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Estações da vida 13 06 2023_sumario ok

Published by Editora Lestu Publishing Company, 2023-06-19 00:02:55

Description: Estações da vida 13 06 2023_sumario ok

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Alisson Dias Gomes DESCULPAS POR ALGO QUE FIZ Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende. Leonardo da Vinci Em certos momentos da vida é mais do que ne- cessário pedir desculpas, bem como também aceitá-las. Quem não erra? Quem nunca agiu de maneira intem- pestiva e agressiva em dado momento e depois se arre- pendeu do que fez e falou? Por que é importante parar e pensar sobre o ocorrido e fazer uma autoanálise da sua própria conduta e do discurso empregado? Pois é por aí que fazemos questão de expor ideias sobre uma temática que por vezes tira nosso sono e nos faz pensar e repensar sobre a vida, as pessoas e as experiências. Com base em momentos bem personificados des- tacamos que o desculpar-se representa reconhecimento do erro, arrependimento, tentativa de correção (ou pelo menos, minimização de uma dor), alívio e, se possível, acolhida. Dito desta forma é importante que tenhamos em mente que a conciliação pode ser melhor para os envolvidos, ainda que existam diferenças e verdades subjetivas, pois evita extensões de desentendimentos e maiores desgastes. Aliás, quase sempre é! Os erros podem acontecer de modo espontâneo e/ou intencional, já os pedidos de desculpas precisam ser fruto de intencionalidade e aqui falamos das des- 151

Estações da Vida culpas sinceras, dos perdões de alma e dos passos atrás extremamente francos. O tempo para ação pode ser de alguns minutos ou horas após o ocorrido ou até mes- mo dias, meses e anos até que as benditas desculpas possam ser proferidas com verdade, libertação e con- ciliação. Além disso, as desculpas podem servir para si- tuações triviais do cotidiano ou machucados profundos que geraram cicatrizes no corpo, na mente e na alma. A importância do desculpar-se é tão grande, levan- do em conta que somos seres humanos aprendizes e errantes, que ela é uma das “palavrinhas mágicas” en- sinadas quase sempre na primeira infância: por favor, obrigado, com licença, desculpe, bom dia, boa tarde e boa noite. Justamente por deter tal valor deve estar pre- sente em nossas vidas o máximo de tempo possível. Por certo, quando crianças e adolescentes, esta- mos mais propensos a desculpar-nos e com o passar do tempo desativamos este recurso linguístico com maior frequência por crer que estamos mais certos e seguros. Talvez isso se dê pelo enrijecimento da vida, pelo acú- mulo de experiências, pelo sistema de autodefesa e sen- so de sobrevivência, pela cultura geográfica, pela falta de exemplo familiar, social ou pela natureza individual. O fato é que cremos que o desculpar-se é tão im- portante quanto o agradecer, expresso através da tão falada gratidão antecipada, amplamente comentada nos dias de hoje. Por isso, mais uma vez de modo ex- plícito e intimista, foi a nossa vez de verbalizar o pedido de desculpas, em uma manhã de terça-feira, com o dia ensolarado por fora e nublado por dentro. Era preciso 152

Alisson Dias Gomes fazer aquela ligação de pouco mais de 10 minutos. A ideia era colocar em prática o que defendeu a sábia es- critora Cecília Meireles: “Se você errou, peça desculpas... É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?”. Naquela ocasião em específico, um e-mail ou men- sagem de WhatsApp não seriam suficientes para expres- sar tudo que estava por trás daquele pedido. As palavras precisariam vir acompanhadas de entonação, modula- ção, respiros, pausas e diálogos, ainda que breves, mas necessários. Fazer as pazes com a outra parte (ou pelo me- nos mitigar certas dores causadas) nos abre caminho para (re)encontrar a paz, praticar o autoperdão e se- guir aprendendo com os erros. Daí porque as desculpas podem muitas vezes significar verdadeiros abraços co- nosco mesmos em meio a situações ardentes. O descul- par-se serve a todos: a quem recebe e principalmente a quem pede! 153

Estações da Vida JAMAIS JOGUE A TOALHA! A persistência é o caminho do êxito. Charles Chaplin Todos os dias, todo mundo trava lutas indescritíveis e pessoais que nem sempre somos capazes de ver, re- conhecer, apoiar e nos solidarizar. As causas para nossa miopia ou astigmatismo são diversas, variando desde o modo automático da vida, quase sempre ativado pelo dia a dia extenuante, pela incapacidade de nos colocar no lugar do outro (a famigerada empatia), por descuido e falta de sensibilidade ou pela pouca evolução espiri- tual e humana etc. São lutas que requerem foco, persistência, paciên- cia, planejamento, resiliência, pesquisa, silêncio, acolhi- da, diálogo, solidariedade, entre tantas outras neces- sidades. Ou seja, muita coisa! Sem medo de errar ou parecer exagero, é muita coisa mesmo! Longe de ter fórmulas mágicas ou manuais com o passo a passo para encontrar saídas e soluções, trago aqui tão somente um estímulo aos que, como eu, vivem desafios diários que colocam à prova nossa capacidade de viver e/ou sobreviver: jamais desista! Em nenhuma hipótese desista por maior que a demanda possa ser ou se apresente naquele exato momento. 154

Alisson Dias Gomes É inconcebível que você entregue os pontos, por mais desafiadora que a situação seja. Para tudo tem saí- da, sempre, ainda que no primeiro momento não se- jamos capazes de ver e aceitar aquilo que se delineia como portal de acesso e fechamento. Isto é, como um novo caminho a trilhar, por meio de novas realidades, em especial diante do sucesso quando muitos querem a vida que você tem, mas poucos desejam o caminho que você trilhou. As dimensões, percepções e abordagens para en- carar as situações são e sempre serão particulares. Isso é um fato, pois somos seres únicos! Das mais simples às mais complexas; seja de alguém muito próximo (um familiar, um namorado, um amigo, um filho etc.) ou de alguém distante (um colega, um conhecido, um conter- râneo etc.), o que nos leva a reafirmar que não devemos minimizar o sentimento alheio, seja por uma perda que aparentemente para mim não tenha tanta importância, mas que para o outro pode representar um dos motivos de viver ou uma conquista que a priori pode me parecer irrelevante ou pouco merecedora de tamanha euforia e vibração. Confirmei como somos particulares nas mais va- riadas situações em conversa com amigos nas últimas semanas. Em especial, neste começo de ano, quando estamos impregnados do recomeçar, do fazer novo, das novas possibilidades... Na verdade, sempre obser- vo ações e reações diante dos ocorridos da vida, inde- pendente se foram momentos felizes ou trágicos. 155

Estações da Vida Somos verdadeiros mundos à parte, ambulantes, aprendizes e evolutivos, em ritmos diferentes. Enquan- to uns reagem de modo específico ao desligamento de uma empresa, outros demonstram posturas atípicas. En- quanto umas se lançam a nova relação renovando espe- ranças e bem-quereres, outras se fecham num mundo de entendimento e procura de respostas. Enquanto uns vivenciam a morte de um parente de forma previsível, outros encaram de modo peculiar. Diante dos desafios diários, me dou conta de que só é feliz quem desfruta de si e saboreia sua individua- lidade com plenitude e intencionalidade, vindo a ser capaz de fazer o outro feliz por respeitar essa mesma liberdade! 156

