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Trilogia de Amélia Beviláqua

Published by mestradocomunicacao2021, 2023-03-01 19:43:44

Description: LIVRO COMPLETO (1)

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sala, um pianozinho muito usado que ele comprara quase de graça, somente para satisfazer à sobrinha que há tanto tempo desejava aprender, ficaria inutilizado. Tudo isso não poderia mais se realizar. Ainda que ele vendesse a camisa que estava no corpo não poderia absolutamente conciliar tanta coisa; principalmente era penoso ir fazer por um estranho o que deveria fazer pela pequenita que era a filha de seu coração. Pela primeira vez uma funda tristeza abalou-lhe o espírito. Não gostava de prometer para faltar. O intruso, assentado junto à mezinha redonda na sala de visitas, conservava ainda na mão o chapéu de feltro cinzento. O velho entrava e saía por todos os lados da casa, atropelado como se procurasse alguma coisa perdida, pensando sempre muito agoniado na mesma ideia. Ia ser por demais injusto com a pobre criança, que, realmente, merecia mil vezes mais do que os outros, mas não podia pôr fora de casa um hóspede que vinha tão de longe bater-lhe à porta. O único remédio era a menina demorar ainda a entrada para o colégio. O dinheiro preparado para o pagamento adiantado como era de praxe em todos os estabelecimentos de ensino, era justamente o suficiente para comprar uma roupa para o tal Francisco que acabava de chegar às cascas como se costuma dizer. Quando o tio Paulino atravessava um dos corredores da casa encontrou-se com a Daluz que vinha muito alegre sobraçando uma porção de peças de roupas: olhe tio Paulino, disse ela afogueada de prazer, esta é a roupa que eu vestirei Através da vida 47

amanhã para entrar no colégio, estou contentíssima! Ele estremeceu, passou-lhe pelos olhos uma nuvem escura, esteve quase um minuto sem conseguir falar. Quando levantou a cabeça, seus olhos se encontraram com os dela que estavam sérios com a expressão de admirada interrogação. Não era mais possível amanhã a entrada para o colégio, tinha de fazer inúmeras despesas com aquele indivíduo que estava na sala e viera para residir com eles, porque estava muito pobre. A menina não falou no momento, nem se queixou; as faces enrubescidas um instante, se tornaram pálidas, mas teve a força suprema de dizer sem nenhum alvoroço ao tio que não se inquietasse, ficaria estudando consigo mesma, mais tarde se aperfeiçoaria. O resto deste dia foi passado muito funebremente. A chuva sempre escorria branda e delicada, porém o vento, é que arrebentava borrascoso e frio como nunca. Todos de casa se recolheram cedo; o tio Paulino cochichava com a tia Mariana a respeito dos acontecimentos do dia, muito penalizado porque a Daluz não entraria para o colégio; a tia Mariana, sempre favorável aos homens, achava que o rapaz também não viria trazer os imaginários destroços de que estava preocupado o marido; uma boca de mais não era tão grande argumento, o rapazinho parecia trabalhador, e (quem sabe?) futuramente, um bom marido para a Daluz. Mas o sr. Paulino se remexia no colchão sem sono, impressionado e aborrecido. Não era feliz aquela criança; realmente sorte muito melhor lhe deveria ser Através da vida 48

reservada. Arrependia-se de tê-la tomado para criar. Que venturas tinha tido ali naquela casa essa menina até aquela data? Nunca vira nem ao menos a cidade do Recife, embrenhada nos Milagres, esse pedaço tristíssimo de Olinda, desde a Idade de seis anos até os quinze. Era realmente uma espécie de prisioneira! A tia também não passeava, mas eram os seus hábitos. Sentia que a vida lhe fugia, estava velho, queria que a pequena guardasse dele melhores recordações. Agora a levaria a passeio muitas vezes, traria livros instrutivos, e o pouco que sabia lhe transmitiria intacto. Tinha tanta nobreza a Daluzinha! Quando pequena era muito galante, sabia dar uns beijinhos sacudidos de longe com a mão minúscula sempre espalmada como se fosse pegar alguma coisa. Fechava os olhos, procurava dormir, mas a criança se postava defronte dele, com os cachos do cabelo muito louro, a sorrir com os quatro dentinhos de leite que vinham apontando muito juntos, alvos e pequeninos como dente de boneca. Depois lembrou-se dos rapazes, dois vadios, tão incorrigíveis que por mais de uma vez tinham sido expulsos do internato. Não era possível, queria endireitar a situação. E o tio se revolvia aborrecido e nervoso sem conciliar o sono. Através da vida 49

V Não se podia absolutamente dizer que nesses últimos tempos a família do tio Paulino vivesse feliz. Depois que o hóspede Francisco ali se aboletara, notavam-se algumas modificações na casa, os dois velhos, sempre muito amigos desde que se casaram, agora uma vez por outra tinham suas rixas, e ficavam amuados, houve dias em que até não se falavam, tanto as questões se avolumavam a respeito do hóspede, que era, segundo o tio Paulino afirmava, muitíssimo incômodo. Nunca recebera, por conta de sua estada e gastos ali em casa deles, um único real; entretanto, tinham-se passado dois anos inteiros! O rapaz não era mau, nunca dissera isso, mas não lhe agradava ter às costas este indivíduo que lhe era quase estranho. A tia Mariana ao contrário defendia o rapaz com o maior calor, e dizia que o tio Paulino, depois de velho, estava se tornando avarento. Quanto barulho para proteger um moço nas condições do Francisco, uma verdadeira pérola, assegurava ela convicta. Através da vida 50

Quando se entusiasmavam mais no assunto da malfadada hospedagem, acabavam sempre brigando. O Francisco não adivinhava jamais nenhuma dessas minudências; passava os dias muito feliz, cada vez achando mais atraente a cidade de Olinda. No tempo dos banhos salgados, o seu maior prazer era o de admirar os que iam a essa diversão; gostava muito de ver as senhoras nesses trajes esquisitos com as blusas e calças fofas e os pesinhos alvos ou morenos pisando descalços na areia onde procuravam se esconder. Numa dessas ocasiões umas senhoras amigas da tia Mariana foram tomar banhos nos Milagres, e vestiam-se no mesmo banheiro com a tia. O Francisco muito sonsamente colocava-se sentado no tronco de um dos coqueiros que ficava para as costas do banheiro, deixava a vista vaguear muito à toa, como um verdadeiro indiferente, mas tentava apreciar o que se passava lá dentro enquanto as senhoras se despiam descuidadas no banheirinho de palha muito mal tapado. Quando, depois do banho, se reuniam no monte para tomar o café, como era hábito, antes de partirem no trem de oito e meia, ele passava os olhos por todas as moças e os abaixava logo muito comovido, parecia-lhe que todos estavam a ler-lhe na fisionomia o crime que cometera. Também gostava muito de ficar pregado a um dos bancos da estação, examinando os passageiros descerem do trem, não perdendo de vista o pedaço do tornozelo ou da perna que aparecia no descuido e pressa de descer o pessoal feminino. Através da vida 51

Aos domingos, quando alguma das amigas da sobrinha do tio Paulino ia passar o dia nos Milagres, para ficar mais à vontade, sempre a tia Mariana insistia que entrasse para o gabinete de vestir, mudasse de traje, e tirasse o espartilho. O vicioso rapaz, logo que isso ouvia, punha-se de espreita. A visita entrava para o toilette, e, assim que a pressentia sem o corpete, ele empurrava a porta apressadamente, como quem esquecesse e fosse buscar qualquer objeto ali depositado, depois vendo a aflição da moça procurando esconder-se saia desculpando-se em ar contristado: nem sabia que ali estivesse alguém!... A tia Mariana nunca soube dessas coisas e cada vez simpatizava mais com o protegido, de quem esperava muito no futuro, e a quem preparava para marido da sobrinha. Esta não sabia dos projetos da tia, porém, desde o momento da entrada do Francisco naquela casa, o aborrecera formalmente; não era tanto porque ele tivesse concorrido para o impedimento de seus estudos, porém sentia uma antipatia que não sabia reprimir nem afugentar, que tocava quase à repugnância, como acontece com esses répteis que a gente procura evitar o mais possível, temendo o seu contato. O que o tornava a seu ver mais antipático eram os olhos, muito pequenos, ousados até ao atrevimento; também não lhe agradavam os seus modos estouvados, sobretudo detestava-lhe o riso sardônico, a ironia e indiferença com que tratava todas as coisas que não tivessem referência com a sua pessoa. Outrora antes da chegada dele, os Através da vida 52

