Alisson Dias Gomes O LAÇO DO ABRAÇO Não basta saber, é preciso aplicar. Não basta querer, é preciso também agir. Goethe O abraço está entre as demonstrações de afeto e de relacionamento mais envolventes e antigas entre seres humanos. Seja pela capacidade de abarcar o outro próxi- mo a si, como numa cápsula de proteção, seja pela pro- ximidade dos corações, seja pela troca de energias, pela abertura ao outro, numa acolhida ou por meio da cone- xão de corpos e vidas. Ele remonta aos períodos longín- quos e cada vez mais ganha força numa lógica de resgate e valorização, ainda que a virtualidade e o contato digital se disseminem na sociedade contemporânea. O fato é que o abraço gera um bem mútuo, tanto para quem dá como também para quem recebe. Aliás, testemunhar abraços trocados faz bem, faz muito bem. As situações são diversas e podem se intensificar ainda mais: o aluno e a professora a cada nova aula; os colegas de trabalhos diante de novas jornadas; os amigos nos en- contros e saídas; entre pessoas desconhecidas, mas que se afinam pelos momentos de alegria ou dor; entre pa- rentes que se despedem ou se reencontram em rodoviá- rias e aeroportos etc. 51
Estações da Vida O abraço prescinde de envolvimento sexual. Pode ser um simples gesto fraterno, de pacto, de reencontro, de concretude, de ligação... Jamais, simplório! O abraço é uma expressão humana mutante retratada em escritos literários e canções representativas. Em suma, o abraço é um grande laço. Nunca, nó! Ao longo do meu dia a dia, recebo e dou alguns abraços. Sem formalidade e com intenção, os abraços surgem como demonstração de carinho e de acolhida. Ao cumprimentar o educador físico na academia para o treino matinal; ao saudar minha mãe na hora do almoço; ao reencontrar alguns colegas de trabalho após dias de descanso ou férias, em especial a querida secretária com quem divido a rotina exigente; ao rever o pequenino e animado sobrinho; ao estar com pessoas queridas em situações variadas, a exemplo da praia, do aniversário, da comemoração... Ocorre de tal modo que ao pensar no abraço, na manhã de hoje, vejo que ele faz parte dos rituais diários de cumprimento, troca e consolidação de sentimentos. Ao escrever sobre este gesto, noto inten- cionalidade e reflexão sobre tal ação, capaz de extra- polar a necessidade de uma data fixa, a exemplo do dia nacional do abraço: 22 de maio. Afinal, todo dia é dia de abraço! Recordo-me de frase do livro O Diário de Anne Frank, de autoria da adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto em 1945: “os abraços foram feitos para expressar o que as palavras deixam a desejar”. 52
Alisson Dias Gomes De modo brilhante, ela sentencia o que penso. Daí porque, sem medo de críticas ou olhares questionadores, troco beijos por abraços e guardo a convicção de que estes são capazes de externar aquilo que nem sempre sou/somos capaz(es) de trazer à tona, seja por limitação ou ocultação. Nesta lógica de enaltecimento e reconhecimento do poder do abraço, recordo-me da canção composta por Rogério Flausino e PJ, do Jota Quest, “Dentro de um Abraço”, que cantarola, entre diversos trechos que “O me- lhor lugar do mundo / É aqui, é dentro de um abraço / E por aqui não mais se ouve o tique-taque dos relógios / Se faltar a luz fica tudo ainda melhor / O rosto contra o peito, dois corpos num amasso / Os corações batendo juntos em descompasso...” Ao escutar esta música recentemente, no som do carro, a certeza de que o propagado é mais do que cor- reto é vital. Para uma vida mais leve, mais harmônica e mais integrada, quero fazer do abraço um manifesto de vida, em clara confirmação de que devo abraçar mais e mais, assim como você também pode fazer deste ato um hábito constante e revitalizador. 53
Estações da Vida PESSOAS MUDAM JUNTO COM O MUNDO! O que não enfrentamos em nós mesmos encontraremos como destino. Carl Jung Existem temas, assuntos, conversas e opiniões que nos tocam de modo tão marcante que ficam em nossas mentes dias e dias, noites e noites. Tornam-se presentes ainda que não sejam atuais; tornam-se imprescindíveis ainda que não tenham sido escolhidos. Às vezes é pre- ciso tempo para tomar uma posição, seja para o outro ou para si. Responder no ato muitas vezes não é legal e pode resultar em tensionamento ainda mais agudo. Em algumas ocasiões, por experiência própria e exercício constante, me dei conta de que o ideal é dar tempo ao tempo, deixar a poeira baixar. Sem intenção de ser controlador, o que nos res- ta é entender que soluções, respostas, saídas e reações existirão após momentos de calmaria, parcimônia, esta- bilidade, isolamento, reencontro e reflexão. Daí porque a terceira lei de Newton, que descreve o resultado da interação entre duas forças, chamada de lei de ação e reação, pode ser contrariada em diversos momentos da vida. Em especial, quando levamos em conta que não somos exatos ou estáticos. 54
Alisson Dias Gomes O que hoje é bom e suficiente pode ser que ama- nhã perca valor; o que neste instante se apresenta como estimulante e indispensável pode ser que mais adiante deixe de encantar e motivar. Longe da ideia de descarte ou desapego, simplesmente precisamos entender e acei- tar que somos mutáveis, como a própria vida. E muitas mudanças ocorrem espontaneamente por fatores diver- sos e alheios. Se a mente e o corpo mudam, por que os pen- samentos se estagnariam? Se os valores e as pessoas mudam, por que as sensações se paralisariam? O certo é que muita coisa se transforma para algumas (ou muitas) pessoas em certas etapas de nossa existência, entre as quais me incluo e vejo de perto amigos, colegas e alunos também se implicarem. Diante de conversas restaurado- ras e reflexivas, que beiram a papos filosóficos, ocorrem retomadas de temas e posturas defronte situações sen- tenciadas como corretas ou impróprias. O entendimento de que no Universo nada é es- tático, resultando em movimento e novidade, nos dá a certeza de que algo bom passará assim como a fé de que algo ruim se dissipará. Ganha força a cada instante, numa lógica irreversível de que o eterno é fugaz. Tudo pode ser novo, ainda que tenha ocorrido: a visita ao local mar- cante, a viagem repetida, o livro relido, o filme revisto, o reencontro especial, a conversa resgatada etc. Quer queiramos ou não, tudo muda na vida, seja para o bem ou não, de acordo com a compreensão de cada um, a depender do prisma e da perspectiva para 55
Estações da Vida encarar o novo. Isto decorre do fato de que tudo é mo- mentâneo, tudo é circunstancial. Com o espírito renovado a cada dia e noite, de modo particular, quando me coloco diante da tela do notebook para expressar opiniões, revalido o dogma de que se a vida não é estática, eu também não sou, bem como você, o vizinho, o parente, o amigo e o chefe. Não precisamos ser a mesma pessoa sempre, pois a cada dia erramos, acertamos, nos perdemos, nos encontramos, aprendemos um pouco mais e amadurecemos num pro- cesso de evolução constante. Cada um no seu tempo, no seu ritmo, permitindo que o coração e a mente se encham de bondade e de aprendizado, num exercício de compreensão, aceitação e validação de amar a si e as pessoas sempre, sem per- der o valor e a essência que cada um de nós possui. 56
