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Published by Papel da palavra, 2023-07-28 18:08:44

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["DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 149 efeitos coletivos, ensejando o que se pode denominar paradoxo da desigualdade. Neste sentido, portanto, o papel do Judici\u00e1rio \u00e9 bem claro nessa seara: avaliar se a op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos gestores p\u00fablicos est\u00e1 em conformidade com a Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Todavia, no \u00e2mbito do Fies, \u00e9 de suma import\u00e2ncia observar que decis\u00f5es judiciais que incidem nos contratos dos estudantes, poder\u00e3o ter um resultado catastr\u00f3fico na sua gest\u00e3o financeira. Neste cen\u00e1rio, observa-se muitas decis\u00f5es judiciais que determinam transfer\u00eancia de Fies de um Curso X para um Curso Y e, certamente, isso traduz um custo para a operacionaliza\u00e7\u00e3o da demanda. Nota-se, que isso ocorre, sobretudo, em decis\u00f5es que determinam transfer\u00eancia do Curso de Biomedicina para o Curso de Medicina, por exemplo. Tal situa\u00e7\u00e3o deve ser considerada pelos magistrados e tribunais, pois, o aporte financeiro e cr\u00e9dito global do contrato ter\u00e3o uma mudan\u00e7a brusca, equivalente a quadrupli- car o custo com aquele contrato do Fies. Sabe-se que o Fies \u00e9 um programa extremamente impor- tante para o ensino superior privado, mas que por outro lado enfrenta problemas de ordem fiscal, ocasionando uma inadim- pl\u00eancia assustadora. Portanto, \u00e9 importante observar todos os riscos que o controle judicial poder\u00e1 exercer no \u00e2mbito do Fies e nos impactos de risco de cr\u00e9dito que isso pode ocasionar no programa. As decis\u00f5es devem se pautar no cumprimento da lei, por\u00e9m, de outro norte, se faz necess\u00e1rio compreender a complexidade da legisla\u00e7\u00e3o educacio- nal e o contexto financeiro que a pol\u00edtica p\u00fablica apresenta. Al\u00e9m do que, cabe a percep\u00e7\u00e3o de que as pol\u00edticas p\u00fabli- cas de direitos fundamentais envolvem, necessariamente, a","150 | Amanda de Oliveira Souto Morais implementa\u00e7\u00e3o de valores p\u00fablicos relevantes, amparados cons- titucionalmente, mas com processos complexos de implementa\u00e7\u00e3o. CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS No \u00e2mbito do controle judicial de pol\u00edticas p\u00fablica, cons- tatou-se que admitir o controle por meio de a\u00e7\u00f5es individuais e coletivas, muitas vezes a tutela concedida nos leva a um paradoxo e a decis\u00e3o individual que pode comprometer a implementa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica em andamento, fragilizando a sua gest\u00e3o. Um dos maiores reflexos negativos da judicializa\u00e7\u00e3o est\u00e1 concentrado na concess\u00e3o de direitos individuais. As demandas individuais s\u00e3o cada vez maiores, causando um deslocamento de recursos financeiros que, em sua origem, foram destinados a aten- der o interesse de toda a coletividade, sobretudo quando se trata do direito fundamental da educa\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito do programa do fies. Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel observar alguns instrumentos proces- suais que podem subsidiar decis\u00f5es importantes e que reflete em pol\u00edticas p\u00fablicas: destacam-se as audi\u00eancias p\u00fablicas, os atos concertados entre ju\u00edzes cooperados, o neg\u00f3cio jur\u00eddico processual, as decis\u00f5es estruturais, a estrutura\u00e7\u00e3o de governan\u00e7as para o monitoramento da execu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo judicial (Comit\u00eas inte- rinstitucionais), com a participa\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e da sociedade civil organizada, o que pode resultar na maior efici\u00eancia da execu\u00e7\u00e3o e na concreta efetividade do julgado, sem preju\u00edzo para a gest\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica. \u00c9 certo que o direito deve evoluir junto com a sociedade, a consolida\u00e7\u00e3o do Estado Democr\u00e1tico proporcionou o acesso da popula\u00e7\u00e3o a uma s\u00e9rie de direitos e garantias fundamentais desti- nados a resguardar o princ\u00edpio da dignidade da pessoa humana.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 151 Nesse cen\u00e1rio, os par\u00e2metros tradicionalmente utilizados mere- cem uma releitura e, as consequ\u00eancias para o tema precisam ser conhecidas. No tocante ao controle social do Fies, muito embora ao longo dos anos de exist\u00eancia do programa, o fundo tenha passado por diversas auditorias feitas pelo TCU, constata-se que a falta de uma operacionaliza\u00e7\u00e3o adequada, foge do controle exercido pelo FNDE. Apesar da sua estrutura organizacional de se revestir em verdadeira ag\u00eancia controladora de todos os fundos cont\u00e1beis do MEC, o FNDE, apresentou fragilidades, vulnerabilidades e insus- tentabilidade fiscal nas opera\u00e7\u00f5es do programa, possibilitando uma brutal expans\u00e3o do fies, por\u00e9m, com risco fiscal expressivo, prin- cipalmente no per\u00edodo compreendido entre 2010 \u2013 2014. Sendo assim, ambos os controles exercidos no \u00e2mbito da pol\u00edtica p\u00fablica do fies, sejam ele judicial ou social, necessitam de par\u00e2metros avaliativos que reconstruam o cen\u00e1rio e que contribuam para a elucida\u00e7\u00e3o dos programas apresentados pelo programa. Deve-se extrair dos resultados positivos ou negativos, alter- nativas que apontem o melhor caminho para ser percorrido, garantindo, que os controles \u2013 social e judicial \u2013 atuem como pila- res e norteadores dessa tarefa. REFER\u00caNCIAS BUCCI, Maria Paula Dallari. O conceito de Pol\u00edtica P\u00fablica. In: Pol\u00edticas P\u00fablicas: reflex\u00f5es sobre o conceito jur\u00eddico. S\u00e3o Paulo: Saraiva: 2006. BRASIL. Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil. Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o. 5 out 1998.","152 | Amanda de Oliveira Souto Morais BRASIL. MINIST\u00c9RIO DA FAZENDA. SECRETARIA DE ACOMPANHAMENTO ECON\u00d4MICO. Diagn\u00f3stico Fies. Jun. 2017. Dispon\u00edvel em: <www.fazenda.gov.br.> Acesso em: 29. jan. 2023. BRASIL. TRIBUNAL DE CONTAS DA UNI\u00c3O. Relat\u00f3rio de audito- ria, 2016. CGU. Controladoria-Geral da Uni\u00e3o. Relat\u00f3rio Final da 1\u00aa Confer\u00eancia Nacional sobre Transpar\u00eancia e Controle Social \u2013 1\u00aa Consocial, Bras\u00edlia, 2012. FARENZENA, Nal\u00fa. Controle institucional em pol\u00edticas fede- rais da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica no Brasil. RBPAE, v. 26, n. 2, p. 237-265, mai-ago, 2010. FNDE. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o. Relat\u00f3rio de Atividade 2010, Bras\u00edlia, 2011. FNDE. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o. Relat\u00f3rio de Atividade 2011, Bras\u00edlia, 2012. FNDE. Portaria MEC N\u00ba 209 de 7 de mar\u00e7o de 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/abmes.org.br\/legislacoes\/detalhe\/2389\/portaria-mec-n-290","A DISSEMINA\u00c7\u00c3O DE FAKE NEWS E OS CAMINHOS DO MITO DA CAVERNA PARA A PEDAGOGIA LEDSON MARCOS SILVA LEOMAR OLIVEIRA DINIZ PATR\u00cdCIA EMANUELLY BEZERRA","LEDSON MARCOS SILVA Mestre em Hist\u00f3ria (CERES-UFRN), Doutorando em Hist\u00f3ria (UFPE). Professor dos cursos de Direito e de Pedagogia da Faculdade Sucesso (FACSU). E-mail: [email protected]. LEOMAR OLIVEIRA DINIZ Graduado em Hist\u00f3ria (CERES-UFRN). E-mail: [email protected]. PATR\u00cdCIA EMANUELLY BEZERRA Graduada em Hist\u00f3ria (CERES-UFRN). E-mail: [email protected]. 6","6 DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 155 INTRODU\u00c7\u00c3O Este texto objetiva levantar um conjunto de considera\u00e7\u00f5es a respeito das informa\u00e7\u00f5es fraudulentas, falseadas intencional- mente, distorcidas e disseminadas com o intuito de, objetivamente, enganar. Trata-se do problema, j\u00e1 popularizado, das fake news. \u00c9 corriqueiro que se fale de maneira direta, como sendo uma mentira. No entanto, lidar dessa forma com este problema seria impreciso. A fake news n\u00e3o \u00e9 apenas uma forma de mentir, ato comum conhecido desde o surgimento do homem e da linguagem. A fake news \u00e9 mais sofisticada, em raz\u00e3o de sua sistematiza\u00e7\u00e3o em tempos de Internet e redes sociais. Quem produz a not\u00edcia frau- dulenta conta com os algoritmos de grandes corpora\u00e7\u00f5es, como o Facebook, Instagram, Twitter, Telegram e Youtube. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, vinha-se falando predominante- mente de p\u00f3s-verdade como sintoma de uma sociedade imbu\u00edda de narrativas, que perderam a pretens\u00e3o de verdade e o desliga- mento entre significante e significado. H\u00e1 o argumento de que a p\u00f3s-verdade seja uma nova forma da p\u00f3s-modernidade (DUNKER, 2017). Por sua vez, o debate sobre a Fake News foi se relacionando cada vez mais com a discuss\u00e3o sobre p\u00f3s-verdade. Nos dois casos, a pergunta surge: como fica a dimens\u00e3o factual da vida? Nos \u00faltimos anos, ficou popular o termo Fake News, enten- dido como a not\u00edcia falsa feita para mobilizar as pessoas de forma r\u00e1pida, acelerada assim como a comunica\u00e7\u00e3o em redes sociais. As comunidades virtuais emergiram com pouca regulamenta\u00e7\u00e3o e as discuss\u00f5es sobre \u00e9tica nas redes da Internet ainda precisam ser melhor trabalhadas nas escolas (KEARSLEY, 2011). As redes sociais permitiram a cria\u00e7\u00e3o de comunidades que abarcam grande n\u00famero de pessoas. Esses espa\u00e7os s\u00e3o de car\u00e1- ter virtual e proporcionam vasta diversifica\u00e7\u00e3o de prop\u00f3sitos e","156 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra motivos para agrupar diferentes p\u00fablicos. Interessa para este trabalho pensar a inser\u00e7\u00e3o de alunos nessas comunidades e como eles se relacionam com a circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias enganosas, pois fazem parte de uma sociedade que sofre com isso. Um dos perigos de viver em comunidades virtuais\/bolhas \u00e9 o risco da domina\u00e7\u00e3o mediante