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Trilogia de Amélia Beviláqua

Published by mestradocomunicacao2021, 2023-03-01 19:43:44

Description: LIVRO COMPLETO (1)

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Apoio Patrocínio UESPI Universidade Estadual do Piauí

Algemira de Macêdo Mendes (org.)





Algemira de Macêdo Mendes (org.) Amelia de Freitas Beviláqua Jeanete 1. Ed. Rio de Janeiro TIP.BESNARD FRÈRES 1933 Avant Garde Edições Teresina 2023 1

Copyright C Algemira de Macêdo Mendes, 2023 Projeto visual: Avant Garde Ilustração capa: Ângelo B Cartoon Revisão: ATRAVÉS DA VIDA – Adriano Lobão ANGÚSTIA – José Wanderson Lima Torres JEANETE – Assunção de Maria Almondes Leal Digitação: Antônio Carlos Viana de Sousa Mateus de Oliveira Feitosa Kayla Tha ana Rocha Barbosa Bureau gráfico: Conceição Silva Impressão: Gráfica do Povo Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) B571c BEVILÁQUA,Amélia. Coletânea (Trilogia: Através da Vida; Angús a; e Jeanete) / por Amélia Beviláqua e Algemira de Macedo Mendes (Organizadora). Teresina: Avant Garde Edições, 2023. 270 p. ISBN: 978-65-992208-9-0  1. Literatura Brasileira. 2. Romance. 3. Escrita feminina I. BEVILÁQUA, A., Autora. II. MENDES, A. M., Org. VII. Título. CDD 804 Índices para catálogo sistemá co: 1. Literatura Brasileira. 2. Romance. 3. Escrita feminina 2

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TRILOGIA DE AMÉLIA BEVILÁQUA ATRAVÉS DA VIDA, ANGÚSTIA, E JEANETE Para Michelle Perrot (1988), “as relações das mulheres com poder inscrevem-se primeiramente no jogo de palavras”. Nesse sentido, o processo de transgressão apresentado como luta para emancipação da mulher, mesmo que muitas delas tenham sido sob a tutela dos homens, abriram caminhos para que muitas delas se tornassem sujeitos ativos do processo sociopolítico e cultural, diminuindo as assimetrias existentes nas relações entre homens e mulheres. Nesse sentido, podemos dizer que a mulher se utilizou da escrita como uma arma de luta contra as assimetrias de gênero presentes em nossa sociedade. 5

A exemplo, podemos citar a escritora piauiense Amélia Carolina de Freitas Beviláqua, nascida em Jerumenha, no Piauí (07-08-1860). Morou em São Luís (MA), posteriormente, em Recife (PE) e, por último, Rio de Janeiro (RJ), onde veio a falecer em 1946. Foi casada com o jurista Clóvis Beviláqua e tiveram quatro filhas. A escritora inicia cedo sua vida literária. Ainda quando estudante, em São Luís, começou a escrever como colaboradora do jornal que circulava em seu colégio, publicando contos e poesias. Em 1889, publicou trabalhos em jornais de Recife e na Revista do Brasil, de São Paulo. Atuou, também, como redatora oficial da revista Lyrio, de Recife, em 1902. Foi ocupante da cadeira 23 da Academia Piauiense de Letras e patrona da cadeira 48 da Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno-Ceará. De sua obra, constam crônicas, contos, poesias e romances – todos eles publicados em diversos jornais e revistas do país. Destacam-se, entre elas, as seguintes: ROMANCES: Através da vida (1906), Silhouettes (1906), Vesta (1908), Angústia (1913), Açucena (1921), Jeanete (1933), Contra a sorte (1933); CONTOS: Alcione (1902), Milagre de Natal (1928), Flor do orfanato (1931); ENSAIOS: Aspectos (1905), Instrução e educação da infância (1906), Literatura e direito (1907), Impressões (1929), A Academia Brasileira de Letras (1930), Divagações sobre a consciência (1931), Alma universal (1935), Jornada pela infância, (1940). Trilogia de Amélia Beviláqua 6

A autora ainda atuou como tradutora, como conferencista na área de literatura, colaborou com a Revista do Brasil, de São Paulo, durante cinco anos, assinando A.F.B., e também com diversos jornais do país. Foi uma das fundadoras das revistas: Lyrio. Este periódico feminino teve duração de dois anos (1902-1904) e era direcionado ao público feminino. Nele, publicavam poesias, contos, notícias da sociedade, crônicas, etc. Além de ser uma das fundadoras, Amélia atuava como redatora. Como se pode constatar, por essas experiências na imprensa e por sua vasta produção entre romances, contos, poesias, ensaios, etc, Amélia se preparou desde muito jovem, pois seus relatos são indicativos do quanto ela se dedicou à leitura e à produção literária. Segundo Maria de Lourdes Eleutério (2005), a escritora Júlia Lopes de Almeida cresceu em um meio culto, conheceu e conviveu com Machado de Assis e outros escritores da Belle Époque. A historiadora Miridan Falci enfatiza que a escritora Amélia Beviláqua, muito justamente, logrou ser membro da Academia Piauiense de Letras e Patrona da Cadeira nº 48 da Ala Feminina da “Casa de Juvenal Galeno” (Fortaleza, CE). Todavia, por ser mulher, nenhum êxito obteve junto à Academia Brasileira de Letras, em 1930, quando se candidatou à vaga deixada pelo acadêmico Alfredo Pujol. Seu nome foi rejeitado depois de acirrada polêmica interna a respeito do regimento, na qual prevaleceu a interpretação de que este só Trilogia de Amélia Beviláqua 7

permitia a candidatura de escritores homens. A esse respeito, a escritora piauiense publicou, em 1930, o livro A Academia Brasileira de Letras, além de documentos histórico-literários, reunião de artigos de jornalistas e dos próprios acadêmicos que protestaram contra o fato. Como é público, somente no último quartel do século XX, mais precisamente em 1977, o sexismo foi rompido naquela instituição, tendo Raquel de Queiroz, nesse mesmo ano, ocupado uma cadeira, abrindo caminho a outras mulheres. A escritora Amélia Beviláqua, com uma obra volumosa, presença marcante na imprensa do início do século, festejada pela crítica, ainda assim, é pouco citada nas obras de histórias da literatura de seus contemporâneos como os escritores e críticos literários no século XIX e início do século XX, como Silvio Romero e José Veríssimo, dentre outros, que deixaram-na de fora de suas histórias. No entanto, são nos romances que Amélia mais se destacou na época. Seus livros, que há muito tempo estão esgotados, são encontrados somente em sebos, antiquários e arquivos públicos no setor de obras raras, não disponíveis para empréstimos. Foi a partir dessa inquietação, ocorrida durante a realização do meu mestrado e defendido em 2000 e do meu doutorado concluído em 2006, deixada como sobra da autora e que fez parte do corpus das pesquisas é que nasce o desejo em publicar as obras da escritora para que o público brasileiro a conhecesse. Trilogia de Amélia Beviláqua 8