serões da casa do tio Paulino eram muito agradáveis. A todas as horas do dia a tia Mariana tinha tempo de estar conversando com ela e o tio; agora, defronte daquele estranho, tudo mudara de figura; os irmãos, que não eram mais colegiais e se preparavam para outros estudos, sentiam-se tão pouco inclinados por aquele personagem quando ela e o tio Paulino, mas, por um esforço supremo de vontade, todos se equilibravam e se fingiam ainda felizes com a presença do importuno. A tia Mariana era a única que o apreciava, apesar de todos os defeitos, mas não era com o mesmo calor dos outros tempos. Por mais de uma vez saiu de sua garganta um rugido amargo; isso lá consigo própria, porque quando falava alto era para dizer que melhor do que o Francisco só o verdadeiro Deus caído na terra. As coisas estavam nesse ponto e tendiam a seguir curso mais intricado e desagradável, quando uma ocasião o tio Paulino entrou em casa aos pulos de alegria, avisando que empregara o rapaz, um achado inexplicável, um empregão realmente! O menino enriqueceria se tivesse senso: casa, comida e cem mil réis por mês para tomar conta de uma igreja dos ingleses, uma espécie de secretário. E, além disso, o pai do rapaz desembuchara, ali estava o vale postal, com dois contos de réis a receber para descontar os adiantamentos feitos desde o dia em que o tinham hospedado. Também mandara um bom carregamento de queijos, carne de sol, e outras dessas boas coisas que os fazendeiros têm sempre à mão. Através da vida 53

A tia Mariana tinha verdadeiras tremuras de prazer e ria alto, toda feliz com esse triunfo que ela esperava todo dia com a maior certeza. O tio Paulino também estava muito alegre e se arrependia de ter dito tanto mal do pobre rapazinho. Até a Daluz se alegrou com o acontecimento. Sabia com certeza que a sua situação não melhoraria, mas gostou de saber que ele iria embora. Sempre era uma vantagem. As esperanças e os primeiros ardores da mocidade se tinham já arrefecido no seu peito; compreendera a sua posição de menina pobre, mas sorria-lhe com isso a ideia feliz de que a tia Mariana voltaria a estimá-la. Aquelas palestrinhas dos tempos antigos tinham-se acabado completamente; nunca mais, depois da entrada desse intruso na família, ela obtivera a atenção da tia Mariana com aquela expansão que lhe agradava tanto, sentia-se despeitadas muitas vezes com essas preferências dela ao hóspede e não compreendia que encantos se pudessem encontrar nessas conversas sempre cheias de mordacidade, e sempre versando sobre assuntos impossíveis de suscitar qualquer atrativo que fosse. Decididamente estava satisfeita, porque finalmente ele se afastava. Incomodava-lhe sobremodo a presença do rapaz, era suficiente a lembrança dele para enerva-lhe o espírito. Não podia, por mais que revolvesse o pensamento, encontrar uma única recordação desse companheiro de casa, que a impressionasse bem, a não ser, que ele a tratava por Maria da Luz, seu nome de batismo, nome pelo qual a mãe também a tratava nas cartas que lhe Através da vida 54

dirigia. Assim mesmo reservava essa lembrança n'um cantinho especial do seu seio como se, pisando num terreno cujo caminho fosse de agruras e espinhos, encontrasse de repente um ponto de repouso. Sempre achara muito doce o nome de Maria da Luz, e mal soante o diminutivo que lhe deram os tios. Não lhe desagradava pensar nisso, e perdoava todas as indisposições que lhe tinham alvoroçado o coração contra as inúmeras contrariedades que lhe fizera o Francisco. Teve até, nessa hora, coragem de pedir perdão a Deus, por não ter sido melhor para o pobre moço. Ia partir, coitado, os olhos atrevidos não a atormentariam mais; tinha sido por causa dele que o tio não a tinha posto no colégio, que não pudera completar sua instrução; mas não estava mais zangada, tinha certeza de que o seu destino vinha talhado por Deus; se não fosse esse motivo seria outro, que se postaria de encontro à sua vontade. Não era ele o culpado. À tarde, quando os apetrechos do Francisco estavam em ordem de partida e ele vinha para dizer os seus adeuses, ela refugiou-se em seu quarto, temerosa de perder a suavíssima lembrança que o pensamento lhe fantasiara a respeito do hóspede. Para que rever aqueles olhos e aquele sorriso que a sua alma repelia? Mas, no momento extremo, quando se supunha livre de importunações, o rapaz entrou no seu quarto como um verdadeiro foragido a pedir agasalho, e estirou-lhe a mão que ela ia apertar quando se sentiu enlaçada em seus braços; nem teve tempo de repeli-lo! Passou-se esta cena com Através da vida 55

a velocidade de uma vertigem. O hálito de fumo ordinário e o cheiro do tônico que ele usava lhe deixaram uma impressão desagradável aos sentidos, comoveu-se profundamente e um grande rubor subiu-lhe às faces; porém perdoou mais esta ousadia. Era a última, no dia seguinte estaria tudo acabado. Abriu a janela e deixou o ar frigidíssimo dessa tarde penetrante entrar desembaraçadamente pelo aposento. Estava contrariadíssima com o Francisco, sempre estouvado e importuno até ao último instante! Felizmente em meia hora não se falaria mais nessa hospedagem maçante senão como de uma dessas narrativas de acontecimentos desagradáveis que o tempo depressa apaga, deixando depois seguir o curso natural do antigo viver, e por isso não se recusou ao convite que lhe fizeram os tios de acompanhá-lo até à estação. Repentinamente sobrevieram ao hóspede ardorosas paixões. A primeira demonstração foi o desastrado abraço. Depois, um pouco antes da partida, parecia sufocado, apertava a garganta, alisava o peito, tinha os movimentos mais cômicos. O notável e esquisito era que, não havia mesmo entre eles nenhum sentimento de ternura que justificasse aquela aflição. Conhecia-se que ele tinha sido arrebatado pela violência de um capricho. Às vezes ficava pensativo, ruminando muito agoniado com a cabeça apertada nas mãos, depois despertava, abria a boca como quem fosse falar e se aquietava indeciso com os olhos voltados para a moça em gesto súplice. Finalmente, na hora da partida, já o trem apitava Através da vida 56

os cinco minutos, quando ele deu quase um salto, todo desairoso e desajeitado, agarrou pelo ombro o tio Paulino e disse alto para a tia e a Daluz ouvirem: Peço a mão da Maria da Luz. A menina ficou fulminada, o coração bateu-lhe furiosamente dentro do peito. Quando despertou o trem rolava muito longe. Através da vida 57

VI Os dias nos Milagres se tornavam tão insípidos para a Daluz como ela nunca os sentira em toda a sua vida. Quando despertava pela manhã e levantava a rótula da janela, sentia logo uma grande melancolia e um aperto no coração, como se estivesse prestes a ser atingida por uma desgraça. Muitas vezes tinha vontade de voltar para a cama e continuar a dormir, mas o sono da eternidade. Que lhe importava deixar todas as coisas seguirem o curso que quisessem? Não via nenhuma utilidade em viver; todos os dias eram iguais, as semanas iam- se finalizando dentro dos meses com a mesma igualdade, nunca lhe traziam hoje uma coisa melhor do que trouxeram ontem. Sabia muito bem o que teria de acontecer no dia que começava a nascer, por que esses dias eram reproduzidos como os compassos de uma escala e nunca variavam. Através da vida 58

Os rapazes chegariam como sempre às quatro horas da tarde, rixentos a combaterem a opinião um do outro; a tia Mariana ralharia e se queixaria do destino que achava duro, porque não atendia, em regra, à feição dos seus desejos. Não tomaria cuidado de coisa alguma, presa aos seus próprios aborrecimentos e ela teria de fatigar-se todo o dia e ser censurada por todos, até ultimamente também pelo tio Paulino! Era isso o que mais a entristecia e mais lhe doía. E tudo porque não se queria casar!... Oh! Tortura, amargores de alma insaciável, dizia ela toda vibrante, com o peito alanceado de despeito e mágoa. Não sei por que não poderemos jamais fitar os abismos, nem as cumeadas das montanhas elevadas? Por que ficamos sempre a meio caminho, congelados e trêmulos, sem ousar prosseguir nem um passo, nem uma linha? Força misteriosa, eu me ajoelho diante do teu poder, te peço perdão, sei compreender agora, que acima de nós, nas alturas intermináveis do espaço sem fim, estão encerrados a grandiosa imensidade e os esplendores que nos atordoam como o brilho do sol, a luz das estrelas e os luares do céu. Entretanto, dizia ela queixosa, sabendo penetrar todo o encanto da grandiosa natureza, porque será que fico estarrecida e muda, defronte da família que me estremece, sem compreender jamais esse amor que me pede sacrifício superior à própria vida? Através da vida 59

