Por mais de uma vez, o ciumento deu passos disparatados pela casa, em posição de quem ia tomar severas providências; mas deixava se ficar preso ao condão daquela inércia, que o subjugava nos momentos mais graves, ainda mesmo que fosse contra os seus maiores inimigos, como se tivesse nascido para ser governado. Então se queixava, atrozmente, da sorte, fazia as mais dolorosas exortações e esbravejava por tudo, servindo depois o motivo mais fútil para um escarcéu medonho. Uma noite, dois anos depois do consórcio, toda a casa dormia profundamente, quando se ouviu um bater discreto, mas ao mesmo tempo, aflitivo, como se tratasse de um caso urgente. As pancadas eram no quarto da D. Rita. - D. Rita! - D. Rita! D. Rita! - Virgem Maria! Meu Deus! Quem será?! Quem é? Quem bate aí? Tessinha, é você? Espere, estou procurando os fósforos, vou já abrir a porta. - Sou eu, D. Rita. - Quem?! - Eu; abra logo a porta. - Nossa senhora! Angústia 147
Tive um susto bem grande. Ainda tonta de sono, custei a conhecer sua voz; nem tinha ouvido pronunciar meu nome... Pensei que fosse a Tessa ou algum criado. Que aconteceu?! - Sua filha é muito caprichosa, há diversos dias não dorme em nossa cama; tem agora um ninho separado. - Onde está ela? - Deitada no sofá. - Coitada de minha filha! - A senhora é uma impostora muito grande. Em lugar de repreender os maus procedimentos de Teresa, põe-se com essas pieguices. - Tessa, vá dormir. Não contrarie seu marido. Que lembrança é essa de se deitar no sofá sem forro, para se constipar? De dentro do quarto, ouviu-se uma gargalhada, que reboou no silêncio, como se fossem badaladas de sino em todos os tons. A D. Rita fez também cara de riso. Foi isso que mais despeitou o marido. Imediatamente deu-se começo à briga pavorosa entre os dois, findando o triste conflito com as palavras mais ásperas e violentas parte a parte. Pela manhã, escondidamente, comentavam mãe e filha. Angústia 148
Mamãe, aquele homem é um desequilibrado, ou um perverso muito grande. Não posso e nem quero, absolutamente, viver mais em sua companhia; esta agressão que ele faz contra mim é muito vil; por tudo irrompe essas questões, às vezes até porque canto e toco piano. Esse drama, que se vai desenrolando na minha existência, tem alguma coisa de desumano, e eu não o quero, não o posso mais suportar. Peço-lhe permissão para tratar do meu divórcio. Esta vida me deprava o espírito. - Não, minha filha, não faça essa tolice; seu marido é bom e a estima. Não se vive sem maus sonhos. Se durante estes anos do casamento, nuvens escuras toldaram os encantos da lua de mel, que deveria ser perene, logo terá dias mais felizes. Aceite, corajosamente, todos os acontecimentos, e acabará por se arrepender desta resolução. Perdoe a seu marido; procure compreendê-lo e moldá-lo a seu gosto. Em pouco tempo, estarão envolvidos em uma ternura mútua, feita somente de grande afeição. Passeie, para distrair-se. A posição de uma mulher bonita é infinitamente delicada, guarde, pois, religiosamente, as reservas necessárias, e deixe o tempo correr. Terá a recompensa do sacrifício, e, então, semeará de flores mais alegres este passado, que a entristece agora. Angústia 149
Acabem com isto; por que esta discórdia? Estas lutas com que vocês se magoam por qualquer tolice, não passam de criancices. Ainda não se conhecem; é muito cedo para renegar a vida. Se, depois de mais um ano de experiência, não encontrar, na minha receita, nenhum alívio ao seu mal, volte e viveremos juntas; meu amor abrangerá todos os seus desejos. A filha ouvia calada, examinando o papel da sala, e rufando, devagarinho, com os dedos, na almofada de costura, que sustentava na perna. Gostava muito da mãe, mas parecia-lhe que seu pai, se vivesse, não lhe daria tal conselho, tão estranho ao seu modo de pensar. Tinha ela vinte e três anos nesse tempo. Era muito excêntrica, excessivamente orgulhosa e obstinada, porém nada parecia evocar seus íntimos sentimentos. Quando alguma coisa desagradava em seus traços fisionômicos, era logo apagada por superiores atrativos, que faziam depressa esquecer qualquer impressão desfavorável. Estas lutas com que vocês se magoam por qualquer tolice, não passam de criancices. Ainda não se conhecem; é muito cedo para renegar a vida. Se, depois de mais um ano de experiência, não encontrar, na minha receita, nenhum alívio ao seu mal, volte e viveremos juntas; meu amor abrangerá todos os seus desejos. Angústia 150
A filha ouvia calada, examinando o papel da sala, e rufando, devagarinho, com os dedos, na almofada de costura, que sustentava na perna. Gostava muito da mãe, mas parecia-lhe que seu pai, se vivesse, não lhe daria tal conselho, tão estranho ao seu modo de pensar. Tinha ela vinte e três anos nesse tempo. Era muito excêntrica, excessivamente orgulhosa e obstinada, porém nada parecia evocar seus íntimos sentimentos. Quando alguma coisa desagradava em seus traços fisionômicos, era logo apagada por superiores atrativos, que faziam depressa esquecer qualquer impressão desfavorável. Bastante instruída, tinha também inteligência clara, e o dote de uma calma absoluta, mesmo tão grande, que parecia pertencer à família dos fleumáticos. A linguagem era bastante judiciosa e interessante, pela coordenação das ideias e justeza positiva do colorido sincero. Notava-se, em todos os seus movimentos, a paciência dominadora de um indivíduo, voluntarioso, destes que, em certos momentos, nem um tiro de peça consegue assustar. Concentrando a alma na encarnação de um único objeto, não fazia mais conta do mundo inteiro, enquanto não resolvia o seu problema. Sem afirmar sua espontaneidade, sei que era comedida, segura, fazendo tudo debaixo de reflexões Angústia 151
profundas, cercando-se de tantas cautelas, como quem pretende derrubar uma parede, cujo perigo é iminente. E quando se resolvia a dar o golpe era firme. O império, que possuía sobre si própria, era extraordinário. Quando queria, parecia ser feita de pedra, nada a abalava. Sua conversa predileta era sobre os assuntos filosóficos, e era somente, nessas ocasiões de animadas palestras, que se notavam grandes clarões de entusiasmos lhe flutuarem no olhar e na voz, que se tornava muito forte e vibrante. Era-lhe impossível compreender, como é que esta ciência, segundo explicavam todos os mestres, fosse o conjunto de toda a sabedoria humana. Somente encontrara, em todos os livros dessa espécie, lidos até aquela data, personagens insensatos, querendo ir além de impossibilidade, sempre a escrever palavras fantásticas, abrindo horizontes novos para mostrar desenvolvimento e grandeza, quando tudo é contrário e diferente, não chegando, em geral, aos autores a uma prova que satisfizesse. Dizia que alguns filósofos eram somente abusadores da paciência humana, falavam e escreviam sem proveito, porque a confusão, em que se externavam, nem para eles mesmos poderia ter vantagem. A estes pregadores de profissão, que se gabavam a todo instante de suas novas invenções, dava o nome de maníacos. Angústia 152