Em 2022, submetemos, através do SIEC/SECUT/ PI, um projeto para publicarmos a trilogia formada pelas obras ATRAVÉS DA VIDA (1906), ANGÚSTIA (1913) e JEANETE (1933), obras essas que se centram em personagens femininas, cada uma ao seu modo e dentro de seus contextos, que transgridem as normas impostas às mulheres dentro de uma sociedade patriarcal e androcêntrica de então. A primeira tem como protagonista Daluz, criança injustiçada que cresceu como todas as mulheres de sua época, que serviam apenas para realizar obrigações do lar, não consegue sequer ser matriculada numa escola. Aprendeu a ler e escrever através de seu próprio esforço. Na segunda, com enredo ambientado no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX, a protagonista Teresa representa uma mulher que quer se fazer independente, recusa o papel destinado à mulher e é indiferente aos olhares punitivos da época. A personagem Jeanete, da terceira e última obra da trilogia, vive uma relação conflituosa, mas com grande astúcia resiste à subjugação do marido possessivo. Vê-se que, apesar do silêncio em que a escritora Amélia Beviláqua esteve envolta em muitas das histórias literárias que cotejamos ao longo desse trabalho, é possível recuperar seus percursos porque os rastros deixados no passado marcam a sua passagem. Consta-se que a rede funcionou e, mesmo expatriadas do cânone, elas ressurgem a partir de pesquisas dessa natureza, reparando injustiças e Trilogia de Amélia Beviláqua 9

desvelando sombras. Cabe, aqui, valer-se da força impulsiva de que fala Madame Staël1 , se, de agora em diante, Amélia Beviláqua não consiga ser o centro, esperamos que ocupe o lugar que lhe é de direito na História da Literatura Brasileira. Algemira de Macêdo Mendes Profa. do PPGL/UESPI Bolsista de produtividade CNPQ Escritora e Critica Literária 1Ver Historia das mulheres no Ocidente: o século XX. Porto: Afrontamento, 1991. v. 5. Trilogia de Amélia Beviláqua 10

Crônicas do passado 11

Através da vida 12

Ao Victor, Octavio, Thomaz e Theophilo, meus irmãos e queridos companheiros da infância, ofereço este volume que, não obstante nada ter de comum em suas narrativas conosco, peço que o estimem e o guardem como uma dádiva de amizade sincera e uma recordação dos tempos de criança em que brincamos e vivemos juntos, esse bom tempo risonho que, se confundindo agora muito saudosamente com as miragens do passado, revive entretanto em meu espírito cada vez mais renovado e florescente. Amélia de Freitas Beviláqua (Recife, 19 de agosto de 1905) Através da vida 13

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I Quem conhece Olinda, sabe quando é pitoresca e agradável esta pequena cidade encravada entre montanhas e ensombrada de coqueiros, a triste e decadente, tendo, contudo, o seu passado histórico que ainda a faz lembrada muitas vezes. Foi outrora a capital de Pernambuco, teve suas glórias, teve suas venturas, e muita gente ainda guarda desse passado, que se tornou imortal, as mais gratas e saudosas reminiscências. Agora mesmo não podemos dizer que ela viva abandonada; é um dos mais recreativos arrabaldes da capital, pode-se mesmo dizer, o mais procurado de todos, principalmente na estação balnear, quando as famílias, atormentadas pelo calor, deixam o Recife e ali se aglomeram às dezenas, umas porque estão doentes, outras buscando fresco, e geralmente todos para se divertirem e gozarem os banhos salgados que são deliciosíssimos, principalmente no Carmo, onde batem as vagas muito fracas. Ali ninguém precisa de banhista, nem receia cair em peraus ou morrer afogado; o mar sempre manso faz lembrar um lago infinito, as águas se encrespam incessantemente, se movem, e estuam, porém, sempre com brandura e suavidade. Através da vida 15

Moças e rapazes dão a vida por essa alegre temporada de banhos; é a época dos folguedos, das alegrias, e também dos ajustes de casamente, por que o Carmo sempre foi um ponto especial e apropriado para os plantões de namoro. E se sabe que isso é porque ali tudo convida á voluptuosidade das poesias. Dizem mesmo que somente os predestinados a celibatários não voltam noivos, depois dessa estação de festas e danças. A poucos metros do Carmo, fica situada a praia dos Milagres, muito formosa com o seu imenso areal branco estendido terreno afora, como se fosse um interminável calçamento de mármore, se espelhando e luzindo muito radioso aos reflexos do sol. Nesse ponto, as ondas são bravias, o banho é de choque brusco, mais vigoroso, há sempre uma revolta em que as vagas se batem e se contraem formando os chamados cavalleiros, que fazem a gente subir, com a onda, alturas incalculáveis, despenhando-se no vácuo, sumindo-se no rolo monstruoso das águas, e indo ás vezes desastradamente se esbarrar em pleno seco, sem conseguir jamais pisar firme dentro d'água; porém, em compensação, a frequência de banhistas é muito menor, e por isso mesmo o banho muito mais purificado, e medicinal porque é mais forte, mais higiênico e asseado. Em dezembro, justamente numa dessas adoráveis estações de banhos e festas de Natal e Ano Bom, aportava no Recife, um vapor dos da companhia do Lloyd Brazileiro; trazendo a seu bordo um grande carregamento de imigrantes Através da vida 16

do Ceará. Tinha sido naquele ano terrível a seca. As vilas, cidades e povoados ficaram quase desertos com o assolamento da fome e da bexiga; os passageiros ancorados no porto da Fortaleza, mesmo sem desembarcar, assistiam ao longo da praia, à caravana tristíssima de homens a carregarem cinco e seis indivíduos pendurados em paus, como se fossem criação exposta à venda. Eram cadáveres de variolosos. Dizem que, por esse tempo, no interior, houve quem matasse o próprio filho, para comer. O que se afirma, e foi mesmo verdade, é que as vítimas da fome foram inúmeras. E o povo, completamente apavorado com os horrores da seca e da peste, fugia aos bandos emigrando para todos os cantos, longe e perto do Ceará. Entre esses imigrantes de todas as classes que aqui desembarcaram, vieram o Sr. Paulino dos Anjos, três sobrinhos e a mulher, gente de boa sociedade e arranjada, porém, naquela época, depauperada e atrasada. Buscava o Sr. Paulino uma colocação que lhe melhorasse a sorte. Preferiu residir com a família em Olinda onde a vida era mais cômoda e poderia, a força de economia e trabalhos, readquirir mais depressa a independência dos antigos tempos que ele queria transmitir aos sobrinhos, aos quais sempre adorara como filhos. E assim aconteceu. Tempos depois, a casa retomava ares mais alegres e melhores comodidades. A princípio residiam junto à estação do Carmo, porém, resolveram viver nos Milagres, mais isolados, no recolhimento de seus Através da vida 17

