Sérgio Medeiros do seu incansável pé ágil num recanto do gramado às escuras e ainda deserto 49
[ilustração “insetos” 5]
Sérgio Medeiros ... NÚMERO 5 A CARGA EXTRA ......... – a mão esquerda do motorista suja de tinta escura ou de graxa pende para fora do carro de luxo maculada demais para ser levada dentro dele – como um animal amestrado o caminhão quase ensurdecedor 51
[ilustração “insetos” 6] .
Sérgio Medeiros para cada vez que se assobia na rua atrás dele : então o lixo acumulado na calçada é lançado em sacos e caixas na sua carroceria roliça que aparentemente nunca se farta por mais que se assobie 53
[ilustração “insetos” 7]
Sérgio Medeiros ... NÚMERO 6 PEDE-SE PASSAGEM [Em Florianópolis ônibus são queimados em praias e ruas; pessoas estranhas ou desengonçadas caminham pelas calçadas...] – um chinelo de borracha preta amanhece sozinho no meio da estrada deserta como um pássaro deitado que erguesse aos poucos as asinhas quando o sol subitamente surge no horizonte – na esquina ao meio-dia o anão ....... parece inchar sob o sol que tudo dilata e a áspera pele vermelha do seu rosto revela desconforto ante o sinal que não libera logo uma passagem entre os caminhões e os carros 55
[ilustração “insetos” 8] ...
Sérgio Medeiros que crescem ali – um barulho tenso no terraço como se um galho duro estivesse sendo fortemente pressionado para baixo ou para o lado no entanto apenas uma borboleta amarela se move livremente ao sol entre os vasos abundantes – no ponto de ônibus uma mulher solitária arregaça a manga da blusa branca como se preparando para dar um soco em alguém que já vai chegar 57
[ilustração “insetos” 9]
Sérgio Medeiros ILHAS DESTE & DO OUTRO MUNDO A ILHA DO CAVALO A Rússia. A China. O Japão... Todas as grandes nações tentaram. Ninguém porém no século XVII capturou o grande cavalo do mar. Portugal disse que era o Cavalo de Troia. Ele apareceu subitamente nadando próximo da costa. Só se via sua cabeça. Depois que a névoa se dissipou... Os russos e os chineses e os japoneses viram também o longo pescoço do cavalo de crina clara. Quando o horizonte ficou limpo... O cavalo se afastou nadando. Ou andando. Não mergulhou mais. Vários séculos depois a cabeça do cavalo reapareceu na América do Sul. Solene e imóvel. Como uma ilha. A Argentina prontamente reivindicou sua posse. O Cavalo de Troia se aproximou mais de Buenos Aires do que de Brasília. Hoje todos podem ver de muito perto a famosa ilha de pedra marrom. Mas ninguém tem permissão de visitá-la. Ninguém sabe a quem pertence aquele longo pescoço petrificado. Talvez à Grécia. ........Que não se pronunciou oficialmente sobre o assunto. 59
[ilustração “insetos” 10]
Sérgio Medeiros Como não é um animal vivo os argentinos afirmam que o cavalo do mar ficará parado para sempre perto de Buenos Aires. ... Mas será que aquela ilha não sairá um dia trotando de repente mar afora? Quem olhar verá. A ILHA DO BANHEIRO A ilha do banheiro é sem janelas. Está em muitos lugares. Na terra. Na água. No ar. Quem entra na ilha tem de fechar a porta. Isto é de regra. A etiqueta o exige. O pudor também. No começo a ilha não é uma ilha. É apenas um banheiro. A ilha surge repentina- mente. Como que nascida de um mau pressentimento. E se a fechadura emperrar? E não for mais possível abrir a porta? Então será preciso pedir socorro. Se a ilha estiver num bar barulhento será preciso bater bem forte com os punhos na porta. A voz que pede socorro não será ouvida lá fora. E se o for talvez se confunda com o vozeirão dos crooners. ........A solução extrema será dar coices na porta. E pô-la abaixo. 61
