Expediente Direção Editorial: Ana Kelma Gallas Diagramação: Kleber Albuquerque Filho Ilustrador gráfico: Odrânio Rocha TI Publicações OMP Books: Eliezyo Silva Revisão de originais: Ana Isabel Freire e Alisson Dias Gomes Tradução: Ana Verônica Marinho FICHA CATALOGRÁFICA LESTU PUBLISHING COMPANY Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Editora, Gráfica e Consultoria Ltda (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Avenida Paulista, 2300, andar Pilotis Bela Vista, São Paulo, 01310-300, G633e GOMES, Alisson Dias Brasil. Estações da vida/ por Alisson Dias Gomes. [email protected] www.lestu.com.br São Paulo: Lestu, 2023. (11) 97415.4679 244p.; il.; online Imagens da obra: ISBN: 978-65-85729-00-0 Canva (Creative Commons) DOI: 10.51205/lestu.978-65-996314-5-0 1. Literatura. 2.Crônicas. 3. Livro Autoral. I. Autor(a). II. Título. III. Editora. CDD: 372.64 Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura: Língua Portuguesa. Crônicas. Informamos que a emissão de conceitos publicados na obra é de inteira responsabilidade do autor. Ne- nhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autori- zação da Editora Lestu. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/98 e punido pelo Art. 184 do Código Penal.
Aos que encontram na leitura motivos para ler a si mesmos a cada nova oportunidade.
Agradeço a TODOS que convivem comigo... Por serem presentes e ausentes; Por serem sementes, flores e frutos; Por estarem de corpo e de alma; Por dividirem experiências e percepções; Por serem Primavera, Verão, Outono e Inverno a cada nova vivência. Por serem Sol e Lua! Gratidão por TUDO!
PREFÁCIO En este momento me siento como el autor de este libro, cuando cada semana se dispone a escribir delante de una hoja en blanco de su ordenador o, tal vez, de alguna libreta com- prada en algún lugar del mundo, ese que le encanta conocer con su espíritu curioso y recorrer sintiéndose libre. Siempre son especiales esas libretas que nos llaman la atención por algo y que compramos para luego anotar también cosas especiales o quizás en una de esas que con tanto cariño guarda porque alguien se la regaló, precisamente pensando que la rellenaría con lúcidos pensamientos y reflexiones, así que, no se equivo- caron a juzgar por el libro que tenemos entre manos. Asumir la responsabilidad de escribir cada semana para el periódico “O Dia”, pasa irremediablemente por enfrentarse al vértigo que produce esa hoja en blanco, que poco a poco se va tiñendo de tinta dispuesta a propiciar un diálogo, sin duda “especial” primero con el autor y posteriormente con sus lecto- res, como a continuación explicaré. De esta forma se han visto la luz a las crónicas que cada semana compartía con los lectores de ese periódico y que aho- ra han sido recogidas y distribuidas bajo los títulos de las cua- tro estaciones del año: primavera, verano, otoño e invierno. Ahora bien, ¿qué puede encontrar el lector en esos textos y qué tienen de especiales esas crónicas? En un principio este formato periodístico pretende ofrecer al lector relatos en forma de historias breves, donde la vivencia del periodista que las narra se vuelve protagonista. Es precisamente en este aspecto, donde se encuentra el
matiz diferenciador de los textos aquí recogidos. Si tuviera que destacarlos por algo es, sin duda alguna, por el carácter personal, íntimo, delicado e incluso valiente que el autor ha ofrecido a cada una de estas historias. La vida cotidiana se convierte en la inspiración de sus crónicas y esto que podría parecer sencillo, no lo es si se quiere compartir con el lector algo más que una cotidianeidad. El autor, como buen periodista de formación, nos dirige la mirada de una forma muy sutil hacia situaciones, hechos, personas, realidades de todo tipo que nos rodean y que mu- chas veces debido a las rutinas del día a día, ni alcanzamos a ver. Pero, esa mirada tiene una luz especial, porque no solo quiere que veamos determinadas cosas, sino su verdadera intención, en este caso, como buen profesor, nos hace refle- xionar y pensar, con el enfoque diferente que nos brinda su perspectiva personal e íntima. Es aquí, donde radica la men- cionada valentía de las historias compartidas, y, por lo tanto, lo que las convierte en singulares, sobre todo cuando se trata de compartir historias donde los sentimientos tristes, alegres y las emociones, muchas de ellas controvertidas, se vuelven protagonistas de manera natural, sin artificios. La narrativa es utilizada hábilmente para dar paso a un posible proceso de empatía con el lector, donde podrá verse re- flejado en un espejo y, por lo tanto, invitarle no solo a repensar, sino también a sentir y emocionarse. Es por ello, que de la misma forma que cada estación del año trae consigo de forma cíclica una serie de cambios y connotaciones que no nos pasan desapercibidos, los rela- tos que irá leyendo el lector en este libro, tampoco le pasarán
inadvertidos. Muchas gracias, Alisson Dias Gomes por estas 60 fotos instantáneas que ilustran, de forma tan especial, el paso de las estaciones. Eternamente agradecida por dejarme escribir en esta hoja en blanco de su libro “Estações da Vida”. Maribel Rodríguez Fidalgo Profesora Doctora Universidad de Salamanca, España Invierno de 2021.
