Alisson Dias Gomes COMO SER FELIZ? Não importa que você vá devagar, contanto que você não pare. Confúcio Não existe resposta única para esta indagação! E, sim, diversas! A depender de cada pessoa, momento, contexto e conjunto de valores e princípios. Seja você e encare seus sentimentos com honestidade. Tente não ter medo de ser/estar feliz ou triste. Viva! Possivelmente, ambos sentimentos virão (ou já vieram). Um dá lugar ao outro, volta e meia. São sensações e emoções comuns da vida humana. Nem sempre são fáceis de lidar! Aliás, parece que a dualidade felicidade/tristeza tem sido mais comum no atual momento. Parece que a montanha-rus- sa da vida, com seus altos e baixos, está constantemente ligada, ativada de modo ininterrupto, nos chamando a aventuras constantes. Parece que estamos mais sensí- veis, observadores e abertos a mergulhar em nós mes- mos ou no entorno no qual vivemos, aceitando convites ou caindo em armadilhas. Ao longo das últimas semanas, em conversas com muitos amigos, por meio de ligações e videochamadas, temos falado frequentemente sobre felicidade e tris- teza, hoje e amanhã, erros e acertos, você e eu, o in- terior e o exterior. Sem romantizar ou idealizar, muito 101
Estações da Vida pelo contrário, temos nos desnudado muitas vezes de modo espontâneo, natural e inédito. Julgamentos es- tão descartados ou reduzidos a menor escala possível! E tributamos a nova prática ao momento favorecedor de conversas mais espaçadas e honestas, sem filtros ou tantas amarras. Creditamos muito ao fato de estarmos em nossas redomas de cristal: lares e mundos paralelos, com rotinas alteradas e novos hábitos, descobrindo no- vos nós. O pensar, o sentir, o encarar e o expor estão se tornando necessidades primárias em razão de tudo que vivemos. São incertezas, inquietações e mudanças nos mostrando como somos barcos à mercê dos ventos. Aliás, as incertezas sempre existiram ali e aqui, porém por diversas vezes nutrimos a falsa impressão de que controlávamos tudo (ou, pelo menos, alguma coisa). Ledo engano! Embora sejamos seres privilegiados pela inteligência e algumas competências e habilidades típi- cas da espécie humana, somos tão vulneráveis e apren- dizes como outras espécies. Retomando a pergunta titular, eu diria que em tem- pos normais alguns hábitos podem proporcionar mo- mentos felizes: sentir-se presente, saborear experiências da vida, ser gentil, praticar atividades físicas, ter boas noites de sono, mentalidade positiva, manter conexões sociais, meditar e ser grato. Acredito que os praticantes das atividades anterio- res possuem tendência maior a serem mais felizes que a média, segundo pregam alguns cientistas, psicólogos, 102
Alisson Dias Gomes filósofos e autores, como Mário Sergio Cortella, Leandro Karnal e Luiz Felipe Pondé no livro “Felicidade: modos de usar”. Ademais, é muito importante ter em mente que não basta saber o que fazer. É preciso ir além e aprender a fazer, para desenvolver novo(s) hábito(s), sendo preci- so cerca de 21 dias de repetição para a devida incorpo- ração na rotina, segundo evidencia a Ciência. Diante de tudo isso, em tempos de pandemia da covid-19 e como forma de investimento em autoconhe- cimento, a título de sugestão recomendo o curso on-li- ne “The Science of Well-Being” (A Ciência do Bem-Estar, em tradução livre), oferecido pela Universidade de Yale, Estados Unidos. Conduzido pela professora de Psico- logia Laurie Santos, com aulas gratuitas na plataforma Coursera, (https://www.coursera.org/learn/the-science- -of-well-being), o curso tem feito a diferença na vida de muitas pessoas e já atraiu mais de dois milhões de participantes ao redor do mundo. A iniciativa surgiu em 2017, de modo presencial, e migrou para a internet em 2018 devido ao grande sucesso. Na sua concepção, a grande meta do curso é capacitar o espectador a entender, com base em evi- dências científicas, de onde vem sua infelicidade e lhe dar ferramentas para reverter o cenário. Quem sabe a quarentena não seja um bom momento para a busca de respostas para questões cruciais da nossa vida? Pense nisso e permita-se, se for o seu caso! 103
Estações da Vida ESTAMOS QUASE SEMPRE À ESPERA Ajusto-me a mim, não ao mundo. Anaïs Nin É impressionante, mas a maioria de nós vive ou está quase sempre à espera. Seja de algo material ou de uma resposta incentivadora; seja do momento ideal ou das condições propícias para mudanças e (res)significa- ções ou de conquistas que nos permitam passos firmes e posturas consolidadas. De modo similar, isso se repe- te quando transferimos aos outros nossas expectativas, desejos e motivações, quase como se fossem um elixir para carências, faltas e ausências pessoais e intransferí- veis. É impossível ter respostas apropriadas, pois o cami- nho se inverte quando seguimos dentro desta lógica. Na verdade, ao nosso entender, o ideal é partir de dentro para fora. Muitas vezes somos educados para o amanhã na falsa ilusão de que devemos viver, fazer ou dizer certas coisas somente em momentos ideais. Contudo, eles não existem pelo simples fato de que não temos controle sobre o tempo e a existência. É claro que podemos (e devemos) agir de modo cauteloso e responsável, entre- tanto, jamais estaremos convictos do amanhã e do de- pois. Por isso, conclamamos a todos a viver sem esperas duradoras e longe de rompantes de loucura, passionali- 104
Alisson Dias Gomes dade excessiva e irresponsabilidade cega. Isso porque o hoje é o tempo real. No 25 de dezembro, data simbólica adotada pela Igreja Católica por volta do Século IV para celebrar o nascimento de Jesus Cristo, somos convidados a renas- cer num viés de autoconhecimento, de renovação de crenças e de mergulho em valores individuais e sociais. Cada um no seu ritmo e tempo, da sua forma, dentro da perspectiva que julgar mais conveniente, é convidado a pensar e, se concordar, modificar um pouco a ideia de viver à espera. O mesmo ocorre agora no 1 de janeiro de 2021 quando somos chamados a emanar energia positi- va de recomeço para nós e o mundo, numa corrente de boas vibrações. Há dois anos, o Papa Francisco sabiamente adver- tiu: “Não devemos viver de esperas, que talvez não se realizem, mas devemos viver na espera, ou seja, desejar o Senhor que sempre traz novidade. É importante saber esperar, e esperar sempre ativos no amor”. Em outras palavras, a nossa espera pode (e deve – permitamo-nos o termo taxativo) ser ativa, otimista e renovadora. Sem imediatismos, práticas cegas e irresponsáveis, comportamentos aéticos e desprovidos de valores de solidariedade e fraternidade que possamos nos permitir cada vez mais dizer, fazer e demonstrar, por palavras e atitudes, que estamos comprometidos com os nossos desejos, sonhos e metas de uma vida plena e efetiva. Isto é, por mais sereno e seguro que o dia de hoje possa ser, o amanhã é imprevisível, restando a nós não viver 105
Estações da Vida sob estado de alerta e tensão, mas reconhecendo que a vida deve ser vivida com intensidade, pois como tem se tornando senso comum repleto de sabedoria hoje sem- pre será o dia mais importante das nossas vidas, pois o ontem já faz parte do nosso passado/história e o ama- nhã é incerto! 106
