*** Um dia arrebentara em casa do Francisco uma verdadeira revolta. As palavradas grosseiras, que ele dissera à mulher, a indignaram por tal forma que ela resolveu inabalavelmente tomar um partido qualquer; tudo lhe servia menos aquela humilhação eterna a que se submetera. Não tinha aonde cair morta, os parentes não a queriam; mesmo que eles a vissem estraçalhada pelas mãos do marido, não a livrariam, antes a acusariam e a impeliriam com toda a força para esse abismo de desgraça. Sabia de tudo isso, mas não queria se rebaixar mais. Ainda que morresse de fome, como qualquer mendigo, estendia debaixo de uma árvore, não comeria mais o pão dessa miséria que lhe envenenava a alma. O Francisco muito embriagado nesse dia descera as escadas da casa rudemente, e gritara debaixo: até à noite. A mulher ficara olhando aquela cara sarcástica, rapada no queixo, formando nas bochechas duas pontas agudas, e não podia esquecer aqueles olhos impertinentes sempre injetados de sangue, um olhar perverso e malévolo que a incomodava ainda com a mesma sensação de horror que sentira no primeiro dia em que o encontrara observando-a. Quando seu vulto imenso perdeu-se confundindo-se com outros personagens pela extensão da rua, ela quis se erguer do lugar em que estava, mas ficou hesitante perto da grande sala de visitas que cintilava através das cortinas, à claridade do sol vivo que a inundava completamente, Através da vida 97
banhando-a com o dourado ardente de sua luz flamejante nesse alegre meio dia de junho, como se não fosse plena estação invernosa. Dali se destacavam, muito ao longe, as sombras vagas quase apagadas das montanhas de Olinda que se confundiam com o céu, aparecendo com o aspecto de um imenso nevoeiro azul. Seus olhos encandeados de luz ficaram por muito tempo presos a essa extensão sem limites, cheios de grande admiração, enlevados diante dessa grandiosa beleza superior a todas as coisas, comovendo-a até a ternura, como se estivesse defronte do próprio criador de toda a humanidade. Finalmente, a esse grande enlanguescimento que a prostava ali aniquilada sucedeu uma reação mais salutar. Ergueu-se. Todos os seus planos eram outros, uma invasão medonha de hesitações, de dúvidas terríveis lhe assolavam o espírito; o medo, uma covardia inexplicável, lhe tolhia todas as forças a respeito dos projetos que devia desenvolver. O querido tio Paulino, tão velhinho, coitado, nem resistiria. O que diria a sociedade, essa sociedade tão benevolente para seu marido?... E a tia Mariana?... Mas, ao mesmo tempo, se continuasse ali, que objeção medonha! A cabeça doía-lhe atordoada de pensar em tantas coisas. Mal repousava um instante, logo se levantava andando estonteada pelo quarto; finalmente resolveu-se a andar pela rua, atoamente sem saber que rumo tomasse. Somente desejava, a coitada, que tivesse na terra uma afeição que fosse: iria imediatamente naquela hora Através da vida 98
abrir-lhe todo o coração e pedir conselhos. Vestiu-se aereamente e saiu cambaleante como se estivesse ébria. Caminhando sôfrega, desceu a rua da Aurora, e o andar sempre muito acelerado lhe afogueava as faces que se tingiam de rosado vivo como se o sangue estivesse prestes a arrebentar e sair da pele. Estava verdadeiramente bonita. Essa agitação fremente dava às suas feições uma forma esquisita que fazia impressionar. Não via outro remédio senão tomar o trem de Olinda, e ir dizer ainda uma vez essa miséria à tia Mariana. Não era possível que a sua falta de razão e a terrível miopia de seus olhos não quisesse absolutamente ver quanto havia de abominável e baixo e todas essas coisas que suportava. Chegando à estação assentou-se num dos bancos e ficou-se a olhar maquinalmente o movimento de passageiros que chegavam e saiam apressados de envolta com a profusão de crianças, homens e mulheres apregoados de livros, jornais, balas, doces, bilhetes de loteria, enfim toda essa infinidade de coisas com que diariamente atormentam os viajantes em todas as estações. Entre esses negociantes ambulantes um pequeno trazia pendurado ao dedo uma mobília de bonecas, de poá rústico, sem torneio nem enfeites, porém muito interessante. Um preparo completo para o quarto de dormir e a sala de visitas. Ela, um instante esquecia de seus dissabores, sorriu e fez um movimento involuntário para comprar aquele minúsculo apetrecho, mas a mão caiu-lhe abandonada no Através da vida 99
regaço e as lágrimas lhe arrebentaram dos olhos. A Solita morrera já havia seis meses, o único fruto desse casamento infeliz, talvez o esteio que a soerguesse um dia... O rostinho da filha apareceu-lhe na imaginação inundado de sorrisos e ela esqueceu-se de tudo que a cercava pensando enlevada nessa visão pequenina de anjo que viera consolá-la. *** O trem partira vertiginosamente. Quando chegara ao Salgadinho, onde agora residiam os tios, quis desembarcar, porém, não soube por que, um novo impulso, um desejo de libertar-se do nevoeiro de aborrecimento a prendeu ao trem. Tinha quase certeza antecipada do que se passaria, teve medo de outras humilhações. Os tios moravam longe da estação. Enquanto o trem recebia novos passageiros, ela alongava a vista ansiosa pela campina enorme que se estendia ao longe formando uma belíssima alameda de mangueiras copadas desde o lugar em que começava a estação até o pátio da casa onde eles moravam. Achara aquilo gracioso e alegre nessa hora da tarde, na imaginação via o tio Paulino lá dentro, ou talvez volteando pelo campo, cansado e doente como vivia ultimamente. Uma grande angústia atormentou-a, quase se resolveu a descer, quem sabe se a tia Mariana não lhe faria toda a justiça. Seu coração era tão bom... Mas, imediatamente o trem partiu. No Varadouro, desceu, atravessou ligeiramente a ponte e tomou o Através da vida 100
caminho dos Milagres. Desde que se casara, nunca mais voltara ali. Encaminhara-se para o lado do rio. Queria ver desde o princípio da rua todas as coisas. Logo à primeira vista, tivera decepções, notara visíveis diferenças em todos os aspectos de que vivera cercada. As casas de palhas erguidas tão graciosamente naquele tempo estavam transformadas. De outras nem mais um pálido sinal existia para lembrança. Por todos os lados se espalhavam espaços vazios ou construções novas. O Zé Antonio não vivia mais, a garapeira alvoroçada e alegre se transformara em tapera onde só os morcegos esvoaçavam lugubremente. Da Zefinha ninguém dava notícias. Fazia comover essa triste revoada de recordações saudosas, essas mudanças que se estendiam desde as criaturas até ao palmeiral mais escasso e menos verde! A casa do tio Paulino ainda se erguia no mesmo lugar, intacta, muito branca, rebocada de novo, resistindo sempre ao tempo como esses castelos legendários e antiquíssimos de construção rígida que se erguem toda a vida, firmes e eretos entre devastações e ruinas. Mas somente a casa é que ainda alvejava e aformoseava a estrada. Todo o jardim estava morto, nem um vestígio de planta! O montezinho a enxurrada carregara. As queridas flores estavam transformadas em capim bruto que se alastrava muito verde e viçoso por todos os cantos. Pelas paredes do muro se desenvolvia o musgo até junto à grade do portão desbotado e ferrugento, Através da vida 101