Achava muito original o imenso cortejo de escolas, sentia tonturas desembrulhando as barafundas, que, em geral, faziam uma grande quantidade de pensadores vaidosos, convencidos do seu alto merecimento, quando não diziam, às vezes, mais do que o jardineiro bruto. Quem poderá adquirir conceitos sólidos neste caminho de extravagâncias, onde cada um quer, à força, por em atividade a sua mania? Se eles, ao menos, praticassem um pouco... Muito melhor será a vista dos fatos e a execução deles. Seu voto era a verdade; implicava com esta fantasia de quererem provar que a própria vista é ficção. Onde chegaríamos, se fôssemos procurar a base fundamental dos acontecimentos, que nos envolvem na vida, senão à loucura? Para que a intensa provocação do interesse, se o sábio não vai além, nestes misteriosos assuntos, do pobre pensador inato, que passa a vida sem mais conhecimentos do que seus campos rústicos e a poesia dos espaços que o rodeiam? Estas dissertações, o pouco caso com que afetava receber o movimento mundano, e a fingida insensibilidade a respeito das mais graves notícias, parecendo, em certos momentos, uma cética, e, sobretudo, a clareza de sua intelectualidade, a afastavam do marido, que mal sofria os acessos dos nervos, ouvindo-a falar. Não gostava de mulher homem. Angústia 153
Queria que se preocupasse somente com o seu lar. Desesperava-se tanto com aquela desenvoltura de seus modos que, às vezes, corria pressuroso à sociedade dos amigos; metia- se na voragem dos divertimentos e andava, de canto em canto, sem repouso, como se padecesse de uma dor muito grande e não conseguisse remédio. Quando chegava da rua, alta noite, cantarolando alegre, pensando que sua ausência tivesse enfurecido a esposa, vingado e feliz com esta raiva, que lhe ia fazer, ficava bem triste por conhecer, no primeiro relancear de vista, que a Tessa nem dera pela falta! Bonançosa, sem uma prega a franzir-lhe as sobrancelhas, trazia-lhe a ceia e se punha a mastigar a seu lado, como se apenas se tivessem separado por dois minutos. Enfurecido com aquela tranquilidade, o homem se punha a bater com os pés no assoalho, como se vaiasse alguma atriz, na plateia dos teatros. Às vezes, o despeito lhe envenenava tanto o sangue, que, involuntariamente, murmurava frases desconcertadas, dirigidas a esmo, como fazem, geralmente, os gesticuladores, que andam pelas ruas debaixo de algumas impressões acabrunhantes. Queria fazer, ao menos uma vez, aquela mulher chorar de ciúmes por mim. Não creio em amor frio, sem exaltação. Aquela frieza me arranca a alma pela raiz! Angústia 154
Um dia, no meio de uma grande exacerbação de espírito, confessou-lhe esta tristeza, que lhe pairava no coração. Tessa. V. não me ama, absolutamente. Tenho certeza. - Por quê?! - Pois eu não vejo a indiferença que V. liga as minhas ausências? Posso passar longe um ano inteiro, sem que isso lhe dê cuidado! - Ora esta! Era bem ridículo pôr-me eu a chorar, porque V. foi passear, porque visitou seus amigos ou foi ao teatro... Que juízo faz então você de mim? - E se eu tivesse uma amante? - No mesmo instante em que soubesse, o abandonaria. Abaixar-me a ter ciúmes, isso é o que jamais logrará. Tenho mais em que me ocupar do que lhe dar essa importância. Pretenciosa, resmungou ele entre dentes; se fosse por acaso uma criatura superior, se o seu espírito estivesse na altura de compreender os panoramas intelectuais, e por aí eu visse que procurava se vingar de sua humildade na sociedade, precipitando-se, loucamente, contra mim, porque lhe levo vantagens, era perdoável. Não lhe nego talento e cultura; quem é que não sabe, porém, quanto a mulher é inepta! Angústia 155
Jamais terá capacidade para penetrar o segredo das ciências. Somente ao homem se desvendam as grandezas desses altos problemas; mesmo quando não tem instrução tem perspicácia, nasce familiarizado com a luz. De um salto, vai, diretamente, ao contato do seu destino natural; mas ela, por certo, não poderia, absolutamente, ter esses predicados e se conduzir através das grandes ciências. Onde é que estão os livros de mulheres, em que se encontrem estrutura, concepção e valores, como num livro de homem? As que escrevem são confusas, incorretas, não têm estilo próprio nem forma. De seus trabalhos não se tiram conclusões senão as que veem, diretamente, do coração. Passando do terreno sentimental, nada mais conseguem. Como, pois, poderei julgar minha mulher?! Será uma egoísta, presunçosa, ou, simplesmente, da numerosa família das histéricas? Preciso estudar os fatos de sua vida, com todas as formas, desde o cérebro até a fisionomia; quero distribuí-los depois num quadro, acentuando-lhes os principais caracteres. Por causa destes modos e também da estudada indiferença, com que me trata, estou sempre esperando a hora decisiva da triste catástrofe. Angústia 156
Vivo debaixo de uma verdadeira angústia, a caminhar no escuro, atrás da sombra que me foge, a querida messe de carinhos e de amor, que forma a doçura da vida. Na própria atmosfera, que me envolve, sinto mudanças prejudiciais ao meu lamentável destino. Angústia 157
V O antigo smart, criador de tantos sonhos, o insubmisso antifeminista, não tinha mais rebeldias. Tudo estava morto. Cada vez mais abatido, os olhos mais fundos, cercados de olheiras, refletindo uma palidez doentia, todo o semblante ensombrado de tristeza, andava num verdadeiro combate com os acontecimentos de sua vida. Apenas rompia a aurora, se preparava para sair. Não se reunia a pessoa alguma, caminhava por toda a cidade, horas inteiras, procurando, no exercício forçado, algum alento para esquecer os rigores com que o tratava a mulher. Nestas concentrações físicas e morais, sofria a escravidão do corpo e da alma, aniquilando-se aos bocadinhos, afogando-se nos estertores de uma agonia cruciante. Nada mais lhe restava daqueles ardores do tempo de solteiro. Reduzido aos sofrimentos, se sensibilizava por tudo e ficava horas sem fim perdido em cismas, a sentir o desprezo, que lhe pesava em sua própria casa, onde todos os objetos atestavam, cruelmente, a sua desgraça. Angústia 158
