de experimentar interior melancolia ao pen- sar no capricho do destino, ao lembrar das vicissitudes que a afas- taram daquela gente, respondendo evasivamente: — Vamos superar. O tempo é um grande remédio para tudo. — Falei ontem com o Professor Pedreira e ele está bastante ani- mado a respeito do estado de Isabel. — Parece que vai reagindo bem. Henriqueta tem-me trazido notícias. Hoje embarcou novamente para São Paulo. — Não deixe de perguntar a ela, quando voltar. ❧ No dia seguinte Cesar resolveu caminhar pelas ruas do bairro. Sentia necessidade de movimento e se pôs a perambular pelas ime- .266.
diações de sua casa, no Cambuí. Tendo permanecido ausente longo tempo, muitos meninos e crianças, do seu tempo, tornavam-se ago- ra adultos. Alguns lhe eram completamente desconhecidos, poucos o reconheceram. Ao dobrar uma esquina avistou um ancião caminhando lenta- mente em sentido contrário. Era o velho Cândido Lima, quase cen- tenário. Não obstante as preocupações que o assaltavam, não dei- xou de sorrir ao lembrar o dito caipira de que “ao atingir os oitenta anos começamos a chutar sabugos”, ao caminhar arrastando os pés. Ia passar direto, pensando que não o reconhecesse, mas ele parou à sua frente, fixando-o com as pupilas orladas por um círculo esbran- quiçado, perguntando: — Não é o filho do Enzo? — Sou sim, seu Cândido. — Fale mais alto. — Sou o filho do Dr. Enzo e fico admirado de como tem boa vista e boa memória, o que não é comum na sua idade. — Estou velho, mas ainda tenho saúde. — Estou vendo, mas não aconselho a andar sozinho pela rua, com este trânsito de automóveis. Em sua idade é perigoso. — Pois fique sabendo que ainda tenho as pernas firmes. Dou uma voltinha quando posso para desenferrujar. Não gosto de ficar parado o dia inteiro. Como vai Olinda? Dê minhas lembranças e até mais ver. Lá se foi ele arrastando as pernas trôpegas e a bronquite crô- nica. Cesar contemplou sua caminhada durante algum tempo, re- f letindo na grande quantidade de idosos existentes em Campinas, muitos deles percorrendo as ruas desacompanhados. Acudiu-lhe à mente o velho Camargo, Gerin, Ferraz e tantos outros, que costu- .267.
mavam sentar-se nos bancos do jardim, tomando sol e relembrando os tempos distantes da mocidade. ❧ Continuou o passeio, retornando a suas elucubrações senti- mentais, indo parar instintivamente defronte o Tênis Clube. Por que tomara aquela direção e por que fora até esse lugar? Quando se deu conta, estava junto da quadra onde anos passados tentara socorrer uma adolescente que caíra ao rebater uma pelota, contundindo-se na queda. Ali estava como um autômato, relem- brando nitidamente, como se tivessem acontecido na véspera as pe- ripécias daquela manhã, quando se achavam em sua companhia o amigo Roberto Linhares e o boêmio Dudu. Bauer já não trabalhava mais ali. O antigo gerente e instrutor de tênis fora substituído pelo risonho e gordo Pedrinho, cujo ventre volumoso sobrava por cima do cós da calça. Vendo o visitante, acercou-se dele. — Ora viva, o doutor! Há muito tempo não aparece por aqui, anda agora se vendendo tão caro! — Falta de tempo, Pedrinho. Bem gostaria de vir sempre aqui, refazer as velhas amizades. Seguiram conversando e caminhando para os lados da sede. Ali chegando, Cesar sentiu uma mão bater-lhe às costas, de alguém surgido não sabia de onde e cuja voz era bem conhecida. — Ora, vejam quem! Que milagre! Era Dudu, o boêmio. O médico não o via há bom tempo e condoeu-se do seu estado decadente. Tinha as pálpebras empa- .268.
