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Trilogia de Amélia Beviláqua

Published by mestradocomunicacao2021, 2023-03-01 19:43:44

Description: LIVRO COMPLETO (1)

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O outro, muito contente com o desenvolvimento do seu drama, acompanhava os tormentos de Arthur Lourenço, com olhadelas manhosas, não perdendo um traço, porém não o fitando nunca. Entretanto os frêmitos de prazer, que o assaltavam, muito mal conseguia sustê-los. De súbito, a situação se tornou muito grave. Um gesto imprudente do importuno visitante foi o suficiente para produzir a reação. Os músculos da boca se crisparam, e o homem ultrajado despertou furioso. Parecia espumar raiva por todo o corpo; cravou a vista no companheiro, e gritou-lhe, bem em cima do rosto: Vai-te, mendigo! Infame! Assassino, mentiroso! Depois, com os braços duros, em direção do intruso, como se empunhasse duas pistolas prestes a disparar, conversando os punhos cerrados, estirou o corpo e deu um formidável empurrão no pretendido amigo, que foi rolando por cima dos móveis e conseguiu se evadir. Aquela violência, quase que o matara; o ar lhe faltou, e o coração deixara de bater. Não era possível! Protestava, com todas as forças, contra o aleive daquele bandido! Que medonha invenção! Tudo havia de lhe chegar! Não acreditava, não acreditava, absolutamente. Angústia 197

O Marcos era seu filho, muito seu. Não consentia que lhe dissessem que a sua querida Tessa não era virtuosa, preferia sofrer todos os suplícios, por piores que fossem, a ouvir aquela maldita acusação. Sabia que era mentira; mas a brecha aberta em pleno coração não poderia mais sarar. Tudo estava morto e profanado. No seu quarto de dormir, pendurados numa linda moldura, estavam a mãe e o filho; as imagens resplandeciam no quadro de passe partout azul, como se estivessem vivas. Ansioso retirou da parede os dois retratos e os examinou, um longo tempo. A criança era um vivo retrato de sua irmã Beatriz; nenhum traço estranho ao seu se revelava no semblante do menino. Pobrezinho, que infortúnio tão grande vinha pesar sobre sua cabeça! Entretanto, depois dessas considerações, mal dependurava a moldura, voltava a olhar; virava e revirava o quadro, de um lado para o outro; aplicava a lente, via-lhe as feições ampliadas ao tamanho natural. Seria horrível, se fosse verdade semelhante falso!... Por que viera aquele homem matá-lo, acabar toda a sua felicidade? Que anseio mortal! Não era mais triste à espera da morte. Angústia 198

Passou-se toda esta noite, veio o dia, almoço e jantar não lhe apeteceram. Serrando as unhas nos dentes, viu de novo cair a noite cheia de espaços enormes, por onde, de vez em quando, atravessava, lentamente, o pavoroso fantasma da dúvida. Esta agonia durou, ainda, muitas horas. Depois começou a sentir todas as coisas, sem grande desespero, sobrevivendo, somente, um profundo abatimento. A fotografia do Filgueiras, tirada há poucos dias, muito nova ainda, no seu cartão imperial, também estava sempre entre suas mãos. Os olhos risonhos, muito bonitos, pondo um grande contraste com as feições incorretas do rosto, que em nada mostrava semelhança com o pequenino Marcos, pareciam bem alheios ao drama, que se desenrolava em redor deles. Bastava olhar aquele retrato, para serenar. O Filgueiras era um rapaz pândego, amava os divertimentos fáceis, porém sem a base do mal. Embora bem parecido, era um tipo reles, sem títulos para conseguir capturar a orgulhosa Tessa; mas, se não era provável, era possível... Perto de cinco horas da manhã, tonto de sono e de fraqueza, sempre a esvaziar pequenos cálices de vinho do Porto, acabara por ficar muito excitado e nervoso, mas ensaiava ainda mirar os retratos. Angústia 199

O silêncio, que reinara por todo o espaço, era tão grande, que ele ouvia, de quando em quando, o ruído leve das folhas caídas das árvores, que rolavam pelo jardim, como as alegrias do seu pobre coração. Às vezes, fincava os cotovelos na mesa, como se estivesse debaixo de uma pressão bonançosa, e tartamudeava, baixinho, numa toada própria, estes versos muito queridos de um poeta que o povo celebrizou: Oh campinas, oh praias sedutoras, Oh montanhas, oh vales de saudades, Meus segredos guardai, em vossos peitos, Desses tempos de tantas felicidades. Pouco a pouco, deixou de cantar; tudo foi empalidecendo, se afundando, num abismo longínquo, e a cabeça, cada vez mais tonta, inclinou-se para o peito. Acabou recostando-se, lentamente, na mesa. O corpo mal seguro, naquela posição, falseou, e foi escorregando da cadeira, até rolar no assoalho, onde ficou imóvel, todo envolvido na luz de uma lamparina, que ficara acesa, e lhe vigiava, docemente, o sono, como se fizesse quarto a um morto. Angústia 200

XI Era dia claro, quando o Lourenço despertou. A quietude dessa manhã nevoenta lhe trazia angustiosos pressentimento. Mas a imagem de toda a sua vida, que ao se acabar, se fixava em seu espírito, cada vez mais radiosa; a sensação de um grande bem estar lhe invadia, completamente, a alma, que se ameigava, subjugada ao encanto. Não era possível acreditar, não queria mesmo. Um clarão de alegria vaidosa, por possuir tão bela mulher, se lhe atravessava pela vista, animando-o, ainda mais, a aristocracia dos movimentos de Teresa, sempre muito alta e soberba, não se humilhando, por consideração nenhuma. Sentia, por isso, muito sólido o seu terreno. Angústia 201

Quanto mais meditava no triste acontecimento, mais satisfeito ficava, por ser complacente com a sua mulher adorada, e mais ofendido se sentia com a intriga do amigo. A Teresa não era uma mulher vulgar; naturalmente, a conspiração contra a sua honra fora nascida de um espírito invejoso. Absorvido na invocação da imagem querida, caía num sonho muito doce, arrodeado de perspectivas felizes, acompanhado de altruísmo. Entretanto, por que seria que, há dois meses, viviam separados? Aquelas modestas alegrias, que lhe douravam a vida, há muito estavam desfeitas, reduzidas a miragens de imaginação. Mas era assim a existência de todos. Primeiro o paraíso, depois o inferno. Cada folha do seu álbum de lembranças lhe despertava uma recordação muito doce. Essa querida saudade passava, em revoadas cheias de tristeza, por cima de seu coração, todo coberto de sofrimento, como se fosse uma enorme bandeira preta, envolvendo-o, ao mesmo tempo, com o sarcasmo daquele manto esfarrapado, que os judeus atiraram, por escárnio, sobre os ombros de Jesus. Pobre alma sem heroísmo, dizia, ainda em estado de êxtase, por que procuras alimento nesta maledicência cruel? Ergue-te, marchemos com firmeza. Angústia 202