Alisson Dias Gomes O SORRISO SEM MÁSCARA A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranquilidade, querer com mais doçura. Lya Luft Creio que foi pouco mais do que um minuto e trin- ta segundos, mas tempo suficiente para gerar boas sen- sações e estimular reflexões. O fato ocorreu no último fim de semana entre a Rua Visconde da Parnaíba e a Avenida Homero Castelo Branco, no bairro de Fátima, em Teresina, Piauí. Era por volta de 8h15 da manhã e eu freava tranquilamente o carro para parar no semáforo vermelho. No carro ao lado, uma menina de aproxima- damente cinco ou seis anos. Sentada sozinha no banco de trás, olhava para mim e se comunicava com os olhos, aparentava ir para um passeio pela forma como se ves- tia. A princípio aqueles segundos iniciais de identifica- ção, contato visual e familiaridade. O cabelo repartido ao meio e amarrado em chuquinhas me sugeria inocên- cia e ternura. Nos bancos da frente, um homem e uma mulher, o que me levou a crer serem os pais. No instante seguinte, ela me deu um tchau tímido e acanhado. Olho, sorrio e retribuo. Sozinho no meu carro, me conectei e comuniquei de forma gestual com aquele ser humano 157

Estações da Vida pequenino. Ambos usavam máscaras e coube aos olhos maior expressividade. Após a resposta, provavelmente esperada, a timi- dez da garota deu espaço à interação mais calorosa e ela levantou a mão mais alto. Balançava com vigor e parecia esperar o mesmo de mim. Prontamente atendi, sorri e lembrei das vezes em que agi de modo seme- lhante, ao lado dos meus três irmãos nas andanças no carro dos nossos pais. Pensei também em como a pureza e a ingenuidade das crianças as tornam tão especiais e viajei em pensa- mentos conectando-me com os sobrinhos, temporaria- mente distantes em razão do isolamento social. Por cer- to, a presença constante tem sido a da saudade nesses últimos meses. O sinal ia mudando de cores, do vermelho para o verde, dando passagem para que seguíssemos nossos caminhos. E aí, a surpresa encantadora, quase ensaia- da, ao movimento de partida do seu carro, ela abaixa a pequena máscara colorida e dá um sorriso. De modo faceiro e largo, abre a boca e me presenteia com algo imensurável: sua alegria. Sem esperar, fiquei encantando com a ação da me- nina, a quem dei vários nomes na minha mente criativa e confabulei histórias para explicar seu comportamen- to tão meigo. Apressei-me em baixar minha máscara e correspondi. Sorri discretamente e espero que ela tenha visto. Sorrir é troca! 158

Alisson Dias Gomes Ainda que não tenha a pureza de uma criança, era o mínimo que poderia fazer naquele momento, sorrir. Em seguida, o carro vermelho partiu e os pais nem se inteiraram da comunicação estabelecida e da troca en- tre desconhecidos. Recebi muito mais do que dei. Além disso, me perguntei onde estão meus sorrisos? Mesmo em tempos complexos e duros, é preciso sorrir diante das oportunidades que a vida oferece. E olha que ela oferece a cada amanhecer, pois o fato de termos novas chances indica que mudanças podem ocorrer. Da situação vivida, me lembrei de amigos e amigas que sorriem sempre. Ainda que estejam passando por momentos ou situações adversas, eles esboçam sorrisos e até mesmo gargalhadas. Rememorei os benefícios que o sorriso proporciona, a exemplo de estimular o sistema imunológico, aliviar a tensão física e o estresse, reduzir a ansiedade e o medo, ajudar na resolução de conflitos, liberar substâncias químicas associadas ao bem-estar e inspirar comportamentos positivos. De fato, foi um pouco de tudo isso que aquela me- nina me oportunizou, levando em conta que o riso mui- tas vezes é o melhor remédio para a mente, como nos ensina Madre Teresa de Calcutá ao afirmar que sorrir faz bem não apenas para si, mas para todos: “toda vez que você sorri para alguém, é uma ação de amor”. 159

Estações da Vida O ÚLTIMO CANTO DO GALO Não há regra sem exceção. Miguel de Cervantes A minha rua no bairro de Fátima, em Teresina, Piauí, não é a mesma. Como tudo na vida, tem passado por mudanças ao longo do tempo por razões variadas, desde o ir e vir de pessoas (proprietários, inquilinos e vi- zinhos), aspectos construtivos e da vida em comunidade até os ditames econômicos, imobiliários e espaciais. De todo modo, lá segue existindo a casa da família Dias Go- mes há quase 35 anos, onde vivi, passei diversas fases, fui muito feliz e sigo encontrando um lar repleto de aco- lhida, boas lembranças e pronto para ocasiões diversas de refúgio e reencontro. Em tempos de pandemia do coronavírus (covid-19), para lá regressei como porto seguro a fim de encarar o isolamento social preconizado pelas autoridades sanitá- rias internacionais e nacionais ao lado de dois jovens se- nhores sexagenários e da irmã caçula. Desde o primei- ro momento, a ideia consensual foi dar e receber apoio durante dias incertos, atípicos e duradouros, desde as tarefas domésticas até as instabilidades emocionais. E eis que diante de tantas transformações imedia- tas uma chamou bastante atenção após a segunda noite de dormida na minha antiga casa. Ao lado, há mais ou 160

Alisson Dias Gomes menos quatro meses, reside uma simpática senhora por nome Teresa. Para os mais íntimos, o tratamento pode e deve ser, segundo palavras dela, Dona Teresinha. Do alto dos seus 85 anos de vida e muitas experiências a compartilhar, a senhora ativa, religiosa, curiosa e otimis- ta, chegou acompanhada da filha, seis galinhas e um galo. Elas passariam facilmente despercebidas, pois cul- tivam hábitos simples e discretos bem como também são amáveis e humildes, contudo o cucurito do galo (também conhecido por cacarejo ou canto) em determi- nados momentos do dia jamais garantiria silêncio pleno em dias de confinamento e pouquíssimo movimento na vizinhança. Em dada ocasião em que eu sairia da casa dos meus pais para compras no supermercado, ofereci-me para obter possíveis mantimentos e demais itens que as novas vizinhas viessem a precisar levando em conta que teriam limitações de deslocamento e restrições por fa- tores diversos. Para minha surpresa e encanto, ao travar diálogo amistoso, Dona Teresinha confidencia um pou- co da vida, da rotina, dos hábitos e das manias, entre os quais se nota de cara uma fala saudosista dos tempos em que vivia num sítio, no interior da cidade de Cajazei- ras, Paraíba. Lá, ela cultivava diversas espécies de plan- tas, dentre as quais: milho, feijão, algodão, arroz etc.; criava animais como vacas, ovelhas, porcos, galinhas etc. e desfrutava da vida no campo, bem menos barulhenta e arriscada do que nas grandes cidades. 161