informa\u00e7\u00f5es. Byung-Chul Han \u00e9 um dos nomes centrais quando se debate viv\u00eancias nas redes sociais e a din\u00e2mica das informa\u00e7\u00f5es na vida dos cidad\u00e3os em nossa contemporaneidade. O autor sul-coreano considera que vivemos em um regime de informa\u00e7\u00e3o. Han entende que a vida social pode ser vista sob domina\u00e7\u00e3o em um mundo digi- talizado, inserido nas teias cibern\u00e9ticas e virtuais. Nesse mundo de informa\u00e7\u00e3o acelerada, a democracia corre s\u00e9rios riscos (HAN, 2022). Diante desse plano inicial, pensa-se a respeito do que os professores podem fazer para combater a movimenta\u00e7\u00e3o de not\u00ed- cias enganosas e como isso afeta o quadro educacional. Em um primeiro olhar, percebe-se que a fake news \u00e9 um problema que envolve a comunidade internacional. Isso leva a pensar algumas quest\u00f5es: como as redes sociais deram um novo tom para esse tipo de situa\u00e7\u00e3o em torno de not\u00ed- cias fraudulentas? Qual o impacto das fake news na vida escolar? O que fazer quando a educa\u00e7\u00e3o se encontra diante de um mundo conhecido pela dissemina\u00e7\u00e3o de Fake News? De que forma se confi- gura o ethos do professor no mundo da vida que se manifesta com esse tipo de problema? Essas quest\u00f5es guiam este breve ensaio que agrupa problemas em torno do papel social do professor. Para pensar os problemas citados, a investiga\u00e7\u00e3o assume car\u00e1ter bibliogr\u00e1fico, assimilando eventos hist\u00f3ricos e as possi- bilidades de reflex\u00e3o \u00e9tica a partir do referencial temporal que","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 157 Matheus Pereira e Valdei Ara\u00fajo denominam de atualismo (2019). Um conceito que visa explicar formas de temporalidade humanas no s\u00e9culo XXI com base na ideia de atualiza\u00e7\u00e3o. Esse referencial \u00e9 selecionado em raz\u00e3o que se entende a discuss\u00e3o da Fake News intimamente ligada \u00e0 dimens\u00e3o da vida numa sociedade atualista. Em contrapartida, o problema da Fake News ser\u00e1 proble- matizado, mas tamb\u00e9m h\u00e1 um caminho levantado neste texto para reflex\u00e3o no \u00e2mbito escolar, que \u00e9 a trilha pela filosofia de Plat\u00e3o (428 a.C. \u2013 348 a.C.). A escolha deste fil\u00f3sofo ocorreu devido a experi\u00eancia com as contribui\u00e7\u00f5es da filosofia grega como conte\u00fado b\u00e1sico dos cursos de pedagogia na Faculdade Sucesso - localizada em S\u00e3o Bento, Para\u00edba -, seja no componente curricular de hist\u00f3- ria da educa\u00e7\u00e3o, filosofia da educa\u00e7\u00e3o ou metodologia e teoria curricular. Considera-se que este pensador fornece bases para reflex\u00f5es pertinentes, quer no ensino b\u00e1sico, quer no ensino supe- rior, quando se trata de pensar o problema da Fake News. FAKE NEWS \u00c9 QUEST\u00c3O POL\u00cdTICA E TEMPORAL \u00c9 importante registrar que a vida no capitalismo, como se encontra -sobretudo no Brasil-, tem uma dimens\u00e3o que Ara\u00fajo e Pereira denominam de atualismo. Uma temporalidade vivida cuja press\u00e3o recai sobre o sujeito, movendo-o junto a percep\u00e7\u00e3o acelerada da vida. Uma vida movida como se o sujeito estivesse real- mente nas redes sociais, \u00e0 procura de algo novo a cada momento, em busca de uma nova postagem, um novo conte\u00fado. Ora, essa no\u00e7\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o do tempo n\u00e3o \u00e9 determinista. \u00c9 uma temporalidade vivida e compartilhada socialmente que promove a explora\u00e7\u00e3o por algo novo, sempre que poss\u00edvel, assim que as oportunidades surgirem (PEREIRA; ARA\u00daJO, 2019). \u00c9","158 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra quando o tempo presente se auto consome, em busca de maior presentifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 presente presentificado. Que fique claro de antem\u00e3o que a Fake News \u00e9 um instru- mento pol\u00edtico. Utilizado para a busca de poder de grupos que visam o dom\u00ednio mediante o jogo de informa\u00e7\u00f5es. De acordo com Ara\u00fajo, Marques e Pereira, \u201ca nova direita e a extrema-di- reita global t\u00eam se utilizado da agita\u00e7\u00e3o das not\u00edcias provocadas pelo fluxo de atualiza\u00e7\u00e3o, e pelas chamadas fake news, para refor- \u00e7ar o seu poder\u201d (2020, p. 20). Valdei Ara\u00fajo e Matheus Pereira comentam o impacto da Fake News e como isso se relaciona com o governo Bolsonaro paralelo \u00e0 pandemia do coronav\u00edrus. Os auto- res salientam que cresceu o monitoramento de redes sociais, tendo em vista que nesses espa\u00e7os qualquer um comenta sobre tudo, sem que haja riscos f\u00edsicos (KLEM, ARA\u00daJO, PEREIRA, 2020). Isso acaba acobertando as a\u00e7\u00f5es de um usu\u00e1rio da rede, porque que n\u00e3o precisa da exata identifica\u00e7\u00e3o. Nas elei\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA), a compo- si\u00e7\u00e3o do quadro pol\u00edtico do ex-presidente Donald Trump ficou conhecida, entre tantas coisas, pelo compartilhamento de in\u00fame- ras mentiras em suas redes sociais. A consequ\u00eancia do ato foi o banimento de Trump das plataformas virtuais, sendo o caso mais exemplar no Twitter (BICHO, 2020). A partir das elei\u00e7\u00f5es de 2016, nos EUA, a tem\u00e1tica da Fake News ganha novos contornos (ALMEIDA; SANTOS, 2020). Pois se percebe que ela movimenta a possibilidade de decis\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es presidenciais. As plataformas tomaram medidas. Muitas delas em raz\u00e3o da for\u00e7a de coa\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. Impediram a publica\u00e7\u00e3o de pessoas que agiam como o caso do ex-presidente acima. Decorr\u00eancia desses atos foi o debate sobre liberdade de express\u00e3o voltando \u00e0 tona (OLIVEIRA; GOMES, 2019). A linha t\u00eanue entre liberdade e crime","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 159 torna a ser uma discuss\u00e3o em setores midi\u00e1ticos e no \u00e2mbito da ci\u00eancia do Direito. O atualismo \u00e9 um conceito que visa explicar a viv\u00eancia a partir do boom de not\u00edcias que s\u00e3o espargidas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a cada instante. Nesse fluxo intermin\u00e1vel de derramamento de informa- \u00e7\u00f5es e not\u00edcias, a verdade acaba se embaralhando com o valor da novidade (ARA\u00daJO, MARQUES, PEREIRA, 2020). Na d\u00e9cada de 1990, Fran\u00e7ois Hartog j\u00e1 questionava o ritmo temporal acelerado ap\u00f3s a queda do muro de Berlim. \u00c9 a ideia da passagem do regime de historicidade historicista para o regime de historicidade presentista. Em outras palavras, se o peso do passado era maior que o presente para o sujeito entender sua vida e atribuir sentido ao futuro, no final do s\u00e9culo XX, o peso do presente ficou maior. O sujeito volta-se ao presente constante (HARTOG, 2013). Para construir esse argumento, o historiador franc\u00eas narra a relativiza\u00e7\u00e3o do entendimento do tempo europeu, passando pela ideia do tempo linear, teleol\u00f3gico; em seguida, a irrup\u00e7\u00e3o que fez o antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss, com a cr\u00edtica \u00e0 perspectiva do tempo evolucionista; e em finais do s\u00e9culo XX, com o estado atual das sociedades capitalistas, com a vida para o consumo, Hartog nota a acelera\u00e7\u00e3o e a marca de um presentismo. O presente como categoria central do tempo no mundo da vida. O presente como medidor de todas as coisas. A felicidade volta como algo imprescin- d\u00edvel no tempo presente. O foco recai para o presente. Elementos do passado, como identidade, mem\u00f3ria, cultura, museus, v\u00e3o possuir um sentido vinculado aos elementos do presente (HARTOG, 2013). \u00c9 nesse car\u00e1ter presentista que o atualismo vai ser pensado por Pereira e Ara\u00fajo. A dimens\u00e3o do presente como soberana, mas em constante renova\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesta dimens\u00e3o de viv\u00eancias que as fake news se proliferam e atingem diferentes \u00e2mbitos da vida","160 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra humana, como \u00e9 o caso do contexto educacional. Do presentismo para o atualismo, h\u00e1 um salto em rela\u00e7\u00e3o ao conceito de atuali- za\u00e7\u00e3o. \u00c9 a busca pelo presente mais recente a cada instante. \u00c9 a sede pelo instant\u00e2neo. DA EDUCA\u00c7\u00c3O A reflex\u00e3o cr\u00edtica sofre demasiado quando se pensa a vida atualista. Porque o presente e sua renova\u00e7\u00e3o \u00e9 o ativo mais valo- rizado. A dimens\u00e3o do passado acaba sendo escanteada nessa rela\u00e7\u00e3o com o tempo. As possibilidades do conhecimento emba- sados na hist\u00f3ria s\u00e3o afetadas negativamente em um mundo onde se busca o novo constantemente. Quando se fala em aparelhos que mediam o acesso \u00e0 Internet e, por conseguinte, \u00e0s redes sociais, e sua rela\u00e7\u00e3o com a educa- \u00e7\u00e3o, geralmente \u00e9 refor\u00e7ado o papel pedag\u00f3gico. Smartphones e o conte\u00fado que possa ser acessado, como blogs, redes como Facebook, Twitter, WhatsApp, Youtube, o mundo virtual em suma, passa a ser instrumento que deve ajudar o professor em sala de aula. A rela\u00e7\u00e3o do conceito de Tecnologias Digitais da Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (TDICs) com a escola abrange toda essa gama de possibilidades tecnol\u00f3gicas. Essa rela\u00e7\u00e3o aborda exatamente uma virada favor\u00e1vel para o pedagogo que tenta adicionar essas tecno- logias n\u00e3o para fora do ambiente escolar, mas para dentro. Se o mundo virtual atrapalha o professor em sala de aula, por exemplo, em decorr\u00eancia de tirar aten\u00e7\u00e3o do aluno, os documen- tos que guiam a pedagogia norteiam os profissionais da educa\u00e7\u00e3o a tornar esses mecanismos positivos e produtivos na aula. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define como compet\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica:","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 161 Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o de forma cr\u00edtica, signifi- cativa, reflexiva e \u00e9tica nas diversas pr\u00e1ticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informa\u00e7\u00f5es, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e auto- ria na vida pessoal e coletiva (2017, p. 9). Na BNCC, as fake news s\u00e3o vinculadas ao campo cr\u00edtico da \u00e1rea de linguagens para o ensino b\u00e1sico. A preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o aluno saia dos anos b\u00e1sicos de ensino com habilidades suficientes para saber identificar fake news, mas tamb\u00e9m o documento inclui, logo em seguida, discursos de \u00f3dio e p\u00f3s-verdade (BRASIL, 2017). Outro documento que vale a pena ter ci\u00eancia \u00e9 o marco civil da Internet ou, se preferir, a lei 12.965 de 2014, sancionada no governo Dilma. O documento frisa a liberdade de express\u00e3o como ponto fundamental e este \u00e9 um direito assegurado, mas tamb\u00e9m consta em sua se\u00e7\u00e3o III as responsabilidades de danos causa- dos que usu\u00e1rios possam vir a causar. Desse modo, o marco civil da internet esclarece que o mundo virtual n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o onde tudo pode. Essa preocupa\u00e7\u00e3o que perpassa os documentos oficiais \u00e9 leg\u00edtima tendo em vista que as not\u00edcias fraudulentas podem miti- gar o pensamento cr\u00edtico e afetar o comportamento das pessoas (SANTOS; ALMEIDA, 2020). O poder que a fake news gera \u00e9 esse: atingir cren\u00e7as e a\u00e7\u00f5es individuais de forma r\u00e1pida. O que possi- bilita esse alcance \u00e9 a cultura digital, entendida aqui como rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e mundo virtual (SANTOS; ALMEIDA, 2020). J\u00e1 se pensa como mobilizar alunos do ensino b\u00e1sico para o preparo cr\u00edtico com a fake news. Diante desse quadro de circula\u00e7\u00e3o","162 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra intensa de not\u00edcias, onde n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel verificar o car\u00e1ter factual na mesma hora, a a\u00e7\u00e3o precisa ser r\u00e1pida a partir das escolas. O ambiente escolar \u00e9 fundamental no jogo da luta contra a desinforma\u00e7\u00e3o. Seguindo os documentos como a BNCC e o marco civil da Internet, pesquisadores prop\u00f5em atividades para uma melhor forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os. Por exemplo, Melo et al (2019) narram a proposta de trabalho com memes para criticar e ironi- zar, ao mesmo tempo, a propaga\u00e7\u00e3o de not\u00edcias fraudulentas. Essa atividade promove certa organiza\u00e7\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o a respeito de um problema. Sem d\u00favidas, o primeiro passo \u00e9 conscientizar. A atividade proposta delineia uma produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado cujo interesse \u00e9 realizar uma cr\u00edtica ao modus comportamental de agir de modo acr\u00edtico ao conte\u00fado da internet (MELO et allie, 2019). Como proposta de atua\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se encaminha uma a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, enquanto plano de aula e reflex\u00e3o junto aos alunos. Com base na filosofia de Plat\u00e3o, o caminho \u00e9 produzir uma vincu- la\u00e7\u00e3o entre o mito da caverna e o ambiente virtual. Essa proposta visa aproximar o conte\u00fado filos\u00f3fico de um tema presente na vida dos alunos e da sociedade como um todo. FILOSOFIA CONTRA FAKE NEWS Marcel Conche j\u00e1 dizia h\u00e1 muito tempo que o objetivo da filo- sofia n\u00e3o \u00e9 buscar a resposta para a felicidade, nem muito menos dizer verdades absolutas, irrefut\u00e1veis. Para o fil\u00f3sofo franc\u00eas, a filosofia \u201cpreocupa-se apenas com a verdade, mesmo que seja desesperadora, mesmo que seja mortal\u201d (2006, p. 17). A filosofia, portanto, n\u00e3o busca ser \u00fatil. Ela n\u00e3o promete alegria ou tristeza. Ela n\u00e3o diz os passos para alcan\u00e7ar a felicidade. No sentido atri- bu\u00eddo por Conche, ela visa verdades.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 163 Em tempos de fake news, a filosofia torna-se aliada. Conforme Guilherme e Rocha, \u201ca educa\u00e7\u00e3o da pessoa humana fundamen- tada em princ\u00edpios \u00e9ticos-filos\u00f3ficos nos parece inquestion\u00e1vel para pensar o valor do humano em sociedades cada vez mais digitalizadas e sobre influ\u00eancia crescente de tecnologias compu- tacionais\u201d (2022, p. 209). A quest\u00e3o da fake news se tornou mais sens\u00edvel nos \u00faltimos anos, tendo em vista a dissemina\u00e7\u00e3o a partir das redes sociais. Sendo assim, cabe ao educador se posicionar diante desse problema. Em primeiro lugar, trata-se de questionar o que \u00e9 uma fake news. Porque n\u00e3o basta simplesmente chamar de mentira. A mentira tem uma condi\u00e7\u00e3o humana muito mais antiga. \u00c9 prefer\u00ed- vel chamar de not\u00edcia fraudulenta - como se optou neste trabalho. Pois fica entendido que h\u00e1 uma intencionalidade, um ato volun- t\u00e1rio de enganar ou caluniar. \u00c9 importante tamb\u00e9m entender que essa a\u00e7\u00e3o de propa- gar esse conte\u00fado enganoso tem um car\u00e1ter midi\u00e1tico, pois a no\u00e7\u00e3o \u201cnews\u201d est\u00e1 arrolada dentro dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Apontar para este car\u00e1ter midi\u00e1tico permite ver melhor as pontas do problema, assim como perceber a dimens\u00e3o temporal, como j\u00e1 se comentou acima. Uma forma de exemplificar essa rela\u00e7\u00e3o temporal e midi\u00e1tica contida nas plataformas \u00e9 que se reserva espa- \u00e7os para as categorias das \u201cnovas postagens\u201d, \u201c\u00faltimas not\u00edcias\u201d, \u201cimagens recentes\u201d, ou seja, \u00e9 a viv\u00eancia atualista plastificada no espa\u00e7o cibern\u00e9tico. A fake news tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica e \u00e9 perigosa para a democracia. Pois essa mentira vem encapsulada por meios de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es como jornais, redes sociais, que passam por diferentes grupos com o intuito de enganar e desa- gregar pessoas. Bucci afirma que \u201cindependente da classifica\u00e7\u00e3o","164 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra adotada, h\u00e1 um consenso: relatos fraudulentos e not\u00edcias enganosas se tornaram um fator de desagrega\u00e7\u00e3o das sociedades democr\u00e1ti- cas deste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI\u201d (2019, p. 11). O quadro social da fake news \u00e9 atualista e tamb\u00e9m l\u00edquido (BAUMAN, 2011). Muitas informa\u00e7\u00f5es circulam em nossa vida. A acelera\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o do tempo \u00e9 uma constante. A educa\u00e7\u00e3o vive um ambiente l\u00edquido, na express\u00e3o de Zygmunt Bauman, onde as expectativas s\u00e3o produzidas incessantemente. A vida volta-se ao consumismo desenfreado. O prazer se confunde com a felici- dade. A \u00e9tica \u00e9 poss\u00edvel em mundo desses? (BAUMAN, 2011). O notici\u00e1rio, a propaganda, o consumo, tudo provoca a sensa\u00e7\u00e3o de acelera\u00e7\u00e3o. As informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderiam ser diferentes. Arrisca-se, aqui, o argumento de combater a fake news como procedimento \u00e9tico do professor em sala de aula. Certamente, a dimens\u00e3o \u00e9tica do professor tamb\u00e9m deve ser um procedimento fora do ambiente escolar. Todavia, o foco estar\u00e1 na sala de aula para este escrito. Frente ao pressuposto que a fake news tem uma dimens\u00e3o de virose, ou seja, espalhar-se, multiplicar-se, \u00e9 preciso questio- nar a perspectiva que o professor tem do seu pr\u00f3prio mundo, pois ele tamb\u00e9m pode ser v\u00edtima de not\u00edcias enganosas. Nas linhas adiante, ser\u00e1 comentado o mito da caverna de Plat\u00e3o, com vistas a discutir o ethos do profissional da pedagogia para o hoje e para os pr\u00f3ximos anos. Cabe o questionamento: como o platonismo pode ser f\u00e9rtil para problematizar o cen\u00e1rio atual social brasileiro onde correm not\u00edcias falsas? De que maneira \u00e9 poss\u00edvel construir um ethos para poss\u00edvel compreens\u00e3o e maneiras de lidar com este problema?","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 165 Plat\u00e3o, no livro VII de A Rep\u00fablica, narra o mito da caverna enquanto chave explicativa de sua vis\u00e3o ontol\u00f3gica sobre o mundo da vida. Grosso modo, Plat\u00e3o comenta que h\u00e1 dois mundos: dentro da caverna e fora da caverna. Da mesma maneira, o ser humano. O ser humano \u00e9 dividido em dois: corpo e alma. O homem preso, acorrentado, consegue sair de dentro de uma caverna, onde h\u00e1 outros prisioneiros. Enquanto sai, ficam para tr\u00e1s homens acorrentados. Plat\u00e3o, mediante a persona- gem de S\u00f3crates, diz que eles est\u00e3o encobertos por escurid\u00e3o e s\u00f3 o que conseguem ver \u00e9 o resultado do movimento de sombras (PLAT\u00c3O, 2000). S\u00e3o homens acorrentados dentro da caverna que enxergam sombras, provocadas pela luz que vem de fora da caverna. O prisioneiro, que conseguiu se libertar, sai para fora da caverna e se incomoda com o forte brilho, logo ao sair. O brilho vem do sol. Ele enxerga as verdades, e n\u00e3o a mera sombra dentro da caverna. Ele enxerga os objetos que produziam as sombras no fundo da caverna. A hist\u00f3ria prossegue com o prisioneiro, agora liberto, voltando \u00e0 caverna para contar sobre o que viu l\u00e1 fora. Plat\u00e3o comenta sobre o retorno do liberto. A personagem que Plat\u00e3o escolhe para propa- gar suas ideias \u00e9 S\u00f3crates. Pela boca de S\u00f3crates, Plat\u00e3o lida com as teses daqueles que ele discordava. Conversando com Glauco, S\u00f3crates diz:","166 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra S\u00f3crates: Considera tamb\u00e9m o seguinte, lhe falei: se esse indiv\u00edduo baixasse de novo para ir sentar-se em seu antigo lugar, n\u00e3o ficaria com os olhos obnu- bilados pelas trevas, por vir da luz do sol assim t\u00e3o de repente? Glauco: Sem d\u00favida. S\u00f3crates: E se tivesse de competir outra vez a respeito das sombras com aqueles eternos prisioneiros, quando ainda se pressentisse da fraqueza da vista, por n\u00e3o se ter habituado com o escuro - o que n\u00e3o exigiria pouco tempo - n\u00e3o se tornaria