Quando encontrava o filho muito esperto a fitá-lo, penetrando, precocemente, o segredo da família, ficava comovido e disparava a chorar. De que lhe servia ter riquezas, viver arrodeado de um luxo pomposo, se tudo na vida lhe faltava, sem a afeição da Teresa? Melhor seria acabar com a existência, esmagar a cabeça com um tiro e se aliviar do tormento. ** * A D. Rita vivia, também, numa verdadeira aflição entre a filha e o genro, sem saber o que devesse fazer. Seu maior anseio era o de conseguir dar um traço da mais pura união entre os dois. Mas pelejava inutilmente; cada um virava a cabeça, com mais força, para o seu lado, numa divergência absoluta, revoltando-se por tudo, sempre cheio de transportes indomáveis. Que havia de fazer? Às vezes, com muitos arrodeios, falava ao genro: - Meu filho, não desmanche a felicidade de seu lar. Essas discussões diárias, sem motivo, podem apenas diminuir, realmente, a afeição. Sou uma grande entendedora das intimidades do viver de casados. Na minha presciência maternal, habituei-me a adivinhar. Angústia 159
É melhor fazerem ponto a estas desarrazoadas contendas. Até os estranhos comentam a vida de vocês. Muito insinuante, com o seu bonito rosto bastante alvo, resplandecendo a beleza dos cinquenta anos bem conservados, toda fresca e sadia, dentro da formosa matinée de linho, pregueada e cheia de bordados, que, habitualmente, usava em casa, pregava ao genro o seu sermão, com tanta gentileza e ternura, que sempre o abalava um pouquinho. Isso se conhecia pelos trejeitos, que ele fazia com a boca e os olhos, procurando esconder o vexame. A D. Rita ficava muito lisonjeada com essas provas, pensando ter ganho algum terreno no caminho, em que há muito bordejava para aportar, porém depressa sua pobre ilusão fenecia. - Ai, minha sogra, a senhora tem razão, sou muito mal, vivo sempre descontente de mim e de todos; nem sei disfarçar este gênio terrível, que a natureza me deu. Reconheço que a harmonia devia principiar por mim, mas... que quer a senhora?... É possível ter serenidade quem é casado com uma Tessa? - Meu filho!... - A senhora é mãe, nunca me dará razão... - Que injustiça! - Infelizmente, minha mulher não tem o seu sentimento. É um pedaço de gelo aquela criatura. É muito cruel!... Angústia 160
- Mas que tolice! Não diga tantas heresias. Com certeza esta porção de estudos que faz, estas noites mal dormidas, sempre a se preocupar com tudo, estas inovações de ideias a todo instante têm-lhe posto a alma doente. Preste atenção à minha filha e reconhecerá quanto é grande a sua distinção, e, depois, me dirá se ela não se assemelha a um desses querubins das célicas paragens do infinito. Por que sacode assim a cabeça com incredulidade? - Perdoe a franqueza, minha senhora, sua filha é um monstro! Se a sua formosura me exalta, seus modos desenvoltos, imediatamente, apagam a força deste triunfo, que obtém o seu encanto. Que importa que ela seja a encarnação de toda a beleza viva, se é também a estátua sem alma, o rochedo sem movimento. Por que não desabafar no meu coração, não dizer tudo quanto me tem feito sofrer, depois que nos casamos? Imagine a senhora que minha mulher vem para a mesa do almoço ou do jantar, debaixo de um luxo escandaloso: mangas curtas, colarinho aberto mostrando bem o pescoço; saias de cambraia, delicadas de tal forma que basta o vento soprar de leve para relevar as esbeltezas dos quadris e das pernas, causando-me receio de que a possam, repentinamente, olhar. Angústia 161
Senta-se junto à mesa, defronte do prato, que a criada lhe serve, e, agarrada ao jornal da manhã, vai lendo e comendo; uma garfada na boca, uma olhadela ao jornal, isso placidamente, sem se voltar, nem uma vez, para o meu lado, como se estivesse sozinha com o seu prato e o seu jornal! Depois, como se fosse um imenso pavão de penas brancas, sai, vagarosamente, arrastando o seu vestido de alto preço, toda a exalar perfumes, e se afasta como se fosse uma rainha! E a senhora acha que essa imposturia não é irritante?! Dentro do seu grande bom humor de mãe sensata, não pensará, por acaso, nas punhaladas que esta mulher me crava no peito? Nunca respirei atmosfera igual! Para o amor, nada há como a ternura dos olhares, que se procuram e se encontram, na mesma linha reta. Sua filha não é mulher, que saiba se isolar, num tête-à- tête apaixonado, com um marido como eu, que lhe sacrificaria até a vida. É uma ingrata muito grande. É casada, mas é namoradeira; tem grande prazer em se sentir conquistada; abusa dos atrativos que a natureza lhe deu. - Não fale assim, Arthur, a pobre menina o ama tanto... Por que esses dizeres maldosos?... Não quebre sua força moral; isso até parece uma grande perversão. Angústia 162
- A senhora não sabe o que é amar, por isso não me compreende, nem saberá jamais de que tamanho tem sido o meu padecer e a amizade votada à sua filha. - Paixões violentas não são boas. É melhor que vocês se separem por uns meses... Vá passar uma temporada em Poços de Caldas; os banhos, as águas, o clima salubre, tudo concorrerá para o senhor melhorar. - Quer dizer que sou doido, não é assim? Mas não me arrependo da confissão. - Eu?! Ora que coisa! Meu fim é somente provar que a sua infelicidade é toda fantástica. Ontem a Tessa falou-me a seu respeito, com tanta ternura e por tanto tempo, que daria assunto para um livro. - Minha sogra! - Meu filho! As lágrimas se misturaram. O Arthur Lourenço, de vez em quando, dava pequenos gritos que pareciam grunhidos de um animal bravo engaiolado. Bruscamente, reagindo contra a comoção, disse: - É incrível, D. Rita, que a Tereza fosse gerada nas entranhas de uma criatura tão boa. A senhora tem muito coração. Tem muito. Não posso deixar de reconhecer. De súbito, seus olhos ficaram sombrios, parados no espaço. Depois resmungou: Angústia 163
- Sou muito desgraçado! Não há maior derrota para um homem de sentimento do que o desprezo da mulher que ama. - Mas ela o adora! - Meu desejo é que ela morresse. Espanta-se? Ofendo, talvez, sua suscetibilidade? Por que treme assim?! Também eu tremo, com o mesmo frio. Este desejo de sangue se adivinhava mesmo nos gestos e nos olhares, que lançava à sogra, olhares sarcásticos, acompanhados de indignação também contra ela, a poderosa mãe, que em tudo lhe levava vantagem. Nesse momento, a Teresa completou o quadro, reunindo-se aos dois. Ainda encontrou o marido com o rosto mergulhado nas mãos, mordendo nervosamente o charuto. ** * Dias depois, a D. Rita, que fora passar algumas semanas em Petrópolis, na intenção de dar liberdade ao casal, esperando que, finalmente, fizesse as pazes, recebeu da filha a seguinte carta: - Mamãe. Não direi jamais que você não tivesse razão de me aconselhar a ser boa para meu marido, prevenindo todas as Angústia 164