Estações da Vida Pelas circunstâncias da vida e diante do relato da vizinha, com os olhos brilhantes, muitas reflexões vie- ram à mente e fui tomado pelo estímulo a conjecturar e analisar. Em especial, me peguei pensando nas diversas vezes, nos últimos dias, em que o canto do galo repre- sentava incômodo e desconforto para mim por ter que despertar na hora dele e não mais ao meu bem-querer, bem como também ao final da tarde quando, de repen- te, era surpreendido pelo cacarejo potente da ave en- louquecida. Enquanto para mim, o galo significava des- conforto em meio ao contexto urbano, creio que para Dona Teresinha simbolizava um pouquinho do mundo de outrora, deixado para trás. Na última quarta-feira, numa nova oferta de ajuda, ao contatar Dona Teresinha pergunto pelo galo, tendo em vista que já não o ouvira há três dias. Ela me diz que o deu para a empregada doméstica, pois temia que incomodasse os vizinhos, além de proporcionar melhor vida ao animal já que a funcionária da casa mora numa cidade próxima e tem melhores condições de criá-lo. Neste momento pensei no desprendimento da senhora e me recordei de uma frase de Luís Fernando Veríssimo: “Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se”, em clarividên- cia de que se aplica a tudo, não somente ao galo e sua nova morada, mas ao entendimento de que é preciso se desprender do passado para viver o futuro. 162

Alisson Dias Gomes PAPO RETO E VIDA MAIS LEVE! Não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer. Fernando Pessoa Às vezes dá uma vontade enorme de chamar al- gumas pessoas para conversar e falar algumas verda- des por uma perspectiva bem particular. Sem exaltação, num diálogo franco e honesto, com equilíbrio e bom senso creio que é possível trocar e colocar em comum, como preconiza a própria comunicação, aquilo que nos aproxima, toca, repele e diferencia! E sobre isso faço questão de deixar claro que as verdades são relativas e levam em conta percepções sobre as situações, bem como a subjetividade e o repertório cognitivo e cultural dos envolvidos. Ademais, têm fortes atributos pontuais: momento, espaço, circunstância, estado de ânimo e au- toconhecimento. A vida e a própria forma de viver são relativas! No caso, eu seria somente uma das partes em aprendizado tanto quanto a outra. Sem pretensão de deter a verdade, num sentido único e fechado, mas tão somente ser um dos interlocutores desse processo de partilha, conclusão, entendimento, (re)começo e ressig- nificação, eu insistiria na troca de ideias de modo racio- nal e real como forma de libertação e leveza em busca 163

Estações da Vida da fluidez da vida, resgatando acordos e manifestações. Sabe aquela história de colocar o trem de novo nos trilhos e deixá-lo seguir viagem mesmo sem ter contro- le sobre o destino, com alguns vagões carregados de aprendizados, lembranças, experiências, cicatrizes e ou- tros vazios, aguardando novas recargas? É bem por aí... Daí a importância de se reconhecer que uma separação não significa obrigatoriamente o fim, mas o entendi- mento de que algo mudou e precisa ser encarado, pois os sentimentos, as ideias e os caminhos também muda- ram e não poderão ser negligenciados. Tenho pensado de modo mais frequente nos últi- mos meses e anos porque vejo atitudes no âmbito so- cial, profissional, familiar e pessoal que negam a realida- de e/ou deturpam as mensagens, os gestos e as ações. É como se um bloqueio do entendimento tácito contri- buísse para a negação, o que a meu ver dificulta ainda mais a evolução individual das pessoas envolvidas, res- peitando o tempo de cada um(a). Tenho refletido mais e mais porque o tempo pre- sente está redimensionado, as certezas se esvaíram de vez e a sensibilidade se tornou mais aguçada em deter- minadas situações. Simplesmente penso, porque diante das leituras, análises, conversas, escutas, escritas e res- gates pessoais é impossível abster-se do sentir após tan- to pensar. Como revelado para poucos amigos, não há como passar ileso após provocações vívidas de palavras expostas pela metade ou mal colocadas em fragmentos soltos e temporários. 164

Alisson Dias Gomes Algumas reflexões só são sentidas e devidamente compreendidas por aqueles cujos sentidos não cami- nham em linha reta o tempo todo ou quando de modo particular paro, penso e converso comigo num processo de autoanalise, algo ocorrido de modo constante, sob supervisão (ou não). Tento aproximar-me do dito popularmente: “sou responsável pelo que digo, não pelo que você entende”, na tentativa de perceber que o poder da interpretação é seu, ainda que eu participe do processo. Talvez por isso eu explique tanto a ponto de pessoas próximas me considerarem didático, metódico e cartesiano por justi- ficar ou esmiuçar frases ditas ou escritas, a princípio tão óbvias, mas ainda assim dissecadas ao extremo. Com tais características atribuídas e reconhecidas, sem sofrimento ou vergonha, infelizmente ocorrem dis- torções do significado real dos objetos, das palavras e dos diálogos, tendo em vista que a base para interpre- tação serão outras referências, o que me leva a requerer mais paciência e resiliência para lidar com tudo. 165

Estações da Vida SEM OLHAR PARA A GRAMA DO VIZINHO! Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol. Pablo Picasso É tão comum ouvirmos a frase “a grama do vizinho é sempre mais verde” que somos levados a crer nesta afirmação como se fosse uma verdade. E, por sinal, o sentido e o significado desta sentença costumam ser expressos e entendidos de formas bem variadas. Enquanto para algumas pessoas pode ser motivador e instigante, para outras soa como demonstrativo de cobiça, inveja e ambição. Tudo dependerá da perspectiva e do observador. Algumas vezes, pode até ser que a vida do vizinho ou de outras pessoas referenciais seja mais confortável, organizada e feliz em alguns aspectos se comparada com a nossa. Outras vezes, não; desconfie que não. E ainda que seja, comemore! É pouco provável que o namoro/casamento, a situação financeira, a inteligência/ capacidade de aprendizagem, a relação com a família, a popularidade, a carreira, o status social etc., ou seja, tudo esteja sempre melhor o tempo todo. Ainda assim, se for, vibre! 166

Alisson Dias Gomes O mais importante a ser considerado em todas as situações é que devemos evitar comparações. Embora difícil, isso faz-se extremamente necessário, em especial em tempos tão fugazes. Aliás, viver sem comparar-se é a demonstração explícita de sapiência contemporânea, porque as comparações são impróprias, injustas, inconvenientes e castradoras para um dos lados, uma vez que não consideram as especificidades do ser humano e suas características, virtudes, desafios e trajetórias, levando em conta os tempos, as condições e os aspectos circunstanciais. Ao nos comparar com o vizinho (e a grama dele), prestamos um desserviço conosco, contribuindo para a autossabotagem e o abalo emocional. É como se envenenássemos o terreno fértil para colheitas futuras e podássemos o crescimento das árvores frondosas por desrespeitar o ritmo de cada uma delas. Por isso, é preciso atenção máxima, sempre levando em conta a individualidade, aplicando-se a cada um de nós, bem como também a outras pessoas: irmãos, primos, amigos, colegas de trabalho e, até mesmo, companheiros. Comparação não está com nada e não faz bem a ninguém! É bem oportuno internalizar esta ideia e convertê-la num mantra diário. Éóbvioquenãoétododiaqueestamosempoderados, confiantes e motivados, entretanto depreciar-se é algo muito ruim. Inferiorizar-se contribui somente para o inebriamento da visão, o desânimo constante e a fuga de soluções para os desafios cotidianos. Daí porque 167