puçadas e os olhos ligeiramente injetados, denotando as mazelas do fígado. — Os vivos sempre aparecem — respondeu. Dudu não escondeu sua euforia. — Precisamos comemorar este encontro, meu velho; não é sem- pre que tenho a sorte de te encontrar. Você anda sumido de Campi- nas, parece que não gosta mais desta cidade, e vamos dizer franca- mente... isto aqui está se tornando uma verdadeira droga! — Já sei porque esse desabafo: os seus amigos estão desertando. — É isso mesmo, vamos virar uma “loura”? Dirigiram-se a uma mesinha, onde tomaram acento. Dudu fez sinal a Pedrinho, encomendando uma cerveja e dois sanduíches, não esquecendo de lembrar que seriam “dois daqueles, bem refor- çados”. — Não quero sanduíche — avisou o médico. — Não faz mal, como os dois — avisou o boêmio. Enquanto mastigava, Dudu ia colocando o amigo ao corrente das novidades da terra. Os assuntos mais discutidos eram os re- centes investimentos de capitais estrangeiros, criando uma série de novas indústrias nos arredores. Pouco amigo de falar em política, Dudu sintetizou suas observações, exclamando: — Os americanos estão chegando... — Isso é bom, prova que têm confiança em nosso país. — Mas vão tomando conta de tudo. — Isso é natural. Então Campinas não está ficando a droga de que falou ainda há pouco — disse Cesar. — Não para você, mas para mim está! Campinas está virando cidade industrial, estão desaparecendo aquelas rodinhas boêmias .269.
em que ficávamos a tarde inteira conversando e deixando passar o tempo. O dólar está começando a inf luenciar na vida da terra, não se encontra mais uma casa decente para morar... — Você não precisa de casa, e não esqueça que a indústria traz progresso. Outro assunto muito discutido na cidade, além da doença de Isabel, era a deslumbrante festa das bodas de prata do casal Peça- nha. Muitas famílias de Campinas tinham recebido convites para as festividades, muito selecionadas entre as de maior projeção, entretanto deixou em muitas certo ressentimento, por terem sido olvidadas. O boêmio não se conformava em não terem se lembrado dele, deixando extravasar sua queixa. — Não tenho nenhuma raiva do Rogério — dizia ele — por- que sei que não poderia partir dele essa descortesia. Deve ter sido tudo obra das mulheres da casa, todas criaturas cheias de nobreza, aquelas baronesas fedidas e... Não prosseguiu, ante a violenta reação do médico, interrom- pendo-o com forte murro em cima da mesa. — Cale essa boca imunda! Aturdido pela aspereza da admoestação, o boêmio encolheu-se humilde em sua cadeira e foi com voz lastimosa que respondeu: —É pena, Cesar! Nada como um bom palavrão para aliviar a alma da gente quando ela está ferida! E você não vai me dizer que todas elas são umas santinhas... Cesar levantou-se sem dizer palavra e retirou-se. .270.
XXVI Isabel lia um romance enrodilhada na poltrona de vime, colo- cada no terraço da Fazenda Paraíso. Absorvida na leitura do livro, percebeu a prima Henriqueta assomar à soleira da porta, dizendo: — Vou até a casa da dona Rosa do Aparício, levar um remédio para a netinha dela que está com febre. Quer me acompanhar? — Certamente — respondeu marcando a página do livro e pon- do-se de pé. Um passeio faz bem, sinto necessidade de movimento, isto me leva a pensar que estou ficando novamente em forma. Saía para grandes caminhadas em sua companhia, até os limi- tes da herdade, respirando o ar puro do campo. Muitas ocasiões descia para apreciar a mungidura das vacas no curral ou então se dirigia às plantações. A manhã despontara sem nuvens, diáfana e a temperatura amena convidava ao exercício. Após alguns dias de chuvas esparsas a vegetação se apresentava exuberante de seiva, numa eclosão ma- ravilhosa de primavera, fazendo desabrochar as f lores por todos os cantos, enchendo as narinas do cheiro agreste da terra e das matas, que tanto encantavam a jovem convalescente. À Isabel parecia extraordinária essa fase da sua recuperação, em que seus sentidos se mostravam mais apurados para receber .271.