decepções, por que eu teria de passar, no correr dos primeiros anos de casada. Para escapar a tudo que a sorte me determinaria, é que eu tenho encarado, pacientemente, a situação de minha vida. Tenho mesmo feito estudos especiais, mas acabo de me convencer de que o peso é muito forte para a fraqueza dos meus ombros. Não há bravura que suporte as esquisitices de um neurastênico. Ultimamente não posso mais ver meu marido, sem ficar tomada de uma sensação penosíssima. Às vezes, me parece que até a casa diminui, e o ar se acaba. Tenho sempre a respiração como um doente de asma. Sinto-me presa a um grilhão de ferro que me tira todos os movimentos. Cruel existência! A passeio não saio sem correr o risco de me sujeitar a sofrer mil decepções. Todos os homens, na opinião do Arthur, são meus apaixonados. Diz sempre que faço deles coleção. Quando, uma vez por outra, nos falamos, é somente para brigar. Que recriminações amargar! Só se eu fosse um monstro! Não que eu chegue à janela, que leia romances, que frequente bailes e teatros; não posso cantar nem tocar piano. Outro dia, arrebatou-me das mãos de um livro oferecido pelo primo Antônio, e o espatifou completamente. Angústia 165
Tudo que faço aborrece-o; é motivo para questão. Alguém bateu palmas no corredor, e ele, logo, assombrado, me disse: - Com certeza é o Ramos. Vá depressa para dentro, não quero que lhe fale. Deite-se naquela cama. Sem refletir, obedeci. O doido embrulhou-me toda, cobrindo-me com o lençol até à cabeça, e disse-me, ao mesmo tempo, no ouvido: fique bem quieta; não se mexa nem fale enquanto aquele pedante estiver aí. Se sair do quarto, mato-a! Mamãe compreende, isso é debaixo da ação do ciúme que ele fez, mas avalie minha triste situação. Eu que amo mais do que a vida a minha liberdade... E dizem que as mulheres são ciumentas! Que deverei pensar dos homens, se não posso mais nem ao menos me mirar no inocente vidro do espelho, que reflete a minha pobre imagem?! E não fica aí. Tenho de jurar todos os dias que, se porventura lhe sobreviver, não me casarei mais nunca. Ofereceram-me um vidro de extrato muito delicado. Assim que ele sentiu o perfume, arrebatou-me do corpo a blusa, e chamou-me de ímpia e regateira. Que queria eu com aquele cheiro atordoante? Era atrair a atenção dos homens?!... Não era para ser enganado que se casara! Prezava muito o seu nome. Dele ninguém zombaria. Angústia 166
Depois desta sincera exposição, mamãe acreditará ainda que se possa viver feliz, em companhia de um homem assim cheio de assomos? Andamos num verdadeiro caos; mal nos suportamos, passamos dias e dias sem nos falar. Se, porventura, nos aproximamos algumas vezes é somente para levantar questões. Muito a custo conseguimos dissimular, defronte dos estranhos, o estado de irritação, em que vivemos, e o mal estar encontramo-nos a todo instante. Qualquer incidente fútil, que cause o mais ligeiro atrito, por mais insignificante que seja, levanta a guerra medonha. Ninguém faz ideia. As respostas ásperas, resmungadas por entre dentes, acompanhadas de olhares demorados, onde nos medimos furiosos, como duas cobras que querem se morder, ou inimigos em momento de duelo, fazem lembrar, no meio dessa desregrada bateria, dois tipos de estalagem da mais baixa classe. E tudo isso misturado às descomposturas e aos gestos de desprezo desdenhoso, com que nos ferimos, cruelmente, e às discordâncias muito agressivas, onde cada um de nós, mais amargurado, teima com maior embirrância. É horrível; muito horrível! Para acender esta revolta, basta um laço ou uma flor no meu cabelo! Angústia 167
VI Enquanto a mulher desabafava o coração, escrevendo, à mãe, a carta que acabamos de ler, o marido se desolava, por outro lado, muito triste e atormentado. Até contemplá-la de perto, na inconsciência de qualquer distração, fazia-o irritar-se. Se a via vestida, simplesmente, sem enfeites, seus olhos ciumentos enxergavam enormes perigos no desleixo do traje caseiro, nos belos cabelos atoamente enrolados em forma de torçal no alto da cabeça, na blusa enxovalhada, na saia leve ou, mesmo, no braço que, às vezes, aparecia talvez da cambraia e das rendas. Quantas vezes, em solteiro, se extasiara, olhando as filhas e as mulheres dos outros?... Angústia 168
Quem sabe quantos também não ficariam agora pelas esquinas, esperando a sua querida Tessa, para obter sorrisos e olhares condescendentes? O grande desespero de sua vida era vê-la sair sozinha à rua. Só faltava morrer de se lamentar. Que costume absurdo! Devia ser banido. Saberei onde vai minha mulher? Um dia é a modista, outro o chapeleiro, o dentista, o médico... Há sempre razão para estar na rua. Como ela saiu, ontem, empunhando o rico chapéu de sol de cabo de couro! Nem se fosse uma deusa, não me olharia com tamanho desprezo, do alto de sua grande beleza! Agora é que conheço bem o enfatuamento das mulheres, e a razão por que Schopenhauer as detestava. – “Ser de cabelos longos e ideias curtas”. Que haverá de mais verdadeiro?. - Mas onde terá ido a tonta, a grande leviana?! Com certeza, com aquela proa, vai por aí, arrastando olhares... Miserável situação... Por que existe o mal? Terrível ser, grave obstáculo a se antepor a tudo o que é perfeito e honesto, conseguindo elevar-se às maiores alturas, devasta, acaba tudo, faz a desgraça... Angústia 169
Entretanto, por que deixar de reconhecer que a procedência deste mal, que me mata, e me acabrunha, foi nascida do bem? Unicamente esta contradição gerou-se pela impotência de ser feliz. Nenhum mal sobreviveria, em mim, se a contrariedade não se antecipasse com tanta força no meu caminho. Quem é que não sabe, que o princípio de todos os males é a impossibilidade do bem; que o bom, por melhor que seja, sobre-excitado pela traição ou por qualquer outra catástrofe, levanta seu punhal e mata, com o mesmo sangue frio de um criminoso de origem? Ainda não estavam esgotadas estas considerações, quando chegou a Teresa, que acabava de ouvir a missa em São Francisco de Paula. Era a hora do almoço e ela, sem tirar o traje do passeio, sentou-se à mesa. - Por que não se despiu? - Por nada; demorava muito o almoço. - Esteve com sua mãe? - Não. - Que livro é esse? - Um livro à toa. - Onde esteve? - Em muitos lugares. - Por que não me diz logo onde foi, por que esse mistério? Angústia 170
- O senhor nunca me diz onde vai. - Sempre desamável! - Não consinto, absolutamente, que me fale assim. - Por que não? Quem será capaz de o impedir? - Eu! Eu! Está ouvindo?! - Presunçoso! É para rir! Quem é que o teme? É melhor conter esse entusiasmo; veja que o almoço está esfriando... - Que mulher teimosa!! Que prazer em me enraivecer! Então não me diz onde esteve?! - Não, absolutamente. - Realmente é horrível esta contingência! Era melhor um divórcio. Isto não é mais vida, é inferno! Aceito, com muito prazer, a proposta, disse ela, erguendo-se, mansamente. Duas cadeiras caíram, quando passou por elas. Apanhou o chapéu de sol, e, sem mais se voltar para o marido, abriu a porta do quarto de vestir, consertou, ligeiramente, os cabelos, compôs o rosto com o pó de arroz cor-de-rosa, tudo isso sem precipitação, e depois saiu de novo a passeio, deixando marido interdito, frio de raiva, sentado no mesmo lugar, junto à mesa, engolindo a amargura desse desdém. Angústia 171