Estações da Vida o rebaixamento deve ser combatido por todos, pois como bem canta Renato Russo: “se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança.” Sem pressa e sem pressão, é possível que cheguemos lá, onde estabelecemos como meta, reconhecendo cada passo dado e cada aprendizado adquirido. Toda esta provocação-reflexão recai por último no ponto da grama verde do vizinho que se materializa nas redes sociais, em especial com todos os aplicativos de imagens disponíveis que valorizam rotinas e experiências visuais, chegando ao ponto de ser terreno propício para o adoecimento mental, a ostentação de “pseudovidas” e a construção de realidades paralelas com filtros, matizes e recursos ao bel prazer do responsável. Sendo assim, é preciso cada vez mais cuidado com a própria grama. Isto é, estude a sua grama. Tente entender as características das espécies presentes no seu cercado. Regue. Apare. Troque o adubo e os substratos. Crie cenários de interação entre as plantas. Combine os recursos de decoração com cada tipo de planta. Analise a incidência solar. Modele e, até mesmo, remodele conforme cada estação do ano e seu próprio estado de espírito. Em síntese, deixe a grama do vizinho de lado e lembre-se todo dia que cada um cuidando da sua grama tende a ser mais conhecedor e íntimo do mundo chamado ser humano. 168

Alisson Dias Gomes A CULTURA DA FALTA Quem nos faz falta acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta. Caio Fernando Abreu A criação e educação da maioria das pessoas são quase sempre voltadas para a falta. E, na verdade, deveria ser o contrário ou pelo menos poderia ser mais direcio- nada para o real, o existente e o presente. Faço questão de tratar sobre a cultura da falta por- que este tema também me encasquetou por algum tem- po. Atualmente, isso se tornou algo ressignificado e mui- to bem pacificado ao desenvolver a consciência de que a falta não é necessariamente o problema. Ela está presen- te (ou talvez nem venha a estar) em algum momento da vida, mas somos estimulados a crer que ela é o impediti- vo para a alegria, o elemento castrador do sucesso e/ou o combustível para o desânimo, a apatia e o desinteresse. Vamos por partes e voltemos lá para o início. Es- tamos imersos numa realidade que pouco enaltece as qualidades, as virtudes, os elogios e as fortalezas huma- nas. Aliás, somos constantemente julgados, estigmatiza- dos, criticados e condenados. Dedos em riste apontam fragilidades. Sentenças são proferidas a torto e a direito por falhas, incompreensões e incapacidades, e a prática frequente da exclusão por divergência de pensamentos tem sido regra comum nos relacionamentos. É impactan- 169

Estações da Vida te, mas muitas vezes somos desestimulados a ser quem somos, desrespeitando nossas particularidades e subjeti- vidades. Pensemos de modo hipotético... Com frequência ocorrem por aí e aqui situações assim: ao chegar em casa, uma criança de 8 anos apresenta o boletim da escola para os pais. Ela tem boas notas e segue em evolução dentro da normalidade do processo de aprendizagem. A média da escola é 7 e no momento as notas são: português, com média 9, e matemática, com média 5. O que você imagina que acontece? De modo geral, a matemática torna-se uma preocu- pação (às vezes, um verdadeiro calvário), alvo de conver- sas dos pais e possivelmente repreendas e novas estraté- gias para melhoria; no entanto provavelmente, o mesmo esforço não se dê para os avanços em português. Isso porque desde cedo, ainda pequenos, o esforço está em “consertarmos” aquilo em que não somos tão bons em vez de potencializarmos nossos talentos, conhe- cimentos e aptidões mais naturais. E vale reforçar que to- dos possuem e precisam ser estimulados. De cara, faço questão de afirmar que isso não signi- fica que, em muitos momentos, precisaremos desenvol- ver competências em que sejamos apenas medianos a fim de atingir um objetivo. A meu ver, o ponto intrigante está no fato de que os nossos pontos fortes, muitas ve- zes, acabam passando batido, sendo subutilizados diante daquilo que não temos (ou não somos tão bons) fortale- cendo justamente a cultura da falta. 170

Alisson Dias Gomes Ah! E vale dizer que isso se aplica para muitos mo- mentos da vida. Quer ver só? Num relacionamento amo- roso muitas vezes batemos na tecla de que a outra pessoa não tem isso e aquilo ou não é assim ou assado, quando na verdade o ideal seria ver justamente o que o outro é e traz consigo enquanto ser humano único e repleto de especificidades. Num ambiente de trabalho, somos apontados (e até mesmo taxados) pela falta de habilida- des e talentos, quando poderíamos ser valorizados pelas singularidades existentes. Neste contexto, de acordo com o Instituto Gallup, importante empresa de pesquisa de opinião dos Estados Unidos, apenas 20% dos profissionais sentem que usam seus pontos fortes todos os dias. Pasmem, mas é isso! Seja na vida pessoal ou profissional, estamos sempre em busca de cobrir as faltas e raras vezes potencializamos nossas forças, pois nossa educação privilegia a falta. Acredito que é chegado o momento de fortalecer o que temos e somos hoje. Mesmo tendo consciência de que mudamos e consequentemente podemos melhorar tente apegar-se ao hoje, sem viver com expectativas o tempo todo, pois como sentencia Oscar Wilde: “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. Daí porque faço questão de promover esta cha- coalhada: você vive ou apenas existe? Você vive a cultura da falta ou se aproxima da cultura do sou/tenho? 171

Estações da Vida OS MISTÉRIOS POR TRÁS DE UMA MORTE INESPERADA De todas as despedidas, a mais inesperada é a da passagem da vida para a morte, pela impossibilidade de pedir para a vida ficar, só mais um pouco. Samuel Lopes Perguntas sem respostas. Olhares perdidos. Silên- cios perturbadores. É a realidade comum de quem se depara com a morte, principalmente quando ela é de- corrente de um ato de autodestruição, o suicídio. Por dias, semanas, meses e provavelmente anos será comum o sentimento de vazio e as desconexões da realidade na tentativa de entender algo tão brutal e enigmático. Isso acontece com quase todos que viveram a experiência do suicídio de forma direta ou indireta. As pessoas próximas também são afetadas e quase sempre desconhecem a forma mais adequada de agir, pois não sabem o que falar nem muito menos em que momento tocar no assunto. Por isso, o suicídio não deve ser encarado como fato isolado, ainda que se refira a um indivíduo, pois, na verdade, se trata de algo social. Envolve a todos e provavelmente decorre de um processo de adoecimen- to, podendo ter infinitas causas a depender de cada ser humano e todo o seu mundo de particularidades. 172

Alisson Dias Gomes Considero oportuno trazer esta reflexão para nos- so dia a dia independentemente de um caso recente (ou não), ainda em fase de investigação já que de vez em quando nos deparamos com histórias que se repe- tem. Precisamos estar atentos a alguns elementos que compõem o espectro do comportamento suicida para ampliar o entendimento sobre o tema e, com isso, con- tribuir para que os suicídios sejam evitados. De todo modo, temos consciência de que não é possível ter con- trole sobre tudo. A sociedade precisa abrir-se para o cuidado cole- tivo, as práticas de autoconhecimento e a mediação de conflitos. É importante aprendermos a distinguir o sui- cídio do comportamento suicida. De modo simples, o suicídio é o ato consumado de tirar intencionalmente a própria vida e o comportamento suicida aparece antes do ato, sendo composto por pelo menos duas das três fases reconhecidas pelas ciências do comportamento: pensamento, plano e tentativa. O pensamento é a vontade abstrata de morrer. O plano é a vontade concreta, aquela que tem o caminho desenhado mentalmente para a consumação do ato e a tentativa constitui-se como um comportamento suicida de materialização. E, diante desta perspectiva, considero acrescentar uma afirmação do escritor francês George Perros, que reflete muito do que penso: “O suicídio não é querer morrer, é querer desaparecer”. A atitude extrema de atentar contra a vida e, por vezes, alcançar a morte precisa ser tratada com serieda- 173