Alisson Dias Gomes A RESILIÊNCIA DE UMA MÃE A persistência é o caminho do êxito. Charles Chaplin Maria é o tipo de mulher determinada, altruísta, confiante e obstinada. Casada, professora, viajante de primeira hora, amante de rock e balé, nordestina e en- tusiasta da Educação como elemento de transformação social, ela tem 37 anos e alimenta o desejo de ser mãe desde cedo. Ainda na época da escola, Maria falava para amigos sobre os planos de ter quatro filhos, com no- mes e períodos do ano para os nascimentos definidos, pensando até mesmo nos possíveis signos do Zodíaco. Contudo, antes da concretização deste sonho-projeto, uma longa jornada com sorrisos e lágrimas se deu com capítulos densos, marcados por consultas, exames, me- dicações, expectativas, frustrações, orações e reinícios. A busca pelo primeiro e lindo filho é marcada por esforço descomunal e evidências incontestes de supe- ração humana. Enquanto a maioria das mulheres tem gestações de, em média, 39 semanas, Maria precisou aguardar 156 semanas, conforme cálculos pessoais, ten- do em vista perdas e recomeços. E essa caminhada só foi possível por meio de uma barriga solidária (ou útero de substituição ou gestação de substituição, segundo de- signações formais). Por motivos específicos, ela precisou 57
Estações da Vida recorrer a esta técnica, permitida no Brasil desde 2017 graças a uma resolução do Conselho Federal de Medi- cina. Com o amparo da lei, respaldada por orientações científicas e médicas, e com as devidas autorizações, o sonho estava cada vez mais perto de se concretizar. De modo reservado e cuidadoso, Maria levou “sua” gravidez com normalidade até momentos próximos do parto. Sem alardes e manifestações públicas, como fa- zem muitas grávidas em razão do ápice de felicidade e expectativas, ela optou por discrição e cautela, tudo com- preensível tendo em vista as experiências anteriores. Com o tempo, foram se tornando notáveis os olhos brilhantes, a voz esperançosa e a expectativa resiliente ao comunicar aos amigos íntimos. Sem renunciar a tudo que permeia esse momento da vida de uma futura mamãe, Maria teve diário de ges- tação, álbum de ultrassonografias, ensaio fotográfico e até mesmo um chá de bebê organizado por um grupo de amigas conhecedoras da bênção alcançada e em via de materialização. A surpresa do encontro para presenteá-la se assemelhava à surpresa da revelação tardia. Para Maria, os detalhes pareciam ter mais impor- tância ainda que o mais valioso estivesse por vir às 7h da manhã de uma terça-feira, no dia 20 de agosto de 2019, com 49,5 cm e 3,400 kg. Da maternidade para um lar repleto de amor e gratidão, o mais novo cidadão do mundo foi envolto numa corrente de afeto e orações, entre as quais muitas delas foram direcionadas à Virgem de Guadalupe ao longo de toda a sua caminhada. 58
Alisson Dias Gomes Como mãe de primeira viagem, o enxoval foi con- cebido com carinho e esmero sob supervisão criteriosa da avó, coruja por natureza e encantada pela nova fase de sua vida e da filha. As visitas de boas-vindas ao queri- do menino se deram num clima de agradecimento e vi- tória, pois o dom da vida nunca seria tão celebrado como naquela ocasião. Além disso, é lindo e generoso ver que uma pessoa cedeu seu útero em benefício de Maria (e toda a sua família) em prol do alcance de um sonho, daí porque se justifica mais ainda o nome do pequeno meni- no ter significado de guerreiro. Histórias de superação inspiram relatos, livros, fil- mes e vidas, bem como o contrário também ocorre com frequência em diversos cantos do mundo com persona- gens variados e em tempos diferentes. Este relato pode- ria ser uma crônica ficcional, fruto da criatividade do au- tor, mas na verdade se trata de uma história real. Amigos próximos protagonizam esta narrativa autêntica e com- partilham com os demais a força de uma família na bus- ca por um sonho e o ideal de nunca desistir valendo-se da resiliência e da persistência como valores basilares de uma vida. A única mudança se deu no nome da nova ma- mãe para evitar exposição, haja vista este texto ter dupla função: informar a mais famílias sobre a possibilidade da gestação de substituição e presentear o pequenino pela passagem do seu primeiro ano de vida. 59
Estações da Vida AS ÁGUAS DE JOÃO Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar. Carlos Drummond de Andrade João é dessas pessoas comuns, fáceis de encontrar por aí, a cada esquina das ruas e avenidas das cidades pequenas ou grandes do Brasil a fora. É o tipo de pes- soa quase sempre centrada, com gostos comuns, hábi- tos corriqueiros, manias convencionais e práticas banais. Não é oito, nem oitenta! Tem sonhos, planos e metas a alcançar, com esforço, garra, dedicação e foco. Anda costumeiramente pelos caminhos indicados e quando possível tenta passar despercebido em inúmeras situa- ções, sem chamar atenção para si, nem muito menos re- querer holofotes, purpurinas, aplausos e reconhecimen- tos. É o típico ser humano em construção permanente, consciente do seu estado inacabado, até o fim da sua existência, sendo capaz de entender algumas das fragi- lidades e virtudes que possui, em razão da maturidade de quem quase alcançou os 40 anos. Outro dia, em conversa fiada com ele, ouvi algu- mas das suas muitas histórias. Por sinal, ele coleciona cada uma como aquelas pessoas que guardam postais, fotos, ímãs de geladeira e souvenirs de aventuras e via- gens. E, nesta ocasião específica, ele falava do seu en- 60
Alisson Dias Gomes cantamento pelas águas, revelando sentir-se em seu ha- bitat natural. Por certo, não se referia às águas do mar, nem de piscinas, chuveiros, mangueiras... Embora todas fizessem muito bem a ele. Ponderava sobre as águas das cachoeiras, com sua fluidez e continuidade, que banha- va e levava consigo quase tudo, num processo de puri- ficação. João falava com uma empolgação contagiante acerca do prazer de banhar-se nessas águas, a ponto de hipnotizar quem o escutava, seja pela alegria sentida ou pelo desejo de provar tal sensação. Nas águas correntes e geladas das inúmeras cachoeiras em que se banhou por quase uma semana, no meio do país, das mais cal- mas às caudalosas, das mais famosas às desconhecidas, das acessíveis às impenetráveis, João se deliciou com a água no corpo, da cabeça aos pés, com os sons únicos da natureza, em especial, o barulho adorável da melodia das águas a cada contato com as pedras, as plantas e o próprio corpo e das vezes em que viveu a experiência de estar em conexão com a natureza física e espiritual. Em seu relato, notamos claramente o reconheci- mento de que diante do desânimo ou chateação com alguma situação ou com alguém, ao longo dos últimos dias ou semanas, o contato com a natureza e as águas frias das cachoeiras lhe proporcionava recarga, energi- zação e fortalecimento. Entre os principais benefícios, ele listava sem medo de ser pragmático, que os banhos lhe geravam vitalidade e energia para o corpo; uma pele mais viçosa e renova- 61
Estações da Vida da, um estímulo para a circulação sanguínea, o aumen- to da imunidade e ajudavam na recuperação muscular, além de espantar qualquer vestígio de depressão, pois ali ele ficava em paz com os seus pensamentos, num processo de calmaria e catarse, sem precisar expressar nenhuma palavra. João ainda teve tempo de cantarolar, filosofar e re- citar poesias para si e para o mundo. Diante da expe- riência de imersão na natureza, ele nos relatou que se deu conta de sensações que o dinheiro jamais poderá comprar e que o banho de cachoeira banhava não so- mente o corpo, mas a alma por inteira, convidando-nos a provar tais possibilidades, seja no Piauí, em Goiás, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul ou em qualquer par- te do mundo. 62