Alisson Dias Gomes MENTE E CORAÇÃO POR CAMINHOS DIFERENTES Yo no viajo por llegar. Viajo por ir. Eduardo Galeano Há dias em que a mente e o coração saem por aí, escolhendo caminhos diferentes com uma independên- cia e autonomia que parecem não habitar o mesmo ser. Falta diálogo! Falta aviso prévio! Falta o reconhecimento da boa convivência! Talvez, o que reste seja a necessi- dade de cada um se salvar/safar, por si próprio, e fazer valer sua vontade diante do outro naquela ocasião es- pecífica. Deixa-se de lado o equilíbrio para que juntos sigam comandando os passos daquela vida ou, ao me- nos, a retomada das rédeas da situação após discordân- cias, instabilidades e turbulências. Muitas vezes, a compreensão minimamente amis- tosa entre eles dá lugar a conflitos que podem variar de leves e moderados a complexos e perturbadores. E cada um usará as ferramentas necessárias para se preservar. As respostas não são exatamente para eliminar o outro, mas tão somente fazer valer a bandeira pela qual cada um milita, sendo comum a mente privilegiar a razão e o coração dá vazão à emoção. Com o avançar da vida e o alcance da maturida- de, somos levados a crer que eles se digladiarão menos. Como seria bom, por sinal. Diante de certos conflitos é 107
Estações da Vida possível se chegar a uma solução rapidamente com base na vivência e capacidade de observação. Nestas opor- tunidades, encontrar soluções mais visíveis e esperadas passa a ser algo mais instantâneo a ponto de convencer a todos que se alcançou o desejado equilíbrio emocio- nal. Mas, nem sempre é assim! Em outros contextos as coisas não se acomodarão desta forma e cada um se valerá dos subterfúgios para fugir ou, pelo menos, não encarar a realidade. De todo modo, pelo prisma do otimismo realista, é válido dizer também que há dia em que existem condi- ções plenas para o encontro de soluções, com o silên- cio ideal para negociações bem típicas de práticas de diplomacia avançada de autoconhecimento. O elemen- to problematizador se dissipará diante da aproximação fraterna da mente e do coração. Em muitas ocasiões, a mente acudirá a praticida- de, objetividade, leitura macro, análise fria e certeira en- quanto o coração se munirá de emotividade, subjetivi- dade, intuição e senso de agrado mútuo, quase poético e cinematográfico. E aí, se estará diante, de novo, de situações conflitantes, ainda que não sejam complexas, tendo por desafio aproximar os dois pontos cruciais para um diálogo franco e amistoso em busca da calma- ria capaz de gerar nova estabilidade. A roda gigante da vida, que em dado momento está no topo e no outro na base, gira de modo ininterrupto. É visível que tais situações despontam com maior periodicidade em pessoas que pensam e sentem de- 108
Alisson Dias Gomes mais. Na verdade, o ponto chave reside no “demais”. E aqui não se condena o viver com intensidade, ainda que seja possível regular e encontrar o meio termo, nem oito nem oitenta, como diz o ditado popular; a frequência de conflitos entre a mente e o coração tenderá a diminuir em escala, proporção e intensidade. E vale ressaltar que não se encara o conflito como algo ruim. Muito pelo contrário! Em certos momentos ele é necessário, servindo de campo fértil para que o diálogo entre a razão e a emoção (isto é, a mente e o co- ração) se estabeleça e germine novos posicionamentos e releituras da vida. Contudo, quando gerador de sofri- mento e diante da incapacidade de ressignificação ou acordos poderá ser gatilho para sensações, sentimentos e atitudes prejudiciais. O filme O Ilusionista (2006) é rico de interpreta- ções sobre o ser humano ao pontuar que “a construção de um ‘eu’ saudável necessita de uma complementação harmônica entre a razão e emoção”. Em outras pala- vras, que por trás da negociação de um conflito entre a mente e o coração reine a paz de uma decisão mediada em que ambos reencontrem o caminho, respeitando os afastamentos provisórios de outros tempos. 109
Estações da Vida NASCEM NOVOS HOMENS Prefiro a emoção às regras corretas. Juan Gris Entre sorrisos, lágrimas, olhares, toques e conexões, 12 homens renasceram após vivência de desconstrução, reencontro e descoberta, a princípio consigo e depois com o mundo. Antes de aprimorar-se para fora, cada um deles se deu conta de que era preciso fazer a busca da sua melhor versão para si, sem esperar a perfeição; tão somente pelo fato de perceberem que o mergulho interno traz ganhos substanciais para o entendimento da vida e do mundo. Logo de cara, uma das primeiras lições: na vulnerabilidade também nos tornamos fortes e sensíveis, reduzindo dualidades a ponto de edificar se- res humanos mais autênticos, livres e leves. Tudo aconteceu no Rio de Janeiro, ponto de con- vergência de fluminenses, paulistas, mineiros e piauien- se. Para lá, estes homens, provenientes de mundos, realidades e formações diferentes, com experiências, ex- pectativas e anseios variados, se dirigiram para imersão intensa sob os cuidados do terapeuta Lukas Sato e sua acolhedora equipe, durante um fim de semana transfor- mador. Por sinal, o tempo foi outro fator intrigante; as horas e os minutos pareciam não passar, diferente do que ocorre no cotidiano causticante. A noção de tempo 110
Alisson Dias Gomes e espaço foi redimensionada e possibilitou que todos vivenciassem cada instante de modo pleno. Pelo contato, aproximação e abertura, elos inter- nos seriam quebrados ou, ao contrário, fortalecidos ao revisitar histórias vividas em primeira pessoa. Da mesma forma, novos laços seriam criados, ou no mínimo insti- gados a sensibilidade e reflexões futuras, tanto consigo como também com os outros, a cada nova prática pelo reconhecimento integral de que estávamos entre pares na alegria e na dor, tendo por base o mais puro senti- mento de amor. A cada partilha, mais conexão e integração. O des- nudar-se de almas ia muito além das roupas e capas que usamos habitualmente para cobrir o corpo e a face, me- diante as inúmeras situações do dia a dia, consentindo que todo o resto se tornasse supérfluo. Ali estávamos diante de seres em evolução, conscientes de que jamais seríamos os mesmos, imersos numa atmosfera de aco- lhida, compreensão e carinho, tendo por princípio bási- co o respeito ao tempo e a individualidade de cada um. Sensações e sentimentos afloraram e variaram diante de novas histórias e revelações, perpassadas por gargalhadas contagiantes e estridentes até choros in- fantis e libertadores. Tudo válido! Tudo aceito! Tudo conduzido de um jeito humano, permitindo a quebra de paradigmas e o rompimento da estabilidade das zo- nas de conforto. Isso porque estaríamos aliviados, con- solados e acomodados por vermos nossas histórias nos outros. 111
Estações da Vida Por diversas vezes, de modo individual ou em gru- po, fomos conduzidos a momentos de resgate, catarse, reflexão e inquietude a fim de avançar na busca pelo autoconhecimento tendo por base o que defende Osho, guru espiritual: “a felicidade não é um destino, é uma viagem. A felicidade não é amanhã, é agora. A felicidade não é uma dependência, é uma decisão. A felicidade é o que você é, não o que você tem.” Éramos estimulados a olhar nos espelhos da alma, revelando-nos nas práticas de meditação, dança, integração, massagem, contato com a natureza e partilhas “organizadas”, sem sequên- cia rígida e estruturada, conforme o desenvolver-se do grupo e o feeling dos terapeutas. Já na reta final, depois de perceber que inúmeras transformações internas e coletivas estão por vir, seria inevitável a afeição verdadeira aos companheiros com os quais vivenciamos uma das experiências mais revela- doras e intensas da vida. Com isso, a gratidão se tornou o sentimento preponderante, ao lado do abraço que se tornou o cumprimento normal e a palavra amor a sínte- se do vivido. 112