PREFÁCIO* Neste momento, me sinto como o autor do livro, quando a cada semana se dispõe a escrever diante de uma folha em branco em seu computador ou, talvez, de alguma caderneta comprada em algum canto do mun- do, isso porque a ele lhe fascina conhecer com seu espí- rito curioso e percorrer se sentido livre. Estas cadernetas sempre são especiais e nos chamam a atenção para algo e que compramos para anotar coisas especiais, ou tal- vez numa dessas guardadas com tanto carinho porque foi presenteada por alguém que imaginava que seria preenchida com pensamentos lúcidos e reflexões, a jul- gar pelo livro que temos em mãos. Assumir a responsabilidade de escrever a cada se- mana para o Jornal O Dia passa irremediavelmente por encarar a vertigem que se é sentida diante dessa folha branca que pouco a pouco vai se preenchendo de tinta disposta a proporcionar um diálogo, sem dúvida espe- cial, primeiro com o autor e posteriormente com os lei- tores, como mais adiante explicarei. Desta forma, temos visto surgir crônicas a cada semana e que são compartilhadas com os leitores do jornal, sendo agora reunidas e organizadas de acordo com as denominações das quatro estações do ano: pri- mavera, verão, outono e inverno. Diante disso, o que o leitor pode encontrar nestes textos e o que estas crôni- cas possuem de especial?
Num primeiro momento o formato jornalístico pre- tende oferecer ao leitor relatos em forma de histórias curtas, onde a vivência do jornalista que as conta o co- loca como protagonista. É precisamente neste aspecto onde se encontra o elemento diferenciador dos textos aqui reunidos. Se tivesse que destacar algo é, sem dúvi- da alguma, o caráter pessoal, íntimo, delicado e, inclu- sive, valente que o autor tem de oferecer a cada uma destas histórias. A vida cotidiana se converte na inspiração das suas crônicas e isto pode parecer simples, mas não é se de- sejas compartilhar com o leitor algo além da cotidiani- dade. Como bom jornalista de formação, o autor nos conduz o olhar de forma muito sutil a situações, fatos, pessoas, realidades de todo o tipo que nos rodeiam e que muitas vezes, devido às rotinas não somos capazes de ver. Mas, esse olhar tem luz própria porque não so- mente quer que vejamos determinados aspectos, pois sua verdadeira intenção, nestes casos, como bom pro- fessor, é fazer refletir e pensar, com o enfoque diferente que nos brinda sua perspectiva pessoal e íntima. É aqui, onde está a mencionada valentia das histórias narradas e, portanto, o que as converte em singulares, sobretu- do quando se trata de compartilhar histórias onde sen- timentos tristes, alegres e emoções, muitas das quais transformadas, se tornam protagonistas de maneira na- tural, sem artifícios. A narrativa é usada habilmente encontrando espa-
ço para um possível processo de empatia com o leitor, onde ele poderá ver-se refletido num espelho e, por- tanto, se sentir convidado não apenas a repensar, como também a sentir e se emocionar. É, por isso, que da mesma forma que cada esta- ção do ano traz consigo de forma cíclica uma série de mudanças e conotações que não nos passam desper- cebidas, os relatos que os leitores lerão neste livro tam- bém não passarão soltos. Muito obrigado, Alisson Dias Gomes, por estas 60 fotos instantâneas que ilustram de forma tão especial a passagem das estações. Sou eternamente agradecida por me deixar es- crever nesta folha em branco de seu livro: “Estações da Vida”. Maribel Rodríguez Fidalgo Professora Doutora Universidad de Salamanca, Espanha Inverno de 2021. * O prefácio acima foi traduzido do original publicado anteriormente.
APRESENTAÇÃO Alisson Dias Gomes é de Teresina e do mundo. Jornalista, autor de livros, professor universitário, gestor acadêmico, palestrante e psicanalista em formação. Alisson foi colecionando predicados ao longo de sua carreira. Curioso, observador, perfeccionista, determinado, disciplinado, detalhista, divertido, amigo, atento... Humano! Assim como na vida, sua carreira está em processo constante de transformação. Graduou-se em Comunicação Social (Jornalismo), pelo Centro Universitário Santo Agostinho (UNIFSA, 2006). Na Espanha, fez o Máster en Comunicación y Educación, pela Universidad Autónoma de Barcelona (UAB, 2008), e o Doctorado en Comunicación Audiovisual, Revolución Tecnológica y Cambios Culturales, pela Universidad de Salamanca (USAL, 2011); ambas foram escolhidas após meticuloso estudo que envolvia não apenas as instituições, mas também as cidades e tudo que poderia ser contemplado nessa temporada de vivência in loco no Velho Continente. Em uma sólida e ascendente carreira acadêmica, Alisson é professor de graduação e de pós-graduação, atuando ainda como coordenador do Núcleo de Iniciação à Pesquisa e do Núcleo de Relações Internacionais do Centro Universitário Santo Agostinho (UNIFSA), em Teresina, Piauí, Brasil.