descuidadamente aberto, por onde se enxergavam os habitantes movendo-se lá dentro. Em todos os lugares apareciam reformações, decadência e abandono. Tão pouco tempo havia decorrido! Mas até a beleza natural parecia resfriada, chorando, desconsolada, a ardente vibração de outrora. Entretanto, lá estava, como em todos os tempos, o pequenino arrabalde dos Milagres, sempre bonito e cheio dos encantos que se compreende unicamente pela sensação do amor que é também misterioso e indefinível. Continuava da mesma forma a aparência miraculosamente arrebatadora e admirável dessa beleza divina criada pela mão de Deus, o gracioso istmo arrodeado pelas duas margens do rio e do mar, estendidas deliciosamente, lado a lado, como duas forças que se amam, se atraem e ao mesmo tempo se repelem involuntariamente, ou dois espelhos que se refletem cada qual mais límpido, mais formoso e ricamente emoldurado. Essa visita saudosa a todos esses lugares, que ela tinha amado, durou muito pouco tempo. Fez-lhe uma grande piedade rever esses recantos queridos e o seu rosto se tornou concentrado e sério assistindo à descida muito emocionante do crepúsculo que lhe empalidecia suavemente os cabelos crespos. Se ela tivesse saído de uma cerimônia religiosa, ou de um confessionário, não voltaria mais tranquila e consolada. O passeio fizera-lhe bem. Parecia que o infinito transparecera de Através da vida 102
repente para dizer que o fim de seus sofrimentos ia chegar. Atravessou correndo pela ponte e tomou de novo o trem para voltar ao Recife. Todo o caminho renovado, muito verde e florescente, surgia alegre e feliz debaixo desses últimos raios de luz prestes a se apagar, morrendo lentamente sem anseio nem agonias, desmaiando nessa meia escuridão que a envolvia toda, como se fosse um grande manto que viesse cobri-la. Repentinamente a paisagem da vida que se acaba triste e recomeça alegre, apareceu-lhe confusamente nessa doce e suavíssima penumbra da noite que descia. Quis agradecer a Deus a calma que lhe enviara ao espírito. Lembrando-se de que era sábado, resolveu ir ao terço na Cruz dos Milagres. O tempo estava francamente iluminado e muitos fiéis já assistiam à cerimônia. Quando tinha feito suas invocações, e ia partir, o coração apertou-se-lhe, reapareceram-lhe as angústias e os sobressaltos com que saíra de casa. Junto à porta da igreja alguém a chamara, porém não se voltara. Seguiu pela rua Nova, depois voltou para a rua da Aurora onde morava. Pelo caminho, parece que todos se surpreendiam admirados de vê-la sozinha passando, os homens a olhavam, as mulheres tocavam umas nas outras. Chegando em casa, morta de fadiga viu-se ao espelho, e tirou a conclusão de que eram as suas vestes um pouco mal amanhadas que atraiam esses olhares. Descansou um pouco, mas, no próprio espaço da casa, uma grandeza fora do comum a entristecia ainda mais. Sentia que sua alma estava num desses estados incompreensíveis, muito doente, e ela se desolava Através da vida 103
com a fragilidade de seu ser inútil e fraco, incapaz de uma reação, perdido no mundo sem ter gozado senão uma ligeira e fugida primavera de amor que não passava de esboço mal desenhado, morto antes de um relevo mais profundo. Uma outra impressão forte que a torturava dolorosamente naquele momento era a lembrança do tio Paulino, tão doente... Arrependia-se tanto de não o ter visitado, mas tia Marina era a culpada. Guardava-lhe sempre recepções desagradáveis. Tão boa que ela tinha sido outrora, quando cuidava de sua infância, quanto diferente depois e ainda agora. Sua principal mania parece que era martirizá-la, contrariá-la sempre! Defronte deste diário de sua vida, aberto em forma de palco onde ela estava assistindo às recordações que se apresentavam nítidas e perfeitas, não tinha mais queixas a fazer; assim como se tinha resignado a casar, se resignaria, dali por diante, a suportar tudo, por mais horrorosa que a sorte lhe viesse. Pertencia àquele homem, era sua escrava, morreria naquele tronco, nem pensaria em deixá-lo mais nunca. Não tinha afeições, ninguém a amava no mundo, era o cão desgraçado que arrastaria toda a vida, lambendo humildemente o chão até à hora da morte, mas viveria com ele. Rojar-se-ia a seus pés e o adoraria, ao menos como o ídolo de suas desventuras, mas não voltaria jamais, em nenhuma hipótese, para os parentes, mais bárbaros e muito piores do que ele. Pensando assim, a pobre moça se embalava Através da vida 104
docemente, de olhos fechados numa cadeira de balanço. Finalmente o silêncio do aposento, e a própria escuridão a fizeram adormecer, porém acordou imediatamente ouvindo o toque da campainha na escada. Como eram já oito e meia, pensou que fosse o marido. Ergueu-se, acendeu as luzes e foi abrir a porta. Antes, porém, de chegar ao corredor, um vulto muito seu conhecido estava imóvel esperando-a entre a cortina e o portal da sala de visitas, como se fosse um retrato a óleo, exposto repentinamente ali. Ela ficou um segundo muito hesitante, profundamente abalada, interdita, no meio do grande salão todo inundado de luz. Depois correram ambos um para o outro e se apertaram as mãos. Há quantos nos não se viam! Onde morava o tio Paulino? Porque deixaram os Milagres? As perguntas eram sem pausa, se olhavam, se reviam com um prazer infinito, assentados um ao lado do outro, e assim ficaram uma hora ou menos. Ele descreveu as viagens que acabava de fazer, falou principalmente da temporada em Veneza e da semelhança entre essa capital e o Recife. Ela volveu aos tempos da infância, lembrou os seus desfalecimentos de menina, recordou a família, os saudosos dias dos Milagres, seus livros prediletos, seus estudos e inclinações contrariados. Dera notícias do marido, da inditosa Solita e dos tios. Depois se calara sem tocar absolutamente no seu viver de casada. A princípio essa conversa teve um ar constrangido, quase forçado, depois sentiu-se perfeitamente Através da vida 105
bem, ouvindo o seu velho amigo, a quem se habituara a estimar desde criança. Quando se despediram, estava tranquila como se tivesse deixado o seu antigo confessor. Nessa hora feliz em que o seu espírito muito puro descansava apaziguado com a sorte, se passava num segundo andar da rua de Santo Amaro, uma cena horrorosamente trágica. O marido, sempre conquistador, indo a um certo rendez-vous, desabara de uma porta que ele julgara dar para uma área ou terraço. Quando deu o primeiro passo para entrar no ilusório jardim, que não era mais do que a escuridão vazia e dois jarros sustentados por duas pequenas colunas, o desgraçado pisou no espaço e caiu desastradamente no quintal, contundindo-se pelo corpo e na fronte, onde se ferira profundamente. Quando este corpo agonizante com a cabeça a escorrer sangue, entrava em casa, precedido de curiosos, e conhecidos, que falavam do caso, abafando-o, para ela não desvendar a triste verdade que lhe fora revelada por intuição, ninguém ouviu de seus lábios nem uma palavra de surpresa, nem um grito de dor. No grande leito de casados feito de faia, muito alegre e risonho com as rendas do cortinado, transparente e bonito, todo cheio de fitas cor de rosa, como um leito de noivado, é que foi depositado cuidadosamente o corpo do marido infiel. Num instante aquela sala cheia de tapetes, candelabros e molduras ricas se envolveu numa onda do cheiro infecto do iodofórmio. Uma confusão medonha reinava por todos os Através da vida 106