Alisson Dias Gomes O SER HUMANO E A CAPACIDADE DE APRENDIZAGEM Porque a força de dentro é maior que todos os ventos contrários. Caio Fernando Abreu Creio que nunca fez tanto sentido como nos últimos tempos, a ideia de viver um dia de cada vez. De modo literal e prático estamos sendo sacudidos e colocados de ponta cabeça para pensar e repensar sobre tudo que nos rodeia, envolve e demanda na contemporaneidade. A vida já não é a mesma e jamais será! Da esfera coletiva a individual, da dimensão profissional a pessoal, do global ao local vivemos transições e mudanças perceptíveis (ou não). Nem todos estarão abertos a refletir, assimilar e mudar neste momento. Talvez, precisem de mais tempo ou, até mesmo, de algumas vidas. Mais do que nunca, entendo que a ênfase recai (ou deveria recair) em cada um de nós no novo contexto: quem sou eu? O que tenho feito? Para onde pretendo ir? Que contribuições dou para a evolução da humanidade? As perguntas existenciais, quase sempre de cunho filosófico, se apresentam atualíssimas e provocadoras de reposicionamentos individuais e coletivos. Afinal, 113
Estações da Vida por muitas vezes, olhar o outro foi mais recomendado e fácil e, até mesmo, convidativo por acreditarmos que as melhorias deveriam vir ou estar na parte externa. A velha e ultrapassada máxima de delegar responsabilida- de ao outro, em clara demonstração de cegueira exis- tencial é inconcebível doravante. Na maioria das vezes, fomos gerados, educados e conscientizados de que so- mos bons, corretos, preparados e melhores. Como se fosse possível ser, nos iludimos e nos acomodamos. Na verdade, o ideal é estar. Justifico porque encaro como uma percepção equivocada, haja vista o ser passar a fal- sa ideia de permanência/conservação, enquanto o estar é demarcador de passagem/transição. Ao longo de uma existência mutável, de socieda- des voláteis e de individualidades variáveis, somos le- vados a estar bem ou mal, feliz ou triste, satisfeito ou incompleto. Não me refiro ao caráter, à personalidade ou a índole, mas foco na instantaneidade da vida, nas incertezas do futuro e nas variáveis humanas... Por certo, são tais aspectos que nos mostram a necessidade de (re)conhecer vulnerabilidades e capacidades de apren- dizagem em busca de evolução. Somos ondas do mar, dunas, ventos... Somos a pró- pria natureza! Por mais pragmáticos e racionais que se- jamos (ou almejemos ser); seja por educação ou orien- tação, te convido a despir-se da falsa ilusão de controle sobre a vida e a morte. A crença em certezas e poderes é tão frágil como a inércia e preguiça de agir, buscar e (re) significar. Estamos em evolução permanente, ainda que 114
Alisson Dias Gomes em ritmos, direções e caminhadas diferentes. Por isso, jamais seremos ou estaremos acabados! Somos eternos aprendizes, ainda que demonstre- mos incapacidades, limitações e acomodações para re- conhecer e praticar. Aprender é um ato comum ao ser humano, independentemente da idade, desde que este esteja aberto para tal. É fundamental desatrelar-se de espaços, momentos, circunstâncias e pessoas para que o terreno fértil do saber se consolide de uma vez por todas. Daí porque é tão belo testemunhar pessoas de 50, 60 ou 70 anos dispostas a aprender e provar novas sensações ao mesmo tempo em que é horrível observar pessoas de 20, 30 ou 40 anos sem estímulos ou motiva- ções para evoluir. Ao pensar e escrever sobre aprendizagem vem à mente Gonzaguinha e cantarolo inevitavelmente: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e can- tar a beleza de ser um eterno aprendiz”, recordando- -me quantas vezes fiquei envergonhado e castrado para novas descobertas ou, em contrapartida, me lancei sem timidez e pudor na busca por novos conhecimentos. O fato é que ganha ainda mais sentido a frase “só sei que nada sei” de Sócrates, por indicar ser sábio reconhecer a dimensão da ignorância própria, em clarividência de que quanto mais aprendemos, mais temos por desco- brir. 115
Estações da Vida TENHA ATITUDE PARA MUDAR! Tenho juízo, mas não faço tudo certo, afinal todo paraíso precisa de um pouco de inferno! Martha Medeiros Você já observou o milho e a pipoca? Já parou e se deteve alguns minutos pensando um pouco sobre a conversão de um no outro? Se não, faça! Se sim, venha comigo! Convido-te a fazer uma viagem reflexiva e me acompanhar na observação da mutação de um no outro por meio de uma experiência simples que pode ser rea- lizada com um aparelho de micro-ondas e alguns grãos de milho. Logo de cara, chamo sua atenção para o trivial e sentencio que grandes transformações acontecem de dentro para fora. De nada adianta inverter as dimensões e se iludir que de fora para dentro teremos sustentação, segurança e intenção. Ledo engano! Pense e perceba que o edificado a partir de dentro tem fortes possibi- lidades de ser contundente, forte e abalizado, capaz de suportar intempéries e provações que virão, mais cedo ou mais tarde, e ainda assim serão contidas total ou parcialmente com os mais variados recursos de comba- te: pensamentos, sentimentos, experiências, leituras de mundo, pessoas etc. 116
Alisson Dias Gomes Como bem diz o sábio autor brasileiro Rubem Al- ves, “milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre”, ou seja, sempre passaremos por aquecimento em diversas situações da vida, seja no âmbito pessoal/social ou no profissional/relacional; seja em momentos felizes e festivos ou, por sua vez, em oca- siões trágicas e desoladoras. E aí está um ponto inte- ressante, pois em determinados momentos eclodiremos de tal forma que ganharemos nova roupagem, a seme- lhança do milho transmutado em pipoca, com capa im- ponente, chamativa, pronta e capaz de encarar o novo mundo ou, ao contrário, seguiremos como o piruá, mi- lho de pipoca que se recusa a estourar e despontar para nova realidade. Na vida, a cada dia somos chamados a ser ou viver como milho e pipoca ou, é melhor dizer, milho capaz de virar pipoca. Creio que acontece com todos em ocasiões e momentos específicos da evolução de cada ser huma- no. As mudanças ocorrem quando passamos pelo aque- cimento/fogo da vida. Portanto, quem não passa está fadado a viver do mesmo jeito a vida inteira. E o fogo aqui não precisa ser necessariamente dor e sofrimento, embora possa ser (e, muitas vezes, é), contudo também se apresenta como necessidade de mudança, de que- brar certos ciclos, de sair da mesmice, de abandonar a zona de conforto, de desordenar para em seguida colo- car no seu novo e devido lugar. De todo modo, em conversa recente e acalorada com uma amiga, falávamos justamente sobre tudo isso 117