trabalhos. Nesse tempo, raras casas existiam ali, e as poucas que se viam eram em maioria pequenos casebres cobertos de palhas com paredes de barro. Alguns tinham o chão somente aterrado, outros, forrado de tijolo áspero e ordinário. A edificação quase sempre é situada muito à beira mar, às vezes tão perto que nas grandes enchentes, em muitas casas, as ondas vinham se quebrar junto às pedras que serviam de degrau ao batente das portas. Nesse lugar de tristezas, bizarramente fantástico, respiram-se constantemente aragens que infiltram pelo corpo doçuras infinitas que não se definem, porém que adormecem e amolentam a alma. Sempre se ouve o mesmo rugir melancólico de tempestades alta noite, grunhidos de ventos, farfalhar tristíssimo de folhas, anseios ondulosos de águas alvoroçadas pelo alto mar, que vêm rolando até bater na terra, onde se derramam em haustos de canseiras, ali se estendem como placas de vidro, e se douram de luares terníssimos nas belas noites de claridade, ou ao reflexo do sol radiante e alegre. Alheia a toda essa poesia e enervante paisagem, a família de nortistas cearenses imigrada, ali residiu uma vida inteira apesar de toda a monotonia dessa paragem deserta. Viveu sempre feliz. Nunca se viu casal mais amorosamente unido. Não teve jamais a ventura de ter filhos. Em compensação o irmão mais moço do Sr. Paulino, casado muito depois, não se passava um ano sem que visse surgir mais um herdeiro em seu lar, e por fim o aglomero de crianças Através da vida 18

enfastiava. Quando pôde contar seis filhos, propôs ao irmão e à cunhada a incumbência de três dos menores, e essa vaga, não deixou grande espaço em casa, por que a produção se elevou a oito. E assim os casais de irmãos muito amigos, viviam cada dia mais felizes com a ventura que o destino lhes proporcionou, quando o incidente da seca teve de separá-los repentinamente. A princípio houve certo desfalecimento por parte da mãe dos pequenos que se afligia com a separação, e o Sr. Paulino por pouco viu desabar o castelo de sua felicidade de ser pai. Depois, todas as circunstâncias vieram a seu favor e os meninos o acompanharam; Daluz, de seis anos de idade, e dois irmãos menores. Estas crianças eram adoradas como anjos, principalmente os meninos, que eram dois soberanos dentro de casa, onde a todo momento, punham tudo em verdadeira desordem. Quando ficaram crescidos, os rapazes foram enviados ao melhor colégio do Recife. A menina, como pouco tinha a representar no mundo, ficou em casa aprendendo a ler, a trabalhar de agulhas, e a garatujar letras com a tia Mariana, isso um dia ou outro, quando a tia não estava ocupada, ou quando a criança estava disposta. Se, por ventura, alguém falava em botá-la no colégio, havia sempre em casa um franzir de testa, um desagrado. Para um rapaz, dizia a tia Mariana, as coisas são sempre mais fáceis, um bonezinho, um fato preto, passagem grátis no trem, botinas e a gravatinha, não é preciso mais; não se há de mandar, porém, a Daluz para o colégio ali com qualquer Através da vida 19

preparo todos os dias, vestindo sempre a mesma roupa, usando o mesmo chapéu. A estas considerações o tio Paulino acrescentava convencido: para uma menina, ler e escrever é bastante, senhora. A própria Daluz, quando se faziam comentários a respeito de suas aprendizagens, ficava preocupada, receando ir ao colégio; porém todas as tardes, quando os irmãos entravam em casa carregados de livros e contavam os divertimentos, prêmios, apostas, tudo o que tinham feito, ela tinha seus estremecimentos, uma certa visão perturbava-lhe muitas vezes o espírito, e aborrecia-se, porque era menina e não poderia ter aquelas alegrias tão ruidosas que os outros traziam do colégio. A tia Mariana não era absolutamente má; era, ao contrário, uma dessas mulheres de bondade sem limites, porém sempre foi muito mais amorável e condescendente para os meninos. Não gostava que a Deluz corresse e brincasse senão dentro de casa. Durante o dia não a deixava de mãos paradas, queria a sobrinha uma perfeita senhora. Logo cedo, a menina sentava-se no estrado, na sala de jantar, e era obrigada a bater bilros o dia inteiro para acabar o papelão de rendas que ela ensinava. Os marmanjos tinham vida muito diferente. Quando chegavam do colégio empinavam papagaios pela rua, traquinavam, corriam, tudo faziam sem que se ralhasse. A menina com o corpo cansado, sempre encurvado na almofada, não distraia o espírito, nem brincava, porque era menina e devia estar sempre quieta. Através da vida 20

Aos doze anos, trabalhava em bordados, rendas e serviços de casa como uma verdadeira mulher, até mesmo dos negócios de cozinha entendia com perfeição. Nesta prática de trabalhos tornou-se eximia, quase professora, ninguém lhe faria sombra. Recebia elogios a todo instante. A tia Mariana, que era uma mulher de inteligência pouco vulgar, ensinava-lhe as ciências que tinha adquirido pelo instinto. Viviam ambas engolfadas nesse doce remanso de lar, assistindo muito descuidosas os dias e as noites se passarem inalteráveis, sem incidentes, quando uma ocasião a pequena Daluz teve um terrível e brusco despertar. O mais moço de seus irmãos, criança apenas de oito anos, trouxe da rua um mapa geográfico e, estendendo-o sobre a mesa, começou a distribuir de norte a sul os diversos países, com uma perfeição admirável para a sua idade. Brevemente teria de fazer exame de classe no colégio, sentia-se extremamente orgulhoso, necessitava expandir-se. Então em falta de quem o ouvisse chamou-a. Era a primeira vez que ela olhava para um mapa geográfico. Não compreendia nada absolutamente daquela profusão de riscos que se cruzavam em tão grande emaranhamento por todos os lados do papel; olhando-o de perto ficava muito surpreendida, sabendo que através desses risquinhos, se podia tomar conhecimento com o mundo inteiro. O pequeno lia, apontando com o dedo, n'um empasse de grande sábio, tomando gestos e maneira pedantes. De quando em vez, comprazia-se em chasqueá-la, chamando-a de tola. Realmente Através da vida 21