VII A desavença, a que assistimos no capítulo anterior, não devia ser conhecida, porque se passou quase entre pessoas da família. Mas o que é que não se sabe, num arrabalde pequeno, onde as paredes mais grossas têm ouvidos abertos? Durante muitos dias, não se falou noutra coisa; era o assunto da moda por toda a vizinhança. Quanto maior é a monotonia, mais animados se tornam os acontecimentos, porque mais vulto adquirem as coisas, principalmente as tragédias, que sempre encontram devotados apreciadores, em toda a parte do mundo. A própria necessidade de convivência une, irresistivelmente, os mais desconhecidos, estabelecendo depressa correntes de íntimas e animadas relações. Angústia 172
A novidade corre, como a água do rio, que desce direita, sem nenhum tropeço, até cair na bacia, em que se vai repousar. Cada um faz, a seu gosto, o esboço mais vibrante ou mais pálido, conforme o seu temperamento. As narrativas se sucedem, surgem os segredos mais recolhidos, e também histórias de fatos, que jamais se deram. São tantas as emoções e tão vivo o desejo de saber que acompanha a humanidade, que, dificilmente, ela se detém nos caminhos silenciosos. Uma grande quantidade de leitores não compra o jornal, senão para se envolver na tristeza dessas ocorrências. Não há, por isso, eu penso, nenhum motivo para censuras. É o império inconsciente de toda a criatura humana. A curiosidade nem sempre é despertada pelo sentimento da maldade, geralmente não é mais do que o movimento irresistível de um interesse muito simpático, ao qual todos os vivos se ligam, naturalmente. Na vida de passeios diários, são muitas as ocasiões de encontros; em regra, ninguém, a não ser algum místico, vive assombrado a esconder sempre o que sabe. Há um grande gozo na transmissão dos pensamentos, como na exibição de lindos trajes, entre as senhoritas modernas. Angústia 173
Nos encontros rueiros, cada um vai dizendo o que sabe sem intenção de espécie alguma, somente para se expandir, agradar, desforrar as horas tristes, que passa no embrutecimento de trabalhos pesados, às vezes, unicamente por falar. Não há cálculo especial, no dizer nem no perguntar. Preferindo não ouvir nem falar, vão falando e escutando, eternamente, passando uns pelos outros. O sacrifício aqui é duro, porém, acolá, compensado por uma nota melhor. E, sem fugir aos decretos da sorte, sempre acompanhados pelo rumor confuso da vida, que se espalha por toda a face da terra, entretidos por milhões de mágoas, pesares ou alegrias, uns cuidando de si, outros do próximo, na eterna manobra de maquinismo revolucionário, todos correm agitados, comem, bebem, sofrem, ou se arrastam, muito simplesmente, cheios de placidez, de sossego, e descuidados, como autômatos, ou folhas que se desprendem das árvores. Se os fracos hesitam, os fortes avançam agressivos, e correm até pisar na cabeça dos outros, embora cheguem todos, da mesma forma, ao mesmo fim, caindo, ao mesmo tempo, na mesma morte miserável, pelo mais simples incidente. Não nos devemos, pois, surpreender muito com a desenvoltura da língua humana. É a vida executando suas grandiosas funções. Angústia 174
Demais, se os segredos abriam as portas da rua e iam respirar por fora, é porque, dentro de casa, agitação era muito grande. Sempre revoltados, os dois, como se fossem a cascata, que vem, em furioso desabar, rolando formidável, sem que se encontrem meios de sustê-la, viviam em uma luta sem fim. O marido, todos os dias, quando atravessava os lindos salões de casa, ia encontrando, a cada instante, espaços solitários, no meio da triste visão de sua existência deserta, sem saber até aonde o conduziria este presente sem futuro. Queixava-se, amargamente, da sogra, a quem atribuía uma grande parte de seus dissabores. Perdoava, alguns momentos, a mulher, julgando a vítima inconsciente, como inconsciente também era a mãe, por causa do mesmo amor que votava à filha, amor que formara, de cada lado, uma barreira muito dura, onde seu coração se despedaçava, completamente. Não se cansava de dizer, a quem o quisesse ouvir: os meses, que vivemos sós, eu e a Teresa, foram de festas, uma união absoluta, coberta de flores e alegrias. Cheguei a acreditar na verdadeira felicidade. Pensei que tivéssemos formado uma alma, que era o universo completo. Entretanto nada mais vejo senão miragens; o paraíso adorado se fechou para sempre. Angústia 175
A simples análise do que me aconteceu faz-me passar por comoções desesperadas, como se eu tivesse caído, de repente, num inferno, onde somente existisse a dança medonha de fantoches muito odiosos. Também não se importava de ser franco: monstro ou mulher, a amava ainda, apaixonadamente. Aquele que me ama e assegura, firmemente, que não ama, é o pior de todos. Esconde, na aparência indiferente, a força invencível, que o arrasta para o mal, abaixando a cabeça, como um pudico, por qualquer palavra, que se pronuncia. Eu não sou assim. Meu amor é honesto. Se sou mau, foi inconscientemente, que me tornei assim, sou um instrumento ativo e passivo de minha mulher e de minha sogra, porém, debaixo de toda a fatalidade que me pesa, confesso, sem rebuços, que minha alegria ainda é acompanhar, através das noites sombrias de minhas desgraças, o vulto querido deste meu grande amor, e revolver o cinzeiro do passado cheio de tanta felicidade. Angústia 176
VIII Em dezembro, pelo Natal, o Rio de Janeiro tomou, como em todos os anos, o sorriso alegre, com que sempre recebeu a encantadora festa de Jesus. Também, nesse dia, saí à rua, e me demorei alguns instantes no Colombo, onde se aglomerava, àquela hora, uma grande quantidade de pessoas, umas em redor das mesinhas de mármore, outras pelos balcões, carregadas de embrulhos, e ainda a se sortirem mais de bolos e guloseimas. A confeitaria regurgitava, não havia nem um lugar desocupado; estava por toda a parte um rebuliço enorme se misturando às vozes, que ressoavam em todos os tons e por todos os lugares. Ficamos eu e meus companheiros de passeio indecisos, a pensar num outro ponto diferente, para fazermos o nosso lunch. Angústia 177
Não tínhamos ainda tomado nenhuma resolução, quando o tempo, que estava muito bom, se fechou, caindo, em seguida, uns chuviscos muito falhados, que mal borrifavam as ruas. Nesse momento, desocuparam-se algumas mesinhas, tomamos assento em uma, na extremidade da sala, e aí ficamos, uns minutos, sem ser servidos, olhando a multidão. Como eu estava de costas para o lado da porta, não podia, a princípio, distinguir os que entravam, senão refletidos na luz do imenso espelho, que me ficava fronteiro, mas percebia logo o movimento dos olhares. De repente entrou qualquer pessoa que fez sensação. Todos se voltaram. Instintivamente, também me voltei. Era a Teresa. Vinha caminhando direita, sem timidez, pisando firme, deslizando o passo airoso, como se andasse em sua própria sala de visitas, porém, distraída e pensativa, não prestava atenção a ninguém, tal qual a vi pela primeira vez. Nem mesmo parecia reparar no desusado movimento de toda aquela população de comedores, nem na amostra dos doces mais tentadores, alguns colocados nas vitrines, outros enfileirados em caixinhas, feitas aqui nesta capital uma grande quantidade, outras no estrangeiro, penso eu; tudo muito lindo e de pleno acordo com o gosto do freguês. A criançada galante escolhia os chocolates, com muita viveza, entre o sussurro de vozes e o oscilar dos ventiladores, Angústia 178