Alisson Dias Gomes NARCISO, EU E VOCÊ Me encantaría quererte un poco menos, cómo quisiera poder vivir sin ti. Maná Certas afirmações e conversas reverberam em nossas mentes por dias e dias. Quase sempre é assim comigo e creio que com muitos de vocês também por razões variadas. Seja em âmbito pessoal ou profissional, na esfera pública ou privada, de modo intencional ou espontâneo, certas sacudidas ou alfinetadas, no sentido conotativo, nos levam a reflexões profundas. Às vezes levam horas ou dias para serem assimiladas, ressignificadas e exteriorizadas, podendo retornar numa nova conversa ou num artigo de opinião. A mais recente é fruto de um papo com uma amiga que falava sobre a relação dela com o espelho e o pânico de olhar-se por conta dos últimos meses distante de hábitos saudáveis, tanto de alimentação quanto atividade física. De modo espontâneo e genuíno, o papo nos des- pertou ainda mais interesse por ouvi-la e pensar sobre aquilo que estava sendo compartilhado. Para ela, foi uma catarse sem reproches e censuras, o que nos levou a acolhê-la e somente após a estabilidade emocional, algumas provocações foram formuladas. Valorizando sentimentos, sensações e subjetivi- 63
Estações da Vida dades, mas também aspectos práticos e tangíveis, em dado momento o questionamento veio à tona: como anda seu diálogo com Narciso? Ela deu uma gargalhada sonora, gostosa e libertadora. Parecia mais leve a ponto de dizer que imaginava o papo enveredando por cami- nhos filosóficos, psicológicos e mitológicos. Aí, automa- ticamente, retruquei e disse que não. Naquele instante, ficaríamos na superficialidade do dia a dia e na pressa das horas, ainda que o tempo permitisse muito mais do que isso, sem discursos acadêmicos ou fundamentações científicas, recorrendo tão somente às trivialidades do momento que versam sobre autoaceitação, empodera- mento e individualidade, dentre tantos assuntos. O Narciso citado na pergunta não é exatamente uma pessoa. Aliás, foi! Segundo a mitologia grega, foi um herói do território de Téspias, Beócia, Grécia, famo- so por sua beleza e orgulho. No entanto, nesse caso, nos referíamos ao conceito mais amplo, o narcisismo, em toda sua dimensão: positiva e negativa. E a pergunta tinha por fim fazer com que ela visse a necessidade de convívio e, até mesmo em certos momentos, de intimi- dade com o Narciso dela. Afinal de contas, todos nós temos. Muito ou pouco, mas temos! Algumas pessoas de modo muito aflorado, beirando ao egocentrismo exacerbado e doentio, e outros de modo tão atrofiado, capaz de colocá-los em situações de desestima ou de- preciação. O fato é que a conversa culminava num ponto in- teressante, pois aos olhos dela eu estava comumente se- 64
Alisson Dias Gomes guro, confiante e com autoestima nas alturas. Chegou a ser hilário o argumento dela de que um espelho muito grande na parede da sala do apartamento evidenciava todos os dias o meu auto bem-querer. Neste momento, a gargalhada foi nossa e estamos diante de uma ocasião propícia para trazer à tona também nossas fragilidades, incertezas e dúvidas, pois todos os seres humanos as possuem e, em algum momento da vida, de acordo com as circunstâncias, elas se manifestarão com maior ou me- nor intensidade. Ao contrário do que prega o narcisismo, termo de- rivado da palavra grega narke (“entorpecido”), simboli- zando a vaidade e a insensibilidade, visto que Narciso era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se apaixonaram pela sua beleza, o Narciso que existe em mim serve também como elemento de controle, pro- teção e tomada de consciência. Por certo, muitas vezes ele sai por aí, sem avisar, e passa dias fora, transitando pelas casas de Antônios, Franciscos, Josés, Guilhermes, Paulos, Pedros, Márcios etc. Assim, resta-nos o entendimento de que o narci- sismo, em dados momentos, também pode ser benéfico e bem-vindo, dentro da lógica de autoconhecimento. Em outras palavras, o grande desafio está em encon- trar o equilíbrio, pois o mito de Narciso representa a individualidade (e todos os nossos dramas), evidencian- do, isto sim, a profundidade de um indivíduo que toma consciência de si mesmo, antes do próprio mundo. 65
Estações da Vida O OLHAR DE ANTÔNIO Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade. Carlos Drummond de Andrade Era fim de tarde de segunda-feira e Antônio senta- va-se no sofá em frente à televisão. No momento, nada de leituras nem escritas, ligações, reflexões ou pausas! A ideia inicial era tão somente assistir alguns episódios da série O Homem do Castelo Alto, baseada no livro de distopia, romance e ficção científica de 1962 do autor norte-americano Philip K. Dick. A narrativa se desenvol- ve quinze anos após as Potências do Eixo derrotarem os Aliados na Segunda Guerra Mundial, ficando os Estados Unidos da América entregues à Alemanha nazista e ao Império do Japão. De acordo com Antônio, vale a pipoca e o contato com uma realidade impossível de se materializar haja vista os caminhos da humanidade após o conflito glo- bal e a nova configuração geopolítica, completamente distinta da vigorante. A série está disponível no serviço de streaming Prime Vídeo, que permite a muitos cinéfi- los viajarem sem sair de casa, tendo acesso a produções audiovisuais de diferentes países. Para desfrutar do momento, Antônio utilizaria um ventilador para amenizar o clima tropical de sua cidade natal que nesta época do ano registra temperaturas mé- 66
Alisson Dias Gomes dias de 35°C. De repente o plano é interrompido quan- do, ao ligar o ventilador que o acompanhava há quase oito anos, ocorre um curto-circuito. Faísca aqui e acolá e lá se foi o aparelho doméstico. De cara, queimou, pi- fou, deu tilt... Podemos falar das mais variadas formas, mas o fato é que dali em diante, Antônio não teria mais o utensílio básico e imprescindível para seu cotidiano e o desenvolvimento de inúmeras tarefas. O cheiro forte de queimado ocupou a sala. Nada que não pudesse ser contornado por meio da abertura de janelas e portas, seguida da queima de um incenso de sete ervas, para desprender influências negativas. Por alguns minutos, Antônio olhou e pensou. Num primeiro instante, queixou-se pelo prejuízo mate- rial, pelo risco de um acidente de maiores proporções, pela mudança de planos de uma atividade prazerosa que precisou ser adiada... Enfim, muitos pensamentos de uma vez, quase como numa avalanche. Contudo, o que chamou bastante a atenção de Antônio e o fez pa- rar por alguns instantes foi a sua relação com aquele aparelho: quantas vezes o ventilador foi usado ao lon- go dos anos? Como recuperá-lo e contrariar a lógica do consumo desenfreado estimulado pela indústria e sociedade contemporânea? Que nível de apego existe entre ele e os bens materiais a ponto de consertá-lo ou, em contrapartida, descartá-lo? Questionamentos vieram à mente de Antônio neste dia banal, de tal forma que de fora e longe da situação poderíamos sentenciar com base em Platão: 67