Somente deve sucumbir, nesta batalha, o impostor. Dentro, porém, de sua consciência, onde a dúvida revoluteava, não obstante tudo, era sempre a cabeça da Teresa, que se rojava ensanguentada a seus pés. Os maus pensamentos se afastavam depressa, e a sensação de bem-estar se fixava logo, nas recordações do passado. A grandeza desses minutos de repulsão do mal lhe elevou tanto a alma, que se humilhou, somente por pensar na consequência, que arrastaria, para a ruína, todo o esplendor de suas venturas. É verdade que a frieza da Tessa o esmagava. Mesmo se o odiasse, não o trataria desse modo. Nem podia compreender o reflorescimento desse sentir, todo afogado numa onda risonha e cariciosa. Que lhe diriam os metafísicos? Seria isso, por ventura, o amor inconsciente que não se acaba? Por mais que o arranquem, sempre muito obstinado, surge do coração, como uma planta rasteira do seio da terra. Em verdade, era assim que amava. E amava tanto! Queria a paz. Que espaço tão grande, em toda a sua vida. O rumor surdo da casa, em movimento para o almoço, chegava a seus ouvidos, de um modo particular. Tudo estava, nesse momento, sob aspecto de tristeza tão grande, que lhe parecia dizerem o último adeus até os objetos, que o cercavam. Angústia 203

Pela janela entreaberta, avistava a atitude serena do belo jardim, que, havia alguns anos, plantara. As flores desprezadas e o terreno ressequido lhe causavam uma saudade antecipada. Aquela solidão, que se estendia por toda a parte, era fúnebre e pressagiava desgraça. Estava certo de que era o fim, a morte, a derrota completa do seu casamento, e, desesperado, chorava sobre essa existência perdida. Era preciso esclarecer a situação, fixar sua vida. Ia falar à Teresa. Até àquele momento, parece que ainda não tinha tomado a medida desse amor; a despedida, prestes a se realizar, partia-lhe, de uma só vez, todos os tecidos da alma. Não era possível uma queda mais desastrada! Nunca mais, nunca mais se ergueria desse miserando aviltamento. De que lhe servia pôr em prática a mais divina, a mais santa e a mais heroica de todas as generosidades humanas, se a invocação do seu perdão nada valeria? Sufocado pela amargura, demorava os passos, e ficava estatelado, defronte da porta, que pretendia entrar. Para chegar à sala de visitas, onde Teresa tocava escalas, debaixo de um sossego admirável, deixando os acontecimentos rodar, seguindo, francamente, o seu curso, e recebendo-os, sem inquietação, como um sábio vaidoso, ou Angústia 204

uma majestade, não havia mais do que um corredor a atravessar. Entretanto achou o trajeto interminável. Por todos os cantos das portas fechadas se desenhavam sombras muito escuras, como se fossem cavernas de precipícios abertos. Demoradamente, como o andar mal seguro, muito temeroso, buscando o seu fim, lembrava um cadáver, caminhando para a sepultura. Tentou entrar na sala, onde a mulher estava. A comoção não permitiu. Nem um passo conseguia dar; todos os seus movimentos se paralisaram, somente a expressão do sofrimento triunfava em seus traços, iluminando-os, enchendo-os de beatitude, como a figura admirável, criada pelo ideal, em momento de concepção feliz. Ficou, alguns minutos ainda, transportando-se aos velhos tempos de sua vida, quando, muito alegre, subia os degraus de sua casa, em tempos de solteiro, acompanhado pela lembrança da Teresa. A visão querida lhe aparecia, imensamente formosa: tal qual como ela ficava, apanhando flores no jardim, enquanto ele, do lado oposto, a devorava com os olhos. Fustigava os sentimentos, revoltava-se com a própria revolta, e procurava se acalmar. O severo tribunal de sua consciência dizia-lhe que afastasse a ideia malévola, mas, imediatamente, se levantavam, Angústia 205

no seu peito, novos ímpetos de alarme, e a dúvida aparecia, escurecendo todos os encantos dos caminhos, que tentava abordar. A afronta, a desonra, a decadência de suas misérias se apresentavam logo, pavorosas, destruindo-lhe todos os sonhos. Agora, a Teresa, bruscamente, deixando as escalas, cantava, sentida, numa toada única, e sem imitação possível, porque ninguém cantava essa querida poesia de Theodoro de Banville, como ela: Aimons nous et dormons, Sans songer au reste du monde. Ni le flot de la mer, ni l'ouragon des monts Tant que nous nous aimons Ne courberont ta tête blond; Car l'amour est plus fort Que les Dieux et la Mort. Cada uma dessas notas lhe quebrava mais a força, e lhe revelava a aparição de um novo poder, onde o melhor encanto era a doçura de sua grande pureza, a confidência de uma verdade absoluta. Aquilo lhe dizia mais do que poderia pensar e querer. Por que naquele momento não seria sagrado para maior vitória de sua alma? Angústia 206

O relógio, pausadamente, marcava alto dez horas. Sobre o mármore da cômoda de peroba, na extremidade do quarto, que lhe ficava fronteiro, e onde estava o oratório da D. Rita, ardia um pedaço de vela, escorrendo a cera no castiçal de Christofle. Passando, atoamente, a vista por esses objetos, ficou ainda demorado, com a cabeça inclinada para o chão, a ruminar sobre os acontecimentos. A explicação, que ia ter com a mulher, daria, com certeza, motivo para um verdadeiro incêndio de nervos. O melhor seria, realmente, ficar vivendo, como estava, ou separar-se sem mais preâmbulos. Le soleils'éteindrait Pour laisser ta blancheur plus pure Le vent qui jusqu'à terre incline la forêt En passant n'oserait Jouer avec ta chevelure, Tant que tu cacheras Ta tête entre mes bras. Et lorsque nos deux coeurs S'en iront aux sphères heureuses Où les célestes lys écloront sous nos pleurs, Alors comme deux fleurs Joignons nos lèvres amoureuses, Et tâchons d'épuiser La mort dans un baiser. Angústia 207

Meu Deus! Disse o Lourenço, muito baixo, dando um passo para sair, e arrebentando em lágrimas. Que deverei fazer? Enlouqueço! Por que esta sensibilidade? Não me volto para um lado, sem a ver. Que nitidez, que perfeição a do seu corpo formoso, que irá conquistar tantos corações... Chegara à janela, para espairecer e refrescar um pouco a febre, que lhe escaldava o cérebro. Tinham-lhe feito sofrer muito. Foi uma coisa de tal forma violenta, essa monstruosidade, que o efeito se lhe enfraqueceu com a brutalidade do fato, e, por isso, a cada momento, mais se inclinava a pensar que ela era, apenas, uma vítima. Sua indulgência será o prêmio do meu maior perdão. Jamais a amei tanto, como neste momento, em que a desgraça a atinge, com tanta força, e a minha vida se complica e se afunda para sempre. Tristes ambições humanas, pobres misérias, que nos fazem padecer suplícios e correr, sempre, para um fim sem base!... Os melhores amores são os que se passam tranquilos, sem aventurosas emoções. Pobre Teresa! Devia ficar bem desapontada, se soubesse por que tanto padeço, dede ontem! Angústia 208