[ilustração “insetos” 11]
Sérgio Medeiros Os mais pacientes aguardarão que outro cliente do bar force a porta para entrar. Ou pedirão socorro pelo celular. Se a ilha estiver num avião o procedimento será o mesmo. Pedido de socorro. Socos. Talvez os pontapés na porta nem sejam necessários. Em Paris tem um hotel com banheiros minúsculos ao lado da escada. Em todos os andares. Mas quem entra num deles não pode fechar a porta. A regra ali é outra. A eti- queta não conta. O pudor só atrapalha. Nesse hotel nunca houve nem haverá ilhas do banheiro. A ILHA DE TRISHA BROWN Roupas brancas que vestem bailarinos. Calças. Camisas. Algumas são lançadas no chão do palco. Deslizam. Deslizam depressa. Primeiro sem pressa. Bem devagar. Levadas embora pelo vento de grandes ventiladores ruidosos. Vários ventiladores. Que num extremo do palco atraem bailarinos. As peças de roupa branca vão parando no palco enroladas em si mesmas. Estremecem. Poderão ainda escorregar no chão liso um pouco mais. Para a frente. Ou ........para os lados. 63
[ilustração “insetos” 12] ..
Sérgio Medeiros Depois elas pararão. Definitivamente. Mais tarde virão recolhê-las. Ao final do espetáculo. Findos os aplausos. A ILHA DO BONECO DE CERA Em Bela Vista antigamente eram muitas as varandas que a poeira da rua defronte cobria fartamente. De modo que era melhor o visitante ficar em pé nelas do que sentado numa das velhas cadeiras empoeiradas. E quem ficasse ali em pé acharia muito melhor estar em outro lugar. Desejaria que um carro lhe oferecesse carona. Não importa para onde. Mas os carros rareavam. Logo deixariam de transitar pela rua de terra. A varanda já estava muito suja. À tarde tudo parava. O sol assaria os miolos dos viventes. Que prontamente desapareceriam das calçadas. A varanda seria então o único lugar habitado defronte da rua deserta. Quem ainda permanecesse na varanda se sentiria numa vitrine. Um boneco ou manequim suado incapaz de se sentar ou de dar um passo em direção à rua escaldante. ........Sendo de cera ele ali derreteria seguramente como uma vela acesa. 65
.. [ilustração “corpos celestes no quinta” 1]
Sérgio Medeiros A ILHA DO DENTISTA Ao voltar para casa ele tomou um copo de água fria. O dente do fundo doeu. Passou nele a língua. Um buraquinho... O dentista abrira aquele dente. Mas não o fechara. Ele pegou um táxi. Cruzou Campo Grande com o dente incomodando. Quando o dentista se aproximou da sua boca aberta foi impedido de examinar o buraquinho no dente. O dentista era obeso. Morbidamente obeso. Não pôde mais examinar a boca aberta do seu paciente. Na verdade jamais conseguira se aproximar o bastante de boca nenhuma. Abriam-se em vão para ele todas as bocas da cidade. O dentista bufou sentado no seu banquinho miserável. Respirava com dificuldade. Quando a distraída secretária se virou o paciente já havia fugido da cadeira. Havia desaparecido do consultório. O dentista não tinha mais onde pôr a massinha milagrosa. A ILHA DO PILOTO ........Nos Estados Unidos um jatinho voava a esmo. Incomunicável. 67
.. [ilustração “corpos celestes no quintal” 2]
Sérgio Medeiros Um caça do exército se aproximou dele. Viu que o piloto havia adormecido profundamente. O jatinho seguiu em frente. Em linha reta. O caça do exército fez uma curva afastando-se. Voltou para a sua base. A ILHA DE JERÔNIMO TSAWÉ1 /////////////////////// ..........///////////........ A ILHA DA INFÂNCIA Do alto da torre o menino vê Berlim. Uma multidão passa devagar atrás dele. Cochichando. Ele ainda não sabe que seus pais já não estão por perto. Não adiantará mais .......chamá-los. Aos gritos. Chorando. 1 É só um matinho verde que não pegou fogo quando o cerrado foi criminosamente incendiado. 69