objeto de galhofa dos outros e n\u00e3o diriam estes que o passeio l\u00e1 por cima lhe estragara a vista e que n\u00e3o valia a pena sequer tentar subida? E se porventura ele procurasse libert\u00e1-los e conduzi-los para cima, caso fosse poss\u00edvel aos outros fazer uso das m\u00e3os e mat\u00e1-lo, n\u00e3o lhe tirariam a vida? Glauco: Com toda a certeza. (PLAT\u00c2O, 2000, p. 332) H\u00e1 a devida consci\u00eancia de que esse mito funda a filosofia ocidental, em dada medida. Existe uma periodiza\u00e7\u00e3o por causa da filosofia de Plat\u00e3o chamada \u201cSocr\u00e1tica\u201d. \u00c9 um pensamento que separa raz\u00e3o e o corpo; coloca de um lado verdade, e, do outro lado, falseamentos; a filosofia de Plat\u00e3o \u00e9 dualista, portanto, segue outro caminho que os materialismos. A cr\u00edtica a esse pensamento \u00e9 cons- tante, assim como sua presen\u00e7a na hist\u00f3ria da filosofia. Contudo, para este artigo, vale-se apontar os m\u00e9ritos que o platonismo, em sua f\u00f3rmula mais conhecida, pode acrescentar a uma reflex\u00e3o \u00e9tica. Veja que o fil\u00f3sofo que sai da caverna pode ser tomado pela figura do pedagogo. O pedagogo que enfrenta o questionamento sobre seu pr\u00f3prio conhecimento, sobre aquilo que ele mesmo acha","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 167 que \u00e9 a verdade. O pedagogo que busca conhecimento para al\u00e9m do que ele j\u00e1 tem \u00e0 sua frente. Onde a fake news se encaixaria nesse esquema montado por Plat\u00e3o? No \u00e2mbito da luz ou das sombras? Plat\u00e3o tinha forte inte- resse pela matem\u00e1tica, pela geometria, n\u00e3o sem justificativa. Para ele, os sentidos enganam, o relativo n\u00e3o ganha muito valor, pois as coisas absolutas s\u00e3o as verdadeiras. As artes exatas relacionam-se melhor com o platonismo do que as perspectivas culturais. Isso significa que Plat\u00e3o tem raz\u00e3o? N\u00e3o. Significa que essa \u00e9 a contri- bui\u00e7\u00e3o de Plat\u00e3o para a hist\u00f3ria do pensamento. Ele \u00e9 um fil\u00f3sofo que contribui para o pensamento assim como todos os outros. O mito da caverna sugere um repensar do que \u00e9 enganoso ou n\u00e3o, adequado e o que \u00e9 inadequado, justo ou injusto. \u00c9 uma vis\u00e3o dualista, que tem seus perigos, \u00e9 verdade, no entanto, pensado com m\u00e9todo e bom embasamento, promove cr\u00edticas ao universo do pedagogo e novas reflex\u00f5es frente a um problema tamb\u00e9m novo. O professor enquanto fil\u00f3sofo que volta \u00e0 caverna para livrar seus companheiros enfrenta desafios. Um deles \u00e9 a sua pr\u00f3pria condu\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 dimens\u00e3o factual, isto \u00e9, em busca da verdade. A fake news coloca o desafio de um cidad\u00e3o encontrar a verdade. A fake news visa o engano em massa. Ela \u00e9 feita para isso, divulgada para isso. Onde encontrar caminhos corretos para a informa\u00e7\u00e3o? Em primeiro lugar, pauta-se uma quest\u00e3o comportamental, que \u00e9 n\u00e3o repassar a informa\u00e7\u00e3o assim que receber, seja qual for o meio de comunica\u00e7\u00e3o. Postura e reflex\u00f5es \u00e9ticas s\u00e3o fundamen- tais, j\u00e1 discutidas por autores como Bucci (2019). A \u00e9tica vincula-se diretamente com a democracia e a boa viv\u00eancia em sociedade. Outra proposta \u00e9 verificar em sites que tem como carac- ter\u00edstica o combate a fake news e o devido esclarecimento das ocorr\u00eancias. Os jornais, hoje, j\u00e1 contam com grupos espec\u00edficos","168 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra para a verifica\u00e7\u00e3o e checagem de not\u00edcias. Logo, vale a pena confe- rir esses meios de comunica\u00e7\u00e3o antes de compartilhar algo. Por exemplo, grupos de Fact-Checking como Aos Fatos e Lupa, entre outros setores pr\u00f3prios dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o signi- fica dizer que esses grupos est\u00e3o livres de enganos. Todavia, s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es cujo princ\u00edpio \u00e9 denunciar a fake news. Cabe sempre verificar em diferentes setores de checagem. Essa preocupa\u00e7\u00e3o com a conduta \u00e9 importante, pois, verifi- que-se no mito que h\u00e1 um caminho que incomoda, a luz faz arder os olhos e, portanto, \u00e9 poss\u00edvel a meia volta \u00e0s sombras. Perscrutar o caminho de busca pelo esclarecimento \u00e9 articular uma pedagogia de esfor\u00e7o e tens\u00e3o constantes. Como comenta Guilherme e Rocha, \u201ca proced\u00eancia prim\u00e1ria das fake news \u00e9 a pessoa humana, desse modo \u00e9 em sua forma\u00e7\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1rio intervir para refrear a produ\u00e7\u00e3o do falso em benef\u00edcio do verdadeiro\u201d (2022, p. 208). A dimens\u00e3o socr\u00e1tica da vida convida o pedagogo a repensar valores. N\u00e3o utilizamos este conceito aqui como se usa popular- mente, como sin\u00f4nimo exclusivo de respeito. Respeito \u00e9 um valor entre tantos outros. Pensa-se valores aqui como categorias de peso na hora de decidir sobre a vida (MORIN, 2000). A filosofia de Plat\u00e3o, que emerge mediante a voz do perso- nagem S\u00f3crates, abre espa\u00e7o para a discuss\u00e3o sobre os caminhos justos a serem seguidos. O caminho justo tamb\u00e9m \u00e9 o caminho para uma p\u00f3lis justa (PLAT\u00c3O, 2000). A boa sociedade, como \u00e9 definida por Plat\u00e3o \u00e9 um conceito que leva o sujeito moderno a relembrar a considera\u00e7\u00e3o pelo todo.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 169 CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS O presente trabalho tratou da dimens\u00e3o temporal e social das Fake News. A partir de fen\u00f4menos hist\u00f3ricos, construiu-se uma reflex\u00e3o do ethos filos\u00f3fico para o pedagogo que enfrenta uma sociedade onde h\u00e1 circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias com o objetivo estrito de enganar. Esse pedagogo est\u00e1 dentro de uma sociedade cujo regime temporal \u00e9 atualista. H\u00e1 uma constante busca pelo novo e pela atualiza\u00e7\u00e3o das coisas, de forma incessante. Isso traz implica\u00e7\u00f5es diretas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o cr\u00edtico, assim como pode desorganizar as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e p\u00fablicas. \u00c9 imprescind\u00edvel pensar uma vida \u00e9tica que prepare o cidad\u00e3o para lidar com quest\u00f5es de not\u00edcias fraudulentas, pois o que est\u00e1 em risco \u00e9 a democracia. A partir da reflex\u00e3o do mito da caverna da filosofia de Plat\u00e3o, considera-se que uma posi\u00e7\u00e3o c\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas e \u00e0 busca pela verdade demandam uma certa carga de energia do profissio- nal da educa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de enfrentar riscos sociais. Seguindo a linha plat\u00f4nica, \u00e9 preciso n\u00e3o se contentar com aquilo que os sentidos absorvem. O mito da caverna de Plat\u00e3o, portanto, possibilita um repensar sobre as pr\u00f3prias cren\u00e7as e aquilo que est\u00e1 dado pelo mundo. A filosofia torna-se imprescind\u00edvel para uma vitalidade positiva da sociedade, do indiv\u00edduo e das pr\u00f3prias ci\u00eancias humanas.","170 | Ledson Marcos Silva, Leomar Oliveira Diniz, Patr\u00edcia Emanuelly Bezerra REFER\u00caNCIAS ARAUJO, Valdei. PEREIRA, Matheus. Atualismo 1.0: como a ideia de atualiza\u00e7\u00e3o mudou o s\u00e9culo XXI. 2. ed. Vit\u00f3ria: Editora Milfontes, 2019. BRASIL. Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Base nacional comum curricular. Bras\u00edlia: MEC\/SEB, 2017. Dispon\u00edvel em: http:\/\/basenacionalcomum. mec.gov.br\/ BAUMAN, Zygmunt. A \u00e9tica \u00e9 poss\u00edvel num mundo de consumi- dores? Rio de Janeiro: Zahar, 2011. BICHO, Ana Lu\u00edsa Gomes. 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E-mail: [email protected]. 7","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 175 7 INTRODU\u00c7\u00c3O O questionamento acerca de como se constitui a classe traba- lhadora no capitalismo contempor\u00e2neo implica a investiga\u00e7\u00e3o das media\u00e7\u00f5es das categorias da pr\u00f3pria classe trabalhadora. Essa interroga\u00e7\u00e3o nos permite tra\u00e7ar uma nova morfologia do traba- lho, como prop\u00f4s Ricardo Antunes (2020, p. 92), afim de que possamos analisar como se configura as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e, com isso, identificarmos em sua pr\u00f3pria iman\u00eancia a classe que vive do trabalho. A an\u00e1lise empreendida nessa pesquisa tomar\u00e1 o trabalho n\u00e3o apenas em sua positividade ou numa negatividade abstrata, como Marx denunciou Hegel de um certo abstracionismo l\u00f3gico em manter sua cr\u00edtica na especula\u00e7\u00e3o (MARX, 2013, p. 42), mas em sua negatividade do ponto de vista da contradi\u00e7\u00e3o entre a forma pol\u00edtica do trabalho e os conte\u00fados das rela\u00e7\u00f5es que se produzem efetivamente no e pelo trabalho. Para atingirmos os objetivos propostos nessa pesquisa submeteremos a resposta a quem s\u00e3o os trabalhadores dos dias de hoje ao conceito de acumu- la\u00e7\u00e3o capitalista para buscarmos compreender a pr\u00f3pria estrutura econ\u00f4mica de valoriza\u00e7\u00e3o do capital. Ou seja, o presente escrito tem como objetivo fazer uma an\u00e1lise da morfologia contempor\u00e2nea do trabalho sob a perspectiva marxiana da acumula\u00e7\u00e3o capitalista. A constru\u00e7\u00e3o desse trabalho n\u00e3o incorre numa releitura de como o trabalho vem sendo debatido no cen\u00e1rio acad\u00eamico, mas cola- bora com a pesquisa acerca dessa tem\u00e1tica submetendo a cr\u00edtica de Marx, feita \u00e0 sociedade civil burguesa do s\u00e9culo XIX, \u00e0s condi- \u00e7\u00f5es atuais da classe trabalhadora. O conceito de acumula\u00e7\u00e3o aparece do primeiro tomo d\u2019O Capital (1867) de Marx e busca responder ao processo no qual o","176 | Mateus da Silva Fernandes, Roberta Naianny Bezerra de Medeiros trabalhador \u00e9 separado da propriedade das condi\u00e7\u00f5es de efetividade de seu pr\u00f3prio trabalho. Essa hip\u00f3tese nos permite fazer o exame de como as categorias do trabalho nos dias de hoje respondem a esse