Autor de livros acadêmicos, como “Educomunicação e Formação de Cidadãos” (2014), fruto de seu doutorado, e “Saberes Partilhados: bastidores do fazer Ciência” (2015), em parceria com Clecio Dantas e Michele Vicente Torres, Alisson vem despontando como um dos novos cronistas do Piauí com toques de criatividade, envolvimento e empatia. O livro “Estações da Vida” vem marcar essa nova jornada, demonstrando que o autor está apto a desbravar universos literários. Esta obra simboliza um verdadeiro presente para quem ama o prazer de ler e observar as quatro estações. Ana Kelma Cunha Gallas Professora, Jornalista, Escritora Verão de 2022.
PREÂMBULO Somos as quatro estações É impressionante como o tempo e as estações do ano possuem uma relação direta conosco. De modo consciente (ou não) somos influenciados em tudo e acompanhados por tais períodos do ano de maneira que a nossa vida passa a ser estruturada de acordo com os sentidos, os detalhes e os matizes de cada época. Não é regra. Não é linear. Não é unanimidade. Cada ser humano é influenciado de acordo com a própria subjetividade e capacidade de adaptabilidade. Independentemente do tempo externo, podemos estar de uma maneira ou de outra. Em outras palavras, po- demos viver invernos em pleno verão ou, ao contrário, vivermos dias luminosos em períodos de baixa tempe- ratura externa, pouquíssima luz e muita chuva. Individual ou coletivamente, temos comportamen- tos moldados, atitudes induzidas, desejos aguçados e vontades estimuladas pelo Verão, pela Primavera, pelo Outono e pelo Inverno. De acordo com as várias Ciên- cias, cada período traz consigo singularidades e demar- cadores que os fazem específicos e, até mesmo, espe- ciais. Por um prisma muito particular, mais humano e individual, encaro as marcas intransferíveis deixadas ou estimuladas por cada uma das quatro estações em situações, experiências, viagens, leituras, recordações,
pessoas e fatos vividos. Afinal, cada uma delas traz in- contáveis particularidades como os próprios seres hu- manos. Em dado momento, estamos festivos, alegres e ba- rulhentos como os mais belos jardins floridos de peque- nas casas ou suntuosos castelos dos mais variados can- tos do mundo. Em outras ocasiões, nos fechamos em pensamentos, falas e gestos como se fôssemos árvores desnudas, resistimos aos ventos fortes responsáveis por nos despir e, ao mesmo tempo, nos preparar para novas vestes. Há alguns bons anos, na prática, ao experenciar as quatro estações, me dei conta de como elas me orien- tam, ensinam e estimulam a seguir por aí aprimorando minha capacidade de observação do mundo e de mim, do externo e do interno. Eis que ao encarar o estimulante desafio de orga- nizar Estações da Vida, optei por levar em conta uma série de aspectos: meu momento de vida, aos 40 anos, os diversos e especiais artigos de opinião publicados em periódicos e que sensibilizaram leitores e amigos, a má- xima de que é preciso escrever um livro antes da partida final e a convicção, enquanto jornalista e professor uni- versitário, de que provocações são bem-vindas e devem ser feitas para que as pessoas reflitam e se posicionem. Ademais, o pedido frequentemente feito por ami- gos e amigas há mais de cinco anos passou a ser tam- bém de conhecidos e de conhecidas que se depararam com alguns textos publicados semanalmente nas redes
sociais. Tudo decorrente do atrevimento de expressar pontos de vista sobre temas e assuntos simples ou com- plexos, locais ou globais. Atrevo-me a me posicionar sobre temas sutis ou espinhosos, expondo-me de corpo e de alma ou tão somente dando vazão à imaginação por meio de estó- rias, tecendo capítulos, agora em fase de agrupamento, para plasmar retratos de uma época feitos por uma óti- ca bem particular de quem está quase sempre aberto a aprender e a ressignificar. Além das viagens inesquecíveis, das reuniões fes- tivas com amigos, do permitir-se experimentar novas sensações, estou convencido de que reunir 60 textos neste livro significa revisitar capítulos especiais das mi- nhas quatro estações. Tudo livre e criado (ou recriado) para simbolizar a contemporaneidade. Avesso a respostas fechadas e verdades imutáveis, entendo que refletir de modo ainda mais intencional so- bre a vida tem se tornado uma constante. Modéstia à parte, creio que muita coisa é captada pelo nosso olhar atento e curioso. As alegrias estão lá! São muitas, de todos os tipos e nas mais variadas dimensões. As tristezas também se apresentam sem cerimônia, em bem menor quantidade e sem ofuscar, em hipótese alguma, a gratidão eterna por tudo que foi vivido até ali. No acumulado de experiências, tenho consciência de que a jornada tem sido muito mais de aprendizados, sorrisos, abraços e flores do que de quedas, traumas,
cicatrizes e folhas. Por isso, ao iniciar uma retrospectiva sobre a própria vida, me comprometi em escrever um livro que reunisse crônicas sobre histórias reais e fictí- cias, de situações experimentadas em primeira pessoa ou observadas ao longo das andanças mundo afora. Estações da Vida é um livro de ideias, estruturado com muito carinho e intenção, representando um “presente” a ser dado a quem aprecia os raios de sol do Verão, as flores exuberantes da Primavera, as folhas alaranjadas caídas do Outono e os flocos de neve do Inverno. Carlos Ruiz Zafón, autor espanhol, afirmou de modo magistral: “Cada livro, cada volume que vês, têm alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna- se forte.” Assim, espero que este livro lhe toque e lhe estimule a perceber as estações da sua própria vida. Alisson Dias Gomes O entusiasta da Primavera O enamorado pelo Verão O admirador do Outono O aficionado pelo Inverno