Estações da Vida de, respeito, discrição e ética. Deve ser regra para todos os entes da sociedade, desde os agentes de saúde e se- gurança até os profissionais de comunicação. Por sinal, se trata de um dos temas mais complexos na cobertura jornalística, pois não existe consenso sobre sua abor- dagem, bem como sobre os modos como ela deveria ocorrer. O cuidado extremo e a necessidade de transitar com cautela a fim de não servir de estímulo/gatilho para novos casos, em especial para cidadãos adoecidos ou propensos a práticas similares de autodestruição, de- vem ser continuamente levados em conta por todos. Com isso, me proponho a afirmar que nosso olhar deve ser sempre humano! Não podemos demonizar os suicidas a ponto de taxá-los com estigmas e, com isso, contribuir para estereótipos e/ou exclusões. É preciso levar em conta que algo feito num momento de descon- trole, perturbação e, possivelmente, crise ou surto não define uma pessoa. Todos estão propensos a atitudes extremas em situações complexas e/ou perturbadoras. Nossa humanidade precisa gritar pela vida e olhar o outro sempre com mais acolhimento. Particularmen- te, com base em experiências vividas com conhecidos e amigos, creio que as nossas subjetividades e crenças religiosas devem optar por orar para que as almas ator- mentadas nos seus últimos instantes recebam o descan- so eterno e a família e amigos encontrem o conforto espiritual necessário. 174

Alisson Dias Gomes A VIDA E SEUS CICLOS Você deve ocupar o seu lugar no ciclo da vida. O Rei Leão O ser humano é naturalmente social e sociável. Com isso, temos uma tendência muito grande a procu- rar relacionamentos com outras pessoas por questões contextuais, circunstanciais e pessoais. De todo modo, também existem aqueles que se fecham e optam por posturas e condutas diferentes, privilegiando menos contatos e menos diversidade de pessoas em sua vida, seja numa determinada fase ou por ter esta caracterís- tica muito acentuada. Por razões variadas e todas me- recedoras de respeito escolhemos ao longo da nossa jornada a forma como queremos viver, em termos de interação com amigos e amigas, na infância, juventude, fase adulta e idosa. Com a clareza de que somos resultados das rela- ções que vivemos e construímos ao longo da jornada evolutiva, retemos aprendizados e lembranças que va- lem a pena. Guardamos na mente e no coração imagens e histórias que nos marcam de modo fraterno. Perdoa- mos agressões e aprendemos a conviver com cicatrizes, desde que estas não ultrapassem os limites do amor- -próprio nem se tornem permanentes. Relevamos e dei- 175

Estações da Vida xamos fluir as situações de descompasso e descontrole quando não são rotineiras e entendemos que do outro lado também está um ser humano, com consciência (ou não) de que é um eterno aprendiz. E vale dizer, sem medo de errar, que a verdade pode variar, a depender da perspectiva de quem vê, dos fatores levados em conta, do repertório cognitivo, das marcas deixadas, do próprio momento em si de cada ator social envolvido e da capacidade individual de re- conhecer que uma hora você acerta e na outra hora você erra. Está tudo certo! Todos estão sujeitos a errar em algum momento, seja por falta ou por excesso, seja por incapacidade de ampliar a visão ou por transferir expectativas e desejos próprios ao outro. Neste contexto, revelo sem tantos pormenores a história de Eloá e Ravi, dois amigos que se encontra- ram num momento de transição e fechamento de ciclos; consequentemente, eles teriam pela frente novas pers- pectivas. Ao longo de 20 anos, eles viveram muitos mo- mentos marcantes. Na verdade, incontáveis situações felizes e desafiadoras! Experiências, confidências, histórias, descobertas, partilhas, aconselhamentos, apoios... Quase tudo fez parte da relação dos amigos, de modo que um ajudou, apoiou e esteve com o outro em ocasiões cruciais de evolução pessoal, profissional, social... Por muito tem- po a relação foi saudável e companheira revelando um encontro de pessoas diferentes e que conviviam har- moniosamente, mesmo tendo percepções da vida bem 176

Alisson Dias Gomes particulares. Normal, não é? Afinal de contas, viver so- cialmente é isso! O bem-querer e o respeito foram por muito tempo alguns dos alicerces para sustentação da relação. Além de tantos outros fundamentos, contudo, nos últimos anos e meses muita coisa tem mudado. Fatores diversos têm contribuído para novos olhares, desde aspectos ex- clusivamente individuais até aqueles que envolvem iso- ladamente os dois, em termos de “toques” sobre a vida e os valores humanos, e, por último, as questões sociais. As divergências se tornaram mais comuns e gritantes. As alfinetadas e intolerâncias ganharam força de am- bos os lados. Os hiatos e as incompreensões passaram a permear conversas e silêncios. E se antes, as várias vírgulas pontuavam o caminho daquela história-amizade, agora é chegado o momento de colocar o ponto final. Sem alegria ou tristeza, mas tendo em vista o aprendizado de que as relações pre- cisam ser leves, mesmo diante de adversidades e pro- blemas supérfluos ou complexos, Ravi nos confidenciou que o respeito e o bem-querer a Eloá permanecerão, mas é chegado o momento de soltar as mãos e deixar fluir, pois cada um tem um caminho evolutivo por dian- te. Nos novos capítulos cada um levará consigo aquilo que acredita ser o mais apropriado, tanto da relação que viveu como também das outras amizades que possui, se abrindo também ao que virá pela frente. A vida e seus ciclos! 177

Estações da Vida CONVITE FOLHAS Novamente você se permitiu conhecer mais 15 pontos de vista sobre experiências, situações e locais que nos sensibilizaram nos últimos anos em particular. E mais uma vez deixo um convite e lhe peço para reservar alguns minutos para apreciar a Estação Outono Musical. Uma playlist com 15 músicas escolhidas com cari- nho e que possuem conexões afetivas com os textos e as árvores repletas de folhas alaranjadas, típicas desta época do ano e encontradas nas andanças deste eterno aprendiz: Toda forma de amor Love on top A tua voz Lulu Santos Beyoncé Gloria Groove Nobre vagabundo The don´t care Don´t know why about us Daniela Mercury Norah Jones Michael Jackson Because you loved me Tocando em frente Algo parecido Céline Dion Almir Sater Skank Sere Nere When we were Dias melhores young Tiziano Ferro Jota Quest Adele Vambora Quando a chuva Stay with me passar Adriana Calcanhoto Sam Smith Ivete Sangalo 178

Alisson Dias Gomes O outono, tido comu- mente como estação de ampla transformação e mudança de ênfase, estimula o crescimento interior e se mostra altamen- te revelador se vivido com in- tensidade. É um período mui- to bom para avaliar tudo que foi plantado e agradecer a co- lheita, tendo consciência do aprendizado. Trata-se da nossa estação preferida! Bons sentidos! 179