as manifestações exteriores. Uma f lor balouçando em sua haste, o cheiro do curral das vacas e dos próprios estábulos, a brisa agi- tando as copas das árvores, o azul do céu, o marulho do regato, o pio das aves canoras, tudo, tudo se revestia para ela de um encanto particular. Jamais experimentara anteriormente esta sensibilidade, trazendo-lhe agora profunda sensação de paz, talvez o ref lexo da tranquilidade interior a desfrutar. Foram as duas mulheres seguindo pela alameda ensombrada, parando de quando em quando, trocando impressões sobre a vida das velhas famílias campineiras, remanescentes dos clãs que diri- giam a vida política do Estado aos fins do século dezenove, algumas delas arruinadas e vivendo de reminiscências de remotas eras, en- casteladas em rígidos preconceitos, as quais pertenciam os ante- passados de Isabel. É conhecido o proverbial orgulho das antigas castas de Cam- pinas, ao tempo em que essa cidade disputava a primazia com a Capital. — Meus pais pertenciam à classe média — explicava Henrique- ta. Minha mãe fez um casamento modesto, o mesmo não aconteceu com a irmã Clotilde, sua avó, que casou com o Senador Agostinho Braga. Ela demonstrou sempre elevadas aspirações, conseguindo entrar em uma das mais destacadas famílias da cidade. Como se deu bem dentro dessa família! Educou as filhas nos mais rígidos moldes da época, enviando-as a colégios europeus. Vivendo a maior parte do tempo ausente da terra, suas relações eram muito resumi- das. Com a morte dos pais, Figê e Camila, que tinham perdido boa parte da fortuna, mais e mais se encastelaram, mantendo limitadas relações de amizade. .272.
— É verdade, sei que viviam muito isoladas. A propósito, por que não se davam com os Ungaretti? — É outra história, deviam ter motivos de ordem pessoal e gos- taria de não entrar em pormenores. Sua mãe poderia ficar ressenti- da comigo, se viesse a saber. Isabel estava determinada a aprofundar o assunto. — Mamãe contou que a mãe de Cesar já teria sido nossa empre- gada... — Não seria precisamente assim. O pai de Olinda é que traba- lhava para o Senador, homem de sua inteira confiança. Entendia de tudo, pau para toda a obra. Sua mulher costurava para ajudar. Por esse tempo, Olinda era ainda menina, muito natural que fosse utili- zada em pequenos serviços. Com o correr dos anos foi trabalhar no consultório do Dr. Enzo, acabando por unir-se a ele. De acordo com os preconceitos da época, Figê e Camila se afastaram dela. — Não levaram vida digna? — Levaram vida normal, excelente! Poucos casais terão sido mais felizes. Para isso muito contribuiu o caráter tranquilo e pa- ciente do médico italiano e também o temperamento compreensivo de Olinda. Parece que sua mãe sentia constrangimento em manter amizade com ela, devido a situação anormal do casal, mas posso afirmar que o Dr. Enzo não descansou enquanto não conseguiu re- gularizar seu casamento com ela. Sei disso perfeitamente, porque foi meu marido quem cuidou desse problema. Dava a impressão de que ele esperava por isso para morrer. — Fale mais sobre ela. Vocês são amigas, não são? — Sim, somos velhas amigas e a estimo muitíssimo. É uma criatura boníssima, incapaz de uma maldade. Convivo com ela há .273.
muito tempo e nunca ouvi de sua boca qualquer queixa ou referên- cia maldosa. Nunca fez comentário algum sobre Figê e Camila. — E seu nível de cultura? — Apesar das dificuldades com que lutavam, os pais a fizeram estudar até terminar o ginásio. Olinda é uma criatura curiosa e in- teligente, lê bastante, tem um alto nível de cultura e pode discorrer sobre qualquer assunto. É uma dessas pessoas que a gente ouviria o dia inteiro sem cansar. Tem fala sossegada, sua voz possui um timbre agradável e harmônico de se escutar. Isabel passou a ref letir ser uma das coisas que apreciava em Ce- sar. Então tinha herdado da mãe aquela voz cheia de autoridade que tanto a encantava. Interrompeu os passos momentaneamente e se dirigiu à com- panheira: — Tenho vontade de a conhecer. Cesar fala dela com tanto carinho e você acaba de reforçar tudo o que ele diz. Que pensa de a procurar? — Não sei se deva te levar lá, é bem possível que sua mãe não desse aprovação. — Eu não disse para você me acompanhar. Tenho vontade de ir lá sozinha. Henriqueta olhou para ela, surpreendida. Sabia ser Isabel uma jovem decidida e determinada mas estava longe de supor fosse ca- paz de uma tal iniciativa. Avaliou intimamente a perspectiva desse encontro e o quanto ele poderia representar para a saúde de Isabel, no caso de malogro. Objetou: — Não deixa de ser uma ideia interessante, não há dúvida, mas acho melhor cercar essa visita de algumas precauções. Poderia en- tender-se previamente com Olinda, telefonando... .274.