embasbacada defronte dessa grande sabedoria, a outra ficara completamente aterrada de ver tanta ciência em seu irmão pequenino, muito menor e mais moço do que ela! Estava humilhada, enrubescia e descorava ao mesmo tempo, desconfiada com um sorriso pálido a tremer-lhe nos lábios. O estudantinho convencido de sua real superioridade, não se compadecia da irmã. Muito cheio de si, todo orgulhoso e triunfante, olhava-a do alto com expressão de piedade. Depois abriu um novo livro, sempre com a mesma atitude sardônica e soberba: também não entendes disto? Astronomia... disse ela vacilando, depois de ter olhado para o lombo do livro. Sim, o volume chama-se astronomia, porém sabes o que quer dizer este belo nome? A pobre criança, que apenas lia e escrevia muito mal, olhava trêmula e confusa para aquele menino Deus que lhe dizia tantas coisas novas e que, nessa hora de suprema angústia, lhe pareceu uma figura sobrenatural, e somente pôde sacudir a cabeça negativamente. – Pois não sabes isso, Daluz? E insistia, retomando os ares de homem sábio, continuando sempre a falar, dando à voz uma entonação especial, batendo ao mesmo tempo com o dedo indicador em cima da mesa demoradamente, acompanhando as palavras: – Astronomia é a ciência que trata do movimento dos corpos celestes. Ali, dizia ele de cabeça erguida para a formosa abóboda do céu, são os mundos aéreos; repare, cada estrelinha daquelas tem o seu romance. A estrela polar está do lado do Através da vida 22

norte, não poderás vê-la daqui, é uma das mais belas constelações do firmamento, foi outrora o luzeiro que guiou os viajantes que transitavam pelo alto mar. Dentro da lua existem montanhas, lagos, habitantes, preciosidades e riquezas como as que possuímos aqui. Ela é um planeta, assim como também Vênus e a Terra. Quando o sol se põe, ou melhor, se esconde, seus raios refletindo-se dentro da lua, dão-lhe brilho e suavidade muito doce. Os habitantes da lua enxergam das altas paragens onde residem, a nossa bela terra, também brilhante e cheia de radiações, porém, muito maior e mais formosa, porque, inconstantemente a terra é para elas, o mais formoso de todos os planetas. E o Jorgezinho, muito entusiasmado, explicava, n'um crescendo de alegrias, as suas ciências que pareciam à ingênua Daluz as mais extraordinariamente assombrosas! Ela não sabia nada; um garrancho de letra muito esquisito, nem mesmo podia escrever seus pensamentos. Ficou a tarde deste dia acabrunhada e triste. Agora, entre os nevoeiros do despeito começava a pensar que o tio Paulino não a estimava! Pagava para o Jorge e o outro aprenderem tanta coisa, e a ela não ensinava nada absolutamente! Não podia se conformar com essa diferença e principalmente com a situação ridícula em que a colocara o irmão. Sustentava as lágrimas nos olhos, sentindo tremuras muito grandes lhe passarem pelo corpo. Quando o tio Paulino passou, pouco depois, pela sala, e afagou-lhe os cabelos, ela amuou-se muito esquiva e Através da vida 23

resmungou: não me quer bem, é aos outros; eles têm prendas, vão ao colégio, eu bato bilros e faço rendas todo dia, não brinco e nem passeio. Para eles é que se fazem economias em casa, que se veste e se come mal. A tia Mariana se priva de tudo, vende as joias, faz embolso no cofrezinho para os meninos não perderem o estudo, os rasgadores de roupa!... Também não os amarei mais, principalmente ao Jorge, o grande mau! Se mamãe estivesse aqui, com certeza eu também iria ao colégio, teria meus prêmios, livros, pastas e tinteiros... Não me importa; quando crescer, hei de ter tudo o que desejo, hei de trabalhar... Nesse triste monólogo, sentada no estradinho da sala de jantar, com a alma abatida e o coração magoado, se esforçava por consolar-se procurando no trabalho, que fazia afervorada, com a mão pouco firme, uma distração inútil, porque as lágrimas lhe caíam dos olhos em tanta abundância que lhe ensopavam o rosto. Estava sentidíssima, muito triste, não se resignaria mais nunca; esse vácuo aberto pelo despeito lhe deixara sulcos que o tempo não acabaria. Como uma espécie de volúpia muito doce, de quando em vez voltava o pensamento ao livro do irmão, relembrava os olhares atrevidos e as palavras que a tinham magoado; seu coração inocente, todo feito de susceptibilidades, estava naquele momento sob a ação subjetiva de um desses fenômenos, que os psicologistas mesmo não poderiam Através da vida 24

compreender. Não se conhecia mais; havia em si própria uma outra criatura de caráter especial, uma outra vontade que não se escravizaria, que se tinha desenvolvido, uma atividade, uma força inquebrantável, unificando-se ao fenômeno de sua própria intelectualidade que despertara nítida, e clara. De criança restava ali a forma simplesmente do seu físico pequeno, que se torturava, debatendo-se à procura de um porto onde ancorasse toda a sua angústia e tristeza. Evocava de novo a imagem dos pais e, principalmente, dessa mãe ideal, que desejaria naquele instante conhecer, unicamente para derramar no seu peito toda a melancolia que lhe ensombrara o espírito. Mas dessa visão suave, onde procurava repousar a alma, não encontrava mais um terço fisionômico; na sua imaginação exaltada, queria ligá-la ao pensamento, prendê-la com toda força ao coração, porém, ela se fugia descorada, aparecendo-lhe muito longínqua, desfazendo-se, tomando a forma ligeira dessas brumas vaporosas, quase miragens que se afastam sem deixar mais do que a emoção; nem uma recordação lhe restava desse rosto querido, que era mesmo assim muito amado, através do espaço. Entretanto, lembrava- se vivamente de alguns fatos de sua vida passada com os seus. Um dia, acompanhada pela mãe, fora à Parangaba no Ceará, em casa de uma gente que a impressionara bastante. A residência se encravava a pouca distância do hospital de alienados, e era um desses casarões de aparência velha, desbotado, muito cheio de salas e janelas, todo embolorado, Através da vida 25

com o salão de visita sem papel, ornamentado de alguns retratos a óleo, também em decrepitude como a casa, parecendo a todo instante se desmoronarem da parede onde os prendiam cordões de seda, que deviam ter sido amarelos em outros tempos. Apesar dessa feição de velhice que ressumava de todos os cantos; o asseio e a ordem eram dignos de nota. Elas se distraíam ambas, olhando esses relevos das eras passadas enquanto esperavam ser atendidas, quando uma das portas da extremidade do salão se abriu repentinamente, e a cabeça de uma criatura assomou no limiar. Era uma velha, alta, magra, rosto completamente rugado, cabelos pretos como tinta, divididos em duas pastas lisas, cobrindo a testa. Um lenço de rapé, colocado do pescoço até à cintura dava-lhe o aspecto nobre e simpático, à semelhança de uma dessas freiras de convento, que dirigem asilos de crianças. Entrou na sala cortejando-as com um grande gesto afidalgado e muito distinto. Era a viúva Salomão, dona de casa. Depois, a porta reabriu-se e apareceu uma outra mulher idosa, de rosto triste e escaveirado, onde se formavam duas dobras esquisitas, que, não obstante as rugas, ainda se podia bem ver que foram outrora duas barroquinhas; os dentes crescidos, estavam sempre com as pontas aparecendo, mesmo quando a boca não falava, porque ela mastigava em seco, essa solteirona irmã da senhora Salomão. Através da vida 26