Estações da Vida e ela defendia a tese de que sempre é possível apagar o fogo! De imediato, me aqueci e apresentei uma antíte- se, pois sem o fogo a possibilidade de transformação se esvai. Então, ainda que queime, sou partidário do fogo, pois ele nunca será eterno. E me reportei a muitas situa- ções reais, vividas por pessoas próximas e por mim, em que foi preciso arder para se transformar, sem defesas ou bandeiras de mutilação e depreciação, mas tão so- mente o reconhecimento de que faz parte da vida. Imaginei a própria pipoca, fechada dentro do mi- lho, passando pelo aquecimento e tentando resistir às mudanças, com medo de “morrer”, acreditando que o desconhecido pode ser devastador. Dentro de sua casca dura, fechada no seu mundo já habitual, é possível que ela não imagine um destino diferente para si, mas vale lembrar que ele existe e esta transformação requer acei- tação e atitude. 118
Alisson Dias Gomes UM TEMPO NA PRAIA Quero ser feliz nas ondas do mar. Quero esquecer tudo, quero descansar. Manuel Bandeira Muitas vezes a gente só precisa parar um pouco. Desacelerar. Deixar de lado as obrigações e tarefas diá- rias. Sentir a respiração de modo mais consciente, es- vaziar a mente. Reservar algumas horas (ou se possível, alguns dias) para se (re)conectar consigo. Renunciar à rotina, desligar os alarmes e silenciar o celular. E se tudo der certo, pegar o caminho que leva ao mar... De modo discreto ou estridente vale muito a pena o banho de água salgada para adoçar o gosto da vida. Chegar à praia cedinho, testemunhar o nascer do sol, ver o movimento cadenciado das ondas do mar no seu eterno vai e vem, sentir a brisa e ouvir o canto dos ven- tos como assobios convidativos para a contemplação e o deleite da alma são alguns dos melhores recursos para recarregar as energias individuais. Um verdadeiro elixir! Por isso, sempre que possível, arranjo um tempinho (até mesmo dois ou três dias) e ótimas companhias para ir lá. Em meio a momentos leves ou pesados, simples ou complexos, equilibrados ou desajustados, o mar me entende sem precisar de muito, como numa simbiose de sobrevivência, metáfora biológica para descrever a 119
Estações da Vida dependência emocional entre as partes, transformando- -me em um ser com cabelo de sal, pele de sol e alma de mar. Creio que não exista terapia mais eficiente do que mergulhar nas ondas do mar e soltar frases ditas aos ven- tos, abrindo espaço até mesmo para os pensamentos mais proibidos e ocultos. Neste cenário de nudez vestida, des- calço na areia, com a brisa do fim de tarde no rosto e o isolamento temporário para contemplar a paisagem, a co- nexão com a senhora das águas salgadas, Iemanjá, é inevi- tável e revigorante. A respeito dela, vale saber que é um orixá feminino (divindade africana) das religiões Candomblé e Umbanda, considerada a padroeira dos pescadores. Segundo a cren- ça, é ela quem decide o destino de todos que entram no mar, sendo a mãe de quase todos os orixás, tem forte liga- ção com as relações familiares, sendo considerada a deusa do amor. Com sorte e a ajudinha da natureza é possível ainda que o céu se transforme numa linda tela no fim de tarde, similar às obras de arte inspiradas pela beleza e potência da natureza. Com a certeza de que a cada dia serão novos traços, a moldura fica por conta das mentes mais sensíveis e evoluídas. E para mim inexiste casamento natural mais perfeito que testemunhar o sol dormindo nos braços do mar na hora da fusão dia-noite. Além de lindo, é relaxante olhar para o horizonte e ver o sol se pondo enquanto es- cutamos músicas naturais ou melodias marcantes. 120
Alisson Dias Gomes De fato, aguardamos ansiosos os dias menos con- turbados, quando poderemos aproveitar melhor estes paraísos na terra, sem os receios dos dias atuais, em es- pecial as praias do Nordeste do Brasil, onde podemos caminhar a praia inteira com os pés na areia e o coração em alto mar, esquecendo um pouco dos desafios diários e das provações desconcertantes das nossas lutas indi- viduais e coletivas. Por isso, o amor pelo mar se renova a cada ida, a cada (re)encontro, pois muitos momentos felizes da minha vida foram celebrados ali, antes ou depois de conquistas e mudanças como num processo de agrade- cimento ou aconselhamento para as decisões a tomar. É como se a alma brilhasse como o sol e se tornasse profunda como o mar. 121
Estações da Vida PROMOVA A PAZ E SUPLANTE A GUERRA A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos. Albert Einstein Em tempos difíceis e conflituosos vemos sinas evi- dentes da cultura que possuímos ou estamos inseridos. Ainda que nem todos a tenham na mesma proporção é preciso identificar e pensar sobre tal cultura de modo individual e coletivo. Ela é de paz ou de guerra? Levanto tal questionamento justamente porque há mais de 15 anos ouvia falar da necessidade de uma educação voltada para cultura de paz. Desde a etapa de planejamento até a execução, tudo deveria ser voltado para a paz. Na época, o pouco entendimento do assun- to bem como a percepção lógica e natural de que a paz deveria ser o elemento norteador, o ponto de chegada de todos, me faziam pensar que era óbvia esta caminha- da. Contudo, com os anos e a chegada da maturidade assim como o olhar aguçado e a percepção de mundo com base em vivências pessoais e coletivas e o aprimo- ramento da capacidade de observação, vejo que muitas vezes não somos educados para a cultura de paz. Aliás, permitam-me dizer e aceito contrapontos, somos cons- tantemente instigados ao conflito e ao pouco diálogo; somos estimulados ao descarte e ao pouco conserto 122
Alisson Dias Gomes (seja para algo material e/ou humano). E isso obviamen- te revela muito da nossa cultura enquanto elemento so- cial e relacional. Em períodos de discursos inflamados, de ideologias exacerbadas, de ataques irracionais, de negacionismo científico, de perseguições explícitas e de silenciamen- tos autoritários, vemos a cultura de paz ser descartada. Justamente aquela que consiste numa visão de mundo que privilegia o diálogo e a mediação para resolver con- flitos, abandonando atitudes e ações violentas e respei- tando a diversidade dos modos de pensar e agir. Isto é, algo pouco comum na nação brasileira. Quis trazer este tópico para discussão por testemu- nhar recentemente amigos se posicionarem de forma tão violenta sobre assuntos que poderiam ser aborda- dos e resolvidos por outra ótica, segundo perspectiva bem particular, a ponto de gerarem desconhecimento dos atores sociais envolvidos. Os olhos aguerridos, as falas intempestivas e os gestos intimidadores evidencia- vam postura de guerra, quando na verdade seria possí- vel um diálogo sóbrio e o entendimento de que o outro pode pensar diferente de mim. Neste contexto, recordei-me que a cultura de paz é um conjunto de valores, atitudes, comportamentos e estilos de vida baseados no respeito pleno à vida e à promoção dos direitos humanos e das liberdades fun- damentais, a fim de propiciar o fomento da paz entre as pessoas. Fui além e fiquei pensando: quantas vezes eu fui de paz e/ou de guerra? Como posso, no meu dia 123
