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Trilogia de Amélia Beviláqua

Published by mestradocomunicacao2021, 2023-03-01 19:43:44

Description: LIVRO COMPLETO (1)

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VI Jeanete, a visita indesejável, quando estavas no ponto mais interessante de tuas narrativas, não será, de forma alguma, solução para se findar a palestra incitada entre nós. Terei grande prazer de saber o resto desse idílio... – É mesmo. Eu não gosto de segredos. Entretanto, mal compreendo porque está pleiteando, com tanto empenho, esta demanda pueril, sem proveito. Mas... o Sr. quer, recomeço: Ficamos, alguns minutos, nos olhando enleados. Nossas palavras, no silêncio do aposento, mal se percebiam. A mão, que ele me estendeu, estava muito trêmula e gelada. Não conseguimos romper o êxtase desse acanhamento, que se apoderou do nosso ser... Levada por uma espécie de Jeanete 247

magnetismo, acompanhei-o até à porta. Repentinamente, dominada por esse encanto, senti uma espécie de vertigem... Atordoada, inconsciente, encostei-me ao seu ombro; se não fosse um rápido movimento de minha parte, ele me teria beijado. Quando se afastou, sem que eu o seguisse mais, fiquei paralisada, na inércia de quem desperta de um pesadelo. Sentei-me, caí antes sobre o sofá, que estava junto à porta de entrada. Nesse momento, deparei com um pequeno envelope, contendo um cartão de visitas, onde se gravavam o seu nome e a direção de sua residência... Porque fiquei agitada, num verdadeiro alvoroço, o coração batendo descompassado, nem sei dizer. Esse beijo, que esteve tão próximo, lembrado agora, na solidão, me trazia um tormento horroroso. Minha vista estava sempre a seguir a silhueta fugitiva do jovem Leonardo... Esse belo homem, surgido assim, fantasticamente, na minha vida, adorando-me como se fosse verdadeira santa, pareceu-me a maior de todas as conquistas, que o seio da terra pudesse conter. Orgulhosa e feliz, nem procurei mais me defender; entreguei-me, suavemente, ao sonho da inesperada ventura, que se apossava de mim, enaltecendo, glorificando minha alma e a alegria em florescência. Foi esse o meu romance; não vi mais o jovem Leonardo. Jeanete 248

Por muitos meses, voltei à janela, espreitei os arredores... Às vezes, no tremor das folhagens, nos ruídos misteriosos dentro do silêncio das noites intermináveis, nas sombras das árvores engrandecidas pelo esplendor dos luares do céu, nos fantasmas, que passavam, errando na tristeza, dissimulando as grandes misérias, parece que eu divulgava o rosto pensativo do querido Leonardo. Tudo, porém, era ilusão e se desmanchava docemente. Depois dessa imprudente narrativa, a linda Jeanete parou os olhos no espaço, como se ainda evocasse o passado e sofresse... Era demais... O Dr. Geleda muito desfeito, feições alteradas, enrubesceu profundamente. Jeanete 249

VII O desespero tomava posse de Jeanete; a ideia fixa de se vingar crescia... Possuindo a certeza da sua beleza, sabia também que o seu semblante se distinguia, e ainda o sofrimento, as inquietações mortificantes que o Dr. Geleda curtiria, com esta indiferença absoluta de sua parte. Os dias correndo se desenrolavam, lentamente, marcando as horas... Assim era a contenda ciumenta do casal Geleda, desde o fatal encontro da carta. A convivência íntima se transformou em verdadeiro lodaçal de descomposturas terríveis de parte a parte. O Dr. Geleda, apoquentado, não frequentou mais a repartição; rolava pelos espaços da sua principesca e formosa residência, em plena solidão. Um sorriso monstruoso, cheio de ironia e desdém, transformou a sua filosofia numa fonte horrorosa de ciúmes tempestuosos, Jeanete 250