Ainda não se tinha passado a surpresa da pequena visitante, que olhava muito admirada aqueles dois arcabouços humanos que a amedrontavam, como se estivesse defronte de duas formas fantásticas dos contos de princesas, e castelos encantados que ouvia sempre narrar, quando o rumor de coisa que se arrasta a despertou. Do outro lado da sala, surgiu um velhinho de olhar muito vivo e observador. Contava cento e vinte anos esse macróbio que fraquejava das pernas e andava de gatinhas assentado n'um couro. Diziam que uma jovem assistindo em casa desta viúva a uma festa, viu, assentado n'um cantinho do toilett, o velho Viegas, era assim o seu nome, julgou-o caduco, não ligou importância à sua presença, e pôs-se a fazer os maiores requebros defronte do espelho, quando o ouviu dizer: se tu falasses, espelho feliz e paciente, quantas confidências deliciosas não sairiam do teu peito firme e reservado?!... A moça comoveu-se e abaixou a vista para o velho que a olhava com uns olhinhos fixos, malévolos, pertinazes, tão insistentes que a fizeram enrubescer muito envergonhada como se estivesse defronte de um belo rapaz. Os olhos muito moços desse velho, que eram azuis, a atormentaram muitos dias, e assim aconteceu à Daluz, que nunca os vira mais impressionantes. Pareciam devorá-la, olhando-a da maneira mais incômoda. Para livrar-se desse olhar impertinente ela saiu disfarçadamente, deu algumas voltas pela sala, indo esbarrar-se de encontro à janela que ficava perto de uma das Através da vida 27

portas laterais, por onde se encontrava da rua para o salão de visitas, mas recuou ainda mais apavorada. Uma verdadeira procissão de velhos e velhas começou a passar pela sua frente. Todos tremendo da cabeça aos pés, agarradas aos bastões que raspavam os tijolos, e dando-se as mãos uns aos outros como se quisessem formar uma quadrilha carnavalesca de ébrios, todos vacilantes, a baterem com o queixo e a cabeça num trêmulo que os unia a um só laço de simpatia elétrica, os velhos se dirigiam à criança, e à mãe, estendendo ao mesmo tempo todas as mãos descarnadas de veias salientes, a pedirem num frêmito de piedade, na mesma voz e no mesmo compasso, como se estivessem apostados para entoar a infinita canção de todos os desgraçados! Depois se dispersaram pelas ruas do jardim, no mesmo passo pouco firme, todos enfileirados sempre a se ajudarem, temendo que a terra se abrisse a cada passo para devorar os restos dessa triste decadência ali asilada piedosamente, naquele recanto onde a virtude e o altruísmo da viúva os abrigavam à custa de sacrifícios e da caridosa complacência dos que ainda a estimavam na obscuridade de sua pobreza. Era essa a lembrança mais clara que ela guardava dos tempos vividos com sua mãe. Depois disso, um ou outro quadro insignificante, e era tudo. Também tinha saído de sua companhia aos seis anos, nunca mais a tornara a ver, e acabava de completar doze! Através da vida 28

Quando adormeceu à noite, ainda estava melancólica, porém, o sentimento da justiça que era muito grande em seu coração de menina bem educada, fê-la esquecer os rancores que a tinham intrigado com todos; a consciência a acusava de ter sido desamorosa para os irmãos e os tios. Acordou no outro dia esquecida dos dissabores da véspera e retomou a mesma feição nos trabalhos costumeiros, esforçando-se cada hora para se tornar mais digna da amizade que lhe tributavam os tios, porém, seus belos olhos profundos se tornaram cismadores, perderam a vivacidade. Havia em todos os seus modos delicados e meigos uma preocupação que ela não podia dissimular, nem dominar, sentia-se vencida antes de combater n'essa luta que antevia no futuro, parecendo-lhe sempre desfavorável, pressentia mesmo, qualquer coisa de funesto na vida, nesse dia do seu primeiro desfalecimento moral. Retomando todo o império que tinha sobre si própria, assentou-se e começou a trabalhar vigorosamente no bordado que estava no bastidor, mas, seu espírito não repousava um instante, distraído, sempre torturado a pensar na triste e ridícula situação em que a colocara o Jorge. Através da vida 29

II Pelas férias foi chamado o professor Crisóstomo para lecionar os meninos em casa. A aula era justamente na sala de jantar junto ao bastidor onde trabalhava Daluz, de maneira que ela não perdia nenhuma palavra das explicações. Em compensação, a agulha se movia à toa, uma vez por outra, as rendas ou o bordado ficavam erradas, tanto o seu interesse estava ligado àquela aprendizagem dos irmãos. Por causa disso adquirira a alcunha de preguiçosa, e ninguém mais lhe fazia elogios. Muitas vezes, quando a tia Mariana passava perto dela, ralhava dizendo encolerizada: que mania de olhar para a lição dos outros em lugar de fazer o bordado! De outras vezes dizia: menina, você é homem para se incomodar tanto pelos livros?! Aquilo lhe fazia desgosto. Que aborrecimento! Também queria ser letrada?! Era o que faltava... Isto só castigo do céu! Através da vida 30

A menina depois dessas repreensões que achava muito justas, abaixava a cabeça e prometia deixar de escutar as lições do professor Crisóstomo. Mas, no outro dia, lá vinha a desgraçada ideia de aprender. Era uma verdadeira paixão que a arrastava tirando-lhe toda a força de reagir. Uma dessas fatalidades como a da morte, a que a gente não pode fugir, seguindo a passos lentos até cair no abismo! Um dia a pequena ajoelhou-se defronte de uma grande estampa de Jesus que estava pendurada no seu quarto de dormir, e disse em voz angustiosa, ao meigo nazareno, que olhava para o alto, com os olhos tão tristemente dolorosos, que pareciam indiferentes à prece que ela lhe fazia com tanto ardor: “Jesus, tu que és tão admiravelmente bom, que és o maior dentre todos os seres, fazei que eu possa abafar no meu peito todos os meus sentimentos, que os meus desejos não ultrapassem nunca o poder das minhas forças. Deus meu, porque essa fascinação pela arte, por que esse amor pelas belezas dos livros me seduz e me fascina tanto?! Compadecei- vos de mim, Jesus adorado, fazei que me voltem aqueles dias de outrora, quando à tardinha, ouvindo o marulhar das ondas, eu cosia ao lado da tia Mariana, que me queria tanto. Tirai-me esse tormento do espírito, não me deixeis mais nunca debaixo dessa medonha e fascinante tentação... Socorrei-me... Por que mandaste o Jorge me mostrar aquela geografia fatal que perturbou toda a felicidade de minha vida, se tu não podias me dar mais do que a paixão fervorosa, o desejo irrealizável?!...” Através da vida 31