— Não sei se deva, Henriqueta. Esse assunto me diz respeito particularmente e gostaria de resolvê-lo à minha moda. Já lutei bas- tante com minha mãe para tirá-lo de suas mãos e estou decidida a ir adiante. Tenho experimentado uma série de desilusões nos últi- mos tempos, estou hoje mais esclarecida, com a impressão de que meu restabelecimento está me enchendo de novas energias. Cesar foi duramente atingido em seus brios, hoje compreendo seu afasta- mento e creio meu dever desfazer o equívoco. Como amiga da mãe dele, sabe como foi o seu comportamento diante da minha doença? Henriqueta procurou ser cautelosa. — Cesar procurava constantemente acompanhar sua enfermi- dade, a julgar pelos telefonemas que recebi de Olinda, sempre que o filho retornava de São Paulo. A moça respondeu, num impulso eufórico: — Você acaba de me dar a maior alegria que poderia desejar! Agora, mais do que nunca, estou decidida a dar esse passo e exijo que não previna ninguém desta minha resolução e olhe lá! Não vá me trair! ❧ Sentada à mesa da copa, Olinda se ocupava em quebrar nozes, que ia colocando na vasilha ao lado, enquanto seu pensamento va- gava pelos tempos passados, recordando o marido morto a confor- tá-la em vida com sua presença. Pensou no filho, ultimamente taci- turno e pouco expansivo. Cesar herdara o temperamento paterno, via-o apreensivo e sem ânimo de com ela compartilhar seus proble- mas sentimentais, já que não tinha o remédio benfazejo. .275.
Entretida nesse devaneio, ouviu soar a campainha, recomen- dando à empregada: — Veja quem é, Genoveva. Se for o tintureiro com a roupa do Cesar, o dinheiro está em cima da cômoda. A velha preta retornou daí a pouco, parando na soleira da porta, sorrindo misteriosa, deixando ver os alvos dentes da dentadura so- bressaírem dentro dos lábios vermelhos e da pele reluzente. — Não é o tintureiro não, dona Olinda. É uma moça linda, bo- nita mesmo! Tem uns olhos e uns cabelos de se ver! Não obstante a serenidade que nunca a abandonava, a mãe de Cesar deixou-se tomar de certa excitação interior, olhando curiosa para a empregada. — Não disse quem é? — Não senhora. Disse boa tarde, perguntou se eu chamava Ge- noveva e me deu a mão, o amorzinho. Então eu mandei ela sentar... está esperando na sala. Olinda levantou-se, intrigada. Procurou aliviar a roupa dos fragmentos de nozes que a ela tinham aderido, ajeitou os cabelos e dirigiu-se à sala de visitas. Surpreendida, Olinda viu a sobrevinda pôr-se de pé, encami- nhando-se ao seu encontro e estendendo-lhe a mão. — Boa tarde... naturalmente não me reconhece... — Como não? Conserva ainda os mesmos traços de quando era pequena — respondeu Olinda, levemente embaraçada. Houve um instante de silêncio, quebrado pela jovem. — Deve estar estranhando a minha presença, não é assim? Es- tou passando uma temporada na Fazenda Paraíso e prima Henri- queta prestou-se a fazer-me companhia, enquanto meus pais e mi- .276.