lados, em casa, e na porta da rua, onde chegavam carros de quando em vez, trazendo visitas e médicos. A uma hora o doente parecia mais sossegado, gemia muito pouco; pediu que lhe deixassem falar com a mulher, sabia que o seu mal era de morte, queria dizer-lhe adeus. Quando ela entrou no quarto, todos abaixaram a cabeça comovidos e se ajoelharam. Os cabelos fartos dessa mimosa visão se encaracolavam caindo- lhe negligentemente, uns pelos ombros, outros pelas costas e a fronte, na desordem de quem se levanta do leito. O rosto delicado de feições corretas, muito branco e empalidecido ao clarão dubio e vacilante da lamparina, que se conservava muito fraca para não incomodar o doente, fazia pensar no Anjo da Guarda. Sua própria figura, trêmula como os raios da luz, desligando na triste penumbra do quarto, fazia também lembrar essas pinturas de beleza ideal, a que o pincel dos grandes mestres unicamente tem o poder de dar vida e que deslumbram os nossos olhos extasiados de contemplá-las, como se admirassem a verdadeira realidade, tão suavemente doce é a sensação que deixam à impressão da vista. O doente olhou-a um instante. As pupilas embaciadas fulguraram de repente afogando-se nas lágrimas que desciam pelas faces e a fala se arrastando enternecida, gaguejou e baixo: Adeus Maria da Luz, perdoa... Ela estendeu-lhe a mão silenciosa, e sentiu que mesmo defronte desse torpor de morte, não poderia absolutamente perdoar a afronta que acabava de receber. Não o odiava, apenas ele deixava de existir Através da vida 107
completamente no íntimo de seu ser, e não sentia mais por essa criatura moribunda, senão desprezo e desgosto. Por isso não o abraçou. O mísero, todo resfriado, no último declinado da vida, olhou-a ainda uma vez, quis falar, a voz não teve mais encho, e ele, voltando inteiramente para ela, entregou-se ao doloroso espasmo da morte, chorando como se ainda implorasse perdão. O tio Paulino olhava enternecido para o cenário. Estava cadavérico e acabado. A tia Mariana defronte de toda a realidade a que acabava de assistir, cambaleava tonteando pelo meio da casa, tendo horríveis acesos de nervos. Somente nesse dia de morte compreendera quanto mal tinha feito à sobrinha. *** Como o falecimento tinha-se dado ao alvorecer da manhã, somente às cinco horas da tarde teve lugar a saída do enterro. O préstito fúnebre descia pela rua, levado à mão, o cadáver coberto de coroas, deitado num rico depósito de tampas de vidro, lhe deixava ver o rosto muito transformado e as mãos rígidas e pálidas como cera. Fazia arrancar lágrimas a todos os que assistiam à passagem desse pecador, nessa tarde sombria, melancolicamente carregado pelos amigos, seguido por grande profusão de carros dos conhecidos e convidados. A música, que também acompanhava o corpo, tocava sempre a meio tom, um saudoso funeral, até chegar ao cemitério, como se fosse a procissão do Senhor morto. Através da vida 108
O pequeno grupo que conhecia toda a biografia dessa criatura inútil que se extinguira para sempre, lamentava as misérias da vida, e considerava que a humanidade, clemente e ao mesmo tempo injusta, tem sempre lágrimas, mais sentidas, às vezes, pelos maus do que pelos bons. *** Oito dias depois dessa morte trágica, tudo o que existia na casa da viúva tinha sido entregue aos credores do marido que não lhe deixara de herança senão desonra, desilusões e decepções até a hora da morte. Hoje essa meiga criatura, que desceu a toda sorte de infortúnios, confunde-se com a multidão. O tio Paulino morreu, e ela é o único arrimo da tia Mariana, velha, caduca, sempre resmungando pela casa, inteiramente desequilibrada. Nem ele nem mais pessoa alguma põe os pés nessa nova e decrepita habitação da rua do Pombal, onde reside decadente, esquecida, em pleno abandono, mendigando às vezes, essa pobre predestinada para o infortúnio, enjeitada desde o berço, e que, na passagem da vida, não colheu de alegrias senão o deslumbramento das inúmeras belezas da natureza. Através da vida 109
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I Era ainda cedo, talvez uma hora, nesta tarde alegre do mês de agosto, acompanhada por um resto de frio, que adoçava a temperatura. Entretanto já enfeitava as ruas a grande multidão de senhoras e senhoritas cobertas com os modernos chapéus desabados, geralmente arrodeados de rendas, fitas e flores, que se balançavam ao mais simples movimento. Ninguém pensava em chuva, debaixo do aspecto radioso que esse dia ostentava. Repentinamente, porém, tudo empalideceu. Imensas manchas escuras, que pareciam montanhas, revelaram-se no alto, esfumadas, tristes, esquisitas que apavoravam. Tão grandes eram as manchas que sombreavam também as ruas, onde se projetavam seus perfis colossais. Angústia 113
Um pingo de chuva ou outro caía do céu, cada vez mais pesado, quando passei pelo largo de S. Francisco de Paula; mas o movimento se tornou logo muito agitado, notando-se no semblante dos passeadores uma espécie de angústia. A confusão aumentava a cada instante, e, assim, a enchente da rua e os encontrões. Todos estonteados, num desvairamento de pássaro perdido, que procura o ninho, andavam aos bandos, de chapéus de sol abertos, homens e mulheres, entrando em lojas, tomando carros, correndo para o ponto dos bondes, uns carregados de embrulhos, outros levando pela mão crianças pequenas, que grunhiam e choravam, acompanhando, a trote largo, a vertigem da carreira, em que os conduziam. Assim que deixei o largo, também apressada, a tempestade desesperou-se, e, numa fúria violenta, levantava do chão toda a poeira, que nos cobria, desapiedadamente, da cabeça aos pés, arrancando, ao mesmo tempo, os chapéus e fazendo rodar, retorcer as roupas, e tatear-se de olhos fechados. Quando esta situação melhorou, a chuva, que viera no começo ligeiríssima, aérea, quase nada, tornou-se um verdadeiro temporal. A rua transformou-se num rio de lama. Os sapatos se encharcavam e pesavam como grilhões de ferro. Mal se conseguia caminhar. Às vezes, parecia que o dilúvio cedia, mas logo a chuva recomeçava mais forte, cadenciada e constante. Angústia 114
Não sei se os meus companheiros de passeio, que transitavam nessa mesma ocasião pela rua do Ouvidor, estavam como eu, aborrecidos com a situação; afianço, porém, que o movimento não diminuiu muito; uns vinham, outros iam, como se estivessem trancados numa gaiola, e ninguém largava o campo da batalha. Algumas senhoras, preocupadas com o estrago que lhes podia trazer a chuva, apertavam e arregaçavam tanto as saias que deixavam, muitas vezes, em alto relevo, toda a perna de amostra. Os homens também, muitos, passavam de calças levantadas; porém, felizmente, mais abrigados na espessura das ceroulas. Cruzando-se, desastradamente, correndo uns atrás dos outros, sempre a subir e a descer ruas, cada qual com o seu ar peculiar, indiferentes, silenciosos ou gesticulando, velhos ou moços, todos aflitos, sempre a fingir que fugiam da chuva, mas sem pensar em deixar a rua, iam se ficando, atraídos e fascinados pelo movimento e a alegria, divertidos em olhar uns para os outros e a esperar, vagamente, alguma linda surpresa que teria de vir; porém, eles não sabiam nem conseguiam adivinhar qual o gênero ou o formato do encanto a que se prendiam, nesse grandioso teatro da rua, cuja representação grátis é a que adquire o maior número de diletantes, estacionados os bons agarrados aos maus, os criminosos aos inocentes, os grandes aos pequenos, e todos, Angústia 115