Estações da Vida a dia, enquanto cidadão e profissional ligado aos seg- mentos da Comunicação e da Educação, promover a cultura de paz? O que tenho feito de modo efetivo para promover o respeito, o diálogo e a aceitação mesmo diante do oposto? Tais perguntas estão na minha mente nos últimos dias, pois acredito piamente que todos podem e devem dar sua contribuição para a cultura de paz, seja para si como também para o mundo: em casa, nas comunida- des, nas organizações etc. Para tanto, é indispensável que promovamos a não-violência, a tolerância, o diá- logo, a reconciliação, a justiça e a solidariedade em ati- tudes cotidianas, por meio de exemplos e de conversas que visem entender as condutas e posturas diante das situações diárias e diversas. Consciente de se tratar de uma tarefa difícil concla- mo a todos a pensarem sobre a cultura de paz e suplan- tarem de uma vez por todas o ódio e a guerra. 124
Alisson Dias Gomes PAZES FEITAS COM O ESPELHO O mundo é um espelho, pois se sorrires para ele,ele sorrirá para ti. Gustave Le Bom Para muitas pessoas o espelho vai muito além de um simples objeto de reflexo e de visualização de si. Faço esta consideração por ter observado, especialmente nas duas últimas semanas, como nos relacionamos com ele e quais frutos são gerados desta projeção. Tudo se deu de forma mais consciente após uma provocação saudá- vel e pertinente de uma reportagem televisiva que fala- va sobre imagem e autoimagem para si e para o mundo. Em conversa com amigas próximas em momen- tos distintos, duas delas comentavam sobre sua relação com o espelho e a autoimagem. Enquanto Maria, com mais de 60 anos e algumas marcas e cicatrizes da vida, opta por não se ver, já tendo tido vontade de retirar os espelhos do apartamento por diversas vezes ou simples- mente cobri-los com panos, deparo-me com Joana, aos 30 e poucos anos, entusiasmada, em fase de empodera- mento e reconhecimento de si e de todas as suas pecu- liaridades. Posturas diferentes diante do mesmo objeto levando em conta singularidades e subjetividades assim como o próprio momento de vida em que nos sentimos mais (ou menos) confortáveis com o que vemos. 125
Estações da Vida Em razão destas conversas e levando em conta a forte tendência a refletir com frequência sobre inquieta- ções individuais, me pus a pensar: quantas vezes tive (ou tenho) relações conflituosas com o espelho? Seja por algo bem particular, fruto da minha mente, vivência e percepção de mundo, ou por algo contextual, fruto da moda e época específica que acabam ditando e inter- ferindo na existência das pessoas em sociedade, ainda que possa ser temporário. Claramente recordo-me de momentos em que os conflitos pareciam quase armados e o espelho era incapaz de arrancar sorrisos ou expres- sões de acolhida. Em contraponto, quando superados estes tensionamentos, ele se tornou um aliado e motivo de autoconhecimento, contribuindo de modo decisivo para o estar bem consigo. O fato é que este objeto tão presente e popular no dia a dia tem ganhado dimensionamentos maiores. An- tes, eram basicamente exclusivos de banheiros e quar- tos depois passaram a ser também peças de decoração de varandas, salas e demais cômodos, vindo por último a serem incorporados aos celulares (smartphones). Por sinal, quanto impacto provocam por estarem ali acessí- veis quase o tempo todo considerando o próprio papel que os aparelhos eletrônicos assumiram em nossas vi- das. E, neste contexto de hiper valorização da imagem projetada/real em que somos constantemente induzi- dos a olhar com rigor e ênfase para a nossa aparência é muito comum nos acharmos e nos perdermos. Qua- 126
Alisson Dias Gomes se de modo simultâneo e instantâneo! Passamos a viver dias de sorrisos e/ou de lágrimas, expressamos olhares acolhedores ou taxativos e deixamos de ir além do físico e material sem reconhecer que a maior beleza está além daquilo que é refletido. Aliás, tenho aprendido a cada dia e com alguns amigos bem mais sábios que eu que a maior beleza está guardada no coração e na capacidade de ser completo com o que somos: virtudes, imperfei- ções, fortalezas e fragilidades, aprendizados, desejos... Com isso, vemos que a nossa convivência e relação com o espelho se dará num contexto de paz a depender da nossa mente, muito mais do que nosso rosto e corpo, pois como o psicólogo francês Gustave Le Bom indica, “o mundo é um espelho, pois se sorrires para ele, ele sorrirá para ti”. Daí porque o atual desafio tem recaído no sorrir mais para vida e para si, ainda que seja neste momento diante do espelho, e de modo provisório ten- do em vista tudo que se passa no Brasil e no mundo. 127
Estações da Vida CONVITE SOL Depois de “decifrar” o segundo conjunto de textos, com mais 15 considerações altamente subjetivas sobre a vida e diversas experiências, lhe convido a contemplar a Estação Verão Musical por meio do QR code. É uma nova playlist com mais 15 músicas seleciona- das a dedo e que possuem relação íntima com as praias, os mares e os sóis degustados por este autor mundo afora. Foram nomeadas por possuírem definições singu- lares e serem merecedoras de contemplação: Menina solta I don´t care Assim que se faz Giulia Be Ed Sheeran e Justin Bieber Luciana Mello Summer If I can’t have you Treasure Clavin Harris Shawn Mendes Bruno Mars Girassol O segundo sol Rehab Priscila Alcântara e Cássia Eller Amy Winehouse Whindersson Nunes Codinome beija-flor A cor é rosa Adrenalizou Cazuza Silva Vitor Kley Águas de março Porque eu te amo Brisa Antônio Carlos Jobim Anavitória Iza 128
Alisson Dias Gomes Imagine cada texto e cada música como se degustasse um drink saboroso, como um bom bloody mary, uma refres- cante piña colada, um gosto- so mojito, caipirinha, daiquiri, margarita, sunrise, clericot e/ ou coquetéis. Bons sentidos! 129
Alisson Dias Gomes 131
Alisson Dias Gomes A VIDA E EU Tente mover o mundo o primeiro passo será mover a si mesmo. Platão Em meio a relações voláteis, supremacia da instantaneidade, valorização do passageiro, esquecimento das biografias, desapego excessivo e notoriedade fugaz, penso nos encontros da vida, por circunstâncias variadas, em momentos diversos. Encontros com pessoas distintas: de amigos da escola, irmãos, colegas de trabalho, amores, parentes distantes, conhecidos da rua e meios sociais a adversários competitivos. A vida e seus encontros! Alguns bons, outros, nem tanto, mas todos necessários para nossa evolução humana. O cotidiano causticante, as exigências da contem- poraneidade e a troca de valores em tempos de redes digitais, fazem com que o cultivo seja substituído pela colheita. A inversão é quase imediata. Diria até que con- dicionante de sucesso e fama. A pressa se coloca mui- tas vezes no lugar da espera. A apuração é abandonada pelo ultimato e condenação. E assim vivemos, envoltos em uma avalanche de pressões, mudanças e novos há- bitos. Alguns dos quais questionáveis ou pelo menos passíveis de serem revistos. 133