Se o tempo de outrora pudesse voltar... Quando fomos a Petrópolis, ainda na lua de mel, nos asilar num lugar, longe de todos, me sentei muito perto dela, que estava toda contente com esta prova de amor. Pelo manhoso fechar de seus olhos, vi passar a voluptuosa alegria desse belo passeio. Nós dois, num cantinho da barca, solitários, bem unidos, engolfados no deslumbramento da paisagem, sob a impulsão deliciosa da viagem, indo e vindo, docemente embalados, minha mão prendendo a dela... Ia pensativa a querida; talvez se recordasse de um outro passeio que fizemos a Niterói. Com o braço em sua cintura, muito enlevados, nem ousávamos falar. O céu era pesado, porém o mar estava calmo. Não sei como isso aconteceu. A brisa soprou muito forte e arrebatou-lhe, bruscamente, das mãos o lencinho bordado, que se pôs a correr para diante e para trás, como se fosse uma borboleta branca. Um jovem desconhecido, que nos observava, quisera apanhar o lenço, porém, meus olhos flamejantes de ciúmes o sustiveram. Nossas sombras se retrataram, por um instante, no tablado da barca, muito perto uma da outra, imobilizadas, como duas forças contrárias, que se contivessem pela repulsão. Angústia 209

Foram estes os melhores passeios que fizemos juntos, a mais poderosa de todas as aventuras, porém a derradeira felicidade. Saudando, num recolhimento misterioso, o altar dessa idolatrada reminiscência, que despertara muito meiga, debaixo do ardor do seu imenso amor, o Arthur Lourenço ficou parado, na soleira da porta. Desse ponto, avistava, encantado, uma grande parte da cidade, as montanhas muito formosas, cobertas de luz e vegetações, que a cercavam por todos os lados, e o sol, que resplandecia radioso, e alegre, sobre toda a paisagem. Como aquele que contempla a terra na hora do naufrágio, reviu, enternecido, a meiga visão do seu passado. Enquanto evocava estas recordações, mais aumentava o desejo de uma harmonia absoluta. Foi assim que ele deu o primeiro passo para falar à mulher. Atravessando a porta, ainda se sentiu mais firme no seu propósito, diante do casto horizonte, que o espaço modesto desse aposento apresentava; mas o olhar da Teresa subjugou-o. O modo frio e desdenhoso desmoronou-lhe todo o castelo, que, havia pouco, lhe preparara a carinhosa ilusão. Foi bem despeitado que lhe dirigiu a palavra: - Peço muitas desculpas de ousar aparecer aqui, sem prévia permissão. Angústia 210

Bem sei que jamais deveríamos nos falar. Entretanto, pedindo perdão da falta, peço, também, que me diga se este homem é o pai de seu filho, como me asseguraram. Seja franca e sincera; sabe, perfeitamente, que nenhum mal lhe farei. A mulher não fez um gesto, nem se mexeu do lugar em que estava. Apenas, a voz lhe tremeu um pouco, e um imperceptível relâmpago brilhou em seus olhos, quando respondeu, fixando, atentamente, a fotografia apresentada pelo marido. - Disseram-lhe a verdade; o menino não é seu filho. - É do Filgueiras? - Não. - De quem é? - Não posso dizer? - Pois bem; muito agradecido, nem vale a pena saber mais nada. Adeus! Nem a detesto, nem a amo mais. Somente respiro, porque posso, enfim, acordar de um pesadelo, que me acorrentou por tanto tempo. Neste ponto do diálogo, a D. Rita, que tudo ouvira, sem poder falar, tomada por uma vertigem, deu um grito e se agarrou, com força, ao braço da filha. Angústia 211

Neste ponto do diálogo, a D. Rita, que tudo ouvira, sem poder falar, tomada por uma vertigem, deu um grito e se agarrou, com força, ao braço da filha. Doida! Doida! Que fizeste?!... Meu filho, não é verdade, ela é honesta, juro de joelhos, não é verdade! O casal guardava silêncio, de cabeça baixa. Quando o Lourenço se retirou, para deixar, definitivamente, a casa, sentiu que ainda estava mais unido à sua bela mulher. Não se olharam mais. Infelizmente. Olhar era revelar o transbordamento de afeições, que lhes passava na alma, era também se atirarem, imediatamente, um nos braços do outro. No trágico momento, ouviram-se estas palavras muito alegres: Arreda pau, arreda pedra, que eu quero passar. Era o Marcos, muito rosado, todos esbaforido, com os cabelos anelados, cobrindo-lhe uma parte do rosto mimoso, um vivo retrato do Arthur Lourenço. Entrou barulhento na sala, deixando as portas escancaradas, e atirou no tapete, com um medonho fracasso, um ruído, que fazia atordoar a loja de brinquedos, que trazia às costas. Angústia 212

XII Fazia quatorze dias que silenciara todo o ruído, a respeito das contendas, em casa da família Lourenço, onde até as plantas e o jardim pareciam dormir. Na quitanda, situada na curva da rua, o ponto habitual de ébrios, vadios, mercadores ambulantes, criados, que vinham de todos os lados fazer compras de frutas e verduras, e ali se postavam, para se regalar na selvageria de uma camaradagem detestável, somente para fazer maus comentários e atassalhar a vida de todo aquele quarteirão, que lhe ficava ao alcance, diziam também, outrora, mentiras abomináveis contra os Lourenços. Era, mesmo, uma coisa horrível; parece que até o ar ficava empestado, com o veneno que se destilava da boca dos próprios copeiros e jardineiros da família. Angústia 213

Agora estava tudo acabado. Os criados eram outros; se, ainda, alguém falava a respeito deles, era coisa à toa, e a conversa sempre aparecia sob melhor aspecto. Havia muito em que ocupar o espírito, para se demorarem nos assuntos: A história dos noivos, que apareceram mortos, dentro de casa, sem se saber quem fora o assassino; o menino, a quem o pai segurou pelas pernas e fraturou o crânio na pedra da calçada; a moça que, excitada por uma violenta paixão contrariada, se suicidara, cruelmente, ateando fogo às vestes, depois de as ter ensopado de querosene; o encanto enorme de espiarem o namorado, que se postava na casa defronte e sustentava, no costado, chuvas torrenciais, com a mão presa à mão da amada, todas as noites, até às dez horas; e mil outras variedades, que presenciavam pela redondeza ou liam nos jornais. Nessa cheia de novidades, tão depressa apareciam os boatos, como desapareciam sem deixar vestígios. Por isso, ninguém mais se impressionou com os italianos, como diziam, geralmente, quando se referiam à família. ** * A separação do casal, desta vez, fora definitiva. Cada um tomara o seu lado diferente. Embora não fosse ainda legalizado o divórcio, estavam os dois em plena liberdade. Angústia 214