sem distinção, de ouvido alerta, sempre preparados para o grande assalto da novidade esperada. Quando a chuva se extinguiu, uns raios de sol muito pálidos desceram para dar um novo relevo ao gracioso cenário da vida terrena, onde se estendia uma calma absoluta, como se o anjo da paz aí tivesse pousado miraculosamente. Apenas, do importuno contratempo, ficara uma visão longínqua, - a recordação do triste fim, a que se resumem as maiores alegrias. Instantes depois, tomei o bonde, e vim sentada num dos primeiros bancos do lado da frente que ficara pertencendo, por muitos minutos, a mim somente. Na rua dos Andradas, alguém tomou um lugar ao meu lado. A princípio, nem prestei atenção ao companheiro, mas, assim que me voltei, conheci que era o Arthur Lourenço. Não me desagradou o encontro, mas não sei explicar por que fiquei sem dar sinal de vida. A gente, às vezes, tem desses maus movimentos do coração. Eu estava, no momento, numa dessas situações incompreensíveis. Queria e não queria falar. Finalmente, cumprimentamo-nos. Bastava olhar, sentir a sutileza do perfume da moda, que se evolava do lenço de linho, prestar atenção à grande elegância da frase, e de todos os movimentos adequados aos Angústia 116
mais difíceis figurinos da civilidade, para se conhecer quanto era smart esse belo moço de origem italiana, que fala sempre às senhoras com umas maneiras bizarras. Muitas vezes, conservando, entre as suas, as mãos delas, levantava-as como troféus de glórias, e fazia a dama gentil acompanhá-lo nessa curva recortada de graciosas mesuras, como se estivesse marcando uma figura de pas de quatre, até fazê-la assentar de novo. Louro, muito insinuante, possuía também grande dose de simpatia, uns movimentos destros e, ao mesmo tempo, aristocráticos. A esses dotes, que as mulheres tanto amavam, se aliava uma grande inteligência. Fino amador das letras e da arte em geral, sabia conversar com espírito, interessando o seu auditório com palestras variadas, sem se demorar nos assuntos. Seu costume era falar sem repousar, nem para fazer vírgula; porém, mesmo assim, não aborrecia. Todos gostavam de suas contínuas inovações. Muitos, à sua custa, aprenderam o segredo de ser smart, queridos dos salões, não esquecendo nem os modos, às vezes selvagens, de menino travesso, nem os desdéns, com que retocava a gravidade do rosto em certos momentos, deixando notas de distinções bastante impressionantes. Numa palavra, merecia passar com ele algumas horas. Angústia 117
Como, sempre que se encontrava comigo, tinha grande quantidade de coisas novas para contar, apoiei-me logo, pacientemente, sobre o cabo do meu chapéu de sol, e assim fiquei um longo tempo, a ouvi-lo com toda a atenção. Ainda não o encontrara expansivo e alegre como estava nesse momento. Parecia movido por uma máquina; as palavras lhe vinham em turbilhões; queria dizer tudo ao mesmo tempo. Fiquei, imediatamente, sabendo que era casado, e também os pormenores do namoro. Todos têm tido suas paixões, disse ele; a minha foi, com certeza, a mais vulgar deste mundo. Milhares de criaturas devem ter amado da mesma forma; entretanto, sempre que me recordo dos meus amores, parece que ainda, na terra, nada existiu semelhante. Foi uma coisa que veio abruptamente, estonteada, um incidente que me entrou pela vida, como abalroamento de um navio sobre a rocha, no meio da escuridão de alguma noite invernosa. Sempre amei as mulheres, embora seja aferrado antifeminista; porém apenas gostava de as ver, de enlear-me com os seus atrativos e de as sentir muito ideais, como as flores e, como elas, não tendo outra missão, na existência, que a de espargir encantos e adornar, ainda mais, a bela natureza; também gostava de as pressentir perto de mim, como um bando de colibris ou multidão de borboletas vaporosas. Não passava além o meu amor. Angústia 118
A lembrança do casamento jamais me ocupou o espírito. Meus sonhos de adolescente foram outros. Queria uma cadeira no parlamento, uma senadoria, o governo presidencial da república, ser ministro, deputado, embaixador... Queria ser romancista, poeta, pintor célebre. Também pensei em riquezas, quis ser milionário... Ao mesmo tempo que eu estudava preparatórios, me agarrava aos compêndios de filosofia, de lógica, etc. Com este imenso e pavoroso contingente de verdadeiras extravagâncias guardadas no cérebro, acabei por ficar completamente dominado pelas visões desenvoltas que aí dançavam. Sentia frêmitos e alegria doidas, que era impossível conter. Tamanhas confusões se aglomeravam dentro de mim que, a maior parte das vezes, nem mais sabia por onde devesse combater essa medonha revolução. No catolicismo não acreditava mais. O materialismo desagradava-me completamente: nega a existência de Deus, da alma, de tudo, e, afinal de contas, nada prova. O indivíduo fica sempre no escuro, enfrentando sombras desconhecidas. Detesto a afirmativa de uma coisa que se cogita, mas não se pode, absolutamente, provar. Angústia 119
Apreciava muito mais o evolucionismo, por ser uma doutrina, ao menos, mais razoável. Sua base parece ter solidez e seus argumentos muita lógica; entretanto ainda não era evolucionista. Esta doutrina cabe melhor aos homens pacientes e aos moderados. Meus nervos tinham vibrações muito violentas para se acomodarem àquelas teorias. Socialismo! Socialismo! Isto sim, é o que me ficava muito bem. Agarrei-me à ideia. Estava de pleno acordo com o meu gênio. Mundos de fantasias se postavam em meus pensamentos; revirava a terra de pernas para o ar, transformava toda a existência a meu gosto. Minha fantasia subia tanto, que o próprio trabalho da natureza vacilaria diante dos castelos dos meus monumentos ideais. Com estes assomos de loucas pretensões, criando imagens impossíveis e formando meu espírito entre as pândegas de companheiros estroinas, levava uma vida sem ocupação nenhuma que me desse proveito, porém, ao menos, agitada, muito expansiva e, ao mesmo tempo, inteiramente descuidosa, quando o amor caiu por cima de mim, como se fosse um cataclisma. O romance foi muito simples. Avistei, de casa, minha vizinha, que morava de frente, estendendo a cabeça na janela, para olhar a rua. Angústia 120
Encontrando aqueles lindos olhos, interessadamente curiosos, contemplei a harmoniosa combinação dos encantos, que se espalhavam por todo o rosto da jovem criatura e fiquei muito alvoroçado. Minutos depois retirei-me. Estava certo de que o meu sentimento era muito passageiro. Entretanto, de vez em quando, voltava para me certificar se ainda ela estava à janela. Noiva? Casada? Viúva? Estas insignificantes reflexões faziam bater-me o coração e esfriar os dedos. Toda a tarde passei nesse anseio. A vizinha sempre olhando para o lado contrário, eu não tirava os olhos de seu rosto, com a imaginação em fogo, muito apaixonado, como todo o ardor de quem ama pela primeira vez. Nem dei pela cerração da noite, que aparecia escondendo a madona. Desvairado e nervoso, estirava os braços para abraçar a querida imagem, que ainda brilhava no escuro, como se fosse a sombra erradia de alguma estrela perdida na terra. Pensei que jamais tivesse semelhantes arroubos; toda a vida me julguei um indivíduo insensível. Enfim, creio que posso ser perdoado. Não são somente os espíritos fracos e os desocupados que se embaraçam em malhas de pouca monta. Angústia 121