mesmo doentios, a partir desse dia, em que o destino marcou a sua desgraça, deformando seus traços como se estivesse mascarado. Muito lívido, se desencorajava, deixando transparecer, nos menores gestos, ódio rancoroso, apatia completa por qualquer acontecimento. Entretanto, ao menor movimento dos olhos da Jeanete para a janela, rompiam as alusões desencontradas, a violência grosseira, o desejo até de matá-la... Pensava todos os dias na família e sobretudo na oposição que fizera aquele detestável casamento. Conhecera a grande alegria da liberdade e agora, que a sua sensibilidade magistrada sofria as maiores hostilidades, compreendia que possuía uma alma, estava sendo, injustamente, torturado pela mulher. Que lembrança da Jeanete em resolver meu passado; nunca lhe prometi fidelidade no longo espaço do nosso noivado. Se ela não conhecia os homens, para que se casou? Triste vaidade pretenciosa das mulheres... Infeliz de quem tem a desgraça de suportá-las... Depois dessas considerações, que fazia nos seus passeios solitários, ao longo dos terrenos, descortinando as paisagens, voltava devagarinho pelos mesmos caminhos, pisando na erva, sem fazer ruído; entrava em casa, de cabeça inclinada para o chão, como se penetrasse no santuário de um templo, se recostava à janela, observava a colaboração das sombras nas serranias, o ambiente verde, volácio e em geral Jeanete 251

cinzento, cercado de aspectos diferentes, que tomava a natureza... Quando se certificava de que estava, realmente, sozinho, tirava do bolso alguns escritos e, sofregamente, os destruía. Talvez fossem os vestígios do passado... Sem discutir suas visões, sabia, muito bem, que elas eram iguais para todos os homens, tendo apenas algumas alternativas nos instantes dos dias, que atravessava, tal qual os grandes nevoeiros suspensos nas alturas do firmamento... Nessas manhãs empalecidas, quando ele acordava muito encharcado de nervoso, o coração batendo anceiado, sob o peso de ásperos aborrecimentos, rodando o cérebro desconjuntado num torvelinho confuso, desbridava os sentimentos... A solidão foi sempre o melhor confidente para os infelizes, que procuram refúgio discreto. O Dr. Amaral Geleda amava se demorar nesse crepúsculo, retratando, na memória, panoramas, compartilhando os mistérios dos seus segredos. Desde então, os encontros de Jeanete com o marido eram incômodos, insuportáveis. Instintivamente, se esquivavam, percebendo que o laço conjugal estava partido para sempre. Era preciso a violência de um novo sentimento que visse, piedosamente, ainda aproximá-los. O Dr. Geleda não ousava mais falar-lhe nem mesmo para dizer a força da sua grande afeição. Neste desfraldar de paixões tormentosas, uma Jeanete 252

horrorosa fogueira de sofrimentos o surpreendeu, crepitando dentro da alma, precipitando-o repentinamente, como um doido, para a indefesa Jeanete – o ódio. Raivoso, enfurecido, o Dr. Galeda parecia desfalecer, quando a mulher o repudiava. Nesse dia, em que ela estava mais linda, representando a graça e a harmonia do seu conjunto, o torso de rainha da formosura o encadeou: pela violência, quis tentar o derradeiro golpe; desejava ouvi-la falar, fossem embora as suas confissões o seu maior martírio. – Jeanete, continua o teu romance de experiências; sei perfeitamente, que ainda existem segredos em teu coração; quero os detalhes; prossegue... – Disse tudo. – Não creio, exijo que fales, minunciosamente. – Pois bem; para que mentir? Meu coração era livre. Eu não o conhecia ainda, e era muito moça. Pode compreender quanto os sentimentos deviam ter sido superficiais. Prefiro, realmente continuar. – Então, ainda amaste outros homens depois do Leonardo? – Talvez... Os formatos do amor diferem muito. Há uma certa qualidade de criaturas, que, propriamente, não amamos, porém apreciamos e gostamos de estar em seu contato, ouvindo-as, lendo-as, estudando-as, interessando- nos por tudo que lhes diz respeito. A verdade é que o coração da mulher moça é atraído pela simpatia dos jovens, que lhe fazem homenagens... Jeanete 253