Entretanto, que pobre vida passavam os desgraçados a chorar, em silêncio, escondidamente, sem saberem nem ao menos a quanto andavam os dias, nem as horas, que pareciam decorrer com a lentidão de um ano inteiro. Cada qual se sentia mais deslocado e ia vivendo, somente, por viver, para acompanhar a peregrinação da vida. Quem, também, sofria muito era a D. Rita. Andava aos tombos, estonteada de tristeza, maldizendo-se, que fazia pena. O genro não a queria ver, nem morta nem viva; quando se apresentava em sua casa, não a recebia, absolutamente, e pela rua se esquivava até de a cumprimentar. Que culpa era a sua, para que dissesse, por toda parte, que fora ela a autora de sua desdita, e andar, também, jurando que não perdoaria a quem tanto mal lhe havia feito? Que poderei fazer por essas duas almas, que estão a penar e a se atormentar, unicamente, porque se amam? No grande cuidado de se evitarem, gastam a vida. Minha filha toma, às vezes, descuidadamente, um bonde, lá numa certa distância, o coração lhe diz que o marido poderia surgir ali, e a pobre, mal distingue um poste, salta do carro apressada, como se estivesse perseguida. O terror desse encontro os oprime, como se tivessem, a cada momento, de ser traspassados por uma bala. Entretanto não compreendia esse ódio, nem o cuidado com que se evitavam, quando andavam tão a par da Angústia 215

vida um do outro, e circulavam sempre pelos mesmos caminhos. Mal passava a Tessa, já o Lourenço lhe vinha em cima das pisadas! ** * O drama estava neste ponto, enrolando-se e desenrolando-se, sem que se pudessem, ainda, acentuar as situações, mas o Lourenço já trabalhava com muito mais calma e a Teresa não vivia tão melancólica; desforrava o isolamento no piano, que fora um dos maiores rivais de seu marido, que, por seu lado, tinha umas distrações bizarras. Morava muito isolado, na rua Torres Homem, quase na subida da montanha, num canto perfumado e cheio de flores. Quando não saía à rua, ficava apreciando um casalzinho de portugueses pobres, que habitava ao lado de sua casa. Do quarto em que dormia, devassava todo o interior da alegre vivenda dos jovens trabalhadores. O marido cultivava a terra, fazendo extensas plantações de verduras e flores, que, às vezes, vendiam juntos pela manhã; em casa, a mulher fazia os serviços domésticos e lavava roupas, que recebia de fora. Quando o marido chegava cedo do trabalho, que ruidosos beijos recebia, que efusões de agrado! Angústia 216

Infeliz dele, porém, quando se demorava! Da aspereza de palavras, ia a reforçada portuguesa, no seu furor de ciúmes até dar-lhe tremendas pancadas nos ombros, com a mão papuda, pequenina e bonita, que encantava olhar. O resto do dia descompunha, brigava e praguejava; falava tanto, como uma velha feiticeira; tratava mal a todos os fregueses, que iam à quitanda, à procura de verduras; tudo que fazia era, arrebatadamente, e dizendo sempre, entre dentes, contra o marido, as coisas mais impossíveis de se pensar, porém que, no fim de contas, somadas, não davam muito: aquele cabelo de cão! O bandido, o ruim!... Como veio ensaiado na pinga! Que vergonha! Quase caía na calçada, com tanto tropeço! Cachaceiro! Indigno! E nesta ronha, muito nervosa, sempre disposta a brigar, tirava, uma a uma, as frutas dos cestos para vender, acompanhando-as com as palavras reles dos ditos populares. Deixe-me seu cacete; se quer, por este preço, leve, se não quer, vá se saindo de barriga, e não me amole mais. Ninguém se zangava com aqueles disparates. Eram muito conhecidas, no bairro, as tempestades da Angelina, quando se zangava com o Manoel. Passado aquele desabafo, quando não tinha mais termos para resmungar, voltava-se para o marido, porém, sem os modos bruscos: Angústia 217

Manoel, não me faça outra! Eu me vingo; você bem me conhece... No dia seguinte, o homem não encontrava, nem calças nem camisa para sair. - Traz a roupa, Angelina; quero ir trabalhar. - Seu engraçado! - Tem modo... Somos pobres; um dia perdido é muito. - Qual pobre, nem meio pobre; minha riqueza é apenas o teu amor. - Bom, traz as calças, vamos os dois vender as frutas, isso ficará, agora, assim. - Para sempre? - Sempre, toda a vida! - Pois bem, jura. - Por alma de minha mãe, por nossa senhora! - O maroto! Como ele é bom! Então, depois de muito beijo, e muito abraço, a Angelina, confiante, entregava a roupa. Eram ambos bastante queridos entre a gente da sua classe, que muito se agradava dos encantos da Angelina. Quantas vezes não se pegavam olhares embasbacados, a contemplar suas formas, sua graça encantadora, que não encerrava a plástica dos artistas, porém, que era muito digna de ser admirada, mesmo com os traços selvagens da mulher do povo, que, absolutamente, não pensava em beleza, nem sabia se era bonita. Angústia 218

Seus modos estouvados, suas maneiras de beijar o marido defronte de quem quer que fosse, às vezes, escandalizavam os fregueses; entretanto, o Manoel, todo baboso, sob a pressão das carícias, muitas vezes se comovia tanto, que se lhe enchiam os olhos de lágrimas. Depois dos arrufos, que muito pouco duravam, iam os dois, muito contentes, vender pelas ruas as flores e as frutas. O Lourenço, que estava a par de toda aquela vida, olhava, com um grande respeito, o casal, e olhava tanto que o trazia, a todo instante, gravado no pensamento, como a harmonia de uma formosa canção. Na verdade, comparando-se, era bem infeliz. E por que não dizer que aquilo lhe fazia inveja? Confessar a razão de todo o seu imenso ódio contra a mulher seria muito ridículo; mas esse ódio lhe arrebentava do seio, tremendo como um furacão. Nada o irritava mais do que o absoluto da calma, que ela mostrava, nos momentos mais melindrosos da vida. Como a Angelina, era que ele desejava que fosse a Teresa. Não se importava com as violências do seu gênio, que até o esbofeteasse, mas provasse, ao menos por esse modo, a força do seu amor. Ah! Se, um dia, a Teresa sentisse por ele aqueles arrebatamentos de ciúmes... Não acreditava no amor indiferente... Angústia 219

** * Quanto mais o tempo corria, mais o casal se evitava; o Lourenço, a morrer de medo, andava num susto contínuo, sempre a redobrar de cautelas, a tremer mesmo, com a ameaça daquela hora muito trágica, e que ele sabia fatal. Isso o preocupava tanto que, por fim, se constituiu numa verdadeira doença. Às vezes, quando, ao longe, avistava algum vulto que se assemelhava à sua mulher, ficava de tal modo angustiado que empalidecia, como se estivesse prestes a desfalecer. Certo dia, seu amigo Jonathas, rapaz do comércio, solteiro, que residia com sua mãe em Santa Teresa, convidou-o a jantar em sua companhia. O convite comoveu-o bastante. Não visitava mais a ninguém... O Jonathas não aceitava desculpas; impunha; já avisara; a mãe ansiava por conhecê-lo. Não havia festa; três amigos apenas se reuniam. Tão grande foi a insistência, que ele, afinal, cedeu à gentileza. Alta noite, em casa, deitado na estreita cama de solteiro, começou a meditar. Era melhor não ir. De manhã, telegrafaria ao amigo. Não era possível, pressentia alguma coisa; aquele jantar o incomodava extraordinariamente; não sabia o que estava para lhe acontecer, mas era melhor que se deixasse ficar em casa. Angústia 220