que rodavam nos tetos e nas paredes, fazendo flores e plumas de chapéus de senhoras flutuarem muito alegres, como se também fizessem homenagem ao Natal querido. O sol penetrava escassamente, nesse dia, no salão, mal iluminando o seu interior! Entretanto desenhava, perfeitamente, toda a sua grande beleza, desde o chão forrado de mosaico até às paredes cobertas de espelhos, onde o perfil dos elegantes se movia, graciosamente. Entrou ali sozinha, como uma mundana. O traje não atraía a atenção pelos enfeites, mas o seu lindo torso aparecia dentro de um verdadeiro limbo de beleza, tão grande mesmo, que era difícil se conseguir desviar a vista. Esta atração tinha raios, que se espalhavam por todo o recinto do vasto salão, como o sol, quando se projeta através dos vidros de um espelho. Desde que ela penetrou na confeitaria, percebi o rumor de algumas vozes, e os olhares maldosos de uns quatro indivíduos. Enquanto me demorei ali, não a perdi de vista, mas sempre com muita discrição, e, finalmente, saí sem que me visse. De longe, me voltei com a mesma cautela, para ter o prazer de a admirar de novo; parece que até a plumagem do seu chapéu de gaze correspondia àquela grande formosura. Angústia 179
Diversos homens e mulheres moças, alegremente, saíam e entravam na confeitaria. Umas feias, mal trajadas, outras interessantes ou, simplesmente, bem vestidas, passavam, sentindo-se acompanhadas de olhares interessados. O que me comoveu muito foi avistar, quando saímos, na casa Schmidt, quase fronteira à Colombo, o Arthur Lourenço, olhando, maquinalmente, os diversos penteados que estavam no mostrador. Abaixei depressa os olhos e disfarcei que não o vira. Momentos depois, me alcançou na rua do Ouvidor. Bem senti que procurava uma ocasião propícia para me falar, naturalmente queria um conselho, desejava abrir o coração, contar alguns pormenores de sua vida. Mas conversamos muito pouco, um amigo inesperado entrou na palestra. Felizmente. O meu constrangimento era tão grande que eu preferia não saber coisa alguma. No largo do Rocio, ainda o encontrei; seus olhos, sua grande tristeza me disseram claramente: Nestes dias de festa de Natal e Ano Bom, em que a população vive sobre-excitada com as alegrias e os divertimentos, proporcionando-se uns aos outros, na calma suave da amizade, as homenagens e as distinções, a enviar saudações e cumprimentos aos preferidos, somente eu não posso me dirigir àquela que amo. O movimento acelerado dos que subiam e desciam para tomar o bonde o embeveciam muito. Angústia 180
Andava longe de tudo; no seio desta saudade, até a miragem da vida não lhe aparecia mais com a mesma nitidez. Em redor de nós, estava uma grande alegria, contrastando com o nosso grupo colocado na calçada do passeio. Não sei que fim levou a minha expansão. Uma vez por outra, eu passava, atentamente, os olhos pelo jornal, que comprara, havia pouco, depois ficava muda e contrafeita, sempre a examinar, de momento a momento, o bonde que tentava tomar. Quando ele me disse adeus, foi uma despedida fria. Naturalmente, aos seus dissabores, juntou mais este contra mim, pensando em que os seus sofrimentos me eram indiferentes. Angústia 181
IX Os divorciados continuavam morando juntos, na mesma casa, passando a pior vida possível. As chuvas muito frequentes, durante todo esse mês de março, ainda mais entristeciam e entediavam os desgraçados. Nenhum deles era mais o mesmo. O Lourenço tornara-se uma figura imponente e cheia de tanta gravidade que inspirava respeito. A mulher, sob o aspecto da calma, que afetava, vivia também muito enlanguescida, e não tocava mais com aquela ruidosa vibração de outrora, passava mesmo dias inteiros, sem abrir o piano. Cosendo, com a cabeça sempre abaixada para o bordado, é que, às vezes, cantava, como se fosse um rouxinol preso, que, impossibilitado de voar, traduzisse seus sofrimentos, apenas enchendo o espaço de harmonias sentidas, ameigando a voz e extravasando toda a sua tristeza, naquelas notas saudosas, que pareciam mais o salmo de um romance sem palavras. Angústia 182
No silêncio desta casa, que parecia vazia, somente os passos pesados da D. Rita, carregando o neto, ressoavam pelos corredores, que entravam para os aposentos. Tudo mais eram ruídos muito vagos: o choro da criança, o bater de uma porta arrastada pelo vento, os latidos da Censinha amedrontada, farejando as plantas do jardim, e, raramente, o som muito abafado do piano, quando a Teresa tocava. Era somente o que lhe restava da família! Não se sentia mais em sua casa. Entretanto, por que se acabrunhava, por que, em lugar de fugir dessa horrorosa cadeia, que lhe parecia ainda mais lúgubre do que a masmorra do criminoso, não ia viajar, correr terras, distrair o espírito, esquecer todo este martírio, no envolvimento de outras ternuras, de outras ilusões?! Tantos mundos de prazeres, tantas esperanças que a vida lhe prometia noutros climas, noutros cantos mais indulgentes... Primeiro, conheceria a Itália, o país divino, onde nasceram seus ascendentes. Seu pai era napolitano e bairrista apaixonado. Dizia-lhe sempre, com muito ardor: ver Nápoles e depois morrer. Mas seu coração preferia Veneza, berço de sua mãe, e também seu, o maior encanto do universo, onde o observador é, bruscamente, despertado, defronte de belezas fascinantes. Angústia 183
Com que alegria atravessaria, de novo, o Adriático, sentindo a umidade suave daquela cidade, única na formosura artificial, aparecendo, no momento em que ali se entra, modestamente velada pela bruma, como um fantasma encantado, que surgisse, misteriosamente, das entranhas da água. Teria seis anos, quando deixou Veneza. As recordações do seu querido país eram tão vagas, fugiam-lhe tanto que, às vezes, dificilmente as reunia. As poucas cenas que ainda lhe vinham ao espírito passavam, sempre, em rapidez vertiginosa. Assim que as avistava, já se desfaziam, como nevoeiros de fumaça. Do que, absolutamente, não se esquecia era das gôndolas ligeiras, pequenas barcas muito esguias, pintadas de preto, que passavam, de instante a instante, pelos canais. Tudo mais, que procurava distinguir, ficava muito longe, muito confuso. Crescera sem pensar em Veneza. Agora, a todo instante, lhe partia do fundo da alma um apelo. Esta imensa nostalgia da pátria desconhecida o arrastava a um mundo de sonhos, que o transportavam a mil paragens, como se tivesse vivido muitas vidas. Lembrava os escândalos que sempre provocara nos colégios, por causa do seu gênio turbulento, os amigos pequeninos, os brinquedos, os prêmios, e até as decepções por que passara, nessa quadra do seu desenvolvimento. Angústia 184