A essa pergunta, que lhe vinha muitas vezes à superfície dos lábios, não encontrava resposta satisfatória no espaço alegre da natureza profunda. Houve muita gente que se admirou por que ela repelia com tanta força a ideia de um consórcio tão auspicioso como esse do Francisco. Ela sabia que não podia pretender nada de melhor, e que, para sermos inteiramente bons, é preciso termos a virtude de saber sacrificar-nos pelos outros. Reconhecia quanta felicidade daria à família com esse sacrifício de si própria, mas sentia que não tinha essa virtude, a única que lhe faltava, e que, mau grado todo o esforço que fazia para ser boa, seu coração pertenceria somente ao homem a quem amasse. Do Ceará toda a sua gente sempre escrevia dizendo- lhe que o casamento era um partido brilhante, nem por sonho pensasse em recusa, era perder uma felicidade que viera cair- lhe aos pés como um troféu de glórias. Fazia já três anos que essa situação durava, porém, a cada momento, reconhecia quanto essa paixão abominável a aborrecia e consumia-lhe a existência. Sua inata bondade fazia-lhe às vezes enternecer-se defronte dos conselhos que lhe davam para casar com Francisco, mas era bastante vê-lo para pensar de modo diverso. Deixando a rótula da janela por onde entrava o sol todo brilhante, ela vestia-se e saía do quarto. À noite reproduziam-se as mesmas cenas, e se deitava sempre com o coração abalado e a consciência acusando-lhe a Através da vida 60

dureza com que tratara o rapaz durante o dia, enquanto estivera de visita. Muitas vezes também se sentiu miserável defronte dessa aflição que diziam tão grande e que ela tinha tanto empenho em combater; nesses momentos de quebranto, prometia ser melhor. Mas, no outro dia, se revoltava só por que ouvia dizer ele estava ali. Às vezes, o desespero e a luta de sua alma eram tão grandes que ela pensava enlouquecer. Não tinha amigas sinceras, nem via ao menos nessa visão longínqua de sua mãe, um rosto querido onde pudesse repousar; todos lhe eram desfavoráveis. Os irmãos, indiferentes ao seu viver, passavam os tempos embebidos com os seus negócios, não pensavam em sua vida, nem mesmo lhe escreviam. Estes que viviam com ela em companhia do tio, compreendendo-se preferidos, sempre foram egoístas e desatenciosos. Quem lhe ouviria pois, os bramidos do coração, senão o seu próprio coração? Sempre que acordava pela manhã era muito pálida e acabrunhada. Toda a noite dormia mal, o sono fugia-lhe das pálpebras e as sombras mais fúnebres vinham envolvê-la. Via o tio Paulino e a tia Mariana muito velhos, sacrificando-se por ela e se entristecia profundamente. Certa manhã, quando fora abrir a sala de visitas, avistara no jardim o tio Paulino sozinho; entrando no quarto do casal, encontrou adormecida a tia Mariana; uma curva suavíssima vincava-lhe os lábios ligeiramente entreabertos; as mãos enlanguescidas cruzadas no peito, davam-lhe o aspecto de santa. Estava divina assim Através da vida 61

nessa posição, descuidada como se estivesse morta, descansando para sempre no seu último sono. O sol muito radioso caía em cheio sobre o seu rosto que se embranquecia naquela hora como uma estátua de mármore. Devia ter sido realmente muito bela a tia Mariana! Um sentimento de ternura muito grande apoderou-se dela, e baixando um pouco o postigo da janela para sombrear o quarto, deixou docemente a tia sem ter coragem de despertá-la. À noite, na solidão do seu aposento de solteira, relembrava essas passagens do dia que tomavam sempre as formas fantásticas mais tristes e a faziam chorar, porque se julgava causadora do infortúnio dos outros que lhe prometiam venturas. O dia reaparecia novamente e se afastavam com ele as fantasiosas imaginações do seu espírito, que adoecia gravemente pensando na resolução desse eterno problema de sua vida. Sempre fora desde criança muito madrugadora. Esta manhã despertara, porém, um pouco tarde ouvindo já o movimento de xícaras na mesa para o café. Ergueu-se da cama com o corpo pesado e a cabeça atordoada. Pareceu-lhe medonhamente material essa indiferença que a rodeava, e teve um grande ressentimento contra todos que viviam felizes, fazendo-a enclausurar-se nesta cadeia desagradável de tantos dissabores. Todos riam, brincavam, eram ditosos e dormiam bem, enquanto ela, como a Maria Borralheira do conto das fadas, tinha de viver pelos Através da vida 62

cantos, desprezada a remendar os farrapos dos acontecimentos de suas desventuras. Estava cansada. Cada vez mais se compenetrava de que tudo, que existe de mais simples na vida, toma um dia vulto assombro; era só por isso que o Francisco aparecia no caminho de sua vida, como um micróbio surgido do seio da terra e engrandecido unicamente para atormentá-la! Agora não se tinha em casa outra conversa, queriam por que queriam casá-la! Era só o que faltava! Mas, não obstante o esforço que fazia para concordar com os tios, seu coração se revoltava sempre, cada dia mais horrorizado. Se um instante se enternecia com o pedido de casamento, odiava-o logo desesperada com a lembrança do egoísmo dos parentes que não a amavam mais, por certo, pois queriam forçar suas inclinações. Não podia compreender como a tia Mariana mudara tanto; sempre tão boa e paciente, ultimamente com a obsessão desse casamento, a esperança risonha de sua vida, contrariada com o empecilho de vontade adversa, se tornara, só por isso, enervada e má. Tudo a aborrecia, ralhava de manhã à noite. Um dia, no auge da irritação, chegou até a dizer, que era realmente uma coisa horrível ficar toda a vida como a sobrinha às costas por que ela birrava em não querer casar! Seus nervos cada dia se tornavam mais dilatados adoecendo-lhe o caráter bondoso que se preocupava com essa felicidade imaginária com um ardor e uma teimosia que tomavam as proporções de uma verdadeira mania! Que iria acontecer? Quem sabe se casaria finalmente com esse homem antipático para ser boa e cordada?! Quando dizia que não queria o casamento, os velhos resmungavam que Através da vida 63

essa resposta era tolice. Ainda se tivesse mais juízo... Uma criança! Se pensasse, por certo que não responderia assim. E o Francisco ficava esperando com toda a paciência que ela raciocinasse! Nunca vira pertinência igual! Às vezes o seu ódio pelo rapaz degenerava em condescendência, e ela se demorava de olhos baixos perto dele, ouvindo todo esse fraseado amoroso que os apaixonados sabem dizer, e todas essas coisas a desgostavam sobremodo, fazendo parecer-lhe a vida um fardo muito pesado para carregar. Achava realmente supliciante ter de viver ao lado de um ser que não amava, por isso procurava dissuadi-lo amigavelmente desta louca e absurda pretensão. Afastava-se o mais possível, demonstrava-lhe a sinceridade de sua antipatia por todos os gestos. Quando seu braço por acaso roçava no dele, por mais leve que fosse, causava-lhe um involuntário movimento de repulsão. Algumas vezes, quando era absolutamente impossível deixar de atendê-lo, fazia então um esforço supremo para não fugir à sua presença, e até fingir que o apreciava também; fechava os olhos, evocava muito desolada as horas felizes do seu passado, pensava no porvir, queria ao menos que, o seu coração sendo livre, pudesse entregá-lo intacto àquele que ali estava implorando-o com tanta veemência e paixão; atordoada, num assomo de ilusão, coagida por esse olhar de homem que a magnetizava, estremecia comovida. Ele vibrante de prazer pensava que era amor, o que, entretanto, não passava de uma terna e delicada piedade. Através da vida 64