crit\u00e9rio. Para tanto, cabe-nos resgatar dois pontos impor- tantes que nos permitir\u00e3o enxergar como as condi\u00e7\u00f5es atuais de trabalho se produzem na forma de expropria\u00e7\u00e3o do trabalhador de seu pr\u00f3prio trabalho: o primeiro deles \u00e9 o estudo das condi\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas das formas de trabalho, que nos aproximar\u00e1 da realidade efetiva sob a qual a classe trabalhadora est\u00e1 submetida; e, o segundo ponto \u00e9 o resgate da discuss\u00e3o acerca da acumula\u00e7\u00e3o para encaminhar o entendimento de como os meios de subsist\u00ean- cia s\u00e3o convertidos em capital. Com essa abordagem, estaremos identificando no seio da condi\u00e7\u00e3o trabalhadora contempor\u00e2- nea tra\u00e7os de um conceito elaborado na cr\u00edtica do capitalismo de Marx que se mostra responder \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas da forma do trabalho hoje. REFLEX\u00d5ES SOBRE UMA NOVA MORFOLOGIA DO TRABALHO A economia pol\u00edtica discutiu o trabalho e sua import\u00e2ncia nas diferentes \u00e9pocas da sociedade. Segundo Hobsbawm (1996, p. 9), desde os epis\u00f3dios da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa \u201c[a] economia do s\u00e9culo XIX foi constru\u00edda a partir da influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial brit\u00e2nica, j\u00e1 a sua pol\u00edtica e ideologia foram constru\u00eddas sobretudo pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa\u201d. Isso nos permite investigar como as sociedades desenvolveram a categoria do trabalho, atra- vessando a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial no s\u00e9culo XVIII e a Ind\u00fastria Automotiva do s\u00e9culo XX, chegando \u00e0 Ind\u00fastria 4.0 que surge","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 177 como um novo e profundo salto tecnol\u00f3gico no mundo produtivo a partir das Tecnologias da Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (TICS). Para a compreens\u00e3o da nova morfologia do trabalho e das suas rela\u00e7\u00f5es no interior do processo de aumento do capital \u00e9 necess\u00e1rio partirmos do fato de que a nova classe trabalhadora \u00e9 constitu\u00edda neste s\u00e9culo XXI pelas bilh\u00f5es de pessoas no mundo inteiro que dependem unicamente do trabalho para sobreviver. A partir da investiga\u00e7\u00e3o da nova morfologia do trabalho \u00e9 evidente a longa transforma\u00e7\u00e3o do capital que, chegado \u00e0 era da financeiriza\u00e7\u00e3o e da mundializa\u00e7\u00e3o em escalas globais, inclui uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho que apresenta uma percept\u00edvel tend\u00eancia intensificando os n\u00edveis de precariza\u00e7\u00e3o e informalidade, ao mesmo tempo que se encaminham ao processo de intelectualiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Estamos discutindo uma expan- s\u00e3o da classe trabalhadora em n\u00edvel global com novos contingentes assalariados e precarizados. O conceito ampliado de classe trabalhadora, em sua nova morfologia, deve incorporar a totalidade dos trabalhadores e trabalhadoras, cada vez mais integrados pelas cadeias produtivas globais e que vendem sua for\u00e7a de trabalho como mercadoria em troca de sal\u00e1rio, sendo pagos por capital \u2013 dinheiro, n\u00e3o importando se as atividades que realizam sejam predominantemente materiais ou imateriais, mais ou menos regulamentada (ANTUNES, 2018, p. 36). Na nova morfologia do trabalho a terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4- meno que assume import\u00e2ncia central nas estrat\u00e9gias empresariais que, dentro da hegemonia do capital financeiro na busca de altos","178 | Mateus da Silva Fernandes, Roberta Naianny Bezerra de Medeiros lucros, transfere aos trabalhadores e trabalhadoras a tarefa de maximizar seu tempo de trabalho, aumentar os \u00edndices de produ- tividade e, com isso, reduzir custos associados \u00e0 for\u00e7a de trabalho e termos de contrato flex\u00edveis (ANTUNES, 2018, p.118). A terceiriza\u00e7\u00e3o pode ser pensada como uma consequ\u00eancia gerada a partir do grande n\u00famero de privatiza\u00e7\u00f5es de empresas p\u00fablicas, bem como de modifica\u00e7\u00f5es de leis trabalhistas que n\u00e3o favorecem diretamente o processo de valoriza\u00e7\u00e3o do capital e cres- cimento de trabalhos imateriais. Diante dessas rela\u00e7\u00f5es da nova categoria do trabalho destacamos as Tecnologias da Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (TICs) enquanto exemplo de um novo elemento de mecanismo utilizado por esse mencionado processo. Nessa discuss\u00e3o surge a condi\u00e7\u00e3o de trabalho sem a subst\u00e2n- cia f\u00edsica, que fundamenta-se predominantemente em trabalhos intelectuais. Refletimos isso com base na compreens\u00e3o do que seria o trabalho material (como aquele desenvolvido nas ind\u00fastrias do s\u00e9culo XIX), que se produz diretamente atrav\u00e9s do trabalho bra\u00e7al. A informa\u00e7\u00e3o e o conhecimento s\u00e3o, assim, considerados o n\u00facleo do trabalho imaterial, que \u00e9 oposto do trabalho manual donde a propor\u00e7\u00e3o cognitiva da atividade n\u00e3o \u00e9 exigida em sua pot\u00eancia (quase ausente), ao mesmo tempo que predominou a homogenei- dade de fun\u00e7\u00f5es na f\u00e1brica (AMORIM, 2014, p. 5). Impulsionados por essa l\u00f3gica global, assistimos ao cresci- mento do que chamamos de uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho, que no contexto do mundo do trabalho atual esse processo de uberiza\u00e7\u00e3o se refere \u00e0 venda direta e independente de um bem ou servi\u00e7o a uma pessoa ou empresa sem o envolvimento de um intermedi\u00e1rio. Destacamos algumas consequ\u00eancias desse processo que o trabalho atravessa: a falta de estabilidade, falta de sal\u00e1rio fixo, bem como a car\u00eancia de direitos trabalhista em contratos flex\u00edveis. Assim, podemos","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 179 identificar que a nova morfologia do trabalho n\u00e3o alcan\u00e7a unica- mente patamares relativos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o s\u00f3cio hist\u00f3rica do lugar que analisamos, mas, potencializado pelos crescimentos globais a nova categoria do trabalho assume uma condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se restringe a poucas qualidades e caracter\u00edsticas, mas se molda na forma como essa categoria do trabalho se transforma em escala mundial, atra- vessado pela inflex\u00e3o dos processos de internacionaliza\u00e7\u00e3o. O trabalho online ajudou a ruir a linha entre o tempo pessoal e o profissional, est\u00e1 surgindo um novo tipo de ambiente de traba- lho que funde o mundo digital com uma ideologia corporativista (ANTUNES, 2018, p. 42). Para um maior entendimento da classe trabalhadora atualmente vista a partir da nova morfologia do trabalho, \u00e9 importante destacar que para Marx e Engels a classe trabalhadora e o proletariado eram considerados sin\u00f4nimos, deste modo, duas teorias s\u00e3o exclu\u00eddas desta discuss\u00e3o, como destaca Antunes (2018, p. 101): a de que nada mudou no mundo dos traba- lhadores e a que a classe trabalhadora n\u00e3o \u00e9 mais capaz de alterar radicalmente o ambiente social do capital. De acordo com a defini\u00e7\u00e3o marxiana, a classe que vive do trabalho se configura compondo-se de trabalhadores que dependem do seu trabalho e, consequentemente, participam do processo de aumento do capital; nesse processo homens e mulheres que vivem da venda da sua for\u00e7a de trabalho se moldam \u00e0 categoria repre- sentada pela mercadoria como qualquer outro artigo de com\u00e9rcio e que n\u00e3o dominam os meios de produ\u00e7\u00e3o (MARX, 2022, p. 35). Partindo da nova morfologia do trabalho notamos que a classe que vive do trabalho n\u00e3o se limita apenas a trabalhos manuais dire- tos, mas abrange o trabalho social, o coletivo e continua vendendo sua for\u00e7a de trabalho. Como destaca Antunes (2018, p.96), a classe trabalhadora atual \u00e9 formada por trabalhadores que participam do","180 | Mateus da Silva Fernandes, Roberta Naianny Bezerra de Medeiros processo de valoriza\u00e7\u00e3o do capital do trabalho humano ao cient\u00ed- fico-tecnol\u00f3gico, constituindo-se heterog\u00eaneo, complexo e mais fragmentado do que o proletariado industrial do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX. Tendo em vista os aspectos observados entende-se que a nova morfologia do trabalho se constitui de maneira diversifi- cada por trabalhadores e trabalhadoras que variam em sua forma heterogenia de ser (g\u00eanero, etnia, gera\u00e7\u00e3o, espa\u00e7o, qualifica\u00e7\u00e3o, nacionalidade etc.) mas tamb\u00e9m composta de um movimento tendencial para uma forte homogeneiza\u00e7\u00e3o resultante da condi- \u00e7\u00e3o precarizada existente em distintas modalidades de trabalho que se expandem em escala global. Essas diferentes modalidades de trabalho v\u00eam realizando um papel de destaque na cria\u00e7\u00e3o de novas formas geradoras de mais-valor, e por outro lado desenca- deando novas lutas sociais (ANTUNES, 2028 p.152). A NOVA MORFOLOGIA DO TRABALHO \u00c0 LUZ DE MARX E A ACUMULA\u00c7\u00c3O CAPITALISTA A nova morfologia do trabalho parte da leitura da forma de valoriza\u00e7\u00e3o do capital vivida a partir das condi\u00e7\u00f5es atuais da classe que vive do trabalho. Essa premissa nos permite identificar que o processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital \u00e9 tamb\u00e9m parte dessa nova morfologia. Considerando a composi\u00e7\u00e3o do capital: meios de produ\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de trabalho, tanto sob condi\u00e7\u00f5es axiol\u00f3gicas quanto materiais, podemos investigar como a classe trabalhadora se molda dentro da rela\u00e7\u00e3o entre os meios de produ\u00e7\u00e3o e a quan- tidade de trabalho exigida (MARX, 2017, p. 689). Assim,","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 181 [a] reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a do trabalho, que tem inces- santemente de se incorporar ao capital [...], constitui, na realidade, um momento da reprodu\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio capital. Acumula\u00e7\u00e3o