Lembrava os escândalos que sempre provocara nos colégios, por causa do seu gênio turbulento, os amigos pequeninos, os brinquedos, os prêmios, e até as decepções por que passara, nessa quadra do seu desenvolvimento. Depois se apresentava a família de seu pai, toda a tragédia de uma obstinada oposição ao seu casamento, e a luta medonha para a realização dele. Também, entre essas recordações, um rosto suave se projetava, insistentemente: seu primeiro ensaio de amor... Não passara isso de um esboço informe. Os pais de ambos é que se empenhavam por essa aliança, que lhe repugnava. Nem se comovera, quando lhe disseram que a Laurinha derramara tanta lágrima, por causa de sua ingratidão. Fartara-se de rir no último dia em que se encontraram. Tão despeitada estava! Nem o cumprimentara, passando por sua frente, muito vermelha e carrancuda, sem sentir que o leque lhe caíra da mão; com muita galanteria fora apanhá-lo; dera alguns passos, porém, ela, enraivecida, pusera, precipitadamente, o pé em cima. Gostando de a ver zangada, fingindo não dar pelo seu movimento impetuoso, curvara-se, e apanhara sempre o leque muito machucado. Angústia 185
Nesse momento, a Laurinha fizera o mesmo movimento, para lhe tirar a glória; as mãos se tocaram e as cabeças se ajuntaram. E o beijo que lhe roubara, quando apenas contava oito anos? Muito linda, viera mostrar-lhe um colar, que lhe dera o pai. Segurando-a, bruscamente, beijou-a nas duas faces. A querida, envergonhada e, ao mesmo tempo, ofendida, caiu por cima do seu próprio ombro, chorando muito alto. Depois, readquirindo a calma, se pusera a fixá-lo, demoradamente, com uns olhos furiosos, a boca abotoada e o rosto amuado. Mais tarde, nem pensava mais na Laura, quando sentiu, nas costas, uma grande pancada: - Seu bruto! Agora, sim, estou vingada... Outrora, quando essa fugitiva passagem se lhe apresentava ao espírito, achava-lhe muito graça. Presentemente, sua miragem tinha encantos, que o perseguiam, ocupando-lhe até o mais recôndito da alma. Nunca mais se encontraram; porém o passado revivia por qualquer motivo. Ainda nesse mesmo dia, querendo provocar um escândalo, ele a olhara, atrevidamente, dando a entender que a beijaria, de novo. Não estavam sozinhos, mas ela se perturbara muito, e entreabrira os lábios, como se fosse falar... Angústia 186
Teria, por acaso, atravessado pelos olhos da Teresa aquela ternura que fulgurava, no momento da despedida, nas lindas pupilas da inocente Laura? Hoje, está a bela criança casada, muito feliz, com certeza, nem se lembra dele, nem se comoveria, se o encontrasse... Fora um grande desastrado, muito depressa, colhera o prêmio de sua pesquisa de sonhador. Que será o amor, essa palavra aérea, para não dizer sinônima de exploração, que fazem os pais, com as próprias filhas? Consideram que elas são, apenas, predestinadas a ser mães, e a gozarem muito pouco das alegrias do universo. Para se livrarem de trabalhos mais pesados, impelem- nas depressa ao casamento, colocando-as de amostra, por toda a parte, como os veludos e as fitas nos mostradores, esperando que as venham escolher. O que mais lhe ensinam, é serem vaidosas. Há moças espertas e inteligentes, que passam além das regras, e sabem tão bem manejar, com os instrumentos de sua arte de namoradeiras, que mal jogam a isca, o peixe cai no anzol. Casam sem amor, só por casar, e continuam a mesma vida desregrada, de namoros, para se distrair, encontrando sempre quem as incite a essa perversão. Estava muito cansado de ouvir, todos os dias, a mesma história do amor, falada e cantada. Angústia 187
Estava muito cansado de ouvir, todos os dias, a mesma história do amor, falada e cantada. Este odioso amor não passa de uma refinada especulação. Cada amante tem uma crônica, mas ela é sempre a mesma, dividida, cinicamente, em duzentas, trezentas, milhões de formas, fazendo sobressair o destroço remendado desta decadência da humanidade, que jamais será perfeita. Uns cedem, por fraqueza, outros, por curiosidade; mas o que é verdade, é que somente o progresso da ruindade se dilata, vence e domina. Caí num inferno; o pior demônio que encontrei foi minha mulher. Que lhe perdoassem esses gritos, que lhe saiam do coração. Não era um indivíduo odiento. Se batia no assunto, era para expandir-se, mas não para fazer prosélitos. Cada um fizesse o seu estudo sobre a vida, nada mais queria nem tentava, deixava-se levar, arrastado por uma saudade pertinaz, que lhe vibrava no cérebro, como o sangue nas artérias. Se alguns momentos, sob o impulso de recordações, ainda vivia, geralmente, não era mais do que um doente, carregado pelas reminiscências visionárias, que se consolava ao menos, porque não era, dos doidos que passavam pela vida, o mais doido. Angústia 188
Sabia que o mundo inteiro não era mais do que um vasto hospício. De dez em dez, dos infinitos grupos de peregrinos, tirava-se um equilibrado. Observassem; nem precisava um grande trabalho, para se destacar o quadro de desmiolados, cada qual com a sua ideia fixa, mas pensando sempre que é o mais ajuizado... Um passa o melhor do tempo a sonhar com tesouros, outro, pobre diabo, carregado de esteiras velhas, arriba a cabeça para o impossível, e, depois dos pulos mortais, pelas barreiras de espinhos, morre de fadiga. Coisa alguma, geralmente, conseguem, entretanto não foi pouco o prazer de conduzir à sepultura a miragem do seu obstinado sonho. Muitos desses infelizes são maus, e esses são os mais desgraçados, porque empenham até a vida para obter o que lhes não pode pertencer. Toda a alegria alheia é sempre olhada com desdém, e a sua ventura é contemplar o sofrimento. Não fosse essa perversão de ruins sentimentos, que fermentam na alma, e não existiria nem o ódio nem a inveja, que chega às mais cruéis violências, e que se acaba em medonhos desesperos, mesmo os mais tristes e desarrazoados. Ninguém se compreende, e todos, somente, descobrem a felicidade nos outros. Raramente, o bom se encontra com o bom; é sempre um sadio e um doente que se encontram, não se ligando jamais pela absoluta falta de compatibilidade. Angústia 189