– Começas com evasivas... Desejo saber o resto dos teus amores... – É grave a atitude com que me fala! Se esta aspereza hostil continua, me amargurando, não falarei. – Vejo, desgostado, que, infelizmente, não soube inspirar-te a simpatia, que te inspiram os primeiros adoradores... – Não os amei; fui amada. – Estou convencido, já disseste muito para esticar o caminho; prossegue a narrativa. – Tem razão; vou ainda dizer qualquer coisa. A alegria da existência é muito diminuta, não é mais do que miragem; tudo concorre, sem cessar, para destruí-la. Um dia muito calmo faz aparecer a felicidade esperançosa; no outro desmaia, renega, humilha e somente nos deixa a angustiosa desgraça. Foi o que me aconteceu... Os homens de talento sempre me interessaram. Fui, em todos os tempos, arrastada pela força de uma fascinação incontida pelos artistas. – E vieste a casar com um indivíduo sem valor! – Contentei-me com a plástica, a mais admirável das filhas da arte. – Realmente! Estou muito triste. E me parecias tão meiga e ingênua, quando somente vejo viciosa namoradeira de profissão... – Deus do céu! Que martírio! – Terrível desabamento de sonhos... O teu ideal, ainda continua Jeanete? Jeanete 254

– Não! Tudo mudou... Presentemente, o Sr. Está de pleno acordo... Com os meus desejos... – Então, filha, pelo amor de Deus, não te demores em contar todas as tuas experiências de namoros. – Não vale a pena. Servirá esta confissão para o atormentar... – Pela minha honra, terei a mais suprema resignação. Conta, Jeanete, anda com isso. Morrerei, se não souber o resto. – Deixe ver se me lembro... faz tanto tempo... E a Jeanete, muito rubra, atrapalhada, inclinava pesarosa o torso admirável. É verdade, consigo recordar; mas... Essa nova evocação me entristece tanto... Pressenti qualquer movimento. Assustada acendi a luz e vi, então, perto de mim, em plena adolescência e formosura, um homem, que deveria ter vinte anos. Perfeitamente, disse trêmulo, nervoso, o Dr. Geleda, e depois? Fala mais depressa! – Eu tinha dezesseis anos, acabava de sair do colégio, nem mesmo um romance, um jornal que fosse, havia lido. Além disso, não contava com aquela surpresa. Ele merecia estar muito doente de amor por mim; entretanto, eu o olhava indiferente, sentindo somente o interesse, que me despertava os acontecimentos comuns, deparados nos bailes ou pelas ruas... – Sim, Senhora, muito bem, é uma história bastante comovente; não esqueças nem um pontinho, por mais pequenino que seja. Jeanete 255

A infeliz Jeanete falava com esforço, corando e empalidecendo, ao mesmo tempo; os belos olhos tinham vibrações estranhas, que se coordenavam as contrações dos nervos. Deitando-se voluptuosamente na cadeira de balanço, num impulso violento subia e descia, deixando brincar-lhe nos lábios um sorriso perverso, enquanto dizia, tristemente, como se falasse sozinha e quisesse afastar qualquer recordação impertinente. Ai, não quero mais resolver este cinzeiro do passado... Agora estou casada, as impressões são outras. Não tenho direitos, nem liberdade, presa a esta corrente... Seus olhos fixos e esmo, espreitando as longitudes numa espécie de êxtase, transbordavam, unicamente, amargura. Ouvindo, longe, as notas suaves de um piano, caindo, uma por uma, dentro dos seus ouvidos e, ao mesmo tempo, se derramando pelo ar, como as essências perfumosas de mil flores, tomavam, repentinamente, o formato de gotas de sangue e vinham tingir a claridade serena de sua felicidade... Era assim a sua nova existência, ao lado do homem a quem amava... Jeanete invocava todo o poder de suas forças vitais. Estava profundamente abatida, mas o orgulho a exaltava; a falta do Geleda se apresentava ao cenário engrandecida, revoltante, e ela voltava, insensivelmente, ao estatuário – a vingança – a palpitação secreta, a profundeza dos seus sentimentos de altivez humilhada, a dor que lhe ardia na alma, queimando seu coração, ritmando o sofrimento... Jeanete 256