Estações da Vida Para exemplificar um pouco: no dia do aniversário, já não falamos mais com os celebrantes, substituímos o encontro físico, regado de abraços e beijos, por ligações e quando não, na atualidade, mensagens via WhatsApp; a leitura de livros clássicos ou modernos é trocada por resumos e análises sucintas e superficiais; as refeições e todos os rituais que envolvem esses momentos são substituídos por fast foods, muitas vezes desprovidas de diálogos e partilhas, A vida segue num ritmo pouco con- vidativo a reflexões. Atribuir responsabilidade ao tempo, aos outros, às modas e modismos, à sociedade e ao sistema é jogar para cima o que estamos fazendo de nossas vidas. É deixar o “eu” de lado e dá espaço para o mundo, mui- tas vezes. Consequentemente, isso também ocorre nas ações e relações. Como um amigo expôs recentemente: “tudo na vida tem o poder e a importância que a gente dá”. Derivada desta reflexão, de autoria desconhecida, mas que naquele momento se emprega a ele e a mim, a todos nós, questionamentos emergem quase como prá- tica filosófica: O que estamos fazendo de nossas vidas? O que queremos? Aonde chegaremos? Por que agimos deste modo quando gostaríamos de fazer o contrário? Perguntas e mais perguntas. Poucas respostas. No ambiente familiar, social ou profissional, somos estimulados com frequência a agir conforme as conve- niências, determinadas pelo consenso ou “bom senso”. O ser perde espaço para o ter. A naturalidade sai de cena e o engessamento reina soberano. A compreensão 134
Alisson Dias Gomes mostra-se pequena diante da intolerância; o acúmulo e a ostentação se notabilizam como prioritários diante do investimento pessoal e do amadurecimento. Independentemente de origem, idade, gênero, classe social etc., é possível ressignificar a vida. É pro- vável que um dos primeiros passos a ser dado seja o de olhar para si, de modo generoso, humilde, complacente e questionador. O olhar vai além do simples ato de se ver e exige mergulho complexo e denso em si, a ponto de lhe pedir tempo e paciência, para que novas respos- tas sejam dadas a possíveis e velhas perguntas. Desafios existem e existirão, ainda que falas, como a de uma mãe preocupada e atenta ao filho, ao senten- ciar: “cobre-se menos e relaxe mais”, soem com aperto de mãos e demonstração de que não se está sozinho diante dos desafios e dilemas da vida contemporânea. Por isso, sempre vale a pena pensar e repensar. 135
Estações da Vida O SILÊNCIO FALA O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página. Santo Agostinho A comunicação é uma necessidade básica entres os seres, sejam humanos ou não. Aprender a silenciar é tarefa diária. No nosso caso, na maioria das vezes, fa- lamos por palavras, articuladas e projetadas pela voz, mas também por gestos e expressões, provenientes do corpo, de maneira espontânea ou artificial. Falamos sem falar. Falamos com o corpo. O olhar revela tanto que muitas vezes não é necessária uma única palavra. Seja num momento festivo ou triste, num ambiente de tra- balho ou de família. Falamos o tempo todo. Em tempos de avanços digitais, a comunicação fi- cou ainda mais estimulada e promovida. Somos conec- tados a um mundo que pede vez e voz, que muitas ve- zes não nos deixa desconectar, pois isso não é aceitável. A cada dia paramos menos para ouvir, na concretude do significado do verbo, perceber os sons pelo sentido da audição. O falar ganha literalmente voz. A capacidade de ouvir perde força. As situações são variadas: uma mensagem de Wha- tsApp, enviada por uma amiga, que não pode esperar, precisa ser respondida de imediato, principalmente após 136
Alisson Dias Gomes ter sido visualizada; uma ligação num horário impróprio, mas que ainda assim deve ser atendida; um e-mail enca- minhado com o título de urgência... Nada pode esperar, a não ser a sua necessidade de silenciar. Nesta direção, o estar sozinho é visto muitas vezes como algo condenável, aproximando-se de um indicati- vo de tristeza ou depressão, quando, na verdade, pode ser um desejo de solitude, que consiste no pleno con- tato consigo mesmo. Isto é, não há a necessidade de estar sempre em companhia de outras pessoas e não há solidão por isso. Muito pelo contrário, se falamos tanto com o mundo, por diversos motivos, por que não de- vemos falar conosco? Termos o nosso tempo de fala e de escuta. Afinal, antes mesmo de falar com o mundo, é muito bom falar com o nosso íntimo, brindar nossa alma com uma escuta privilegiada. Aprender a silenciar é tarefa diária, é exercício de maturidade não associado à idade, mas a consciência. Tomo a liberdade de dizer que não existe melhor forma de nos comunicar do que silenciando. Ainda mais se for de modo intencional, controlado e resiliente. Si- lêncio sem opressão! Silêncio sem restrição! Deixar os pensamentos comunicarem à alma a ne- cessidade de ver ou rever sensações, sentimentos e si- tuações. Creio que é possível falar com a alma, pois exis- tem tantas formas de comunicação. Por sinal, ganham força na contemporaneidade os resgates de práticas milenares, amplamente disseminadas em algumas cul- turas e nações, a exemplo da meditação e do autoco- 137
Estações da Vida nhecimento, recomendados não só por tradições, mas também para curas espirituais e físicas por áreas diver- sas das Ciências. Falamos por telepatia, muitas vezes, com familiares e amigos, que leem nossos pensamentos, mesmo quan- do não pronunciamos uma única palavra ou evidencia- mos um único gesto; falamos com os mortos/desen- carnados quando recordamos, oramos e bem dizemos ensinamentos ou momentos; falamos com os animais e as plantas quando cuidamos e, principalmente, somos cuidados... De fato, o silêncio fala tão bem quanto os melhores discursos. O grande desafio está em reconhe- cer e praticar; em desligar-se e desacelerar. Como uma vez afirmou o autor estadunidense Henry David Tho- reau, “o silêncio é a comunhão de uma alma consciente consigo mesma”, daí porque silenciar tem sido tão reco- mendado para mentes e corações em evolução. 138
Alisson Dias Gomes A RELATIVIDADE DA VIDA O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte. Friedrich Nietzsche Conviver com pessoas que pensam de modo diferente, que escolhem e priorizam outras necessidades, que seguem caminhos distintos é tão bom quanto estar ao lado dos que compartilham interesses comuns. É extremamente rico e indispensável para o desenvolvimento individual e coletivo, em prol de uma sociedade plural e civilizada. Unanimidade nunca foi nem será boa, pois somos seres particulares, com repertórios de vida e experiências únicas, ainda que tenhamos vivido situações parecidas. Unanimidade é sempre resultado de silenciamento e repressão, pois o pensamento não é uníssono e, na prática, o medo (ou a impossibilidade de manifestar-se) não pode ser o elemento balizador da nossa existência. Afinal, já dizia Nelson Rodrigues: “toda a unanimidade é burra”. Isso se aplica a tudo, desde as inclinações político- -partidárias até as crenças religiosas e comportamentais (padrões e condutas), passando por interesses culturais (com gostos e predileções), por hábitos e práticas do cotidiano, por conceitos estéticos e valores financeiros etc. Em outras palavras, tudo é relativo! Minha percep- 139