SUMÁRIO ESTAÇÃO PRIMAVERA Caminho de flores ou de espinhos?.............................33 Marcas da vida...................................................................36 Palavras benditas e malditas.........................................39 A vida e nossas missões...................................................42 Amizades e reencontros...................................................45 Escrita terapêutica.............................................................48 O laço do abraço................................................................51 Pessoas mudam junto com o mundo!........................54 A resiliência de uma mãe...............................................57 As águas de joão................................................................60 Narciso, eu e você..............................................................63 O olhar de antônio............................................................66 Voe sempre e cada vez mais alto! ...............................69 O rosário de ricardo e teresa.........................................72 O desabrochar dos 15 anos...........................................75 Convite flores......................................................................78 ESTAÇÃO VERÃO Parabéns, famílias!............................................................83 Papéis inversos e a transitoriedade do estar............86 Quando a mãe sai de férias...........................................89 Inteireza de alma...............................................................92 Mala feita e mundo por desbravar...............................95
Vida de professor e as experiências de 2019............98 Como ser feliz?.................................................................101 Estamos quase sempre à espera.................................104 Mente e coração por caminhos diferentes..............107 Nascem novos homens..................................................110 O ser humano e a capacidade de aprendizagem.....113 Tenha atitude para mudar! .........................................116 Um tempo na praia........................................................119 Promova a paz e suplante a guerra..........................122 Pazes feitas com o espelho...........................................125 Convite sol.........................................................................128 ESTAÇÃO OUTONO O silêncio fala...................................................................136 A relatividade da vida...................................................139 Céu de estrelas na praia...............................................142 Ontem, chorei!..................................................................145 Da agitação frenética à calmaria de uma rede.........148 Desculpas por algo que fiz...........................................151 Jamais jogue a toalha!..................................................154 O sorriso sem máscara..................................................157 O último canto do galo.................................................160 Papo reto e vida mais leve! .........................................163 Sem olhar para a grama do vizinho!.......................166 A cultura da falta............................................................169 Os mistérios por trás de uma morte inesperada......172
A vida e seus ciclos.........................................................175 Convite folhas .................................................................178 ESTAÇÃO INVERNO O alheio também pode ser meu................................183 Acolha mais, julgue menos .........................................186 A vida em movimento...................................................189 Faça sua escolha: porta ou janela?...........................192 Mãos dadas e paz interior! .........................................195 O fim sempre é um (re)começo..................................198 O ser humano e sua caixa de pandora....................201 Adultizar crianças e infantilizar adultos.................204 Chove aqui dentro e lá fora!.......................................207 Cuidando da imunidade espiritual...........................210 Mais um no meio da multidão...................................213 Os descaminhos da vaidade acadêmica.................216 Texto-lágrima ou texto-sorriso?.................................220 Memória afetiva super ativada..................................223 Aprendendo a ser feliz como se é!............................227 Convite neve ....................................................................230 Por que escrever um livro?...........................................235 Comentários de leitores-amigos ...............................237