nha tia tiverem de ir a São Paulo por alguns dias. Estou convales- cendo e não queria regressar sem primeiro fazer esta visita... não sei como poderá apreciar... — Todas as pessoas que procuram minha casa são bem-vin- das e merecem boa acolhida. Pode crer que sua visita me enche de satisfação. — Agradeço e conto com a sua benevolência. Há três meses procuro recuperar-me de imprevista enfermidade e aproveitei todo esse tempo para ref letir bastante na conveniência de vir aqui... ti- nha desejo de desfazer certos mal-entendidos... desculpe se não sei me explicar bem... não calcula como foi difícil esta minha decisão... — Vossos pais sabem? Isabel tentou contornar: — Papai nunca desaprovou minhas atitudes e, quanto a minha mãe, ela mudou muito depois da minha doença, tornando-se bas- tante compreensiva. Além do mais, este assunto me diz respeito e entendo que somente eu poderei resolver. Acha que não devia vir sem primeiro consultar meus pais? — Tenho receio de que não aprovem, embora não queira fazer julgamento antecipado, tanto mais que parece ter sido movida por um impulso do coração. Meu pensamento é não aumentar dificul- dades. — A senhora diz bem: estou sendo impulsionada por uma força do coração, a que não posso resistir. Enquanto conversavam, era inegável uma avaliação recíproca. Olinda agradou-se ao constatar a firme determinação demonstrada pela moça e esta não se achava menos encantada. Era evidente esta- belecer-se uma mútua corrente de simpatia entre elas, diligenciando .277.
as duas mulheres encontrarem pontos de comum entendimento. Readquirido completo autodomínio, a mãe de Cesar fitou a jo- vem, dizendo: — Quando agimos por essa forma, tudo se justifica. O curioso é que, quando minha empregada descreveu a sua pessoa, tive ime- diatamente a intuição de quem se tratava... — Ah, sim? Como explica? — Nós, mães, temos uma espécie de premonição, quando se trata de nossos filhos. Se quisesse explicar, não saberia dizer, mas pensei naturalmente que tudo isto poderia acontecer. Não obstante seu tom amável, Isabel sentia-se ainda um tanto inibida, como uma colegial diante da banca examinadora. — A senhora deve compreender o meu embaraço... eu tenho tanta coisa para dizer... o mais engraçado é que quando estava con- valescendo pensei em muitas palavras apropriadas e interessantes e agora me sinto constrangida, com receio de ser mal interpretada. Desculpe se eu não falar direito o que sinto... Olinda tentou ajudá-la. — Esteja à vontade, minha filha. Está em casa de amigos e pode se manifestar sem receio. Viu os olhos da moça lacrimejarem, ao responder: — Chamou-me de filha... — Cuidado! Não deve comover-se. — Como sabe? — Acompanhamos a fase da doença, bastante preocupados e sabemos que qualquer comoção pode ser prejudicial. — Falou no plural, Cesar também? — Meu filho não é de muita conversa, pouco se manifesta, mas .278.
era visível a sua preocupação. Pediu-me algumas vezes telefonar à Henriqueta para saber notícias suas, durante todo o andamento da enfermidade, quando não era ele mesmo quem trazia de São Paulo as mais recentes informações. — Não imagina como isso me alegra! Chamou-me há pouco de filha... isso não me daria o direito de chamá-la de mãe? Oh! Como eu adoraria. Foi a vez de Olinda enternecer-se e não fez o menor esforço para ocultá-lo. Isabel avançou para ela, beijando-a na face. — Mãe... espero que nos ajude... penso que podemos reco- meçar... — Sim, creio que sim. — Falou-me de espécie de premonição... será que ela indica uma próxima chegada de Cesar? — Mas isso deixa de ser premonição para ser uma certeza. Eu estava começando a preparar um bolo de nozes que ele muito apre- cia, quando você apareceu. Deverá chegar nesta noite. — Bolo de nozes? Também eu adoro bolo de nozes e não sei como se faz. Quer deixar-me ajudar, para aprender? — É muito fácil. Venha aqui dentro e vai ver como se prepara. ❧ Dirigiram-se ao interior da casa, ali permanecendo largo tempo em agradável conversa, enquanto completavam o manjar. Isabel abraçou Genoveva, que se abriu em largo sorriso. — A senhora é uma moça muito boa... Lembrou-se de telefonar à Henriqueta, seguramente ela estaria .279.