Estações da Vida ção do belo não necessariamente é a sua, podendo existir pontos de concordância bem como o contrário; a importância do dinheiro para um amigo não será exata- mente a mesma que você dá; a conexão espiritual, a ten- dência política, a concepção de família, a relação com os animais, entre outros, pode variar a depender de aspec- tos individuais, coletivos e, até mesmo, transcendentais (caso você creia, é claro!). Daí porque o mais apropriado será sempre a con- vivência pacífica ou, pelo menos, a tentativa de ajustes e enquadramentos a fim de alcançar harmonia. Reconhe- cer-se com uma figura política, com uma ideologia ou iniciativa não está errado, desde que você se porte e te- nha o respeito como elemento de ligação com as outras pessoas. Posicionar-se de modo civilizado e ponderado é um desafio em tempos de polarização, autoritarismo, diálogo minguado, disseminação de ódio e práticas de descarte e desprezo. A tolerância e o entendimento de que o outro pode pensar e ser diferente devem ser estimulados desde cedo, ainda no seio familiar, antes de irmos para as es- feras públicas, abertas e coletivas (escolas, instituições, organizações, ambientes de trabalho etc.). Em clara con- firmação ao defendido por Voltaire: “posso não concor- dar com nenhuma das palavras que você disser, mas de- fenderei até a morte o direito de dizê-las”, tributo todos os aplausos por defesa tão cabível, em especial na so- ciedade contemporânea. Contudo, excluo discursos de ódio que alimentem práticas de exclusão e extermínio. 140
Alisson Dias Gomes Por certo, conviver com o distinto e reconhecer a relatividade da vida não é nada fácil. Não se conse- gue de uma hora para outra, não se trata de um bem comprável em espaços de comercialização... Contudo, é algo fundamental e inadiável. Não podemos deixar para o futuro, é preciso começar hoje para que amanhã as sementes germinem e se tornem árvores frondosas e frutíferas e, assim, mudemos a configuração que temos ultimamente. Isso se aplica a todos, nas mais variadas realidades, nos mais diferentes e longínquos povos e nações, não é exclusividade do Brasil! Sendo assim, muitas situações exemplificam o pro- clamado até aqui, como a mãe que precisa reconhecer e aceitar a forma de vida da filha, ainda que seja diferente do que ela previa e desde que isso não resulte em ação destrutível e reprovável em termos legais e humanos; o amigo que deve entender e aceitar quando a amiga nu- tre interesse e sentimento distintos; os colegas de tra- balho que devem se respeitar ainda que discordem das escolhas e filiações políticas... É tão interessante pensar sobre o tema associando- -o ao dia a dia, pois sou levado a conversas triviais, em que noto desde situações simples até mais complexas, o que defende sabiamente Santo Agostinho: “na essência somos iguais, nas diferenças nos respeitamos”. Isto é, de maneira análoga e provocativa: o que seria do azul se todos gostassem do vermelho? 141
Estações da Vida CÉU DE ESTRELAS NA PRAIA Nada é permanente, exceto a mudança. Heráclito A relação entre o mar e eu é forte, tão forte, que se torna imprescindível para a continuidade da vida com bem-estar. Trata-se de um daqueles lugares em que o corpo e a alma se realinham num processo de troca, equilíbrio e fortalecimento. A cada ida à praia, novas e boas sensações; a cada entrada no mar, descanso e alívio; a cada vento no rosto e no corpo, liberdade e fluidez. Tudo sentido de forma intensa e revigorante a ponto fazer um bem quase indescritível e trazer bene- fícios duradouros diante da rotina extenuante da con- temporaneidade. Embora não seja unanimidade — tem quem não goste de nada que faz parte do mundo praia (sol, mar, sal, terra, vento etc.) —, é preciso reconhecer a força e a grandiosidade desse local quase sagrado para muitos indivíduos, entre os quais me incluo. Muitas pessoas se dirigirem à praia e ao mar, em especial, quando estão felizes ou tristes, introspectivas ou expansivas, sozinhas ou em grupos, em momentos emblemáticos ou habi- tuais, para celebrar e exorcizar sentimentos e impres- sões, num processo de renovação, catarse e/ou desape- go. Seja numa praia badalada e urbanizada de alguma 142
Alisson Dias Gomes grande cidade do mundo ou, ao contrário, numa praia deserta e altamente preservada de algum vilarejo, o contato com a natureza surte efeitos surpreendentes, desde que você esteja aberto a percebê-los. No caso do Brasil, o privilégio de ter uma longa área, de norte (Amapá) a sul (Rio Grande do Sul), com mais de 7,3 mil quilômetros de litoral, faz com que exis- ta uma tendência para relação mais intensa com o mar, tanto que em muitas épocas, estas zonas são altamente disputadas: férias escolares, feriados prolongados, car- naval e fim de ano. Neste contexto, o habitual é ir à praia ao longo do dia, em especial nas primeiras horas para testemunhar a aurora (nascer do sol) e desfrutar dos momentos seguin- tes e suas inúmeras possibilidades: contemplar o mar, caminhar, correr, ler, ouvir música, bronzear-se, brincar, fotografar, conversar com amigos e amores, degustar a culinária típica etc. E vale destacar que o pôr do sol é disputadíssimo, em inúmeras praias do mundo, pela beleza estética e pelas crenças espirituais. Aliás, o pro- tagonismo deste momento é quase incontestável, pois o fato do pôr do sol ser mais brilhante do que o nascer, em razão do matiz de vermelho e laranja (arrebol) ser mais vibrante, acaba gerando maior encantamento em muitas pessoas. Por certo acreditamos e confirmamos o dito até este ponto. De todo modo, sugerimos uma experiência diferente, ainda que seja no mesmo local. Serão outras sensações e, possivelmente, algumas delas complemen- 143
Estações da Vida tares às percebidas com as luzes do dia. Vá à praia à noite, sozinho ou acompanhado. Contemple as estrelas deitado ali por alguns minutos, ao melhor estilo caçador de astros. Escute o sussurro dos ventos e veja o mar distante, como se descansara para nos brindar com sua imensidão no outro dia. Sem precisar de roupas de ba- nho (ou curtas), nem protetor solar, é mais tranquilo, com menos gente, menos barulho, com espaço para to- dos, de modo tão convidativo, que é possível que role até mesmo um mergulho. Em recente experiência, vivida numa noite de sá- bado, depois das dez horas, na praia de Barra Grande (Piauí), vi como o compositor Armandinho está certo ao afirmar: “e hoje eu caminhei a praia inteira. Com os pés na areia, coração em alto mar”, em clara evidência de que é no poder do mar e da praia que encontro as ener- gias que preciso para me sentir em paz e seguir a vida, aprendendo a cada novo dia ou nova noite. 144
Alisson Dias Gomes ONTEM, CHOREI! Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar. Katherine Mansfield As lágrimas caíram e nem me dei conta. A saudade apertou, o fôlego faltou, a lembrança cresceu e o desejo partiu. Sem saber como lidar com o que estava guarda- do no repositório da mente e no arquivo do coração, a ânsia de extravasar foi maior e a materialidade do dese- jo veio à tona. A vontade foi maior que o controle! A cal- maria deu espaço temporário para um furacão de emo- ções! O ímpeto de externar impôs-se sorrateiramente diante do equilíbrio frequente! Sentado, sozinho, depois do pôr do sol, na sala do apartamento, diante do barulho do silêncio, contem- plando o leve sopro do vento, observando o pássaro pousado na árvore desnuda, chorei. O choro de alívio! O choro de mergulho interior! O choro de paz! Lembrei quase de modo automático que o choro da alma é livre e espontâneo; manifesta-se na face e re- presenta muito mais do que as gotículas de lágrimas que caem. Muitas vezes, simboliza alegria, lembrança, desejo, sonho e saudade. Contudo, existem pessoas que pensam o contrário, que o choro é tristeza, perturba- ção, agonia e angústia. Ah, o choro! Pode ser um remé- dio para tantos, em tão variadas circunstâncias, que não 145