Depois dessa prece angélica, divinizada com os prantos de seus olhos que pingavam na toalha do altarzinho ali erguido, ela se levantou mais calma, certa de que aquele anelo inteiramente absurdo de seu cérebro se acabaria por uma vez. Agora procederia bem, o senso lhe voltava, não era possível que o bom Deus a esquecesse nesse pélago de misérias e tristezas... No outro dia o professor voltava e ela irresistivelmente escutava as lições que eram dos outros, que lhe zumbiam pela cabeça como o sussurro de uma medonha tempestade que em vão se fecha os ouvidos para não ouvir! Nunca ousou atacar de frente um livro, tinha um medo horroroso que a pilhassem lendo. Os seus estudos eram de furto, à noite quando todos dormiam, ou quando saiam à tarde para espairecer pelas areias da praia. Muito sobressaltada, com os livros nas mãos estava sempre alvoroçada, receando surpresas como se praticasse um crime. Um ano duraram essas lições em casa, dias felizes e ao mesmo tempo angustiosos que se findaram deixando-lhe as mais profundas saudades. Nesse curto espaço instruiu-se muito. Aprendeu de cor, sem falta de uma vírgula, toda a gramaticazinha de Sotero. Aprendeu também alguma coisa de análise. Rastejava física, astronomia e botânica. A princípio lia e relia esses livros dos irmãos sem compreendê-los, as ideias se baralhando muito confusas, depois, à força de estudar, penetrou-os perfeitamente e o instinto carregava-a pelos Através da vida 32

caminhos mais difíceis. Aos treze para quatorze anos, tinha boa orientação e se guiava perfeitamente bem. Até o desenho, essa arte primorosa, que é uma espontaneidade do coração, foi adorado pela sua alma de verdadeira artista. Fez paisagens admiráveis, e revelou-se em todos os trabalhos de pintura, aprendidos pelo esforço de sua própria experiência, com o fulgor mais extraordinário de seu talento que se desenvolveu como se tivesse tido cultivo especial. Através da vida 33

III Quando o tio Paulino entrava em casa, sempre tinha o que dizer para censurar as manias da sobrinha que não perdia o costume de adorar os livros. O menos que dizia era assim: “A mariana tem razão, o vício desta pobre menina foi um castigo! Sempre detestei mulheres letradas, sempre achei que os livros ficavam bem e tinham graça, porém nas mãos dos homens. Entretanto, tudo me vem diferente! Não tardará o dia em que esta criança caduca não queira entrar também para a academia com os irmãos e acabar doutora. O que eu não quero é que digam que influi para esse triste despenhadeiro em que ela vai, tenho feito tudo para dissuadi-la! Mas em que adiantarei, se o seu gênio se conhece logo à primeira vista que é indomável? Temos os doidos recolhidos nos hospícios e os que erram livremente por toda parte sem que ninguém os contrarie. Que fazer? Através da vida 34

*** Antes fossem os meninos que tivessem esse ardoroso desejo de aprender; porém, se o Paulo se formar, tenho feito negócio. O Jorginho cada vez tem se tornado mais esquivo ao estudo. Tão esperançoso em pequenino, era o meu verdadeiro ideal aquele pequeno que se mostrou desde o berço o mais profundo talento! Como tudo mudou de figura! Uma tarde em que ficaram sós a tia e a Daluz, assentadas no terracinho da casa, gozavam a doçura do vento que soprava fracamente trazendo o perfume delicioso do hálito das águas. A tia Mariana olhou para a menina, e perguntou-lhe por que estava triste. Isso é pensamento de livros, não é assim? Deixa-te dessas preocupações, meu anjo; se compreendesses a vida, nem pensarias nunca em semelhante tolice. Teu tio é muito pobre, o gasto que faz para suportar os pequenos no colégio é muito grande. Ultimamente teu pai, que vive também atrasado e tem tantos filhos, tem sido obrigado a ajudá-los muitas vezes, enviando mesadas para os teus irmãos não perderem tempo. A sobrinha respondeu perturbando-se um pouco, como se lhe tivessem querido arrancar um segredo íntimo. Não estava triste, nem pensava em livros. É verdade que tinha sua queda por certos estudos e gostaria de aprender n'um colégio, principalmente na escola normal, ou propagadora onde mais tarde poderia, quando completasse Através da vida 35

todo o curso, tirar o diploma de professora. Não era uma grande coisa, sabia disso, porém, por pouco que fosse esse ordenado, para o futuro lhe seria vantajoso, principalmente porque teria um grande prazer em se tornar algum dia útil aos que a estimavam e a tinham criado como filha. A tia ficou sem graça diante daquela resposta que não era mais do que a revelação de um pedido indireto, escapado do seio da sobrinha com um certo toque de exprobração e ao mesmo tempo de queixa. Não achou o que dizer, não teve mesmo nem uma palavra para combatê-la. Conhecia-se que o seu enleio era muito grande. Vendo-a assim perplexa, a menina procurou animar a conversa, dizendo com muita meiguice, que sabia fazer todos os trabalhos de agulha, até podia ensiná-los, tão santas e proveitosas tinham sido as lições da tia, porém agora era preciso compreender que ela tinha quatorze anos feitos, e precisava se instruir alguma coisa. As vezes tomava um ar confidencial, e dizia, pedindo perdão, que sentia dentro de si uma força indomável para seguir esse caminho de letras de onde todos a queriam afastar. O desejo enorme que eu sinto de conhecer, dizia ela, esta aflição de ignorar tudo, de não poder sequer ter a esperança de aprender, tem posto, no meu espírito e na minha existência, uma situação insofrível e desoladora, de quimeras, sonhos, imaginações de caracteres e formas variadas e esquisitas que eu não sei compreender! Mas reconheço que o tio e a tia se aborrecem com isso; submeto-me, não quero também ir de encontro a todas as vontades. Através da vida 36