ardendo em curiosidade para conhecer o resultado daquela visita. A moça enlaçou a mãe de Cesar pela cintura, conduzindo-a até o aparelho. — Henriqueta? Sou eu... como fui?... po-si-ti-vo! Estou suma- mente encantada! Mamãe Olinda é tudo aquilo que você disse e ainda muito mais, que não teve tempo de contar!... Sim, direi! Nem precisa olhar o rosto dela para dizer que igualmente te envia um abraço... Sim, está aqui a meu lado. Não se preocupe comigo, vou ficar para o jantar e depois combinaremos a volta. Até logo... Sim, vou chamar. — Voltou-se para Olinda. — Ela quer lhe dizer bom dia. A mãe de Cesar tomou o fone, comovida, mal pôde articular: — Obrigada, Henriqueta... Olinda conduziu-a depois a conhecer as dependências da casa, demorando-se algum tempo no escritório. Diante do retrato do médico italiano, ao lado da esposa, Isabel comentou: — Recordo-me perfeitamente dele e até parece que o estou ven- do. Encontrava-o na cidade de vez em quando. Estive uma vez em seu consultório, com papai. O retrato dele está fiel. Demorou-se em frente à fotografia de Pierina, analisando deti- damente sus feições. Olinda comentou: — Não era bonita, tinha um rosto comprido e anguloso, entre- tanto os olhos são muito expressivos. Cesar não se cansava de elogiar as virtudes e a extraordinária coragem dessa moça, que sacrificou a vida para salvar as de seus compatriotas... e dizer que cheguei a sentir uma pontinha de ciúmes dessa mulher formidável... que vergonha! Passaram pelo alpendre, desceram até o pomar, ali ficaram es- .280.
quecidas das horas. Genoveva serviu-lhes breve lanche debaixo do caquizeiro, enquanto Isabel ouvia os comentários de Olinda sobre a vida de Cesar. Ao entardecer retornaram à sala de jantar a fim de preparar a mesa. Olinda desengavetou a velha toalha veneziana dos grandes dias, sempre bela. Retirou do móvel a fina louça de porcelana de Ginori, trazida da Itália, os cristais de Baccarat comprados na França, que Isabel e Genoveva iam dispondo com arte sobre a mesa. Encomen- dados a tempo, apareceram viçosos gladíolos para completar os ar- ranjos e um champanhe foi colocado na geladeira. Isabel não se cansava de admirar a linda toalha conservando ainda o primitivo viço, alisando-a carinhosamente, enquanto Olin- da explicava: — Essa toalha é a história da nossa vida e nos traz felizes re- cordações. Toda vez que a usamos, não me canso de a olhar, relem- brando os acontecimentos passados, porque ela marcou todas as fases mais interessantes da vida de Cesar, servindo nas datas co- memorativas de seus feitos, na última vez quando terminou o seu curso médico. Para mim ela representa um símbolo. — Ah, mãe! Acho que vou roubá-la... — Estou muito contente em saber que gostou dela e saber que vão conservá-la — respondeu Olinda, enternecida. .281.
XXVII Ao cair da noite ecoou na casa o ruído do motor do automóvel, anunciando a chegada do jovem médico. Isabel correu esconder-se na saleta, como previamente combinado. Ao penetrar na sala de jantar, Cesar estacou intrigado, notando aqueles arranjos inesperados. Quando a mãe apareceu olhou para ela, sem compreender, não conseguiu reprimir a curiosidade. — Afinal de contas, a senhora minha mãe quer fazer o favor de explicar o que representa isto? — Pois não, senhor doutor, isto simplesmente quer dizer que temos hóspede de cerimônia para jantar. — O senhor bispo diocesano, por acaso? — O senhor bispo, não senhor. — O senhor prefeito municipal? — Também não é o senhor prefeito. — Então quem é? — Jamais poderia imaginar quem seja! — Mãe, você me deixa maluco com esse mistério. Gente de ce- rimônia não pode ser, porque então não estaria com essa cara feliz, porque sei que gente de cerimônia sempre traz preocupações. Por favor, diga logo de quem se trata, quem está esperando para o jantar. .283.