Estações da Vida “Uma vida não questionada não merece ser vivida”. Pro- vavelmente, no dia a dia, ele não seja tão questionador, entretanto, pelo isolamento social, turbilhão emocional, incertezas sociais e profissionais provocados pela pan- demia de covid-19, é possível que esteja mais atento aos detalhes. Por sinal, desde o ventilador pifado, capaz de de- sencadear tantas perguntas, a rotina do zelador do pré- dio de limpar o condomínio com certos ritos e hábitos e ser observado pela varanda do apartamento bem como a mania da vizinha de fazer caminhada com o cabelo amarrado e máscaras que combinam com os shorts e calças em termos de cores, tudo tem chamado a aten- ção dele. Daí porque o passarinho que pousa na janela do escritório pelas manhãs para cantarolar e dar o ar de sua graça não o faz sem ser observado, bem como o desen- volvimento da jiboia, planta no vaso da sala, despencan- do firme e forte do móvel, em cascata, com folhas viço- sas já não passa despercebido; ou ainda a impressão de que as últimas noites estão mais relaxantes quando ele faz uso de óleos aromáticos para dormir, a exemplo de lavanda, laranja e alecrim, sinalizando um novo hábito a ser incluído no dia a dia. Parece que as lentes de aumento de Antônio es- tão ainda mais dilatadas, quase como microscópios, a ponto de aprimorar a atenção dele para tudo (ou quase tudo), em consonância com Sherlock Holmes: “os pe- quenos detalhes são sempre os mais importantes.” 68
Alisson Dias Gomes VOE SEMPRE E CADA VEZ MAIS ALTO! A gargalhada é o sol que varre o inverno do rosto humano. Victor Hugo Existem várias formas de voar. De modo figurado e real, são inúmeras possibilidades! Voa-se acompanhando insetos e pássaros alçarem voos plenos, por aí, cumprin- do seus papéis na natureza; voa-se em pensamentos e sensações a partir de conversas com pessoas queridas, da leitura de livros e da contemplação de músicas e poesias; e também voa-se subindo em aeronaves possantes, como aviões, helicópteros, dirigíveis e balões, que cortam a todo momento a imensidão do céu e mostram como somos pequenos diante da grandiosidade do mundo. Justamente imbuído do desejo de experimentar algo novo, sempre me disponho a viver experiências di- ferentes e, até mesmo, pouco comuns. Aliás, neste caso, reviver! Subi num balão, acompanhado de mais pessoas e planei por uma zona a fim de descobrir e admirar seus encantos, bem como estimular emoções e pensamentos internos. A primeira vez ocorreu há exatos 10 anos, na região da Capadócia, Turquia, e foi indescritível. Agora, na primeira semana de janeiro de 2020, me predispus a (re)viver a experiência de voar num balão, na Chapada dos Veadeiros, Goiás, Brasil e a compartilhar um pouco do que vi e vivi. 69
Estações da Vida Acompanhado de oito visitantes-voadores e do pi- loto, subimos de maneira gradativa, metro a metro, ainda antes do nascer do sol, por volta de 5h15, até chegar aos 1.500 metros de altura do solo, distância máxima para esta ocasião. Com maestria, sutileza, cuidado e orienta- ção, o piloto foi nos revelando a linda região do centro do Brasil por outra perspectiva, desta vez bastante peculiar a cada aproximação e subida dos pontos de interesses, como cachoeiras, colinas e descampados. A cada giro e volta, erámos presenteados com uma visão de 360 graus e, a cada pausa de silêncio ou conversa entoada, erámos preenchidos por um agradecimento constante por tudo ter dado certo: o tempo, os ventos, o instrumental, as companhias, etc. No sentido real e figurado, voei. Tirei os pés e todo o corpo do chão, bem como meus pensamentos que me acompanharam também e me proporcionaram sensa- ções de leveza e de gratidão. De cima, vi como somos pequenos, quase minúsculos, a exemplo do cachorro que latia descontroladamente pela passagem do balão, mas que só pôde ser notado pelo movimento frenético do rabo e quando nos aproximamos. Vi os companheiros de voos se emocionarem, si- lenciarem, tremerem, se declararem, registrarem os mo- mentos por meio de fotos e vídeos... Vi, senti e agradeci tanta coisa que algumas são impublicáveis. E o privilé- gio de estar ali testemunhando mais uma exceção me fez agradecer duplamente, pois na noite anterior havíamos 70
Alisson Dias Gomes tido uma lua cheia que ainda figurava soberana no céu e ali permaneceu durante alguns minutos até quando o sol surgiu, dissipando-a por completo. Naquele momen- to, olhei para cima, me conectei com a espiritualidade superior (conforme minha crença) e agradeci por tudo. Simples assim! Sem pedidos, somente me conectei à ex- periência física e espiritual. Por sinal, se possível, creio que essa experiência deve ser vivida por quem tiver co- ragem de encarar uma aventura deste tipo, pois como já defendia o sábio Leonardo da Vinci, “uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para céu, pois lá você esteve e para lá você desejará voltar”. Daí, porque defendo a ideia de que devemos sem- pre voar, seja como for, com o corpo e/ou com a mente, pois liberdade maior se alcançará! 71
Estações da Vida O ROSÁRIO DE RICARDO E TERESA O milagre é o filho predileto da fé. Johann Goethe Era uma manhã de terça-feira, nublada e par- cialmente chuvosa, quando Ricardo saiu de casa muito cedo, por volta de 6h30 da manhã, para evitar trânsito intenso e fluxo constante de pessoas na rua. Entre as missões do dia uma se destacava como prioritária: uma visita a Teresa, tendo por motivação carinho, bem que- rer e preocupação. Ela está fora de casa há alguns dias, temporariamente em tratamento no hospital. Ainda que não seja por algo tão grave, é sempre preciso ter aten- ção máxima quando se trata de uma senhora de 86 anos e com algumas debilidades provocadas pelas lutas da vida. Na chegada, controle rígido para ter acesso ao apartamento da paciente, principalmente em tempos de covid-19 quando se requer maiores cuidados e orienta- ções ainda que o hospital não esteja recebendo e tra- tando pacientes com coronavírus. Após a liberação, pas- sagem rápida e acesso direto ao local desejado. Os dois se viram e mesmo mascarados abriram sorrisos caloro- sos expressados através dos olhos. A conversa se inicia e a prosa segue caminho leve, por sinal, incomum para quem está em tratamento numa instituição de saúde. Perguntas dali e respostas de acolá. Mais sorrisos! Cutu- 72
Alisson Dias Gomes cadas e alfinetadas carinhosas de quem se conhece a fundo e há anos. O papo flui e as palavras de esperança e estímulo ganham ainda mais força. Depois de 40 ou 50 minutos, Ricardo pergunta se Teresa já havia rezado o primeiro rosário (terço católico) do dia. No dia da internação, ele fez questão de deixar um terço com ela, pegando em- prestado da irmã Valquíria, que sempre mantém um no carro com a crença de proteção e também pela prática de rezar ao longo da ida ou volta do trabalho, quando costuma levar em média 25 minutos de deslocamento. Ciente dos rituais de fé de Teresa, que incluem dois terços, um pela manhã e outro pela tarde, Ricardo perguntou prevendo que a resposta fosse não, tendo em vista ser ainda muito cedo. Diante da confirmação de que ela ainda não havia tirado o rosário, composto por um crucifixo, onde se faz o sinal da cruz e se reza o Credo; em seguida, as cinco contas maiores que indicam o Pai Nosso e as 50 contas menores, onde se reza as Ave-Marias e, ao final, no centro do terço, a oração Salve Rainha. O convite é feito e aceito de imediato. Um terço a dois, em voz alta, ambos sentados pró- ximos, dentro da lógica de que um tira a primeira oração e o segundo responde numa ladainha de fé, súplica e re- novação. Muito mais do que professar orações aprendi- das na infância, os dois se uniram num gesto de afeto e comunhão. Em pouco menos de 30 minutos, Ricardo e Tere- sa rezaram, pediram e agradeceram. E considerando que o terço compreende cinco mistérios, a cada finalização, 73