A tia Mariana ficou cismando com a vista muito longe; nem sentia a suavíssima ternura dessa brisa marinha que lhe beijava os cabelos, nem via a paisagem belíssima dessa tarde de agosto tão resplandecente atravessando o céu e a terra numa alegria infantil que comovia. Com a face descansada sobre a mão esquerda, continuava estática defronte da imensidade; pensava, idealizava talvez uma solução a respeito daquela menina de gênio voluntarioso, diferente de todas que ela conhecia, mas, ao mesmo tempo, tão santa, quanto adoravelmente boa. Dentro de seu peito onde escondia, com todo o afeto, o grande amor que sentia pela Daluz, a reconhecia a melhor e a mais dedicada de todas as filhas; relutara sempre em botá-la em colégios e escolas, justamente porque a amava muito, e porque receava que o que o contágio do mundo a estragasse; era só por isso, porque sempre achara bonita a instrução. Ela dependia de artistas, seu pai fora um dos mais distintos pintores de sua época. Houve na família diversos que se distinguiram em estudos de matemática. A própria cunhada, mãe da sobrinha, tivera uma grande instrução; fora uma pianista notável. Ali mesmo na sala de visitas, estava ainda para lembrança o grande busto de seu pai tirado a óleo; diversas paisagens pequeninas, cópias do natural, trabalhos todos de força e de gosto. Recebera prêmios nos tempos escolares, tivera suas emoções e entusiasmos... Mas, para que lhe serviam essas prendas? Teria sentido menos os azares da sorte se não Através da vida 37

os compreendesse. Queria educar a seu gosto a sobrinha, sabendo de antemão as decepções por que ia passar, e sabendo também que o seu único mister, na passagem pela vida, era o de ser mãe de família regedora da casa e dos filhos, quando casasse, servir e obedecer cegamente ao marido. Porém a criança desde pequena destoara do seu pensar, não se acomodava bem aos seus desejos, parecia uma verdadeira mulher! Essa obstinação trouxera do berço; seu pai também tinha esse gênio obstinado, era uma herança. Que fazer? Quem poderá conter o curso fremente das águas de um regato que se despenha em cascatas de cima das montanhas? A tia Mariana ficou cismando com a vista muito longe; nem sentia a suavíssima ternura dessa brisa marinha que lhe beijava os cabelos, nem via a paisagem belíssima dessa tarde de agosto tão resplandecente atravessando o céu e a terra numa alegria infantil que comovia. Com a face descansada sobre a mão esquerda, continuava estática defronte da imensidade; pensava, idealizava talvez uma solução a respeito daquela menina de gênio voluntarioso, diferente de todas que ela conhecia, mas, ao mesmo tempo, tão santa, quanto adoravelmente boa. Dentro de seu peito onde escondia, com todo o afeto, o grande amor que sentia pela Daluz, a reconhecia a melhor e a mais dedicada de todas as filhas; relutara sempre em botá-la em colégios e escolas, justamente porque a amava muito, e porque receava que o que o contágio do mundo a estragasse; Através da vida 38

era só por isso, porque sempre achara bonita a instrução. Ela dependia de artistas, seu pai fora um dos mais distintos pintores de sua época. Houve na família diversos que se distinguiram em estudos de matemática. A própria cunhada, mãe da sobrinha, tivera uma grande instrução; fora uma pianista notável. Ali mesmo na sala de visitas, estava ainda para lembrança o grande busto de seu pai tirado a óleo; diversas paisagens pequeninas, cópias do natural, trabalhos todos de força e de gosto. Recebera prêmios nos tempos escolares, tivera suas emoções e entusiasmos... Mas, para que lhe serviam essas prendas? Teria sentido menos os azares da sorte se não os compreendesse. Queria educar a seu gosto a sobrinha, sabendo de antemão as decepções por que ia passar, e sabendo também que o seu único mister, na passagem pela vida, era o de ser mãe de família regedora da casa e dos filhos, quando casasse, servir e obedecer cegamente ao marido. Porém a criança desde pequena destoara do seu pensar, não se acomodava bem aos seus desejos, parecia uma verdadeira mulher! Essa obstinação trouxera do berço; seu pai também tinha esse gênio obstinado, era uma herança. Que fazer? Quem poderá conter o curso fremente das águas de um regato que se despenha em cascatas de cima das montanhas? Divagando muito abalado, cada vez mais compenetrada de que a Daluz era uma predestinada pela sorte, a seguir os voos de seu gênio de artista, que a escravizara até o apaixonamento, a tia Mariana abraçou-a dizendo: não Através da vida 39

proibirei os teus desejos, segue filha o caminho do teu destino. Que os anos e a experiência não te tragam decepções. Tua mãe também foi artista, mas de que lhe valeram esses dotes e prendas recebidas? Se os não tivesse seria muito melhor. Não se vive de glórias, minha santa, nem de sonhos. A realidade é o melhor caminho, é por ele que devemos seguir. De que te serve essa glória que almejas? Para que ser grande? Para que essas efêmeras e passageiras felicidades? Vivemos mais felizes ignorando do que sabendo. Muita ciência faz adoecer. Teu tio sempre diz e é verdade, a fraqueza da mulher é muito grande; aquelas que nascem inteligentes, se o seu desenvolvimento intelectual toma incremento e força muito grande, acabam sempre desnorteadas, ficam histéricas, suas ideias se atropelam em báratros medonhos, não chegam jamais a um fim. Nadam desesperadamente por um aguaceiro de ideias em que tropeçam a cada passo sem entenderem nem mais saberem o que querem, finalmente morrem à falta de força para se salvar. Queria livrar-te dessas coisas, filhinha, elas se acomodam melhor com os homens; nós, sempre cheias de moléstias e atavismos de espartilhos, não poderemos andar em correrias pelas ruas agarradas a pastas e livros; nosso lugar é dentro de casa. Enquanto a tia falava, Daluz a escutava religiosamente, olhando-a em cheio. Muito decadente estava a tia Mariana. As faces que tinham sido formosíssimas, estavam murchas. A testa espaçosa luzia em cima da caveira frontal Através da vida 40

como se ali não houvesse mais do que um oleado ceroso bem estirado e ressequido sem uma prega, contrastando inteiramente com a face. O cabelo todo branco, pouco espesso, naquela hora esfarelado pelo vento, dava-lhe um aspecto cômico ao oval do semblante de loura, muito alvo, longo e emagrecido; a boca não tinha ainda perdido de todo a forma, estava guarnecida de dentes admiráveis que lhe davam, ao sorrir-se, a maneira mais graciosa, fazendo ainda lembrar os traços de sua antiga beleza. Os olhos eram bonitos, luziam no rosto como estrelas em noite escura. Pode-se dizer que a tia Mariana, contemplada, neste destroço de velhice, ainda encantava a vista, principalmente atendendo-se à bondade de sua alma, e às virtudes de seu coração. Era dada ao prazer de conversar com os homens, preferia sempre a companhia deles; às vezes era tão desfavorável a qualquer dote das mulheres que um dia o tio Paulino quis chamar para professora dos sobrinhos uma senhora e ela disse logo que ensino de mulher não adiantava. Quem a ouvisse falar em certas ocasiões sobre as mulheres teria horror, era uma gente sem alma, umas farsantes, uns diabos enfim. Sua lógica a esse respeito escandalizava às vezes até ao tio Paulino. Assim que um visitante de calças lhes entrava em casa, ela arrumava-se ao seu lado; somente nas vagas de uma pequena vírgula ou parágrafo, o senhor Paulino dava um dedinho de palestra, muito interrompido, sempre ouvindo-a dizer, espera Paulino, quero contar isso, quero contar aquilo... Por muitas vezes ele Através da vida 41