Alisson Dias Gomes CAMINHO DE FLORES OU DE ESPINHOS? A medida do amor é amar sem medida. Santo Agostinho Margarida tem 31 anos. Nasceu em maio, mês da primavera na Europa. É espanhola de nascimento, ára- be de ascendência e brasileira de criação e educação. Veio ao mundo numa primavera nada longínqua e ex- tremamente clássica, quando as rosas são exuberantes, as orquídeas singelas e os lírios imponentes. Cresceu ao lado dos irmãos: dois meninos e uma menina. Recebeu educação tradicional numa escola de jesuítas. Nunca oscilou entre ser boa ou má aluna. Obteve boas notas, comportamento exemplar. Executou tarefas comuns às meninas de sua idade, a cada época. Ousou pouco, aca- tou sempre. Reprimiu desejos. Seguiu normas. Desem- penhou papéis. Aos 18 anos, saiu de casa. Por escolha, com apoio dos pais e irmãos. Não foi expulsa. No primeiro momen- to, saiu para realizar um sonho: viver novas experiên- cias, estudar outro idioma, desbravar terras nunca vis- tas (apenas sonhadas), permitir-se (sem culpa). A cada experiência, reflexões. Pausas para meditação, quase sempre sozinha, isolada, dentro do seu próprio eu. Acei- tar-se como era geraria conflitos, que precisariam ser resolvidos primeiro consigo. Depois, com o mundo! As 33
Estações da Vida rosas e os inseparáveis espinhos passariam a fazer parte do seu jardim, ao lado de lírios e tulipas. Dedicação aos estudos, viagens inesquecíveis, mo- mentos eternizados em imagens (fixas e móveis), pes- soas marcantes... Tudo foi passando e Margarida foi se dando conta de que o mundo tem menos nãos e mais sins do que se imagina. Ou pelo menos do que ela ima- ginava. Tudo depende do prisma do olhar. Ao longo da caminhada, algumas dúvidas, muitos medos e poucas certezas. Olhares no espelho em busca de si. A imagem externa estava construída, mas a interna em eclosão. Não dá mais para esperar, nem é possível adiar. Aqui, resvala-se diante da tentativa clara de (re)criar sua iden- tidade que foi moldada por outros, para certos fins, mas que não atendem a seus anseios. Antes de ser expulsa, é hora de partir. Sem má- goas! Escolhas e definições lhe rondam. Vontades rea- lizadas. Desejos atendidos. O proibido já não faz parte de sua vida. Ficou para trás! Já não é mais possível, nem preciso, disfarçar aquilo que vem de dentro. Maragarida é como é. Não precisa mais se preocupar com o que os outros pensam. A autoaceitação é fase superada. Ergueu sua base de forma sólida. Em muitas ocasiões, solitária e dolorosamente. Aos 24 anos concluiu a universidade. Já tinha uma profissão. Mais um passo em busca de sua libertação. A vida segue seu ritmo normal como um rio caudaloso. Águas fortes e que a impulsionam a seguir, sem medo. 34
Alisson Dias Gomes Mais qualificação e investimento nos estudos a fim de ter formação diferenciada. Novos passos. Con- quistas profissionais. Reconhecimento e valorização fi- nanceiras. Amadurecimento e segurança para encarar a nova fase. Margarida precisa de novos ares e terrenos para explorar. É preciso se mover, de forma tranquila, planejada e feliz. Ela crê que não é mais possível ficar ao lado de violeta. Assim, depois dos 30 anos, se pre- para para novos rumos. Em seu jardim, as flores serão priorizadas por sua beleza e seu encanamento, seja na primavera colorida ou no inverno opaco e apático. Sem esquecer os espinhos, que foram retirados um a um, por quem ou o que os colocou, Margarida refaz seu cami- nho a cada dia e cultiva um novo jardim. 35
Estações da Vida MARCAS DA VIDA A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla. David Hume Nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. A cada fase, experiências, sensações, aprendizados e contatos. Momentos bons e ruins determinam como agiremos. Em especial, as marcas que ficarão. Além des- ses momentos, as cobranças (socias e/ou individuais) marcam de forma significativa o que somos e seremos. Passado, presente e futuro. Interligados e indissociáveis! Um não existe sem o outro. Impossível falar do futuro, sem pensar no presente; impossível viver (bem) o pre- sente sem entender as alegrias e os traumas do pas- sado. Todos temos. Alguns, encaram de frente; outros, preferem ocultá-los. A vida nos leva por caminhos nem sempre previ- síveis. Conquistas, indepedente do tipo (material, senti- mental, espiritual, etc.), só têm sentindo quando se tem com quem dividir. Independente de ser um amor, um irmão, um amigo ou um colega de trabalho. Viver só, definitivamente, não é humano. E não faço campanha contra os que optam por convicção a estar sozinhos, mas defendo a tese (como tantos outros) que somos naturalmente sociais e sociáveis. É preciso reconhecer que não temos controle de tudo. Na verdade, não temos controle de quase nada. 36
Alisson Dias Gomes Damos passos em busca da firmeza e do equilíbrio, mas as surpresas da vida nem sempre permitem que a segu- rança desejada seja, de fato, alcançada. Abalos internos e externos nos fazem sacudir. Em alguns momentos, su- cumbir. Faz-se necessário, reconstruir as bases e tentar nos reerguer. Daí, precisamos ter um prazo íntimo para as “coisas” do coração e da alma. Aí, as marcas da vida se manifestam. Para algumas pessoas, o caminho é simples. Ou, pelo menos, vemos desse modo quando nos colo- camos, ainda que por alguns instantes (de forma não permitida), em suas vidas. Somos capazes de resolver conflitos, solucionar traumas e encontrar soluções. Algo tão trivial, que nos surpreende a passividade do dono da própria vida em não saber ou não conseguir solu- cionar seus problemas. Num passe de mágica tudo se transforma. Tudo fica bem! Como num filme, é possível modificar o enredo da história, criar personages (e, se necessário, eliminá-los), modificar caminhos e esperar o grande momento, o final feliz. A vida imita a arte. Ou seria melhor dizer que é a arte que imita a vida? Diante de situações retratadas, diariamente, nas mais diversas formas de expressão (literatura, cinema, pintura, escultura, televisão, etc.), percebemos que é fundamental redefinir estratégias. As marcas da vida são variadas e nos acompanharão pelo resto de nossa existência. Além disso, as estratégias poderão (e, com certeza, serão) aplicadas em momentos distintos, por razões diversas, como a necessidade de sobrevivência, 37