Estações da Vida com pausas e pedidos silenciosos, ali estão eles rogan- do a seus santos de devoção e a Deus o que mais de- sejam naquele momento. Quase de modo previsível era fácil adivinhar que Ricardo destinava seus pedidos pelo restabelecimento pleno da saúde de Teresa, assim como também de pessoas próximas a ele ou bem-queridas a pessoas dele como Yara, José Francisco, Ivonete, Maria das Graças, Francisca Maria, Yasmim, Fátima... Ao final do terço, os dois conversaram mais um pouco e na despedida Teresa agradece pela visita e pela companhia naquele momento especial afirmando que “a oração é nossa maior força” e que o Papa Francisco, líder da Igreja Católica, pede que não nos esqueçamos nunca de rezar uns pelos outros. Aí, mesmo sem abraços, Ricar- do diz a ela que espera que o próximo terço dos dois seja fora dali, na casa dela num domingo ensolarado e festivo. 74
Alisson Dias Gomes O DESABROCHAR DOS 15 ANOS Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira. Cecília Meireles A vida é feita de fases! E cada uma possui tanta importância e impacto na continuidade das outras que às vezes nem nos damos conta disso e negligenciamos ou saltamos experiências mais apropriadas para certos momentos. Hoje, adultos, somos reflexos de vivências, recordações e marcas da infância (e todas as fases pu- ras e ingênuas de descobertas) e da juventude. Ama- nhã, idosos, seremos páginas escritas a mão com grafia refinada e borrões resultantes das situações experiencia- das ao longo da jornada de amadurecimento. Com alegrias e tristezas, sorrisos e lágrimas, sur- presas e espantos, privilégios e limitações seguimos a caminhada de maturação física, espiritual e social. Cada um no seu tempo e no seu ritmo tem a capacidade de seguir em busca de evolução e melhoria. Ainda que ja- mais alcancemos a perfeição, e por mais que não saiba- mos exatamente os propósitos pelos quais vivenciamos tais experiências ou estamos em tais contextos e luga- res, somos seres evolutivos a caminho de alcançarmos consciência plena de nossas jornadas. Em meio a tantas inquietações que perambulam em mentes pensantes e ativas me dei conta nas últi- 75
Estações da Vida mas semanas, quase de supetão, que minha primeira sobrinha (e também primeira afilhada) estava prestes a completar 15 anos. Nossa! Como o tempo passa rápido. Aliás, ele voa! E olha que sou um dos defensores de pa- rar, sentir o tempo e (re)programar a vida sempre que possível. De todo modo, é inevitável e até mesmo clichê dizer isso, mas outro dia eu a via nascer numa manhã de sábado, especificamente no dia 18 de fevereiro de 2006, quando se prenunciava um fim de semana festivo para as famílias que a aguardavam com entusiasmo, expec- tativa e gratidão. Em conversa com uma de suas tias (também de- tentora do privilégio de ser madrinha) para definir de- talhes dos presentes, rememorávamos histórias de uma época feliz em que os aniversários eram comemorados com encontros, afagos e abraços. Ainda que o tempo transcorrido não seja nada longo falávamos com sau- dosismo das traquinagens de criança, dos olhos verdes gritantes na face perfeita e aveludada e das primeiras descobertas dela, enquanto bebê e criança, e de nós, enquanto tios de primeira viagem. Nossa! Como é bom ter testemunhado momentos representativos e respon- sáveis por vínculos de amor e afetividade. Por se tratar de uma idade muito emblemática ti- vemos uma boa conversa sobre o que presentear, em especial para uma garota linda, introvertida e observa- dora. Sem muitas dificuldades de definição, tínhamos claro que além do presente material seria muito interes- sante registrar que estamos à disposição para ajudá-la e 76
Alisson Dias Gomes aconselhá-la sobre a vida, desde uma perspectiva indi- vidual até coletiva. Sendo assim, recorremos ao hábito de escrever cartas, como manda o figurino, de maneira bem tradi- cional, com data, começo, meio, fim, assinatura e mais peculiaridades. Na oportunidade, compilamos algumas imagens felizes partilhadas com membros da família e reafirmamos nosso carinho e amor por Yasmim. Ao longo desses 15 anos intercalamos momen- tos de muita aproximação e confidência com também aqueles de distanciamento e isolamento (jamais ruptu- ra!) por transições individuais e demarcadoras de terri- tório e fase, como é comum aos adolescentes. O melhor de tudo é sentir que, do nascimento até hoje, tanta coisa boa aconteceu; algumas não tão boas, é verdade, mas importantes para definição de caráter e consolidação de vínculos e valores. E em meio a tudo isso o afeto e amor só crescem. 77
Estações da Vida CONVITE FLORES Após a leitura do primeiro conjunto de textos, com 15 reflexões, lhe convido a contemplar a Estação Primavera Musical por meio do QR code. É uma playlist com 15 músicas selecionadas e que possuem relação íntima com os textos e com o autor. As músicas foram escolhidas por possuírem significados especiais, caracterizando-se marcadores de uma época: Dia Branco Frozen É isso aí Geraldo Azevedo Madonna Ana Carolina e Seu Jorge Reconvexo Depois Vivir sin Aire Maria Betânia Marisa Monte Maná Flor de Lis Velha Infância Resposta ao Tempo Djavan Tribalistas Nana Caymmi Paciência Aquarela Medo Bobo Lenine Toquinho Rubel Hands Clean À Primeira Vista Flor da Pele Alanis Morissette Chico César Zeca Baleiro 78
Alisson Dias Gomes Imagine cada texto e cada música como flores de um jardim e desfrute deste momento, como se estivesse diante de agapantos, amarílis, azaléias, begônias, brincos-de- -princesa, calêndulas, camélias, copos-de-leite, cravos, dálias, gardênias, girassóis, hibiscos, hortênsias e lavandas. Um jar- dim musical cultivado para você! Bons sentidos! 79
Alisson Dias Gomes 81
Alisson Dias Gomes PARABÉNS, FAMÍLIAS! O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente. Mahatma Gandhi Ainda que estejamos recém saídos do Dia das Mães, 10 de maio, peço licença para parabenizar as famílias. Em especial, nos tempos atuais, quando as conjunturas sociais apresentam famílias distintas e variadas configu- rações, sem etiquetas de “tradicionais” ou “modernas”. Família é tudo igual quando se tem o princípio do amor, da união, da proteção... Seja na China, nos Estados Uni- dos, em Londres ou em Teresina. Sejam com uma mãe e um pai, dois pais, duas mães ou um pai ou uma mãe. Seja como for, família é tudo igual, desde que tenha por base o AMOR. Recentemente, em Teresina, Piauí, uma polêmica surgiu em torno da decisão acertada de uma grande es- cola ao decidir seguir a tendência mundial e comemo- rar o dia da família. Instituído em Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), ainda em 1994, o Dia Internacional da Família é comemorado em 15 de maio, como forma de divulgar a importância da família na sociedade, sublinhar seu caráter basilar na educação das crianças e passar mensagens de amor, respeito e união, elementos essenciais para o relacionamento de todos os componentes deste coletivo. 83