se aborreceu com essa tagarelice da mulher com os homens, porque era muito chegado ao ciúme, principalmente quando eles eram moços. Não lhe agradavam muito essas expansões. Mas ela não era absolutamente desequilibrada. Quando moça, antes de se unir pelos laços matrimoniais, diziam as más línguas invejosas que ela gostava muito que lhe fizessem roda os belos rapazes do seu tempo, e que o Paulino, namoradíssimo de seus encantos, penetrando certa vez em sua casa, sem ser esperado, teve um verdadeiro assombro quando deu com a vista num moço de pince-nez, a beijar-lhe os dois pés, que segurava nas mãos como se fossem beija-flores. Porém nem sempre se podem afiançar certos segredinhos rasteiros que aparecem por portas travessas. Suponhamos de preferência que isso é história da Carochinha. A tia Mariana sempre foi muito digna e muito boa. Para exemplo ali estavam suas belas mãos tão nevadas quanto finas e delicadas outrora, estragadas e encardidas agora, trabalhando nos serviços mais duros. O seu defeito, o principal, talvez mesmo o único, era o da exagerada preferência pelo homem, em quem somente depositava toda a confiança e a quem emprestava todas as virtudes. Se não fossem essas ideias não vacilaria mais em consentir que a sobrinha aprendesse. O tio também tinha suas inclinações mais desenvolvidas para o pessoal do sexo masculino, porém estimava bastante a sobrinha e a decisão da tia Mariana era a sua. Através da vida 42

IV Peneirando muito fino e macio, caia do céu todo nublado, um desses chuviscos que ensopam as ruas e parece nunca se acabarem. O caminho de Olinda ressaltava ainda mais a sua tristeza. As árvores com as ramas cheias d'água se inclinavam sombrias e friorentas; o lamaçal dos mangues, que se estendem à margem do caminho, ainda estava mais extenso nesse dia de chuva. O tio Paulino não saia de casa, fazia-lhe quizília aquela chuva, não gostava de se molhar, e, além disso, estava já bastante velho, para andar pulando por cima dessas pontes de pedacinhos de tábuas e pedras, que os transeuntes costumavam preparar nessas ocasiões para os pés não se mergulharem pelas poças d'água, e onde, de quando em vez, davam medonhos escorregos. Era isso justamente o que mais o aborrecia; não era vaidoso, porém ficava desolado quando um ou outro salpico manchava seu paletó ou as invariáveis calças de brim branco. Não se poupava em coisa alguma ao cuidado de escovar e dobrar o seu fato, quando chegava da rua, Através da vida 43

e esse trabalho era feito com ternura tão grande, como se fosse mãe extremosa a cuidar nos preparos de um filho querido. Tudo que existia em sua casa era de um asseio e de uma ordem extraordinárias. Não se via um móvel de luxo nessa vivenda que respirava a maior modéstia, porém ninguém sabia o que faltava, para dizer que a habitação desse casal, era quase principesca. Tudo ali era austero e artístico, até ao encanto! Entrava-se logo pela sala de visitas; uma salinha pequena, forrada de papel cor de rosa, inferior. Não havia forro de tábua no teto, uma ligeira empanada de algodãozinho substituía o forro comum. Pela tarde, sobressaíam diversas fotografias em molduras pequeninas, que reluziam o dourado límpido, e também retratos em ponto grande, alguns dos quais eram de seus antepassados e parentes próximos. O quarto do tio Paulino podia se dizer um verdadeiro primor. A cama de pinho sem polimento, trabalho executado por ele mesmo, era um desses leitos de formato muito antigo e singelo. Da extremidade da cabeceira, erguiam-se duas hastes também de pinho, sem polimento, que sustentavam o cortinado de chita cor de rosa. As cortinas do quarto, de fazenda da mesma cor, faziam de envolta com os reflexos do sol, todos os objetos resplandecerem esse rosco suavíssimo do céu nas tardes de verão. Não faltava nada naquele ninho, onde todos os objetos eram pobres, mas a arte se relevava em todos os pontos, até no tapete de estopa grossa, bordado e Através da vida 44

preparado pela tia Mariana para embelezar este aposento de casados felizes. O jardim também, todo cheio de minudências interessantes, aprazia à vista. De um lado um viveiro de pássaros feito de talas de bambu; do outro, erguia-se um montezinho, arrodeado de trepadeiras, que se entrelaçavam em profusões, perfumando todo o ambiente, e sombreando o monte que foi também trabalho do tio, inclusive os bancos de pernas sem torneio, que ornavam aquele pequeno recinto, onde passavam as tardes a palestrar. Pelos canteiros do jardim se destacavam com gentilezas as mais belas flores conhecidas no Brasil. A ordem era sobremodo notável; a variedade e o gosto incensuráveis pelo crítico mais severo. Quando ele ficava tardes e manhãs inteiras, plantando e replantando esse jardim querido, que era o seu orgulho, sentia-se quanto se alegrava com o sucesso e o brilho dessas flores, fruto do seu trabalho, que o desvaneciam como se fosse um artista que expusesse num cavalete, aos olhos do público, um quadro primoroso. Amava loucamente as flores, e as cultivava como todo o coração, porém não para ganhar dinheiro, queria somente a glória de ter ainda em vida, o seu paraíso terrestre. Nessa manhã toda invernosa, ele vestia pijama de flanela escura; calças balofas metidas para dentro das botas e, esquecido de que não saíra à rua por causa da chuva, estava todo entretido a endireitar os craveiros e as cécias brancas suas adoradas, quando um delicado bater soou na grade do jardim. Através da vida 45

Quem é que o vinha perturbar naquela hora matinal, arriscando-se por esse tempo todo impróprio?! Erguendo a voz grossa onde cantava ainda um enfado, gritou: entre! A porta abriu-se, e um personagem de pequena estatura entrou segurando na mão uma carta volumosa. Era um rapazelho de seus dezessete anos, parente do tio Paulino, que vinha do interior do Ceará a procura de emprego. A carta explicava em palavras muito insinuantes que o portador ficaria residindo com os parentes mesmo depois de colocado; era muito moço para morar em repúblicas de desconhecidos que o perverteriam; também pedia que suprisse o pequeno dos arranjos necessários para se apresentar com decência. O preço do gado esse ano estava muito baixo, os rendimentos da fazenda minúsculos, até a plantação do café tinha sido quase toda perdida, mas não tivesse cuidado que o rapaz não sobrecarregaria por muito tempo a casa, e mesmo não ficaria no esquecimento a remessa de uma mesada cada mês até que o empregasse. O tio Paulino não era homem que fizesse cara feia para obsequiar e servir os outros, porém não ficou muito contente com aquela hospedagem. A casa não tinha cômodos, de mais a sobrinha já estava uma mocinha para permanecer na convivência daquele marmanjo. Também lembrou-se de que, logo no outro dia, ela teria de entrar para o colégio, mas essa repentina intrusão lhe perturbaria por força a ordem dos acontecimentos que iam tomar um curso natural. O piano ali encostado na parede da Através da vida 46


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