do capital \u00e9, portanto, multipli- ca\u00e7\u00e3o do proletariado (MARX, 2017, p. 690). As condi\u00e7\u00f5es atuais do trabalho consolidam uma nova apar\u00ean- cia para a rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o do trabalhador ao capital. Essa nova apar\u00eancia do trabalho \u00e9 o resultado da experi\u00eancia entre a forma do trabalho e sua efetividade submetida \u00e0s mudan\u00e7as do tempo; com isso, diferentemente da classe trabalhadora industrial que Marx analisava no s\u00e9culo XIX, a classe que vive do trabalho hoje \u00e9 ainda mais abrangente, uma vez que nos dias de hoje os assalariados n\u00e3o s\u00e3o apenas aqueles que executam um trabalho que gera mais-valor[12]. Ricardo Antunes (2020, p. 88) j\u00e1 havia descrito essa nova caracter\u00edstica quando inicia a constru\u00e7\u00e3o de uma nova morfologia do trabalho. Essa discuss\u00e3o ao mesmo tempo que destaca a posi\u00e7\u00e3o distinta da rela\u00e7\u00e3o dos trabalhadores com os meios de produ\u00e7\u00e3o entre uma morfologia industrial do s\u00e9culo XIX na Alemanha e a nova morfologia do trabalho, destaca tamb\u00e9m que essa diferen\u00e7a n\u00e3o isola os dois pontos, mas reconhece essas formas do trabalho \u00e0 luz das condi\u00e7\u00f5es que emergiram das rela- \u00e7\u00f5es que se encarnam no solo real da hist\u00f3ria. 12\u2009\u2009\u2009\u0007Na an\u00e1lise da sociedade civil burguesa do s\u00e9culo XIX, Marx concebia a classe trabalhadora quando assalariada e produtora de mais-valor. O mais-valor \u00e9 produto do sistema do dinheiro na sociedade capitalista. A f\u00f3rmula Dinheiro\/ Mercadoria\/Dinheiro1 expressa o movimento que gera esse mais-valor, uma vez que o Dinheiro \u00e9 investido na produ\u00e7\u00e3o da Mercadoria por Dinheiro1. Sendo assim, o mais-valor \u00e9 o dinheiro ganho com a venda da Mercadoria que excede o valor de produ\u00e7\u00e3o.","182 | Mateus da Silva Fernandes, Roberta Naianny Bezerra de Medeiros Tendo pesquisado o perfil do trabalhador a partir das cate- gorias atuais do trabalho, com o intuito de construir uma nova morfologia, continuaremos nesta sess\u00e3o o exame acerca da classe que vive do trabalho buscando discutir a rela\u00e7\u00e3o entre o aumento do capital e a classe trabalhadora. Nossa pesquisa se configura numa an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es que caracterizam a atual forma de trabalho. Para tanto, tomare- mos tais condi\u00e7\u00f5es a partir de sua pr\u00f3pria negatividade[13], que \u00e9 o eixo desse trabalho a partir do pensamento marxiano; diante do contexto de hoje investigado na se\u00e7\u00e3o anterior, buscaremos sob a cariz da acumula\u00e7\u00e3o capitalista, estudar as condi\u00e7\u00f5es do trabalho a partir das distintas posi\u00e7\u00f5es que est\u00e1 situada a classe trabalhadora e os meios de produ\u00e7\u00e3o. Neste ponto, resgatamos o primeiro livro d\u2019O Capital de Marx[14], nele o autor elabora uma cr\u00edtica ao modo de produ\u00e7\u00e3o de riqueza alicer\u00e7ado no car\u00e1ter mercantil. Essa an\u00e1lise de Marx diz respeito \u00e0 economia pol\u00edtica, ou seja, compreende o estudo dos modos de produ\u00e7\u00e3o de riqueza, bem como o com\u00e9r- cio, o cr\u00e9dito, o juro e etc. na conjuntura do Estado moderno. \u201cDe certo modo, a economia pol\u00edtica \u00e9 a primeira forma de pensar as 13\u2009\u2009\u2009\u0007A nega\u00e7\u00e3o no sentido marxista, ou a negatividade, n\u00e3o se reduz \u00e0 manifesta- \u00e7\u00e3o de um \u2018n\u00e3o\u2019 como elemento fundamental de um processo, mas, define-se como momento do desenvolvimento dial\u00e9tico dele. Podemos entender com isso, que a negatividade \u00e9 um momento do processo objetivo, estando, desse modo, numa proximidade l\u00f3gica da positividade. A partir disso, consideramos que os resultados dos processos a que se aplicam o trabalho n\u00e3o se consoli- dam num simples reaparecimento da positividade entre a forma pol\u00edtica e o conte\u00fado social, mas a nova forma com que os processos se desenvolvem a partir da negatividade s\u00e3o sempre supera\u00e7\u00f5es das formas anteriores, s\u00e3o como \u2018nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o\u2019. 14\u2009\u2009\u2009\u0007Em 1867 \u00e9 publicado o primeiro tomo d\u2019O capital em Hamburgo. Durante a vida de Marx \u00e9 publicado apenas um volume de sua obra magna, O capital, iniciado sua reda\u00e7\u00e3o em 1863. Esta obra \u00e9 parte do que os pesquisadores chamam de obra da maturidade de Marx.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 183 rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, o metabolismo do homem com a natureza [...]\u201d (GIANNOTTI, 2017, p. 60). Marx analisa negativamente as condi\u00e7\u00f5es do trabalho uma vez que ele n\u00e3o \u00e9 efetivo pela sua forma pol\u00edtica, mas decorre de sua exist\u00eancia emp\u00edrica, diferenciando-se ent\u00e3o de seu signifi- cado (ENDERLE, 2013, p. 24). Esse argumento se expressa na forma l\u00f3gica da contradi\u00e7\u00e3o entre a forma pol\u00edtica e os conte\u00fados das rela\u00e7\u00f5es. Assim, analisando as condi\u00e7\u00f5es atuais do trabalho buscamos tornar ainda mais evidente que no novo modo com que o trabalho \u00e9 vivido ainda se privilegia o ideal que nasce junto do pr\u00f3prio capitalismo, acumula\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio. Essa investiga\u00e7\u00e3o acerca da nova classe trabalhadora decorre da considera\u00e7\u00e3o de que as condi\u00e7\u00f5es do tempo vivido \u00e9 parte da formata\u00e7\u00e3o singular de cada momento hist\u00f3rico. Assim, anali- samos a nova morfologia do trabalho considerando que o atual modo de produ\u00e7\u00e3o de riqueza n\u00e3o representa um progresso natural das atividades econ\u00f4micas. Considerar isso nos permite perce- ber que as muitas formas de viver o capitalismo n\u00e3o lida com as contradi\u00e7\u00f5es experimentadas pelas pessoas, dentre elas a classe trabalhadora, mas perpetua as pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es que susten- tam o capitalismo: acumula\u00e7\u00e3o de capital e dom\u00ednio dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Com isso, a nova classe trabalhadora vive ainda sob o julgo do capital. A pergunta fundamental acerca de como se mant\u00e9m essa acumula\u00e7\u00e3o capitalista, mesmo que sendo vivida de formas distintas, exige que investiguemos as categorias da aliena- \u00e7\u00e3o escritas por Marx ainda em sua juventude. Com isso, a an\u00e1lise do trabalho alienado destacar\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre o estranhamento e o sistema do dinheiro (M\u00c9SZ\u00c1ROS, 2016, p. 135), nos permitindo investigar essa nova morfologia do trabalho a partir das condi\u00e7\u00f5es","184 | Mateus da Silva Fernandes, Roberta Naianny Bezerra de Medeiros que emergem das rela\u00e7\u00f5es de aliena\u00e7\u00e3o que \u00e9 parte do modo de acumula\u00e7\u00e3o do capital. Chega-se a essa conclus\u00e3o com base no fato de que o trabalhador n\u00e3o poderia deparar-se com o produto de sua pr\u00f3pria atividade como um estranho se n\u00e3o tivesse se alienado de si mesmo no pr\u00f3prio ato da produ\u00e7\u00e3o (M\u00c9SZ\u00c1ROS, 2016, p. 135).\t Essa conex\u00e3o entre os conceitos de Marx investigados at\u00e9 este momento foram pesquisados a partir da leitura imanente de sua obra. Conseguimos enxergar a preocupa\u00e7\u00e3o de Marx com a classe que vive do trabalho desde sua juventude, quando ainda em lua de mel com sua esposa Jenny Von Westphalen (1814-1881), numa localidade conhecida como Kreuznach, escreve sua Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel. Nela, o autor partindo da filoso- fia hegeliana investiga como o trabalho se desdobra nas rela\u00e7\u00f5es sociais. Nesse ponto, concebemos a supera\u00e7\u00e3o da filosofia hege- liana por Marx, uma vez que a emancipa\u00e7\u00e3o do sujeito em Hegel foi denunciada por Marx ainda apartada do solo real da hist\u00f3ria[15]. Com essa insufici\u00eancia de compreender o ser social encarnado na hist\u00f3ria se ainda estivesse mantido no campo da especula\u00e7\u00e3o a partir de seus estudos do direito hegeliano, o jovem Marx encon- tra a possibilidade da auto atividade concebida por Hegel (leia-se: 15\u2009\u2009\u2009\u0007Conceber a import\u00e2ncia da hist\u00f3ria para examinar as condi\u00e7\u00f5es e modos de vida na sociedade civil burguesa \u00e9 parte do materialismo hist\u00f3rico; \u00e9 neste conceito que Marx designa o modo a hist\u00f3ria \u00e9 concebida a partir do materia- lismo. Nesse sentido, a hist\u00f3ria se desenvolve a partir de causas materiais que eclodem em acontecimentos hist\u00f3ricos no modo de seu desenvolvimento econ\u00f4- mico; consequentemente, influenciada pelos modos de produ\u00e7\u00e3o de riqueza a partir de como essa mesma sociedade se divide em classes.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 185 trabalho) no campo do conceito, de ser percebida na efetividade real da hist\u00f3ria enquanto submetida \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a forma pol\u00ed- tica e os conte\u00fados das rela\u00e7\u00f5es influenciada pela propriedade privada[16] nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Nesse ponto, podemos identificar que as novas formas de trabalho n\u00e3o t\u00eam necessidade (no sentido kantiano) de constitu\u00ed- rem parte de um suposto progresso. A nova morfologia do trabalho \u00e9 uma an\u00e1lise de como o trabalho hoje \u00e9 submetido \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o da propriedade privada sob as condi\u00e7\u00f5es atuais. Desse modo, a supera\u00e7\u00e3o de Marx em rela\u00e7\u00e3o a Hegel resulta na tentativa de supera\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados sociais que alienam a caracter\u00edstica fundamental do ser social, a auto atividade, o traba- lho. \u00c9 o trabalho que Marx desenvolve quando estrutura sua cr\u00edtica tanto das formas quanto dos conte\u00fados sociais partindo do traba- lho estranhado. Este ser social de Marx \u00e9 fundado ontologicamente no trabalho, a partir disso, ele pensa ent\u00e3o a propriedade privada como fundamento da aliena\u00e7\u00e3o. Com isso, o trabalho aparece tanto como determina\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica quanto fundamento da alie- na\u00e7\u00e3o. O conceito de aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 central no pensamento filos\u00f3fico de Marx, uma vez que a aliena\u00e7\u00e3o (entfremdug) descreve o modo de vida inaut\u00eantico que resulta das condi\u00e7\u00f5es reais do trabalho submetido \u00e0 inflex\u00e3o da propriedade privada. 