Estações da Vida A despeito de opiniões preconceituosas e desca- bidas de jovens mães à moda e modos antigos, vindo à tona por meio das tecnologias de informação e co- municação, família nada mais é do que amor. Parece redundância para alguns recair constantemente neste aspecto, mas prefiro tratar como coerência. O amor de quem cuida, de quem educa, de quem protege, de quem acompanha, de quem se dedica, de quem espera, de quem tranquiliza, de quem defende, de quem financia, de quem aconselha, de quem estimula... O amor simples ou complexo. O amor genuíno. O amor que surge, mui- tas vezes, de forma compreendida ou não, pelo vínculo de sangue ou de adoção. Por isso, mais do que nunca é preciso colocar amor no coração e, principalmente, nas atitudes. Amor que nos faz entender que em muitos momentos somos di- ferentes, mas com intenções/metas iguais. E, neste novo contexto, ainda bem que não são todos que pensam como Perséfone, Zeus, Apolo e quaisquer outros deuses gregos, acima do bem e do mal. Comprova-se tal pon- deração pela realidade hoje encontrada ao se estudar de forma técnica e científica as novas configurações fa- miliares por meio de cursos e treinamentos, a exemplo de “Família e Políticas Públicas”, como curso superior em que se qualificam assistentes sociais, advogados, psicó- logos, dentre outros profissionais, a lidar com a realida- de contemporânea: múltipla e variada. Sendo assim, de maneira particular e explícita, julgo que ir contra a data que celebra o amor da família atra- 84
Alisson Dias Gomes vés da inclusão e do reconhecimento de todos numa única ocasião é demonstrar mesquinharia e pequenez. E aí, cabe aos demais entenderem que, na verdade, a au- sência de amor faz com que algumas pessoas não con- sigam reconhecer a beleza de termos momentos para as famílias, na integralidade de sentimentos e sensações. Viva o 15 de maio! 85
Estações da Vida PAPÉIS INVERSOS E A TRANSITORIEDADE DO ESTAR No te esfuerces tanto, las mejores cosas suceden cuando menos te las esperas. Gabriel García Márquez A vida e suas etapas... Muitas vezes previsíveis, com fases bem delimitadas em quatro momentos: infância, adolescência e juventude, maturidade e velhice. Mas, em alguns casos, diante de sobressaltos, ciclos inespera- dos, levam à inversão de papéis e atribuições, a exemplo do abordado nesta reflexão. As razões são desconheci- das, alguns dirão que são diversos os motivos: destino? Carma? Missão? Desígnio? Etc. O fato é que a qualquer momento, talvez, venha- mos a ter que assumir responsabilidades para as quais não estávamos necessariamente preparados. Porém, nada é por acaso! Tudo está devidamente escrito no li- vro da vida. Basta apenas que saibamos ler, página a página, de maneira resiliente e atenta. Longe de aco- modações, mas sim com a certeza de que nossa evolu- ção depende do entendimento de que sinais são dados, evidências são reveladas e pessoas entram por razões claras nas nossas vidas, ainda que não sejamos capazes de entender de imediato. Em conversas com amigos e amigas, deparo-me frequentemente com perguntas, quase sempre iniciadas com “por que”. Diante destas situações, reflito, ponde- 86
Alisson Dias Gomes ro e quando possível tento reestruturar a pergunta, de modo a usar outro termo: “para que”. Imagino que assim o questionamento tende a se tornar mais contundente e a possível resposta mais tangível. Seja para um filho que aos 30 anos assumiu responsabilidades de toda a família em razão de um acidente com o pai, que o deixou entre a vida e a morte (até hoje); seja para uma mãe que aos 70 anos precisa cuidar novamente de uma filha de 50 anos diante de um diagnóstico de câncer. Forças internas e externas ou, diria melhor, mentais e físicas precisam ser encontradas para assumirmos ta- refas para as quais nem sempre estamos preparados, se- gundo nosso planejamento, mas que nos são impostas pelas circunstâncias, a fim de provocar ressignificações de valores e prioridades; de perdões e reencontros; de partidas e evoluções. Neste cenário, um simples “conte comigo” ou um sincero “boa viagem” representam tanto diante de silêncios entres filhos e pais, entre pais e fi- lhos. Servem de chaves para aberturas de portas emper- radas e reaproximações, entendidas em outros planos e que começam a ganhar vida, aos poucos, mediante situações de fragilidade ou de fortalecimento, tais como o cuidado por perceber que os pais não gozam mais da saúde de antigamente e serão cuidados pelos filhos, a exemplo do que tão bem fizeram em outras épocas de modo diligente. Cuidar na acepção mais forte do termo. Vale lem- brar que este é um verbo tão representativo, que sim- boliza tanto diante das agruras da vida. Cuidar do corpo, que perde certas habilidades e controles, que se limita 87
Estações da Vida pelo envelhecer da matéria; cuidar do espírito, pela ten- tativa de aproximar aquele ser da real essência da vida, a evolução, por meio de orações e vibrações. Por sinal, os próprios filhos ainda estão longe de alcançarem estes conhecimentos. O certo é que os papéis se invertem, muitas vezes. Tornamo-nos pais sem termos gerado aqueles seres; tornamo-nos responsáveis sem termos nos qualificado para tais funções. Se antes, recebemos tanto, é chegada a hora de retribuir mais ainda. De entender que as tro- cas, ainda que não tenham sido programadas (por nós), se apresentam, por razões desconhecidas ou não. Penso sempre que é como a mensagem de um tex- to ou de um filme, que não somos capazes de entender no momento de contato inicial, mas que em situações de releitura ou revisão serão devidamente decifradas. Ou mais. Se não foram agora, serão adiante, pois como bem ensina o médium e orador brasileiro Divaldo Fran- co: “o que temos nós deixamos. O que somos nós le- vamos”. Sendo assim, que tal levarmos o alento de que nos tornamos pais dos nossos pais? Afinal, tudo tem um sentido de ser; tudo tem um porquê de ocorrer e, principalmente, tudo acontece para que amadureçamos como seres de corpo e de alma. 88
Alisson Dias Gomes QUANDO A MÃE SAI DE FÉRIAS Uma pessoa inteligente resolve um problema, um sábio o previne. Albert Einstein Personagem central de uma família, a princípio, em função do dom da geração (ou da criação), a mãe é mui- to mais do que isso. É a base, o pilar, o porto seguro, o ponto de convergência, o colo, a materialização do amor de Deus no mundo. Como já disse em outras ocasiões, o seu dia é simplesmente todo dia, não se restringe ao segundo domingo de maio, como o presidente Getú- lio Vargas estabeleceu, ainda em 1932. Graças à postura dela, sua delicadeza e força, forma de ser e agir, somos o que somos, sem idealizá-la ou santificá-la. Carrega- mos valores de uma educação doméstica a ser exposta, testada e algumas vezes criticada nos mais variados am- bientes (sociais, estudantis, profissionais). A presença das mães nos possibilita comodidade, conforto e proteção. Em especial, tendo como parâme- tro muitas mães nordestinas, que, na maioria das vezes, são presentes e atentas, sem pretensão de estereoti- pá-las, mas sim considerar as personagens observadas. Preparam as refeições (do café da manhã ao jantar); observam os comportamentos dos filhos (da escola à faculdade; das primeiras companhias aos relacionamen- 89