Para exemplo, aí estão os grandes e cientistas, a ruminar sempre probleminhas rasteiros: saber a que horas a campanula adormece, quando acorda; se as lindas flores abrem as pétalas rosadas pela manhã ou à noite; se o cão é mais amoroso do que o gato, ou se as borboletas e os besouros têm boa vista, bons ouvidos, como vivem, como se alimentam, quais são as impressões de sua existência aérea, de míseros inocentes alados, e outras ninharias muito fúteis. Conhecendo estes fatos, não é possível estranhar que eu me preocupasse tanto, desde o primeiro momento, com uma bela mulher, que me abalou, profundamente, o espírito. Não pensa assim, a senhora? Continuo, pois, desassombrado a minha narrativa. Essa tarde de amor me atormentou tanto que, à noite, perdi, inteiramente, o sono. Mergulhei-me na triste penumbra do meu desguarnecido aposento, estirado na cama, os olhos fechados, sempre vendo a janela fronteira, emoldurando o rosto gentil da adorável vizinha. Minha imaginação acesa crepitava, como labareda de fogão, e eu, queimando-me, revolvia-me nesse braseiro, sem conseguir dormir. No outro dia, estava moído como o diabo, cheio de tédio até os olhos. Muito doente de corpo e alma, a custo sustentava as pernas. Angústia 122
Transbordando de angústias, principalmente porque não sabia se a vizinha gostava de mim, lembrei-me, então, dos que sentem pena e se maldizem por viver nos lugares pequenos. Se tivessem passado o que eu passei, sofrendo na imensa alegria desta grande cidade...! Que horríveis, que insuportáveis horas! Pascal, o neurastênico filósofo francês, não viu mais precipícios, no seu caminho, do que eu, no momento destes meus amores, e, no outro dia, quando saí à rua, com o resto de consciência, que me sobrara daquela noite de insônia, buscando no passeio algum alívio ao meu mal! Qual a distração nem meia distração! Corri atoamente de canto em canto, como se procurasse alguma coisa. Entretanto casas e objetos surgiam tristes ao anseio de minha vista. Não encontrei atrativo em parte alguma. Nem sabia mais por onde pisasse, sem me sentir acompanhado pela suavíssima visão da namorada. Outros indivíduos, de ambos os sexos, e (quem sabe?) quantos coitado, na mesma situação, atulhavam os passeios, aos bandos, sem ter emprego para as horas desocupada, subindo e descendo avenidas, e ruas entravam em lojas e livrarias, esmiuçavam tudo, davam regras, maçavam caixeiros e se retiravam sem comprar coisa alguma. E os que arrodeavam portões de confeitarias, farejando, gulosamente, confeitos e doces expostos nas Angústia 123
vitrines, e ainda ficavam estacionados, empatando o trânsito, ou filosoficamente refestelados em cadeiras, junto a alguma mesinha, esperando quem lhes pagasse os chopes e os vinhos?! Não posso dizer como tudo aquilo me enervava e aborrecia, começando pelo burburinho fictício, que se enrola e desenrola, na vertigem da passagem humana, que fala e caminha sempre. Quanto mais sentia o movimento, mais entediado ficava. A paixão me arrastava, bruscamente, como se fosse empurrado por um fenômeno sobrenatural, que se empenhasse em me atirar num abismo profundo, que de longe me causava atordoantes vertigens. Eu tinha a sensação de quem vinha desabando de um lugar muito alto. Às vezes, chegava a me julgar sob a ação subjetiva de uma engrenagem endiabrada. Nunca vi tal mania! Já andava o namoro por uns dois meses, quando um belo dia passei os olhos pelo espelho. Deus do céu? Quase me assombro! Feio, acabado, cheio de olheiras, amarelo, como se fosse um doente de hospital. Tirei as provas de que a preocupação do amor é a pior de todas as doenças. Angústia 124
O grande anseio de a ver, de conseguir falar-lhe, a dúvida constante de que vivia assediado, me tiravam o sono e o apetite. Sempre que ela chegava à janela, era precipitada, como um pássaro bravo; toda assustada, pousava um instante no parapeito da varanda, e logo desaparecia; depois, espiava através das rótulas fechadas. Do lado de dentro, também espreitando, via seus movimentos, quando entreabria um pouquinho o postigo e alongava o olhar pelas casas e pela rua, jamais para o meu lado! Uma vez, porém, nem tenho expressão para contar... Ai transbordamentos e alegria desta vida! Por maiores, absolutamente, não sereis como este que eu senti! Menos esquiva, entre as bandeirolas da janelinha feiticeira, que era o meu tabernáculo, a adorada apareceu, resplandecendo, como se fosse o próprio astro rei aninhando ali para clarear toda a grandeza dos meus sonhos. Trêmulo, coração batendo, mãos frias como gelo, de quando em quando, fingindo-me indiferente, eu olhava... Se alguém que passasse defronte de mim, nesse crítico instante, compreendesse o meu êxtase, com certeza me perdoaria, mas, se não compreendesse, me tomaria por doido. Que havia de fazer? Não conseguia arredar a vista do meu ídolo. Em certo momento, senti um desejo invencível de a contemplar de perto. Angústia 125
Saí de casa e passei ousadamente, duas vezes defronte de sua janela. À primeira, a mimosa brincava, descuidadamente, como o laço de seu formoso cabelo preto; fingiu que não me via. À segunda posso afiançar que a linda conheceu muito bem a impressão que me causou. Nossos olhos se encontraram; involuntariamente, fiz- lhe um sinalzinho de cabeça, tão de leve que mal se adivinharia; mas a querida viu e correspondeu, acompanhando o movimento com um sorriso adorável. Estava claro que me queria bem, que me correspondia... Mesmo de longe, notei que suas feições alteraram; enrubescera e ficara, de repente, como se fosse uma rosa encarnada. Penso que essa grande comoção não era somente do vexame; foi muito arrebatada a precipitação, com quem correra para me ver. Minutos depois, a janelinha fechou-se e logo a namorada, acompanhando-se por uma senhora idosa, reapareceu na grade do portão do jardim. Vestia branco, enfeitado de fitas cor-de-rosa; da mesma cor também eram o chapéu de cabeça e o de sol. Estava linda que parecia uma deusa! Passou-me pela vista um verdadeiro deslumbramento; creio que perdi os sentidos. Esqueci até de segui-la. Apenas acompanhei-a com a vista, quando tomou a direção do ponto do bonde, que ficava a dois passos. Angústia 126
De longe se voltou; naturalmente, quis verificar se ainda eu estava ali. Assim que deu comigo, virou pressurosamente a cabeça. Quase avanço nessa hora e me ajoelho aos pés da santa. Felizmente me contive. Quando tomou o bonde, reparei que ainda me procurou. Fazia isso, disfarçando, cautelosamente; mas eu conhecia tudo e muito me alegrava. Outro, no meu lugar, se agarraria logo ao estribo do carro e seguiria viagem, bem juntinho da amada. Fui sempre ajuizado; por isso, fiquei ali, vivendo ainda, muitos instantes, daquele olhar saudoso, que ela me lançara por despedida, e, ao mesmo tempo, sentindo o aceleramento do meu sangue, somente por me lembrar da grande perfeição de sua imensa beleza. Neste ponto da narrativa, separei-me do Arthur Lourenço. Angústia 127