16\u2009\u2009\u2009\u0007Para Marx \u00e9 fundamental que a propriedade privada seja um conceito desmi- tificado, uma vez que sua cr\u00edtica da realidade percebe a propriedade privada (enquanto contradi\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do conceito e os conte\u00fados) como princ\u00edpio do estranhamento do ser humano. Nos Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos de 1843 Marx conclui a compreens\u00e3o de sua juventude acerca do trabalho alie- nado quando enxerga que as determina\u00e7\u00f5es ontol\u00f3gicas da vida humana se produzem na forma de s\u00edntese da influ\u00eancia invasiva da propriedade privada na categoria do trabalho.","186 | Mateus da Silva Fernandes, Roberta Naianny Bezerra de Medeiros Em Marx, a contradi\u00e7\u00e3o da propriedade privada se produz da aliena\u00e7\u00e3o do trabalho. O problema da aliena\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 abstrato, mesmo que o analisemos tanto nas condi\u00e7\u00f5es industriais do s\u00e9culo XIX quanto na anterior morfologia do trabalho que concebemos na primeira se\u00e7\u00e3o deste trabalho; aliena\u00e7\u00e3o nasce no solo real da hist\u00f3ria, ela \u00e9 a categoria que caracteriza o trabalho nas socieda- des capitalistas, \u00e9 desse processo que decorre o modo como o ser humano se realiza como atividade objetiva consciente, pr\u00e1xis[17] (ARA\u00daJO, 2018, p. 227). A aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 vivida n\u00e3o apenas individualmente, mas social- mente; isso se produz pelo trabalho historicamente ser a ess\u00eancia social do ser humano. A partir de Marx, podemos examinar o traba- lho hoje em sua rela\u00e7\u00e3o entre o trabalhador e a produ\u00e7\u00e3o (MARX, 2020, p. 83). Nessa rela\u00e7\u00e3o, tanto Marx quanto Ricardo Antunes se deparam com uma classe trabalhadora que produz capital ao mesmo tempo que se torna mercadoria. Essa aliena\u00e7\u00e3o do trabalho se produz em rela\u00e7\u00e3o ao objeto; quando este, mesmo que produzido pelo trabalhador, \u00e9 estranho a ele. Ou seja, a efetividade do trabalho \u00e9 um processo de objetiva\u00e7\u00e3o na forma de coisa. Assim, o trabalho estranhado cria um mundo alheio ao trabalhador; pois, ao mesmo tempo que o ser humano produz o mundo \u00e0 sua volta, mas ele \u00e9 estranho a esse mundo. H\u00e1 um outro tipo de estranhamento, este nasce do seguinte questionamento: A17\u2009\u2009\u2009\u0007 pr\u00e1xis em Marx se refere \u00e0 auto atividade atrav\u00e9s da qual o ser humano trans- forma a natureza e cria um mundo com sentido e utilidade para si. Todas as atividades livres do ser humano compreende a pr\u00e1xis, por meio delas o mundo criado nasce da intera\u00e7\u00e3o das pessoas com as condi\u00e7\u00f5es reais da hist\u00f3ria criando novas determina\u00e7\u00f5es.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 187 Quanto mais o trabalhador se desgasta trabalhando (ausarbeitet), tanto mais poderoso se torna o mundo objetivo, alheio (fremd) que ele cria diante de si, tanto mais pobre se torna ele mesmo, seu mundo interior, [e] tanto menos [o trabalhador] pertence a si pr\u00f3prio (MARX, 2010, p. 81). Esse tipo de aliena\u00e7\u00e3o caracteriza n\u00e3o apenas o produto da exterioriza\u00e7\u00e3o (ent\u00e4usserung), mas o pr\u00f3prio processo em que o objeto \u00e9 exteriorizado; com isso, nos deparamos na experi\u00eancia do trabalhador em que o trabalho parece n\u00e3o o pertencer. Nesse sentido, a categoria da aliena\u00e7\u00e3o se situa tanto em rela\u00e7\u00e3o ao objeto exteriorizado quanto ao pr\u00f3prio processo de exterioriza\u00e7\u00e3o. O estranhamento do ser humano n\u00e3o se limita ao objeto e o processo de objetiva\u00e7\u00e3o dele, mas ainda em rela\u00e7\u00e3o aos outros seres humanos. Marx chama este de estranhamento do ser gen\u00e9- rico, nele, o trabalhador \u201c[...] faz da vida gen\u00e9rica apenas um meio de vida individual\u201d (MARX, 2010, p. 84). Nesse sentido, o trabalho aparece apenas como meio para realiza\u00e7\u00e3o de uma necessidade. Este estranhamento \u00e9 fundamental para compreendermos que a nova morfologia do trabalho \u00e9 ainda \u201co engendrar de um mundo objetivo, a elabora\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 a prova do homem enquanto um ser gen\u00e9rico consciente\u201d (MARX, 2010, p. 85) sob as condi- \u00e7\u00f5es da valoriza\u00e7\u00e3o do capital \u00e0 luz de um modo determinado pelo tempo e a influ\u00eancia da propriedade privada e do trabalho alie- nado na produ\u00e7\u00e3o da riqueza.","188 | Mateus da Silva Fernandes, Roberta Naianny Bezerra de Medeiros CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS Portanto, conclu\u00edmos que no processo de valoriza\u00e7\u00e3o do capital a nova morfologia do trabalho representa o modo como o aumento do capital criou as condi\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio trabalho. Isso permite que possamos compreender que a forma como o trabalho \u00e9 vivido hoje n\u00e3o assume a s\u00edntese dos problemas da classe trabalha- dora, mas incorpora o processo em que o capital est\u00e1 em cont\u00ednua valoriza\u00e7\u00e3o. Com isso, a categoria do trabalho que investigamos \u00e9 um modo de ser formado de categorias que se produzem no modo como os elementos de sua pr\u00f3pria objetividade e subjetividade se relacionam. Desse modo, a nova morfologia do trabalho \u00e9 cons- tru\u00edda a partir de um conjunto heter\u00f4nomo de circunst\u00e2ncias em que se encontra a classe trabalhadora, em que resta a ela vender seu trabalho nas condi\u00e7\u00f5es impostas por aqueles que dominam os meios de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 a partir desse entendimento que identi- ficamos o ser humano enquanto atividade produtiva, e nessa nova morfologia do trabalho continua alheio dos meios onde essa ativi- dade \u00e9 efetiva. Assim, destacamos que o sujeito est\u00e1 estranhado de sua pr\u00f3pria atividade e, a partir disso, o trabalhador de hoje no processo de aumento do capital continua produzindo sua pr\u00f3pria pobreza ao mesmo tempo que mais riqueza produz para o mundo do capital, mesmo que sob apar\u00eancia as vezes diferente do modo de vida das f\u00e1bricas do s\u00e9culo XIX, o que corresponde \u00e0s caracte- r\u00edsticas que constroem essa nova morfologia.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 189 REFER\u00caNCIAS AMORIM, Henrique. As teorias do trabalho imaterial: uma refle- x\u00e3o cr\u00edtica a partir de Marx. Caderno CRH, Salvador, vol. 27, n. 70, p. 31-45, jan.\/abril.2014. ANTUNES, Ricardo. O privil\u00e9gio da servid\u00e3o: o novo proletariado de servi\u00e7os na era digital. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2020. ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. O manifesto comunista. 4\u00b0. ed. S\u00e3o Paulo: Ed. Paz e Terra, 2022. ENDERLE, Rubens. Apresenta\u00e7\u00e3o para Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel, 1843. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013. GIANNOTTI, Jos\u00e9 Arthur. Considera\u00e7\u00e3o sobre o m\u00e9todo para O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica: livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital, de Karl Marx. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017. HOBSBAWM, Eric. A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. S\u00e3o Paulo: Ed. Paz e Terra, 2008. MARX, Karl. Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2010. MARX, Karl. Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel, 1843. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013. MARX, Karl. O capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica: livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017. M\u00c9SZ\u00c1ROS, Istv\u00e1n. A teoria da aliena\u00e7\u00e3o em Marx. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2016.","","NIILISMO E CULTURA OCIDENTAL: UMA BREVE LEITURA DA FILOSOFIA NIETZSCHIANA MATEUS DA SILVA FERNANDES","MATEUS DA SILVA FERNANDES Mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Para\u00edba (PPGFIL-UFPB). P\u00f3s-graduado em Tutoria em Educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Dist\u00e2ncia pela Faculdade Sucesso - FACSU. Professor da Faculdade Sucesso. E-mail: [email protected]. 