Naturalmente, lhe guardavam a surpresa de algum mau encontro... A sogra era mulher capaz de tudo; ninguém mais ardiloso; porém agora não lhe armava mais outro laço. Estava bem farto de aturá-la. Essa grande tortura lhe pusera a alma num estado tempestuoso, em fúrias verdadeiras. Sentia-se num círculo de lucubrações fantásticas, onde era cruelmente agarrado pelas duas inimigas, mãe e filha. Sem conseguir dominar essa agonia nem se acalmar, vinham-lhe outros pensamentos, porém envolvidos com a voz da Teresa, que estava sempre ressoando, através de todo o aposento. Assim que o dia amanheceu, passou o telegrama: estava doente. Mas o inexorável amigo veio a correr num táxi, a pedir que fosse, que fosse. Que havia de fazer? Batia seis horas, quando tomou o bonde na estação de Santa Teresa. Estava imponente o aspecto da subida do morro, naquela hora em que o sol morria por trás das montanhas, e toda a natureza se sombreava aos poucos, agonizando, lentamente, na caverna espaçosa do infinito, que se dilatava, mostrando, a cada instante, maiores atrações. Era a primeira vez que essa beleza lhe despertava a atenção... Desde as casas e as manchas nevoentas dos espaços Angústia 221

longínquos, agrupadas por cima das montanhas, como pequeninas enseadas, que se balançavam nas alturas, até o grande esplendor da própria natureza, tudo lhe mostrava panoramas tristes. Arrodeado por essa majestade muito grave, e, ao mesmo tempo, acompanhando por visões e pensamentos variados, subia o morro, sentindo a doce impressão de que deixava, para sempre, o mundano paraíso das misérias. Galgava um outro mundo, mais puro e maior do que tudo o que ia ficando em baixo. Nesse enlevo, a tarde lhe aparecera, como se a perturbação de sua vida se tivesse evaporado. Era feliz, nada mais lhe restava de tormentoso, e ele submetia-se à influência desse meio adorável. Tudo lhe agradava tanto, nesse momento querido, cheio de íntimos recolhimentos, como se o batismo de uma vida nova estivesse passando por sua cabeça, atormentando- lhe as tempestades da alma. Nesse sonho arrodeado de dolências, foi até às imediações do Silvestre. Naquela temperatura tranquila, coisa alguma lembrava a sua desdita. Virgindade por toda a parte. Seu espírito repousava enfim no seio dessa natureza muito doce. A outra vida mesquinha estava morta. Não desceria mais lá embaixo, no vale de miséria, onde se estorcia, no sofrimento, o seu passado indecoroso. Angústia 222

Na altura dessa eminência, entre emanações salubres, teria a ventura de que carecia. Nesta exortação penosa, que a si mesmo fazia, condenando-se a um desterro, procurava uma casa para transportar depressa àquele recanto, mas uma casa escondida, onde não despertasse suposição nenhuma de sua existência. Quando pensava em desenvolver o seu plano, o bonde parou à porta do amigo. Involuntariamente, se revoltara. Do remanso passara à exaltação de um violento desespero, porque ouvira, de dentro da casa do Jonathas, a entonação de uma voz, que cantava, e que fizera ficar num grande alvoroço. Era ela; sabia que era; nem podia restar dúvida. Indeciso, defronte da casa, outras notas mais vibrantes encheram o espaço: Et lorsque nos deux coeurs S'en iront aux sphères heureuses... Conhecia muito aquele timbre, para se julgar vítima de alguma alucinação. Era arranjo da sogra; queria ver se o fisgava, para recomeçar a martirizá-lo, em companhia da filha. Somente esta ideia fazia-o perder a calma, sentindo-se, desde logo, muito pungido com o escárnio até dos criados. Nem abriu o portão. Cheio de terror, afastou-se apressado. Angústia 223

Fazia-lhe muito mal aquela voz de contralto, que o estrangulava, cruelmente, com os acentos desprezadores. Nunca mais queria fitar aqueles olhos de aço, nem sentir aquela ironia, que o aterrorizava, como se fosse a morte. Caminhando, a princípio, naturalmente, depois, quase a correr, tomou, precipitado, o bonde. Entretanto, ali, ainda não se sentia bem seguro, e estava sempre a lançar olhares em redor, procurando, por todos os lados, como se receasse que as duas mulheres, de repente, lhe aparecessem. Mais tarde, quando chegou em casa, muito abalado, morto de cansado, com o coração traspassado da maior angústia, sentiu um desses pavores esquisitos, a que não se pode fugir. Atirou-se sobre os travesseiros de sua cama, tapando o rosto e os ouvidos, como um assombrado. Depois, repentinamente, num assomo de exacerbação, queimou as fotografias da mulher, e esfregou, brutalmente, com os pés, a cinza que ficara da triste catástrofe. Se a encontrasse, seria assim que faria, e no fim do horroroso crime, lhe arrancaria o coração perverso, que tanto o martirizara. Seu desejo era também, se fosse possível, plantar seus restos numa estufa misteriosa, onde somente a luz do seu olhar penetrasse, e pudesse invocar o mísero espectro do seu tormento. Ao lado desta absorvente agonia, não era possível esquecer nem a beleza da mulher amada, que a memória Angústia 224

detalhava nítida, como na primeira vez em que a encontrara, nem seus modos de apatia e desdém. Movimentos de orgulho partiam-lhe do coração, e ele dizia alto: se não avisto, em meu caminho, mais do que infinitos vazios, perspectivas mentirosas, ilusões despedaçadas, vejo, sem prantos, a passagem fúnebre desse enterro do meu grande amor. Digo adeus a tudo, para sempre, e não me sinto comover. Se o homem soubesse quanto é traidora e ruim a mulher, quanto é vão o seu espírito, e fútil a sua existência, jamais se uniria a ela. Não vale mais do que a borboleta... Poetas doentios têm encontrado, nessas tristes tuberculosas da alma, o ideal para os seus sonhos. Eu que, hoje, as detesto, porque as conheço muito bem, afianço que são todas compostas somente de orgulho e fantasia histérica. ** * Não sei se a Censa se escandalizou, por ouvir dizer tanto mal do sexo a que pertencia. O que é verdade é que, muito meiga, bamboleando-se e sacudindo a cauda, veio, piedosamente, acariciar o seu adorado senhor. Entretanto essa meiguice, tão queria outrora, foi repelida com violência, e a pobrezinha, muito surpreendida com a brusca recepção de maus tratos, saiu ganindo, entristecida. Angústia 225

Muita gente se vinga assim, e é por isso que se diz que o inocente paga pelo pecador. Angústia 226