VII Reconheço que todas as vantagens, porém não tenho nenhum desejo de me casar, dizia a Daluz, certa vez, interpelada por um amigo que assistira o tio Paulino muito zangado atirar em cima da mesa a carta que ia mandar ao Francisco, a resposta decisiva daquele casamento tão desejado na família. Ela gostava muito de estudar atenciosamente a todos, procurando adivinhar logo os principais caracteres. Este amigo do tio que ali estava era um bonito rapaz. Pareceu-lhe reconhecer nesse rosto muito simpático, a firmeza de caráter, distintivo da superioridade que somente possuem as pessoas de uma linhagem fidalga. Sem pensar que houvesse desta vez perigo de espécie alguma no encanto que sentia em se demorar conversando com esse homem que conhecia desde muito tempo como o confidente especial do tio, deixou-se ficar ouvindo-o conversar. O jovem confidente era muito apreciador da música, e, apesar de não saber tocar, conhecia todas as notas e cantava perfeitamente bem com a sua voz de tenor um pouco mais aguda do que devia ser. Entretanto, Através da vida 65

falando em tom natural, sua voz era retumbante e grossa como se estivesse rouco. A tia Mariana fazia parte da conversa, porém com pouca animação, coisa desusada nos seus hábitos. É que a decisão formal de que absolutamente a sobrinha não se casaria com o Francisco a aborrecera muito. Andava falando e se queixando sempre que teria de ficar toda a vida com aquela aperreação de se sujeitar aos caprichos da sobrinha. Os dois continuavam a conversa sempre muito animados. Ele, a pedido do tio, procurava catequizá-la para aceitar o casamento, mas os remoques e as graças que dizia acabaram encantando-a muito, e não o perturbava para não quebrar esse condão suavíssimo que insensivelmente começava a uni-los fraternamente naquela hora de palestra. Para o meio da conversação, ela tornou-se menos pessimista e pareceu-lhe de repente que sua vida não era tão sombria quanto pensava. O rapaz, muito instruído e talentoso, discorria as escalas das conversações mais interessantes. Falaram sobre os sistemas idealistas e realista. Ele era a favor do último, queria a realidade sempre, ainda que fosse a mais cruel e brutal, não conhecia nenhuma escola que o agradasse mais. As idealizações dos livros eram todas cheias de pieguices, o desgostavam muito. Quem poderia ficar conhecendo uma vida que era toda feita de imagens irrealizáveis? Algumas vezes o ideal também agrada, disse ela baixo, como se falasse consigo própria. Se a gente neste mundo cheio de misérias, Através da vida 66

ódios e amarguras, não idealizasse um mundo a seu gosto, ao menos para ter à parte o seu templo nas horas de repouso, a vida ainda seria muito pior do que é. Tolices, dizia o moço, o idealista acaba por força no hospício. De que serve uma agonia lentíssima para se morrer sempre? O que você é, Maria, é uma grande otimista, vê tudo pelo lado melhor, e, além disso, é ainda muito jovem, daqui a uns anos não pensará mais assim. Não, respondia Daluz, não sou coisa alguma, porém não concordo muito com essas ideias, nem sempre os otimistas são moços, eu os tenho visto bem velhos até. O moço ria-se alto e dizia gracejando que a esperança dos velhos é a última primavera que os visita no fim da vida. Depois, entre sério e ainda gracejador, falou sobre outros assuntos não menos interessantes. Mesmo com a sua instrução muito truncada, ela às vezes desenvolvia sofrivelmente os assuntos científicos e não fazia esforço para sustentar a conversação. Era por isso que o rapaz, levado pelo simples prazer de ouvi- la, puxava o mais possível pelo seu talento, olhando-a de soslaio à espera da resposta, que era sempre repentina e expressiva. Ao despedir-se, uma amargura apertou-lhe o coração. Não seria ele que voltaria mais nunca a dar conselhos de casamento àquela menina. Estava penalizado. Mesmo muito antes de a ter ouvido, sabia quanto ela era infeliz, mas agora sentia-se repentinamente comovido e apaixonado. Tanta força Através da vida 67

teve esse ímpeto de amor, que ambos, enleados e presos pelos laços de uma simpatia mútua e profunda, se atordoavam, envergonhados um do outro, deixando, de quando em vez, a conversa esfriar e desfalecer. Nunca ele a tinha pensado assim tão interessante e mimosa. Incontestavelmente era digna de sorte muito melhor do que a de ser esposa do Francisco. Seu rosto delicado tinha uma perfeição singular de feições que abalara imediatamente a alma deste artista. Ela era muito jovem, mas tinha já um grande esplendor de formosura que lhe vinha principalmente da meiguice angélica de sua grande mocidade, toda vigorosa e florescente não obstante os sofrimentos e as preocupações que a atormentavam. Desprendiam-se mesmo, de suas formas graciosas, encantos tão grandes que ele ficou perturbado. Ela também, quando ficou sozinha, teve grande desgosto de o ver empenhado na mesma campanha do seu amaldiçoado casamento. Apesar disso considerou-o logo o seu primeiro e único amigo, desde aquele dia. Através da vida 68

VIII Antes de se acabar o verão desse ano que tinha sido muito alegre em Olinda, a Daluz aceitou finalmente o casamento com o Francisco. Era um sacrifício horroroso, porém não sabia mais resistir; todos queriam a sua desgraça. Que havia de fazer? Pensava num precipício medonho do qual pelejava para sair, mas as mãos dos outros a impeliam cada vez mais fortemente até arrojá-la de uma só vez. Não havia outro meio de conciliar-se com a família. Devia tanto aos tios... Conseguira, enfim, domar a força ardente do seu caráter voluntarioso. Ia casar, contava os outros; sabia perfeitamente que não sobreviveria a esse choque terrível que lhe despedaçava o coração e a vida inteira, porém não reagia mais, não queria mesmo. Através da vida 69

Todos os dias durante o mês do casamento, o Francisco vinha visitá-los. Como antigamente suas palestras eram dirigidas à tia Mariana que as escutava com muito prazer. A Daluz, sempre angustiada e aborrecida com aquela eterna maquinação que se fazia a seu respeito, ficava indignada e ao mesmo tempo com muita pena de ver mal empregadas as maneiras gentis de sua tia, muito crente em seu bom instinto fisionômico, a emprestar qualidades ao hipócrita e pandego de quem somente ela conhecia muito bem o mau procedimento, sem, no entanto, poder se expandir, por que ninguém a quereria ouvir e menos acreditar. O cenário comum dessas visitas era desolador à sua vista, que se profanava, como a sua alma, de assistir ao desenrolar de quadros que ainda não conhecia, como os seguintes: um dia (era de tarde) chegando em casa para visita da praxe, o noivo todo lordemente vestido, fazia o movimento de abrir a porta e punha o pé sobre a pedra do batente para entrar, quando a criada da vizinha, a Chica, saia para a rua. Nesse encontro, o primeiro em que se viram, o incorrigível não se esqueceu de lhe dirigir uma graça e afagar-lhe o rosto arredondado de feições simpáticas, depois, como se julgava sozinho, entrou ereto e lampeiro pela casa a dentro. Ela, que se achava a poucos passos e a tudo assistira, escondeu-se confusa, por que teve vergonha de envergonhá-lo, porém desse dia em diante sua repugnância a respeito do noivo tornou-se ainda maior. Nem podia mais vê-lo sem uma Através da vida 70

espécie de horror. Se alguma moça aparecia em casa, na hora em que o Francisco estava, ele não perdia a oportunidade de requestá-la; com os olhos impertinentes estava sempre procurando devassar o interior do seio, a forma de um braço, tudo isso, sem cerimônias nem respeito. Nesse tempo os pais da Daluz estavam também nos Milagres, numa casita muito perto da casa do tio Paulino; tinham vindo unicamente para assistir ao casamento da filha. Todas as noites o serão do noivado era presidido também por eles que ali jantavam diariamente. Sua mãe era ainda muito linda apesar dos seus quarenta e cinco anos; tinha uma dessas belezas que fascinam e vibram sem nenhuma modéstia; formosos olhos escuros, azulados e cheios de brilho magnetizador. Mãos de princesinhas do bem tratadas que guardavam a forma cetinosa das pétalas das camélias. Ria-se muito, mostrando os dentes sãos, e fazia um barulho muito grande quando falava com a sua entonação frívola e musical. O Francisco não tirava os olhos do decote do pescoço da futura sogra; quando tinha ocasião de assentar-se perto dela, era sempre tão junto que as pernas se tocavam. O nariz farejador, fingindo despreocupação e pouco interesse, estava sempre respirando o perfume de Mil Flores que rescendia dessas minudências. Às vezes, quando as coisas tocavam ao escândalo, como aconteceu um dia, na hora da ceia, em que o Francisco muito perto de uma sua amiga, apertava-lhe as mãos por baixo da mesa, e colocava o rosto de uma certa posição Através da vida 71