Estações da Vida em busca de conquistas materiais, para alcançar desejos ou, simplesmente, como fugas. Ao longo da caminhada, somos levados a escolher. E cada escolha traz perdas, ganhos e, consequetemente, mais marcas. Algumas boas, outras ruins. E, neste mo- mento, os maiores autores de cada nova marca já não são/serão os outros (pais, irmãos, tios, primos, vizinhos, amigos, colegas de trabalho, etc.). Mas, sim, nós mes- mos. 38
Alisson Dias Gomes PALAVRAS BENDITAS E MALDITAS O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete. Aristóteles A crença de que existe uma segunda chance ou outro momento nos faz crer que podemos esperar. A ligação adiada. O abraço negligenciado. A mensagem desprezada. O encontro negado. O afago deixado de lado. Ligeiramente somos levados a acreditar que o de- pois nos espera, como se dele tivéssemos alguma ga- rantia. Quantas vezes abandonamos aquilo que deveria ser dito e feito no instante exato? Por que guardamos quando na verdade deveríamos usar, falar e/ou fazer? Explicações diversas podem ser levantadas. Algu- mas, de cunho comportamental e social; outras, em- basadas em circunstâncias culturais, econômicas e, até mesmo, místicas. Penso com frequência em como adiamos, sem garantia alguma, à espera de uma nova oportunidade. É o “eu te amo”, sem revelação. É o “me perdoe”, sem anunciação. É o “estou aqui”, sem de- monstração. É o “conte comigo”, sem manifestação. São tantas palavras aviltadas que na essência, só trariam à tona sentimentos, entre os quais acolhimento, doação, amor, compreensão e apoio. Tem se tornado mais comum desferir palavras de ataque e condenação. Isso ocorre com praticamente to- 39
Estações da Vida das as pessoas, ainda que em momentos e razões diver- sos. É o amigo que mora longe e coloca empecilhos a um reencontro por motivos desconhecidos; é o parente preso a suas verdades, que não abre espaço para (re) aproximações e diálogos acolhedores; é o ser amado marcado por certezas incontestáveis e incapaz de rein- ventar-se; é a sensação de que teremos nova oportu- nidade para falar o que ficou engasgado. São marcas, traumas e impressões. Muitos dos quais ficam e ficarão conosco, após a impossibilidade de revelar-se ao mun- do e ao outro. Particularmente, penso em quantos textos estão escritos e ocultados por receio de avaliações; penso em quantas vezes sentimentos foram reprimidos e sorrisos bloqueados por convenções e julgamentos. Em contra- partida, penso nas viagens libertadoras, para dentro de si e pelo mundo; nas observações das simples ações do dia a dia, quando transportado para outras realidades; penso na leveza das crianças diante de situações co- muns; nas expectativas e nos sonhos que todos devem ter e procurar concretizá-los. Penso com frequência na última palavra a ser dita e a ser ouvida. O elogio e o reconhecimento podem ser expressos por meio de palavras propositivas, sem necessariamente soarem artificiais e impróprias, contudo, tem sido mais frequente a crítica e a censura ganharem espaço e ocu- parem discursos, seja na esfera individual ou coletiva, 40
Alisson Dias Gomes bem como na dimensão pessoal ou profissional. O chefe pouco elogia. O colega de trabalho quase nunca orien- ta. O irmão despreza. O aluno com frequência critica. O companheiro desvaloriza. O desconhecido prejulga. E, assim, vivemos. Sem palavras! Ou pior ainda, com palavras que não edificam, com palavras que doem e machucam, com palavras quase sempre ditas, mas que poderiam ser silenciadas e descartadas. A força das palavras não está apenas no seu signi- ficado, mas também no seu emprego, na sua entonação e no seu usuário. Não se trata aqui de santificar ou de- monizar palavras, mas apenas de instigar a uma reflexão acerca do que você diz e escreve. De modo bem crista- lino e convicto, palavras podem machucar ou enaltecer, salvar ou destruir. Uma palavra bem dita é como um abraço, quando os corações se aproximam e se aquecem. Ao contrário, uma palavra mal dita compromete relações e reputa- ções. Vou além e digo categoricamente que uma palavra bem empregada fortalece vínculos e aproxima pessoas e almas. Que nossas palavras ganhem vida, que jamais sejam morte! 41
Estações da Vida A VIDA E NOSSAS MISSÕES Todos os seus sonhos podem se tornar realidade se você tiver coragem para persegui-los. Walt Disney Já parou para pensar quais são as suas missões? Esta é uma pergunta frequente na minha mente. Aliás, não somente constante, mas vital. Trata-se de uma per- gunta retórica a depender do contexto, do momen- to e até mesmo do meu estado de espírito. Gosto de pensar e encarar a vida de modo positivo e sequencial (por etapas), entendendo e reconhecendo que papéis e atribuições distintas surgem a cada instante. Em dada ocasião, sou protagonista; em outra, coadjuvante. Per- cebo e confirmo que tudo muda como as paisagens das estações, as interpretações das leituras, os sentimentos vividos e os sabores provados. Existe algo de intrigante na inversão de papéis e nas missões assumidas a cada oportunidade. Enquanto escrevo este artigo sou dono de uma ideia com clareza e segurança, com intencionalidade e foco. Contudo, após o fim deste texto não serei mais, seguirei somente como autor. Deixo de ser o detentor e assumo a condição de receptor, tendo em vista que o texto só é meu enquanto o produzo; após sua conclusão, ele será de cada leitor(a). De modo cristalino, percebo e aceito que as inter- pretações são distintas, sem equívocos, com base em re- 42