Alisson Dias Gomes 181



Alisson Dias Gomes O ALHEIO TAMBÉM PODE SER MEU Aqueles que negam liberdade aos outros não a merecem para si mesmos. Abraham Lincoln Ser o outro, por um instante, num redimensionamento de posições, talvez nos ajudasse a entender melhor a alegria e a dor que ele sente. Não seria a dor do outro, seria a minha dor, a sua dor, a nossa dor. Aliás, poderia ser, ainda que guardadas as devidas proporções de quem a vivencia. Tudo depende da nossa inclinação para nos colocarmos no lugar do outro, da grandeza da alma, do entendimento pleno e concreto da empatia, definida como a capacidade psicológica para sentir o que sentiria outra pessoa caso eu estivesse na mesma situação. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente o outro. O último atentado a chocar o mundo, nas Ramblas, em Barcelona, Espanha, me afetou. Em 17 de agosto de 2017, mais de 130 pessoas, de 34 nacionalidades, fo- ram vitimadas (sendo 13 mortos e 120 feridos). Isso me fez tentar entender o inexplicável. Me fez pensar ain- da mais, seja pela relação com o país, seja pelo fato de ter morado em Barcelona e ter vivido momentos felizes 183

Estações da Vida naquele local, seja pela simples constatação de que a humanidade caminha por vielas de intolerância, perse- guição, eliminação e falta de amor. Em outro episódio também muito recente, a empa- tia pediu passagem novamente. Desta vez, o concurso de Miss Brasil, realizado em 19 de agosto do mesmo ano e que resultou no inédito coroamento de uma piauien- se como a mulher mais bela do país, a jovem Monaly- sa Alcântara. Vi de tudo. De manifestações favoráveis, bairristas e enaltecedoras, provocações descabidas de rivalidade irracional a opiniões contrárias e preconcei- tuosas, típicas de qualquer concurso de beleza e previ- síveis para a ocasião, diante da subjetividade e do belo, que variam conforme o momento, o local, o tempo, a cultura, entre outros aspectos; diante disto, coloco-me no lugar do outro, e penso na necessidade de reafirmar valores de complacência, generosidade e aceitação. Como compôs Nando Reis e a inesquecível Cás- sia Eller plasmou por sua potente e marcante voz, pare- ce mesmo que “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”, basta observar os comentários indiferentes, desinteressados e isentos de entendimento básico dos perigos dos avanços do terrorismo no mundo, com ên- fase ao sofrimento dos cidadãos espanhóis e de tantas outras nações. A simplista percepção de que estamos distantes daquela realidade me assusta e me paralisa a ponto de não conseguir contra-argumentar em certas ocasiões. 184

Alisson Dias Gomes Do mesmo modo e na mesma proporção, cho- cam-me manifestações nos espaços virtuais, “terras sem donos”, de que Monalysa ganhou o título pelo fato de “estar na moda” o empoderamento feminino e negro, longe de se reconhecer a beleza, a desenvoltura e o mo- mento da candidata, que se destacou e sagrou-se mere- cedora pelos próprios atributos. Ainda sobre a empatia, foco desta reflexão, penso como o mundo seria mais humano e fraterno se con- seguíssemos nos colocar no lugar do outro, nos mo- mentos de aflição, dor, desespero e necessidade. De dar as mãos, de prestar atenção, de permitir-se sair da sua zona de conforto e, como fala uma grande e especial amiga, “precisamos guardar a nossa dor no bolso e ir em busca do outro para aliviar a dor alheia”. Isso me faz acreditar no quanto precisamos propagar, exemplificar e valorizar práticas de empatia no nosso dia a dia a fim de que possamos ser um pouco melhores. 185

Estações da Vida ACOLHA MAIS, JULGUE MENOS Todo meu patrimônio são meus amigos. Emily Dickinson A correria do dia a dia, a rigidez da vida, o excesso de informações, a disputa pelo poder ou a imposição de verdades, a necessidade de aparição, as “certezas” sobre tudo (ou quase tudo), a seleção social têm feito com que percamos a capacidade de ouvir. No sentido mais amplo, ouvir como escutar. Ouvir remete ao sentido da audição, é aquilo que captamos, já escutar vai além, é compreender, processar a informação internamente. Longe de pessimismo, muito pelo contrário, pautando- -me na racionalidade e no realismo, percebo que temos cada vez menos tempo “a perder”. Ou melhor, menos tempo a dedicar ao outro, dentro da lógica de que o tempo dele não necessariamente é o nosso. Somos levados a viver e, consequentemente, a de- cidir, escolher, priorizar, definir, julgar, quase de modo instantâneo. No ato. No desenrolar do fato. Com fre- quência, opinamos e sentenciamos sem termos tido tempo para ponderar. A pressa da vida tem feito com que aceleremos reflexões e atitudes. Algumas vezes, as primeiras são descartadas e as segundas mal escolhidas. Diante de perguntas, respostas são formuladas e ofe- recidas quase imediatamente. Mas, e quando não esta- 186

Alisson Dias Gomes mos preparados? Como agir? Por que falar, quando às vezes as pessoas somente querem ser escutadas? Em situações diversas, do cotidiano pessoal ou profissional, somos levados (ou deveríamos ser, pelo menos) a ouvir mais, a abrir espaço para que os outros falem. Em alguns momentos, deveríamos favorecer a criação de canais de expressão para o outro, sem termos que opinar. Creio que muitas vezes é mais apropriado agir assim do que expor as verdades e convicções, re- pletas da minha subjetividade e parcialidade. Duas situações chamaram minha atenção nos úl- timos dias. Numa delas, um amigo após inúmeras ten- tativas de readaptação à realidade que tinha por diante toma decisão que implicará em mudança profunda na sua vida. Sem adaptar-se, ele decide regressar para o local onde se sente feliz e melhor. Sem querer saber mi- nha opinião e, por sua vez, minhas considerações acerca da decisão tomada, ele gostaria apenas de ser escutado, dentro de um processo de catarse. Assim fiz. Por ele e, principalmente, por mim. Na outra situação, uma amiga muito especial, do outro lado do mundo, no Velho Con- tinente, após ruptura de relacionamento amoroso me procura para confidenciar. Passados dois ou três meses sem conversas entre nós em razão da correria do dia a dia, o seu único desejo é ser ouvida, ter um colo amigo. Pessoas mais próximas poderiam estar ali, amparando- -a, porém, naquele momento, a companhia escolhida é uma. 187

Estações da Vida Em tempos de instantaneidade, de volatilidade de relacionamentos, de fotos e opiniões em redes sociais virtuais, de julgamentos (com aprovações e reprova- ções), ainda que não sejam requeridos, (re)vejo o aco- lhimento como algo fundamental para o fortalecimen- to das relações sociais. Faz toda a diferença para quem precisa, mas principalmente para quem oferta. Mais do que ter amparado, fui ajudado e instigado a me questio- nar: tenho acolhido mais ou julgado mais? O que tenho feito? Pegando gancho com o setembro amarelo, deno- minado como mês mundial de prevenção do suicídio, medida extrema adotada muitas vezes por não ouvir- mos o grito silencioso de pessoas próximas, ainda que saibamos que o suicídio é um problema multifatorial, reafirmo a pergunta: qual tem sido a sua conduta? Aco- lher mais ou julgar mais? 188