Estações da Vida deve ser reprimido. Do mesmo modo, nem sempre o choro precisa ser explicado e dissecado. Pode ser vivi- do de modo simples ou intenso assim como um abraço apertado, em que eu me envolvo com o outro ou comi- go – dentro da redundância literária possível. Existem cheiros, imagens, recordações, falas e pensamentos que provocam choro. Choro de liberdade! Choro de expulsão! Choro de ressignificação! Choros de (re)encontro! Quase na mesma medida, ainda que em épocas e locais possivelmente distintos, existem silêncios, pausas, dúvidas e anseios que arrefecem faces e corações; blindam sensações e personalidades, fazendo com que poetas, cantores, atores, literatas (ou “pobres” mortais, como eu) percebam no choro evidências de que se vive com plenitude. Já chorei diante da saudade sentida, da homenagem prestada, da conquista alcançada, da despedida amarga ou doce, do voo levantado, do desfazer-se permanente, do elogio professado, do incentivo manifesto, do sentir pulsante, do texto escrito... Ah, texto e choro; choros e textos (no plural)! Quantos já foram escritos? Quantos ainda serão? Dentro de uma lógica dialética e complementar, infindável e constante, típica dos que vivem com as palavras relações de manifestos existenciais, textos são construídos e eternizados desta forma. Nesta realidade variante e variada, atrevo-me a dizer que tenha quem chore com palavras; quem chore com lágrimas e quem consiga mesclar lágrimas e palavras num choro de vida. 146
Alisson Dias Gomes Muito distante de tristezas ou de amarguras, o choro pode estar presente em nossas vidas como o sorriso, como o olhar e como o toque, confirmando o dito pelo grande Bob Marley, cantor, guitarrista e compositor jamaicano: “algumas lembranças são confusas: umas me fazem rir, quando lembro que chorei. Outras me fazem chorar, quando lembro que rimos juntos”. Por isso, ontem, chorei! Sem medo, sem vergonha, deixei que as lágrimas hidratassem minha face num processo de alívio espiritual e humano. 147
Estações da Vida DA AGITAÇÃO FRENÉTICA À CALMARIA DE UMA REDE Viver é acalentar sonhos e esperanças, fazendo da fé a nossa inspiração maior. É buscar nas pequenas coisas, um grande motivo para ser feliz! Mario Quintana Marcelo costuma ter uma vida agitada de segun- da-feira a sábado. Quase sempre é assim, com muitos compromissos e responsabilidades; muitas ligações, conexões sociais e obrigações a cumprir. Algumas des- tas são previsíveis em razão do trabalho numa empresa privada há quase 12 anos e por seu estilo de vida pro- gramado e relativamente “controlado”. De todo modo, outras solicitações surgem ao acaso, a depender da se- mana e das demandas institucionais e familiares, entre elas encontros com amigos – seja de modo virtual ou presencial – para afagos no coração, confidências e de- sabafos. Em meio à correria do cotidiano e a proximidade do fim de ano que terá muitas particularidades em 2020, entre elas a suspensão das aglomerações para festivida- des e confraternizações, Marcelo aceitou o convite de sua irmã mais velha, Maria, para uma pausa de três dias na praia ao lado do marido José, do filho Jesus e de mais dois parentes. Na programação, nada e tudo ao 148
Alisson Dias Gomes mesmo! Parece contraditório, mas é fácil explicar e en- tender: ao mesmo tempo em que se poderia fazer quase tudo, guardadas as orientações de isolamento e distan- ciamento social em razão da pandemia de covid-19, o nada seria o carro-chefe deste reencontro, após quase nove meses afastados. Foram estabelecidas algumas regras básicas como a inexistência de contato com outras pessoas, a não ser aquelas que dividiriam com ele os três dias à beira da praia numa casa ampla e com vista privilegiada, e o acordo de descartar idas a barracas de praia, bares e restaurantes. Interação externa zero! Na verdade, o grande intuito seria estar junto, entre poucos, e reforçar os laços que os unem num mergulho profundo de amor. Sem horários rígidos para o cumprimento das ta- refas diárias, o despertar poderia ser às 5h da manhã num dado dia para contemplar a beleza do nascer do sol e o horizonte natural bem como às 10h da manhã no dia seguinte. O almoço poderia ocorrer às duas da tarde depois de horas de banho no mar seguido de uma siesta (cochilo) de uma hora, algo incomum na vida de- les. Tudo livre! Tomar banho de mar, caminhar na areia da praia, jogar cartas e dominó, ouvir música, comer sem restri- ções e rigores, conversar trivialidades e contar lorotas, ler histórias em quadrinho da Turma da Mônica para o sobrinho de cinco anos, deitar-se numa rede sossegado para balançar-se enquanto escuta o canto dos ventos e contempla a beleza das ondas do mar... Este foi o esbo- 149
Estações da Vida ço resumido de tudo que Marcelo teve ao longo de três dias enchendo o coração de gratidão. E vale dizer que a maioria das atividades veio acom- panhada de chamego, abraços, beijos e toques carinho- sos fazendo com que o mundo agitado e o celular ficas- sem de lado, em segundo plano, sendo utilizado poucas vezes tão somente para registrar e eternizar momentos, a exemplo de um dengo bom compartilhado numa rede entre Marcelo e Jesus, quando entre as muitas confidên- cias revelou-se a alegria de estarem juntos e o desejo de que, em 2021, isto ocorresse com mais frequência e intensidade. Com o otimismo renovado, as energias recarrega- das e o desejo mútuo, planos começaram a ser traçados ali, algumas confabulações ganharam forças e sinais de que se concretizariam também, pois o mais importante havia sido estabelecido, o querer. Sabe aquele estudo livre do calendário com os compromissos profissionais e familiares, pois foi por aí que Marcelo começou a pen- sar no ano que se aproxima tendo 20 dias pela frente para ruptura completa. Sem deixar de viver o hoje, mas pensando também e sempre no amanhã, impregnado de esperança e desejos de renovação, ele e sua família acreditam piamente em tempos melhores. 150
Search
Read the Text Version
- 1
- 2
- 3
- 4
- 5
- 6
- 7
- 8
- 9
- 10
- 11
- 12
- 13
- 14
- 15
- 16
- 17
- 18
- 19
- 20
- 21
- 22
- 23
- 24
- 25
- 26
- 27
- 28
- 29
- 30
- 31
- 32
- 33
- 34
- 35
- 36
- 37
- 38
- 39
- 40
- 41
- 42
- 43
- 44
- 45
- 46
- 47
- 48
- 49
- 50
- 51
- 52
- 53
- 54
- 55
- 56
- 57
- 58
- 59
- 60
- 61
- 62
- 63
- 64
- 65
- 66
- 67
- 68
- 69
- 70
- 71
- 72
- 73
- 74
- 75
- 76
- 77
- 78
- 79
- 80
- 81
- 82
- 83
- 84
- 85
- 86
- 87
- 88
- 89
- 90
- 91
- 92
- 93
- 94
- 95
- 96
- 97
- 98
- 99
- 100
- 101
- 102
- 103
- 104
- 105
- 106
- 107
- 108
- 109
- 110
- 111
- 112
- 113
- 114
- 115
- 116
- 117
- 118
- 119
- 120
- 121
- 122
- 123
- 124
- 125
- 126
- 127
- 128
- 129
- 130
- 131
- 132
- 133
- 134
- 135
- 136
- 137
- 138
- 139
- 140
- 141
- 142
- 143
- 144
- 145
- 146
- 147
- 148
- 149
- 150
- 151
- 152
- 153
- 154
- 155
- 156
- 157
- 158
- 159
- 160
- 161
- 162
- 163
- 164
- 165
- 166
- 167
- 168
- 169
- 170
- 171
- 172
- 173
- 174
- 175
- 176
- 177
- 178
- 179
- 180
- 181
- 182
- 183
- 184
- 185
- 186
- 187
- 188
- 189
- 190
- 191
- 192
- 193
- 194
- 195
- 196
- 197
- 198
- 199
- 200
- 201
- 202
- 203
- 204
- 205
- 206
- 207
- 208
- 209
- 210
- 211
- 212
- 213
- 214
- 215
- 216
- 217
- 218
- 219
- 220
- 221
- 222
- 223
- 224
- 225
- 226
- 227
- 228
- 229
- 230
- 231
- 232
- 233
- 234
- 235
- 236
- 237
- 238
- 239
- 240
- 241
- 242
- 243
- 244
- 245
- 246
- 247