Alisson Dias Gomes pertórios cognitivos e culturais particulares. As visões são díspares e, talvez, até mesmo discordantes da motivação inicial, inspiradora da formulação desta opinião. Daí por- que o desabafo pode surtir efeitos e sensações diferentes das pretendidas. Outro dia, conversando com uma pessoa especial, ouvi que falo ou escrevo com frequência sobre o fim, quase como pensamento repetitivo ou mania constante. No entanto, concebo que todo fim é começo. De fato! Seja o fim de uma fase, de uma experiência, de uma viagem, de um relacionamento, da própria vida. O que finda hoje representa reinício amanhã. Encarar de modo otimista nem sempre é fácil, porém é, sem dúvida, preciso. Similarmente creio também sobre as missões ocu- padas ao longo da jornada da vida. Uso no plural – mis- sões – porque é tudo rápido e volátil, mostrando que assumimos condições distintas: numa hora, professores magistrais; em outra, aprendizes ávidos. Num instante, cuidadores; em outro, seres cuidados. De repente, escre- vo e expresso opiniões; mais adiante, consumo e reflito sobre pontos de vista. Na montanha-russa da vida, sou o que a vida pede/indica que eu seja, ainda que nem sempre saiba ou esteja preparado para tal. Isso acontece quando sou filho dos meus pais, dentro da lógica natural da vida, ou ao contrário quando assumo o papel de pai dos meus pais. Quanto às missões, todos nós as temos. Tem gente que pressente, sabe e sente desde o primeiro 43
Estações da Vida momento da vida; outros, não, só descobrem ao longo de experiências pontuais. Alguns nasceram para cuidar, liderar, produzir, proteger, inovar, contribuir, doar- se, educar; outros nasceram para ações distintas, tão importantes quanto as primeiras. E há também aqueles que em dados momentos da existência ressignificam missões, em clara confirmação de nossa maleabilidade. Sendo assim, entendo também que nossa missão na vida de uma pessoa ou de uma instituição pode mu- dar. Posso ser útil e importante agora, quase primordial; contudo, em outro momento, terei menor expressão dentro da lógica de ressignificação de sentimentos e prioridades. Sem desacreditar no ser humano e na sua infinita capacidade de adaptação, presente até o resto dos dias, entendo que as missões mudam com base na conjunção razão e emoção, que por sua vez são regadas por autoconhecimento, respeito e maturidade. 44
Alisson Dias Gomes AMIZADES E REENCONTROS A felicidade não é algo pronto. Ela é feita das suas próprias ações. Dalai Lama Entendo que a vida é um processo de experiên- cias nas mais diferentes dimensões. Da esfera individual à coletiva. Do campo profissional ao cultural, social, eco- nômico, entre outros. Compreende diferentes fases e valores. Tudo orquestrado em prol do desenvolvimento particular, intrínseco e necessário de cada ser humano, tendo por base as relações que serão construídas ao longo dessa jornada. Por motivação própria ou circuns- tancial, os amigos representam recursos indispensáveis para momentos de alegria ou tristeza, de dor ou supera- ção, de autoconhecimento e contributo grupal. Recentemente comemoramos o Dia do Amigo e Dia Internacional da Amizade, 20 de julho, adotado primeiramente em Buenos Aires, Argentina, a partir de 1999, sendo uma das celebrações mais festejadas pelo país vizinho. A data foi criada pelo argentino Enrique Ernesto Febraro, que considerou a chegada do homem à Lua como um símbolo de união entre todos os seres humanos. 45
Estações da Vida De modo mais intenso, explícito e, até mesmo, surpreendente, tende-se nesta data ao recebimento de manifestações de carinho, apreço e bem-querer por par- te dos “irmãos de vida”. E aí me propus a refletir sobre as amizades construídas ao longo da vida. Algumas du- radoras; algumas passageiras. Algumas sólidas e resis- tentes; algumas circunstanciais e temporárias. Algumas livres e compreensivas; algumas densas e complexas. Amigos que cobram, falam, pedem, ajudam, criticam, acarinham, demonstram... Amigos de todos os matizes emocionais, que en- tram em nossas vidas por situações distintas e permane- cem, ainda que a frequência de contatos e comunicação varie (sendo maior ou menor, mas ainda assim suficien- te para que os elos se mantenham). Vivenciei exemplos recentes em duas situações. Na primeira, quando uma amiga chilena, residente atual da Ilha de Páscoa, com quem fiz mestrado em 2007, escreveu mensagem reple- ta de estima, por meio de uma rede social digital, após (re)encontro tecnológico. Na segunda, com amigos es- panhóis e venezuelanos, contemporâneos de uma épo- ca de residência em Salamanca, Espanha, ao nos reen- contrarmos após oito anos de hiato presencial, mas de constante presença emocional. Nada mudou! Aliás, os elos se fortaleceram, pro- venientes da maturidade dos anos e dos valores consoli- dados. E mais um aspecto chama atenção sobre o tema: a diversidade de amigos e amizades. Cada um/uma com sua importância e espaço. Sem concorrências! Existem 46