Estações da Vida tos amorosos; da puberdade à vida sexual) e ao me- nor sinal de estranheza aproximam-se com perspicácia para entender o que se passa. Orientam nos estudos, ensinando tarefas (mesmo quando não sabem e preci- sam correr atrás de novos conhecimentos); vibram com os progressos dos filhos (da medalha conquistada ao aplauso e elogio recebidos). Renunciam a vaidades e vontades, muitas vezes, para oportunizar aos filhos me- lhores chances (cursos de inglês, de espanhol, de balé, de judô, de natação etc.). A lista de momentos é infindável. Preocupam-se com uma dor de ouvido ou febre alta, a ponto de perde- rem a noção de que é algo “natural” da vida. Colocam- -se à disposição a qualquer hora do dia ou da madru- gada para ninar e aconselhar. Rejuvenescem dezenas de anos diante dos filhos dos filhos (seus novos amores: os netos), como defende Rachel de Queiroz. Tornam-se leoas diante das ameaças, sendo capa- zes de romper convenções sociais impostas para acolher e compreender. Tentam, a todo custo, acompanhar as modernidades da vida e o linguajar dinâmico das novas gerações, a fim de manterem-se conectadas com aque- les que aos seus olhos, nunca tiveram os cordões um- bilicais cortados. Preservam imagens e lembranças no coração da alma e na memória afetiva a ponto de reve- larem em momentos de família, os apelidos e as manias da relação mãe e filho(a). Ao envelhecer, dentro do processo da vida, supõe- se que os filhos começarão a se tornar pais das mães e dos 90
Alisson Dias Gomes pais. Agora, os cuidados e afazeres ficarão a cargo dos filhos; as idas aos médicos e o monitoramento da saúde e dos remédios; os momentos de atenção redobrada e escutas acolhedoras; a organização das malas de viagem e da casa; a lida com os funcionários e prestadores de serviços; as feiras e compras no comércio; o controle das despesas e dos rendimentos etc. Inúmeras situações. Ah! E temos a certeza de que os papéis se inverteram, ao vermos que a mãe e/ou o pai saíram de férias, sozinhos ou juntos, e levaram consigo as preocupações que antes eram deles, quando éramos crianças e adolescentes e estávamos de férias, e agora são nossas. Ligações e mensagens informando que tudo transcorre bem são verdadeiros alentos para corações e mentes de filhos em papéis de pais. O lindo ciclo da vida e das mudanças! 91
Estações da Vida INTEIREZA DE ALMA A tarefa de viver é dura, mas fascinante. Ariano Suassuna Muitas vezes não é fácil. Nada fácil! Existem mo- mentos que demandam mais força, sabedoria, obser- vação e resiliência do que imaginamos (ou cremos) ser capazes de ter. Ao longo da jornada existencial, os desa- fios são diários, bem como as provações constantes e as dúvidas frequentes. Isso ocorre reiteradamente a pon- to de não sabermos qual caminho seguir, qual decisão tomar e qual resultado esperar em algumas ocasiões. Contudo, é sempre bom conservar consigo a esperança racional de que o (re)começo se apresenta como alter- nativa diante das oportunidades da vida. Sabemos que nem sempre existirá uma segunda chance, mas vale o otimismo de novas oportunidades. Afinal, somos seres em construção num mundo em mutação. Nada está pa- rado e tudo se relaciona! Cuidar da espiritualidade é uma das saídas apro- priadas, desde que seja compreendida como a busca pelo sentido da vida a partir da conexão com o Todo, expressando-se na prática como paz, equilíbrio, amor, essência, fé e harmonia. Por certo, cada ser humano tem sua concepção própria de espiritualidade. No entanto, quando paramos para refletir sobre o conceito real do 92
Alisson Dias Gomes termo, muitas vezes ficamos sem respostas. Neste contexto, sugiro reflexão/provocação partin- do da ideia de que é comum associarmos espiritualidade a práticas espirituais, dentre as quais, as mais comuns: missas, cultos, sessões, meditações e ações ou técnicas pontuais. De fato, a espiritualidade pode estar na bên- ção católica, no passe espírita, na pregação evangélica, no ritual do candomblé etc., mas não é exclusivamente isso. Tudo isso é espiritualidade e, ao mesmo tempo, nada disso é! Sem querer embaraçar ou confundir, é preciso deixar claro que os rituais ou técnicas são meios para atingir a espiritualidade e não o objetivo final. Ao ponderar sobre a espiritualidade é preciso en- cará-la por várias perspectivas, desde a etimológica até a religiosa, passando também pelos vieses científicos e filosóficos. Sem simplificar, mas somente direcionar nosso olhar, a espiritualidade relaciona-se a busca pelo sentido e propósito da vida, por meio da transcendên- cia do mundo físico. Em outras palavras, é a propensão individual humana a significar a vida por meio de con- ceitos transcendentes ao aspecto tangível, à procura de conexão com algo maior que si próprio. Daí porque defendo que a espiritualidade está li- gada aos sentimentos e as conexões. Por exemplo, com pessoas, que nos transmitem paz e outras sensações positivas por meio de um abraço, um olhar e um toque; com lugares, que nos remetem a lembranças, experiên- cias e momentos marcantes nas mais diferentes fases da vida; com ritos e rituais, que nos proporcionam conexão 93
Estações da Vida consigo (com o “eu” sagrado); com lembranças, músi- cas, gostos, entre outros detalhes. Em clara confirmação de que “orar não é pedir; orar é a respiração da alma”, Gandhi pregava aludindo ao fato de que as orações são (ou deveriam ser) momentos de conexão consigo (cor- po material e espiritual). A espiritualidade é interna. Jamais, externa! É fru- to de mergulho pessoal e intransferível a ser vivido por cada ser humano a partir do entendimento e da matu- ridade emocional de que isso o compõe tanto quanto seu próprio corpo. Às vezes, passamos a vida toda sem perceber ou entender esta particularidade. Ainda assim, quando nos damos conta de que a essência da vida se constitui de matéria e espírito é possível começar uma nova caminhada, alcançando o conforto em diversas questões da vida pela inteireza da alma e do espírito, levando em consideração que alma é aquela que reside em nossos corpos enquanto estamos vivos e o espírito é eterno — dependendo da crença de cada um! 94
Alisson Dias Gomes MALA FEITA E MUNDO POR DESBRAVAR O único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário, por força da ordem alfabética! Albert Einstein Eu sempre gostei da ideia de que ao fazer as ma- las muitas possibilidades se abrem diante de mim. Sele- cionar roupas e calçados, organizar tudo, imaginar cada peça a ser usada em cada ocasião me motiva a esperan- çar a aventura a ser vivida. Seja em poucos ou muitos dias; seja num local conhecido ou inédito; seja sozinho ou acompanhado; seja com pouca ou muita grana. Fazer as malas, de modo contínuo, me traz a ideia de desbravar, descobrir, revelar, conhecer, provar... Seja numa viagem de trabalho ou exclusivamente de lazer e diversão, bem como para cidades pequenas (menos famosas nacional e internacionalmente) ou para me- galópoles mundiais que requerem preparação maior e atenções redobradas. O “fazer as malas” me remete ao tempo em que era criança e via minha mãe ordenando tudo, com extrema maestria, para os dias vindouros em que descansaría- mos após dedicação escolar. Reunia ali muito mais do que roupas para quatro filhos que se animavam pela vi- sita aos parentes e amigos na Paraíba ou no Maranhão. 95