Jeanete invocava todo o poder de suas forças vitais. Estava profundamente abatida, mas o orgulho a exaltava; a falta do Geleda se apresentava ao cenário engrandecida, revoltante, e ela voltava, insensivelmente, ao estatuário – a vingança – a palpitação secreta, a profundeza dos seus sentimentos de altivez humilhada, a dor que lhe ardia na alma, queimando seu coração, ritmando o sofrimento... Jeanete 257

VIII A Jeanete ia atingir o seu fim; estava certa desta vitória. Vivia numa excitação perene. Abandonava todos os pensamentos pela alegria de se vingar do ingrato. Andava por todos os lugares; ia e vinha da cidade, aérea, impenetrável no seu misticismo... Somente escutava a harmonia honrosa chorosa das brisas; via os passarinhos esvoaçando nas folhagens, a ternura das ervas rasteiras miseráveis, crescendo a esmo pelo jardim, sempre na iminência de serem destruídas... Falava aos céus. Ficava horas inteiras assistindo as transformações das nuvens... Compunha hinos à sua glória, que se aproximava; mergulhava nessa alegria, sentia a flutuação doidejante do intenso nevoeiro estendido na plenitude do seu caminho... Jeanete 258

Nesta bravia torrente de ódio e despeito, subiam tumultos de simpatia e de amor... O sol, que entrava todos os dias, as mesmas horas, na sala, os sons variados dos automóveis e outros ruídos, que chegavam à Jeanete, neste ondeante reverbero da existência, se balançando nas suas efêmeras vertigens, davam-lhe a impaciência doentia, tendências negativas de sensações contrárias. Neste ambiente de emoção feroz, acompanhava, por toda a parte, os movimentos do marido; naquele angustioso momento, detestava, a morrer, o homem, que havia amado até a adoração. O império e influência exercidos por ele sobre todos que o cercavam, também lhe despertavam aflição, na atmosfera de fingimentos, em que o sentia resolver- se e vivia sofrendo. Por muitas vezes, lhe faltava esta força de vontade cruel, pertinaz, que manda a si próprio, sem remorso nem receios, governando, e impondo também, os outros. Sentia-se fraca, deserdada de todas as energias, de que necessitava para entrar em guerra com o falso Geleda; sua existência tinha sido um verdadeiro desastre, desde o momento em que se unira àquele homem... A indulgência jamais existiu para ela, dentro dos resplendores do brilho venturoso do ser querido. Mesmo em suas carícias, o maior gozo do egoísta Geleda era hostilizá- la, tratando-a como pessoa de classe inferior... Por duas vezes, tinha certeza da tentativa, que fizera para extingui-la... Este tormentoso cenário voltava em seu cérebro... Entretanto, com Jeanete 259

que artifício fazia palpitar seu coração inocente! Que evocações de sentimentos penosos despertava em sua alma! Ai, continuava exortando a jovem casada, tenho sido a escrava de todas as suas fantasias caprichosas, o divertimento predileto... Agora, submetida, obediente, vejo surgir, do crepúsculo do seu passado incorreto, a lama denegrida, a desgraça irremediável, arrancando a minha felicidade, me despertando, na revolta horrorosa, todas as tristezas. Existência abominável, dor sem conforto, sentir pra sempre, o selo maldito, a desventura perpétua dos criminosos... Não terei remorso de fazer-te padecer... No egoísmo grosseiro da mocidade, conhecerás o mesmo desespero, por que passei, acorrentada à miséria, à indiferença, ao zelo cruciante... Quanto fui inexperiente! E, depois de tudo isso, terei de recomeçar?! Que tormento horroroso nessa nova existência de humilhações, assistindo ao florescer doloroso da ferida aberta em minha alma sempre estremecendo por ele... Não creio mais em Deus. Tudo na vida é mentira vergonhosa. O destino das mulheres é precário, absurdo, muito humilhante. Eu era imensamente feliz; partiu deste amor fingido o exaltamento do meu cérebro, a crueldade e o rancor desta vingança. Que importa? Pressinto, no ritual dos dias, que atravesso, olhares torturados, cheios de amargura, como se dissessem: não te inquietes, o sofrimento não é teu somente... Jeanete 260