Alisson Dias Gomes os amigos da rua, os amigos da escola, os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos-parentes (pais, irmãos, primos, tios e avós), os amigos próximos, os amigos distantes... Simplesmente, amigos! E não se fala de colegas, estes ocupam outros espaços. Como bem diz uma grande amiga, por meio de uma mensagem visual que reflete bem o que é ser ami- go: se observamos, ao pé da letra, a palavra AMIGO e substituirmos a letra “m” por “br” teremos ABRIGO, local de acolhida, de refúgio e de porto. Amigo deriva do vocábulo latim amicus, signi- ficando preferido/amado. Aí está o verbo amare – em português, amar. Assim, a amizade é uma das mais belas formas de amor. Um amigo de verdade não é aquele que diz o que você quer ouvir. Um amigo de verdade é aquele que diz o que você precisa ouvir! Ele/ela é capaz de arriscar a amizade pelo nosso bem. Aquilo que você quer ouvir até os inimigos podem lhe dizer, confirman- do que a vida pode dar mil reviravoltas e o mundo pode até mudar de cor, no entanto uma amizade verdadeira se mantém eterna, bem como você e o seu amigo/sua amiga, mesmo morando em cidades, estados ou países diferentes, continuarão próximos. 47
Estações da Vida ESCRITA TERAPÊUTICA Nunca tenha certeza de nada. A sabedoria começa com a dúvida. Sigmund Freud Dentro da lógica dual, causa espanto e surpresa a capacidade humana de plasmar momentos e sensações tristes em escritos, sejam eles literários e poéticos e/ou musicais. Por sua vez, esses textos embalam sofrimen- tos, descarregos, dores e angústias numa perspectiva de catarse emocional. Ocorre de modo tão vívido e inten- so que somos capazes de escrever algumas das melho- res mensagens quando estamos diante dos piores mo- mentos, dias e horas. Ressalto explicitamente que não se trata de exaltação da dor e do sofrimento, mas tão somente o reconhecimento de que momentos trágicos, alienantes e perturbadores alimentam almas e mentes de tal forma que nos tornamos habilidosos no manejo das palavras e na composição de escritos. A reflexão anterior é fruto de conversa com ami- gos, quando um deles revela sem pudor e sem medo de julgamentos, que a dor, a solidão e a tristeza são fontes de inspiração. Automaticamente, recordei-me de como isso alimentou por anos e anos minha produção tex- tual, tanto nos escritos publicáveis quanto naqueles que guardo para mim e que estão ordenados nos arquivos 48
Alisson Dias Gomes do notebook. Tornou-se frequente a aproximação e afi- nidade com quem produzia algo similar, quase como ação imediata e instantânea. Os argumentos e as inten- ções desses textos pareciam gerados por mim, em al- gum momento, em determinada circunstância. A necessidade de falar sobre a tendência de escri- tos e dores tornou-se tão premente que o assunto virou tema de conversa com a terapeuta. Por incontáveis vezes, tentei entender a motivação, o momento e o contexto em que as práticas de produção escrita se davam na minha vida. Foram conversas e conversas, reflexões e reflexões até o veredito consensual de que a escrita nestas opor- tunidades se dá muitas vezes pela maior introspecção e isolamento, tendo em vista que ao passar por dores e sofrimentos temos tendência ao silêncio. Assim, concluí- mos... O dizer registrado em palavras (literárias ou melo- dias musicais) ajuda a alma, a exemplo do que tão bem fez Mário Quintana, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Marisa Monte, Cazuza, Caio Fernando de Abreu, Cecília Meireles e Adélia Prado. Pelo menos, para algumas pes- soas, como eles e elas, entre os quais também me incluo, a escrita é aguçada e a necessidade de colocar para fora torna-se vital, como num ato de sobrevivência e de ex- purgar sentimentos pensados e vividos. Com base na curiosidade instintiva e na capa- cidade de observação aflorada por meio de leituras e pesquisas, descobri que existe a prática do “expressive writing”, algo como “expressão pela escrita”, que mais tarde se consolidou como escrita terapêutica. Há algum 49
Estações da Vida tempo, a Psicologia Clínica propõe mudar emoções ou sensações diante de eventos atípicos por meio de uma maneira eficaz de encontrar a paz, após a experiência desastrosa ou dolorosa. Isso ocorre tanto que a Ciência confirma a escrita não só como ferramenta importan- te para alterar respostas fisiológicas a doenças crônicas como também para melhorar o quadro de saúde dos pacientes, com ganhos substanciais para qualidade de vida mental. Ao escrever, os seres humanos tornam suportá- veis as “experiências pesadas”. A escrita passa a integrar a biografia de quem vive o trauma, abrindo caminhos para saídas e recuperações, como se cada um(a) rees- crevesse sua história. Sendo preciso, escrever com pro- pósito é resultado de pensamento estruturado e contri- bui para o autoconhecimento. Daí porque, caro amigo e estimados leitores, ao receber o conselho de que deveria escrever também nos momentos felizes e festivos, fiz questão de repassá-lo. Para tanto, coloque um recado para si no mural de fotos ou mensagens, num post-it na escrivaninha ou na por- ta da geladeira para que se lembre de que deve escre- ver quando estiver em êxtase, feliz e realizado(a). Afinal, como bem provoca o escritor Fernando Sabino, “escre- vo sobre aquilo que não sei, para ficar sabendo” tendo em vista que o saber e o sentir mudam com o tempo e com as vivências. 50
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