Rio de Janeiro TIP.BESNARD FRÈRES 1933 227

1. Ed. Rio de Janeiro TIP.BESNARD FRÈRES 1933 Jeanete 228

I Em plena lua de mel, reparou o Dr. Amaral Geleda, que a sua bela mulher andava envolvida em uma grande tristeza, e sorriu, maliciosamente. Sabia, muito bem, que eram os primeiros sintomas do ciúme... Pobres mulheres, disse condoído, espreitando, de furto, a desolada senhora. Como são tolas! Suas amantes foram também assim. Nem uma razoável! E isso era de Norte a Sul! Que belo estudo, tradução, livre de filosofia, onde encontrava a verdadeira profundeza de uma lógica inigualável, para escrever o seu primeiro livro sobre a originalidade feminina... Bastava, dizia ele todo convencido, desenvolver o pequeno capítulo da sua vida de casado, para formar um romance de fôlego... Jeanete 229

A linda Jeanete, sem pressentir esse exame, se balançava, lentamente, na cadeira, segurando um livro fechado. Em seus olhos, estavam acentuados os vestígios das lágrimas. É preciso dizer que, depois, voltando-se para ela, muito cheio de indulgência e carinhoso, disse beijando-a: – Ciumenta! Pensavas que me demorasse! Adiantei- me hoje três horas! Vem abraçar o maridinho, que te adora; quero saber o que é que te punge, o que te magoa, minha querida Jeanete. E, ajoelhando-se, beijou novamente, as mãos da mulher, que o recebia fria e indiferente, mas sem o repelir. A inteligência muito lúcida, os julgamentos bastante sólidos, a réplica mordaz, o gosto acentuado pela meditação e ainda a direitura inflexível, na franqueza áspera da Jeanete lhe agradavam; preferia estes dons mundanos, que o cercavam, afetando sabedorias; entretanto, naquele momento, os mistérios da esposa o intrigavam, cruelmente, e lhe davam plena certeza de que a perfeição não existia ainda nos domínios do amor. Se a prática da vida tem consequências inexplicáveis, que alteram as melhores noções de teorias bizarras, recebemos, todos os dias, lições experimentais, dadas, corretamente, pela ordem normal dos acontecimentos. Na horrorosa colisão de interesses, uma solução de problema, formal, decisiva, equivale a uma síntese magistral... Sem desgosto, dizem os pensadores, jamais se encerra uma conclusão filosófica... Jeanete 230

II Estás decidida a brigar comigo? Se não me prestas atenção, nunca mais voltarei cedo; deixa-te disso, fala, responde, recebeste notícias de tua mãe?! Que te fizeram, que te aconteceu, meu anjo?! Terei por ventura, incorrido em qualquer falta? Jeanete, impassível, nem se movia, nem dava mostras de prazer, ouvindo as declarações do marido. – E eu que sacrifiquei tudo, para te fazer esta surpresa... O braço da linda Jeanete pendia em posição de inércia. O marido, arrebatado pela beleza da interessante criatura, desabotoou-lhe o vestido até o seio, e beijou-lhe, sofregamente, o colo fresco e macio. Jeanete 231

– Como eu te amo! Nenhuma outra mulher logrará este meu grande e querido amor. Estas palavras desabusadas caíam, unicamente, dos seus lábios, porque ainda acreditava na aurora da felicidade, em uma nova era, e evocava o amor dentro dos crepúsculos de esperanças grandiosas. Não consinto que duvides. Jamais em meu coração se gerou outro sentimento igual. Será possível que descreias da minha sinceridade?! A encantadora senhora Galeda apertou os olhos, fechou-os bem fechados, franzindo as sobrancelhas, e, abotoando os lábios, aborrecidamente: até quando, meu Deus, essa comédia se prolongará?! Declaro que estou fatigada. – Coisa estranha! Quem te virou a cabeça?!... Num dia somente, ficaste mudada!... As mãos do homem despeitado se crispavam, o rosto congestionado, o olhar enraivecido, iluminava os gestos furiosos. Dentro dos lábios cerrados, murmurava: – São todas assim mesmo. E evocava os seus amores bizarros: brancas, pretas, mulatas... Nenhuma diferença. A mesma linha de demarcação; querem as pretenciosas o direito de igualdade... Direitos individuais, constituir uma personalidade soberana; em tudo arranjar lugar superior... Estadistas!... Protesto contra esse abuso. E os míseros maridos, que passam o seu desgraçado caminho, lutando pela vida Jeanete 232

dessas bonecas pintadas, que despedem o seu tempo em luxúrias, sempre gastando os magros vencimentos dos homens... - É horrível esta fórmula da sociedade moderna. Que sofrimento desgraçado!... Depois dessas exortações, o Sr. Geleda retomava a calma e procurava palavras eloquentes para seduzir a Jeanete. Ela o escutava sem atender. Este coro de palavras queixosas vibrava em seus ouvidos, sob a forma pueril, ridícula – a eterna mentira, que desconjunta os seres. Então a harmonia da existência lhe aparecia na essência, e lhe experimentava a embriaguez divina de viver, de sentir todas as coisas, sondar, tocá-las, mergulhar suas mãos nas torrentes desordenadas, que passam circulando na ternura dos céus, nas árvores, em tudo muito acima do possível. Jeanete estava desolada. Muito irado, numa vibração de notas desconchavadas, o marido sentiu irresistível desejo de abandoná-la para sempre. E refletia naquela situação, invadido de um imenso desencorajamento; ainda não estivera em contato absolutamente com igual miséria. Tocava à humilhação... A silhueta da Jeanete se destacava na claridade, e o Dr. Geleda ficava enternecido... Jeanete 233

III A situação do Dr. Amaral era, efetivamente, de tal sorte inesperada, que ele receou fazer qualquer loucura, defronte daquele espetáculo insidioso, grosseiro, incorreto, insuportável. – Quanto tempo perdido com esta criatura birrenta, incompreensível! E as estações defronte de sua casa, exposto ao sol, à chuva, ao ridículo... Ainda, pelas ruas, conversas intermináveis, trocas de beijos, apertos de mãos, ciúmes pueris, defesas do bem, que julgava todo meu... Além disso, presentes caríssimos, aborrecimentos, questões formidáveis com a família, sempre em oposição ao casamento, achando Jeanete pouco razoável, muito longe de Jeanete 234

suas aspirações, e mais intensa peleja para aportar neste medonho inferno: rotura fatal, se ajustando ao destempero de injuriosas recriminações de comentários pela cidade inteira. Maldita hora em que me escravizei a esta mulher desamável. Neste momento aflitivo, quando a tarde ia declinando, suavemente, sem tristeza nem sombra escura, o sol se apagando ainda fulgurava, resplandecendo os ardores do seu brilho tradicional, a jovem casada tirou-lhe, num acesso de nervoso e irritação, a carta volumosa, que a fatalidade lhe fizera encontrar dentro daquele odioso livro escolhido para encurtar as horas, esperando o querido companheiro: Leia... – Criança! Quanta ingenuidade! Isso não vale nada. Ainda não te amava, quando conheci essa mulher. – O Sr. jurou tantas vezes, que eu tinha sido o seu primeiro amor! – Não a amei! – E por que me fez crer que, entre marido e mulher, não deve haver segredo?!... – Jeanete, depois que nos purificamos, não falamos mais do passado. Uma senhora, que se presa, não deve descer a essas pieguices. A vida dos homens é muito cheia de mistérios... Façamos ponto aqui. – Mentiroso!! – E continua me insultando!... A contenda está muito longa; seria melhor terminá-la. Jeanete 235