Estações da Vida Fazer as malas me traz nostalgia de alma por ver que iríamos encontrar pessoas queridas e explorar no- vos lugares. Cresci com esta sensação! Por certo, ela se fortaleceu mais e mais. Penso (dentro da redundância intencional) que o dinheiro que se tem ou se ganha serve para adquirir coisas ou experiências. Em 90% das vezes, opto por experiências – no plural. A escolha é mi- nha! É sua! Sei que temos vontade de comprar roupa nova, trocar o sofá da sala, ir para shows e baladas... Mas gosto de pensar que vale mais a pena conhecer lugares nesse mundão. E voltando à mala, guardo comigo a ideia de que ela representa movimento; simboliza ir e vir, chegar e partir, numa constante busca de descobertas, sensações e estórias. Para si e para os outros. E aí, sempre rio quan- do me recordo do comentário efusivo de uma grande amiga brasileira-austríaca, impactada pela minha ca- pacidade de composição, ordenação e experiência ao fazer as malas, quando disse: “Meu Deus, que mala pri- morosa!”. Na ocasião, íamos passar três dias em Berlim, Alemanha, e “só” podíamos levar uma bagagem de 10 quilos. Ao selecionar objetos e peças para compor mais uma mala, que me acompanharia por quase 20 dias em cidades especiais, que marcaram minha trajetória pes- soal e profissional, como de costume, coloquei uma boa música. Abri a mala na sala, selecionei peça por peça com base nos lugares a (re)visitar e nas ocasiões a serem vividas e tive sensações diferentes. Emoções e recorda- 96
Alisson Dias Gomes ções fortes vieram à tona, à medida que colocava tudo na mala. Longe de ansiedades bobas, em alguns mo- mentos a mão tremeu e o riso surgiu – do nada – pela impressão de que será interessante reviver situações e abrir-se a encantamentos novos. E tem mais uma coisa que considero muito impor- tante no fazer das malas: o equilíbrio. Nunca leve demais! Lembre-se de deixar espaços. Afinal, daquela experiên- cia você pode trazer recordações – que não precisam ser palpáveis – podem ser estórias lindas e ricas para contar para amigos, familiares, conhecidos, colegas de trabalho e alunos, no meu caso. É claro que, quando possível, vem algo material como um imã de geladeira, um chaveiro, chocolates, iguarias e essências específicas da cidade ou do país, como gesto de que lá recordei daqueles que ficaram, mas que foram comigo, no coração e na mente. Dentro da mala, levo e trago muito mais do que objetos; con- servo o espírito andarilho e desbravador de conhecer o mundo e a mim, a cada oportunidade, numa busca in- terminável de autoconhecimento e de inquietação sau- dável. Por isso, sempre me recordo da ideia espalhada por Brenna Smith que se tornou um lema de vida: “viajar é a melhor forma de se perder e de se encontrar ao mes- mo tempo”. Dito isso: quantas vezes você já se perdeu? Quantas vezes você já se achou? Pense nisso! 97
Estações da Vida VIDA DE PROFESSOR E AS EXPERIÊNCIAS DE 2019 Nossas vidas são definidas por momentos. Principalmente aqueles que nos pegam de surpresa. Bob Marley A vida de professor rende muitas histórias, sempre! Algumas delas são lindas e maravilhosas; outras são intri- gantes e desestimuladoras. Como tudo na vida, existem os dois lados: o das conquistas e alegrias e o das derrotas e tristezas. E isso se aplica a professores de qualquer ní- vel (do ensino infantil ao superior); de qualquer titulação acadêmica (dos licenciados aos que têm pós-doutorado), de qualquer realidade socioeconômica (cidade ou país desenvolvido ou em desenvolvimento) e de qualquer esfera (pública ou privada). Ser professor é defrontar-se constantemente com estórias de vida. No balanço do ano, às vésperas de apagar as luzes de 2019, fazendo retrospectiva de tudo, em especial da vida profissional, vi e resgatei passagens importantes ex- perienciadas em primeira pessoa e compartilhadas por colegas de trabalho. Tem de tudo, desde a estrutura im- pecável de instituições com infraestrutura e suporte de ponta, planejamento primoroso e atualizado, sistemati- zação correta de processos e etapas até a chegada en- tusiasmada de alunos (na sua riqueza de diversidade e multiplicidade de olhares), as partilhas, disputas, vaidades e picuinhas entre docentes, as particularidades do mun- 98
Alisson Dias Gomes do educacional e a necessidade recorrente de estudo e qualificação para o exercício da função/missão de educar. A cada ano ou a cada semestre, a depender da or- ganização curricular da instituição, nos deparamos com casos e causos. Nesse contexto, uma série de situações pode ser destacada, entre as quais: os sorrisos e afagos respeitosos de alunos que se apresentam imaturos para o Ensino Superior, mas ávidos por aprender e entender melhor acerca da carreira profissional escolhida; as no- vas configurações de ensino-aprendizagem com dispu- tas acirradas entre as escolas e faculdades tradicionais e os conglomerados educacionais com políticas e práticas mercadológicas diferenciadas, que primam por quantida- de e não necessariamente qualidade e, por fim, o amor, compromisso e dedicação de docentes jovens ou vetera- nos em acompanhar as inovações pedagógicas e educa- cionais, sem devaneios ou exaltações às tecnologias, por exemplo, mas sim com a racionalidade necessária para incrementar o processo de formação. Na semana derradeira do ano, recordo-me com clareza de três situações e chego a uma conclusão acer- ca do tema, com vistas à melhoria para anos futuros e a reafirmação do compromisso docente. Inicialmente, a lembrança carinhosa do abraço fraterno e agradecido da aluna aprovada em seleção de Programa de Mestrado, resultando na concretização de um sonho. Após a con- quista inicial, o reencontro para comunicar e agradecer a todos pelas contribuições dadas é fechado com sorrisos largos nos rostos de ambos: aluna e professor. 99
Estações da Vida Outro momento desafiador foi reiterar os limites da relação professor-aluno ao campo da formalidade do processo de ensinar e aprender, diante de situações de assédio ou tendências a tal, por meio de comportamen- tos reais ou recursos digitais (e suas múltiplas possibilida- des). Por certo, trata-se de provocação contemporânea, tendo em vista que os limites estão cada vez mais insóli- tos e alguns hábitos entraram em desuso. Em meio a tantas situações, a mobilização imediata de colegas professores para arrecadar, em pouco tempo, os recursos necessários para tratamento de saúde de uma aluna submetida a um procedimento cirúrgico de urgên- cia, revela a convivência com colegas que veem, tratam e reconhecem os alunos como seres humanos, muito além de resultados (aulas, provas, notas...). Ao longo de 2019 fui reafirmando valores e crenças acerca da escolha profissional feita e exercida há mais de 10 anos, entendendo que a autorresponsabilidade está integrada à nossa capacidade de responsabilizarmos a nós mesmos por tudo que acontece em nossas vidas, seja positivo ou negativo, o que nos influencia, direta ou indi- retamente. É desafiador aprender a não transferir a culpa (ou a responsabilidade) aos outros, sendo necessária de- dicação para nos aperfeiçoarmos cada vez mais e mais. 100
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