Ai de nós! Todos envelhecemos, marchamos, fatalmente, para o nirvana... Prossegue Jeanete... Prossegue Jeanete... A feição da vida é esta mesma; nada sobrevive... De que servem as estátuas, os bronzes pelo meio das ruas, livros que esgotam e martirizam os autores, o bem espalhado por toda a parte? O ciúme é muito nobre... Leio ainda nas páginas de sabedoria de um religioso: Glórias, altas posições, grandes riquezas, nada segue morto, senão o esquecimento... Mas... A bondade, os seus atos de nobreza revivem, florescem... Jeanete! Jeanete! Clamava a litania dos espaços. Entretanto, no silêncio do coração da jovem casada, implacável se cerrava, como se fosse a pedra tumular da vingança estudada, o propósito de executá-la... Era curioso, estranhamente bizarro observar dentro da noite este estertor impassível de uma crença, que sofria, cantando a esperança de apaziguar os seus despeitos, filtrando lentamente as dores... Jeanete 261

IX Agora, a Jeanete, recostada à janela do seu aposento, contemplava, de furto, o marido, com um certo enternecimento, evocando a felicidade perdida. Despontavam os primeiros lugares do dia. Na meia obscuridade, passava ele tristíssimo. Não era o mesmo Geleda elegante, vigoroso, transbordante de alegria e beleza. Voltando a outras épocas, o encontrava sensível, razoável. Suas mãos, febrilmente, machucavam os ramos da trepadeira enroscados nas paredes, indo pousar no gradil da varanda... Desse crepúsculo ainda mal despertado, subia uma baforada sufocante que amedrontava. Talvez estivesse na iminência de rolar num abismo, sofrer ainda mais. Ela o amava muito; porém, o golpe era decisivo; queria vê-lo estonteado de ciúmes... Jeanete 262

Na intimidade da alma, de pleno acordo com a consciência, ligava, reforçando sempre o fio condutor da meada, que tecia maldosamente para atormentar o marido, ouvindo aplausos, gritos revolucionários de alegria: Viva a Jeanete. Viva a liberdade do espírito, a emancipação... A onda se encrespava muito exaltada, se derramando nos espaços de sua alma. Jeanete não escutava mais; pensamentos insensatos vociferavam, envenenando-lhe o cérebro. Era solene o enterro dessa felicidade que, naturalmente, não teria mais renovo. O Dr. Geleda, presente a Jeanete; volta ao salão de visitas. – Jeanete, eu sou um homem bem-educado, o que desejo é a tua amizade, sentir o encanto da tua voz querida, conservar ao menos, a ilusão da minha vida felicidade perdida, gozar o prestígio do passado nesta casa, que habitamos, feita para as nossas alegrias, que deveriam ter eternidade encantadora dos juramentos, confiança recíproca, ouvindo o mesmo bater de corações sinceros, nos momentos maravilhosos da nossa mocidade... Aceitaste a oferenda do meu amor; somos casados... E por que te revoltas contra mim? Jamais me esquecerei daquele dia formoso, em que a lei e a igreja nos ajuntaram. Entramos nesta casa, numa tarde de primavera; as flores embalsavam os espaços, nos céus as estrelas começavam a palpitar... O silêncio parecia emudecer Jeanete 263

toda a natureza. Na sua eloquência indecifrável, cantava, unicamente, a voz melodiosa do amor... Os dias se passaram... No primeiro alvorecer dessa ventura, vejo o negror da ilusão, a derrocada, o afastamento inesperado... – Não quero os seus agrados, para que esses beijos fingidos? Aceito o divórcio. Quero ser livre, estou farta de ser virtuosa... – Mas, antes disso, empenho o acabamento do teu romance amoroso. – Por que?! Se o Sr. Fosse mulher, essa impertinente curiosidade era razoável; sendo homem, não compreendo. Mas é fácil reacender essas páginas, sem nenhuma importância. Estávamos, de outra vez, naquele mesmo quarto, sozinhos. Ele me apertava, muito docemente, a cintura, dizendo coisas bonitas!... Jamais encontrara, em parte alguma, outra mulher mais linda do que eu, que era o meu ídolo, a sua alma, a visão adorada de sua vida. O senhor sabe muito bem do que são capazes os homens, quando desejam seduzir as mulheres... Eu, muito envergonhada, ouvia tudo calada; mas (para que ocultar-lhe a verdade completa?) aquela lisonja, a primeira que despertava os meus sentimentos, estava me agradando tanto... Nessa noite, quando ele segurou, muito carinhosamente, o meu rosto para beijar-me, submeti-me... – Depois? Tu o beijaste também? Jeanete 264