II Na estação dos bondes da linha de Botafogo, se aglomerava uma grande multidão: uns parados, outros indo e vindo, alegremente, debaixo do sol muito quente, ainda, às quatro horas. Surgiam, de todos os pontos, formosas senhoritas vestidas de cores vistosas; algumas de branco, muitas outras, modestamente, de preto, cobertas com os elegantes chapéus Charlotte. Ao lado dessas queridas, vinham, em geral, as mamães muito bonitas, ostentando os pesados vestidos de lã, cinzentos, azuis, marrons ou cor de creme. Passavam diversas bastante graves, cabeças levantadas, sempre em direitura, para a frente, escondidas em grandes chapéus de palha da Itália, muito cheios de flores e fitas. Não obstante o orgulho que estas carregavam, deixavam, em sua rápida passagem, recordações profundamente agradáveis. Angústia 128
Ao mesmo tempo, com este bando feliz, seguia, muito grotescamente, o mundo enorme dos importunos e conhecidos vendedores ambulantes, geralmente pequenos, perseguindo, desumanamente, os passeadores. Eram balas, nougats, bilhetes de loteria, jornais e revistas que apregoavam, muitas vezes, em voz alta, repetindo os títulos das notícias importantes. Por toda a parte, muito luxo e muita alegria, a sorrir, por entre a frescura da mocidade, que andejava e que se envolvia com a vibrante animação natural do momento. Essa população se misturava, e trocava olhares satisfeitos, mirando-se uns aos outros, e correndo para tomar o bonde da Exposição. O Rio de Janeiro estava imponente. Fazia tempo que suas ruas não se enchiam de tanto esplendor nem suas vitrines de mais atrativos. Parece que ninguém pensava, naquela época, senão em fruir os gozos que o destino proporcionava, com a abertura da fidalga Exposição Nacional. As despesas subiam, e se extinguiam por completo as economias. Para o comércio de modas, tudo corria muito bem. Não discutiam mais preços de chapéus nem de fazendas e ornamentos, com que teriam de figurar nessa festa aristocrática, para onde arribaram, em grandes revoadas, famílias e famílias dos cantos mais longínquos do Brasil, atraídas por essa grande novidade, esperada, desde muito, com Angústia 129
avidez, não só pelos que unicamente se divertiam como pelos exploradores. Durante os minutos em que esperávamos o bonde, os carros de todas as espécies passavam e repassavam, em grandes vertigens de carreiras, conduzindo senhoras e cavalheiros para o mesmo ponto, - Praia Vermelha, onde se instalara a grande Exposição, aberta nesse dia, onze de agosto de 1908. Antes de partir, avistei, de repente, no fim da espaçosa abóbada, que forma o vestíbulo da estação, uma elegante senhora. Vinha caminhando, muito descuidadamente, e sem prestar nenhuma atenção ao movimento, que se desdobrava, com tanta alegria, por toda a Avenida. Trajava um vestido de linho azul marinho enfeitado de preto. Estava quase perto de mim; entretanto, a princípio, não pude distinguir, detalhadamente, seus traços fisionômicos. Não sei se ela estava triste, se era o seu modo natural, ou se era devido ao acanhamento que abaixava os olhos, quando atravessava a multidão. Esta grande modéstia, que o lindo rosto expressava, fazia comover. Parece que, naquele dia, um acontecimento muito pungente a obrigara a uma submissão tão grande quanto era a humildade, que lhe sombreava, melancolicamente, o mimoso semblante. O próprio modo de vestir indicava isto. Angústia 130
Não sei também se os seus encantos arrebatavam, mas impressionavam muito, mesmo de tal forma, que era difícil passar sem a olhar. Acrescia a essa graça, a mocidade que revelava toda a elegância do seu corpo. Foi muito rápida a sua passagem; lembrava o mistério de algumas constelações nas alturas do infinito. Por mais de uma vez, pensei naquele rosto. Com certeza não era desconhecido. Mas a lembrança se apagava, e não insisti em evocá-la. Dias depois, no salão do Restaurant Paris, rua Uruguaiana, jantando com uma senhora, essa falou-me no Arthur Lourenço. - Sabe que está casado? - Sei. Faz dois anos. - Dá-se com a família? - Não, porém ainda a visitarei. - É linda como os amores a mulher de Lourenço; por causa disso, coitado, padece muito. Sua vida é um verdadeiro suplício. Não imagina como ele vive desesperado de ciúmes. É um Otelo! Entretanto, devo dizer que ela desconta. Sabe perfeitamente ensinar. Seu modelo é apuradíssimo; vai além do que era preciso. Depois do almoço, metodicamente, veste-se e vai passear. Todos os sábados aparece na rua do Ouvidor, arrastando um luxo desmesurado. É, por isso, acompanhada por uma imensidade de olhares. Se até agora ninguém lhe Angústia 131
conhece desequilíbrios, compreende-se, desde o primeiro momento, que é muito feliz. Outro dia, um simples incidente fez-me prestar atenção aos dois. Vinham a carro, pela rua Gonçalves Dias; fizeram uma parada numa loja de perfumarias; ao saltar, ofereceu ele a mão à mulher para descer, e esta, muito desdenhosamente, foi rejeitada: obrigada, desço bem sozinha. Fiquei consternada. Talvez não merecesse tanta dureza, porque é um rapaz de escola; tem muitas qualidades boas. Se fala mais do que deve em atrizes, se é mesmo um tanto pândego, não é coisa também de muita monta. O talento enorme, que estrebucha no cérebro deste sonhador presunçoso, é que o tem colocado em posições melindrosas. Não teve bons princípios para formar a base de sua educação. Eis aí o grande defeito. Dessas pequenas perversões, desses toques de vicioso, que têm o formato de embriões muito enfraquecidos, as maiores tendências, geralmente, são para o aborto. Era preciso que ele não tivesse tido a formação do seu espírito na rua, sempre desocupado, a se envolver em tudo o que lhe podia fazer mal. Seu gosto era ganhar assunto para entrar, livremente, em todas as conversas, fossem elas políticas, financeiras ou literárias. Angústia 132
Não se pode dizer que seja um homem mau, porém, um leviano, de quem os próprios gestos são tão rebuscados. Tínhamos acabado de jantar e levantamo-nos. Nesse momento, muitas cabeças se voltaram para a porta que dava entrada para o hotel. São eles, disse-me a amiga no ouvido. Reconheci, imediatamente, na senhora, a gentil personagem, que avistara de relance na Estação. Angústia 133
III A cidade estava, nesse dia, muito alegre, uma verdadeira festa. Isso me admirou, unicamente, por ser segunda-feira, pois o geral é haver movimento mais notável aos sábados; porém, como sábado e domingo foram chuvosos, explica-se a alegria. Da confeitaria Castelões, apreciei o burburinho, e posso dar notícia exata da imensa multidão que enchia as ruas. Lembrei-me, nesse momento, de muitas coisas saudosas, e também do trabalho desta vida, que deve ser muito grande para conseguir alimentar tanta gente e, principalmente, o grande luxo dessas lindas mulheres, que estavam, de vez em quando, a passar com seus maridos, pais, ou amantes, carregando nos dedos e no pescoço, joias custosas, que brilhavam por cima das toilettes muito ricas. Angústia 134