– Certamente, é melhor, Sr. Geleda; mas... antes de tudo, quem era essa mulher, que lhe declara tanto amor, e lamenta assim, acremente, a covardia do seu abandono?! Como o Sr. foi ruim e perverso?! Quanta hipocrisia! Em verdade, se eu conhecesse sua vida, não me casaria, absolutamente. Ora, gritou o Dr. Amaral encolerizado, batendo com as mãos no espaço vazio, sem encontrar equilíbrio. Tudo a exaltação destruía, reduzindo à vertigem. – Estou farto de aturá-la; e tapou os ouvidos. Que suplício horroroso!... Acabemos com esta imensa tolice. – Não! O primeiro passo está dado; conte, francamente, o seu passado. Quem sabe se o meu amor próprio não exagera?... Há sempre, em todos os corações, por mais exaltados, uma nota sensível ao perdão. Conte, conte agora mesmo toda a sua vida. O mais abominável é viver-se em comunismo com a metafísica de segredos revoltantes. Alguns mistérios estão desvendados neste invólucro. Não há, portanto, motivo para sentir acanhamento de dizer o resto. Amou, sei que amou muitas vezes. O homem não se contenta com um só amor. Ponha em exposição todos os pecados... Diga, sem receio, qual das suas amantes foi a mais bela, a preferida. Não precisa falar em meu nome. A amada, já o Sr. disse, fui eu, eu, somente... – Há muita coisa, minha querida, que mesmo para mim deveria guardar em pleno silêncio, por ser, puramente, Jeanete 236

criançada... Fiz, reconheço, inúmeros desatinos. Bravuras de rapaz... Em geral, todos, mais ou menos, procedem igualmente, nessa idade cheia de alegrias e sorrisos. Às vezes, quando me lembro desses tempos, fico horrorizado de tantas estroinices e extravagâncias, que pratiquei, por mero brinquedo, unicamente para acompanhar o exemplo dos meus amigos e colegas. Uma ocasião, atravessamos, alta noite, um rio, nadando. Muitas vezes, alugamos automóveis, percorremos as ruas, dando vivas, gritando, para alarmar a cidade. Aos quatro e cinco, nos colocávamos à janelinha da casa térrea da república, vestidos de camisa engomada, paletó e gravata, mas o resto do corpo despido... Os que passavam, conhecido e desconhecidos, cumprimentavam gravemente o grupo de vadios. Não tinha espírito a pilhéria; porém muito nos encantava e divertia... E quantas outras loucuras, verdadeiras aberrações, que iam além do natural! Preparam, desde a infância, o homem para isto, dando-lhe dinheiro e liberdade... Entretanto, não abusei, nem era dos piores. Jamais amolei a minha felicidade. Sei adorar-te e compreender os meus deveres de homem casado. Jeanete 237

IV Jeanete, não me hostilizes, nem te molestes com o meu passado. Vamos viver do possível, rasga esta carta, deixemos na sepultura aquilo que é impossível remediar... – Sr. Geleda, não será esta evasiva mais dilacerante do que falar a verdade? Guardarei segredo. Aqui nesta sala se enterrará tudo o que me disser. Sou sua amiga. Pois bem, disse o homem bastante comovido. Conheci algumas mulheres; mas amor, repito, somente pela formosa Jeanete senti verdadeiro. – O nome da primeira! Quero todos os incidentes. – A primeira com quem tratei, foi a Josiana, uma pequena espanhola muito feia. Jeanete 238

Não passou de um namorito. Fui incitado por ela. Depois vieram outras; não me chames pervertido, era um passatempo: amor, juro pela minha honra, não existiu em mim senão agora. O complemento do homem moço é a mulher; por isso, enquanto solteiro, estive sempre ao lado delas. Era somente um fado; meu coração foi muito ardente e eu não sabia conter. Tudo isso, porém, minha amada Jeanete, era efêmero e superficial. Não me odeies. Se te conhecesse, antes dessas experiências, com certeza que minha vida seria a mais inocente deste mundo. – Acredito! O Sr. sabe ser insinuante e gentil. Muito agradecida, murmurou ironicamente. – Estou penalizado, porque este desagradável incidente veio perturbar o encanto do nosso noivado; mas, ao mesmo tempo, me confesso honrado, porque tiveste ciúmes de mim. É sempre um valioso sinal de grande afeto... Poderei ainda ousar esperar que me ames? Não terá essa brutalidade esmaecido a nossa ventura? – Não! Absolutamente! Eu o amarei, para a eternidade. – Então, consente, agora, que te beije e te abrace; quero um abraço teu bem apertado. Como és adorável e mimosa! Se eu conseguisse que te sumisses toda para dentro de mim e ninguém mais te conhecesse... Ah! Se eu pudesse, um dia, fazer-te sentir também toda a força deste meu imenso amor... Jeanete 239

Jeanete suspirou, longamente, como se respirasse debaixo de um peso. Seu pobre coração passava por uma dessas crises desesperadoras. Quantas fantasias se acumulavam no seu espírito nesse momento, para bordar tecidos do seu doloroso romance de humilhações... Que desejo terrível de se vingar! Ontem, crente e feliz, hoje, desiludida, não sentia pelo marido senão desprezo, repugnância... Alguns instantes depois, aquele silêncio foi cortado por estas palavras muitos tristes: a vida! A vida! Sempre a mulher a acreditar no homem! Absurda cegueira! Infeliz de mim que me enganei, me enlodei nas falsidades de um perverso fingido e desleal! Que dor tão grande para os meus sentimentos!... Não é possível situação mais deprimente e miseranda! O marido, um tanto afastado, olhava a Jeanete, piedosamente. A desgraçada compreendeu, e o seu despeito subiu de ponto. Fez-lhe tanto mal, tanta tristeza aquela compaixão, como se fosse um novo insulto, e, furiosamente, voltou-lhe as costas... Jeanete 240