Olinda não mais conseguiu reprimir o ar brejeiro que vinha mantendo até então, respondendo: — É alguém que você muito estima e que te espera lá no escri- tório. Vá ver quem é. Cesar precipitou-se na saleta, sem sopitar a intensa curiosidade que o dominava. Não era comum semelhante atitude em sua mãe, pressentindo no íntimo que algo interessante estava para acontecer. Nunca, entretanto, poderia supor o quer iria encontrar. Ao abrir a porta estacou paralisado, quase sem acreditar. De pé, recostada na escrivaninha, Isabel aguardava-o sorrindo, com os olhos cheios de lágrimas a deslizarem pela face, no auge da maior felicidade, o queixo a tremer de emoção pelo encontro. — Isabel... Caíram nos braços um do outro, estreitando-se e beijando-se pela primeira vez, mudos de contentamento. Depois de incontáveis efusões de alegria, Cesar prendeu a cabeça de Isabel entre as mãos, exclamando ao mesmo tempo em que a fitava dentro dos olhos: — Como custaram passar estes últimos meses, meu anjo! Que agonia, sabendo que você sofria! Ao que ela respondeu, quase em um sussurro: — Interessante que para mim mais se parece uma ressureição! Se não tivessem acontecido todas estas coisas, penso que não tería- mos chegado a este momento tão belo! — Maravilhoso! — Desde o nosso primeiro encontro em Campinas — você lem- bra — uma força irresistível nos aproximava. Por muito tempo não consegui apagar do pensamento a cara ressentida que você tinha naquele instante. Quando nos encontramos novamente, aquela cena se reavivou com mais intensidade em meu íntimo. .284.
— Aconteceu a mesma coisa comigo. — Mais tarde, em nossos encontros, você se mostrava um tanto prevenido em minha presença, parecia guardar ainda uma atitude discreta... não imagina como isso me fazia sofrer! Um dia me lem- brei de meu tio Frei Bibiano e fui me confessar... — Que é que confessou? Isabel aproximou novamente os lábios, beijando-o: — Que te amava, meu bem, e contei a ele que te achava muito esquisito, ele me deu bons conselhos, que esperasse, que a Virgem haveria de me proteger. Cesar intercalou: — Prometo penitenciar-me pelo restante de minha vida, pela tolice de não ter-te compreendido. — Quando em minha casa tentavam levar-me a outros com- promissos, eu resistia instintivamente, esperando que algum acontecimento extraordinário pudesse produzir-se e realmente acaba de acontecer. De agora em diante não mais haverá forças capazes de nos separar, prometo. Estará sempre ao seu lado a ga- tinha boba e selvagem do Tênis Clube... terá de aturar-me para o resto da vida... — Por favor, Isabel, por amor a nossa felicidade, esqueça isso. — Por mais que tente, não será possível esquecer a cena do Tênis Clube. Ela marcou uma fase importante da nossa vida. Para mim, aquela cena foi o primeiro elo da corrente maravilhosa que acaba de prender-nos e é a responsável pelo nosso destino... não está de acordo? — Sim, meu amor, como posso discordar de você, se no fundo penso que está com inteira razão? .285.
Tapou sua boca com novo e fervoroso beijo, dizendo em seguida: — Que dia formidável! Nunca poderia esperar dia melhor! Pen- so que neste momento nossa felicidade está completa! — Cesar, ainda está faltando uma coisa. — Que coisa? Isabel fez sinal que esperasse, deixou-o por um instante e foi à procura de Olinda, trazendo-a enlaçada pela cintura. — Este é o complemento que faltava para completar nossa feli- cidade. — FIM — .286.
pão ou pães, é questão de opiniães... JOÃO GUIMARÃES ROSA Este livro foi composto em Alegreya, no verão de 2021. Impresso em papel pólen soft 80 g/m2. São Paulo. Tiragem: 50 exemplares.
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