Alisson Dias Gomes A VIDA EM MOVIMENTO Gostaria que você soubesse que existe dentro de si uma força capaz de mudar sua vida. Basta que lute e aguarde um novo amanhecer. Margaret Thatcher Desde criança, gosto da ideia e da ação de contar estórias e histórias. Num primeiro momento, eram fala- das; depois, passaram a ser escritas. E assim, fui crescen- do: contando, lendo, observando, registrando, seja em papéis ou arquivos de computador. Algumas se torna- ram públicas, outras estão guardadas secretamente. O primeiro público a ouvi-las eram pessoas próximas; de- pois vieram alunos dos mais variados cursos de gradua- ção e pós-graduação e pessoas conectadas por redes digitais. Hoje, vai além! Sem controle e sem perfil único, só permanece o prazer de contar. Neste contexto, diante de dois fatos recentes, não me contive mais uma vez. Abri o notebook e coloquei tudo para fora. A vontade forte de narrar aquelas duas situações fez com que o texto preparado fosse esque- cido temporariamente e surgisse um novo olhar. Afinal, texto é vida, é movimento! E a vida em movimento de- termina o que vem primeiro e o que pode esperar. Um amigo especial me enviou uma imagem de um conjunto de talheres reunidos num suporte e uma men- 189

Estações da Vida sagem curta dizendo que espera nunca mais ver garfos e facas serem escondidos. Em seguida, o diálogo se de- senvolve e revelações aparecem. Por vezes, a exclusão sentou à mesa e fez com que ele não fosse convidado a estar entre parentes para cafés, almoços, lanches e jan- tares. Por um tempo, a atitude de exclusão se sucedeu e cristalizou sensações e sentimentos nele, de tal modo que hoje, diante de nova fase, com mil possibilidades, a primeira coisa que ele fará é deixar acessível a todos os talheres da vida. O novo ciclo, a nova casa e a nova etapa vêm depois de provações emocionais, físicas, fa- miliares... Muitas destas foram vividas sozinho ou com poucos confidentes, num processo de amadurecimento circunstancial que o fez mais forte e mais humano, ainda que tenha deixado cicatrizes e marcas profundas, como o pássaro que voa livre no peito tatuado. Particularmen- te, intitularia essa estória como “o garfo é nosso” ou “o voo da liberdade”. Agora, a outra história... Uma amiga amada alcan- çou uma das maiores dádivas da vida: tornar-se mãe. O caminho não foi fácil, nem rápido! Talvez, muitos não saibam nem imaginem tudo que ela passou. Ao longo de anos, após descobertas e circunstâncias, ela sentiu no corpo e na alma as provações de uma caminhada que culminaria com um lindo presente de Deus: um filho. Foram tratamentos, gravidezes, perdas, riscos, dores, olhares, silêncios, orações e reinvenções. De tal forma que hoje, após a força da persistência, em suas mãos ela embala o saudável filho. A canção de ninar, o bem-que- 190

Alisson Dias Gomes rer de pessoas próximas e o apoio com palavras e ati- tudes fez com que ela jamais desistisse e fosse atrás de possibilidades para que o sonho-meta ganhasse vida. De perto, vendo esta situação, eu a intitularia como “o parto da fortaleza” ou “sempre creia”. As histórias dos dois amigos se cruzam em diversos pontos e revelam aspectos comuns, como a capacidade prática de resistência e resiliência, a habilidade humana do recomeço, a destreza do erguer-se depois de testes e quedas, a materialidade real da fé e do restauro inte- rior. Ambos são fortes, focados e deixam lições ricas de crença em si, no amanhã e na vida. Outro detalhe que os une é o fato de terem um amigo-contador de histórias, que não consegue apenas viver, mas tenta eternizar em narrativas e descrições, em claro entendimento de que o contado pode ajudar alguém, em algum momento, por algum motivo, dentro do ciclo do mundo e da vida, com voltas e recomeços. 191

Estações da Vida FAÇA SUA ESCOLHA: PORTA OU JANELA? Donde no puedas amar, no te demores. Frida Kahlo Portas e janelas se abrem todos os dias, para todas as pessoas, em situações diferentes. Basta que saibamos reconhecer o momento adequado de encostar a porta, passar a chave e deixar que as luzes e brisas do ven- to venham em nossa direção pelas frestas menores (ou maiores) das janelas, que são tão importantes quanto as aberturas largas e favorecedoras que as portas ga- rantem com a passagem dos seres humanos, de modo firme e habitual. Sabe o ditado “sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela”? Pois é, creio neste adágio dentro do prisma otimista e revelador de que, a cada instante, a capacidade do ser humano de ressignificar sentimen- tos e sensações, experiências e lugares, locais e pessoas é forte e deve ser nutrida. Particularmente, reafirmo o olhar de que nada é estático, nada é exclusivamente preto ou branco, bom ou ruim... Vejo, sinto e reflito que assim como a porta e a janela se apresentam como al- ternativas de acesso e de partida, as coisas da vida e da morte são assim, a depender do olhar que cada criatura imprime. 192

Alisson Dias Gomes O que não está bom hoje pode se tornar melhor amanhã; o que não compreendo neste instante pode ter explicação plausível dentro de uma semana; o que parece desastroso e sofrível por uma perspectiva pode ser libertador e renovador daqui a um mês com base em outro viés... Ou seja, a vida é movimento! E, até mesmo, a morte também pode ser! Quem dita a hora de usar portas e janelas, no sen- tido conotativo (figurado/subjetivo), somos nós. Em cer- tos momentos, vale a porta, mas caso esta se feche, resta a janela como alternativa, desde que saibamos reconhe- cê-la e usá-la, em muitas estações, cada ser humano do seu jeito, com base no seu próprio repertório de vida. Isso se aplica tanto no trabalho como na família, nas relações sociais e pessoais, como nos mergulhos intros- pectivos. Existe hora para tudo! Cabe a cada pessoa en- tender o momento, ter maturidade para lidar com pen- samentos, inquietações, aprendizados e expectativas. Sem violências individuais ou imposições externas! Sem descartes de chaves, colocação de bloqueios ou substi- tuições de trincos e fechaduras de portas e janelas! A cada novo dia, temos a oportunidade de lubrifi- car trancas e ferrolhos, pintar e envernizar a textura de portas e janelas a fim de escolher qual das duas será utilizada, naquele instante, pelo motivo que for. Em re- conhecimento ao que afirma o psiquiatra Augusto Cury de que “se um dia fecharem-lhe as portas da vida, pule a janela”, defendo a ideia de que se pode bater à porta 193

Estações da Vida e abrir a janela ou, ao contrário, isolar a janela e escan- carar a porta. Tudo dependerá do que precisamos e de como pretendemos (re)começar. Afinal, o mundo está cheio de novas oportunidades, basta contemplar o sol a cada dia, a terra após a chuva, a borboleta após o aban- dono do seu estado de lagarta... As portas e janelas se abrem para os valentes que se levantam e encontram ânimo para enfrentar as ad- versidades da vida, pois os caminhos têm duas mãos: uma em que seguimos, ainda que inseguros e temerá- rios, porque não sabemos o que encontraremos adian- te, e outra, no sentido contrário, que permite reinícios. E mais... Quando estivermos em dúvida sobre qual das duas escolher – a porta ou a janela – valerá a pena ter em mente que ambas possuem fechaduras que funcio- nam como “olhos mágicos” para contemplação prévia, antes da tomada de decisões, reconhecendo que cres- cer é fazer dos tropeços oportunidades de recomeços. 194