– Como se empenha em saber tudo, e entre marido e mulher, não deve haver segredo, confesso: beijei... Beijamo- nos, loucamente, nem sei quantas vezes. – Isso foi um ato de verdadeira depravação! – É verdade... Reconheço que fiz muito mal. Hoje, com certeza, não seria capaz de cometer esse erro. – Incrível! Incrível! Estou assombrado!... Como foste manchar tua pureza, recebendo o beijo de um homem, a quem não amavas, nem conhecias sequer! – Ele era o mais notável dos artistas e o mais belo dos homens. Fui, insensivelmente, atraída. Era muito criança e não o conhecia ainda... – Adiante, anseio por saber quantas vezes ainda se reuniram e se beijaram... Eis aqui a última recordação, que ele me deu por despedida, disse a Jeanete, abrindo, com os movimentos precipitados, o móvel de mogno, que estava a seu lado; e mostrando o cacho de cabelo do seu irmão mais moço, que estava naquele arquivo, havia muitos anos, fez resplandecer- lhe o brilho dourado na claridade, que os inundava nesse momento psicológico, em que a vida os separava, e olhou para o marido com os olhos inocentes... O sol se alevantava, suas contas de ouro caíam luzindo na cabeça loura da formosa Jeanete. O Dr. Geleda passou a mão trêmula, desajeitada, pelo rosto, enxugando o suor frio, que estava escorrendo, e disse contendo os movimentos raivosos? Deve faltar alguma coisa... Jeanete 265

– Nada! Que havia de ser?! Disse tudo; ainda não está contente?! Assim é demais... – Faltou o nome! Como se chama este? A senhora Geleda enrubesceu; abaixando os olhos, curvando a cabeça numa atitude muito impressionante, respondeu: – De que lhe serve esse nome, se o desgraçado é morto, há dois anos? – Com tudo, apraz-me saber... Novas hesitações e prolongamentos de silêncio, que bastante irritavam o Dr. Amaral Geleda. – Jeanete, por que esta perturbação tão grande? Desconfio que a tragédia não findou aí... – Jo..seph...Ge...leda... – Meu irmão?!! Sim, seu irmão, disse ela, sumindo a voz, de uma forma estranha, esquisita, que o marido não conhecia. O Dr. Amaral, perplexo, fixou a mulher, que se conservava, sempre, meigamente inclinada, com a vista abaixada; depois, deu alguns passos pela sala. Quando, uma vez por outra, se voltava e encontrava a Jeanete, na mesma posição expressiva e interessante arrodeada de encantos especiais, ficava atordoado. Sentia que era inutilidade reagir contra aquele amor, que agora parecia agir contra aquele amor, que agora parecia ter nascido mais forte e sincero. Se o coração rugia, palpitando o imenso desespero do ciúme terrível, ao Jeanete 266

mesmo tempo, sem que o soubesse explicar, vibrava-lhe, em toda a alma, a doçura de um sentimento novo, uma ternura infinita pela mulher, que ele queria odiar. O coração, agonizando, em vão procurava repouso, e ele não ousaria, naquele momento, dizer a frase mais verdadeira, que lhe afluía, irrequieta, a todo instante, aos lábios: – Eu te amo! Eu te amo! Perdoa, antes de mim, que sou muito mais culpado; fui sempre injusto, cruel e grosseiro... A esperta Jeanete, que, através das pálpebras cerradas, observava a angústia do marido, piscava os olhos, muito feliz, por ter vingado. Jeanete 267

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