8","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 193 8 INTRODU\u00c7\u00c3O A influ\u00eancia do racionalismo socr\u00e1tico-plat\u00f4nico na cultura ocidental \u00e9 o esbo\u00e7o de que a vida imanente n\u00e3o \u00e9 seu fim; mas, esse fim se centralizou na tentativa metaf\u00edsica de manter a verdade e os conceitos imut\u00e1veis que perpetuam a estrutura dos valores do mundo ocidental. Com a era crist\u00e3, aquilo que por S\u00f3crates e, consequentemente, Plat\u00e3o, foi considerado ef\u00eamero em virtude do verdadeiro \u00e9 necess\u00e1rio que seja depreciado em fun\u00e7\u00e3o do privil\u00e9gio \u00e0s ideias superiores. Nessa perspectiva, o ser humano mortal e fraco deve ser submetido \u00e0s leis divinas como maneira de reprimir aquilo que \u00e9 ele. Diante disso, a filosofia nietzschiana \u00e9 um ponto de inflex\u00e3o. Toda cultura e moral s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es huma- nas, por\u00e9m, sob qual fundamento elas est\u00e3o alicer\u00e7adas \u00e9 que se constitui a cr\u00edtica geneal\u00f3gica nietzschiana. Desse modo, reconhe- cendo que a moral \u00e9 criada pelo ser humano, Nietzsche no car\u00e1ter \u00e0 marteladas de seu pensamento desconstr\u00f3i as bases dos valores ocidentais examinando o niilismo. Para tanto, como e com base em que o niilismo, que p\u00f5e os seres humanos diante do nada e do desamparo por negar a constru\u00e7\u00e3o milenar dos valores e sentidos, \u00e9 crit\u00e9rio para que se afirme a vida e supere a si mesmo? Nietzsche, colocando sob suspeita a cultura e a moral do mundo ocidental, elabora sua cr\u00edtica tendo por base a fuga da nega- \u00e7\u00e3o da vida ocasionada pelo processo de d\u00e9cadence, extirpando o valor dos valores que sufocam o ser humano e, consequentemente, depreciam a vida. Seguindo isso, afim de responder ao problema que \u00e9 plano regente dessa pesquisa, o presente escrito perscruta o niilismo, sem adentr\u00e1-lo em profundidade, mas com a finalidade de refletir algumas bases da cultura ocidental. Em um primeiro momento abordaremos uma an\u00e1lise sintomatol\u00f3gica do niilismo","194 | Mateus da Silva Fernandes como l\u00f3gica da cultura ocidental e a cr\u00edtica de Nietzsche \u00e0 forma da vontade de conserva\u00e7\u00e3o que caracterizou a moral e a ci\u00eancia. ESCLARECIMENTO Os fragmentos p\u00f3stumos de Nietzsche utilizados na elabo- ra\u00e7\u00e3o do presente projeto dizem respeito aos volumes VI e VII da edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de estudo (KSA), organizada por Giorgio Colli e Mazzino Montinari e traduzido por Marco Ant\u00f4nio Casanova, os quais compreendem os fragmentos do outono de 1885 a 1889. As cita\u00e7\u00f5es, sejam elas diretas ou indiretas, dos fragmentos p\u00f3stumos estar\u00e3o referenciadas com o nome do autor, o ano de publica- \u00e7\u00e3o daquela edi\u00e7\u00e3o do volume, a p\u00e1gina, as iniciais designativas da edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de estudos (KSA), volume e o n\u00famero do frag- mento no manuscrito, como por exemplo: (NIETZSCHE, 2013, p. 289. In: KSA VI, 1887, 9 [35]). As indica\u00e7\u00f5es em notas de rodap\u00e9 dos fragmentos p\u00f3stumos estar\u00e3o postas precedidas pelo autor e sucedidas pelo n\u00famero que o situa no manuscrito, o ano em que fora escrito, a abrevia\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de estudos, o volume e, por fim, a p\u00e1gina. Exemplo: Ver a prop\u00f3sito: NIETZSCHE, F. Fragmento p\u00f3stumo 9[35] de 1887. In: KSA VI, p. 289. BREVE NOTA SOBRE O PENSAMENTO NIETZSCHIANO A discuss\u00e3o do pensamento nietzschiano transita sob muitos aspectos constituintes da pr\u00f3pria sociedade, tais como a cultura, a moral, os valores, dentre outras categorias; de sorte que, a todos empreende sua cr\u00edtica colocando sob suspeita seus pr\u00f3prios alicer- ces valorativos.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 195 \u00c0 essas esferas, Nietzsche filosofa a golpes de martelo buscando a desconstru\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a do ressentimento enquanto base de suas constitui\u00e7\u00f5es. Com tais abordagens, o fil\u00f3sofo da suspeita tem como intuito a an\u00e1lise do ser humano a partir dos sentidos que erigiu para si recorrendo ao nada (designativo do Ideal) como par\u00e2metro de valora\u00e7\u00e3o da totalidade da realidade enquanto conserva\u00e7\u00e3o e estabiliza\u00e7\u00e3o diante do vir-a-ser. Na hist\u00f3- ria, o que se perpetuou foram valores metaf\u00edsicos alicer\u00e7ados no ressentimento como tentativa de fuga do sofrimento, configu- rando a nega\u00e7\u00e3o das coisas que afirmam a vida imanente. A cr\u00edtica de Nietzsche atravessa a desvaloriza\u00e7\u00e3o do sentido como fuga da meta fundamentada em valores fixados. A pesquisa acerca do pensamento nietzschiano conduz o leitor \u00e0 reflex\u00e3o dos valores que constituem o mundo ociden- tal, desse modo, os criticar, ou at\u00e9 mesmo neg\u00e1-los, exige uma subvers\u00e3o conceitual que diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o das categorias valorativas do mundo ocidental. Diante disso, Nietzsche \u00e9 conhecido e considerado como ponto de inflex\u00e3o de toda tradi\u00e7\u00e3o por colocar sob suspeita o alijamento estrutural do pensamento. Por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio abordar como \u00e9 feita sua cr\u00edtica rompendo com a maneira em que ele \u00e9 costumeiramente difundido, a saber, enquanto fil\u00f3sofo unicamente da destrui\u00e7\u00e3o dos pilares culturais e morais que finda por reduzir o projeto filos\u00f3fico a essa caracte- r\u00edstica, para ent\u00e3o apresentar que toda sua filosofia do martelo \u00e9 resultado do desejo pela supera\u00e7\u00e3o do ser humano.","196 | Mateus da Silva Fernandes NIETZSCHE E O OCIDENTE O niilismo como a l\u00f3gica do ocidente Examinar o niilismo enquanto l\u00f3gica do mundo ocidental nos obriga esclarecer em que consiste esse conceito. \u00c0 pergunta: O que \u00e9 niilismo? Responde Nietzsche, \u201cNiilismo: falta de meta; falta a resposta para o \u2018por qu\u00ea?\u2019 que significa niilismo? \u2013 o fato de que os valores supremos se desvalorizaram\u201d (NIETZSCHE, 2013, p. 289, grifo do autor. In: KSA, 1887, 9 [35]). Foi a partir da car\u00ean- cia de sentido que os valores no mundo ocidental foram criados. O niilismo \u00e9 aus\u00eancia de sentido e desvaloriza\u00e7\u00e3o de valores como l\u00f3gica do pensamento ocidental historicamente constru\u00eddo. O niilismo se constitui como pr\u00f3pria invers\u00e3o da atribui\u00e7\u00e3o de senti- dos; ou melhor, se por um lado os valores s\u00e3o criados da aus\u00eancia de finalidade na forma de metas para a realidade; por outro lado, o niilismo \u00e9 a l\u00f3gica que afirma a desvaloriza\u00e7\u00e3o das metas impostas. Com isso, os valores atrav\u00e9s da l\u00f3gica do niilismo s\u00e3o desvaloriza- dos, pois, nele \u00e9 inerente a dissolu\u00e7\u00e3o das metas criadas. A decad\u00eancia da cultura[18] e tamb\u00e9m da moral n\u00e3o s\u00e3o efeitos causados pelo niilismo, e sim a pr\u00f3pria l\u00f3gica por tr\u00e1s desse movi- mento, pois a moral e o ideal asc\u00e9tico que a sustenta s\u00e3o tamb\u00e9m niilistas (NIETZSCHE, 2012, p. 239. In: KSA, 1888, 14 [86]). Com isso, o niilismo n\u00e3o \u00e9 causa da decad\u00eancia, mas movimento e desig- nativo que a representa. Fica claro ent\u00e3o em Nietzsche: A18\u2009\u2009\u2009\u0007 decad\u00eancia \u00e9 um processo de degenera\u00e7\u00e3o dos impulsos fisiol\u00f3gicos que decorre do modo que o mundo ocidental tomou a experi\u00eancia da vida. Esse processo como aconteceu na cultura do mundo ocidental impossibilitou a cont\u00ed- nua afirma\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o desses impulsos fisiol\u00f3gicos que constituem as for\u00e7as que combatem entre si dentro da vontade de pot\u00eancia, por fixar essas for\u00e7as de domina\u00e7\u00e3o num modo estanque de valora\u00e7\u00e3o.","DI\u00c1LOGOS INTERDISCIPLINARES FACSU 2 | 197 Eu descrevo o que vir\u00e1: a ascens\u00e3o do niilismo. Posso descrev\u00ea-la aqui, porque algo necess\u00e1rio est\u00e1 se dando aqui \u2013 os sinais desse acontecimento est\u00e3o por toda parte, s\u00f3 continuam faltando os olhos para esses sinais. N\u00e3o elogio, nem repreendo aqui o fato de que ele vir\u00e1: creio que h\u00e1 uma grande crise, um instante da mais profunda automedita\u00e7\u00e3o do homem: \u00e9 uma quest\u00e3o de sua for\u00e7a saber se ele se restabelecer\u00e1 da\u00ed, se ele se tornar\u00e1 senhor dessa crise: \u00e9 poss\u00edvel... [...] O que narro \u00e9 a hist\u00f3ria dos pr\u00f3ximos 200 anos... (NIETZSCHE, 2012, p. 44 \u2013 45, grifo do autor. In: KSA, 1887, 11 [119]). O que aborda Nietzsche no fragmento acima \u00e9 o processo dentro da hist\u00f3ria em que os valores, pilares da cultura ocidental, ser\u00e3o desvalorizados. A partir disso, o fil\u00f3sofo relaciona o niilismo \u00e0 autorreflex\u00e3o do ser humano, incidindo, pois, na compreens\u00e3o de que o niilismo, que estar\u00e1 nos pr\u00f3ximos s\u00e9culos da hist\u00f3ria, \u00e9 o abandono do fundamento valorativo a partir do qual o mundo ocidental havia constru\u00eddo toda a sua hist\u00f3ria. Diante da cultura ocidental, Nietzsche pauta sua cr\u00edtica no impedimento de que esp\u00edrito criativo[19] flores\u00e7a nos indiv\u00edduos, apontando como empecilho para esse florescimento aquilo que foi posto no fundamento dos valores. De modo que, a base consti- tuinte desse fundamento \u00e9 a tentativa de estabiliza\u00e7\u00e3o de si diante O19\u2009\u2009\u2009\u0007 esp\u00edrito criativo corresponde ao modo livre dos grilh\u00f5es impostos pela tradi- \u00e7\u00e3o que o ser humano pode viver. Esse esp\u00edrito floresce naqueles que lideram a forma como s\u00e3o instaurados seus pr\u00f3prios valores. Esse conceito de Nietzsche constitui parte de seu car\u00e1ter experimentalista, uma vez que ele se lan\u00e7a como que nesse experimento aplicado \u00e0 sua forma de vida com o intuito de, com isso, afirmar a for\u00e7a e a pot\u00eancia da vida.","198 | Mateus da Silva Fernandes da multiplicidade e pluralidade, como conserva\u00e7\u00e3o do ser mediante a pr\u00f3pria instabilidade, depositando ent\u00e3o na metaf\u00edsica o funda- mento dos valores. Remetendo-se novamente ao niilismo enquanto l\u00f3gica dos valores ocidentais, falando de seu advento alude Nietzsche (2012, p. 174, grifo do autor. In: KSA, 1887, 11 [411]): Toda a nossa cultura europeia j\u00e1 se movimenta h\u00e1 muito tempo com uma tens\u00e3o torturante, que cresce de d\u00e9cada a d\u00e9cada, como que em dire\u00e7ao a uma cat\u00e1s- trofe: inquieta, violenta, precipitadamente: como uma torrente, que quer chegar ao fim, que n\u00e3o medita mais, que tem medo de meditar. Este advento que \u00e9 a ascens\u00e3o do niilismo \u00e9 tamb\u00e9m a l\u00f3gica da cat\u00e1strofe, a qual deve ser entendida \u00e0 luz de duas perspectivas que intimamente se relacionam e caracterizam o uso do termo: \u201c[t] omado em sua acep\u00e7\u00e3o original, o termo [cat\u00e1strofe] est\u00e1 ligado ao desenlace da trag\u00e9dia grega, a uma reviravolta que exp\u00f5e o sentido, at\u00e9 ent\u00e3o oculto, no curso dos acontecimentos dram\u00e1ticos\u201d (GIAC\u00d3IA, 2014, p. 228 \u2013 229). Com isso, \u00e9 poss\u00edvel identificar o car\u00e1ter amb\u00edguo de tal l\u00f3gica. Atrav\u00e9s dessas contradi\u00e7\u00f5es citadas anteriormente, por um lado, a cat\u00e1strofe diz respeito \u00e0 condu- \u00e7\u00e3o ao negativo definhar dos valores; enquanto, por outro lado, o"]


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