Alisson Dias Gomes MÃOS DADAS E PAZ INTERIOR! Criar é acima de tudo dar substância ideal ao que existe! Emiliano Di Cavalcanti O olhar atento e sábio daquela senhora sempre chama minha atenção. Do alto dos seus mais de 80 anos, ela vê, percebe e sente o mundo de maneira pe- culiar. Como todo ser humano, tem motivos para rir e chorar, agradecer e pedir, celebrar e esquecer, aprender e ensinar. Com um conhecimento de vida impregnado de crenças, superstições, valores e experiências, dentre os quais muitos são populares e religiosos, ela segue em frente. Às vezes, bem firme e forte; outras vezes, mais frágil e vulnerável. Por sinal, como ela crê e manifesta: “tudo vai como Deus manda”. Dessa forma, em busca da melhoria contínua que a leve à salvação, segundo suas próprias palavras, ela perdoa, aconselha, aceita, eco- nomiza, compartilha, agradece, simplifica e luta a cada novo dia e noite. Com muitas histórias para contar, ela se mantém firme na fé e alimenta consigo o desejo de que o ser hu- mano pode se regenerar sempre, ainda que leve tempo, ainda que em contextos sociais diferentes. E, ao menor sinal de avanços, ela sentencia docemente com um sor- riso no rosto e às vezes de modo fervoroso que as coisas vão dando certo, que as mudanças estão se operando 195

Estações da Vida e que cabe aos envolvidos terem paciência e resiliência. Em especial, ela sustenta esta impressão a uma das par- tes envolvidas em situação específica ainda que tenham transcorrido oito ou nove anos do acontecimento. Ao testemunhar o toque de mãos propositada- mente estendidas para um cumprimento habitual, num momento festivo, a senhora de cabelos curtos e natu- rais assevera a alegria do ser humano em fazer (ou re- fazer) laços importantes, de tal modo que maior rique- za não existe. Discretamente, em silêncio, ela limpa os óculos como se não cresse no que vê ou, ao contrário, para confirmar mais ainda, por meio de lentes impecá- veis que a reaproximação vai ocorrendo, aos poucos, de modo contínuo, com o devido respeito às limitações in- dividuais, comuns a todos. Em outro momento, após ocasião oportuna, ela se aproxima e cochicha aos ouvidos de um do envolvidos a satisfação por ter presenciado tal ato. Ali, corrobora a crença de que tudo segue na direção do reencontro e da retomada ainda neste tempo e neste local, ainda que hiatos e circunstâncias tenham existido. Com sorri- so sorrateiro, mãos calejadas e discrição incomum aos idosos, ela se vale da fé no ser humano de que tudo se equaliza na hora certa. Com uma convicção inabalável, ela retorna ao seu local, senta-se e recompõe-se do en- tusiasmo efusivo, passando as mãos pelo vestido florido como se o engomasse novamente, voltando a ser aque- la senhora forte e firme. 196

Alisson Dias Gomes Aos olhos dos observadores, entre os quais me incluo, a cena transcorrida em pouco mais de quinze minutos reforça a certeza de que temos muito o que aprender com os mais velhos, os ricos de sapiência. Nem sempre elas (ou eles) estão bem, como é normal da pró- pria vida, mas sempre possuem muito para ensinar, seja através de conversas longas (recheadas de estórias, cau- sos e experiências) ou por meio de demonstrações de fé e silêncio. Daí, porque o provérbio indiano é muito rico: “Quando morre um idoso, perde-se uma biblioteca”, em reconhecimento ao tanto que devemos valorizar nossos idosos, sejam parentes, vizinhos ou conhecidos, em sinal de evolução da nossa sociedade. 197

Estações da Vida O FIM SEMPRE É UM (RE)COMEÇO Eu nunca sonhei com o sucesso. Eu trabalhei para isso. Estée Lauder É muito bom acreditar que nunca existirá o fim. O fim extremo; o fim estático; o fim derradeiro. Em ou- tras palavras, o fim sem continuidade! Estamos diante de possibilidades, de recomeços de jornadas e ciclos. A cada instante, por mais que estejamos diante de fe- chamentos, possibilidades se apresentam de tal modo que o fim do ano representa o começo de outro. O fim do dia com seu enigmático pôr do sol e a chegada ine- briante da lua trazem consigo a faceira noite, muitas ve- zes repleta de estrelas e silêncios, e nos deparamos com o ininterrupto movimento da vida. Esta percepção se aplica a quase tudo, a depen- der do prisma ou da filosofia de vida do observador: momentos individuais e familiares, etapas de estudos e conquistas, fases de trabalhos, relacionamentos pes- soais, experiências, sensações, pensamentos etc. Por isso, diante da proximidade do fim de ano, época em que fazemos balanços do que passou e projetamos so- nhos, desejos, metas e ambições, vale muito a pena ter em mente algo popularizado, por Chico Xavier: “embora não se possa voltar atrás e fazer um novo começo, é 198

Alisson Dias Gomes possível começar agora e fazer um novo fim”, ideia que tem sido reproduzida em frases clichês, mas extrema- mente verdadeiras. Quanta verdade nesta ponderação! O começo de- pende de cada um de nós, a cada circunstância e a cada contexto. Aplica-se à sabedoria para lidar com a vida e a morte, tanto que constatamos reações diferentes, com base nos repertórios particulares e nas caminhadas ao longo desta existência. Por esta razão é maravilhoso acompanhar uma colega de trabalho migrar para longe a fim de encarar novo curso que possibilitará melhores chances de empregabilidade; é estimulante testemu- nhar um amigo se abrir a nova possível relação, após três meses do término de um namoro; é enriquecedor ver uma jovem senhora de 65 anos se empolgar dian- te dos prazeres de uma viagem; é questionável, mas também aceitável, o distanciamento de alguém que era considerado amigo íntimo... Numa clara confirmação de que toda situação tem um fim, mas a cada final surgem novos começos. Em conversa com amigos e colegas de trabalho fa- lávamos justamente sobre a dualidade do fim e começo ou, por outro prisma, do começo e fim, a depender de cada olhar. Por certo, as interações humanas estimulam as reflexões e elaborações destes pontos de vista a cada semana, bem como também os momentos de isolamen- to e reflexão individual servem de nutriente mental. Em todo caso, voltando ao cerne da questão, a sábia Cecí- lia Meireles sintetiza de maneira primorosa: “hoje desa- 199

Estações da Vida prendo o que tinha aprendido até ontem e que amanhã recomeçarei a aprender”, confirmando a certeza de que diante de conclusões novas alternativas surgirão. Neste momento, às vésperas de fechar o ciclo do ano, temos a oportunidade de fazer balanços, na vida pessoal e profissional, além de participar de celebrações e confraternizações de bons votos. Listar os eventos ne- gativos e positivos pode ser um excelente exercício e instrumento de estratégia pessoal para reconhecer os pontos de crescimento. Entender as atitudes e sensa- ções experienciadas diante das situações serve para au- mentar a autoestima e a segurança em nossas habilida- des. Ao fazermos esta retrospectiva preparamos o ter- reno para o que está por vir e, mais uma vez, aprende- mos com os erros e acertos e assim recomeçamos. Tra- duzimos tudo em oportunidades de melhoria, por meio de reflexão intencional que proporciona clareza mental e permite medir o desempenho pessoal e virtudes im- portantes como perseverança, resiliência, paciência, dis- ciplina e autocuidado. 200


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