VI Amanheceu o dia muito alegre, cheio de luz e claridade. A cidade se movimentava... Entretanto, que noite horrorosa para o casal Geleda!... Cada um mais longe do outro, sem se falar... O Dr. Geleda estava nervosíssimo. Não aturava aquela atmosfera incomoda, desarrazoada. Vinha-lhe ao espírito o movimento inefável e, ao mesmo tempo consolador de romper aquela vida desgostante; voltar, repentinamente, aos seus velhos hábitos de liberdade, sem cativeiro, sem nenhum empecilho, onde respirasse um ar saudável e excitante, nos perfumes vaporosos das mulheres, que passavam luminosas, dentro dos seus estofos custosos, distribuindo, facilmente, o amor, sob a harmonia de formas requintadas, de requebros e faceirices, que encantam seduzindo, arrastando para o prazer dos sentidos, ensinando a alegria de viver... Mas viver dentro da natureza, na aurora radiosa de uma nova felicidade... Gozar o orvalho, as flores; Jeanete 241

sentir a primavera cheirosa, a independência... E o Dr. Geleda, se tornando muito egoísta, sob o aspecto desta sensação irrealizável, porém deliciosa, se demorava arquitetando os seus castelos... À medida que o apostolado desmaiava, mais perseverante se tornava a sua ideia... Refletindo, se aproximou da cama adornada de formoso cortinado e ainda conservando o encantamento misterioso e reversado, a lembrança do primeiro dia de casamento... O aspecto do Geleda não era absolutamente favorável... Muito desalinhado, barba crescida, olhos raivosos procurando desvendar segredos, parecia um demente, correndo atrás da miragem. Voltando-se para a luz, sondava também as formas da sua própria sombra, caminhando sem direção, distraído, pensativo, monologando... Estava pálido da emoção, que oprimia, perto do leito da jovem esposa. Jeanete dorme... Talvez esteja arrependida, pense em mim, considerava o Dr. Geleda, rememorando os dias passados nos melhores momentos de sua existência. – Princesa adormecida no bosque, desperta, cem anos custam a passar... Venho de joelhos implorar-te a reconciliação. No crepúsculo da manhã, a flor da vida social desabrochava, enchendo de graças e alegria ondulosa, os passeios nas calçadas, as ruas, os mais obscuros recantos. Jeanete 242

Por todos estes lugares, o casal passava diariamente de braço dado, transbordante de amor, coberto pelo sol glorioso ou envolvido na penumbra das estações frias, nevoentas, da palidez entristecida dos longos dias de inverno, sempre alegre cheio de ventura. Essas visões incomodavam o Dr. Geleda. Repentinamente, a Jeanete abre os olhos, que se fixam sobre o marido, cheios de rancor. – Perdoa... façamos as pazes; porque desejas quebrar o encanto do nosso noivado? Esta suave escravidão me fazia verdadeiramente feliz; eu era o forçado perpétuo do meu destino, das melhores ambições gloriosas, do teu amor... Que deverei fazer defronte dessa obstinação? Voltar pelos caminhos incertos, viver dos desejos insatisfeitos, morrer torturado num desterro, seguro ao bastão de infortúnios, me apoiando sempre mais forte na tristeza abominável, que me fizeste sofrer?! Jeanete fez um gesto de indiferença. – Então, adeus para sempre... – Adeus. O mundo está cheio de mulheres... Seja feliz... – Minha queridinha (permite ainda chamar-te assim), volto desolado ao abismo de onde me havia evadido; perdi a felicidade, a alegria, porém parto orgulhoso por ter encontrado a necessária coragem para o sacrifício... Não te importunarei mais. Entretanto, nenhum poder terá força de impedir que te ame... Talvez seja, realmente, o nosso derradeiro encontro; porém, quero que guardes de mim, ao menos, uma lembrança Jeanete 243

boa e sincera; Levarei, fielmente, a tua imagem sem nenhum traço odiento. São razoáveis as tuas exortações e muito sensíveis ao meu coração; possuem a eloquência dos moralistas e batem em cheio na minha consciência despertada desta longa letargia. Hei de fazer-te, mais tarde, uma narrativa, que te fará julgar melhor o teu marido. Sei que estarei para sempre longe dos teus caminhos; mas, certamente, não me desprezarás. Perdi as tuas grandes ternuras, porém tenho convicção de que ganharei a tua amizade e respeito... Adeus... Conheço esta hora dolorosa de todas as separações... Serei o mais desprezível de todos os desgraçados. Contigo, ficará o remorso, a lembrança desta formidável derrocada, a ingratidão injustificável... – Sou muito moça. O tempo consegue esmorecer todas as tristezas... – É verdade. Mas... antes de partir, exijo também que me fales sobre a tua vida. Confessei-me, francamente. – É justo. – Amaste alguém, antes de mim? – Nunca! – Jura. – Que pieguice! – E agora? Sê franca. – Lembrança bizarra!... Não digo, não posso dizer, não estou pronta para coisa alguma. Jeanete 244

– Isso não se faz... Bem sei que as mulheres também têm muitos segredos... – O senhor não foi sincero; evadiu-se o mais possível do assunto, mas eu vou abrir-lhe o meu coração, com toda a lealdade. – Então fizeste algumas experiências?! Quantos foram os teus namorados?!... – Se está se entusiasmando para brigar, é melhor que esta página da minha vida fique em silêncio... – Não, adorada, meu amor vai acima de tudo. Estou perfeitamente calmo. – Pois bem, escute: um dia, recostada à varanda de uma janela, que ficava no vão de um quarto, às vezes parece que dormia porque a suavidade de um quebranto muito meigo me deixava em êxtase indefinível; entretanto, estava acordada e contemplava as paisagens, a natureza... O vento soprava de leve; as rendas do meu vestido de cambraia se balançavam com meus cabelos, quando senti o ardor de um hálito sobre o pescoço. É o sol, pensei descendo um dos lados da cortina. Imediatamente, duas mãos macias, muito perfumadas, me taparam os olhos. Quando saí da surpresa, pessoa alguma estava perto de mim. Dois dias depois, já esquecida, voltei à mesma janela. Era uma noite plácida, a alvura do luar empalidecia as árvores, como enseadas do mar... Fiquei ali embevecida, com a Jeanete 245

cabeça encostada, a sonhar debaixo do céu profundo, envolvida naquela magia constelada, que cintilava na atmosfera desse mesmo clarão. Inclinando-me para o lado de fora, vi um elegante moço, passeando por entre os flamboyants, que arrodeavam a casa. Não me impressionei; era talvez um artista, que repousava, procurando impressões, observando os perfis das lindas montanhas, na quietude daquele esplendor de encantos. Contemplei, um momento, a visão, e fechei a janela Quando atravessei o quarto francamente iluminado pelos reflexos da luz de um candelabro, que estava no aposento vizinho, ouvi uma voz dizer muito junto ao meu ouvido: Amo-a, Jeanete! Esta frase, pronunciada assim, ex abrupto, me consternou, imensamente. O sangue bateu-me nas fontes, alvoroçado, como se estivesse borbulhando, prestes a romper as artérias e jorrar-se, desatinado, como a corrente dos rios... Entretanto, esta imensa revolta não me fez perder a lucidez do espírito. Distanciei-me, vivamente, e disse que pediria socorro, se ousasse me tocar. A comoção era muito grande; finalmente, caí numa cadeira chorando. Era um ultraje, um desrespeito inqualificável. O desconhecido ficou perturbado, mas aproximou-se contrito, e implorou perdão. Nesse momento bateram à porta. O Geleda foi atender. Jeanete 246


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