Daquelas que passam, disse alguém que conversava no meu grupo, conheço diversas: aquela é a mulher do comendador L..., uma terrível nervosa; esta é a senhorita Alzira, que vai casar-se com um português muito estúpido, sem nenhuma educação, somente por causa da riqueza; a que a acompanha é nortista, noiva de um ano, explico-me, está passando aqui a lua de mel. Coitado do seu velho marido... A outra, a que vai um pouco afastada, repetia, abaixando tanto a voz, que eu muito a custo conseguia ouvir, é a adorável Tessa; direi melhor Teresa. Tessa é o diminutivo, que lhe dão os íntimos e a família. É casada com o filho de um rico italiano, o sovina, que vendia joias, e mesmo, no próprio dia da morte da mulher, não sentiu repugnância de negociar defronte ao cadáver... De igual calibre é o marido daquela infeliz senhora, não é possível encontrar maior selvagem. Pequenas discussões se apresentaram a respeito. - Por que dizer isso?! Não era possível criatura melhor do que o marido de Teresa. A mulher, sim, é o verdadeiro diabo de saias. Traz no rosto a serenidade de um anjo, e na alma, o inferno. É uma namoradeira consumada; todo o bairro sabe disso... Ainda fizeram outros comentários, melhores e piores, até dissolver-se a sessão dos refrescos. Dessas conversas ficaram-me, na memória, umas, outras em pleno esquecimento. Quando acreditava Angústia 135
numa coisa, descria de outras. Geralmente pouco me impressionavam esses malévolos dizeres. Entretanto, uma tristeza insistente ficou, por muitos minutos, gravada em meu coração, quando falaram nos Lourenços. Sempre os vi debaixo de uma feição de tal remanso, que parecia a verdadeira felicidade. Os noivos, até certa época, têm uma vida muito cheia de complicações; somente eles mesmos se entendem. E eu via, numa descaída ou outra, que dava lugar a esses rumores, somente essa quadra em que eles andavam em situações de apaixonamentos e sonhos. Por isso, e também porque, ultimamente, se relacionaram comigo, se não me punha na defensiva, evadia-me depressa, não alimentando malquerença nenhuma entre eles. Sorrateiramente abordava os caminhos, esperando ver surgir o meu ideal, que era o de os ver felizes. Nossa intimidade se estreitava; muitas vezes, tive ocasião de os observar. Até hoje, porém, não sei ainda a que atribuir tanta discordância entre os dois entes, que se amavam, senão a fatalidade de uma plena incompatibilidade de gênios. Uma ocasião, num baile, ficou Arthur Lourenço muito despeitado, quando a mulher aceitou um cavalheiro para dançar valsa. O mesmo olhar, que o intruso dirigiu à Teresa, foi em direitura a seu coração, um desses olhares que arrastam, que fazem mal, abalam, e matam o indivíduo, bruscamente, como o choque de uma pilha elétrica. Angústia 136
O semblante dela também mudara debaixo de igual comoção. Neste grande alvoroço de se terem compreendido, ficou a Teresa muito corada; mas, voltando, pressurosamente, a cabeça, deixou-se enlaçar pelo braço do seu jovem par. Em toda a sala ninguém dançava melhor. Arrebatados como dois pássaros, voavam pelo vasto salão, fazendo voltas. O encanto deste cenário lembrava a espaçosa estrada do mar, onde pareciam envolvidos na espessura da água, desdobrada em flocos prateados, assim como as ligeiras gaivotas, repousando no balanço artístico das ondas, e seguindo, a compasso, a música do infinito. Defronte daquela vista, o marido tremia de raiva. Ao mesmo tempo em que os seus olhares aflitos estavam cravados no rosto do ousado rival, seus ouvidos pareciam distinguir, na confusão das miragens, que se lhe atravessavam pelo cérebro, o sussurro destas palavras misteriosas, murmuradas num doce cochicho: - Amo-a! Amo-a! O desgraçado, morrendo de ciúmes, com as feições alteradas, deu dois passos para o casal. Entretanto foi contido pelo próprio acesso da violenta comoção, e resignou-se a assistir, até o fim, aquele abraço que um audacioso dava, publicamente, em sua mulher. No momento da despedida, viu ainda o mesmo alvoroço e a mesma onda de sangue inundando o rosto de ambos! Angústia 137
Nada lhe pareceu mais insuportável e indecoroso na vida. Não havia dúvida, tinha bem certeza; o apresentado tomara posse; a conquista estava feita; nenhuma defesa da parte dela! O que mais lhe doía era sentir o enleio do último adeus, o aperto de mãos, que tremiam em silêncio. Roendo as unhas, desesperado contra a mulher e o seu par, resmungou palavras grosseiras. Chegaram a casa amuados. Cada um entrou para um quarto diferente. A Teresa, muito vagarosamente, despia os trajes de baile, quando ouviu do quarto fronteiro um grande vocabulário que o marido deixava sair da boca, em furiosas tempestades, e perguntou: com quem é que está falando, Arthur? - É com você mesma, assanhada! - Assanhada, por quê?! - Que demônio de agarração com aquele pedante! - Então o senhor pode dançar, divertir-se, e eu não; por que isso? - Está muito sábia! São os Zolas e os Maupassants, não é mesmo? - Deixe de tolices, homem de Deus, vamos dormir, que é muito tarde. Era só o que faltava, ter ciúmes do Ramos! Pois não é ele o seu melhor amigo? Não é a ele que agrada mais do que ao mundo inteiro, e a companhia que sempre preferiu a todas? Angústia 138
- Por isso mesmo foi que me aborreci; ele a olhava com fatuidade de namorado, e você se encostava ao seu braço da mesma forma que se encostava ao meu, quando éramos noivos. - Ora que pieguice... Se o senhor fosse mulher... Somente as mulheres são tolas e desconfiadas; deixe-se de ridículos; lembre-se de que eu jamais lhe fiz exprobração alguma, e o senhor tem feito horrores comigo. - Eu! Diga o que foi? - Qual, deixemo-nos disso, são três horas, morro de sono. Que necessidade é a sua de se atormentar por uma banalidade à toa, como esta! Quem é feliz, como o senhor, não deve se queixar tanto. Dancei com o Ramos somente, porque pensei que isso lhe desse prazer. - Como?! Não ouvi bem... - Não vale a pena, vamos dormir, basta de maçada. - Grosseira! - Meu Deus! Que grande tormento se suportar um ciumento! Não me convide mais para os seus bailes, nem me apresente aos seus amigos. Deixe-me em paz; não tarda o dia amanhecer. - Como ela é ruim! Angústia 139
Muito depressa, reconheço o abismo a que me atirei. Deverei dizer que a odeio, que este amor me tortura, me acaba a existência? É evidente que ela não me ama. Desde as mais simples palavras até a expressão de seus olhos, de todo o seu rosto, se sente o desdém, o desprezo mesmo com que me trata. Essa guerra silenciosa contra mim, cada dia se acentua mais dolorosa, no meu coração. Se fosse outra, já estava em meus braços, cobrindo-me de beijos. Não preço que me tenha muito amor, porém, ao menos, um pouquinho de amizade... Sua indiferença é esmagadora! - Quem disse que eu não lhe quero bem? Tem razão, queridinha, não fiquemos inimigos, disse ele, entrando no quarto fronteiro, onde estava a mulher, façamos as pazes; perdoe minhas impertinências; a valsa, realmente, me atormentou; mas está tudo acabado. Com os olhos bem fechados, estendida comodamente na cadeira de braços, a bela Teresa não via nem sentia mais suas carícias. Dormia, profundamente, mergulhada no silêncio do seu lindo aposento, guardando nas feições uma grande placidez! Ainda mais despeitado com esta decepção, olhou para o colo deslumbrante, onde seus beijos se perderiam, como se fossem dados numa estátua; depois disse muito magoado: Ingrata! Angústia 140