calculada e especialmente para encontrar o rosto dela quando se voltava, a Daluz ficava desesperada. Não compreendia como o tio Paulino e a tia Mariana não enxergavam esse descaro. O confidente do tio Paulino raramente aparecia ali, porém, quando acontecia vir vê-los, uma tarde ou uma noite, não deixava de levar para a sua amiguinha Maria como ele a chamava, um presentinho ou outro. Algumas vezes uma bonita magnólia, um adorno de cabeça, conchinhas que apanhava pelo caminho, ou um livro que desejava que ela lesse e lhe desse sua opinião. Ultimamente, quando a via, ficava condoído. A palidez de suas faces era extrema; muito calada, engolfava-se numa melancolia tão profunda que impressionava. Não tinha mais a volubilidade de criança, toda a expansão de seus modos fora trocada por uma terna gravidade. Respondia às perguntas e não falava mais. Um dia ele insistiu para levá-la a um passeio, a distração fazia-lhe bem, o ar fresco bastaria para revigorá-la, porém, quanto maior era o desenvolvimento da aflição e simpatia que ela sentia por ele, maior era o empenho de se esquivar, por isso não aceitou o convite. Quando o estudara pela primeira vez, notara-lhe alguns defeitos, mas depressa fechara os olhos sem nenhum desejo de fazer crítica, e agora enxergava somente que ele era um belo e fascinante homem, que tinha arrebatado todo o seu coração, quase antes de Através da vida 72

conhecê-lo ainda bem. Sentia-se, porém, muito acabrunhada, por que lhe parecia que o sentimento da parte dele a seu respeito não era mais do que uma simples simpatia, prestes a desfazer-se por qualquer circunstância fútil e insignificante, se bem que fosse evidente a preferência que lhe dava a todo instante. Assim mesmo, no meio de todas as mortificações de seu espírito, com a ideia do próximo casamento com o outro, a presença deste amigo lhe trazia sempre um contingente de alegrias muito grande. Quando ele chegava de surpresa, até a fala lhe fugia com o rosado do rosto, perdia a tonalidade da voz meiga e carinhosa, tudo somente porque temia que ele pudesse lê-lhe no rosto o que se passava em sua alma que sofria piedosa o triste mal do amor. E lutava desesperadamente; o desgraçado mal incurável batera em cheio no coração envenenando-lhe todas as fibras. Ah! se ele amasse assim também, dizia ela consigo, afugentando de sua imaginação ardente, essa visão de gelo que tinha a forma do homem querido, o único que a poderia felicitar. Quando ele se retirava, também muito doente de amor, tremendo, com as mãos resfriadas pela comoção, entretanto apertando as mãos dela sem calor, nem sabia que impressão deixava, nem conseguia definir o anseio dos olhos que o seguiam até a última dobra do caminho onde ele se perdia confundido com a multidão que avançava correndo para tomar o trem. Através da vida 73

Nessa aflição de almas que se desejam, os dois namorados tinham dúvidas cruciantes, se amavam, e se fugiam, cada qual mais espavorido de si próprio, como duas forças contrárias. Jurando nunca mais se encontrar se viam e se falavam sempre! Ao longe, como a sombra fatídica de uma desgraça irremediável, ambos divisavam ao mesmo tempo o vulto lúgubre de Francisco a olhá-los fixamente com os terríveis olhos perseguidores de homem vicioso e mau. De que valem expansões, pensavam ambos, cada qual mais próximo um do outro pelo espírito, quanto maior era a distância que os afastava fisicamente. Essa morbidez desencorajante tomava proporções assustadoras na alma dos dois jovens que ultimamente se fugiam e se esquivavam tanto um do outro como dois inimigos que se temem e se odeiam estranhamente. O dia do casamento se aproximava com uma velocidade terrível. A pobre noiva contava as horas e os dias emagrecendo e se acabando como essas desgraçadas atingidas fulminantemente por uma tuberculose galopante. Através da vida 74

IX As primeiras águas de um inverno que vinha chegando muito escasso, começaram a borrifar tristemente a alvura formosíssima dos areais de Olinda. O povo alegre e feliz que viera espairecer, tomar banhos e se divertir, pouco a pouco se retirava para o Recife, deixando as casas vazias, a cidade triste e deserta. Entretanto nessa época, resolveu o amigo do tio Paulino vir passar uma temporada nos Milagres com um grupo de rapazes seus amigos e colegas de academia. Em cima, do lado do mar, no lugar onde se formava uma espécie de montanha, aparecia airosa como uma princesa, a casita dos tios da Daluz. O grupo de rapazes ficou no alinhamento das casas defronte, do lado mais baixo, à margem do rio Beberibe. Nesse alinhamento havia uma grande profusão de casas de todos os tamanhos, em maioria cobertas de palhas com as paredes entaipadas, muito frágeis, parecendo às vezes que o próprio vento, se soprasse mais forte, as Através da vida 75

arrebataria inteiramente do solo. Dessa banda a vida era mais alegre e rumorosa do que em cima. Os matutos que vinham de Goiana, Itapissuma e outros pontos, passavam impreterivelmente ali conduzindo carregamentos de farinha, frutas, rapaduras e beijus para vender no Recife. Esse povo todo fazia sempre muita algazarra enquanto descansava na Garapeira do velho Zé Antonio, o hoteleiro daquele ponto dos Milagres. Logo na entrada desse vasto e exótico casebre, via-se uma grande cobertura de palhas, bem sombreada, sem parede dos lados, estendendo-se por toda a frente da casa até quase o meio da rua, uma verdadeira empanada de loja. Todos os cômodos se encontravam na casa do Zé Antonio, desde a garapa de mel de furo, que os cavalos bebiam para saciar a fome e continuar o trajeto, até o peixe frito, a galinha e os mais saborosos guisados de carne de vaca. No correr do dia, as vendagens mais usadas, e mesmo mais procuradas, eram o arroz doce e as cocadas preparadas à vista de todos, com o coco fresco tirado ali mesmo de perto deles no coqueiral que se erguia por todos os lados da praia. A Zefinha, mulher do velho, era muito inteligente, conversava com acerto, tinha ares de dama de salão, por isso conseguia encobrir as caturrices do Zé Antonio, sempre rústico e estúpido, quando recebia os hóspedes. Nessa casa, que tinha todas as feições, também se fornecia banho ao público, era lavandaria, e se jogava à noite, a bisca, mas tudo comedidamente debaixo de todos os pontos de vista, por que os dois velhos eram sérios e muito honestos. Através da vida 76

Gente melhor da classe deles não se encontrava naqueles arredores, e por isso todos os estimavam. Muitas famílias de classe superior os visitavam e não podiam deixar de fazer assim, porque a Zefinha, tão boa e prestável, era também a médica e a parteira daquele pequeno lugarejo onde todos se conheciam e se queriam bem. Todas as moléstias, na opinião da Zefinha, tinham cura, por isso seu quarto de dormir era um verdadeiro laboratório químico dividido em compartimentos feitos de esteiras e de pano de coberta encorpado. Somente ela sabia remexer aquele colossal onde a luz do sol alumiava muito vagamente os objetos e se encontravam os específicos curativos de todos os males. Eram as caixinhas de quina moída para o umbigo dos recém-nascidos, o cabelo de menino pagão torrado e reduzido a pó, específico especial para feridas, as garrafinhas de alecrim de infusão no álcool, para dores de cabeça, o fumo de chaminé, para hemorragias e gengivas, e mil outras coisas, verdadeiras feitiçarias que a Zefinha sabia inventar para ser amável aos seus fregueses. Toda essa farmácia de ingredientes que a ciência repele, estava sempre cuidadosamente arrumada e rotulada para as ocasiões propícias. A dois passos dessa garapeira histórica, é que estava encravada a república dos rapazes. Logo na primeira noite da chegada foram apresentados em casa da tia Mariana. Ultimamente as Através da vida 77