... [ilustração “corpos celestes no quintal” 3]
Sérgio Medeiros O menino não afasta o olho da luneta. A ILHA DO MOTORISTA DE TÁXI Sentado ao volante do seu carro com os vidros fechados. O ar ligado. O motorista passeia por São Paulo. Ele se desloca pelas ruas movimentadas. Na calçada ensolarada um casal lhe faz sinal. Mas ele não para. “Me sujei todo”. Se justifica. Talvez no banco de trás o ar agora esteja irrespirável. Enquanto cruza solitário o rio mais poluído da metrópole. A ILHA DO LARÁPIO Ao invadir de madrugada uma construção às escuras na praia o larápio aciona o alarme. No entanto bebe cerveja. Tranquilamente. Sem acender as luzes. Ouvindo a sirene estridente. Do lado de fora o facho de uma lanterna se aproxima. Circunda a construção. .......Dois homens discutem alto. 71
... [ilustração “corpos celestes no quintal” 4]
Sérgio Medeiros Um diz que tem um bicho se movendo na cozinha. O outro responde que não sabe de nada. O larápio abre a geladeira. Bebe vários goles de uma lata de cerveja antes de subir na pia. De lá alcança o telhado. Então ele salta de braços abertos para a praia voando sobre as cabeças dos homens como um urubu. A ILHA DA IDADE DA PEDRA Sem camisa. Leva na mão o celular novo. Na outra uma pedra. O rapaz corre pela calçada. Descalço. Do outro lado da rua alguém grita. E lança na sua direção uma pedra. Ele para. Então lança contra os seus perseguidores a pedra que tem na mão. E se abaixa para pegar a outra que atiraram nele. Os curiosos se afastam correndo em ambas as calçadas. 73
[ilustração “corpos celestes no quintal” 5]
Sérgio Medeiros O PASSEIO NÚMERO 7 PEDRAS PORTUGUESAS (PRIMEIRA VERSÃO) [Trata-se de um poema de Richard Long que não reproduzirei aqui. Apenas anunciarei o seu ponto de partida. Que não está explícito no referido poema.] – one, two, three, and away! PORTUGUESE STONES (SECOND VERSION) [Stones placed by the roadside each day along a walk of 463 miles from the south to the north of Portugal.] [Spring 2014] – one, two, three, and away! ....... one stone in Albufeira two stones near Vale Marmeleiros three stones near Ourique 75
... [ilustração “corpos celestes no quintal” 6]
Sérgio Medeiros four stones in Alcácer do Sal five stones in Marateca six stones near Infantado seven stones near Alpiarça eight stones in Tomar nine stones in Barqueiro ten stones near Coimbra eleven stones in Tondela twelve stones near Viseu thirteen stones in Carvalhosa fourteen stones near Cinfães fifteen stones near Lixa sixteen stones in Braga seventeen stones in Monção etc. etc. 77
[ilustração “corpos celestes no quintal” 7]
Sérgio Medeiros ... NÚMERO 8 UM VAGÃO – do lado de fora do vagão sujo passa um homem de macacão levando uma pequena escada fechada como se fosse uma mala leve ao seu lado segue uma anãzinha de calça comprida que logo fica para trás – foi um encontro casual DOIS VAGÕES – no estacionamento da estação ....... um senhor veste o paletó em pé entre os carros quando ouve um súbito sinal que o faz sair correndo 79
... [ilustração “corpos celestes no quintal” 8]
Sérgio Medeiros : uma reluzente gravata listrada fica com o laço aberto sobre o teto do seu veículo ao sol TRÊS VAGÕES – enquanto o pacato jardineiro doudo retira dos trilhos uma palma seca bem maior do que ele um aviãozinho vem em silêncio na sua direção e religa subitamente o motor ensurdecedor afastando-se com o bico para cima QUATRO VAGÕES – à beira dos trilhos um velho só ...... enfia o dedo no nariz demoradamente 81