Nem posso mais dizer que somos dois. Sou um, um somente, um miserável que se exalta, se apavora, pensa no futuro, na solidão, e nesta grande ferida aberta em pleno peito. Não julguei que se pudesse desdenhar de quem tem sido amado por milhares de mulheres bonitas. Quando me casei foi por amor, e acreditei que minha vida fosse a mais venturosa deste mundo. É uma prova horrível, por que estou passando. Não posso suportar hostilidades. Sou correto no meu proceder; por isso, faço um alto protesto contra seus modos injustos. Começo mesmo a detestá-la, e esse ódio pode se complicar. Um dia sou capaz de a estrangular, de pôr-lhe o corpo em pedaços; quero saber de que massa é composto seu coração de gelo. Em nossa sociedade, há sempre uma ideia perversa – a partilha do amor. A mulher traidora é a mais apetecida; se a minha é namoradeira, se vivo, por isso, sempre em contendas, é melhor que nos divorciemos. Terei por ventura muita culpa desta horrível desgraça? Ciumento não sou. Nunca me deixarei dominar por essa vilania; não quero é passar por imbecil; gosto apenas de zelar o que é meu; seria uma abominação muito grande viver debaixo da tutela de um Angústia 141
namorado de minha mulher, que se lembrasse de meu suplantar. Serei por ventura um covarde? Hei de me deixar empolgar, por uma atriz, uma criatura inferior, que não poderá jamais me dar ventura, e que se diverte à custa de meus sofrimentos? Aquele sono sossegado me abala, cruelmente, os nervos. Se alguém abrisse de repente a porta, achá-la-ia deliciosa, naquela posição. Por certo que a cobriria de beijos, e ela não acordaria. Se eu, porém, reunisse a ação ao desejo, ficava logo assustada, defendendo-se com aqueles lindos braços, que estão mergulhados nas rendas de linho, e pousaram, por tanto tempo, no ombro do maldito Ramos. Como ela toma cuidado no modo de descansar a cabeça, e na camisola de dormir. A mulher que vive para o marido não tem estas etiquetas. Que sonhos não terá dito o Ramos com o simples pensamento de sentir, em redor de seu pescoço, aquelas mãos macias? Foi um grande aborrecimento, que me proporcionou o destino! Aportar num inferno, enrubescer de raiva, aniquilar-me, perder o equilíbrio, e sentir meus ossos ressequidos, rangendo na pele, como espada no campo de uma batalha, entre incertezas, hesitações e a contingência de quem sabe que não está seguro... Angústia 142
IV Estava, um dia, a D. Rita, sogra do Lourenço, a conversar com a Teresa, na sala de jantar. Tinham ambos sorrisos cheios de afeição e ares confidenciais, como se as envolvessem negócios de alta importância. Do outro lado, na penumbra de um recanto, o genro, muito irado, de vez em quando, lançava olhares ciumentos ao grupo. Seu desejo mais ardente era conseguir tomar todo aquele amor que a filha votava à mãe. Dominado por esta ideia, sentia-se um tanto consolado e detinha-se a olhar, com orgulho, sua casa muito formosa, guarnecida com um riquíssimo e admirável mobiliário. Defronte da mesa de jantar, estava pendurada uma grande moldura com a Ceia de Jesus, de tamanho quase natural, trabalho todo feito em mármore, que lhe custara um dinheiro fabuloso. Angústia 143
Do outro lado, também apareciam paisagens notáveis. Caçadas, campos infinitos, onde pastores brincavam, atravessando-os muito garbosos, a conduzir seus rebanhos, frutas, pássaros, conchas desenhadas, aquarelas e muitas outras curiosidades. Por cima dos aparadores e armários ainda se encontravam notabilidades: diversas estatuetas, e bustos muito interessantes, apropriados ao belo salão. Nos passeios pensativos, que sua vista, lentamente, fazia, por todo este museu de objetos raros, admirando o capricho artístico desses trabalhos de autores célebres, encontrava sempre uma grande falha. Por detrás de todas estas magnificências de figuras e quadros deslumbrantes, onde desejaria, em primeiro lugar, descortinar um painel com pintura bem simples e que representasse apenas a felicidade de seu lar, desgraçadamente, na planura, que ficava muito longe, no extremo, quase a perder de vista, como se tivesse resvalado do seio da parede, fazendo remate aos lavores de toda aquela aristocracia e riqueza, estavam somente os vultos de sua sogra e da mulher, formando a estampa muito triste de duas estátuas de bronze. Odiava a sogra; entretanto, quando a analisava, encontrava, em todos os seus traços, motivos para a achar distinta. Que poderia dizer da Teresa? Angústia 144
Bastava um simples olhar, para encontrar, em toda a sua pessoa, provocações tão grandes que o perturbavam, arrastando-lhe pensamento e coração ao sonho de ternuras infinitas. O poder da fascinação, que a mulher exercia sobre ele, era singular. Nada se assemelharia a este domínio absoluto, que lhe carregaria a alma até à baixeza, se fosse necessário. Entretanto sabia bem quanto eram desprezados estes arrebatamentos do seu imenso amor; se o coração da Teresa batia, era somente pela D. Rita. Por que se importar com aquela inocente afeição? Mas, também, por que esta escandalosa preferência, e os mistérios que o colocavam em estados sensitivos e lhe faziam irritações, que chegavam ao mais elevado grão de enfurecimentos? Em certos momentos mais melindrosos, aproximava- se do grupo. Elas abaixavam a voz. Aquilo o incomodava desesperadamente. Não era outra coisa, pensava, senão uma verdadeira provocação, uma cilada, que lhe armavam; sabia muito bem quanto era grande e rancorosa a antipatia, que lhe votava a sogra, mas deixassem estar, algum dia essas coisas findariam. O colóquio começava, cada vez mais cheio de efusões, como se, além delas, nada mais existisse. Angustiado, sem meios de se expandir, sentia as revoltas lhe estuarem no peito, onde a indignação crescia, clareando-lhe o caminho da injustiça, de que já tanto tempo se sentia vítima. Angústia 145
Assim, era demais! Ninguém podia entrar naquela conversa! Se perguntava qualquer coisa, lá vinham os ohs de admiração, as mentiras dissimuladas, os monossílabos incompreensíveis, que o amarguravam e irritavam tanto. Por que suportar esta vida abominável, quando sabia que o resultado desta comédia, que representavam, cinicamente, era para lhe fazer mal? Os beijos continuavam. A revelação deste afeto e a própria doçura, que transparecia dele, transfiguravam-lhe a alma; os dissabores de um despeito profundo lhe atravessavam o coração, como se fossem os beijos da D. Rita verdadeiras punhaladas. Tinha mesmo ímpetos de a insultar, grosseiramente, e pô-la de casa para fora. Não teria, por ventura, a velha intrusa o que fazer nesta vida, senão persegui-lo, acompanhá-lo, como se fosse o fantasma de sua sombra, roubar todo o afeto que era seu, toda a alegria de sua vida, que se resumia ao encanto dessas doçuras, que ela gozava assim à plena luz, voluptuosamente, como se ele nem vivesse mais?! E as duas, sem nenhum respeito, a se esconderem na penumbra das árvores, perdidas entre as estreitas veredas desses canteiros, que tanto amei e bordei de flores queridas, para oferecer à ingrata! Angústia 146
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