recepções do tio Paulino tinham perdido o ar resumido e melancólico. Havia fartura, uma certa aragem de luxo se desligava desde a sala de visitas até a cozinha. Já se sabe que isso tudo era por causa do casamento que se aproximava, e também em homenagem aos pais da noiva que eram cheios de muita fidalguia. Das quatro horas da tarde em diante começava o serão das visitas na casa do tio Paulino. Os jantares sempre muito bons, rescendiam agradavelmente os aromas estimulantes das boas comidas do norte, aonde até o arroz, gorduroso e bem solto, fazia vir água na boca. Há muito tempo não jantavam mais em família, sempre visitas sobre visitas vinham aos bandos trazer os seus contingentes de alegrias àquelas reuniões. O Francisco mesmo, quase todos os dias, trazia os amigos para apresentar ao tio Paulino e aos sogros, por isso a sala se enchia tanto que, geralmente, quando não chovia, a recepção era feita na porta da rua em pleno relento, defronte do mar. À noite muitas vezes se dançava, havia música, recitativos, prendas, brinquedos, da Cirandinha e da Marianita. A futura sogra do Francisco, muito talentosa e instruída, dava a esta sociedade uma vida extraordinária em todos os sentidos, principalmente na música; seus dedos eram agilíssimos por cima do teclado do piano, tocavam maravilhosamente bem; além disso, sua figura bonita, o desembaraço e faceirice de suas maneiras de mulher traquejada nos salões punham um verdadeiro relevo à noite naquela sociedade, de tal forma brilhavam os seus encantos Através da vida 78

que muita gente se esquecia de que ela fosse a mãe da Maria da Luz, ali obscurecida e acanhada, assentada algumas vezes na extremidade da sala, de outras recostada à janela, apreciando também como os outros as seduções de sua bela mãe. Justamente numa dessas noites de dança e alegria é que a república de rapazes foi apresentada ao tio Paulino. Nenhum deles sabia do casamento, todos se dirigiam à noiva, francos, muito alegres como se a conhecessem de longa data. Toda conversa era sempre aludindo às bondades dele, nunca tinham conhecido melhor coração nem alma que tivesse mais pureza. Contavam anedotas pandegas, recitavam trechos e poesias do outro que era conhecido na república simplesmente pelo doce nome de – poeta -, porque realmente, diziam, é um versejador de primeira ordem. Finalmente o grupo de jovens acercou-se dela o mais possível, tratando-a com todas as considerações, como se tivessem vindo ali unicamente para lhe deporem aos pés as mais faustosas homenagens, e lhe dizerem indiretamente quanto aquela preferência de suas simpatias deveria ser cultivada. A noite se passou voando; se ela não o teve a seu lado, em compensação não se falou de coisa alguma em que ele não aparecesse como figura saliente. Essas confidências esbatidas, feitas a meio tom, a agradaram muito, e a sua beleza, sob a impressão dessa conversa errante a que ela dava a forma positiva de uma realidade, tinha um fulgor estranhamente fascinante. Através da vida 79

Às dez horas, quando se retiraram as visitas e os jovens doutores, ele entregou-lhe, para ler, os Sonhos de ouro de José de Alencar. *** Dias depois a Daluz vivia impressionada. O que tinha ela com os Sonhos de ouro? Com certeza havia algum mistério que devia ser penetrado por intermédio dessas páginas que em vão relia, sem conseguir adivinhar-lhes o sentido, por que não sendo rica nem caprichosa como a Margarida, não achava razoável que ele lhe desse para ler de preferência aquele romance, pedindo-lhe tamanha atenção, e grifando esta frase: para me compreender é preciso ler este romance. Estava deveras intrigada o romance lhe desagradara sobremodo, não o queria mais ler. O melhor era acabar com isto, e tomou maquinalmente o caminho da casa da Zefinha onde ia depositar o romance para lhe entregarem, mas, seu espírito, ocupado e preocupado com aquela ideia, trazia-lhe mil fantasmagorias diversas. Teve até a ideia louca de ir falar com ele. Sabia que àquela hora ninguém a interromperia, ele estaria sozinho. Que mal poderia haver, se por acaso se demorasse um instantinho na janela e lhe falasse? Mas isso a afligia logo receosa. Nunca! O que pensariam? De tudo se diz mal... Estava já de frente da casa da Zefinha, dali avistou lá dentro, na casa vizinha, o seu presado amigo debruçado sobre a banca escrevendo. N'um ímpeto desesperado de quem quer por força se salvar, resolveu ir falar-lhe; mas, assim que o viu Através da vida 80

levantar a cabeça, perdeu a coragem e se escondeu, como se fosse criminosa pegada em flagrante delito. Nem deixou mais o livro com a Zefinha; voltou precipitadamente para a casa. Quando ia entrando no jardim, ouviu que a chamavam. Era ele que lhe acenava de longe pedindo que esperasse. Ela vivia tão doente já, cheia de tanta emoção que lhe causava esse amor, que estremeceu violentamente corando muito envergonhada. Na véspera a Zefinha tinha contado tantas coisas boas a respeito dele! Não conhecia nenhum rapaz tão nobre e tão distinto naquela redondeza. Todos a lhe dizerem ao mesmo tempo isto que ela sabia e conhecia melhor do que os outros! À medida que ele se aproximava, ela tremia sem saber porque, mas assim que a alcançou agitado que nem podia pronunciar palavra, a tia Mariana assomou no limiar da porta. Nem se falaram mais. Ele vinha naquela hora extrema, atraído talvez pela ligação desse fluido magnético que os unia, fazer a narrativa solene de suas ternuras. As pupilas inteligentes, muito claras, parece que se dilatavam, deixando transparecer tudo o que os lábios não ousavam dizer. A pobre menina como o coração batendo muito, já antevendo a hora de sua felicidade, perdeu as cores diante daquele empecilho. Através da vida 81

À tarde os rapazes vieram e com eles muitas famílias. A casa ainda estava mais festiva do que habitualmente. À noite houve dança, não faltava ninguém absolutamente do grupo costumeiro, a não ser ele que não aparecia, por maior que fosse o desejo da Daluz. De uma das janelas a Zefinha, que ali também se achava, olhava interessada procurando ver aquele semblante simpático. De repente ouviu-se o seu nome pronunciado alto. Ali vem o homem, gritaram os rapazes, e correram ao seu encontro. Da sala de visitas o seu vulto distinto tinha sido avistado por muitas pessoas, as cabeças se erguiam para saudá- lo, porém, ninguém sabe porque, ele não quis, absolutamente entrar para tomar parte na festa. A Daluz teve uma impressão singular, e deixou-se cair numa cadeira junto ao piano, aniquilada pensando muito pesarosa naquela criatura enigmática, que lhe dava o sentimento das paixões, porém não a amava. Num arranco terrível dos mais desencorajantes desenganos, presa de uma excitação nervosa, quis tomar uma vingança, ia dançar com todos os rapazes, rir-se como uma louca, não queria mais ter considerações com pessoa alguma, todos eram maus para ela, desde a família até aquele amigo a quem reservara o melhor de seus sentimentos. Nascera muito boa, mas os outros lhe inocularam o mal que ela sabia que ia progredir. Essa noite foi o fulgor de sua vida. A formosura de seu rosto atraente fazia comover, ninguém podia vê-la indiferente, Através da vida 82

e por isso, mais de um peito masculino suspirou apaixonado defronte daquele encanto que arrastava os corações. A festa durou até meia noite. Durante este tempo ela dançou, se mostrando tão ruidosa e alegre que surpreendia. Saia de um braço para cair noutro. Queria atordoar-se, esquecer tantos amargores que lhe transbordavam da alma. Mas, dentro do estreito círculo do seu pequeno dormitório, a pobre criança desatou a chorar, guardando freneticamente os enfeites que eram todos unicamente por ele e, passando a vista em redor do quarto, tudo lhe pareceu frio e triste como sentia a vida. Não sabia mais ao certo esta querida mimosa o que devesse pensar dessas crises que atravessava sempre em completa desarmonia com os seus pensamentos, mas, cheia dessa fé inquebrantável, religiosa, acabava achando sempre tudo natural. Assim como Deus decretara os dons favoráveis a outros, decretara para ela os dissabores. Procurava equilibrar as forças sensitivas do seu ser, mas apesar de tudo, a esperança robusta e firme que todo indivíduo sente em si próprio toda a vida, a reanimava ainda, e uma nuvem muito rósea lhe passava pelo espírito. Atormentava-a tanto aquele amor que lhe nascera inconsciente sem que ela pedisse nem procurasse! Não compreendia por que é que Deus lhe prometera o que não podia dar. Que necessidade havia de trazer-lhe à superfície da alma aquela afeição que lhe fugia, que não poderia jamais conseguir nenhuma realização?! Cada vez achava menos razoável se dizer: tudo o que se deseja ardentemente se consegue... Através da vida 83