Na contemplação monótona das coisas, que se iam passando, e na indiferença de tudo que o cercava, talvez que, mais depressa, achasse a essência primordial da sua ideia, reduzida agora a um cadáver mirrado, prestes a apodrecer. Que lhe importava o nome de egoísta?! Não queria acabar com o casamento. A família é a paz e a harmonia. O que, absolutamente, não amava era a convenção social. Queria um meio mais sólido de educação, que livrasse a humanidade dessas desordenadas falsidades, como lhe acontecera quando caíra no laço, que lhe armara a ingrata esposa, a sistemática, o aleijão, a quem a terra toda pareia pertencer, pelo muito que se valorizava. Admitia que a presunçosa se amasse; esta é a maior satisfação da vaidade humana. Levar, porém, esse amor ao ponto de sacrificar a família, era uma coisa horrível; por mais caprichoso, nenhum homem teria coragem de extinguir, dessa forma, os sentimentos da mulher. Não era ciumento. Naturalmente, teria coragem de matar o homem que a pretendesse amar. Faria isso, apenas, para defender a honra. Não se deveriam deixar, sem castigo, faltas desse teor. Se o homem as comete, é porque tem direito. Em vão, a mulher tentará se assenhorear dele, escrava, bem escrava, até a hora da morte. Angústia 190
Por que será que a mulher temia em se erguer, quando sabe, perfeitamente, que é vencida?! Que queriam as enfatuadas, além dos adornos e o lugar de imperatrizes, em casa dos maridos? Não fora o filho, e o seu divórcio seria judicial. Nada queria das riquezas de Tessa. Tudo lhe seria entregue, como recebera; ações de companhias diversas, cadernetas de caixas econômicas, de bancos; joias, dinheiro, tudo, tudo. Que satisfizesse a sua luxúria... Estas expansões eram sempre o seu assunto mais favorito, principalmente quando se exaltava com as bebidas em que, ultimamente, se ensaiava. Não se embriagava, mas ficava muito diferente. Às vezes, muito terno, a comoção se lhe despertava com facilidade, por qualquer cena tocante. Quanto mais se sentia abandonado, mais fazia festas à Censa. Era ela sua maior afeição, e a mais sincera no mundo; também não queria mais. Censa era um anjo. Que castidade igualaria a dela? Belos olhos castanhos, tão grande! Nem as estrelas eram mais límpidas, nem o céu tinha luares mais doces... Filha de seu coração, compreendiam-se, perfeitamente, tinham, à parte, um universo, onde não enxergavam nem palidez, nem brilho de sol. Angústia 191
Tudo que os cercava era morto, vivo somente era aquela grande amizade. - Teu corpinho redondo trescala perfume saudável. Filha querida, voemos, assim presos a esse laço de amizade pura e sincera, que nos conduzirá através de espaços desconhecidos, saboreando, aos goles, a imensidade desta doçura, que nos enleva, nas solidões do nosso deserto, onde, pressentimos, apenas, a sombra esbatida de nossas figuras muito humildes e pequeninas, confundidas com a imensa natureza. Não há um vivente, em redor de nós; ouvimos, apenas, o ruído de seres, que se amam na tristeza comum da vida terrena. Nossa amizade é muito diferente; penetramos e sentimos mais do que os outros. Por acaso, se encontrarão olhos mais inteligentes do que os teus, criatura adorada? Eles são os maiores reveladores de tua grande alma. Serás, de hoje em diante, o ideal ante o qual me prostarei. Tuas lindas pupilas têm luz, para alumiar um mundo de corações, e poder, para abrandar as dores mais fundas. Se o coração humano muda tanto, o teu sabe amar sem cansaço. Somente os cães são fiéis e se sacrificam pelos amigos. Tudo isso o Arthur dizia à Censa, excitado pelos sofrimentos, porém muito convencido. Angústia 192
Entretanto, através da luz dessas pupilas meigas, divisava o mistério dos olhos da incompreensível Teresa, que eram ainda mais ternos e encantadores. Angústia 193
X Há muita gente que se compraz em fazer sofrer, como se sentisse uma especial volúpia, gozando o padecimento alheio. Nestas condições, estava um dos amigos do Arthur Lourenço. Não tendo o que fazer, tirou-se dos seus cuidados de eterno vadio, e foi visitar o Lourenço, que andava um pouco mais calmo, cogitando meios de sair do Rio, com a mulher, e fazer um ponto naquela desarrazoada contenda. Aliás, seu maior desejo era a separação da D. Rita. Quando estivessem longe dela, os dois, tudo se restabeleceria em paz. Esta perspectiva consolava-o tanto, que até andava mais alegre. Não podia, absolutamente, conceber um plano de felicidade, sem a presença da Tessa. Pensar em separar-se era absurdo. Angústia 194
Prendia-se tanto, àquela afeição, que abandoná-la... Seria melhor morrer. Nem mesmo a própria casa, onde viviam, há tanto tempo, se animaria a deixar. Ali estava tudo o que amava. Nada mais o seduziria na vida, senão o encanto e a graça daquela mulher, que o torturava. Preferia viver perto do seu martírio, tendo, ao menos, o prazer de a ver, e de sentir a força de sua indiferença. Andava assim, quando o amigo lhe bateu à porta, às oito horas da noite. Nem houve um demorado torneio de palavras; o cínico, tomando ares de protetor, disse, brutalmente: Sabe, Lourenço, o que falam por aí? Afiançam que o Marcos não é seu filho, e, sim, dos Filgueiras... Surpreendido, porém sem mostrar nenhum espanto, o Lourenço olhou para o outro, como se não tivesse entendido coisa alguma. Apenas pareceu-lhe que uma grande parte do quarto, em que estavam, desabara, produzindo um ruído metálico, muito esquisito; depois visou, na extremidade da parede, onde se dera o fracasso, um rombo enorme, por onde vinham passando milhões de insetos pretos, zumbidores, providos de asas transparentes, que se alongavam à medida que esvoaçavam, formando bandos fantásticos, em redor de todo o aposento, se transformando, por fim, numa grande nuvem denegrida, que se movia, lentamente, de um lado para o outro. Angústia 195
Minutos mais tarde, sem que seu rosto nada expressasse, viu, nitidamente, o verdadeiro quadro, que se desenrolara defronte de seus olhos, mas guardou profundo silêncio, como se devesse concentrar-se, para contemplar melhor a perfeição do desenho, que lhe mostravam. - Lourenço, não foi para lhe fazer mal que lhe contei isso; foi, somente, para que se acautele. Muita gente anda comentando... O Lourenço, com o cérebro estalando de dor, guardava ainda silêncio. O amigo insistia na cruel narrativa: custei muito a acreditar, muitas vezes afirmei que a D. Tessa era inocente. Como toda mulher vaidosa, gostava, apenas, de acender paixões, mas disso não passava. O infeliz marido levantou-se, duas vezes, e, duas vezes, caiu, pesadamente, na cadeira. Primeiro, ficou lívido, como se fosse um cadáver, depois enrubesceu tanto, como se estivesse prestes a ser fulminado por um ataque apoplético; mas, dominado por esta grande comoção, não conseguia falar. Os olhos sombrios, injetados de manchas vermelhas, percorriam, aereamente, os objetos, enquanto as mãos se retorciam, fazendo movimentos muito esquisitos, como se estivessem crivadas de espinhos. Por todo o semblante, estendeu-se o sentimento do seu íntimo desgosto; ao mesmo tempo, um cansaço físico e moral o empolgava de tal forma, que o fazia perder a consciência e cair em verdadeiro estado de estupidez. Angústia 196
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