.... [ilustração “corpos celestes no quintal” 9]
Sérgio Medeiros enquanto espera o último vagão afastar-se para são e salvo cruzar então a estrada de ferro respirando aliviado CINCO VAGÕES – viajando no vidro da janela estremecida o inseto mostra a quem estiver do lado de fora uma perninha sem o pé e uma antena mais curta do que a outra longuíssima : talvez a antena pareça curta porque é meio transparente mas com certeza um dos pés se foi restando-lhe porém três outros intactos para com eles passear pelo vagão caso prefira não voar lá dentro 83
[ilustração “corpos celestes no quintal” 10]
Sérgio Medeiros ... NÚMERO 9 O PASSEIO DOS BICHOS (PRIMEIRA VERSÃO EXTRAÍDA DO POPOL VUH) – então o piolho se foi saltando – um sapo o engoliu e se foi pulando – uma cobra os etc. e se foi coleando – um falcão os etc. e se foi voando – até o final da viagem ........ ou do passeio... 85
.. [ilustração “corpos celestes no quintal” 11]
Sérgio Medeiros O PASSEIO DOS BICHOS (SEGUNDA VERSÃO) – na superfície branca da mureta recém-pintada passeiam formigas aparentemente buscando com grande nervosismo possíveis impurezas – uma aranha inerte na mureta branca perde pouco a pouco as longas pernas finas feito um grampeador perfeccionista que lançasse fora todos os grampos imperfeitos 87
[ilustração “corpos celestes no quintal” 12]
Sérgio Medeiros ... NÚMERO 10 O PASSEIO DO ANDARILHO JAPONÊS – a estrada aprazível dá num belo edifício que é o crematório disse mais ou menos uma vez um andarilho que escrevia haiku – em cima da mureta ........ que separa as pistas da estrada uma bota envelhece aparentemente imune aos ventos que balançam tudo – a folha no chão é tal 89
.. [ilustração “o alfabeto das árvores do músico enrique flor” 1]
Sérgio Medeiros qual a casca de uma banana ......... muito madura de um marrom-escuro 91 mas de repente é empurrada pelo vento e flutua rente ao chão indo embora loucamente – entre folhas molengas uma única folha tenra a oscilar majestosa como um pássaro negro num galho que olha do alto para a estrada em frente – de manhã cedo voltados para o sol três outdoors brancos à espera de novos anúncios e ao lado deles no chão estão pousadas
. [ilustração “o alfabeto das árvores do músico enrique flor” 2]
Sérgio Medeiros quatro caçambas verdes limpas também aguardando – na árvore seca estão secando as minhas meias disse mais ou menos uma vez um andarilho que escrevia bons haiku 93
[ilustração “o alfabeto das árvores do músico enrique flor” 3]
Sérgio Medeiros ... NÚMERO 11 ACIDENTE NA VOLTA PARA CASA [Era quase noite quando Rousseau recobrou os cinco ou seis sentidos nos braços de três ou quatro jovens] – 1) VISÃO com uma única pena fora do lugar a saltar-lhe do peito estufado feito uma asinha extra o pássaro leve passeia no chão quente sem se importar com os transeuntes – 2) OLFATO ....... na parede de uma velha casa de madeira vários engradados pendurados como gaiolas todos repletos de garrafas vazias 95
... [ilustração “o alfabeto das árvores do músico português” 4]
Sérgio Medeiros escuras ......... -3) AUDIÇÃO 97 formigas graúdas e miúdas passeiam na mesma calçada mas quando se tocam talvez por acaso começam a girar enlouquecidas e se afastam umas das outras e então de novo sobrevém a relativa calma – 4) TATO deitado na calçada o cachorro parece grande demais com todo o seu pelo claro abundante sem se mexer – 5) PALADAR como uma bromélia
. [ilustração “o alfabeto das árvores do músico enrique flor” 5]
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