X Faltavam apenas dez dias para o casamento. A inditosa Daluz arquejava ainda sob a mesma perspectiva dos sentimentos de seu amigo. Com certeza não a estimava, de outra forma não deixaria de vê-la?! Por outro lado, ele sabia muito bem dessa aversão que lhe inspirava o Francisco, e por que não a vinha salvar? E seu coração gemia desesperadamente triste, pedindo às forças supremas uma consolação. À noite ele apareceu. O céu estava claro e estrelado, pequenos grupos se formavam na porta da rua, defronte do mar que se estendia nessa noite mais calmo do que nunca. Muitas fogueiras de gravetos misturados com alfazema despendiam um imenso fumaceiro que afugentava os terríveis maruins, que eram ali sempre importunos nas noites de luar. Através da vida 84

A princípio, ela assentou-se muito afastada, mas (essas coisas nunca se sabe explicar ao certo) pouco a pouco se aproximaram. Essa noite, uma das melhores que ela tinha passado depois de noiva, o Francisco não viera. Esteve francamente expansiva, conversava muito tempo. A fisionomia dos apaixonados é sempre o amor, porém eles não trataram disso. Todo tempo se ocuparam de literaturas, uma camaradagem muito grande na combinação dos mesmos sentimentos e das mesmas ideias os apertava fraternalmente no mesmo laço de simpatia, como dois colegas que tivessem frequentado as mesmas aulas e tido os mesmos preparos. Decididamente eles se amavam muito, mas cada dia procuravam mais abafar os sentimentos, cada qual escondendo mais a sua tortura. Despediam-se sempre frios, mas, essa noite, a última, que seria talvez mais propícia a essa desejada explicação, foi justamente quando mais se afastaram do terreno. Enquanto ele, aproveitando a distração dos que conversavam a seu lado segurava sua mão tão apertada e deixava seus olhos muito ternos e expressivos repousarem no rosto dela, até em sua voz trêmula vibrava o apaixonamento fervoroso do seu grande amor. Mas tudo agora era impossível. Ficariam casados porém, espiritualmente. Pela primeira vez em sua vida ela desejou ser livre, e ter dinheiro para aparta-se desse jugo de abominações e misérias em que a prendiam sempre como uma verdadeira escrava. Tudo lhe negavam, até a liberdade de amar! Através da vida 85

*** Cada instante que aproximava a hora do casamento, mais a querida criatura sofria. Chorava tanto que os olhos se tinham circulado de roxo, ornando a pobre fisionomia de uma expressão comovedoramente tocante. Não se alimentava nem dormia mais direito. Às vezes, principalmente durante o dia, era assaltada de umas dores nos olhos tão agudas que faziam escurecer-lhe a vista até a cegueira, não enxergava nada absolutamente por muitos minutos, depois dormia, e a luz dos olhos reaparecia, confusa, dando a todos os objetos as cores vermelhas e amarelas, ao mesmo tempo escuras, trementes e rutilantes como as irradiações do sol, por fim serenava brandamente, via de novo a claridade muito bela, e toda a natureza com os mesmos esplendores de atordoantes fascinações. No dia do casamento, levantou-se da cama antes do alvorecer da aurora. Não dormira durante toda a noite um único minuto. O rosto formoso estava mortalmente pálido, o corpo emagrecido se encurvava como se lhe faltasse a força para soerguê-lo. Andou pela casa toda que ainda estava envolvida na solidão do sono; pisava devagar com essa precaução que se costuma ter quando há doentes. Ao passar pelo salãozinho onde outrora trabalhava com a tia Mariana, veio-lhe uma surda comoção de amargura; quantos sonhos fantasiosos lhe erravam pelo espírito naquela salinha onde ela passou toda a sua infância a trabalhar, a brincar, e a pensar num Através da vida 86

futuro mais brilhante, e mais venturoso. Agora que tudo isso ia se acabar para sempre, ela via o passado muito longínquo, nevoento, no crepúsculo indefinível desses sonhos esquisitos que se conservam na imaginação com os ressaibos de uma doçura eterna. Repentinamente uma certa tranquilidade passou-lhe pelo espírito, uma espécie de alívio ao recordar-se desse passado que lhe apareceu naquela hora como um verdadeiro gozo. Todo o interior de sua vida, o seu romance de mocidade, tinha sido sonhado defronte do bastidor que ainda ali permanecia, e na almofada que se empoeirava n'um canto com os bilros emaranhados, as linhas e as coberturas enxovalhadas em completo desprezo. Tudo ali era tão íntimo ao seu coração, que ela se sentiu apaziguada com o seu destino, engolfada nesses pensamentos dos tempos de criança que lhe traziam em revoadas os mínimos incidentes, passados entre ela e a tia Mariana. Não sabia que proteção suavíssima encontrava ali neste pequeno aposento, debaixo dessa melancolia obscuridade do crepúsculo matinal, que começava a clarear e a mostrar-lhe vivamente esses queridos objetos seus conhecidos e amigos a que se ligara tão solidamente havia tantos anos! Mas, ao sair deste canto de suas vibrantes e ternas recordações, não derramara uma só lágrima, nem mesmo quando se voltara para o olhar pela última vez. Fora, no terraço e no jardim, se estendia a mesma melancolia que a seus olhos tomava proporções maiores. O Através da vida 87

mar, sempre entoando a sua canção eterna, trazia até à borda, vagas pequeninas que se quebravam e se refaziam. Sempre cautelosa andava pela casa, deslizando com o aspecto de fantasma sobrenatural, revisitando, olhando todas as coisas, se despedindo, trêmula e agitada como um doente que se despede da vida. Envelhecida repentinamente, a mísera continuava aflita, doidejante, de canto em canto, como sonâmbula ou louca, vagueando errante, batendo em toda parte sem consciência nem rumo, procurando sempre desesperada a felicidade que lhe fugia, cada vez mais vaporosa e mais difícil. Bruscamente seu rosto iluminou-se, um vago clarão de loucura passou-lhe pelo cérebro, mastigou palavras que não se poderiam traduzir, e um desses risos cruéis, o riso amargo dos que são desgraçados, desenfeitou-lhe o rosto que perdeu, por alguns minutos, todo o característico de ternura que lhe era peculiar. Avistara a grande mesa preparada de véspera em ar todo festivo com luxo enorme a transparecer nos cristais, que reluziam muito lustrosos espelhando-se uns nos outros, na mesma profusão, com os papéis de cores diferentes que sobressaiam das pastilhas, dos bombons e doces de toda espécie, de envolta com os ramalhetes de folhas de crótons. O dia clareava quando ela deixou esta sala, com as mesmas precauções com que tinha entrado. Voltando ao seu quarto, esteve a olhar o seu vestido de noiva. Os queridos livros, tão presados outrora, rolavam em abandono pela Através da vida 88

estantezinha de pinho que lhe dera o tio Paulino. Arrumou-se todos dizendo-lhes o último adeus e ajoelhou-se depois defronte de um crucifixo de marfim que estava em cima da mesa, único objeto de luxo que se encontrava nesse aposento de solteira. Finda essa tarefa, começou a ouvir, através da casa, um vai e vem estranho acima e abaixo, numa grande arrumação, desde a sala de visitas até a cozinha. Os que têm feito ou assistido a essas festas de casamento compreendem bem o alvoroço dos preparos nessas ocasiões. Ainda tomavam o café, quando entrou o Francisco com um presente muito rico para oferecer à noiva e mais uma doação de dez contos de réis, produto do seu gado que o pai acabava de vender a seu pedido. Os velhos o suspenderam nos braços, e a tia Mariana não cansava de dizer que antevia todas essas felicidades. Às seis horas da tarde, a casa inteira tomara um aspecto de gravidade austera e ao mesmo tempo fúnebre. As portas ornamentadas de cortinas muito alvas entrelaçadas de fitas brancas, de quando em vez impelidas pelo vento, batiam surdamente umas contra as outras. Todos caminhavam cautelosos sem a alegria do costume: uns iam até ao jardim, traziam tudo quanto era flor bonita que ali encontravam e vinham depositá-las nos jarros, nos tapetes, por todos os lados por onde o préstito do noivado teria de passar; outros; conduzindo imensas braçadas de folhas de canela, as espalhavam desde a porta da rua até o terraço. Depois eram os Através da vida 89

bouquets de cravos brancos muito cheirosos, os jasmins e flores de laranja, os ramalhetes de angélicas, as dálias. Toda essa profusão de flores de todos os feitios, cores e formas, chegava de todos os lados de presente e também compradas, e todas ao mesmo tempo numa verdadeira onda de perfumes raros e esquisitos se derramavam pela casa desde o altar, preparado na sala de visitas, os dunquerques, cômodas e mesas até os tapetes. Entretanto as coisas em redor apareciam tristes no meio dos enfeites e das flores. Às sete horas estava tudo terminado; as lâmpadas belgas, a iluminarem com os clarões mais fulgurantes clareavam a casa como se fosse dia pleno. Os convidados postados em alas, todos de pé, esperavam a hora suprema do casamento. No limiar da porta, assomou o vulto mimoso da Maria da Luz, modestamente vestida de gaze, e coberta com o véu envolvido de formosíssima grinalda de flores de laranjeira... Sua fronte branca estava completamente transformada debaixo daquele traje todo leve onde aparecia o lindo rosto aureolado e radiante como o de um anjo que vai bater as asas para o céu. Não era possível aparição mais formosa e impressionante. Nesse momento, a porta fechada pelo vento, que estava muito forte, abriu-se e entrou o padrinho da noiva, o seu velho amigo e confidente do Sr. Paulino. Quando apertou a mão da noiva, sua fisionomia estava muito triste. Assim que disseram que era tempo de Através da vida 90

realizar-se a cerimônia, ela olhou para todas as pessoas, para ele e também para a sua mãe, que nessa hora estava tão indiferente aos seus sofrimentos quanto bonita e bem trajada. O tio Paulino tinha a cabeça baixa, a tia Mariana olhava-a esmo, muito triunfante. Essa indiferença pareceu-lhe o suprassumo da crueldade. Teve uma vontade doida de gritar bem alto para todos os convidados que ela estava ali coagida, que não queria absolutamente casar-se. Mas um suor muito frio correu-lhe pelo corpo, um véu escuro passou-lhe pela vista, e ela, vacilando, sem firmeza, foi lentamente caminhando com os convidados para junto do altar. Não sei se os assistentes compreenderam instintivamente alguma coisa desse drama penoso que se desenvolvia, o que é certo, é que muitos tinham dificuldades de impedir as lágrimas diante daquela cena. À medida que o padre falava, sua voz se tornava fúnebre e as palavras ressoavam no salão como se ele abençoasse uma sepultura que ia se fechar. No momento fisiológico da cerimônia, quando o sacerdote unia as mãos do casal, a noiva parecia quase desfalecer. Voltou repentinamente os olhos para seu amigo, e olhou-o pela última vez, como se quisesse guardar alguma coisa do seu ser, uma derradeira sensação. Não havia mais esperança nem queixas nesse olhar todo envolvido de lágrimas, não havia também exprobração. Unicamente traduzida uma grande dor que lhe esvoaçava pelo semblante, muda e triste, como uma vida que se acaba; traduzia ao mesmo tempo uma terna submissão diante da Através da vida 91

fatalidade das coisas. E, sua alma toda acabrunhada, chorava loucamente contendo no seio o coração que tinha amado tanto! Às oito horas, toda a cerimônia tinha finalizado e ela, assentada no sofá com os olhos abaixados, deixava o pensamento se misturar docemente nessa bruma ligeira de sonho, o sonho delicioso que se tinha acabado para sempre. Através da vida 92

XI Durante doze anos de casada, anos incolores, tão longos, melancolicamente decorridos no bulício rumoroso da cidade, entre mil acontecimentos diferentes, a Daluz não tinha sido feliz. Continuava muito boa, e a generosidade de sua alma admirável fazia-a suportar todas as contingências da vida com a maior resignação. Tratava o marido muito bem, considerava- o muito, procurava endireitá-lo, fazê-lo digno de sua pessoa. Carinhosamente se apurava nesse trabalho cada dia mais cuidadosa. Nunca absolutamente pôde conseguir arrancar as raízes profundas desses hábitos velhos que ele tinha adquirido no verdor dos anos, porém melhorou-o muito. Um observador podia notar quando se tinha moralizado. Através da vida 93

Algum tempo depois dessa união, espalhavam a respeito do casal, boatos que passavam zunido de ouvido a ouvido, mas eram dizeres extravagantes, sempre murmurados muito baixo, por meias palavras, cheias de mistérios cômicos, inacreditáveis quase, tolices muitas vezes que faziam lembrar os segredos de Polichinelo. Os vizinhos passavam a vida impressionados com os desposados, espiavam-nos, escutavam-lhe todos os movimentos para ver se conseguiam o que desejavam. Ali dentro, diziam desanimados, nunca se sabe bem o que se passa... aquele povo é esquisito... Se o marido saia ou voltava da rua, todos o examinavam, passando completa revista pelos embrulhos que levava nas mãos. Contavam também que eles acordavam cedo demais; desde a alta madrugada uns passos de mulher, pisando agitados, caminhavam em redor do sobrado, ressoando o estalido seco dos saltos dos sapatinhos no assoalho, que fazia se perder o sono. Houve uma vizinha mais afoita, que afiançou, como verdade puríssima, que o homem quando saia de casa, deixava a mulher trancada, e levava a chave! Também pensavam que ali residiam pai e filha, pois o homem parecia muito mais velho. Depois ninguém mais pensou a respeito dessas duas vidas, e eles ali ficaram como todo mundo, despercebidos, vivendo mais ou menos sossegados. Em todas as rodas, mesmo as mais íntimas, se dizia que ela era bonita, porém pouco amável; o marido era muito mais agradável, todos o apreciavam, pode-se mesmo dizer que ele estava nos anais da fama, cercado de um Através da vida 94

turbilhão de amigos muito pertencentes à melhor classe do Recife; bem colocado, dono de uma venda muitíssimo rendosa, quase rico, atencioso e prestador de obséquios. Não se podia desejar, nesse tempo, homem mais correto do que esse sonso que habilmente enganava a sociedade. A própria mulher se iludira, supunha-o curado das infantilidades e traquinices do seu caráter de verdadeiro desequilibrado, mas, em pouco tempo, se desiludira. O marido não voltava à casa antes de meia noite, metido em pandegas e jogatinas, mas sempre insinuante e esperto, ia empolgando a todos com as suas civilidades de gentilezas. Se uma ou outra pessoa se arrojava a dizer mal desse cavalheiro cortez, era logo a sua voz abafada com toda a energia; uma grita de revolta se levantava sempre de todos os lados. Homens e mulheres o elogiavam; era muito bom rapaz. Ninguém simpatizava, porém, com a mulher. Era bonita, tinha algumas prendas, porém afugentava com os modos frios, glaciais, sempre a passar olhadelas desconfiadas para o mundo inteiro, como se alguém lhe fosse fazer mal. Muito desajeitada, diziam alguns; é aparvalhada diziam outros. Quanto mais a achavam interessante e formosa, mais falavam mal e desfaziam de seus dotes. Mesmo a tia Mariana, a quem um dia a sobrinha fizera, com todos os pormenores, a narrativa de sua mesquinha vida de casada, lhe respondera que ela era uma tola; grandíssima ciumenta, sempre a se queixar de tudo, em lugar de criar juízo e ser cordada. Qual seria o marido melhor do que aquele?! Um homem que lhe adivinhava os pensamentos; o guarda-roupa Através da vida 95

farto e bem guarnecido estava ali provando evidentemente a sua bondade. E a casa com todos esses ricos ornamentos de luxo? Ainda era pouco?! Não fazia nada, criados para todos os lados; o que é que queria mais?!... Ah! Pudesse eu ter tido algum dia essas venturas!... Era este o ponto com que a tia Mariana arrematava a sua eloquência de coração inflexível. A moça sentia-se cada dia mais sozinha, queria apelar para o tio Paulino, diria todas aquelas infâmias a ele e se divorciaria finalmente desse suplício a que se ligara, e a que inutilmente se sacrificara, porém, esses projetos morriam antes de lhe chegarem aos lábios. Fazia pena o pobre velho; muito doente, arrastava os anos com um esforço supremo. Não se sabia o que ele tinha, uma moléstia secreta minava-lhe pouco a pouco a existência. Seu todo cheio de viveza se aquebrantava agora diante da vida com um paralisamento das forças que pareciam repentinamente sustidas pelos sofrimentos morais. Raramente saia à rua. Deixava o serviço do armazém onde vivera muitos anos e vivia com a tia Mariana somente das economias que fizera desse trabalho. Reinava uma pobreza muito grande em casa, mas ele deixava correr tudo à revelia sem ânimo para coisa alguma. Dos médicos que o vinham ver, cada qual fazia o seu diagnóstico diferente, porque era feito a esmo, pois o tio não se deixava absolutamente examinar. Porém se conhecia muito bem que estava cardíaco e que sofria muito por causa da sobrinha, em quem reconhecia, a cada hora, uma vítima de suas ilusões passadas. Através da vida 96


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